A gruta é mais extensa do que a gruta

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    sábado, fevereiro 26, 2005

    O Aviador / Alice Não Mora Mais Aqui / Depois de Horas / Quem Bate à Minha Porta?

    Just like a car, you're pleasing to behold. I'll call you Jaguar, if I may be so bold.

    Em 2004, Martin Scorsese olha para uma personalidade do passado que olhava para o futuro. Howard Hughes, transformado em lenda até por Orson Welles em seu absolutamente brilhante "F for Fake", tornou-se famoso mais pela suposta "esquisitice" (hoje melhor compreendida, já que até Luciana Vendramini e Roberto Carlos falam em transtorno obsessivo-compulsivo, e o Jack Nicholson levou um Oscar por uma de suas piores atuações só porque brincou de ter TOC) de seus últimos anos de vida do que por suas realizações em Hollywood, no campo da aviação ou no da putaria.

    Até uma revisão, "The Aviator" é um grande filme, grande com G maiúsculo (bem diferente de "Alexandre", um elefante branco desgovernado, embora acima da média, considerando a obra de Oliver Stone), muito melhor do que eu esperava. Não só pelos aspectos de produção, mas, principalmente, pelo roteiro: em cerca de três horas, conseguiu erigir um retrato interessantíssimo de Hughes, cuja verossimilhança não importa nem um pouco. Neste contexto, a escolha de Leonardo DiCaprio para o papel parece adequadíssima, numa história tão fascinante que até parece real (não sei se todo mundo vai entender, mas como isto não é jornalismo _nem mesmo jornalismo gonzo...). Alguém aí lembrou de "Tucker"?

    Retrocedemos 30 anos no passado e reencontramos Scorsese olhando para o presente, hoje distante. Assim como "The Aviator", "Alice Doesn't Live Here Anymore" não era um projeto original de Scorsa, mas oferecido a ele por outrem. Numa época pré-"Star Wars" (estou devendo um texto sobre a trilogia original, um dia rola), o que, hoje, poderia até significar "pré-tudo" (uma grande besteira, é claro), o diretor consegue pegar um roteiro que, à primeira vista, não tinha nada a ver com o seu universo de novaiorquino descendente de italianos, e conseguir imprimir suas marcas: uns toques de cinefilia (como a evidente homenagem a "O Mágico de Oz" no prólogo), de paixão pela música pop (a trilha sonora é ótima, como esperado num filme em que a protagonista se pretende cantora), Harvey Keitel quebrando tudo e um rascunho do que Jodie Foster, então moleca, faria em "Taxi Driver" (que, não à toa, também cita Kris Kristofferson).

    Mas há algo neste "road movie" que o faz "menor" (é importante que este "menor" esteja entre aspas) do que muitos dos filmes posteriores de Scorsese, e me parece que não se trata necessariamente de falta de experiência, mas sim de ambição. "Alice..." parece ter sido um desses exercícios saudáveis que certos diretores mergulham de tempos em tempos, como que para se testarem. Tenho a impressão de que foi um filme mais gostoso de fazer do que de assistir (o molequinho Alfred Lutter, hoje um engenheiro trabalhando com informática _bem, cara de nerd ele já tinha_, é muito engraçado), embora esteja longe de configurar um trabalho desprezível. Há sensibilidade de sobra durante praticamente todas as cenas, além de uma evidente disposição do diretor em mergulhar mais profundamente do que a média no dito "universo feminino", a princípio não muito associado ao homem. Belo filminho, que deveria ser mais conhecido, apesar de ter virado série de TV...

    Cerca de dez anos depois, Scorsese estava numa pior: "A Última Tentação de Cristo", filme que ele queria fazer desde o início dos anos 1970, teve sua produção cancelada. Seu filme anterior, "O Rei da Comédia", tinha sido uma experiência bastante desagradável, e o diretor sentia que nunca mais faria outro filme. É até irônico que ele tenha vindo a dirigir "After Hours" (o título em português é um dos mais idiotas da história), que mostra uma espécie de calvário novaiorquino numa noite que parece não ter fim.

    Vi o filme na Globo, quando era criança, e me lembro de ter achado tudo muito esquisito e angustiante _ou seja, as lembranças que eu tinha do coitado do Griffin Dunne não era nada agradáveis. Agradável foi rever o filme e descobrir que ele é simplesmente hilariante, com uma câmera fantástica (e uma Linda Fiorentino que faz jus a seu prenome), e que consegue se manter moderno mesmo sendo muito fiel ao seu zeitgeist (com direito a Cheech & Chong e tudo). Difícil imaginar o que teria saído se Tim Burton tivesse mesmo realizado o filme, mas provavelmente não teria ficado tão bom quanto a versão de Scorsese. A trilha sonora também é um deleite.

    Voltando lá para trás de novo, "Who's That Knocking at my Door" é uma gratíssima surpresa. Praticamente todo mundo que conheço havia falado mal do filme, mas ele mostra que as raízes de Scorsese já estavam todas ali (não é à toa que o filme começa com a mãe do diretor). Ruas de NY, violência, Harvey Keitel (descoberto através de anúncio em jornal), música, cinefilia (com destaque adequadíssimo para John Ford), catolicismo (e mesmo um pouco de nouvelle vague _Godard, em especial), até parece que o diretor queria colocar tudo o que tinha em um só filme, coisas da juventude. Feito durante anos, a princípio como filme estudantil, mas que acabou se profissionalizando, é natural que "Quem Bate à Minha Porta?" seja quase uma colcha de retalhos (o trecho em que toca "The End" foi filmado quatro anos depois do resto do filme, só pra colocar mulher pelada e deixar tudo mais comercial), mas ainda assim é uma obra que empolga pela evidente paixão empregada em sua produção, mesmo que Scorsese ainda não soubesse contar direito uma história. E quem pensa que contar histórias é fácil e que esta não é a função do cinema, sinceramente, vá pastar.

    P. S. Falando no homem, vamos citar um trecho de seu "Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano", recentemente lançado por aqui na forma de livro pela CosacNaify. Aqui, ele fala de um John e acaba citando outro:

    "Cassavetes encarnou a emergência de uma nova escola de cinema de guerrilha em Nova York. Seus filmes eram feitos literalmente na base da confiança. John era destemido _um verdadeiro renegado montando um psicodrama atrás do outro com a cumplicidade de um pequeno grupo de amigos. Ele insistia em ter 'prazer' ao fazer filmes _enquanto buscava algum tipo de verdade, talvez mesmo uma reveleção.

    John Cassavetes (1984): Ter uma filosofia é saber como amar e saber onde colocar o amor. Você não pode colocá-lo em toda parte. Teria que ser um sacerdote para dizer: 'Sim, meu filho, ou sim, minha filha, Deus te abençoe'. Mas as pessoas não vivem desse jeito. Elas vivem com raiva e hostilidade e problemas. E falta de dinheiro, sabe, decepções tremendas na vida. Então o que elas precisam é de uma filosofia. O que eu acho que todo mundo precisa é de uma maneira de dizer: 'Onde e como eu posso amar e ser amado de modo a viver com algum grau de paz?'. Então é por isso que eu preciso que os personagens realmente analisem o amor, discutam o amor, matem-no, destruam-no, firam-se uns aos outros, façam tudo aquilo, naquela guerra, naquele discurso polêmico e naquele retrato polêmico do que é a vida. E o resto da coisa realmente não me interessa. Pode interessar a outras pessoas, mas eu tenho uma mente monotemática. Só tem uma coisa que me interessa. O amor.

    Martin Scorsese: Todos os filmes de Cassavetes são 'épicos da alma humana'. Ao assisti-los, me vem à mente um comentário feito por John Ford a um colaborador que estava se queixando das péssimas condições do tempo quando eles tentavam rodar um filme no deserto. O homem perguntou: 'Olhe, sr. Ford, o que é que podemos filmar aqui?'. E Ford respondeu: 'O que podemos filmar? A coisa mais interessante e empolgante que existe no mundo: um rosto humano'."

    P. P. S. Agora, é hora de esculhambar. Republico aqui um dos monstros de Frankenstein costurados em uma singela comunidade do Orkut chamada, apropriadamente, Contos Tontos. Este aqui se chama "O Almeida" e foi escrito por Ana, Marcelo, Bruno, Alexandre e Maluco (todos os direitos reservados, é óbvio):

    "Almeida era uma das pessoas mais egoístas que já existiram. Do tipo que anda com espelhinho e só escuta a voz alheia se essa proferiu o seu articulado nome.
    Almeida quis ficar no escuro. Talvez para dormir e sonhar consigo mesmo. Mas não bastava desligar apenas a luz do seu quarto. Almeida desligou a chave-geral do prédio inteiro. Jamais iria passar pelo seu cérebro que tinha outras pessoas na edificação. E mais, que esses seres estivessem fazendo uso da energia elétrica. Almeida só percebeu seu erro quando uma pessoa EXATAMENTE idêntica a ele apareceu em sua frente e disse:
    _ Almeida! Arrependa-te de seus pecados!
    Ao que o Almeida, entre surpreso e satisfeito por finalmente ter encontrado alguém minimamente interessante para conversar, indagou:
    _ Mas quem és tu, ó insólita criatura?
    _ Ué, rapaz, não está me reconhecendo? Eu sou Deus, pô!
    _ Impossível _ replicou Almeida.
    _ Como assim, impossível?!? Se te digo que sou Deus, só posso ser DEUS. Achas que alguém seria louco de brincar com algo desta magnitude?
    _ Não só acho, tenho certeza. E te digo o porquê! EU sou Deus.
    _ Justamente... Sinal apenas de que sou onipresente...
    O Almeida (ou os Almeidas...) estava tão entretido em seu papo que nem ouviu as batidas insistentes na porta. Eram mais e mais ferozes, até que a madeira cedeu e entraram dezenas de moradores.
    Estupefatos de vê-lo discutindo com um espelho, desandaram a quebrar tudo na sala dele.
    Até que só sobrou o espelho. E foi do reflexo de Almeida, talvez assustado com a idéia de tomar uma sapatada e se ver tomado por rachaduras que iam estragar seu visual, que veio o alerta.
    - Ô, Almeidinha!!! Esses vizinhos mulambos que você tem estão destruindo seu apartamento. Faça alguma coisa!
    Almeida olhou toda aquela destruição e, em vez de se desesperar como prejuízo, deu um sorriso de canto de boca. Ele tinha um plano.
    Ajuntou toda a mobília destruída pelos vizinhos no centro da sala, formando uma pequena montanha de entulho. Colocou o espelho em pé, fincado no alto da montanha, de modo que continuava a ver seu reflexo. Pegou uma caixa de fósforos na cozinha e um litro de álcool na dispensa. Voltou para a sala e derramou metade do litro sobre a montanha de entulho, e a outra metade sobre seu corpo. E, olhando para o espelho, com a caixa de fósforos na mão, gritou:
    _ Cansei de ser Deus! A partir de agora, eu me tornarei Prometeu e trarei o fogo aos homens! Eu lhes devolverei a luz que outrora neguei à humanidade!
    Os vizinhos do Almeida, inertes diante de suas atitudes incompreensíveis, só esboçaram alguma reação depois que o dono do apartamento em frangalhos quebrou todos os palitos da caixa de fósforos, na vã tentativa de acendê-los: caíram na gargalhada.
    Impávido, o Almeida não perdeu as estribeiras. Dirigiu-se até a janela, que ficava no 18º andar e, antes de atirar-se aos ares, bradou para os vizinhos, novamente estupefatos:
    _ Eu sou a Fênix renascida! Meu destino é a glória eterna!
    Seu corpo nunca foi encontrado. Há quem diga que, naquela noite, o Almeida voou."

    sábado, fevereiro 12, 2005

    Closer - Perto Demais / Menina de Ouro

    Vou pescar sua alma e lutar...

    Querido bloguinhu: há cerca de cinco anos, fui transferido da editoria de Ciência da Folha de S. Paulo para a Ilustrada, para escrever sobre... teatro. Fiz umas reportagens aqui e acolá, entrevistei gente do porte de Paulo Autran e tal, até que, perto de completar um mês na nova função, fui atirado aos leões: tive de escrever uma matéria de capa, com chamada para uma página inteira. Para quem acha que estou sendo dramático demais, a parada era a seguinte: Otávio Frias Filho, diretor de redação do jornal e filho do dono, é dramaturgo; portanto, acompanha com grande interesse tudo o que sai sobre teatro no jornal de sua família. E, se um de seus empregados escreve alguma besteira numa matéria de capa sobre teatro, está praticamente assinando sua carta de demissão (bom, se é verdade, não sei; foi o que me disseram os colegas mais experientes _felizmente, eles só me contaram esta história depois que a matéria foi publicada e eu continuei no emprego... Mas confesso que nunca entendi nem compartilhei deste pavor todo que a maioria dos meus colegas sentia).

    Mas por que é que estou contando esta história desinteressante neste rincão esquecido por Deus, tanto tempo depois? Ah, é porque a peça em questão era "Mais Perto", como foi batizada a montagem brasileira de "Closer", dirigida por Hector Babenco (que fez uma pausa no complicado processo de adaptar "Estação Carandiru", de Drauzio Varella, para o cinema) e estrelada por José Mayer, Renata Sorrah, Marco Ricca e Guta Stresser... Então, para fazer minhas entrevistas (além dos citados, também falei com o cenógrafo Gringo Cardia e com o autor da peça, Patrick Marber), é claro que tive de ler a peça primeiro e... bem, na época, achei um belo texto, com diálogos razoavelmente bem escritos, personagens razoavelmente interessantes, clichês razoavelmente clichezentos e tal. Sim, eu gostei bastante, embora não concordasse com Mayer, que dizia considerar Marber muito melhor do que Mamet...

    Aí eu vi o espetáculo (um grande sucesso em dezenas de países, inclusive nos EUA, onde o próprio Marber dirigiu a versão que foi para a Broadway), e não achei mais tão boa quanto no papel. Cinco anos depois, revejo-a em forma de filme, dirigido por Mike Nichols (que, poucos sabem, é alemão), um cara com experiência em levar o teatro para o cinema. E a coisa piorou ainda mais.

    Piorou em grande parte por causa do elenco: Jude Law e Julia Roberts estão tremendamente inadequados, e são ainda mais prejudicados por pegarem os dois personagens mais fracos da peça; Clive Owen se encaixa bem como o médico Larry, e Natalie Portman surpreende no papel de Alice, não por ser uma performance espetacular (pelo contrário, ela transforma Alice em uma menina chorona e chatinha, em vez da grande personagem trágica, "larger than life", que o texto original de Marber delineava), mas por não se limitar a ser um picolé de chuchu, aquele jeito Marisa Monte de ser. Guta Stresser fez o papel de modo bem melhor nos palcos brasileiros, embora a Portman seja infinitamente mais gostosa _que pecado ela ter pedido para o Nichols cortar as cenas de nudez, que desserviço à arte, tsc, tsc...

    Mas o que me deixou chateado mesmo foi a alteração criminosa do final (quem não viu o filme, pule este parágrafo). Marber se acovardou e retirou do roteiro o grande fecho trágico da peça, que a tornava um ciclo incontornável; no original, Alice morre atropelada (em circunstâncias parecidas com a da primeira cena da peça e do filme), e só ficamos sabendo sua identidade verdadeira (e identificamos o momento em que ela, pela única vez, se "desnudou" e falou a verdade) quando Dan e Anna se reencontram. O final que Nichols filmou é infinitamente mais broxante, perneta, oco. Cagaram na saída. Mas o resto do filme também é chatinho... É, acho que "Closer" dá mesmo um belo livro.

    Mudando da água para o vinho: que filme profundo e bonito o nosso velho amigo Clint realizou. É difícil falar de "Million Dollar Baby", porque palavras não vão chegar nem perto de expressar a beleza ao mesmo tempo discreta e evidente desta obra. O que posso dizer é que é uma alegria ver um filme que não tenta te fazer de idiota, que é sincero e honesto ao conquistar a complexa proeza da simplicidade. Clint Eastwood é uma raridade, nesse mundo cheio de prestidigitadores sem talento.

    E o cara é tão bom que deixa os outros brilharem: Hilary Swank prova de uma vez por todas que é boa atriz (basta darem a ela uma personagem interessante para interpretar), mas a grande surpresa da película é Morgan Freeman; normalmente detestável, não é que ele finalmente conseguiu fazer um trabalho decente? O que é que uma boa direção e um bom roteiro não fazem, hein? Saí do cinema até achando merecida a indicação para o Oscar de melhor ator coadjuvante...

    "Menina de Ouro" deu a Clint Eastwood o Globo de Ouro de direção, enquanto "O Aviador" ganhou o prêmio de melhor filme de drama. Acho um tremendo de um saco ficar discutindo premiações, embora seja algo meio inevitável. Vou ver o filme do Scorsa na semana que vem, o próximo texto deverá ser sobre ele, aí a gente discute se o filme da "Mo Cuishle" (o correto é "mo chuisle", ninguém é perfeito) é mesmo imbatível ou não. Porque parece tremendamente difícil que "The Aviator" o supere... embora isso não queira dizer nada em relação ao Oscar, estamos mais do que carecas de saber que o prêmio não costuma fazer justiça. Então, inté.

    P. S. Arthur Miller era fodão. Não só entrou para a história como um dos maiores dramaturgos americanos no século XX, mas casou com a Marilyn. E escreveu a também complexa obra-prima "Os Desajustados", um filme que o Clint deve admirar...

    P. P. S. Falando em Marilyn (também uma menina de ouro), vamos ler o que alguns de seus diretores falaram dela? Os textos são retirados do livro "Afinal, Quem Faz os Filmes" ("Who the Devil Made It"), de Peter Bogdanovich. Comecemos com Fritz, the Lang:

    "...não foi fácil trabalhar com Marilyn Monroe (...). Ela possuía uma combinação muito peculiar de timidez e incerteza (...), mas ela sabia exatamente o efeito que produzia nos homens. (...) Devido à sua timidez, ela ficava muito assustada em ir para o estúdio _sempre se atrasava. Não sei por que ela não conseguia se lembrar das suas falas, mas sou perfeitamente capaz de compreender a zanga de todos os diretores que trabalharam com ela, pois certamente por sua causa o trabalho se atrasava. Mas ela respondia bem."

    Agora, Howard, the Hawks:

    "No caso de Monroe, quanto mais se insistisse, melhor ela ficava. (...) Monroe só se assustava em aparecer _tinha grande complexo de inferioridade_, eu tinha pena dela. (...) Por exemplo, quando a pusemos para cantar, por duas ou três vezes ela tentou fugir do estúdio de gravação. Tivemos de agarrá-la e segurá-la para que não saísse. E, na verdade, Marilyn cantava bastante bem (...). Ela estava assustada, isso é tudo _e, quando se assustava, não conseguia trabalhar direito."

    Finalmente, George of the Cukor:

    "Marilyn não tinha confiança em si própria. Para ela, era muito difícil se concentrar, não acreditava que fosse tão boa quanto era. Ela se preocupava com tudo e fazia muito bem as coisas muito difíceis. Às vezes, distraía-se muito e não conseguia fazer uma representação sustentada, o que nos obrigava a filmar pedaço a pedaço; outras vezes, ficava tão nervosa que tínhamos de filmar fala por fala. Mas a sua mágica era tamanha que, quando tudo era montado, parecia que ela tinha dito as falas todas de uma vez. Ela era uma personalidade cinematográfica de verdade _uma verdadeira rainha do cinema. (...) Ela gerava excitação. Ava Gardner também faz isso."

    sexta-feira, janeiro 28, 2005

    Alexandre / Eureka / Sobre Café e Cigarros

    Alexandre conquistou o Egito e a Pérsia, fundou cidades, cortou o nó górdio, foi grande; se embriagou de poder, alto e fundo, fundando o nosso mundo, foi generoso e malvado, magnânimo e cruel; casou com uma persa, misturando raças, mudou-nos terra, céu e mar, morreu muito moço, mas antes impôs-se do Punjab a Gilbraltar.

    Sabem qual a coisa que mais impressionou o público que assistia a "Alexandre" comigo, no final de uma quarta-feira quente, em uma sala lotada com capacidade para quase 300 pessoas? O logotipo de uma das produtoras do filme, que traz uma onda gigante ("Tsunami! Tsunami!", foi o comentário geral). De resto, o povão só se manifestou mesmo com risinhos de escárnio toda vez em que alguma mínima sugestão de homoerotismo pintava na tela (o que é triste, detestável etc.; depois acham ruim quando eu falo que homofobia é coisa de viado _ou melhor, enrustido invejoso...).

    Mas fato é que foram três horas que custaram a passar. Não, o filme não é um lixo; na verdade, é capaz de figurar entre os melhores do Oliver Stone (mas não sou eu quem vai estabelecer tal ranking)... o que não quer dizer muita coisa. O problema é que fazer um filme sobre Alexandre, o Grande, é mesmo uma tarefa muito difícil, justamente por causa da (relativa, sempre relativa) grandeza do personagem (ora, nem o Kubrick conseguiu fazer seu Napoleão...). Os estudos a respeito de Alexandre e de toda a cultura helênica são numerosos e profundos e, ouvindo de quem sabe bem mais do que eu a respeito, Stone e sua equipe até que fizeram um bom trabalho (embora o filme precisasse mesmo ser mais extenso ou, pelo menos, ter suas três horas usadas com mais concisão).

    Só que a "seriedade" com que Stone encara seu personagem acabou comprometendo seu filme, que não se assume integralmente como espetáculo ao mesmo tempo em que não o abandona por completo, saindo-se mal no processo (com a louvável exceção da batalha na Índia, onde até câmera lenta e alterações na fotografia funcionam, e muito bem). Querem que eu fale muito sério (apesar de me divertir de antemão, sabendo que tem gente que vai achar absurdo)? Até as devidas revisões, "Tróia" é melhor. Bem melhor como um todo, apesar de todos os pesares.

    Outro probleminha, claramente notável no filme: "Alexandre", apesar de não ter nada de "teatral" (adjetivo meio besta quando usado em relação ao cinema _ainda mais porque, em geral, as pessoas não sabem direito o que isso significa), narra muito mais por meio de palavras do que por imagens (o que, talvez seja até para o bem, porque Stone é mesmo mais um homem de letras do que de imagens). Falando em imagens, vamos logo ao principal: Rosario Dawson. Colossais, mesmo. Angelina Jolie (com aquele sotaque "Casamento Grego") merece prêmio por Melhor Insinuação de Mamilos. Agora, o resto: Colin Farrel não está tão ruim como andam dizendo (não creio que ele seja tão inadequado assim, embora quem seria capaz de passar maior "grandeza"? Não me venham falar em DiCaprio...). Val Kilmer está muito bom como Filipe da Macedônia, mas coadjuvante de respeito mesmo é Bucéfalo. Ganhou do Corcel Negro! No fim, até que valeu a tentativa, mas "Alexandre" está muito distante de ser uma obra-prima.

    Filme maior do que "Alexandre", não poderia ser menos "épico"; apesar de suas mais de três horas e meia de duração, "Eureka" (2000), do jovem e prolífico Shinji Aoyama (que o dirigiu, escreveu, montou e compôs a trilha sonora) é um drama intimista quase que totalmente em sépia. Se estes meros atributos já são suficientes para interessar a alguns e assustar a outros, o filme interessa mesmo por Aoyama demonstrar uma mestria imensa ao lidar com as imagens; já no primeiro plano a gente percebe a força de certo cinema japonês que o Tarantino tanto quis capturar em certos momentos de seus "Kill Bill".

    Embora, diferentemente de uma obra-prima como "Harakiri", este rigor não seja mantido durante toda a obra, Aoyama-san demonstra grande segurança na direção, dominando uma arte meio esquecida entre muitos cineastas de hoje: saber narrar com imagens, de forma poética e pouco óbvia. Um plano de um sapato boiando num rio pode ser muito mais eloqüente do que uma fala que expressasse o mesmo fato; aqui (e em outros momentos) a gente vê claramente um toque de mestre. Mais claramente: esses japas são foda, né?

    Depois de dois grandalhões, vamos dar uma relaxada e falar de um pequenininho: Jarmusch, com "Coffee and Cigarettes", coletânea de curtas feitos ao longo de quase 20 anos que acabaram se entrelaçando, resolver dar uma desencanada. Despretensioso (embora tenha gente que ache que é muita pretensão querer ser despretensioso), não empolga, embora faça rir, e muito. De bônus, presenças de gente como Bill Murray (que estará no próximo filme do diretor, contracenando com Sharon Stone _Julie Delpy, Tilda Swinton, Chloë Sevigny e Jéssica Lange lhes farão companhia), Roberto Benigni, Steve Buscemi, Lee Marvin (em uma pintura, mas o homem tá lá) e outros atores meio "cult", além de músicos como o conhecido Tom Waits (o curta em que atua com Iggy Pop foi premiado em Cannes), os White Stripes e RZA e GZA, do Wu-Tang Clan. Mas o destaque mesmo é o curta em que a bela Renée French folheia um catálogo de armas ao som de "Crimson and Clover"; é o mais bem decupado e visualmente inventivo, sem blablablá. Se ele não tivesse um certo prestígio, será que teria gerado algum comentário? Long live Joe Strummer!

    Mas o curioso, especificamente para mim, foi ver como os curtas de Jarmusch me lembraram de um curta de... bem, de minha autoria (que foi exibido ano passado no MIS, não lembro se comentei por aqui). Podem vomitar à vontade, mas a verdade é que eu também fiz um curta no qual duas pessoas estão conversando e bebendo em uma mesa até que um terceiro personagem vem interferir, usando o mesmo esquema de master shot/plano/contraplano. Só que eu não fumo (não só porque sou alérgico, mas principalmente porque acho feio, deselegante _quem é que liga pra saúde?) nem bebo café (por aversão à possibilidade de dependência química), então fiquei mesmo é com cerveja e batatas fritas... Um almoço um pouco mais saudável, não?

    P. S. Falei em toque de mestre em "Eureka", filme que me deu certa saudade de uma época em que os cineastas ainda sabiam contar uma história por meio de imagens. Assim como é facilmente observável em Hitchcock, os filmes sonoros de Fritz Lang conseguem conservar esta fantástica habilidade. Em "You Only Live Once" (1937), além do grande tema de Lang (homem x destino, carregado de certo misticismo), vemos cenas fantásticas inseridas na narrativa, como a que mostra um escritório de um editor de jornal, que aguarda o resultado do julgamento de Henry Fonda para saber qual manchete de capa usará... Não é muito mais interessante do que se estivéssemos na sala do tribunal? Custa ter um pouquinho de criatividade? Assistam e aprendam...

    P. P. S. Falando no Hitch e nessa questão de buscar formas interessantes de narrar visualmente, vai aqui um trechinho de sua famosa entrevista a François Truffaut, no capítulo em que eles discutem "Janela Indiscreta" (que eu tinha em DVD e me foi roubado, de dentro de minha própria casa):

    "É sempre a questão de escolher o tamanho das imagens em função dos objetivos dramáticos e da emoção, e não simplesmente com a finalidade de mostrar o cenário. (...) Para mim, é essencial me servir sempre de elementos ligados aos personagens ou aos lugares, e sinto que negligencio alguma coisa quando não os utilizo. (...) Para mim, o pecado capital de um roteirista é, quando se discute uma dificuldade, escamotear o problema dizendo: 'Justificaremos isso com uma linha de diálogo'. O diálogo deve ser um ruído entre outros, um ruído que sai da boca dos personagens e cujos atos e olhares contam uma história visual."

    sexta-feira, janeiro 14, 2005

    Peões / Entreatos / Meu Tio Matou um Cara

    Oito horas, e de pé. E de pé na fila, ônibus lotado. Duas horas em pé ou sentado.

    Estamos aqui mais para falar de cinema do que de política (embora a política, no fundo, esteja praticamente em toda a parte). Desconsidero totalmente opiniões do tipo "o projeto do PT não passa de ascensão social" ou afins, que andei lendo por aí, em especial a respeito de "Entreatos". Não torço nem pra clube de futebol, muito menos pra partido político. Se nem quando eu era do movimento estudantil, trabalhava na UNE e estava envolvido em política até os lóbulos auriculares eu sequer cogitei me filiar a uma sigla (não dizem que jornalista não tem amigos? Pois jornalista não deve ter é partido)...

    O que interessa, aqui, é a experiência de ter ido ao Espaço Unibanco no domingo passado para ver os novos filmes dos documentaristas Eduardo Coutinho e João Moreira Salles (este último tem a sorte de ser o dono da sala, senão...). No geral, as mais de três horas e meia passaram voando. Ambos os filmes são muito bons e deveriam ser vistos por muita gente. Mas não gente chata como o cara que se sentou ao meu lado em "Entreatos" e ficou xingando o Lula a cada vez que ele aparecia na tela (não que qualquer presidente não mereça ser xingado, mas não numa sala de cinema, certo?)...

    "Peões" é, disparado, o melhor filme do Coutinho que já vi. O itinerário da equipe do filme é muito claro e deixa-se seguir gostosamente. Os depoimentos são concisos e muito bem montados (um avanço imenso em relação a "Edifício Master", que se perdia em alguns excessos) e, por meio dos mesmos, é traçada uma linha muito evidente (talvez a clareza cristalina seja a grande qualidade da obra): entende-se perfeitamente o que uniu todas aquelas pessoas que falam para a câmera. São histórias importantes, que merecem ser contadas. Felizmente, nenhum depoimento se destaca muito mais do que os demais.

    O engraçado é que, quando eu assistia à última entrevista, na qual um ex-operário perguntava a Coutinho "O senhor já foi peão?" (o cineasta respondeu que não), eu pensei: "Ainda bem que eu nunca fui peão, como meu pai e meus avôs foram...". Aí, na saída, encontrei um velho colega da Ilustrada, Valmir Santos, que me disse: "Lembra de quando a gente trabalhava na Folha? A gente era peão também, não era?". Pensei bem e respondi: "É, a gente era". Peão com diploma e falando língua estrangeira, mas P-E-Ã-O.

    E muito difícil dizer se "Entreatos" é melhor do que "Peões" ou vice-versa. Ambos me parecem muito importantes, mas o filme de Salles (que, ultimamente, anda acertando mais do que o seu irmão mais velho, bandeado para a ficção com ares documentais) me deixou mais entretido, graças à graça de seu personagem principal.


    É, mais de dois anos de governo, algumas decepções naturais (e outras não muito) e tal, pode ficar difícil para muitos botar as coisas em perspectiva (até porque política é paixão que nem futebol, é muito raro entabular uma discussão de alto nível a respeito) e lembrar do contexto no qual o filme foi feito. Goste-se ou não de Lula, sua eleição foi histórica, o que faz do filme de Salles um clássico instantâneo.

    Agora, voltando ao ponto: por pior que Lula seja como político ou como pessoa (e conhecemos muitos bem piores do que ele), como personagem, ele é sensacional. Riquíssimo, divertido, carismático, às vezes até emocionante; mas o principal: ele nunca, nunca é chato. Seja contando histórias da época de peão, tripudiando sobre adversários como José Serra (como nas cenas da gravata e do telefonema de reconhecimento de derrota) e Fernando Henrique Cardoso (que "não bebe um gole" _aliás, é impressionante como muita coisa que depois virou notícia já aparecia ali, como as rinhas de galo do Duda Mendonça) ou interagindo com o povão, Lula é sempre uma figura (já não me lembro quem foi que disse: "Não sei como é que vai ser o governo desse cara, mas que vai ser engraçado, vai"). Se era mesmo a melhor opção para a presidência do Brasil, não interessa a mínima (não neste texto, pelo menos). Mas não adianta eu escrever um livro sobre o filme: tem que ver. Você vai, não vai?

    Dando uma aliviada, uma boa opção para uma matinê é o terceiro longa de Jorge Furtado, que desenvolve uma interessante carreira cinematográfica fazendo filmes meio "adolescentes" (bem, "O Homem Que Copiava" foge um tanto deste perfil). Mas o curioso é notar que, especialmente neste caso, se trata de filme de roteirista, mais do que filme de diretor. O grande destaque de "Meu Tio..." são os diálogos (pouco naturais, muito teatrais, nada a ver com "Elefante"), não os planos (exceto alguns muito felizes, como o de Lázaro Ramos, ainda melhor do que em "O Homem...", comemorando uma liberdade injustificada). O filme também é conciso, divertido e esperto, o que já está pra lá de bom (especialmente se lembrarmos de quanta porcaria nacional foi despejada no cinema em 2004 _não é á toa que a bilheteria de filmes brasileiros despencou, apesar de o maior lixo do ano, "Cazuza...", tenha vendido bem). Agora, espetacular mesmo é a Deborah Secco (digitando o sobrenome da moça, acabei pegando a tecla do lado e saiu Sexxo)... Sabiam que eu nunca tinha reparado que ela era gostosa? Só me lembro dela molecota em "Confissões de Adolescente"... Duvido que o Furtado vá virar o Truffaut brasileiro, mas considerando o que ele fez com a Luana Piovani (que pessoalmente não é lá essas coisas) e com a DB na tela... Uh!

    P. S. Agora que eu já limpei a baba, deixo aqui os meus parabéns para o Aílton Monteiro, que ganhou (merecidamente, a meu ver _especialmente pelas atualizações quase diárias, a exemplo do que costumavam rolar por aqui quando este blog, o primeiro a se dedicar exclusivamente ao cinema no Brasil, até onde eu sei, era jovem) o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema. Cheguei ao Cinesesc, no dia 5 de janeiro, bem na hora em que o nome dele estava na tela. Foi legal. Quase tão legal quanto "Profondo Rosso" (1975), filme de Dario Argento, o pai da mulher dos meus sonhos. Estrelado pelo David Hemmings de "Blow-Up" (traz também a Clara Calamai de "Ossessione", longa de estréia do Visconti) e com uma câmera bastante (mas apropriadamente) movimentada (e muitos zooms), é muito bem decupado, com uma direção de arte fantástica e belos enquadramentos. Além da criatividade e da competência na criação de climas de suspense (a cena em que Hemmings toca piano em seu apê, enquanto é espreitado pelo assassino, é ótima), Argento tem um grande senso de humor (seja voluntário ou involuntário), e "Profondo Rosso" é diversão pura (infinitamente melhor do que "O Jogador de Cartas", que passou dublado na Mostra), quem perdeu que vá atrás.

    P. P. S. E já que falamos em política, vai aí um trechinho de "Pequeno Cinema Antigo", ensaio de Paulo Emilio Salles Gomes, datado de 1969:

    "O que houve de mais interessante no gênero falado e cantado foram os filmes-revistas de atualidade política. (...) Mas nenhum desses filmes teve o êxito financeiro e artístico de 'Paz e Amor'. Exibida mais de mil vezes, a partir de março de 1910, e saudada por toda a imprensa, essa produção de Auler, filmada por Alberto Botelho, foi a primeira verdadeiramente a se enquadrar no gênero de filme-revista, focalizando as principais figuras e acontecimentos político-sociais. Com roteiro e versos de José de Patrocínio Filho, o filme mal poupa o presidente Nilo, que aparece sob o transparente pseudônimo de El Rei Olin. Já Rui Barbosa e Hermes da Fonseca surgem como tais, disputando a principal personagem feminina, a Presidência. Outras personagens femininas como a Imprensa, a Banda Alemã e a Viúva Alegre têm atuação destacada como símbolos da sociedade de então, ao lado de Compadre Xícara e Pagé-Acioly, reconhecidos imediatamente como os políticos Pires Ferreira e Nogueira Acioly. A ação era conduzida por Tibúrcio da Anunciação, personificação do matuto que 'A Careta' tornara popularíssimo: chega o herói para conhecer o Mundo da Lua, então sob o governo do Rei Olin. Como cicerone, é-lhe oferecida a Imprensa, que ele recusa por ser essa senhora sabidamente faladeira e venal. Quem o acompanha então nas aventuras é Mussiú Baboseira, em quem o público imediatamente reconhece o poeta-profeta Múcio Teixeira. Terminava o filme com uma apoteose ao Minas Gerais (...)."

    terça-feira, janeiro 04, 2005

    Reinado de Terror / Pueblerina

    Ah... Hora de trabalhar, trabalhar.

    Ué, mas isso é jeito de começar um ano, falando de um filme com um título tão macabro quanto "Reinado de Terror"? E olha que, se 2004 até que foi bem bom, 2005 promete ser melhor ainda (ou será que eu sou otimista demais?)...

    Na verdade, o que me faz abrir 2005 com "Terror in a Texas Town" (ah, o título original já deixa mais claro o gênero do filme...) é o fato de este curto (80 minutos) faroeste assinado pelo grande Joseph H. Lewis (mais conhecido pela obra-prima "Gun Crazy", filme que teria inspirado o famoso "Bonnie & Clyde" de Arthur Penn) e lançado em 1958 ser um imenso alento para quem ama o cinema. E tudo por causa de uma palavrinha mágica: originalidade.

    Ora, o filme já começa (e termina) com um duelo entre um pistoleiro e um pescador nórdico que empunha um arpão de caçar baleias (!!!). Tanto eu quanto meu pai (que já viu muitos filmes na vida), que assistia à obra comigo no mês passado, aqui em casa, comentamos que se tratava de algo inédito, único (até onde nós vimos) na história do cinema. É inspirador.

    Inspirador não só porque incute a importância de pelo menos tentar, como artista, fazer algo minimamente ousado e original, sem medo de parecer ridículo por desprezar a verossimilhança, mas também porque o filme simplesmente é muito bom, mesmo tendo sido feito com baixíssimo orçamento, considerado, portanto, como um "filme B".

    Em "Terror..." não há inconseqüência nem comicidade involuntária: a história do sueco interpretado por Sterling Hayden (também o vi recentemente no hoje clássico "Johnny Guitar", de Nicholas Ray, que, apesar de muitíssimo bom, me decepcionou um tanto) é trágica, o bandido fabulosamente interpretado por Nedrick Young é crudelíssimo (e sua relação com o chefe me lembra imensamente a de Henry Fonda e seu chefe em "Era uma Vez no Oeste" _será que o Leone viu o filme de Lewis?), e coadjuvantes fascinantes (como o vizinho mexicano e seu filho) preenchem todo o filme. Lewis constrói climas com uma maestria fantástica, fica difícil de acreditarmos nos próprios olhos. Mas a gente acredita, e gosta.

    Voltando um pouco mais no tempo (1949) e nos deslocando um pouquinho mais para o sul, encontramos "Pueblerina", o único filme que consegui ver na mostra (ocorrida no ano passado, no CCSP _eu recomendei que vocês fossem...) dedicada a Emilio "Indio" Fernandez, imensa figura do cinema mexicano, amigo de fé do John Huston e parceiro de Gabriel Figueroa.

    Também trágico, mas muito mais voltado para o melodrama do que o filme de Lewis, o filme combina certo romantismo dos faroestes americanos mais antigos com a valorização do folclore mexicano, receita que garantia o sucesso da fita. O drama do herói, um homem que volta à sua cidade após anos na prisão, por ter matado um amigo que estuprou (e engravidou, é claro) sua amada, não é mole; para piorar tudo, ele descobre que sua mãe morreu, que sua amada enlouqueceu e que os irmãos do homem que matou, os fazendeiros mais ricos da região, não o deixarão em paz de modo algum. Desgraça pouca é bobagem.

    Mas, assim como a implausibilidade funciona lindamente em "TTT", o exagero melodramático também não deixa "Pueblerina" cair no ridículo. Os olhos marejados das personagens não provocam risos (ou asco, considerando algumas novelas mexicanas que as TVs abertas adoram exibir), mas envolvem o espectador num drama muitíssimo bem conduzido. E a fotografia de Figueroa, aliada à tenacidade de Fernandez, fazem maravilhas até com o clima: a cena de duelo final (ora, faroeste sem cena de duelo no finalzinho perde muito a força, como ocorre no recente "Pacto de Justiça", de Kevin Costner, uns bons dez minutos mais longo do que devia) aproveita de forma brilhante a disposição das nuvens no céu, sem truques de computador, gerando um efeito quase milagroso. São de cineastas como Lewis e Fernandez que o cinema precisa, é isso o que queremos para 2005 e além.

    P. S. Alfred Hitchcock, que teria se casado virgem aos 25 anos e se mantido fiel até a morte, mostra que era um velhinho bem sem-vergonha, na célebre entrevista à François Truffaut:

    "Quando trato das questões de sexo na tela, não esqueço que, mesmo aí, o suspense comanda tudo. Se o sexo é espalhafatoso demais e óbvio demais, acabou-se o suspense. O que é que me dita a escolha de atrizes louras e sofisticadas? Procuramos mulheres de alta classe, verdadeiras damas, mas que no quarto se tornarão putas. A pobre Marilyn Monroe tinha o sexo estampado em todo o rosto, como Brigitte Bardot, e isso não é muito fino. (...) O sexo não deve ser exibido. Uma moça inglesa, com seu jeito de professora primária, é capaz de entrar num táxi com você e, para sua grande surpresa, arrancar a sua braguilha. (...) As mulheres conseguem suportar a vulgaridade na tela, contanto que não seja exibida por pessoas de seu próprio sexo."

    Ainda no assunto sexo, falando de "Vertigo":

    "Há outro aspecto, que chamarei de 'sexo psicológico', e que é, aqui, a vontade que anima esse homem de recriar uma imagem sexual impossível; para dizer as coisas simplesmente, esse homem quer se deitar com uma falecida, é pura necrofilia. (...) Todos os esforços de James Stewart para recriar a mulher são mostrados, cinematograficamente, como se ele procurasse despi-la em vez de vesti-la. E a cena que eu sentia mais profundamente era quando a moça voltava, despois de ter tingido de louro o cabelo. James Stewart não fica totalmente satisfeito, porque ela não prendeu os cabelos num coque. O que isso significa? Significa que ela está quase nua diante dele, mas ainda se nega a tirar a calcinha. Então James Stewart mostra-se suplicante, e ela responde: 'OK, tudo bem', e volta para o banheiro. James Stewart espera. Espera que, desta vez, ela volte nua, pronta para o amor."

    P. P. S. Falando em Alfred, este também é o nome do prêmio organizado anualmente por Chico Fireman. Em sua segunda edição, é a segunda vez que participo como votante. Seguem, a quem interessar possa, meus votos deste ano (é importante lembrar que eu vi apenas 39 dos filmes em competição, então é claro que, se alguma injustiça aberrante foi cometida, isso se deve ao fato de eu ainda não ter visto tudo...):


    Filme do ano: "Elefante"
    Direção: Gus van Sant, por "Elefante"
    Ator: Bill Murray, por "Encontros e Desencontros"
    Atriz: Maria Bethânia, por "Os Doces Bárbaros"
    Roteiro original: "Elefante"
    Roteiro adaptado: "Homem-Aranha 2"
    Ator coadjuvante: Lúcio Mauro, por "Redentor"
    Atriz coadjuvante: Irma P. Hall, por "Matadores de Velhinha"
    Elenco: "Igual a Tudo na Vida"
    Filme brasileiro: "Narradores de Javé"
    Filme de estréia: "Na Captura dos Friedmans"
    Fotografia: "Kill Bill Vol. 1"
    Montagem: "A Vila"
    Direção de arte: "Kill Bill Vol. 1"
    Figurinos: "Kill Bill Vol. 1"
    Maquiagem: "A Paixão de Cristo"
    Música (trilha sonora instrumental): "Kill Bill Vol. 1"
    Disco (trilha sonora - coletânea): "Matadores de Velhinha"
    Canção (canção original): "Come, Let Us Go Back To God" ("Matadores de Velhinha")
    Sonoplastia: "Shrek 2"
    Efeitos visuais: "Homem-Aranha 2"
    Cena do ano: Homem-Aranha sendo carregado no trem
    Pior filme: "Cazuza - O Tempo Não Pára"

    sexta-feira, dezembro 03, 2004

    Má Educação / Labirinto de Paixões / Thriller - A Cruel Picture

    Ah, vida noturna, eu sou a borboleta mais vadia na doce flor da tua hipocrisia.

    Eu, não, o Almodóvar. Vocês sabem que a Pedrucha anda bem falada por aí há muito tempo, mas "consagração", mesmo, só vem quando você ganha um Oscar, não? Ou dois. Agora, se "La Mala Educación", tão aguardado quanto "Tudo Sobre Minha Mãe" e "Fale com Ela", também será "consagrado" como eles, só o tempo dirá. Mas bastante gente está apostando que não (mentira, estou chutando, sou quase que completamente alheio ao Oscar _aliás, acho premiações em geral um saco, parece corrida de cavalo).

    Não chega a ser um filme ruim, muito menos um Almodóvar especificamente ruim; é um Pedrucha típico, ou seja, bom. Mas não é espetacular como "Carne Trêmula" nem tinha necessidade de ser. O interessante, mesmo, a respeito de "Má Educação", é que ele sedimenta uma tendência observada em "Fale com Ela": Pedrucha está se concentrando mais nos homens (será que isso é mesmo digno de nota?). Tirando a mãe do personagem do Gael e uma outra que praticamente só é citada, cadê a mulherada do filme? Ah, saudades de "Ata-me", "Kika", "Tacones Lejanos" (mentira, não gostei nada deste último)...

    Na verdade, a grande expectativa a respeito deste filme seria um suposto anticatolicismo espanhol, algo talvez buñuelesco, mas passamos bem longe disso (também, é covardia querer comparar Almodóvar a Buñuel...). Essas denúncias de pedofilia por parte de padres (algo que deve existir desde o australopithecus) que andaram movimentando os noticiários nos dias sem muito assunto dá muito pano pra filme, mas Pedrucha escolhe o caminho de se concentrar mais nas personagens do que nas situações. Em meio a tudo isso, temos o melhor do filme, uma versão de "Moon River" cantada por um garotinho.

    O oposto (na verdade, mais ou menos oposto) disso encontramos em seu segundo longa, "Laberinto de Pasiones" (1982), que vi no novo e bastante melhorado Belas Artes (antigo Belas Bostas), na companhia da srta. Ana e, pela primeira vez, do venerável Chico. Aqui, sim, temos o mais que saudável escracho generalizado: uma personagem ninfomaníaca chamada Sexília, uma garota que transa com o pai, um seqüestrador (o velho Antonio Banderas, antes de ser velho) que se apaixona pelo cara que deveria seqüestrar etc. _incluindo a própria Pedrucha, que aparece em dois momentos sensacionais, dirigindo uma sessão de fotos (ele faria algo parecido em "Matador") e cantando um tecnopop fuleiro e executando uma dancinha ridícula, usando brincos e maquiagem típicas dos anos 80, além de um sorriso que parece ser uma ode à idiotia.

    O filme é sem-vergonha no melhor sentido do termo, desde a cena inicial, que mostra subjetivas de dois personagens analisando uma parte bem especial da anatomia masculina, até uma velha gag típica de comédias populares, bem no estilo "Os Trapalhões", que termina na escatologia. Em suma, uma delícia politicamente incorreta, que arrancou inúmeras gargalhadas do público. Isso sim é que é filme, uma comédia realmente engraçada, sem se deixar afetar pelo nefasto "bom gostismo". É claro que Almodóvar não precisa retroceder (retroceder?) ao seu estilo de mais de 20 anos, mas também não precisava ter feito um filme tão pouco impactante quanto "Má Educação". E ainda vem nos falar de paixão, né, dona Pedrucha?

    Agora, "Thriller - En Grym Film", visto na Sessão Dupla do Comodoro desta semana, é um caso impressionante, porque único: foi a primeira vez (até onde me lembro _minha memória é quase tão fraca quanto minha carne) que vi planos fechados de sexo explícito (incluindo sexo anal e ejaculação) em um filme, digamos, "narrativo" (sei que existem os tais "pornô com história", mas é claro que isso deve ser enganação _apesar do meu apreço e do meu interesse pela pornografia, confesso que meu conhecimento desta cinematografia é muitíssimo pequeno, justamente por a imensa maioria desses filmes me parecer um tremendo de um lixo industrial, pura perda de tempo). E, mais impressionante ainda: apesar de fortes, as cenas não são apelativas (muitíssimo pelo contrário, são plenamente justificadas).

    "Thriller...", produção sueca de 1974, assinada por Alex Fridolinski, pseudônimo do também produtor, roteirista e ator (na verdade, ele só faz uma pontinha como vendedor de cachorro-quente) Bo Arne Vibenius (que, entre outras coisas, foi assistente de direção de Ingmar Bergman na obra-prima "Persona", mas anda afastado do cinema há muito tempo), é, sim, um filme cruel. Mas é bom, muito melhor do que eu esperava. É o filme que Quentin Tarantino deu para Daryl Hannah estudar, antes da filmagem de "Kill Bill". Conta a loira que, após vê-lo, falou, embasbacada, para o Taranta: "Quentin, você me mandou ver um filme pornô!". Ao que o lépido cineasta cinéfilo teria replicado: "Sim, mas um BOM pornô!". É, nosso amigo Quentin é um pândego...

    Mas, como já disse, "Thriller" (também conhecido por um título muito melhor, "They Call Her One Eye" _além de também ter sido lançado nos EUA como "Hooker's Revenge") não é um filme pornô. As cenas de sexo não são nem um pouco eróticas, mas cruéis, como adianta o título da obra. É a história de uma garota que, quando criança, foi estuprada por um velho nojento e, em conseqüência do trauma, ficou muda (genial; personagens sem voz, ainda mais com alguma parte do corpo faltando, têm tudo a ver com cinema, assim como anões e albinos _ainda vou fazer um filme protagonizado por um anão albino mudo e caolho, que, claro, será enterrado no final). Ao crescer, é seqüestrada, forçada a se viciar em heroína e a se prostituir. Como se isso tudo não bastasse, Tony, o homem que fez o diabo com a jovem, ainda fura um de seus olhos (esta cena também é explícita e, dizem, foi feita com um cadáver) e acaba levando os pais da garota a cometerem suicídio.

    OK, já deu para ter uma idéia de como o filme é dogão. O que a Noiva de Uma Thurman passa é fichinha perto do calvário da caolha Frigga/Madeleine (interpretada pela Christina Lindberg, belíssima atriz que participou de mais de 15 filmes no início dos 70 _aparentemente, todos com apelo erótico, a julgar pelos títulos_ e que reencarnou a assassina caolha mais de vinte anos depois, numa participação especial na comédia de humor negro chamada "Sex, Lögner & Videovåld"). E é aí que se justificam as cenas de sexo, que mostram a degradação cotidiana da protagonista de maneira exemplar. Já as cenas com drogas são bem mais brandas (pra dizer a verdade, são poucos os momentos em que vemos as seringas). Paralelamente, vemos, após a caolha ficar órfã, seu treinamento em diversas modalidades de combate que serão necessárias para ela empreender sua vingança: caratê, armas de fogo, direção ofensiva (sim, ofensiva) etc. Tudo isso narrado de forma absolutamente fascinante, com poucos diálogos e umas subjetivas bastante boas.

    As coisas pioram sensivelmente quando a vingança começa: a caolha (que tem figurinos espetaculares _a começar pelos tapa-olhos de diferentes cores, que combinam com as roupas, inclusive um sobretudo preto que lembra muito os da Trinity em "Matrix") persegue seus sádicos clientes e, no meio tempo, dá cabo de assassinos profissionais e de policiais. Algumas cenas de morte (todas em câmera lentíssima) são caricatas, mas há bons momentos em que a alteração da velocidade da imagem funciona lindamente, como quando voa uma arma da mão de um policial e de quando eles cospem sangue. Agora, nada nos prepara para a vingança final contra Tony... Não é à toa que o Tarantino adora este filme. Mas eu prefiro muito mais o Russ Meyer...

    P. S. Falando na Sessão do Comodoro, fui ver, pela primeira vez no cinema, alguns filmes de Carlos Reichenbach, que passaram no CCSP. Infelizmente, não consegui ver tudo o que queria, mas diante de "Filme Demência", "Garotas do ABC" e "Lilian M., Relatório Confidencial", já dá para ver com clareza que estamos falando de um autor cinematográfico. Pode-se detestar os filmes (nem é esse o caso), mas não dá para negar que se tratam de obras de expressão pessoal, e não de produtos comerciais _e isso já é garantia de respeito. Apesar de eu não ter gostado de algumas coisas (em especial, da falta de naturalidade da apresentação dos diálogos _é evidente demais que os atores estão atuando de acordo com um roteiro, e não vivendo suas personagens, problema que é especialmente visível em "Garotas...", já que nos outros dois, que me agradaram bem mais, a artificialidade é bastante justificada... Em "Lílian...", por exemplo, é feliz a falta de sync na dublagem), durante vários momentos tive a clara consciência de estar diante de construções imagéticas extremamente refinadas, cinema com C maiúsculo. Claro que os filmes poderiam ser melhores (e esse "melhores", claro, é algo totalmente subjetivo), mas aí não seriam filmes de Carlos Reichenbach.

    P. P. S. Gosto muito quando um filme divide opiniões de forma radical. "Contra Todos", longa de estréia de Roberto Moreira, professor de roteiro na ECA-USP, está sendo bastante elogiado, quando não está sendo tratado com asco. Assisti-lo não foi, de forma alguma, uma experiência desagradável ou desinteressante. Se a aparente displicência do uso da câmera de vídeo é mesmo aparente ou não, nem me importa muito; o que me incomodou e continua incomodando é o roteiro, não na maneira como é estruturado, mas em seu conteúdo: todos os personagens precisam ser violentos, promíscuos, traíras? Nenhuma possibilidade de redenção? Enfim, pelo menos, os atores (em especial o pai e a filha) estão bem. Salve-se quem puder!

    P. P. P. S. Falando em violência, escandalizem-se com as terríveis "Avaianas de Pau". Isso me lembrou tanto da minha infância...

    P. P. P. P. S. OK, o último: para quem ainda não enjoou do Orkut e não só gosta como sabe escrever, visitem Contos Tontos. O nome já diz quase tudo...

    sábado, novembro 06, 2004

    Nina / Balanço da Mostra 2004

    "Para mim, o filme tem que ter sangue, machadada, capeta, Vietnã e ET, a mistura disso é o filme perfeito."

    A frase acima é do João Gordo e reflete a sabedoria popular. Inspirado por esta fórmula certeira de sucesso e pelas eleições, esbocei um argumento para um filme não menos do que sensacional. Sente o drama: grupo de soldados americanos perdidos nos cafundós do Vietnã depara-se com uma colônia alienígena. Os ianques e os ETs entram em guerra, mas um soldado acaba se apaixonando por uma ETéia, e eles têm um filho, que está destinado a ser o Messias. O menino vem parar em São Paulo, onde se torna pastor evangélico e lança campanha para vereador pelo Prona. O desgraçado ganha a eleição com votação recorde, graças a um pacto com o demônio. Daí, o próximo passo é a presidência do Brasil, não sem antes o protagonista comprar a Globo, com o dinheiro dado pelo povo em suas pregações num templo do tamanho de quinze Maracanãs. Chegando à presidência, é claro que o nosso herói construirá a bomba atômica. E onde é que o danado vai jogá-la, hein? Nova York, é claro! Toda sua trajetória até aqui não passa de uma vingança contra os americanos que mataram sua mãe e condenaram seu pai na corte marcial (eventos cruciais, mostrados num flashback emocionante). Óbvio que os ianques não vão deixar barato e se preparam para invadir o Brasil e prender o filho de uma ETéia, mas ele chama seus parentes ETs, que vão calcinar boa parte dos EUA, tipo "Independende Day". E como o Bush não era muito assíduo quando jovem e não serviu direito a aeronáutica, não vai poder subir num jatinho e acabar com a graça dos invasores. Derrotados, os americanos se tornam escravos dos brasileiros, que se mudam todos para Miami e conseguem mais de 90% de ocupação no Orkut, dando início a uma grande comemoração carnavalesca com direito a mulatas, muitas mulatas, e uma participação hitchcockiana do diretor, que aparece gritando, a plenos pulmões, "Viva Glauber Rocha!". Fim.

    Oscar não ganha, é claro. Mas Palma de Ouro é batata. Alguém aí tem sugestão para o título?

    Enquanto o cinema brasileiro não vira cachorro grande, temos um filme como "Nina" (engraçado, eu fui à festa de finalização das filmagens, há uns dois anos), estréia do Heitor Dhalia, cujo roteiro, co-escrito com Marçal Aquino, é inspirado no "Crime e Castigo", um dos livros que mudaram a minha vida. Direto ao ponto, o filme é melhor do que eu pensava (tem gente por aí falando mal, inclusive um colega meu que trabalhou nele vivia dizendo que não tinha ficado bom). Entretanto, fica uma certa sensação de vazio, parece que se trata de um curta esticado. A dramaturgia, o conflito, são mínimos, e o gosto pela estranheza e pela atmosférica gótica (alguns diriam expressionista) estilizadas não funcionou muito bem, embora não deixe de combinar com certos aspectos de São Paulo. Pra variar, é legal ver um filme brasileiro que não tenha cara de "Brasil", de turístico, para inglês ver.

    O destaque vai para o elenco, que está bem bom (as participações especiais de vários globais funcionam bem, embora algumas possam parecer meio gratuitas, como se estivessem apenas preenchendo espaço, sem grande influência sobre a trama central), e para as animações dos desenhos do Lourenço Mutarelli, um artista bastante interessante, conhecido de pessoas interessantes há muitos anos (tenho até livro autografado do cara, lá se vão mais de dez anos...). Enfim, vá ver, que vale a pena; mesmo não sendo nada sensacional, não está péssimo como filme de estréia.

    Agora vamos falar da velha Mostra, querida e disputada maratona dos cinéfilos paulistanos. Este ano, foi bastante atípica para mim, principalmente por dois motivos: primeiro, eu trabalhei para a Mostra, traduzindo para o inglês textos que o Leon Cakoff mandava de Veneza; segundo, estive presente ao acachapante número de 19 sessões, um recorde absoluto para mim (se me lembro bem, nunca tinha visto mais de dois filmes por Mostra _tenho alergia a filas, sabem?). Então, em vez de dedicar um textão inteiro a apenas três ou quatro obras, vai aí um relatório das breves impressões que tive a respeito de tudo o que vi nesta 28ª edição do evento, copiada de um texto que eu tinha colocado no Multiply (aliás, foi só eu resolver começar a usar o negócio que ele começa a sabotar os acentos e a ficar lerdíssimo):

    "Onde Fica a Casa do Meu Amigo?", Abbas Kiarostami: o primeiro e o melhor que vi nesta Mostra. É também o mais antigo... O último plano do filme chega perto de ser sublime e deixa marcas na alma. Ai, que viadagem.

    "Detroit", Carsten Ludwig e Jan-Christoph Glaser: recente filme alemão que começa bem, mas termina mais ou menos, ao entrar numa onda pretensamente lynchiana. Alguns momentos deliciosamente cômicos, outros simplesmente vulgares. Mas dá para ver numa boa.

    "Temporada de Patos", Fernando Eimbcke: filme mexicano bem censura livre, que comentei no texto passado. Urbano, concentra-se praticamente num apartamento, com quatro personagens bem construídos: dois garotos que estão se despedindo, porque um deles vai se mudar, em razão do divórcio dos pais; a vizinha de 16 anos, gostosinha, que quer usar o forno para fazer um bolo; e um entregador de pizza que se recusa a ir embora porque os moleques não querem pagá-lo. Sessão da tarde divertida, melhor do que a encomenda. Em um preto-e-branco que faria Gabriel Figueroa ter engulhos...

    "Or", Keren Yedaya: garota israelense (como o filme), pobre e filha de uma puta (literalmente), também passa a se prostituir. Filme que pode até ser cruel, mas nunca sádico. Or, a protagonista (bonitinha), não fica de descabelando, chorando, se fazendo de vítima. Encara a vida e vai em frente (às vezes, vem de costas, também). Longe de ser deprimente, também não é isso tudo que andam falando... Mas vale a pena.

    "Perth", Djinn: o segundo melhor que vi nesta Mostra. "Taxi Driver" em versão made in Cingapura. Personagens figuraças (o que é aquele Angry Boy Lee?) em uma história até que razoavelmente previsível, mas que nunca deixa de ser divertida. Falado num inglês yakisobônico, contém a cena mais engraçada do festival: Angry Boy atendendo o celular durante um exercício militar na selva. Não deixem de perder.

    "Luzes Vermelhas", Cédric Kahn: filme francêsda safra "não-cabeça" (OK, estou sacaneando). A história dá voltas e termina de forma não muito satisfatória, fica a impressão de que poderia ter sido muito melhor. Mas há muitos bons momentos (e um ótimo susto, bem clichê, e o elenco está a contento (o protagonista tem cara de fodido e o vilão é uma mistura de Ben Affleck com um caminhoneiro). Daria um bom "Corujão".

    "Gosto de Cereja", Abbas Kiarostami: um dos filmes mais famosos do homem, pode ser visto como uma espécie de prelúdio para "Dez". Confesso que não gostei muito, mas o final, em vídeo, tem seu interesse.

    "Dez", Abbas Kiarostami: muito melhor do que eu pensava. Ver algo tão (relativamente) simples de ser feito se sustentar por mais de uma hora e meia é um alento. O garotinho é sensacional. A mãe é bonitona...

    "10 sobre Dez", Abbas Kiarostami: filme-aula, de interesse restrito a fãs do diretor e a estudantes de cinema (ou cineastas). Manoel de Oliveira disse que concordou com tudo... O último plano também é muito bom.

    "Éden", Amos Gitai: o pior filme que vi nesta Mostra é justamente do autor do cartaz da mesma. Falado em inglês, é preguiçoso, cai muito na segunda metade. O final lembra o superior "O Poder Vai Dançar", do Tim Robbins.

    "Alila", Amos Gitai: muito melhor do que o anterior, e falado em hebraico. Gitai anuncia os créditos iniciais e nos deseja um bom filme. E ele vem. Destaque para as atrizes, em especial a amante de peruca e a policial meio "The Nanny".

    "Terra Prometida", Amos Gitai: o mais recente filme do diretor israelense, exibido em Veneza. A estética se aproxima do documental, nesta obra que acompanha um grupo de garotas russas que são seqüestradas e vendidas como escravas sexuais. Bastante sóbrio, evita dramatização extremada. Interessante, mas não sei o quanto gostei... Bem melhor do que "Éden", de qualquer forma.

    Sessão de curtas brasileiros: vergonhosa. O melhor dos filmes, quem diria, é mesmo um do Carlos Adriano, "Um Caffé com Miécio", sobre o cartunista Miécio Caffé. O pior, um paranaense sobre uma velhinha assaltante que é simplesmente terrível, terrível. De resto, a mediocridade _em alguns casos, até que suportável (como num documentário sobre as pastoras da Portela e um falado em polonês que tem fotografia e direção de arte deslumbrantes, mas que peca pela falta de um bom roteiro)... Mas estamos maus na fita, galera.

    "Old Boy", Chan-wook Park: sul-coreano que, a princípio, pensei ser um "Kill Bill" da vida, mas é bem diferente. O protagonista é interessantíssimo, assim como seu antagonista; a trama é bizarra, mas no final, até que se encaixa, meio a marteladas (há um trocadilho aqui, quem viu o filme sabe do que estou falando). As cenas de briga são extasiantes. Mas não é tão sensacional quanto eu pensava que seria, para um filme vencedor do Grande Prêmio do Júri em Cannes. Culpa do Tarantino.

    "O Jogador de Cartas", Dario Argento: filme policial típico de "Super Cine". Clichês abundam, e o projeto acaba decepcionando. Por que cazzo é falado em inglês? Mas há bons momentos, como uma morte em um lugar paradisíaco, um tiro no rádio de um carro e, em especial, uma loira bunduda saindo de um banheiro.

    "Depois da Meia-Noite", Davide Ferrario: desta vez, um filme italiano falando em italiano. Triângulo amoroso entre um zelador de um museu, uma atendente de lanchonete e um ladrão de carros. Mistura de irmãos Lumière, Buster Keaton e François Truffaut (mas infinitamente inferior a qualquer um destes). Engraçadinho, feito por e para cinefilinhos, não mais. Mas a Francesca Inaudi é uma coisinha linda do pai.

    "Twinni", Ulrike Schweiger: longa de estréia desta jovem diretora austríaca. Draminha centrado numa pré-adolescente, num filme que poderia ser autobiográfico, mas, segundo a diretora (com quem bati um papinho depois da sessão), não é. Chatinho (típico filme do interior da Europa), mas podia ser muito pior...

    "Amor em Pensamentos", Achim von Borries: mais um alemão, só que produzido por uma major norte-americana, a Warner Bros. Como era de esperar, um filme bem convencional, "baseado numa história real", e estrelado pelo Daniel Brühl, aquele garoto de "Adeus, Lênin!" que está super-hypado. A curiosidade é uma rave ambientada nos anos 20.

    "Luz Fria", Hilmar Oddson: um dos melhores que vi nesta Mostra. Islandês (será que o Fabio Massari viu?), alterna o presente e a infância de um homem com um estranho e terrível talento para o desenho... Assim como o muito inferior "Twinni", há uma jovem personagem que tem visões premonitórias... Também é o portador da cena mais pungente de todo o (meu) festival.

    Ano que vem tem mais. Só não sei se será tanto...

    P. S. Finalmente, graças aos relançamentos em DVD, assisti a dois filmes que há muito queria ver. Um é "O Atalante" (1934), de Jean Vigo, considerado pelo Truffaut uma obra-prima; o outro é "Sciuscià" (1946), de Vittorio de Sica, batizado aqui no Brasil com o título meio besta "Vítimas da Tormenta" e considerado pelo Orson Welles uma obra-prima. São mesmo grandes filmes, embora o de Vigo tenha resistido bem melhor ao tempo. E eu adoro o Michel Simon.

    P. P. S. Pra não perder o costume, vai aí mais um trechinho de um livro sobre cinema. No caso, é de "Um Cinema Chamado Desejo", de Andrzej Wajda:

    "Certos diretores memorizam a decupagem. Estão errados. A decupagem serve para indicar o caminho que o filme tomará, mas não será uma auto-estrada de quatro vias. É preciso levar em conta o imprevisto: peripécias devidas aos atores, ao tempo, a tantas outras dificuldades. A estrada seguida pelo filme se transformará em caminho tortuoso ou desaparecerá nas brenhas. Não haverá mais mapa. Para não se perder, o diretor terá que se fiar na bússuola que para ele será a história, a trama do filme: quem age, com quem, contra quem, com qual objetivo? No decorrer da filmagem, não cesso de perguntar ao pessoal que me cerca: o que vem em seguida? Lembrem-me de como isso termina. Fazendo essas perguntas, verifico se tomei o caminho certo."

    segunda-feira, outubro 25, 2004

    Super-Homem: o Filme / Super-Homem 2: A Aventura Continua / Super-Homem 3

    Quem sabe o Super-Homem venha nos restituir a glória, mudando como um deus o curso da história, por causa da mulher.

    (Eu ia citar "Super-Homem, cascateiro, só faz força no banheiro", mas achei que era muita sacanagem e que seria mais propício citar os famosos versos do Ministro Gegê _isso não tem nada a ver com o fato de eu ter projeto inscrito no MinC.)

    Aconteceu tudo meio que simultaneamente: um dos meus irmãos comprou o pacote com os três DVDs dos primeiros filmes da série (ficaram com vergonha do quarto, é?); Quentin Tarantino, via Bill, cita o imenso Jules Feiffer filosofando sobre a questão da identidade secreta do pioneiro super-herói da DC; Christopher Reeve finalmente encontra a paz. Tudo conspirou para que eu revisse estes filmes e para que este texto pintasse por aqui (em vez do texto que se dedicaria exclusivamente aos filmes exibidos na última ótima Sessão Dupla do Comodoro, que ganha um honorável P. S.).

    Os dois primeiros filmes da série (que, na verdade, formam um pacote: a maioria dos profissionais envolvidos foram contratados pelos produtores para dois filmes, ainda no meio dos anos 70), eu sempre via na Globo, dublados; o terceiro, estreou no Brasil via SBT ("Cinema em Casa", lembra?). Até que faz sentido, pois são projetos totalmente diferentes. Minhas opiniões a respeito deles eram também bastante diferentes, antes desta revisão. Eu gostava mais da segunda parte e desprezava a terceira, o que, por enquanto, felizmente mudou.

    Do início: é interessante observar como essa ânsia pelos blockbusters estava em alta na segunda metado dos anos 70. O provável culpado é o então jovem Spielberg e seu fantástico "Tubarão" (que vi recentemente num DVD de edição caprichadíssima). "Super-Homem", não à toa, acaba tendo muito a ver com "Guerra nas Estrelas" (cuja caixa com os episódios 4, 5 e 6 meu irmão também comprou, o que indica que eles pintarão por aqui mais cedo ou mais tarde _provavelmente mais tarde...).

    O primeiro filme tem um grande (e caríssimo) bônus, que é Marlon Brando. Que nem está tão bom assim como Jor-El, que mais parece um cruzamento de Cid Moreira com Walmor Chagas, mas que, enfim, está lá. Gene Hackman também não é de se jogar fora, mas... jogaram. Seu Lex Luthor, tão terrível nos quadrinhos (isso quando o roteirista não o é), aqui vira um vigaristinha
    meio babaca, fanfarrão e cercado de asseclas que ou são incompetentes ou não muito fiéis (fórmula que se repetirá no terceiro filme da série). Sobra Glenn Ford, numa participação pequena, mas digna, no melhor trecho do longa: a adolescência de Clark Kent em Smallville (que, nos quadrinhos, costumava ser chamada, adequadamente, de Pequenópolis _ah, os tempos em que globalização não era um termo corrente e "Superman" se escrevia "Super-Homem"...).

    O filme piora muito quando Reeve aparece, mas não é culpa dele. Acho que ninguém poderia imaginar alguém melhor do que ele para o papel. Reeve conseguia vestir aquele figurino ridículo e... bem, ficar ridículo, mas ele dava ao Super-Homem um ar tão cândido que... tá, ficava ainda mais ridículo. O que quero dizer é que a trama do filme, após os anos de formação de Clark Kent, é fraca, tirando a relação Super-Homem/Lois Lane/Clark Kent, que é um achado e é, em geral, bem conduzida (mas não muito bem conduzida).

    Inesquecível mesmo são cenas como o primeiro vôo de Super-Homem e Lois Lane (o texto dito por Margot Kidder, a Courtney Love dos anos 70, é muito bonito) e o mundo girando ao contrário, suficientes para que o projeto, dirigido por Richard "A Profecia" Donner, fosse um sucesso e se tornasse um clássico entre os blockbusters.

    O segundo filme segue no mesmo tom, apesar da inesperada troca de diretores (saiu Donner, entrou Lester _sim, aquele que fazia filmes com os Beatles). Mas, agora, o Super-Homem finalmente tem rivais à altura: o trio de vilões que seu pai Brandão tinha mandado para a Zona Fantasma. Para complicar tudo, Lois fica sabendo a verdade sobre a relação entre Super-Homem e Clark Kent (temática que foi retrabalhada pelo Sam Raimi em seus "Homem-Aranha" _quando é que vão começar a chamar de "Spider-Man", hein?). Mas sabem que eu achei o filme meio chatim? Sei lá, mil coisas...

    Surpreendentemente, o terceiro filme me agradou bem mais do que eu esperava. Lester finalmente assume o comando e dá ao filme a sua cara: vira uma comédia bem sem-vergonha (não exatamente no mau sentido), repleta de situações rocambolescas e inverossímeis. Lester não leva o enredo a sério, o que é um tremendo trunfo num filme desse tipo. E não só isso: praticamente todo o universo de seus antecessores é desprezado (por exemplo, não aparece a Fortaleza da Solidão), mas apenas superficialmente: Robert Vaughn encara um novo tipo de criminoso multimilionário (a diferença é que ele não era um fugitivo como Luthor), Lana Lang toma o lugar de Lois Lane como par romântico (Kidder só faz uma ponta, bastante irônica mas coerente com os rumos da série) e Richard Pryor é o assecla atrapalhado _infelizmente, muito mais sem graça do que Ned Beatty (é, Gene Wilder sempre foi o fodão da dupla). A melhor piada, mesmo, é a da loira que finge ser burra, mas é inteligentíssima, lê e discute Kant...

    Desta vez, o destaque é mesmo Reeve, que pode mostrar melhor seus dotes de ator. A caracterização do Super-Homem como um babaca (após ser exposto a uma kryptonita de meia-tigela) ficou muito bem feita: ver o maior herói do mundo apagando a tocha olímpica, desentortando a Torre de Pisa e mandando ver no Red Label (é por isso que ele gritava "great scotch" no desenho dos
    Super-Amigos? _que, por sinal, também saiu em DVD, credo) com amendoim são ótimas sacadas do roteiro. Outro fator interessante é ver, no filme, já alguma discussão a respeito da ameaça dos hackers e do avanço da informática no cotidiano das pessoas (a própria Atari foi contratada para criar animações do Super-Homem para o filme, com direito à trilha sonora do Pac Man e tudo). Ah, e Lester não deixa de incluir uma música dos Beatles, como se assinasse, sutilmente, seu trabalho... Vale a pena "reever". Para o bar e avante!

    P. S. Falando no Ministro Gegê, acabei vendo o documentário "Doces Bárbaros" (1976), de Jom Tob Azulay. E é aqui que documentário vira documento: na época, talvez não fizesse muito sentido ver o registro desta turnê , mas, hoje, ela se converte num pequeno tesouro, ao nos mostrar como era boçal o Brasil dos anos 70 (como se o de hoje também não o fosse, mas não é isso que vamos discutir aqui _ou vamos?). À parte as músicas (algumas, impressionantes, como as sumida "Pássaro Proibido", numa boa interpretação de Caetano Veloso, e a linda "O Seu Amor", que destaca a voz de Gal Costa), há momentos interessantíssimos, como praticamente todo o episódio em torno da prisão de Gilberto Gil (hilário, hilário) por posse da "erva maldita" e uma entrevista tensa dada Maria Bethânia a um repórter provocador. Bethânia, por sinal, é e sempre foi a personalidade mais interessante do grupo; seria tremendamente agradável passar uma tarde conversando com ela, penso. Ou mesmo só ficar do lado dela, sem falar nada, olhando pro seu bigode. Melhor do que discutir fenomenologia com o Caetano.

    P. P. S. México lindo! Infelizmente não pude ver muitos filmes da bela mostra que o CCSP fez da obra de Emílio "Índio" Fernandez, mas só o "Pueblerina" valeu a pena. Além do espetáculo à parte que é a fotografia em p&b do Gabriel Figueroa, há um enredo fortíssimo e boas atuações... Uma espécie de "Casablanca" mexicano, ouso dizer. Ah, se todo dramalhão mexicano fosse assim...

    Falando em México lindo, vi hoje, na Mostra, o novíssimo "Temporada de Patos", de Fernando Eimbcke. Também em p&b (não entendi o porquê), mas bem chocho. Teatral pra burro, vale como tentativa de realizar filme de baixo orçamento, mas faltou ousar... Em contrapartida, tem um sensacional senso de humor, é fresco, tem boa trilha sonora e também tira uma onda com os Beatles. Só faltou mulé pelada.

    P. P. P. S. E falando em pelada, a Sessão Dupla do Comodoro, sob responsabilidade de Carlos Reichenbach, é um programa imperdível para quem mora em São Paulo e gosta de cinema. Infelizmente, o perderei quase sempre, porque é num horário desgraçado de ruim. Que tal fazermos uma campanha para mudá-la para sábado? Será que o Cinesesc deixa? Bom, mas valeu a pena ter furado os compromissos para ir ver "O Quarto Homem" (o melhor Verhoeven que vi até hoje) e "No Vale das Deusas Acromegálicas" (boa tradução para "Beneath the Valley of the Ultravixens"), do grande e recém-falecido Russ Meyer, em quem me inspirei para dirigir o meu primeiro curta-metragem mais, digamos, "sério". Se bem que nem sei se "sério" é realmente a palavra...

    quarta-feira, outubro 06, 2004

    Kill Bill Vol. 2

    Please, don't let me be misunderstood.

    A única certeza que tenho é a de que não tenho certeza de nada _ou melhor, nem disso eu tenho certeza...

    Digo isto (que poderia ser dito de forma geral, mas...) porque, como aconteceu com "Dogville", ainda não consegui ter uma posição solidamente formada a respeito do projeto "Kill Bill" (por isso que é tão legal eu ter esta oportunidade de discutir o filme com todos vocês que, sabe-se lá por que, passam por aqui). Assisti ao primeiro volume no cinema, como tem de ser _apesar de o filme, gravado num CD-R por um dos meus irmãos, estar à minha disposição para ser visto neste computador que agora uso para encher esta tela de letrinhas. E o sentimento foi de certa euforia, uma coisa gostosa _que nem sempre a gente sente ao ver um filme e que não tem preço.

    Engraçado, apesar de ter gostado do primeiro volume (mesmo tendo-o considerado o pior Tarantino até agora), não posso dizer que fiquei extremamente ansioso para ver a continuação. Não tive o menor ímpeto de procurar ver o filme, apesar de ter tido a oportunidade de fazê-lo. Não era nem um pouco penoso, para mim, esperar meses, até o então longínquo outubro (já é outubro? Puxa...) para saber como a história termina. Sim, eu tenho sangue de monge.

    Mesmo assim, não é que fui ver o "Vol. 2" numa pré-estréia (não, não agüento acordar cedo para as cabines de imprensa nem tenho mais tempo ou muita vontade de freqüentá-las), num sábado à noite (não freqüento salas comerciais nos fins de semana, o preço é um roubo), numa sala que ainda não conhecia (o Kinoplex Itaim, mais um típico templo comercial paulistano "preibói", como diz o JG _aliás, a sala é do veterano grupo Severiano Ribeiro...)? Pois, após assisti-lo, saí meio decepcionado, achando-o apenas "legalzinho", não muito mais do que isso. A verdade é que o filme não causou em mim o impacto do primeiro volume.

    Aí, com duas concepções conflitantes na cabeça ("a parte 1 é melhor", vinda do coração, e "não dá para comparar, são duas metades do mesmo filme", do cérebro), resolvi encarar o maldito CD-R com a primeira parte. Foi o primeiro longa-metragem que vi no computador, e a experiência foi terrível. O filme ficou um lixo! Perdeu totalmente sua capacidade de impacto, sua beleza, seu poder. Lamentável, mesmo.

    Agora, a segunda parte da obra cresce. Estou ligeiramente tentado a revê-la, caso entre em cartaz no cinema vizinho, o que constituiria outra experiência inédita para mim: a de pagar duas vezes para ver um mesmo filme (até porque, na pré-estréia, fui obrigado a me sentar longe demais da tela, o que me deixou muito irritado _nunca me sento depois da terceira ou quarta fileira, em geral). Taí uma das virtudes do Tarantino: seus filmes são bons de serem revistos. "Pulp Fiction" eu vi duas sessões seguidas, em 1995, depois revi o filme várias vezes em vídeo; "Cães de Aluguel" eu tenho em DVD e vejo sempre que dá vontade. O raro "Jackie Brown", considerado por muitos o melhor, só vi uma vez no Telecine, depois nunca mais. "Kill Bill Vol. 1" despencou na revisão, talvez por causa da péssima qualidade que o computador oferece.

    Por enquanto, o que fica, de "Kill Bill", é que, antes de tudo, trata-se do primeiro filme épico (e francamente de ação) dirigido pelo Taranta, baseado numa mescla de filmes de lutas marciais com western spaghetti _Tarantino homenageia, no primeiro volume, os primeiros; na seqüência, os últimos, representados por nomes óbvios como Sergio Leone e Sergio Corbucci, além de Lucio Fulci (este, mais lembrado por filmes de terror bem sangrentos). Interessante é a montagem subordinada à música (a trilha sonora é capital nos filmes de Tarantino, e é no quinto capítulo de "Kill Bill" que ela é usada de maneira mais irônica: durante o combate com os Crazy 88s, toca o roquinho "Nobody But Me", transbordando empáfia, e, nos momentos que antecedem a luta com O'Ren-Ishii, toca Santa Esmeralda...), a estereotipia das personagens (as sobrancelhas do Pai Mei de Gordon Liu arrancaram gargalhadas da platéia, Daryl Hannah está, mais uma vez, "pretty cool", e o Budd de Michael "Mr. Cool" Madsen mostra-se bem diferente do que o aperitivo fornecido na primeira parte sugeria), a participação de uma ex-estrela da filmografia do diretor numa ponta minúscula, praticamente impossível de identificar (a exemplo do que ocorreu em "Pulp Fiction" com Steve Buscemi; a bola da vez é Samuel L. Jackson) e o fato de não existirem heróis (a polícia, quando aparece, chega tarde demais e é boçal ao máximo). Aliás, o Bill de David Carradine, com direito a língua presa e tudo, também quebra as expectativas construídas no primeiro volume, assim como Tarantino dribla aqueles que pensavam que o filme poderia ter um final imprevisível. Invertendo aquele velho ditado: alguém, no final, tinha que se dar bem. Quase que o cinema imita a vida...

    P. S. "Perdidos na Noite" ("Midnight Cowboy", 1969), de John Schlesinger, é interessante justamente por ser mais focado na força dos personagens do que na do enredo (como, aliás, é o caso de "Kill Bill"). Jon Voight e Dustin Hoffman (mas especialmente o primeiro) estão excelentes; a narrativa, cheia de flashbacks que contam pedaços da vida de Joe Buck (que "was there to fuck") e que são maravilhosamente montados, é soberba, e a trilha sonora é simplesmente inesquecível, apesar de a repetição dos temas parecer excessiva. Um belo clássico moderno, em mais de um sentido.

    P. P. S. Como passou "Hatari!" na Bandeirantes (que está dando um pau na Globo em termos de filmes clássicos exibidos com som original e legendas), no domingo passado, vai aí o último trecho que separei do livro do Merten, que fala deste imenso diretor que foi Howard Hawks:

    "Por mais famoso que seja Ford, não são poucos os críticos que pensam que Hawks, nascido um ano depois, foi ainda maior. Idolatrado pela crítica francesa, Hawks disse que o expressionista Josef Von Sternberg, criador do mito de Marlene Dietrich, gostava de transformar a anedota em epopéia. Ele, pelo contrário, transformava a epopéia em anedota. É uma boa definição do seu projeto de cinema. Hawks realizou o modelo acabado da screwball comedy dos anos 1930: 'Levada da Breca', com Cary Grant e Katharine Hepburn; com 'Scarface', de 1932, inventou o filme de gângsteres; com 'À Beira do Abismo', com Humphrey Bogart como Philip Marlowe, fez um clássico noir definitivo. Pelo número reduzido de westerns que fez, Hawks não deveria ser páreo para Ford, mas com 'Rio Vermelho' ele criou nada menos que o épico do capitalismo."

    P. P. P. S. Voltando a Tarantino e a "Kill Bill", segue um interessante trecho de uma entrevista do diretor (cuja íntegra eu já forneci o link neste texto, a quem interessar possa):

    "About Kage no Gundan for a bit. There's like multiple sequel shows. You know, Kage no Gundan 1, 2, 3, 4. Every time they did a new series it was always a different Hattori Hanzo. It was set a little further in history. Hattori Hanzo number three, Hattori Hanzo number four. It just kept on going down. So now Sonny Chiba is playing Hattori Hanzo one hundred and still continuing that character. Now the thing about this is that, the audience doesn't need to know any of this. I'm very much a believer that if you're creating your own universe and your own mythology, you can have no question unanswered. But here's the thing: I don't have to answer the questions to you the audience. You just need to know I know the answer. I can tell you the whole story of how Hattori Hanzo ended up in Okinawa and why he didn't make a sword for 30 years, and who the bald guy is. I can tell you that. I don't have to tell you this during the watching of the movie, but you need to know how large this world is. This is how much I'm going to tell you now, and what I don't tell you, you can figure out. You can make up your own things. I know what's going to happen with Nikki (Vivica A. Fox's daughter). She will grow up and she will seek her revenge. I could go backwards. Once we get all done with this, we're talking about the concept of doing a couple of prequels with maybe Production IG just doing full-on animation. You know, the origin of Bill for instance. But I could do it with any of the characters. As far as actually continuing the story? Again, I don't know about shooting this in live-action or animation or writing it as a paperback, who knows? But it would be every ten years. Right now, The Bride is 30. The next one would be at 40. The last one would be ten years later when she's 50."

    terça-feira, setembro 28, 2004

    Minha Esperança É Você / A Vila / O Garoto Selvagem / Cama de Gato

    E isso é ameaça de quem pensa em você desde que nasceu.

    Meu aparente desprezo pela humanidade é apenas um disfarce mal-ajambrado do imenso amor que nutro por ela. Mas disso vocês já sabem.

    O que alguns de vocês talvez não saibam é que tive uma certa convivência, desde a infância, com pessoas portadoras de deficiências mentais, de casos de síndrome de Down a paralisias cerebrais mais graves. E, apesar de pessoas como estas serem, em geral, as mais carinhosas e confiáveis que você pode conhecer, elas ainda sofrem um tremendo preconceito e raramente são tratadas com a dignidade que merecem (por sinal, se tenho um mínimo de simpatia pela Xuxa é porque ela sempre fez um esforço, em seus programas, de incluir estas crianças, ajudando a combater tais preconceitos. Não é pouco).

    Pois "A Child Is Waiting" (1963), produção de Stanley Kramer dirigida por John Cassavetes, é justamente um raro exemplo de como retratar deficientes mentais com dignidade extrema. E para isso é preciso uma baita coragem. Porque não só no cinema, como na TV e no teatro de todo o mundo, atores que representam papéis de pessoas com algum tipo de deficiência ou de desordem mental acabam deixando as platéias impressionadas (como se a caricatura fosse o maior desafio para um ator)... Mas trazer para a tela pessoas com deficiências reais?

    Pois Cassa não teve medo e, com extrema sensibilidade, realiza um filme notável (também em termos formais: os enquadramentos e os movimentos de câmera são sofisticadíssimos, apenas o uso da trilha sonora me incomodou um pouco), com um elenco de renome (Burt Lancaster, Judy Garland e Gena Rowlands à frente), mas que não rouba a cena dos verdadeiros protagonistas da história.

    Já em "A Vila", Adrien Brody, oscarizado por "O Pianista", é o Geoffrey Rush (ou Russel Crowe ou Edward Norton ou...) da vez. Mas o diretor Shyamalan está longe de ser bobo, e utiliza tal clichê (e todos os outros contidos no filme) com eficiência, quase com maestria. "The Village" é, talvez, seu melhor filme (gostaria de rever "Corpo Fechado" para tirar a teima), mas, estranha e saborosamente, entrou para a categoria dos filmes que ou são amados ou são odiados. Por que será, hein?

    O filme é quase tão carregado de símbolos quanto os últimos trabalhos de Kubrick, e Shyamalan também se mostra extremamente competente ao criar e sustentar suspense (com direito até a pelo menos dois grandes sustos, também deliciosamente eficientes), sem ser desagradavelmente metido a inovador. "A Vila" é quase clássico, e se destaca justamente por não utilizar meros truques para manipular seu espectador. O brilhantismo (com duplo sentido) desta obra vem justamente do fato de ela não surpreender nem um pouco: dá para adivinhar o final do filme até mesmo antes de vê-lo (como eu o fiz), e é esta previsibilidade que potencializa o prazer de assistir a este filme.

    Como bônus, ainda temos William Hurt e o destaque para Bryce Dallas Howard (a verdadeira "surpresa" do filme, também interpretando uma deficiente...), que, ainda bem, pegou o papel que originalmente seria de Kirsten Dunst, num momento muito, muito feliz. Quero muito revê-lo, recomendo a quem não gostou que também o faça. Ah, e "Sinais" não teria sido muito mais legal se os tais não tivessem sido feitos por alienígenas? Mal aí.

    O caso de "O Garoto Selvagem" (1970) não é exatamente deficiência (mental ou física), mas as conseqüências do isolamento da sociedade (mas não como no filme de Shyamalan), como já vimos em outros personagens, reais ou fictícios, como Tarzan, Mowgli, Kaspar-Hauser etc. Baseada em uma história real, o drama de Victor, o menino que é encontrado vivendo nas matas de Aveyron, no final do século XVIII, e é educado pelo médico Jean Itard, nos é mostrada por François Truffaut com simplicidade, num filme de baixo orçamento, mas que nem por isso é descuidado (especialmente por ser "de época").

    O roteiro, baseado nos relatos do dr. Itard, é bastante inteligente. Truffaut foge do sentimentalismo barato não somente como diretor, mas também como ator, e faz um interessante paralelo com sua biografia ao dedicar o longa a Jean-Pierre Léaud. Não está entre os filmes mais conhecidos do francês, mas é um pequeno glóbulo duro, brilhante e nacarado.

    Falando em selvageria (ou em deficiência mental), "Cama de Gato" é um filme que tem dado o que falar no mundinho fashion do cinema já há alguns anos. Eu tenho certa ojeriza a manifestos artísticos e gosto mais de obra do que de discurso; o filme de Alexandre Stockler contém bem mais do segundo, mas isso não surpreende. Quanto a questões de honestidade (intelectual inclusive), não sabemos como foram captados os "depoimentos espontâneos" que iniciam e finalizam o filme (e que nos mostram o que a gente já está careca de conhecer _talvez este seja um filme adequado somente a maiores de 40 anos?), assim como todo o projeto foi financiado (questão que se torna mais interessante por o baixo custo da produção independente, cerca de R$ 13 mil, ter sido destacada pelo realizador). Infelizmente, não tem nada a ver com "A Bruxa de Blair" (será que "A Bruxa de Apucarana" teve mais sorte?), mas até que a tentativa de fazer algo "minimamente audacioso" não dá totalmente com os burros n'água; o início do filme, até pouco depois dos créditos, nem era tão ruim... Mas uma tentativa é apenas uma tentativa.

    P. S. Andei esquecendo de colocar trechos de livros sobre cinema que gosto de colecionar por aqui. Segue, então, mais um do livro do Merten, que cita dois cineastas de renome:

    "Nesse cinema tão violento, onde o herói, via de regra, é tão criticado, Aldrich apreciava trabalhar com personagens contrastantes, mas não gostava de dividi-los em bons e maus absolutos. O bom podia até vencer, já que o cineasta, mesmo do contra, continuava preso a muitas das convenções hollywoodianas. (...) Aldrich, mais do que qualquer outro diretor, foi quem deu forma definitiva à paranóia americana no cinema.

    Por causa disso, ele costuma ser comparado a Samuel Fuller (...). Fuller dá, em 'O Demônio das Onze Horas', a sua definição de cinema: emoção. (...) Na guerra de Fuller não existem heróis, só sobreviventes. Na de Aldrich existem heróis amargurados, que não são confiáveis porque não se iludem: sabem que a sociedade que os condecora também os discrimina e marginaliza. Aldrich, no fundo, era ainda mais derrisório do que Fuller: desde 'Morte sem Glória' insistia na sua tese de que a guerra exalta o ímpeto de destruição que a sociedade civil pune em tempo de paz."

    sábado, setembro 11, 2004

    Barry Lyndon / Dr. Fantástico ou Como Aprendi a Parar de Me Preocupar e Amar a Bomba

    We'll meet again, don't know where, don't know when.

    O tempo urge, ruge etc. Pois "Barry Lyndon" (1975), filme que o nosso velho amigo Citizen Kuby dirigiu entre este e este aqui, ultrapassa três horas de duração, mas passa bem mais rápido do que muito curta-metragem de estudante de cinema metido a artista que já tive o excruciante desprazer de assistir (qualquer diretor que eu realmente prezo define-se, antes de tudo, como "contador de histórias". Se você conhece algum mané que insiste em fazer discurso contrário só porque "estudou" cinema, desconfie).

    Sem dúvida (e com duplo sentido), trata-se de um grande filme, mas não chega perto de ser o melhor Kubrick, apesar de existirem afirmações discordantes a este respeito (sabe como é, o filme não é tão popular, então é chique ficar dizendo que é o melhor só porque menos gente viu). Mas o que me agrada tremendamente neste filme, além do óbvio (sua fotografia absolutamente extasiante _é famosa a história das lentes especialmente desenvolvidas para esta obra, capazes de captar ambientes exclusivamente iluminados a luz de vela, saudável característica do velho nerd com cara de gnomo, essa a de contribuir com inovações técnicas, como um George Lucas menos nocivo), é o fato de ele possuir um tremendo, imenso senso de humor. É, talvez, o filme menos frio do Kuby.

    Claro que o melodrama (de características viscontianas, talvez?) também tem o seu peso na história do interessantíssimo personagem interpretado por Ryan O'Neill (então uma estrela hollywoodiana no auge da popularidade). Partes do enredo (inspirado no livro de William Makepeace Thackeray _autor recentemente adaptado pela indiana Mira Nair, cujo "Vanity Fair" foi exibido na Veneza que premiou Mike Leigh e seu "Vera Drake"), inclusive, chegam a lembrar o novelão-mor "...E o Vento Levou"...

    Já "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb" (um filme que, de certa forma, encerra uma fase na carreira de seu diretor), de 1963, é uma comédia assumida (é quase histérica _o que dizer diante de uma frase como "Vocês não podem brigar aqui, esta é a Sala de Guerra!"?), mas versa sobre um assunto tão pesado (ainda hoje, apesar de aquela loucura de Guerra Fria e sua corrida armamentista ter, aparentemente, terminado) que não me surpreenderia se fosse encarada por alguns (ou muitos, especialmente aqueles preocupados com seus fluidos corporais, Coca-Cola inclusive) como filme de terror.

    O que também impressiona é saber que Kuby, notório pelo seu perfeccionismo quase insuportável, deixou que Peter Sellers (que, inicialmente, interpretaria quatro papéis, mas um acidente o impediu de encarnar também o major Kong _inesquecivelmente interpretado por Slim Pickens, ex-palhaço de rodeio que acabou fazendo um monte de papéis de caubóis e militares, aqui juntando ambos num só. Por sinal, Kuby queria que Pickens tivesse atuado também em "O Iluminado", no papel que ficou com Scatman Crothers, mas o ator recusou por não querer ficar repetindo tomadas até chegar perto da loucura) improvisasse praticamente durante quase toda a filmagem. George C. Scott também dá o seu showzinho, além de Sterling Hayden (curiosidade: é o filme de estréia de James Earl Jones). Infelizmente, problemas técnicos impediram que a última cena prevista para o filme, que mostrava uma guerra de tortas em plena Sala de Guerra (que, dizem, Reagan pensava realmente existir, quando assumiu a presidência dos EUA), pastelão puro. Mein führer, I can walk!

    P. S. Pra não dizer que não falei de "Olga"... Sinceramente, é menos pior do que eu pensava (não chega a ser um "Cazuza...", ufa), mas ainda é ruim. A experiência de vê-lo foi muito parecida com a de ver "A Paixão de Cristo": trata-se de um filme extremamente apelativo, sem um pingo de sutileza, o que acaba tranformando-o num espetáculo de uma chatice atroz. Eu quase dormi. Cadê a "interessância"?

    Cena da semana (ou da quinzena ou do mês, sei lá): Ao som de "O Messias", de Händel, um mendigo sujo e desdentado dança embriagadamente, vestido de noiva ("Viridiana", de Luís Buñuel, 1961).

    domingo, agosto 29, 2004

    Igual a Tudo na Vida / Edu Coração de Ouro

    Pamonha quentinha, pamonha cremosa. Vem chupar minha maionese, porque ela é a mais gostosa.

    Quem acha que quem já viu um Woody Allen viu todos levanta a mão? A pergunta não é injusta, especialmente para quem já assistiu a "Interiores" e "Setembro" ou a "Annie Hall" e este "Anything Else" (que diziam ser o filme em que Allen finalmente abordava questões relativas a Israel _tremenda bobagem), por exemplo. São filmes muito parecidos entre si, por razões mais do que óbvias. E nem é este o problema; Allen é um autor, portanto tem estilo. Já sabemos o que vem por aí e, de certo modo, nos sentimos reconfortados ao vermos que certas coisas não mudam.

    Bom, certas coisas mudam, é claro. Allen, hoje, quase um septuagenário, precisa recorrer a um ator como Jason Biggs para interpretar uma espécie de alter ego mais jovem. E Biggs é muito mais sem graça do que Allen (o filme ganha muito quando o velho diretor neurótico também está atuando). A mulher que vira a cabeça do comediante (ou escritor ou qualquer outro personagem típico de Allen) em um relacionamento mais do que conturbado, desta vez, é a minha querida Christina Ricci, aqui interpretando uma moça muito da chatinha, mas que tem seus atrativos.

    Claro, há as decepções, como o normalmente grande (chamar o cara de grande é sacanagem?) Danny De Vito, que aqui é bem mal aproveitado. Por outro lado, temos a presença esplendorosa de Stockard Channing, a inesquecível Rizzo de "Grease", que protagoniza, ao piano (precisa falar que o jazz _Billie Holiday e Diana Krall estão em destaque_ é praticamente uma personagem à parte?), uma cena não menos do que linda. E dá para não se identificar quando Biggs, estupefato e meio com raiva, clama: "Não acredito que me apaixonei por uma fumante!"?

    Contemporâneo de Allen (este é apenas alguns meses mais velho), o nosso Domingos de Oliveira já foi chamado de "Woody Allen brasileiro". O que não é bem verdade e sequer é muito justo, apesar de a comparação ser pretensamente elogiosa, já que o pai da Maria Mariana começou a fazer cinema bem antes do que o judeu nova-iorquino quatro-olhos (por sinal, Oliveira co-escreveu e co-dirigiu, com Joaquim Pedro de Andrade, o clássico episódio "Couro de Gato", considerado o melhor de "Cinco Vezes Favela", de 1962).

    Este "Edu Coração de Ouro" (1968), seu segundo longa, veio na cola do sucesso "Todas as Mulheres do Mundo", do ano anterior. O casal Paulo José e Leila Diniz volta a marcar presença, mas é o primeiro o protagonista e personagem-título. E o tal Edu não tem nada a ver com Nova York e a psicanálise (a não ser quanto tenta passar uma cantada numa bela psiquiatra, vivida pela Norma Bengell). É mais um malandro carioca, mas não o malandro do morro que apanha da polícia, mas o burguês que, aos quase 30 anos, nem quer saber de trabalhar (está desatualizado, neste ponto; hoje em dia, ver alguém que está sem trabalho porque quer é uma ofensa dolorosa), só de farra e de mulher.

    O filme, feito às vésperas do AI-5, transborda de alegria, em contraposição, por exemplo, a "As Amorosas" (do mesmo ano e também estrelado por Paulo José, hoje, infelizmente, bastante afetado pelo mal de Parkinson), nos mostra belas mulheres (entre elas Joana Fomm e Dina Sfat), sem deixar de tirar um sarro do Cinema Novo (em sua festa de aniversário, Edu veste uma fantasia intitulada "Deus e o Diabo na Terra do Sol"). Mas também tem seus momentos sombrios e melancólicos, e a gente fica nessa eterna balança que é a vida, sem saber direito, no final, para qual dos lados ela vai pender. Um dia, a gente descobre. Feliz ano novo!

    P. S. Sei que ando atrasado para uma porção de coisas e estou devendo comentários sobre muitos filmes que passaram ultimamente. Então, vamos lá, rapidinho (a gente continua a conversa no espaço nobre, porém efêmero, deste velho site, a janela de comentários):

    "Irreversível", de Gaspar Noé, não é um grande filme, mas também não é péssimo como a crítica andou apregoando (e não digo isso só por causa da Momô pelada, motivo mais do que suficiente para vê-lo e revê-lo). Rasíssimo de conteúdo e nem sempre bem-sucedido na forma (de maneira geral, é bem mal-enquadrado), pelo menos é uma interessante experiência física. Agora, se o diretor foi corajoso ou metido a besta... Prefiro pensar que a primeira opção é a verdadeira. De qualquer forma, estou arrependido de não tê-lo visto no cinema.

    Conheço fãs de Godard que acharam "Passion" um filme "chato". Que injustiça! Até porque é muito menos disnarrativo (existe mesmo esta palavra?) do que poderíamos esperar. É um filme belíssimo (Rembrandt, Reubens _não é o Pee-Wee!_ e outros bambas são citados), extremamente sintonizado com a época em que foi feito (1982) e que traz atores estelares (Michel Piccoli, Isabelle Huppert, Hanna Schygulla, entre outros, todos interpretando personagens batizados com seus próprios nomes) atuando da forma mais discreta. Ah, e tem muita mulher pelada, também.

    "O Dia Depois de Amanhã" pode ser comparado a "Dança com Lobos" no quesito "filme mais politicamente correto do mundo". Diferente deles (e bem melhor) é "Pacto de Justiça", mais recente incursão de Kevin Costner no faroeste. Filme que, se um tanto lento e irregular, é emocionante para garotos como eu, fanáticos por westerns. O longo "showdown" é delicioso e brinca com alguns clichês de forma extremamente satisfatória. Nem tudo é perfeito, mas está longe de ser um programa desprezível.

    "O Satânico Dr. No" (1962) impressiona justamente por não se tratar de um filme espetacular; Bond não usa engenhocas de tecnologia de ponta para enfrentar o inimigo, e sim um fio de seus cabelos; não se trata de um super-herói, mas, como nota o vilão, de apenas mais um policial que falha e tem medo. Chega a ser meio decepcionante, também... Mas que Connery foi o melhor James Bond, alguém duvida? É isso aí!

    Na platéia