A gruta é mais extensa do que a gruta

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    domingo, abril 14, 2013

    11 anos na tela

    Tempos turbulentos, para o mal e para o bem, mas este site ressurge brevemente para o prometido especial de seu 11º aniversário, com a relação dos melhores filmes vistos nos últimos 12 meses, em ordem alfabética. Quem quiser ler meus rápidos comentários sobre as obras, é só visitar o Cinearquivo Irritante e fazer uma busca pelo título ou diretor; imagens de muitos desses filmes estão no Um Filme, Um Quadro _ cliquem no link para o arquivo das postagens no pé da página ou nas etiquetas que separam os filmes por décadas. Até a próxima!

    Obras-primas:

    Holiday (George Cukor, 1938)
    Little Odessa (James Gray, 1994)
    Mad Love (Karl Freund, 1935)
    Network (Sidney Lumet, 1976)
    O Estranho Caso de Angélica (Manoel de Oliveira, 2010)
    Road to Nowhere (Monte Hellman, 2010)
    The Circus (Charles Chaplin, 1928)

    Menções honrosas: 

    Akahige AKA Red Beard (Akira Kurosawa, 1965)
    Alô, Alô, Carnaval! (Adhemar Gonzaga, 1936)
    At Play in the Fields of the Lord AKA Brincando nos Campos do Senhor (Hector Babenco, 1991)
    Banditi a Orgosolo (Vittorio De Seta, 1961)
    Behind the Green Door (Jim Mitchell & Artie Mitchell, 1972)
    Cave of Forgotten Dreams (Werner Herzog, 2010)
    Champagne Charlie (Alberto Cavalcanti, 1944)
    David and Lisa (Frank Perry, 1962)
    Dead Ringers (David Cronenberg, 1988)
    Deconstructing Harry (Woody Allen, 1997)
    Devil in Miss Jones (Gerard Damiano, 1973)
    Die Marquise von Sade AKA Doriana Grey (Jesús Franco, 1976)
    Donzoko AKA The Lower Depths (Akira Kurosawa, 1957)
    Drums Along the Mohawk (John Ford, 1939)
    El Pasado (Hector Babenco, 2007)
    Essential Killing (Jerzy Skolimovsky, 2010)
    Estrada para Ythaca (Luiz Pretti, Guto Parente, Ricardo Pretti & Pedro Diógenes, 2010)
    Five Graves to Cairo (Billy Wilder, 1943)
    Gion no Shimai AKA Sisters of the Gion (Kenji Mizoguchi, 1936)
    Hard to Handle (Mervyn LeRoy, 1933)
    Holy Motors (Leos Carax, 2012)
    House of Bamboo (Samuel Fuller, 1955)
    I Am a Fugitive from a Chain Gang (Mervyn LeRoy, 1932)
    Jûsan-nin no Shikaku AKA 13 Assassins (Takashi Miike, 2010)
    Killer Joe (William Friedkin, 2011)
    King Kong (Merian C. Cooper & Ernest B. Schoedsack, 1933)
    L'Apollonide (Souvenirs de la Maison Close) (Bertrand Bonello, 2011)
    Malpertuis AKA The Legend of Doom House (Harry Kümel, 1971)
    Marquis de Sade's Justine (Jesús Franco, 1969)
    Midnight (Mitchell Leisen, 1939)
    Mistérios de Lisboa (Raoul Ruiz, 2010)
    'Non', ou A Vã Glória de Mandar (Manoel de Oliveira, 1990)
    O Palhaço (Selton Mello, 2011)
    O Rei da Noite (Hector Babenco, 1975)
    O Som ao Redor AKA Neighbouring Sounds (Kleber Mendonça Filho, 2012)
    Pete Kelly's Blues (Jack Webb, 1955)
    Potomok Chingis-Khana AKA Storm over Asia (Vsevolod Pudovkin, 1928)
    Quadrophenia (Franc Roddam, 1979)
    Quem És Tu? (João Botelho, 2001)
    Rekopis Znaleziony w Saragossie AKA The Saragossa Manuscript (Wojciech Has, 1965)
    The Appointment (Sidney Lumet, 1969)
    The Beatles: The First U.S. Visit (David Maysles, Susan Frömke, Albert Maysles & Kathy Dougherty, 1994)
    The Hunchback of Notre Dame (William Dieterle, 1939)
    The Rain People (Francis Ford Coppola, 1969)
    The Tales of Hoffmann (Michael Powell & Emeric Pressburger, 1951)
    The True Story of Lilli Marlene (Humphrey Jennings, 1944)
    The Unholy Three (Tod Browning, 1925)
    The Yards (James Gray, 1999)
    Tinker Tailor Soldier Spy (Tomas Alfredson, 2011)
    Tsubaki Sanjûrô AKA Sanjuro (Akira Kurosawa, 1962)
    Une Simple Histoire (Marcel Hanoun, 1959)
    Uwasa no Musume AKA The Girl in the Rumor (Mikio Naruse, 1935)
    Yajû no Seishun AKA Youth of the Beast (Seijun Suzuki, 1963)
    Yotsuya Kaidan AKA The Ghosts of Yotsuya (Masaki Môri, 1956)

    Séries de TV - destaques

    Boardwalk Empire - 1ª, 2ª e 3ª temporadas (2010-2012)
    Damages - 5ª temporada (2012)
    Generation Kill (2008)
    Homicide: Life on the Street - 1ª temporada (1993)
    Luck (2012)
    Mad Men - 5ª temporada (2012)
    Modern Family - 3ª temporada (2011-2012)
    Sherlock - 1ª e 2ª temporadas (2010–2012)
    The Office - 8ª temporada (2011-2012)
    30 Rock - 1ª temporada (2006-2007)

    quinta-feira, novembro 15, 2012

    Endereço alternativo

    Desde 2005, ao entrar em uma rede social que está para ser extinta, comecei a publicar nela curtas notas com as primeiras impressões dos filmes que via, apenas para fins de referência futura, sem a pretensão de ser lido. Como eram textos curtos e rápidos e os comentários eram constantes, a página se tornou bem mais atualizada que esta aqui, inicialmente reservada a filmes vistos nos cinemas. Com o fim do endereço original, migrei o conteúdo para o Blogger. Convido a todos que seguem este blog (que deve ser atualizado apenas em ocasiões especiais, como em seus aniversários) para seguirem agora seu irmão mais novo e ativo neste endereço _ que conta também com uma lista de links, algo que nunca fiz por aqui. Obrigado, espero vê-los comentando por lá.

    domingo, abril 15, 2012

    Uma década na tela


    Com um dia de atraso, a publicação de número 268 marca os dez anos desta página, surgida cerca de seis meses depois do início da febre dos blogs no Brasil (eu resisti muito a entrar na onda, como sempre; ainda assim, é um dos blogs de cinema mais antigos em língua portuguesa). O propósito era o de escrever sem os freios das publicações profissionais (eu estava deixando a Folha de S. Paulo, e a esculhambação já era anunciada no título) e também de me preparar para os estudos de cinema que marcariam meus anos seguintes. Hoje os blogs já pertencem à arqueologia da internet, o que ajuda a explicar a quase interrupção das postagens _ embora a dedicação a outros afazeres seja o grande motivo para o silêncio. Em tese, pretendo atualizar esta página apenas em ocasiões especiais, como nos seus aniversários, quando publico a lista dos melhores filmes (em ordem alfabética) que vi (ou revi) no ano que se passou. Vamos a ela:

    Obras-primas

    A Cottage on Dartmoor (Anthony Asquith, 1929)
    Berlin Alexanderplatz (Rainer Werner Fassbinder, 1980)
    Cutter's Way (Ivan Passer, 1981)
    North by Northwest (Alfred Hitchcock, 1959)
    S. Bernardo (Leon Hirszman, 1972)
    The 'High Sign' (Buster Keaton & Edward F. Cline, 1921)
    The Miracle Woman (Frank Capra, 1931)
    The Play House (Buster Keaton & Edward F. Cline, 1921)
    The Strong Man (Frank Capra, 1926)
    The Unknown (Tod Browning, 1927)

    Menções honrosas

    A Marvada Carne (André Klotzel, 1987)
    Badlands (Terrence Malick, 1973)
    Bringing Up Baby (Howard Hawks, 1938)
    Chinatown (Roman Polanski, 1974)
    Dellamorte Dellamore (Michele Soavi, 1994)
    Dodesukaden (Akira Kurosawa, 1970)
    Dog Day Afternoon (Sidney Lumet, 1975)
    Drive (Nicolas Winding Refn, 2011)
    Fargo (Joel & Ethan Coen, 1996)
    Goodfellas (Martin Scorsese, 1990)
    Groundhog Day (Harold Ramis, 1993)
    Häxan (Benjamin Christensen, 1922)
    He Walked by Night (Alfred Werker & Anthony Mann, 1948)
    High Noon (Fred Zinnemann, 1952)
    Iguana (Monte Hellman, 1988)
    Inherit the Wind (Stanley Kramer, 1960)
    'Je Vous Salue, Marie' (Jean-Luc Godard, 1985)
    La Piel que Habito (Pedro Almodóvar, 2011)
    La Roue (Abel Gance, 1923)
    Les Deux Timides (René Clair, 1928)
    Melancholia (Lars von Trier, 2011)
    Night Moves (Arthur Penn, 1975)
    Night of the Eagle AKA Burn, Witch, Burn (Sidney Hayers, 1962)
    Ninjô Kami Fûsen AKA Humanity and Paper Balloons (Sadao Yamanaka, 1937)
    Singin' in the Rain (Gene Kelly & Stanley Donen, 1952)
    Singularidades de uma Rapariga Loura (Manoel de Oliveira, 2009)
    Sweet Movie (Dusan Makavejev, 1974)
    Tender Mercies (Bruce Beresford, 1983)
    The Day of the Jackal (Fred Zinnemann, 1973)
    The Fallen Idol (Carol Reed, 1948)
    The Invisible Man (James Whale, 1933)
    The Killer Elite (Sam Peckinpah, 1975)
    The Tree of Life (Terrence Malick, 2011)
    They Made Me a Fugitive (Alberto Cavalcanti, 1947)
    Warui Yatsu Hodo Yoku Nemuru AKA The Bad Sleep Well (Akira Kurosawa, 1960)
    Welt am Draht AKA World on a Wire (Rainer Werner Fassbinder, 1973)

    Séries de TV - destaques

    Curb Your Enthusiasm - 8ª temporada (2011)
    Modern Family - 1ª e 2ª temporadas (2009-2011)
    The Big Bang Theory - 4ª temporada (2010-2011)
    The Sopranos (1999–2007)

    Agradeço a todos os visitantes e leitores. Até breve.

    terça-feira, outubro 04, 2011

    Um trabalho menos estranho

    Fui levado ao cinema no "horário mais nobre da estreia", domingo, no início da noite, para ver "Trabalhar Cansa", primeiro longa de Marco Dutra e Juliana Rojas. Na entrada da sala, no Shopping Metrô Santa Cruz, o cartaz trazia uma citação de um crítico estrangeiro que dizia que a obra era uma espécie de encontro entre "O Iluminado" de Kubrick e a obra de Vittorio de Sica. Ao entrar na sala, a exemplo do que ocorreu com outro filme brasileiro que vi em condições semelhantes, "Encarnação do Demônio", o ambiente estava tristemente vazio.

    O texto no cartaz havia reforçado a impressão que eu tive vendo o trailer (não me lembro se na internet ou antes de alguma outra sessão): tratava-se de um filme que abordava as relações de trabalho (dã, olha o título _ talvez uma referência ao livro de poesia de Cesare Pavese?), mas também adentrava com força no suspense, talvez até explorando o sobrenatural.

    Mas, como também observou Inácio Araújo, a quem só fui ler depois de ter visto o filme, há uma hesitação em adentrar mais profundamente nesse mistério. Somos expostos a uma série de eventos sugestivos (o nariz sangrando _ ah, mas é o "tempo seco" _, o bezerro de duas cabeças, a coleira gigantesca, os produtos que desaparecem sem explicação, a parede apodrecendo _ lembra Edgar A. Poe _, a excelente sacada do Papai Noel ativado por movimento, etc., enquanto vários diálogos fazem referência aos antigos locatários do mercadinho, sobre quem persiste a obscuridade), mas nunca se avança muito. Há uma promessa que não é cumprida, e isso é triste. É um defeito sério (para mim, maior que quaisquer problemas de fotografia e som) de um bom filme, que poderia ter ficado muito melhor se o roteiro tivesse sido mais bem trabalhado (reescrever cansa?) ou se tivesse existido o almejo pela clareza, essa coisa tão difícil de alcançar no cinema (eu também já falhei neste quesito, mas não foi de propósito. Será que foi de propósito no filme da dupla?).

    Como essa parte do fime é desprezada, resta o outro lado, o retrato do pesadelo da contemporaneidade, o mundo cão do mercado de trabalho. A classe média é explorada, mas também explora. A humilhante opressão econômica traz à tona o pior de todos. O filme é sufocante nesse sentido, com o único momento de triunfo para a personagem em situação de maior precariedade _ mas mesmo essa rara lufada de ar traz um cheiro podre. Fica uma combinação de medo e ódio diante de uma crueldade estapafúrdia. Passamos por isto (e a câmera do filme passou pela esquina da minha casa). Não tá fácil pra ninguém.

    Para mim, apesar dessa pequena decepção, fica também a alegria de rever, na última cena (previsível e forte), o Eduardo Gomes (gostei também de todo o resto do elenco; ficam aqui meus parabéns para a Gilda Nomacce, premiada em Brasília), ator que estreou diante das câmeras comigo, no meu primeiro exercício de direção e montagem, lá em 2004 ("holy shit, it's the 21st century!"). Recentemente também vi os outros atores do curta, Cássio Inácio e Rogério Brito, trabalhando por aí... Que venha mais.

    ***

    Mas veio, pois a semana trouxe uma excelente notícia: um projeto da Ana Paul, hoje sem dúvida uma das maiores especialistas em dramaturgia para as telas deste país, foi merecidamente premiado pela TV Cultura. É um trabalho belíssimo, com a personalidade da autora, mas que também diz respeito a algo maior (maior?). Torço para que os próximos obstáculos para a realização desta obra sejam também superados.

    quarta-feira, agosto 24, 2011

    Regresso à "Volta"

    A 48ª edição da revista eletrônica "Zingu!" faz uma mais que merecida homenagem a um artista de primeira categoria, o ator, diretor, dramaturgo e escritor Ênio Gonçalves. Para minha alegria e honra, "A Volta do Regresso" foi incluído na filmografia selecionada e ganhou um texto analítico honesto (generoso, mas sem ser condescendente _ fiquei especialmente feliz com as observações sobre aspectos da fotografia, da decupagem, da cenografia, da música, etc.) de Cid Nader, do Cinequanon. O link está aí e eu recomendo o clique _ mas como não confio tanto na durabilidade neles, peço licença para reproduzir o texto aqui, para fins de arquivo:

    "Lançado no ano de 2007, A Volta do Regresso parece um estímulo à compreensão e observação de um gênero que tem ganhado seu justo reconhecimento a cada golfada de novos cinéfilos, e de um certo movimento crítico, mais propensa a entender melhor as nuances (e evidente riqueza) de nosso cinema “pré-acabamento à Globo Filmes”. Como não é possível deixar de lembrar do profícuo período da pornochanchada (algo que se estendeu mais fortemente do início dos 70 aos meados dos 80 – chutaria, para não querer enclausurar tal “escola” em períodos rígidos) como uma marca de nossos pendores à apreciação da beleza, não é justo deixar de lado uma das razões de sua maior fartura no período citado decorrendo das obstruções que o período da ditadura militar impôs aos trabalhos que ameaçassem abertamente citá-la com “intenções contra-revolucionárias”.

    Mas, talvez, a maior marca mesmo (para os conhecedores e para os que passearam superficialmente pelo estilo) esteja na figura de alguns atores que são reconhecidos em suas carreiras (para o bem e para o mal, já que muitos “sofreram” com a pecha de um estigma meio maldito) por serem presenças constantes nas produções mais conhecidas que brotaram dali. E Marcelo Valletta, reverente ao modelo, provável adorador do período, e, certamente, agindo como um arrogador das virtudes de figuras que considera mais importantes do que as “notáveis do brilho fácil”, fez esse seu curta-metragem amparado fortemente nas presenças pra lá de icônicas de Ênio Gonçalves e de Carlo Mossy – com uma leve e bem-vinda canja para a bela figura de Kate Hansen (sonho de consumo de muitos meninos).

    Ao contar a história de um diretor novato que vai à busca de um ator/ídolo/”incompreendido” (Mossy nos tempos atuais) para interpretar um papel numa nova produção, Valletta faz de Ênio Gonçalves uma espécie de guru/produtor e determina um trabalho que se nutre dos mais variados elementos que o cinema da época da pornochanchada utilizou. Além da escancarada homenagem a esses três atores – que é bela porque se faz a partir da devoção a eles ultrapassando as posições ante as câmeras, para se fixarem também na figura do personagem/diretor (uma representação evidente do fascínio do diretor real, que ganha corpo e voz no fictício) -, A Volta do Regresso tenta em outras instâncias similaridades nas excelências de então: os modelos de angulação das lentes em muitos instantes têm a mesma busca, por prismas dos mais repetidos, e limpidez das imagens (aí com obtenção auxiliada pelo modelo de iluminação e vigor nas cores) – há também ousadia bastante interessante num travelling pendular que se faz entre dois cenários, e um belo close de Mossy, tomado de cima, que consegue um resgate mais iluminado do rosto marcado pela idade com inteligência na captação do brilho de seus olhos azuis -; a música quase de elevador que retoma muito do que se fazia então; o humor meio “sacana”, sem ser escancarado, mais malandro; a pinga sendo bebida no lugar do whisky num típico bar urbano de então…

    Longe de ser revolucionário, sua força está totalmente na ideia de ser reverente e evocador de um modelo muito específico, com complementações evidentemente obtidas por aprendizado em escola de cinema. E não bastassem tais reverências em filme, ainda há uma outra logo no início dos créditos finais, com louvável citação em homenagem a Guará Rodrigues (que extrapolou as fronteiras, indo ao cinema marginal e ao trash, também)."

    Eu poderia escrever uma réplica, apontando alguns pontos com os quais não concordo, mas isso me parece infrutífero, porque não há falha nenhuma na recepção do crítico, mas sim na minha transmissão. Reconheço os defeitos desse filme que às vezes o fazem ser tomado por algo que não foi minha intenção original e guardo com cuidado as lições aprendidas no decorrer desse desejado e doloroso processo. Espero poder utilizá-las em projetos futuros. Afinal, não desisto nunca.

    ***

    Uma sessão lotada no fim de semana de estreia e uma folga muito adiada fizeram com que eu visse "A Árvore da Vida", o quinto longa de Terrence Malick, em condições não muito favoráveis: pessoas (incluindo crianças) abandonando a sala durante o tempo todo, conversas paralelas pipocando, muitas ofensas durante e ao final do filme (neste ponto, uma senhora exclamou um irônico "Graças a Deus!") e até um homem roncando atrás de mim. Fiquei devendo uma revisão a esta obra vista de maneira tão desconfortável, mas é verdade que parte desse desconforto veio também da tela: eu me incomodei bastante com o que já estão chamando de "descanso de tela do Windows" ("Só tem paisagem!", reclamou uma senhora para uma amiga, na saída) por ter achado a conjunção daquelas imagens e daquelas músicas um tanto convencional, o que nunca senti vendo outros trabalhos do diretor _ até mesmo aquele de que menos gostei, "Além da Linha Vermelha". Mas não me desagradam as relações que o filme faz com a Bíblia (em especial com o Livro de Jó, com o qual Malick parece se identificar, com o personagem de Jack O'Brien _ J.O.B. _ sendo testado por seu pai, ou seja, Deus) e com sua biografia (o diretor perdeu um irmão, violonista, que se suicidou ainda jovem). Enfim, neste primeiro contato, não saí achando que vi uma obra-prima, mas também não o considero uma bobagem "new age" (ainda se fala assim? Quantos anos tem esse termo, uns 20?). E como Malick fez apenas 5 longas, não é grande problema eu fazer um top 5 do diretor, que, até a revisão de seus filmes, fica assim:

    1 - Badlands
    2 - The New World
    3 - Days of Heaven
    4 - The Tree of Life
    5 - The Thin Red Line

    terça-feira, julho 19, 2011

    Top 20 Hitchcock

    A mostra completa de Alfred Hitchcock está agitando os cinéfilos paulistanos, e com razão. Infelizmente, eu não tive tempo de conferir muitos dos meus filmes preferidos desse familiar diretor britânico na tela grande, onde devem funcionar melhor que nunca.

    Curiosamente, no início do ano, em viagem à casa de meus pais, aproveitei a folga para terminar de ver uma caixa de DVDs que meu irmão me trouxe da Califórnia com quase todos os filmes da fase inicial do mestre do suspense. Foi ótimo comparar o cineasta que Hitchcock se tornaria com seus primórdios _ ficando claro que, tristemente, se o diretor vivesse nos tempos de hoje, dificilmente teria uma carreira.

    O crescimento de meu repertório _ é bom lembrar que vi meu primeiro Hitchcock, "Janela Indiscreta" (meu preferido até hoje), aos 8 ou 9 anos de idade, ficando fã instantaneamente e vendo tudo o que pudesse, ainda na era dos VHS _ fez também com que eu viesse a concordar com David Bordwell, por exemplo, que hoje o vê como um cineasta um tanto superestimado. Claro que isso depende do referencial e não apaga o fato de que se trata de um cineasta que realmente merece o epíteto de mestre.

    Como a Liga resolveu elaborar um ranking com atribuição de notas de 0 a 10 (entre parênteses) para todos os filmes do nosso amigo, a confecção dessa lista a seguir é quase automática. Obviamente, as posições devem mudar assim que os filmes forem revistos e a paixão por eles reestimulada ou decrescida. Dos filmes elegíveis, seis _ "The Pleasure Garden", "Downhill", "Murder!", "Mary", "Waltzes from Vienna" e "Mr. & Mrs. Smith" _ não foram considerados porque ainda não os vi. E um sétimo, "Dial M for Murder" (preferi deixar todos os títulos no original para evitar confusões, já que "O Ringue" virou "O Aviso" e "O Ilhéu", "Pobre Pete"), também ficou de fora porque foi visto há tempo demais para que eu possa considerá-lo sem cometer injustiças. Quem sabe no futuro surja outra oportunidade como esta e eu possa comparar como minhas predileções mudam com o tempo...

    1 - Rear Window (10)
    2 - Vertigo (10)
    3 - The 39 Steps (10)
    4 - Notorious (9,5)
    5 - Saboteur (9,5)
    6 - Sabotage (9,5)
    7 - The Birds (9)
    8 - Psycho (9)
    9 - Stage Fright (9)
    10 - Strangers on a Train (9)
    11- Shadow of a Doubt (8,5)
    12- Family Plot (8,5)
    13 - North by Northwest (8,5)
    14 - Foreign Correspondent (8,5)
    15 - The Man Who Knew Too Much - remake de 1956 (8,5)
    16 - The Man Who Knew Too Much - de 1934 (8)
    17 - Rebecca (8)
    18 - Lifeboat (8)
    19 - The Lodger: A Story of the London Fog (8)
    20 - Frenzy (8)

    Compilada a lista, com base em notas dadas ao longo dos anos, desconfio da mesma de imediato. Será que "Strangers on a Train" merecia posição tão alta? "Shadow of a Doubt" não merecia estar alguns degraus acima? "The Trouble with Harry", que também tirou nota 8, poderia ter entrado? E por que "Blackmail", do qual tenho lembrança tão forte, ficou de fora? Ótima oportunidade para rever esses filmes e reembaralhar essas cartas, sempre que possível...

    segunda-feira, abril 25, 2011

    9 anos na tela

    Pela primeira vez, deixei de publicar uma mensagem especial de aniversário deste idoso endereço na data correta, 14 de abril. O motivo foi uma excelente viagem ao Chile, com direito a encontro com um amigo que não via há quase 15 anos seguido de uma homérica bebedeira de pisco. Então, com atraso e sem mais delongas, segue a lista, em ordem alfabética, dos melhores filmes vistos (ou revistos) no último ciclo. Para ver as dos anos anteriores, é só clicar na etiqueta "aniversário", lá embaixo. Abraços!

    Obras-primas

    Cabra Marcado Para Morrer (Coutinho, 1985)
    Elephant (Clarke, 1989)
    Grey Gardens (Maysles & Maysles, 1975)
    Hakuchi AKA O Idiota (Kurosawa, 1951)
    La Vie Est un Roman (Resnais, 1983)
    Le Signe du Lion (Rohmer, 1962)
    Lonely Boy (Koenig & Kroitor, 1962)
    McCabe & Mrs. Miller (Altman, 1971)
    Perfect Blue (Kon, 1998)
    Sabotage (Hitchcock, 1936)
    Salomè (Bene, 1972)
    Solyaris (Tarkovsky, 1972)
    Straw Dogs (Peckinpah, 1971)
    The Big Parade (Vidor, 1925)
    Vivre Sa Vie: Film en Douze Tableaux (Godard, 1962)

    Menções honrosas

    All the King's Men (Rossen, 1949)
    Berlin: Die Sinfonie der Grosstadt (Ruttmann, 1927)
    Casa de Lava (Costa, 1994)
    Céline et Julie Vont en Bateau (Rivette, 1974)
    Como Era Gostoso o Meu Francês (Santos, 1971)
    Das Weiße Band - Eine Deutsche Kindergeschichte (Haneke, 2009)
    Daydreams (Keaton & Cline, 1922)
    De Fem Benspænd AKA The Five Obstructions (Trier& Leth, 2003)
    Der Amerikanische Soldat (Fassbinder, 1970)
    Die Büchse der Pandora (Pabst, 1929)
    Dirty Harry (Siegel, 1971)
    Fat City (Huston, 1972)
    Hellboy II: The Golden Army (Toro, 2008)
    Jogo de Cena (Coutinho, 2007)
    La Belle Noiseuse (Rivette, 1991)
    Les Sièges de l'Alcazar (Moullet, 1989)
    Nick's Film - Lightning Over Water (Wenders & Ray, 1980)
    Out 1, Noli me Tangere (Rivette, 1971)
    Providence (Resnais, 1977)
    Safety Last! (Newmeyer & Taylor, 1923)
    Saute Ma Ville (Akerman, 1968)
    Soldier Blue (Nelson, 1970)
    Street Scene (Vidor, 1931)
    Sud Pralad AKA Mal dos Trópicos (Apichatpong Weerasethakul, 2004)
    Tengoku to Jigoku AKA Céu e Inferno (Kurosawa, 1963)
    The Act of Seeing with One's Own Eyes (Brakhage, 1971)
    The Beguiled (Siegel, 1971)
    The Clock (Minnelli, 1945)
    The Grissom Gang (Aldrich, 1971)
    The Hurt Locker (Bigelow, 2008)
    The Killers (Siegel, 1964)
    The Limits of Control (Jarmusch, 2009)
    The Long Goodbye (Altman, 1973)
    The Private Life of a Cat (Hammid, 1944)
    The Shootist (Siegel, 1976)
    The Terminator (Cameron, 1984)
    Tonari no Totoro AKA Meu Vizinho Totoro (Miyazaki, 1988)
    Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora É Outro (Padilha, 2010)
    True Heart Susie (Griffith, 1919)
    Ulzana's Raid (Aldrich, 1972)
    Vanishing Point (Sarafian, 1971)
    Vincere (Bellocchio, 2009)
    Wake in Fright (Kotcheff, 1971)
    Wall Street (Stone, 1987)
    You Will Meet a Tall Dark Stranger (Allen, 2010)

    Menções horrorosas (ou as tranqueiras do ano):

    Alice in Wonderland (Burton, 2010)
    Rota Comando (?, 2009)

    Séries de TV - destaques

    Breaking Bad - 3ª temporada (2010)
    Curb Your Enthusiasm - 3ª, 4ª, 6ª e 7ª temporadas (2002, 2004, 2007 e 2009)
    Dexter - 5ª temporada (2010)
    In Treatment - 1ª temporada (2008)
    The Pacific (2010)
    The Simpsons - 8ª temporada (1996-1997)
    Twin Peaks (1990–1991)

    quarta-feira, fevereiro 09, 2011

    Cinema para sentir pena

    Eu nem ia escrever sobre "Cisne Negro", mas o filme está sendo tão comentado e dividindo opiniões de forma tão radical que fica irresistível _ e como tenho buscado que este blog volte à sua proposta inicial, a de comentar filmes que estão em cartaz (tem sido raro vê-los, então as publicações também o serão, ufa)...

    Tenho lido muita gente que gostou do filme novo do Darren Aronofsky dizer que se sentiu impactada por ele. Entendo, mas isso me dá a impressão de que se trata de gente que não viu muitos filmes _ em especial, filmes dignos de passar na Sessão do Comodoro (onde vi há pouco "Born of Fire", fantasia mística de inspiração muçulmana). Não é um filme aterrador, longe disso; faz alguma menção a "Carrie" por causa das figuras da mãe castradora e da filha sexualmente reprimida, mas o sobrenatural dá lugar a um psicologismo raso, óbvio.

    Como resultado, o filme se torna muito previsível _ e mesmo que essa previsibilidade não existisse, ainda assim o clímax da narrativa não é muito poderoso. Chega a ser banal dizer que fica a milhas de distância de "Os Sapatinhos Vermelhos", mas não posso deixar de aproveitar a oportunidade de recomendar o filme de Powell & Pressburger (não vi aquele do Altman com a Neve Campbell, mas seria interessante compará-los). E também achei muito pertinente a recomendação (não me lembro se de Marcelo Miranda ou de Sérgio Alpendre) de "Showgirls", maravilhoso e injustiçado filme de Paul Verhoeven, como contraponto ao flébil filme do seu Arô (por outro lado, não pesquei muito bem as referências do Ailton a "Clube da Luta", mais surpreendente ainda, e "A Mosca".

    Mas como eu disse que entendo quem se diz impactado por ele, ao final da exibição eu tinha sentido que tinha visto o "menos pior" do diretor. Isso porque dias antes eu tinha visto "O Lutador", defendido por muitos como o ponto alto de sua carreira (curiosamente, deve ser seu filme menos pretensioso e mais despojado), mas que não me impressionou. Vá lá, Mickey Rourke entrega mais uma grande atuação e carrega o projeto nas omoplatas, mas o desleixo da câmera, a obviedade de certas tramas (a relação com a filha é extremamente insatisfatória e, novamente, óbvia, assim como o retrato da stripper/mãe de Marisa Tomei) e o final meio covarde são alguns problemas graves. Há, sim, cenas muito boas, como a de The Ram trabalhando como atendente simpático de supermercado, a que ele mostra o videogame inspirado nele feito para o velho Nintendinho (e o menino que joga com ele fica falando de "Call of Duty") e a que o filho da stripper se diverte com o boneco do protagonista, mas são apenas bons momentos em um filme que também não vai fundo.

    Basicamente, dois defeitos fundamentais do Arô: falta de sutileza e falta de profundidade. Mas, convenhamos, são duas qualidades bastante difíceis de alcançar, em especial no cinema. Quem sabe um dia...

    Curiosamente, pouco depois eu vi o primeiro filme de um diretor da mesma geração que também divide opiniões de maneira radical, o Christopher Nolan. Seu primeiro longa (na verdade, quase isso: tem 69 minutos apenas), "Following", já foi comparado ao "Pi" do Arô (não vi nem tenho vontade), mas não sei se a comparação procede ou é apenas por causa do preto e branco ou porque são longas de estreia. Pareceu-me mais influenciado pelo Tarantino dos dois primeiros longas, anunciando a mistura temporal que voltaria em "Memento", o filme que o consagrou, mas que também é considerado uma bobagem por muitos (se não me engano, o Inácio Araújo o chama de "Desejo de Matar de trás para a frente").

    A obra segue a cartilha do noir ao pé da letra, levando a ação para a Londres contemporânea. Estão lá o golpista (que se chama Cobb, nome que reaparecerá em um filme pior, mas mais famoso), a femme fatale, o bandidão, o ingênuo, o policial. A história é contada em três tempos e aos poucos vamos vendo, também como esperado, que "ninguém é o que parece". É um filme esperto, sabiamente curto, e há que se dar o crédito a Nolan por tê-lo escrito, fotografado e dirigido antes de completar 30 anos. Se ele descer das tamancas, pode entregar coisa boa.

    ***

    Last, but not least: teaserzinho para o "Rarefactum" (não chega perto de dizer o que é o filme, mas adianta algumas imagens).

    quinta-feira, dezembro 16, 2010

    Tenso

    Não sei se foi o relativamente longo período que fiquei longe de uma sala de cinema, de seu poder de envolver com imagem e som, mas fazia um tempo que um filme não mexia tanto comigo fisicamente: durante as mais de duas horas de "Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora é Outro", fiquei "na beirada da cadeira", em estado de tensão permamente (como tinha acontecido quando vi um filme muito diferente, "Apocalypto"). Ponto para o José Padilha, esse cineasta tão peculiar (que não se diz artista e aposta numa visão cientificista do mundo, com filmes que parecem defender teses), e sua turma (com Bráulio Mantovani no roteiro e Daniel Rezende na montagem, consagrados com "Cidade de Deus" _ Lula Carvalho havia sido primeiro assistente de câmera de César Charlone; a trilha sonora de Pedro Bromfman também tem mérito), que acabam de bater o tão propalado recorde de público de "Dona Flor e Seus Dois Maridos" e talvez passem da inédita marca de 11 milhões de espectadores.

    Duas proezas ajudam a explicar o desempenho notável: conseguiram coibir a pirataria, que, se por um lado deve ter causado grande prejuízo aos produtores com a obra antecessora, possibilitou que o filme de 2007 se tornasse um evento a ponto de motivar uma sequência; mas o que interessa mesmo é que se trata de um filme muito melhor que o anterior. Também me pareceu muito diferente em alguns aspectos.

    O Capitão Nascimento (agora tenente-coronel, mas a patente nova "não pegou") continua não sendo exatamente um herói. Se no primeiro filme ele aparecia como um covarde (no fundo, quem estava "pedindo para sair" do Bope era ele) e um neurótico, agora ele passa quase todo o filme alquebrado (sempre curvado e com olheiras, aparentando cansaço e desencanto permanentes _ou seja, virou adulto, provavelmente motivado pela paternidade). Ele também evolui do Nascimento do filme anterior (o que critica em sua narração o "intelectual de esquerda maconheiro", discurso que gera delírio na plateia que, especifica o filme, acha que "bandido bom é bandido morto") para alguém que de repente tem como ideia fixa "foder o sistema" (digno de letra do nosso vasto cancioneiro punk rock). Em suma, revela-se um grande ingênuo, um personagem quixotesco.

    O interessante é que Padilha e Mantovani decidiram recorrer ao suspense, o que não ocorria no filme anterior. Com os personagens sem saber o que o espectador sabe, apesar de Nascimento ser o narrador, já coloca o filme em outro nível. Outro aspecto muito bem sucedido do filme é que Nascimento ganha um nêmesis que não apenas é seu oposto, mas o substitui em seu papel familiar (como bem observou a Ana, o Fraga de Irandhir Santos começa o filme com forte sotaque nordestino, que se suaviza após ele entrar para a política).

    Também me chamou a atenção duas frases de um dos vilões mais revoltantes (o mais engraçado é André Mattos, dando uma de Datena _ sei lá quem é o equivalente no Rio), o miliciano Rocha, que fazem ligação com uma das cenas mais famosas de "Cidade de Deus", quando Dadinho vira Zé Pequeno: "Quem foi que disse que o comando é teu?" e "Quem foi que disse que a comunidade é tua?" Ninguém perguntou isso pro Mantovani?

    Somado a tudo isso, temos esse resumo e essa simplificação de uma questão muito complexa, mas atacada com fervor didático e enfático ("A PM do Rio tem que acabar!", fala Nascimento em um dos muitos momentos em que se coloca como representante das vontades muitas vezes furiosas do "povo" _ como a propalada manifestação da plateia de Paulínia, onde o filme estreou, no momento em que um político é espancado de modo não muito diferente da surra que Gene Hackman deu em Richard Harris em "Unforgiven" _na sessão que vi, houve silêncio): da imprensa a Brasília, passando pelo governador do Rio (um ator meio parecido com Sérgio Cabral _ ou com o presidente da Ancine, segundo outra fonte), ele parece não exatamente esgotar a questão, mas dar um grito de revolta, embora também pareça saber que essa indignação no fundo é pueril.

    ***

    Acabamos de acabar a versão mais curta (com 2min30s) de "Rarefactum", documentário que tive a honra de montar e fazer o desenho de som. Parece que ficou lindo, mas sou suspeito para falar. Eu estava mesmo precisando participar de um novo filme _ e agora continuo a precisar de outros. Que venham.

    ***

    E um feliz Natal para todos. Nos vemos por aqui, por ali, por acolá e por aí, neste resto de 2010 _ e, se por um acaso a morte ou o fim da civilização como a conhecemos não chegarem antes, em 2011.

    quinta-feira, novembro 25, 2010

    Pega um, pega geral

    É triste voltar a constatar que, apesar de continuar a ver filmes (ou séries da TV americana) todos os dias, raramente vou ao cinema. O grande vilão é a falta de tempo, mas a oferta pouco atraente de filmes e salas (e a gente ainda perdeu o Gemini, que era barato, honesto, "roots" a ponto de nem aceitar cartão de crédito e ainda te dava uma simpática paçoca junto com o ingresso), além das projeções porcas e do avanço da dublagem, tem matado a vontade de eu matar a saudade da tela grande.

    E olha que agora eu voltei a ter direito a meia-entrada em uma grande rede de salas, dessas que pagam um salário de fome a seus empregados mas cobram ingresso com preço dos EUA, graças a um convênio com um dos meus três (eu nunca tive cartão de crédito até há um ano e agora tenho três, maldito sistema bancário) plásticos-navalha. Mesmo assim, acabei por não encontrar uma oportunidade para ver "Tropa de Elite 2", o filme que em tese eu comentaria neste texto, embalado pela insistência do Jornal Nacional em mostrar imagens da operação conjunta do Bope com a Marinha na Vila Cruzeiro. E 2010 ainda marca o meu primeiro ano em quase uma década sem ter ido a uma sessão da Mostra, sendo que teve ano que cheguei a pegar cerca de 20 sessões _ número pífio para muitos, mas eu nunca gostei de ver mais de duas sessões em um dia, o que satura olhos e cérebro.

    Para compensar esse intróito deprimente, é com grande alegria que registro minha volta ao curta-metragem, desta vez ganhando em vez de gastar dinheiro (embora este aspecto seja ínfimo comparado à realização de participar de mais uma obra). É um projeto do qual me orgulho muito, capitaneado pela Ana Paul, que _ quem conhece, sabe _ é brilhante. Chama-se "Rarefactum", ganhou prêmio da prefeitura de São Paulo e é um registro preciso e precioso dessa cidade que se tornou minha. Ah, e é falado em latim. Mais detalhes no futuro, se ele chegar.

    ***

    Como os blogs já morreram e não sabem, tenho achado mais interessante registrar o que tenho visto por meio de imagens _ o que é bem mais efetivo do ponto de vista mnemônico (é verdade, continuo fazendo observações rápidas e curtas aqui). E como a proposta deste espaço foi sempre a de se limitar aos textos, esta arte cada vez mais obsoleta e odiada (fotos só foram publicadas aqui quando diziam respeito a filmes nos quais eu estive envolvido), faço esse registro neste endereço: http://umfilme.tumblr.com. Quem já tem um Tumblr pode me seguir, reblogar e, depois de duas semanas (não sei porque o site impõe esse intervalo), comentar.

    Também participei, a convite do Ailton, da Pesquisa Literária feita pelo blog RD - B side. Gostei muito da publicação, com as capas dos cinco últimos livros que eu tinha terminado de ler até o momento da resposta (e eu sempre leio no mínimo umas quatro ou cinco obras diferentes ao mesmo tempo). Então, enquanto eu não volto a publicar por aqui (talvez na semana que vem eu finalmente veja o filme do Padilha, que está caminhando para se tornar o campeão de bilheteria do país), vamos à leitura de coisa bem melhor!

    quinta-feira, setembro 23, 2010

    Vai sonhando, Nolan

    E vamos ao segundo texto seguido com "sonho" no título: aconteceu que vi o tão comentado "Inception" ou "A Origem", filme novo do cineasta que fez de Gotham City um lugar bem chato. E é difícil de entender o motivo pelo qual andam comparando o Christopher Nolan até com Stanley Kubrick, um tremendo disparate.

    O filme segue estratégia muito parecida com "Memento" ou "Amnésia", produção de 2000 que catapultou sua carreira: usa de um artifício para embaralhar um filme de gênero. No mais antigo, o filme era de vingança; agora, é de "homens em missão".

    E até que é um filme bem divertido, quando a ação começa. Mas, até lá, a primeira hora só não chega perto do insuportável porque, ironicamente, é soporífera: interrompi o filme por aí e fui dormir, continuando no dia seguinte (outro que disse que o filme dá sono é o Ailton). Trata-se de um mal necessário: como Nolan criou um mecanismo engenhoso e complicado para fazer com que seu filme fosse superficialmente diferente de um "The Dirty Dozen" ou "Inglorious Basterds", foi preciso gastar uma hora com uma aula explicando tudo nos mínimos detalhes... E parece que ainda assim teve gente que não entendeu ou, para piorar, fica elaborando teorias estapafúrdias sobre o que o enredo realmente significaria...

    E para dar um pouco mais de substância, o filme também traz duas relações conflituosas entre personagens, a de Leonardo DiCaprio com Marion Cotillard (e o martelamento irônico de "Non, Je ne Regrette Rien" _ tema de Zelda Scott em "Armação Ilimitada", hehehe) e a de Cillian Murphy com Pete Postlethwaite. OK, seu Nolan, o sr. me garantiu uns 60 minutos de espancamento das gônadas e 80 minutos de ação rasa e divertida. Pelo menos ainda prefiro ver seus filmes que ler as defesas acríticas de seus fanboys.

    segunda-feira, agosto 30, 2010

    A morte do senhor dos sonhos

    Pela pouca idade e pelo grande talento, a morte de Satoshi Kon, no dia 24, deixou-me especialmente chocado. Desde a de Michael Jackson eu não era tão afetado pela partida prematura de um artista.

    Kon fez apenas quatro longas (um quinto está em produção) e uma série televisiva em 13 episódios; desses, vi apenas dois, mais que suficiente para virar fã. O primeiro, visto em 2006, foi Tokyo Godfathers (2003): um impressionante auto de Natal, embalado por uma versão japonesa de "Noite Feliz" e pela Nona Sinfonia de Beethoven, no qual os Três Reis Magos são um mendigo, uma adolescente que fugiu de casa e um transexual. Nada de monstros ou ciborgues ou sociedades futuristas fascistoides ou artes marciais ou florestas encantadas (nada de errado com essas coisas; apenas fiquei impressionado por o filme fugir de todos esses clichês do anime). Junte-se a isso um grande senso de humor e sofisticação visual e temos um filme belíssimo.

    O outro foi visto dois dias depois da morte do diretor. É sua estreia, Perfect Blue (1998). Difícil saber qual dos dois é melhor, pois são tão diferentes. Tem decupagem e montagem impressionantes, um roteiro bastante complexo (que vive nos pregando peças, misturando ficção e "realidade") e uma trilha sonora contagiante. Não vi nem sei quando vou ver o "Inception" do Nolan, mas é bem duvidoso que seja tão interessante quanto este, "Paprika" (2006) ou seu último projeto a ser lançado, um road movie sobre robôs que sonham.

    ***

    Um último texto de Kon foi publicado em seu blog após sua morte. Difícil não se identificar com ele quando diz que "nunca se sentiu como parte de uma maioria", sentimento tão comum entre certos artistas. De não se emocionar quando sua mãe lhe pede desculpas por não tê-lo "trazido ao mundo com um corpo mais forte". De não se encantar com o tradicional sentimento japonês ao considerar "desrespeitoso morrer antes de seus pais". Uma carta-testamento digna, que exala sentimentos como "a gratidão por tudo de bom no mundo". Grande Satoshi Kon.

    Como bônus, ele também publicou uma lista de filmes que o influenciaram em seu trabalho mais recente. Não faltam obras-primas _ é claro que a gente perdoa um ou outro do qual não gosta.

    ***

    Nas duas vezes em que fui morar fora do país para estudar, tive colegas de classe do Japão. Baseado nessa convivência, posso dizer que o nome de Hayao Miyazaki, talvez a figura mais eminente da animação da atualidade no país (claro que não podemos nos esquecer da sumidade Osamu Tezuka e de muitos outros; temo que nós do Ocidente dificilmente teremos uma real noção da rica produção cultural asiática), não só é famoso como muito querido. "Meu Vizinho Totoro" (1988) já é um clássico, sempre lembrado com um sorriso pelos meus colegas. É um filme que, apesar de toda a fantasia, captura perfeitamente a infância (as meninas Satsuki e Mei são exemplares). Muito caloroso e bonito plasticamente, praticamente prescinde de roteiro - por mim, poderiam ser duas horas com as meninas brincando e já seria um grande filme.

    Feito 20 anos depois, "Ponyo", que teria sido inspirado por "A Pequena Sereia" da Disney, impressiona pela ambição das cenas subaquáticas (especialmente nos minutos iniciais). A trilha sonora grandiloquente (aparentemente, uma homenagem a Wagner e a seu "O Anel dos Nibelungos") do colaborador habitual Joe Hisaishi é outro destaque. A relação do peixinho dourado que se transforma em uma menina de 5 anos com o seu amado Sosuke também é um belo retrato dessa fase da vida, que provavelmente aproveitamos melhor quando somos pais, já que a memória não costuma reter muito bem esse período.

    ***

    Ontem foi meu aniversário. Curioso que sempre me considerei (e fui considerado por outrem) alguém com cabeça de velho (no sentido de sério, disciplinado, aplicado e obcecado pelo conhecimento) em corpo jovem, mas agora já começo a me sentir alguém com mente jovem (no sentido de irrequieto, agitado e ainda ávido por aprendizagem) em um corpo sem a mesma energia _ desconfio que se trata mais de reflexo da falta de exercício físico (preciso voltar à natação) que da idade, que ainda não é muita. Mas vale registrar dois belos presentes audiovisuais que ganhei (normalmente me dão livros, mas neste ano foi diferente): as caixas com as temporadas completas de "Monty Python's Flying Circus" e "Twin Peaks", duas pérolas. Grazie mille!

    segunda-feira, agosto 02, 2010

    O "lixo" de Tarantino

    De uns tempos para cá, infelizmente dá para contar nos dedos as vezes em que vou a uma sala comercial de cinema por ano. Para investir meu parco tempo livre e meu rico dinheirinho (podem inverter os adjetivos, dá na mesma) e correr o risco de encarar uma projeção digital porca e uma plateia cada vez mais intolerante e mal educada, o filme tem de ser muito atraente (felizmente resisti ao instinto de conferir o "Alice no País das Maravilhas", um fracasso do Tim Burton). E o circuito normalmente não ajuda. Mas isso tudo é uma lenga-lenga conhecida de quem ainda lê este blog em tempos de Twitter.

    A novidade é que um filme de um diretor cultuado como Quentin Tarantino entrou na turma pela qual já passou Woody Allen e estreou comercialmente com três anos de atraso. Era um filme que eu queria ver no cinema e que, por algumas particularidades, deve(ria) ser visto no cinema. Só que, por não ter mais essa esperança, terminei por vê-lo no final do ano passado, em arquivo da internet (não por iniciativa minha; em geral só baixo filmes antigos e raros, indisponíveis de outra forma). E isso dá uma raiva danada, porque é falta de respeito com o público, além de incompetência e pouca sensibilidade para os negócios.

    O que não me deu raiva, mas atiçou minha vontade pelo debate, é um texto de um homem que, desde bem jovem, trabalhou em várias obras-primas do cinema brasileiro. Mas esse texto demonstra uma aparente limitação ao classificar o filme em questão de "lixo" e ao acusar o diretor de meramente querer "explorar os baixos instintos da plateia" e de deixar a desejar em termos de "valor intelectual".

    Então deixo algumas questões (e questionar constantemente é sempre bom para combater o preconceito, a forma mais insidiosa da ignorância) ao sabor do vento: supondo que o Eduardo Escorel tenha razão, qual o problema em não ignorar os "baixos instintos" (mas são mesmo "baixos"? A ascese é necessariamente algo bom para a arte?) do Homo sapiens? Em que isso influi no "valor intelectual" (e o que seria, exatamente, isso? ) e na qualidade de uma obra?

    terça-feira, junho 29, 2010

    Michael Jackson era isso aí

    Para marcar o primeiro aniversário da morte de Michael Jackson, a Globo exibiu antes mesmo da TV paga o filme de Kenny Ortega que nunca deveria ter sido visto, "This Is It" (2009). Curiosamente, passou legendado, respeitando a janela e na íntegra, com créditos finais e tudo _ um milagre que, desconfio, deve ter ocorrido por obrigação contratual.

    É um documento precioso, que reforça muito do que se sabia sobre o artista (seu perfeccionismo, seu envolvimento com todos os aspectos de seu trabalho _ ele é virginiano como eu, afinal; ambos nascemos em 29 de agosto _, sua preocupação com temas "positivos" _ nunca tinha ouvido alguém usar a metáfora "a Terra está com febre" para descrever o aquecimento global), revela aspectos bem interessantes (sua tolerância e doçura com sua equipe _ com destaque para a gatinha Orianthi Panagaris _; sempre que está insatisfeito e faz críticas, é sempre com a preocupação de ressaltar que fala "com amor" e que confia que o resultado desejado será atingido por meio do trabalho; nunca abusa de seu poder, de seu status de lenda-viva) e mantém no escuro sua vida particular _ mesmo vivendo cercado de seguranças e outros empregados, na casa onde morreu só os três filhos e o médico tinham acesso além do térreo (isso o filme não mostra).

    Também deixa claro que, apesar de não apresentar novidades, o show que preparava não devia aos que fez antes; aos 50 anos, pouco perceptíveis por causa da multidão de plásticas que o desfigurou (mas é verdade que ele tinha vitiligo, provou a autópsia), estava em forma: seguia cantando e dançando bem, e olha que estava se poupando nos ensaios. Isso é o que há de mais triste: ver que o artista, meio que contra tudo e contra todos, ainda estava em condições de apresentar um espetáculo digno da imagem que construiu. Terminou por ter uma morte, à sua maneira, também espetacular, embora sem a graça (a "mágica", como gostava de dizer) que ele trazia para suas apresentações.

    terça-feira, junho 15, 2010

    Não houve bússola que desse jeito

    Não fiz parte do grande grupo que acompanhou "Lost" semanalmente, vendo os episódios assim que eles caíam na rede, poucas horas depois da exibição nos Estados Unidos e com legendas em português de qualidade bem ruim, com o tradicional desconhecimento de expressões idiomáticas ou até mesmo de vocabulário. Também não vi pela Globo ou TV a cabo, claro. Assisti às quatro primeiras temporadas em DVD e as duas finais em arquivos baixados, sendo que as quatro últimas vi de uma vez só. Portanto, fiquei distante das discussões e das expectativas dos fãs da série. E isso provavelmente me fez desgostar menos dos rumos que ela tomou, quando obviamente a história contada pelos produtores de que o final já estava definido desde antes do início da produção acabou não se realizando.

    O que já estava claro para mim e se confirmou é que, a partir da segunda temporada, a história entra nos eixos de vez e segue sem grandes sobressaltos, apenas embaralhando bastante o fluxo de presente/passado. Com isso, o brilho maior ficou restrito à primeira temporada, quando somos lentamente apresentados àquelas personagens iniciais que caem na ilha. Quando as respostas a todos (ou a quase todos) os mistérios vão sendo reveladas e muitas dessas personagens são tiradas de cena, o interesse naturalmente decai, o que não quer dizer que o mesmo tenha ocorrido com a qualidade do show _ pelo contrário, "Lost" é um raro exemplo de série que acabou na hora em que deveria acabar e não foi artificialmente alongada só porque estava fazendo sucesso.

    Entretanto, ela sofre com a necessidade de atirar em várias direções: de agradar a nerds (com a personagem de Jorge Garcia citando "Star Wars" e "Back to the Future" a torto e a direito), menininhas-que-veem-novela (com vários casais sofrendo com a distância, como Rose e Bernard, Desmond Penny e os coreanos, e um triângulo meio bobão entre Kate, Jack e Sawyer que acaba virando um quadrado com a entrada de Juliet), machões (com tantos sopapos e tiroteios e mortes às pencas de coadjuvantes quanto um filme de Bud Spencer e Terence Hill) e pessoas que se atraem por esoterismos diversos (neste ponto a série até que começou de maneira interessante, em especial com o John Locke de Terry o'Quinn, mas a personagem infelizmente acaba perdendo o rumo ainda na segunda temporada). Outro problema da série é que ela insiste em investir nas pegadinhas com seu público, pois nada pode ser o que parece _ o resultado disso é que ela se torna previsível, porque quando os roteiristas se esforçam para que acreditemos que algo aconteceu de um jeito, imediatamente intuímos que foi de outro, o que tira muito da força dos episódios.

    Apesar dos pesares, o todo de "Lost" é bem escrito, há algumas personagens realmente boas e o escopo da produção impressiona. Não deixa de ser um marco da televisão, embora no fim das contas não tenha atingido o nível de brilhantismo visto em séries menos ("Six Feet Under") ou mais ("The Wire") ambiciosas. Ah, eu ainda preciso ver "The Sopranos"...

    Na platéia