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Segunda-feira, Abril 14, 2008
6 anos na telaLembram do que um tobogã disse para o outro? Pois é. Quanto eu tinha a idade deste blog, eu começava a escrever (dois anos depois, publicava meu primeiro texto em livro). E escrever (embora sem preocupação com a qualidade do texto) para este espaço, por mais esporadicamente que isto ocorra, devido a muitos outros compromissos, tem sido interessante não apenas pelo estímulo a uma crescente formação de repertório, mas principalmente pelo convívio com colegas; poder trocar experiências e aprender é fundamental, e é esta a razão pela qual esta página tem sido atualizada, desde 14 de abril de 2002 (talvez seja o primeiro blog em língua portuguesa a tratar exclusivamente de cinema _pelo menos, nunca ouvi falar de algum mais antigo; se alguém conhece, por favor, me avise). Agradeço a todos os que participaram e participam.Falando em formação de repertório (e também para não deixar a data passar muito em branco), a seguir faço algo que detesto, mas que é muito popular entre blogueiros: uma lista. Minha encrenca com as listas é não gostar de fazê-las (não vejo prazer algum neste exercício) e sempre ficar insatisfeito com o resultado, efêmero demais. Mas as listas alheias são sempre interessantes, especialmente se trazem filmes ainda desconhecidos _é sempre um estímulo. E eu sempre esperei que este site fosse justamente isso: um estímulo para que outras pessoas descobrissem filmes e aumentassem o seu amor pelo cinema (há quem reclame que eu só fale agora de filmes antigos e de diretores "desconhecidos"; não entendo o motivo da reclamação). A lista a seguir é apenas uma relação solta (mas em ordem cronológica, concentrada especialmente entre as décadas de 1910 e o início da de 1950) de alguns dos melhores filmes (as menções honrosas vão para filmes excelentes e imperdíveis; as obras-primas...) que andei vendo (ou revendo) nos últimos meses; não são os "melhores filmes de todos os tempos" nem necessariamente os meus preferidos (e muitos poderiam entrar ou sair da lista, em caso de revisão _e deixei muita coisa muito boa de fora, além de ter colocado alguns que devem ser considerados, oh, "polêmicos"). É apenas um modo de recordar o que tenho visto de bom ultimamente (e para quem quiser saber os títulos em português, recomendo o Google). "A Volta do Regresso" é hors-concours, claro. Obras-primas: Die Puppe (Lubitsch, 1919) Der Müde Tod (Lang, 1921) Sherlock Jr. (Keaton, 1924) The Iron Horse (Ford, 1924) Dura Lex (Kulechov, 1926) Napoléon (Gance, 1927) Arsenal (Dovzhenko, 1928) The Crowd (Vidor, 1928) Dr. Jekyll and Mr. Hyde (Mamoulian, 1931) M (Lang, 1931) Otona no Miru Ehon - Umarete wa Mita Keredo (Ozu, 1932) Design for Living (Lubitsch, 1933) The 39 Steps (Hitchcock,1935) Modern Times (Chaplin, 1936) The Shop Around the Corner (Lubitsch, 1940) Saboteur (Hitchcock, 1942) Meshes of the Afternoon (Deren, 1943) The Seventh Victim (Robson, 1943) Vredens Dag (Dreyer, 1943) Phantom Lady (Siodmak, 1944) A Matter of Life and Death (Powell & Pressburger, 1946) Fort Apache (Ford, 1948) Begone Dull Care (McLaren, 1949) Francesco, Giullare di Dio (Rossellini, 1950) Europa '51 (Rossellini, 1952) Pickup on South Street (Fuller, 1953) The Searchers (Ford, 1956) Popiól i Diament (Wajda, 1958) Shadows (Cassavetes, 1959) La Jetée (Marker, 1962) Ride the High Country (Peckinpah,1962) Il Gattopardo (Visconti, 1963) The Nutty Professor (Lewis, 1963) Yûkoku (Mishima, 1966) Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (Marins, 1967) Os Deuses e os Mortos (Guerra, 1970) El Espíritu de la Colmena (Erice, 1973) Pat Garrett & Billy the Kid (Peckinpah, 1973) Scener ur ett Äktenskap (Bergman, 1973) Bring Me the Head of Alfredo Garcia (Peckinpah, 1974) The Killing of a Chinese Bookie (Cassavetes, 1976) Os Canibais (Oliveira, 1988) Olhos de Vampa (Rogério, 1996) The Blair Witch Project (Myrick & Sánchez, 1999) Belle Toujours (Oliveira, 2006) Menções honrosas: The Musketeers of Pig Alley (Griffith, 1912) Prästänkan (Dreyer, 1920) Cops (Keaton, 1922) The Thief of Bagdad (Walsh, 1924) Shakhmatnaya Goryachka (Pudovkin, 1925) It (Badger,1927) Wings (Wellman, 1927) La Petite Marchande d'Allumettes (Renoir, 1928) The Wind (Sjöström,1928) Hallelujah! (Vidor, 1929) The Love Parade (Lubitsch, 1929) Dishonored (Sternberg, 1931) La Chienne (Renoir, 1931) The Public Enemy (Wellman, 1931) Love Me Tonight (Mamoulian, 1932) Zéro de Conduite: Jeunes Diables au Collège (Vigo, 1933) The Lost Patrol (Ford, 1934) Camille (Cukor, 1936) Man Hunt (Lang, 1941) The Strawberry Blonde (Walsh, 1941) The Leopard Man (Tourneur, 1943) The Ox-Bow Incident (Wellman, 1943) This Land Is Mine (Renoir, 1943) At Land (Deren, 1944) The Woman in the Window (Lang, 1944) Scarlet Street (Lang, 1945) Duel in the Sun (Vidor, 1946) My Darling Clementine (Ford, 1946) The Big Sleep (Hawks, 1946) L'École des Facteurs (Tati, 1947) Odd Man Out (Reed, 1947) Force of Evil (Polonsky, 1948) Portrait of Jennie (Dieterle, 1948) She Wore a Yellow Ribbon (Ford, 1949) Thieves' Highway (Dassin, 1949) White Heat (Walsh, 1949) Stage Fright (Hitchcock, 1950) Stars in My Crown (Tourneur, 1950) Wagon Master (Ford, 1950) Miracolo a Milano (De Sica, 1951) The River (Renoir, 1951) Angel Face (Preminger, 1952) The Marrying Kind (Cukor, 1952) The Big Heat (Lang, 1953) A Star Is Born (Cukor, 1954) Track of the Cat (Wellman, 1954) Les Yeaux Sans Visage (Franju, 1960) The Bellboy (Lewis, 1960) The Deadly Companions (Peckinpah, 1961) Shock Corridor (Fuller, 1963) Lorna (Meyer, 1964) The Naked Kiss (Fuller, 1964) Jôi-uchi: Hairyô Tsuma Shimatsu (Kobayashi, 1967) Jag Är Nyfiken - En Film i Blått (Sjöman, 1968) Ritual dos Sádicos (O Despertar da Besta) (Marins, 1970) Finis Hominis (Marins, 1971) Ludwig (Visconti, 1972) Up! (Meyer, 1976) Opening Night (Cassavetes, 1977) Beneath the Valley of the Ultra-Vixens (Meyer, 1979) Out of the Blue (Hopper, 1980) Superman III (Lester, 1983) Phenomena (Argento, 1985) Superstar - The Karen Carpenter Story (Haynes, 1987) Topâzu (Murakami, 1992) Heat (Mann, 1995) Rushmore (Anderson, 1998) Ôdishon (Miike, 1999) La Ciénaga (Martel, 2001) The Brown Bunny (2003) A History of Violence (Cronenberg, 2005) Mary (Ferrara, 2005) Ne Touchez Pas la Hache (Rivette, 2007) Etiquetas: aniversário
Sábado, Abril 05, 2008
Tanta coisa a fazer e tão pouco tempo (e o Buster Keaton chamava os anos 1920 de "época da ganância e da velocidade"...), que eu até me esqueci de dizer, no post passado, que "A Volta do Regresso" ia fazer (e agora já fez) a sua estréia internacional em Los Angeles. O desafio agora é conseguir fazer alguma bobagem a tempo para o aniversário do blog, que é em alguns dias. Mas, para fazer bobagem, sempre se dá um jeito. *** Dando uma olhada por cima nos filmes que vi nas últimas semanas, a imensa maioria concentrada no início dos anos 1950, a figura que se destaca é ninguém menos que Marilyn Monroe. Por mais rodeada de preconceitos que seja, é inegável a presença marcante desta mulher em uma porção de filmes excelentes. As começar por duas comédias de Howard Hawks: "Monkey Business" e "Gentlemen Prefer Blondes". No primeiro, ela apenas faz o que se espera dela _mas com uma eficiência tremenda; é também interessante como não se faz mais comédias como esta, mas o filme não perdeu a graça com as décadas. No segundo, estréia do diretor no nusical (embora ele nem tenha dirigido o número mais famoso, "Diamonds Are a Girl's Best Friend"), ela segue no estereótipo da loira burra, mas com muito mais ironia: está brilhante, com "magnetismo animal" e tudo. E Jane Russell, longe de ser tão bonita, está ótima _mas, curiosamente, o momento em que ela brilha mais é justamente quando imita Marilyn. Marilyn, entoando belas canções, também é o principal motivo para assistir a "River of No Return", filme bastante simples de Otto Preminger (que ele fez como obrigação, sem muito interesse, experimentando a novidade CinemaScope _embora o diretor tenha dito que preferia o Panavision), com um final extremamente previsível _até porque dificilmente poderia ser de outra forma; é um belo roteiro, que me faz perguntar se "Marcas da Violência" não se inspirou nele de alguma forma. Bem mais discreta, séria e muito menos glamourosa ou estereotipada é como ela surge em "Clash by Night", peça de Clifford Odets que Fritz Lang adapta _mas o romance não parece ser o território do alemão de monóculo (King Vidor também não está em seus melhores dias retratando um triângulo amoroso em "RubyGentry"). De Lang, o destaque mesmo foi o policial "The Big Heat", filmaço que já começa com um homem dando um tiro na fuça e termina com um muito antecipado pega-pra-capar entre Glenn Ford e Lee Marvin! E ainda temos Gloria Grahame num papel inesquecível, além de participações pequenas mas marcantes de Jocelyn Brando (a bela irmã mais velha do Marlon, em um de seus primeiros papéis), Dorothy Green (em seu filme de estréia) e Alexander Scourby. E também voltei a "Rancho Notorious", western amargo que evita qualquer tipo de final feliz (afinal, é uma história de "ódio, assassinato e vingança", como insiste em dizer a canção que narra o filme _e nos conta o final, sem mostrá-lo) e traz um elenco fantástico (um Jack Elam bem jovem, um Mel Ferrer em início de carreira, George Reeves _que ficaria imortalizado com o Super-Homem_ esbanjando carisma e Arthur Kennedy, de "The Lusty Men", como protagonista). Mas é claro que as atenções são atraídas sempre para Marlene Dietrich _que tem em comum com a Marilyn este magnetismo raro: sempre que está em quadro, fica impossível olhar para outra coisa. Aliás, os westerns também estão em grande fase, nesta época. Uma das boas surpresas que tive foi "Silver Lode", de Allan Dwan: curto, seco, ritmado e criativo, com um protagonista enrascado, um vilão desprezível (cortesia de Dan Duryea), uma ótima coadjuvante feminina (Dolores Moran, em seu último filme), uma bela trilha sonora e uma câmera esperta, além de boas cenas de ação. E fica mais interessante ainda quando se faz um paralelo deste filme com o mccarthismo, que corria à solta na época _não por acaso, o nome do vilão neste filme é McCarty. Muito menos convencional, mas também excelente, é "Track of the Cat", produção de John Wayne em que William A. Wellman adapta mais um romance de Walter Van Tilburg Clark (o mesmo autor de "The Ox-Bow Incident"), mostrando um belo domínio do CinemaScope. A princípio parece que o filme será uma espécie de "Moby Dick", mas logo se torna algo muito mais impressionante: um drama familiar muitíssimo bem construído, com destaque para a atuação de Beulah Bondi. Anthony Mann, em "The Naked Spur", nos traz um filme sustentado num grande elenco de quatro atores e uma atriz: Robert Ryan rouba o show como o vilão, e Millard Mitchell, em seu penúltimo filme, também está excepcional. É um curto filme de ação sem muitas pausas, o que não quer dizer que o drama não esteja bem desenhado. Mas o filme se engrandece mesmo no final cheio de moral. Mais antiquado, mas também excelente, é John Ford em "The Sun Shines Bright", no qual ele retorna ao Juiz Priest (agora com Charles Winninger no papel que foi de Will Rogers no filme de 1934, do qual gostei menos), entrelaçando três contos de Irvin S. Cobb; novamente a mistura de humor, sentimentalismo e patriotismo, mas sem babaquice. Em "The Stranger Wore a Gun", Andre de Toth novamente vai de Randolph Scott e de 3-D (e dá-lhe personagens atirando coisas em nossa direção); o roteiro é meio confuso, e a ação também não é das melhores, mas o elenco é bom: além de Lee Marvin e Ernest Borgnine, ambos em início de carreira, temos um ótimo Alfonso Bedoya como caricatura de mexicano. E que decepção foi o tão falado "Shane" (que aqui recebeu o estúpido título "Os Brutos Também Amam")! Só consegui me entusiasmar nos últimos dez minutos _mas me parece que este filme sempre foi carregado pelo seu ótimo final (embora a cena da morte de Elisha Cook Jr. também não seja de se jogar fora). A princípio Alan Ladd parece limpinho demais para o papel, mas ao final fica difícil imaginar Montgomery Clift em seu lugar, como era o plano original. A participação de Jack Palance é pequena, mas marcante; Jean Arthur, em seu último filme, não está bem, mas aparenta bem menos que os seus mais de 50 anos, à época; o garoto, Brandon de Wilde, entrou para a história com este papel _ele morreria num acidente de carro aos 30 anos. E na contramão da tragicidade do gênero, FrankTashlin nos traz Bob Hope e Jane Russell numa muito boa mistura de comédia e erotismo em "Son of Paleface", seqüência de "O Valente Treme-Treme" _é também um dos últimos filmes do megacaubói Roy Rogers e de seu cavalo Trigger (que tem página no Imdb, com quase 90 filmes no currículo). As canções também são boas. Falando em canções, o musical também está com tudo. A Metro nos deu um bom musical inspirado em "A Megera Domada" em "Kiss Me Kate", dirigido por George Sidney e estrelado por um elenco fabuloso: Kathryn Grayson, Howard Keel e, em especial, Ann Miller (Bob Fosse faz um papel pequeno). O problema é o desequilíbrio entre as cenas musicais, fantásticas (e o fato de as canções serem de Cole Porter _que, curiosamente, é interpretado por um ator no filme_ não é um detalhe), e o resto, bem fraco. Novamente, percebe-se que foi feito em 3-D, porque os atores passam o tempo todo jogando coisas em direção à câmera. Muito melhor, embora com canções menos marcantes, é "The Band Wagon", filme bastante irônico e inteligente de Vincente Minnelli: com um fiapo de roteiro, ele dá um jeito de fazer o que realmente interessa, os números musicais; é difícil destacar um, mas o dos trigêmeos é simples e sensacional (outro momento forte é o passeio pelo parque, no qual Astaire e Cyd Charisse apenas dançam, sem diálogos _e que João Moreira Salles destaca em "Santiago"). O elenco está excelente, com destaque para a Nanette Fabray, um poço de carisma. E a cena da primeira aparição de Charisse, dançando balé, é dessas belezas que merecem ser eternizadas em filme. Aqui no Brasil, foi chamado, sei lá o porquê, de "A Roda da Fortuna" (título mais adequado para o "Rancho Notorius"). Na seara do drama (embora este primeiro também seja um musical), o grande destaque foi "A Star Is Born", remake do filme de William A. Wellman de 1937: é o primeiro filme colorido de George Cukor (também sua primeira experiência com o musical), cujas três horas passam voando; os trechos restaurados com stills de cenas que se perderam nem parecem um remendo. A produção toda é de um capricho exemplar, as cenas musicais são excelentes (embora eu não seja um grande fã da Judy Garland como cantora). O enredo, ótimo, caminha sem sobressaltos e é irrepreensivelmente apresentado, mas James Mason está longe de seus melhores dias; vários atores recusaram o papel, inicialmente oferecido a Bogart, que aparece no muito inferior "The Barefoot Contessa". Neste, não consigo gostar das numerosas e longas cenas com narração e sem som direto, ainda mais prejudicadas por uns travellings irritantes; o filme melhora quando o drama domina, e ainda mais quando há montagem: de longe, a melhor cena está bem no início, quando não vemos a Maria Vargas de Ava Gardner dançando. Bogart fica estranho em cores, e Valentina Cortese não está tão bonita quanto em "Thieves' Highway". Dizem que a protagonista foi inspirada em Rita Hayworth (convidada para o papel), mas é engraçado como a história da estrela de cinema que se torna parte da nobreza européia acabou sendo desempenhada na vida real por Grace Kelly. Voltando a Cukor, "The Marrying Kind" é um belo e impressionante filme: a princípio é muito estranho, com longos flashbacks sem som (a não ser a narração _mas aqui funciona, diferentemente do filme de Joseph L. Mankiewicz), mas não demora a agarrar a atenção, seja pelo crescente aumento da seriedade do filme como pela mise-en-scène fantástica (a seqüência do sonho do protagonista é antológica). Aldo Ray (em seu primeiro papel de destaque) e Judy Holliday (outra atriz que trabalhou pouco e morreu cedo) estão excelentes. As crianças, Christopher Olsen (que interpretaria o filho do casal protagonista em "O Homem Que Sabia Demais") e Susan Hallaran, também estão ótimas. Partindo para produções menores em tamanho, mas não necessariamente em qualidade: "The Narrow Margin" é um eficientíssimo "suspense de trem", de baixíssimo orçamento e feito em menos de duas semanas por Richard Fleischer; belo noir, que dá de dez a zero em "The Tall Target", do Anthony Mann. Charles McGraw não deixa de ser caricato como o tira durão (não que isto seja exatamente ruim), e Marie Windsor rouba o filme, bancando a mulher-de-malandro-chave-de-cadeia. Outra pérola esquecida é "Park Row", no qual Samuel Fuller, nos papéis de produtor, diretor e roteirista, aborda um tema que ele conhecia bem e que me diz bastante respeito, o jornalismo. O filme é bastante ingênuo em vários momentos, e os eventos se conectam de uma maneira bem pouco naturalista, mas isto pouco importa: é obviamente um projeto apaixonado, com uma câmera ágil e selvagem _Fuller filmava cenas de violência física como poucos. O destaque é Mary Welch, no primeiro de seus poucos filmes _casada com David White (o Larry, de "A Feiticeira"), morreu jovem, por complicações no parto. Também direto ao ponto é onde vai Ida Lupino, que dirige e escreve "The Hitch-Hiker", um thriller simples: um assassino em fuga pede carona a dois pescadores e os seqüestra, obrigando-os a ajudá-lo a fugir, sempre sob a ameaça da morte. Curto e baratíssimo, mas não chega aos pés de outras produções B, como algumas dirigidas por Jacques Tourneur ou Joseph H. Lewis. Um pouco melhor é "99 River Street", noir de Phil Karlson estrelado por John Payne no típico papel de durão _mas, em vez de uma história de detetive, sua personagem é um boxeador (as cenas de luta no princípio parecem ter influenciado Scorsese em "Raging Bull") derrotado que dirige um táxi e tem de se acertar com sua mulher (que também não é exatamente uma mulher fatal). Em "Anatahan", seu penúltimo filme (que ele escreve, produz, dirige e ainda faz a narração), Sternberg vai ao Japão, adaptando um livro que contava a história real de um grupo de marinheiros que, no final da Segunda Guerra, naufraga em uma ilha, onde encontram apenas um casal _obviamente, a disputa pela mulher e a degeneração da civilização em violência são caminhos óbvios. A narração (que traduz para o inglês as falas dos atores japoneses) dá um clima de documentário a esta produção pouco luxuosa, ainda mais porque Sternberg não assume arbitrariamente um ponto de vista, mas tenta ser fiel aos fatos conhecidos e deixa bem claro quando os fatos não são claros _é bastante curioso. Curioso também é "House of Wax", sucesso gigantesco que acabou transformando o refinado galã Vincent Price em uma estrela de horror: divertidíssimo e com uma premissa excelente, peca pelo roteiro fraco. Charles Bronson (ainda usando o sobrenome Buchinsky), em começo de carreira, interpreta um surdo-mudo. Indo de vez para o Japão, parada quase obrigatória, vamos ao segundo filme que eu vejo do prolífico Teinosuke Kinugasa, diretor de mais de 100 filmes. Eu achei que "Jigokumon" (o título em inglês é "Gate of Hell", se não me engano) seria um épico de guerra, mas é um melodrama sobre um samurai que se apaixona por uma mulher casada. Chamam a atenção o colorido do filme, a música e a beleza exótica de Machiko Kyô, que também magnetiza a tela em "Ugetsu Monogatari", de Mizoguchi, chamado por aqui de "Contos da Lua Vaga": é de se destacar a crueza com que a crueldade bestial em tempos de guerra (apenas oito anos após a humilhante derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial) é mostrada: presenciamos assassinatos, roubos, estupros e todo tipo de selvageria, permeada pela ganância, luxúria e covardia. Mas não é meu preferido do diretor. E voltamos a mais um drama familiar de Yasujiro Ozu: "Tôkyô Monogatari" volta a abordar o conflito de gerações, a passagem do tempo, a morte, com o elenco que já conhecemos: Chishu Ryu, Setsuko Hara, Kuniko Miyake etc. Achei que seria a obra-prima dele, mas ainda fico com "Meninos de Tóquio", aparentemente imbatível. Alguém filma interiores melhor do que Ozu? *** Para encerrar, duas temporadas de séries vistas no período: a segunda de "Dexter" é imensamente inferior à primeira, que é excelente (mal deu para notar que uma das crianças é interpretada por um ator diferente). Vamos ver o que a próxima temporada nos aguarda, porque houve muitas mudanças, embora um gancho bem mal-ajambrado tenha sido colocado. Mas é impressionante mesmo como caiu a qualidade dos roteiros. E a primeira temporada de "Damages", mais um thriller no estilo "nada-é-o-que-parece" do que um drama de advocacia estrelado por uma sempre boa Glenn Close (com Ted Danson como vilão), termina pior do que começa _como a vida, por sinal. Valeu, já volto. Etiquetas: Allan Dwan, Anthony Mann, Frank Tashlin, Fritz Lang, George Cukor, Howard Hawks, Ida Lupino, Phil Karlson, Richard Fleischer, Samuel Fuller, Vincente Minnelli, William A. Wellman, Yasujiro Ozu
Quarta-feira, Fevereiro 06, 2008
Eram quase meia-noite, num domingo de janeiro, e o soldado observava minha conversa com a senhora, divorciada e septuagenária (não perguntei sua idade; olhei disfarçadamente um xerox plastificado do seu RG, que o rapaz segurava junto a uma ficha), obviamente abalada pelo desastre. Ela estava mais preocupada em xingar os ex-inquilinos, que, após meses sem pagar o aluguel, deixando uma dívida de uns R$ 50 mil e obrigando-a a ordenar o corte de eletricidade e de água, fugiram, deixando o imóvel imundo e com 14 cães e 3 gatos abandonados. Fico interessado pela história dos animais, pergunto uma série de detalhes (mas não tantos quanto gostaria, nunca há tempo), enquanto percebo a impaciência do jovem aspirante a autoridade, que precisava terminar o boletim de ocorrência. Deixo ele fazer uma ou duas perguntas protocolares (afinal, era eu o forasteiro, ali no DP) e, para sua irritação contida, tomo de volta, com voz mansa, o controle da conversa. A velhinha me conta que adotou a gata ("Teve cria esses dias, a coisa mais linda") e deixou os outros dois bichanos no imóvel abandonado, os quais ela ia alimentar duas vezes por dia (os cães foram levados pela prefeitura). Foi aí que, obviamente constrangida, ela finalmente assumiu sua culpa na história (para nossa surpresa): ao levar o jantar dos gatos, esqueceu, acesa, uma pequena vela. O soldado sorriu levemente, satisfeito por eu ter feito o seu trabalho. Minutos antes, no local do incêndio ("um fogão", segundo uma vizinha espevitada, aparentemente feliz por estar na rua em vez de estar vendo o "Fantástico"), o capitão dos bombeiros havia me dito: "Deu PT". Findo um mistério, restou outro: e os gatinhos? *** Como de costume, estou totalmente por fora do Oscar (quando eu digo que gente que gosta de cinema não precisa gostar necessariamente do Oscar, todo mundo me olha como se eu fosse um E.T.). Dentre os indicados na categoria principal (só sei quais são os indicados porque o Milton do Prado me mandou um e-mail com convocatória para um divertido bolão, do qual infelizmente sou obrigado a declinar), assisti (graças a uma folga numa segunda-feira, após três semanas ininterruptas de trabalho) apenas a "No Country for Old Men", que a princípio soou como uma tentativa de voltar a um cinema da época em que a história se passa (fim dos anos 70), mas esta impressão acabou se enfraquecendo (mesmo que algumas elipses me lembrem de Peckinpah). Gosto muito dos maneirismos dos Irmãos Coen (adoro "Raising Arizona" e "The Ladykillers", por exemplo _e uma das cenas que mais me marcaram em seus filmes está em "The Great Lebowski"), mas a falta de boa parte deles aqui não é um defeito. Não lembro se o Bardem foi indicado como coadjuvante, por seu Anton "Sugar" Chigurh, e não vi o filme do Paul Haggis pelo qual Tommy Lee Jones (cujo Ed Tom Bell é o protagonista, e não o Llewelyn Moss do Josh Brolin, como muitos andam pensando) foi indicado. Belo filme, mas ainda não chegou ao nível de "Barton Fink". De resto, os filmes mais recentes (daqui a pouco trato de algumas velharias, apelidadas de "clássicos", que não interessam a ninguém) que vi foram "Last Days" (fascinante e irritante ao mesmo tempo), "Casino Royale" (bom porque não parece um filme de James Bond _o que é uma faca de dois gumes: por exemplo, a falta de sexo é um revés; é também o filme no qual a Eva Green está mais bonita) e "Happy Feet" (decepcionante, mas ainda melhor do que "Moulin Rouge"). Também passou pelas minhas retinas tão fatigadas as três primeiras temporadas de "Battlestar Galactica", boa série de ficção científica (gênero que não é muito minha praia, especialmente quando se passa num "futuro distante" ou algo que o valha) que consegue fazer referências as mais diversas (de filmes de guerra a novelas, obviamente passando por "Star Trek" e "Star Wars" e até "Indiana Jones") e sair razoavelmente incólume. Meus episódios preferidos são os poucos em que a história deixa de ser seguida, e vemos algo mais localizado dentro de um universo construído até que cuidadosamente. A assinatura da produtora é um pequeno show à parte. *** Até que gosto do termo "obra-prima doente" (se não me engano, cunhado pelo Truffaut ao falar de "Marnie"). Gosto muito quando filmes me deixam com uma espécie de pulga atrás da orelha, porque me parecem muito bons, mas de uma maneira tão imperfeita que transborda humanidade. Neste período, tive a felicidade de trombar com alguns desses filmes. Dois são de Nicholas Ray: o principal é "On Dangerous Ground", razoavelmente incomum (e não por usar câmera na mão em algumas cenas, o que na época era muito raro); é especialmente interessante como, num filme tão curto (80 minutos), o enredo principal demora a chegar, porque passamos um bom tempo conhecendo o protagonista interpretado por Robert Ryan _os coadjuvantes Ida Lupino (que dirigiu o filme por vários dias em que Ray esteve doente) e Ward Bond só aparecerão bem depois. As cenas finais são fortes e amarram muito bem o filme (mesmo não sendo o final que Ray queria). A trilha sonora de Bernard Herrmann (cuja melodia me lembra um pouco a de "O Dia em Que a Terra Parou", embora os arranjos sejam bem diferentes) é outro destaque. E "The Lusty Men", mesmo sendo bem mais convencional, é um belíssimo drama no mundo dos rodeios estrelado por Robert Mitchum, Susan Hayward e Arthur Kennedy _mas quem rouba a cena é Arthur Hunnicutt (de "Broken Arrow"). Outro filme impressionante e que vem crescendo na minha memória é "Angel Face", de Otto Preminger, produção de Howard Hughes com Robert Mitchum e Jean Simmons. É mais complexo do que parece a princípio, chega a ser bastante romântico (mas de uma maneira distorcida e moderna _só os modelos dos carros dão a impressão de que o filme é antigo). E é quase milagroso como uma mesma ação é repetida de maneira praticamente idêntica, sem que ela perca sua capacidade de chocar. O final é de tirar o fôlego. E o que dizer de "O Rio Sagrado", de Jean Renoir? Muito polêmico, longe de ser uma unanimidade, me deu a impressão de ser um filme único, apesar de muitas falhas (talvez a maior delas a falta de naturalidade do elenco). Tem um conceito muito bem definido, no entanto é bastante diversificado. A fotografia é belíssima (dizem que o trabalho no laboratório durou 5 meses), e há momentos claramente documentais; em outros, alguns dos mais fortes, simplesmente contemplamos: plantas, pipas no céu, uma bailarina. Foi o último filme de Thomas E. Breen (o Captain John) e de Radha, e o único da feiosa Patricia Walters (a protagonista chatinha) e do produtor Kenneth McEldowney. Satyajit Ray foi assistente. "The day ends, the end begins." Outro filme com rio no nome é "O Rio da Aventura" ("The Big Sky", no original), de Howard Hawks, que, a exemplo de vários outros do diretor, parece uma espécie de "auto-remake" _neste caso, da obra-prima "Rio Vermelho". Novamente, Arthur Hunnicutt, abençoado com os melhores diálogos, ofusca a todos, e a beleza de Elizabeth Threatt (infelizmente em seu único filme) é inesquecível. O sutil conflito final é muito bom (e ficamos esperando o filme acabar, e ele não acaba _é bem longo e prolixo, quase pretensioso, embora muito bem-humorado). Ainda nos EUA (e falando em prolixo), fiquei bastante decepcionado com "A Place in the Sun", do qual sempre ouvi falar muito. Curioso é saber que se trata de remake de um filme de Sternberg _que quase foi dirigido por ninguém menos que Eisenstein_, o qual não vi, mas aparentemente é bem diferente deste. A versão de Stevens, feita em 1949, mas lançada apenas dois anos depois, não é original, não trabalha bem com a emoção e não chega a um final satisfatório. Mas tem pelo menos uma cena antológica: a do balcão onde Montgomery Clift e Elizabeth Taylor trocam declarações de amor e se beijam sutilmente _o fato de a câmera não mostrar direito o beijo dá força à cena. E ficou bem claro onde Janete Clair se inspirou para escrever "Selva de Pedra". Ainda entre as decepções à primeira vista, um western de Andre de Toth com Randolph Scott e e um número musical de Tennessee Ernie Ford, "Man in the Saddle", e um morno filme de Anthony Mann, "The Tall Target". Na Itália, a obra-prima do pacote: "Europa '51" figura como, até o momento, meu preferido do Rossellini com Ingrid Bergman (brilhante _nem Giulietta Masina a ofusca). Um melodrama poderoso e de forte cunho social (e ético), de influência monumental. Longe de ser tão bom é "Umberto D.", de De Sica, atacando de velhinho doente, tema popular até hoje. Com os dois principais atores (e o cãozinho Flike também), Carlo Battisti e Maria-Pia Casilio, iniciantes (mas muito bons), é um filme muito desigual, cuja fama, creio, se deve principalmente ao final. Muitíssimo melhor é seu antecessor, "Miracolo a Milano", um delírio alegre que foge totalmente do neorealismo, embarca na fantasia (teria influenciado Fellini de alguma forma?) e carrega uma mistura de sentimentalismo, ingenuidade e graça que lembra bastante algo de Chaplin (impressão reforçada pela atuação de Francesco Golisano, o Geppa, que morreu jovem e atuou apenas em meia dúzia de filmes _destaque também para a Brunella Bovo e para a aparição da belíssima bailarina argentina Alba Arnova). O início, com muito poucas falas, me pareceu bem sofisticado; a música é inesquecível. E passei ainda por De Sica (sempre eficientíssimo como galã) como ator em "Madame de...", penúltimo filme de Öphuls (cuja fase americana, hoje, me agrada mais _neste aqui, a câmera me parece menos rigorosa do que de costume), que parece muito mais antigo. Charles Boyer, Danielle Darrieux (viva e trabalhando, aos 90 anos) e De Sica formam o triângulo amoroso nesta história que gira em torno de um par de brincos e da falta de pronúncia do sobrenome da protagonista.Adoro duelos, desde pequeno. Para encerrar, aquela passadinha básica no Japão: a fama de "ocidentalizado" de Kurosawa talvez se deva a filmes como "Viver", que, simplificando temerariamente, parece inspirado pelos filmes mais famosos de Frank Capra. Longo, demora a engrenar; mas, após o ponto de virada da trama, a sucessão de sutis flashbacks e flashforwards é ótima. A morbidez como valorização da vida. É o filme de estréia de Miki Odagiri e um dos mais de 200 feitos pelo Takashi Shimura, colaborador constante de Kurosawa. Outro japa visitado foi Kenji Mizoguchi, com "Oharu - A Vida de uma Cortesã", óbvia adaptação de um romance clássico, gerando um melodrama idem. Também me lembra algo de grandes produções americanas, como "...E o Vento Levou" (não pelo orçamento, é claro). A atriz principal, Kinuyo Tanaka, foi a primeira a diretora japonesa (ou seja, o machismo...). *** De Nelson Ascher, em artigo chamado "Perguntar Não Ofende", publicado na Ilustrada de 11 de fevereiro: "Há filmes que, de tão descaradamente manipuladores e demagógicos, tão mecânicos e transparentes na sua má-fé, levam o espectador atento a se sentir a um tempo vítima e cúmplice de uma trapaça. Foi esse o caso de 'Sociedade dos Poetas Mortos', a que assisti em 1990. Para agravar meu mal-estar, tão logo os créditos começaram a aparecer na tela, boa parte da platéia aplaudiu de pé aquela abominação. Soube logo que essa reação se tornara demasiado freqüente e, quando meu comentário foi publicado, passei a receber cartas que por pouco não me ameaçavam de morte. Como ninguém, ao que parece, desejava que seu suspeito vínculo emocional com o filme fosse questionado, descrever-lhe o mecanismo soava para muitos como ofensa pessoal." Acho que eu tinha 12 ou 13 anos quando vi "Sociedade dos Poetas Mortos". Fiquei tremendamente ofendido; abomino filmes que tentam me fazer de idiota. *** Dos 325 filmes elegíveis para o Alfred 2007, eu assisti a 27 (alguns deles, em 2006). Até que não está tão mal... Etiquetas: Akira Kurosawa, Ethan e Joel Coen, George Stevens, Howard Hawks, Jean Renoir, Kenji Mizoguchi, Max Öphuls, Nicholas Ray, Otto Preminger, Roberto Rossellini, Vittorio De Sica
Sexta-feira, Dezembro 28, 2007
Começando pelo fim: feliz 2008! *** Michel Simões escreveu sobre "A Volta do Regresso" aqui. Agradeço imensamente a atenção e lamento que o filme tenha sido visto (entre muitas outras pessoas _a sessão lotou_, pelo grande Ênio Gonçalves, cuja brilhante presença no projeto muito me honra) em condições tão ruins, já que o som esteve quase inaudível, por culpa da sala. Foi muito estranho a curadoria da 21ª Mostra do Audiovisual Paulista ter colocado meu filme em uma sessão com vídeos; ficou claro que houve a opção de colocar as comédias numa mesma sessão, o que corrobora o preconceito sofrido pelo gênero. Mas o que queria comentar é a primeira impressão do Michel, que, a julgar por seu texto, enxergou o filme mais como um drama _o que é muito interessante, embora a minha abordagem tenha sido outra. *** Conversando justamente sobre estes preconceitos de gênero com Carlo Mossy, ao voltar do Festival de Brasília, ouvi dele casos inacreditáveis e revoltantes, que dão uma idéia da medida da ignorância, da maldade e da covardia de muita gente que faz parte desta coisa estranha, ridiculamente chamada de "meio artístico". Vendo um dos seis DVDs que o Mossy lançou recentemente, "Essa Gostosa Brincadeira a Dois", de 1974, fica mais acentuada a estranheza em relação à pouca valorização que se dá a este tipo de produção: o filme não se enquadra no rótulo pejorativo (mas assumido pelo Mossy numa boa) "pornochanchada", já que se trata de uma comédia romântica com toques de "The Graduate" (há, sim, nudez, a destacar as de Vera Fischer e Tereza Trautman). Também é muito bem produzido, com uma quantidade imensa de locações (no Rio e em Salvador), uma trilha sonora original caprichadíssima (completada por alguns sucessos do momento que hoje são clássicos do rock, como Deep Purple e Emerson, Lake and Palmer) um grande elenco, encabeçado pelo casal protagonista, Mossy (também produtor) e Dilma Lóes (também co-roteirista, ex-mulher do diretor Victor di Mello e com a mãe Lídia Mattos interpretando a mãe de sua personagem), ambos esbanjando carisma e energia num filme que irradia juventude (naquele contexto, um tanto de hippismo) e alto astral (tem até participação especial do Chacrinha _curiosamente citado em "A Volta do Regresso"), mas que também apresenta um surpreendente contraponto socioeconômico. A equipe técnica também traz algumas feras, como José Rosa (que dividiu com o Barretão a fotografia de "Vidas Secas") e Raimundo Higino (montador de vários filmes dos Trapalhões, do Antonio Calmon, do Neville etc., incluindo "Dona Flor e seus Dois Maridos"). E, mesmo assim, tudo parece bastante descompromissado (o filme é despretensiosíssimo), dá a impressão de que a equipe mais se divertiu do que trabalhou. De quebra, um final delirantemente lindo e incrivelmente romântico. *** Lynch é lógico, embora algumas peças dos quebra-cabeças que nos oferece sejam difíceis de encaixar (ou talvez nem todas se encaixem). "Inland Empire" não traz exatamente surpresas, a não ser a da maior duração (algo que ele sempre quis fazer, mas teria invariavelmente dado de cara com a resistência dos produtores), que permite um mergulho mais longo no devaneio que surge após um início bastante linear. Senti que o estilo dele começa a cansar, embora várias seqüências sejam fascinantes (mas mesmo algumas das melhores, como a que toca "The Locomotion", têm cheiro de déjà vu), e os diálogos, ótimos. Gostei e me decepcionei ao mesmo tempo; curiosamente, tenho pouca vontade de revê-lo, no momento. Laura Dern é a atriz do ano? Após ter visto quase toda a série da TV, finalmente vejo "Antônia, o Filme". Bem decepcionante, embora o quarteto protagonista (ou nem tanto, já que as personagens de Negra Li e Leilah Moreno tenham muito mais destaque, e principalmente Quelinah mal aparece) transborde carisma. Há alguns pequenos momentos mágicos que valem o filme, invariavelmente ligados à música: as apresentações das heroínas, Sandra de Sá cantando um hino evangélico, Thaíde tocando "Na Sombra de uma Árvore", de Hyldon, para Negra Li, em frente a um carrinho de cachorro-quente. É alguma coisa, mas ainda é pouco. A parte técnica é sofrível (som e fotografia são desastrosos), assim como algumas atuações de coadjuvantes. O projeto todo é muito simpático, mas ficou melhor no formato televisivo, mais curto e com roteiros e direção superiores. Outros filmes da década atual que vi no período: em "Smokin' Aces", Joe Carnahan, (mais conhecido por um filme não muito memorável chamado "Narc" _ele também vai adaptar "Jazz Branco", do Ellroy, além de fazer um remake de "Bunny Lake Is Missing", do Preminger) resolveu brincar de Guy Ritchie e fazer um filme repleto de personagens (algumas muito estranhas, como os Irmãos Tremor e o garotinho invocado que fica de pau duro quando ameaça estranhos com golpes de caratê), numa trama em que muita coisa dá para adivinhar, mas um segredinho fica para última hora. O filme é razoável (com alguns momentos muito bons, entre eles a cena em que Jeremy Piven, ótimo, coloca as lentes de contato), e a surpresa mais agradável que ele nos guarda é a boa atuação da Alicia Keys (muito mais biscoituda do que em seus clipes). Já "Paprika", de Satoshi Kon, é outra decepção: após o belo auto de Natal "Tokyo Godfathers", ele vem com um anime infinitamente mais convencional e menos interessante. As referências a "Sonhos", do Kurosawa, são bem óbvias e compreensíveis. Mas uma bela supresa foi "Little Children", de Todd Field (mais conhecido como o pianista da suruba em "Eyes Wide Shut"): é mais um "drama de subúrbio norte-americano" (muito mais sério do que "Beleza Americana" ou "Desperate Housewives"). Embora bastante previsível, há momentos a destacar (como Jennifer Connelly reparando na breguice do esmalte das unhas dos pés de Kate Winslet). A narração, este artifício tão criticado (como se "literatura no cinema" fosse uma pobreza _e o paralelo com "Madame Bovary" se sustenta, embora seja outra obviedade) funciona muito bem. E antes de partir para as velharias que aparentemente não geram muito interesse, encaixo aqui a primeira temporada da série "Californication", devidamente processada pelos Red Hot Chili Peppers: é mais convencional do que eu pensava (bem, é criação de um ex-roteirista e produtor de "Dawson's Creek"...), embora o protagonista seja divertido (e pouco crível _mas com umas falas ótimas). O tema musical da abertura é muito bom, e os melhores episódios são os que apresentam nudez feminina (por que será?) _inclusive o de uma atriz que era uma das crianças da série "The Nanny". Desconfio se a segunda temporada vai manter o pique, dado o final da primeira... E quando eu finalmente penso que o ótimo David Duchovny está livre da sombra de "Arquivo X" (série que não vi, por sinal), fico sabendo que ele volta a interpretar Fox Mulder num segundo longa... Para finalizar este trecho: também vi a quinta temporada dos Simpsons (1993-1994), em DVD. Como diz o Mr. Burns: "Excellent!". Uma temporada memorável, excepcional. *** Num período meio fraco de filmes (inclusive em quantidade, já que tenho chegado do trabalho de madrugada), o destaque foi mais um longa bem atípico de um diretor fascinante, Jacques Tourneur: "Stars in My Crown" é um western estrelado por Joel McCrea e Dean Stockwell (já com anos de carreira, embora ainda criança) que, hoje, pode soar um tanto datado, mas na época deve ter sido razoavelmente inovador, por deixar a apologia da violência de lado e investir num embate cordial entre a fé e a ciência. O final é um primor. Já "Broken Arrow", de Delmer Daves, com James Stewart, me pareceu uma espécie de precursor de "Dança com Lobos" _pelo menos no que tange a representação simpática dos Apaches. "The Sound of Fury", de Cy Endfield (um dos denunciados como comunistas em Hollywood, teve de se exilar na Inglaterra), também chamado de "Try and Get Me", foi inspirado numa história real (que também teria inspirado "Fury", do Fritz Lang). de baixo orçamento, impressiona mais por alternar formas mais antigas (sucessão de closes a la Eisenstein) e "modernas" (câmera na mão), com alguns momentos muito fortes (o início) e outros bastante melodramáticos (em grande parte devido a Frank Lovejoy, que vivia fazendo papel de PM e que não é exatamente um primor de sutileza). Lloyd Bridges é o psicopata da vez. E "The Day the Earth Stood Still", de Robert Wise, um delicioso clássico da Guerra Fria (com direito a jornalistas famosos interpretando a si mesmos), sedimentou toda a estética dos pulps de sci-fi no cinema, muito imitada (com referências até em filmes de outros gêneros, como o "Army of Darkness" do Raimi, que cita a frase "Klaatu barada nikto", e até uma capa de um disco de Ringo Starr, além da canção do Raul Seixas que me lembra o trânsito paulistano). As cenas com efeitos visuais funcionam muito bem, e a trilha sonora de Bernard Herrmann (com direito a dois theremins) é brilhante. Uma pena que Klaatu não pôde ser interpretado pelo Claude Rains (prefiro ele a Spencer Tracy, também considerado para o papel). E "Alice in Wonderland", que trouxe a era do ácido lisérgico mais cedo, nesta adaptação das obras de Lewis Carroll (que, curiosamente, nunca li). O filme é uma viagem, literalmente _não sei se me surpreendo por ter sido um fracasso de bilheteria, embora hoje seja um clássico. A cena das flores é a minha preferida (também gosto demais do Chapeleiro Louco e do Coelho Branco), e Alice é talvez a protagonista mais bonita da Disney. De resto, quero apenas citar rapidamente outros filmes, alguns bem melhores do que outros: "The Gunfighter", de Henry King, com Gregory Peck, usa brilhantemente a montagem paralela e o espaço para construir suspense e tensão em altos níveis, mas também tem seus momentos românticos e bem-humorados. "D.O.A.", de Rudolph Maté (que trabalhou como diretor de fotografia para Dreyer, Hitchcock, Welles etc.), com uma seqüência inicial ótima e uma premissa idem, a de um homem que foi assassinado, porém vive; pena que Edmond O'Brien esteja péssimo; quem rouba a cena mesmo é Neville Brand, praticamente em seu filme de estréia, como o psicopata Chester _e há uma cena muito boa com um grupo de jazz. "Where the Sidewalk Ends", escrito por Ben Hecht e dirigido por Otto Preminger, traz Dana Andrews e Gene Tierney (que haviam trabalhado sob a batuta do diretor no superior "Laura"), além de Karl Malden, um desses coadjuvantes que sempre chamam a atenção. Vi também "Dark City", o quarto dos quatro filmes que William Dieterle dirigiu em 1950 (bons tempos aqueles?), é um dos primeiros trabalhos de Charlton Heston, num filme que mistura os gêneros noir (Lizabeth Scott é quase um clone de Lauren Bacall), suspense (muito bom o anel que caracteriza o assassino) e o melodrama familiar, com um final bem estranho. "The Steel Helmet", de Samuel Fuller, tem orçamento baixíssimo, mas ótimas sacadas (como a mão da estátua de Buda segurando o saquinho de transfusão de sangue), além de um ótimo Richard Loo. "Lady in the Lake", de Robert Montgomery, realiza uma idéia que não era nova: a de fazer um filme quase todo com câmera subjetiva. O resultado é estranho, bem inferior ao que Delmer Daves atingiu em "Dark Passage". "The Set-Up", de Robert Wise, caiu na revisão: pareceu pobre, óbvio, sem grandes inovações, embora longe de desprezível. E "Criss Cross", de Robert Siodmak, revela-se uma decepção; a curiosidade-mor é uma aparição-relâmpago de Tony Curtis, em um de seus primeiros filmes. Etiquetas: Cy Endfield, David Lynch, Jacques Tourneur, Joe Carnahan, Otto Preminger, Robert Montgomery, Robert Wise, Rudolph Maté, Samuel Fuller, Tata Amaral, Todd Field, Victor di Mello, William Dieterle
Sábado, Dezembro 01, 2007
ESPECIAL: 40º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO![]() Tinha escrito alguns parágrafos com uma recapitulação ao mesmo tempo afetiva e factual deste período intenso e interessantíssimo composto pelos meus cinco dias como convidado do mais antigo festival de cinema do Brasil _especialmente marcante para mim por ter contido as duas primeiras exibições públicas daquele filminho antigo, cujo cartaz, feito por Octavio Blasco, reproduzo acima. Claro que não demorou muito para eu achar o texto muito brega e pouco atraente _foi devidamente apagado da existência. Portanto, caso alguém queira saber de algum pormenor específico, é só perguntar no nobilíssimo espaço da caixa de comentários. Simplificando e indo direto ao ponto, é claríssimo o diagnóstico (já sabido há muito, mas não deixa de ser chocante topar com este tipo de coisa) de que paira uma nuvem imensa de preconceitos a respeito do cinema, expressos nos debates realizados no Hotel Nacional e também nas premiações. Existe uma série de polarizações: além da mais óbvia (e mais boba), representada pelos filmes de Bressane e Bodanzky (basicamente, um cinema mais "exigente" e outro de "comunicação com o público" _a diferenciação é tacanha), ficou bem claro que existe também preconceitos contra filmes tachados de "literários" (como se a palavra fosse algo a ser desprezado pelos meios audiovisuais _então o Manoel de Oliveira, o Eduardo Coutinho e outros são ruins? Essa simplificação de "show don't tell" me parece coisa de "guru de roteiro" no pior sentido) e também contra a comédia (no debate com Cibele Amaral, diretora do curta que deu o prêmio de melhor ator ao grande Wolney de Assis, Maria do Rosário Caetano fez uma declaração horrenda, prontamente rebatida com simplicidade e brilho pela simpática cineasta). Curioso que "A Volta do Regresso" seja justamente, entre outras coisas, um filme de desafio a estes e a outros preconceitos... De resto, há tanta coisa para contar, e o tempo é tão escasso (e o cansaço, tão grande), que o melhor é não dizer nada... Mas caso o debate nos comentários seja interessante, posso me animar a escrever mais sobre a experiência, no próximo texto. Por hora, vamos à conclusão fundamental: a melhor coisa que me aconteceu no festival foi eu finalmente ter gostado do meu filme. *** "A Volta do Regresso" tem sua primeira exibição em São Paulo dentro da 21ª Mostra do Audiovisual Paulista, no dia 15 de dezembro (sábado que vem), às 19h30, na sala Petrobras da Cinemateca Brasileira, com entrada gratuita. Será o último filme da sessão _e o único a ser exibido em película (é o último dos dinossauros). Depois do filme, vamos para uma festa-show, agitada pelo Vebis, no The Clock, bar roqueiro na rua Turiaçu. Não deixem de perder. *** Depois de mais de seis anos afastado das redações da "grande mídia burguesa" (por causa de problemas de saúde e deste sonho maluco de ser astronauta no Chipre, entre outros), eis-me de volta, por um período limitado (mas não sei quanto) de tempo. Não sei o que vou inventar depois; mas como não consigo ficar fazendo a mesma coisa por muito tempo, não duvidem de que alguma outra novidade vá pintar. Projetos não faltam, a vida é rica (já o bolso...).
Quinta-feira, Novembro 08, 2007
A esta altura do campeonato, os incautos que ousam pisar neste atoleiro já estão sabendo que aquele projeto pré-histórico, paupérrimo e ingênuo (o roteiro tem quase 5 anos...), que demorou uma eternidade para ficar pronto por motivos alheios a meus esforços e do qual eu nem sei se gosto muito, finalmente vai ter sua primeira exibição pública aqui. Sou pessimista e não espero muita coisa da experiência, mas é claro que vai ser bom estar lá _especialmente porque, no dia 24, vai rolar a estréia deste filme. No próximo texto, provavelmente conto um pouco do que rolou (se houver o que contar) e dou as datas da(s) exibição(ões) em São Paulo (às quais provavelmente não estarei presente, por obrigações familiares _ninguém mandou ser em dezembro), caso alguém queira perder seu precioso tempo. Informações que também serão divulgadas aqui. *** A Mostra de 2007 foi a mais gostosa que já freqüentei. Não que tenha sido necessariamente melhor do que outras em termos de programação, mas porque desta vez eu não peguei o vírus que me fazia, a caminho do cinema, me perguntar por que os transeuntes estavam na rua, se eles não sabiam que a Mostra estava rolando. Ou seja, não me arrebentei vendo três filmes por dia (sei que tem gente que vê mais, mas três sempre foi o meu limite), em geral era uma sessão apenas (e nem devo ter ido todos os dias). Conseqüentemente, vi menos filmes (e menos bombas) do que em anos anteriores: compareci a 14 sessões (uma delas micada, porque exibiram uma fita que não tinha o final do filme, um africano dos anos 1970 _foi a única pisada na bola da organização que presenciei). E, numa decisão que se mostrou acertadíssima, pela primeira vez me restringi somente às sessões gratuitas, que curiosamente nunca lotam, raramente atrasam e dificilmente formam filas (a exceção à esta última regra foi o filme do Miike, o que foi até bom, porque desocupou as cadeiras e permitiu que eu esperasse sentado, enquanto os paulistanos neuróticos ficavam em pé olhando para as nucas uns dos outros durante 40 minutos _se pelo menos fosse como no interior, onde as pessoas na fila se enturmam e ficam batendo papo...). Foi ótimo ter ficado longe da av. Paulista e adjacências. O melhor filme que vi, disparado, foi o mais recente de Jacques Rivette, "Ne Touchez Pas la Hache". Não me lembro de ter visto um retrato tão perfeito de um casal apaixonado (o homem, em especial, ganhou até de Charles Swann) em outro filme. Um clássico (Balzac é um herói) sobre um tema clássico, adaptado de forma clássica. Já o pior foi um holandês chamado "Garçom", uma mistura de "Mais Estranho do Que a Ficção" com "Conceição - Autor Bom É Autor Morto". Outros filmes que deixaram a desejar foram os novos dos Taviani e o do Youssef Chahine, dois novelões _o último é melhor porque pelo menos arrancou muitas risadas nos momentos mais "emocionantes". E "La Ragazza del Lago", o filme de estréia de Andrea Molaioli, assistente de direção de Nanni Moretti por mais de dez anos, também deixou a desejar, ao não saber dosar bem o melodrama com o policial. Entre os bons, mas não ótimos, figuraram o "Sukiyaki Western Django" (o pior Miike que vi, mas suficientemente divertido _não estava esperando muito mais do que isto). "Das Haus der Schlafenden Schönen", adaptação de um romance nipônico (que já havia virado filme no Japão em 1968 e em 1995) pelo ator e cineasta alemão Vadim Glowna, também no papel principal: centrado na velhice, é muito mais mórbido do que erótico, embora vejamos seis moças nuas durante boa parte de sua duração _o problema é que a trilha sonora não pára um segundo, parece coisa do Jayme Monjardim... mas a Angela Winkler está ótima. E "Vocês, os Vivos", do veterano sueco Roy Andersson, que não é moderno (lembrou algo de Monty Python e Terry Gilliam), mas tem uma visão mais realista sobre a vida e traz enquadramentos muito interessantes, com a câmera na maioria das vezes em plano de conjunto, com portas e janelas criando outros enquadramentos (a longa duração dos planos é um convite a esquadrinhar a tela em busca de discretas gags visuais e alguns ícones, como a tuba e as belas botas cor-de-rosa da groupie desiludida)... e há uma cena inacreditável e antológica: quando eu vi as suásticas na mesa, quase dei um grito. Finalmente, "Sombras", do macedônio Milcho Manchevski, apóia-se na "esquisiticezinha" durante boa parte do tempo, mas nunca chega a ser chato; o problema é quando o mistério é resolvido, a coisa fica bem bobinha. O que faz o filme valer a pena é a impressionante atuação de Vesna Stanojevska, em seu papel de estréia _ela é mais conhecida como harpista (!). Mas não é só isto que é impressionante: além de a atriz lembrar muito a Anecy Rocha em "As Amorosas" (meu preferido do W. H.), o filme traz uma cena de queda em fosso de elevador que me deixou tão perturbado que fui compelido a fazer algo que não costumo (pelo menos não me lembro de ter feito antes): mandei um e-mail para a atriz com uma foto da Anecy no filme do Khoury, contando sua história; não esperava resposta, mas a srta. Stanojevska não só me respondeu (muito simpática, abusando dos emoticons sorridentes e tal) como disse que também achou a semelhança "amazing". Encerro o capítulo "Mostra" com os documentários: "A Amada", de Arnaud Desplechin, é altamente subjetivo, mas, diferentemente de "Santiago", tem interesse extremamente restrito (é literalmente um filme caseiro). Teve gente que saiu no meio (e olha que era curto, 70 minutos). Já os dois asiáticos que vi a princípio nem pareciam documentários: "Young Yakuza", feito em Tóquio por uma equipe francesa, gerava a descrença porque, além de retratar um clã de yakuzas (e por que yakuzas iriam topar aparecer em um filme? A única condição que eles impuseram teria sido a de que nenhuma atividade violenta fosse retratada), a mise-en-scène é toda manipulada (campos e contracampos, conversas aparentemente pautadas pelo diretor etc.). O que vemos é um garoto de 20 anos, desempregado e encrenqueiro, iniciando-se num clã yakuza a pedido da mãe (!), para adquirir disciplina: basicamente, ele trabalha como empregado doméstico do chefe (que dá ótimas entrevistas), a ponto de, numa cena em que ele vê um filme de yakuzas com a mãe, ele pergunta: "Por que estes filmes nunca mostram a rotina no escritório?" (ou seja, ele lavando as xícaras de chá do chefe?). Também achei engraçado a presença de rappers japoneses, que fazem a trilha do filme: o discurso vai na linha "certo, mano, é nóis em Tóquio, miliano sobrevivendo no inferno, vida loca mil grau, passa um pano". E "Dong", minha primeira visita ao cinema de Zhang Ke Jia, também gerou certa desconfiança, porque o pintor retratado é mostrado somente retocando seus quadros; vendo "Plataforma", aparentemente sua obra-prima, dá para perceber que este distanciamento (inclusive nos enquadramentos _parece que a moda agora é não filmar closes) dispersivo é característica do cineasta, que cita Antonioni como sua maior influência. Pois a relação que tive com seus filmes me parece a mesma que tenho com os do italiano recém-falecido: gosto, compreendo e admiro, mas não me envolvo tanto quanto gostaria. *** Em homenagem à Deborah Kerr, fui ver um Powell/Pressburger que tinha deixado para trás, "Black Narcissus": talvez seja o filme da dupla que menos tenha gostado (não sabia o que esperar: um grupo de freiras _nenhuma delas tão encantadora quando a Ingrid Bergman no filme do McCarey_ na Índia não tinha sequer passado pela minha cabeça). Mas a beleza da fotografia em technicolor de Jack Cardiff _toda em estúdio, com pinturas matte, miniaturas e outros truques_ é extasiante, ainda mais quando são enquadradas beldades como Jean Simmons (que eu tinha visto recentemente como a Ofélia do "Hamlet" de Olivier _o Laurence, não o padeiro) e Kathleen Byron. E ainda uma frase belíssima, logo no início: "Remember, the superior of all is the servant of all". A câmera de Cardiff não provoca o mesmo fascínio em "Under Capricorn", o segundo filme de Hitchcock como produtor (e em cores): é atípico, um melodrama de época (obviamente muito caro) passado na Austrália; Joseph Cotten, que não gostava do filme, ficou com o papel que o diretor queria dar para Burt Lancaster, que esbanja carisma (e seus talentos como acrobata de circo, sua primeira profissão) em outro filme atípico, desta vez de Jacques Tourneur: "The Flame and the Arrow" até parece um remake do filme de Robin Hood com Errol Flynn, feito menos de 15 anos antes. Mas é uma bela diversão de "Sessão da Tarde". Já a diversão em "Annie Get Your Gun", musical que Arthur Freed produziu para a MGM, com roteiro de Sidney Sheldon e canções de Irving Berlin (incluindo o famoso tema "There's No Business Like Show Business"), que acabou sob a batuta de George Sidney (que praticamente nasceu na Broadway e se tornaria o fundador dos estúdios Hanna-Barbera) após Busby Berkeley e Judy Garland caírem fora, fica restrito às boas canções e à performance de Betty Hutton (morta em março deste ano), com destaque para a cena com os índios e a briga de casal durante um número musical. Envelheceu pessimamente (e hoje soa tremendamente machista) e é muito mal montado. Falando em machismo, vi também "Cinderella", que, apesar de bonito, também decepciona ao não avançar muito em relação a "Branca de Neve" (tanto a heroína quanto a madrasta são muito calcadas nas suas antecessoras); o alongamento da história pelo conflito entre o gato Lúcifer e a turma de ratos antropomorfizados e divertidos (e que ajudam muito mais do que a Fada Madrinha, que só aparece em uma cena) liderados pela dupla Jaq e Gus (que poderia se chamar Stan e Ollie), não é muito melhor do que podemos encontrar nos desenhos de Tom e Jerry. Voltando ao preto-e-branco, vi aquele que, até o momento, é o meu preferido de Jules Dassin: "Thieves' Highway". Pelo título, achei que fosse um policial, mas é ao mesmo tempo uma história pequena e bem-concentrada e um drama multifacetado (o protagonista tem complicações familiares, amorosas, financeiras etc.); me lembrou um pouco de "On the Waterfront", que vou rever em breve. E o elenco é sensacional: Richard Conte (o Barzini da série "O Poderoso Chefão", que trabalharia muito no cinema italiano), Lee J. Cobb, Valentina Cortese (de "A Noite Americana", com uma fala que se tornou história: "Aren't women wonderful?") e Millard Mitchell (que morreria pouco depois). E falando em Kazan, outro filme que parecia um policial convencional, mas não é: "Panic in the Streets", no qual mais importante do que pegar os bandidos é evitar que eles espalhem a peste que carregam, ameaçando Nova Orleans de uma epidemia. Richard Widmark é o herói, mas quem rouba a cena são os vilões Jack Palance (em seu filme de estréia, ainda assinando Walter) e Zero Mostel (em seu segundo filme, mas já tentando disfarçar a careca). Policiais mais clássicos mesmo foram "The Undercover Man", de Joseph H. Lewis, com Glenn Ford, e "The Asphalt Jungle", de John Huston: o primeiro é bem sóbrio e bem calcado na investigação policial; o segundo é um "filme de assalto" que gerou muitos filhos (inclusive o "The Killing" do Kubrick, também com Sterling Hayden). Ambos demoram um pouco para decolar, e o de Huston se destaca principalmente ao acompanhar as conseqüências do crime para três dos envolvidos no roubo de jóias: quem rouba (sem querer fazer trocadilho...) a cena é Sam Jaffe, cuja personagem tem os melhores diálogos e protagoniza a melhor cena, num bar de beira de estrada, vendo uma bela moça (Helene Stanley, que foi a modelo para a Cinderella no filme da Disney e a dublou cantando) dançando jazz ao som de uma jukebox. A presença de Marilyn Monroe, em um de seus primeiros papéis e na flor da juventude, é uma deliciosa surpresa _mas ela está péssima. Outros filmes do período que flertam com o crime: "Moonrise", um dos últimos de Frank Borzage, é uma espécie de "Crime e Castigo" que começa maravilhosamente bem (os primeiros cinco minutos são fortíssimos), mas depois adentra muito no sentimentalismo (talvez a censura da época tenha prejudicado). Há uma bela cena com Rex Ingram cantando um tenebroso blues. Do mesmo ano (1948), vi o curiosíssimo noir "Pitfall", do húngaro Sâsvari Farkasfawi Tóthfalusi Toth Endre Antai Mihály, felizmente mais conhecido como Andre de Toth (um dos caolhos de Hollywood): a esposa (Jane Wyatt, a mãe de "Papai Sabe Tudo") é muito mais bonita do que a femme fatale; a femme fatale não é lá muito fatal; a vítima também não é tão vítima; enfim, um noir que não é tão noir assim... E "The Reckless Moment", outro espetáculo de movimentação de câmera de Max Öphuls, que conta com a beleza adicional de Geraldine Brooks. Joan Bennett (bem diferente e mais feia do que nos filmes que fez com Fritz Lang) está neste e também em "Father of the Bride", filme não-musical de Vincente Minnelli que não se decide entre comédia e o drama de um pai (Spencer Tracy) que vê a filha mais velha (Elisabeth Taylor, adolescente) abandonando o ninho; fez muito sucesso, mas não considero de destaque na carreira de nenhum dos envolvidos. E falando em dramas familiares envolvendo pai e filha e casamentos, vi também o próprio "Pai e Filha", de Yasujiro Ozu. É mais do mesmo... mas que mesmo! Não tão bom é "Les Enfants Terribles", Terceiro filme de Jean-Pierre Melville, adaptação de um texto de Jean Cocteau (a voz do próprio narra o filme): é bem árido e fechado, provavelmente funcionava melhor como literatura. E voltei brevemente aos anos 1930 para recuperar "Bluebeard's Eighth Wife", um Lubitsch que tinha me escapado: é uma comédia bem idiossincrática do diretor (lembra um pouco "Die Austernprinzessin", que ele fez quase 20 anos antes), com roteiro de Charles Brackett e Billy Wilder, no qual o destaque absoluto é Gary Cooper, que ofusca até Claudette Colbert (David Niven passa meio em branco). Ótima, mas não no mesmo nível de "Trouble in Paradise" e "Desing for Living". Para fechar, dois dos "filmes de cavalaria" de John Ford: "Fort Apache" é uma obra-prima, irrepreensível: complexo, moderno, íntegro, irônico, engraçado, trágico, belo, crítico... Nada está fora do lugar, e Henry Fonda, inspirado na figura do célebre general Custer (eu tinha os "hominhos" quando criança, crivados de flechas), está simplesmente fabuloso (também estão aqui John Wayne, Ward Bond, George O'Brien _o galã de "Aurora" está irreconhecível_, Pedro Armendáriz e Shirley Temple como heroína romântica, em um de seus últimos filmes). Os diálogos são excelentes, e um dos planos finais (duas viúvas e uma criança) é um dos mais tristes que já vi. Não tão bom é "She Wore a Yellow Ribbon", bem mais simples e com um narrador chato. A cor deixa tudo mais falso (nunca gostei de noites americanas). Wayne chora! *** Citei Tom & Jerry acima, e o clássico desenho é uma das muitas referências de "A Via Láctea", belo filme de Lina Chamie, que estudou música em Nova York e lança agora seu segundo longa (ainda não vi "Tônica Dominante"). A princípio, estava detestando, me parecia uma mal-contada história de paixão protagonizada por um banana pasteurizado em meio a uma série de citações mal-ajambradas. Depois, quando o filme se torna mais e mais mórbido (embora com senso de humor), pensei que a diretora lidava melhor com a morte do que com o amor. Ao final, quando tudo se fecha (muito bem), o pequeno enredo ganha dimensões muito maiores (mas não sei se galácticas), todas as metáforas imagéticas e sonoras (além das citações) ganham sentido e beleza, gerando emoção (também, com a "Lacrimosa" de Mozart, tem que ser de pedra para não chorar _ainda mais quando falam da Laika, que ganhou música de Damon & Naomi). O roteiro foi obviamente muito bem trabalhado. *** Chegou a vez das séries: finalmente vi a elogiada "Roma", produção (que tem como um de seus roteiristas o John Milius) que impressiona pela magnitude dos cenários, número de figurantes e cuidado na reconstrução de época _além do erotismo (embora não seja exatamente uma novidade, que eu me lembre é a primeira vez que vejo nus frontais _inclusive da bombshell Polly Walker, ainda dando um caldão aos 40_ numa produção para a TV). Mesmo assim, o gênero pede por mais "grandeza", difícil de acomodar. O elenco todo está ótimo, e a dinâmica das personagens Lucius Vorenus e Titus Pullo funciona maravilhosamente (tendo seu ápice na melhor cena da temporada, a da arena de gladiadores _aprende, Ridley Scott!); Ciarán Hinds também deu num belo Júlio César, e Lyndsey Marshal bota fogo na tela como Cleópatra (e tem gente que acha a moça feia, tsc, tsc). Mesmo assim, minhas expectativas eram bem mais altas. Já "Heroes" superou todas as expectativas, porque basicamente todo mundo dizia que ela era meio chata, demorava para engrenar... Mas que absurdo! Eu, que não sou nerd nem nada (apesar de gostar de HQs _mas não de qualquer coisa), achei a série cativante desde o primeiro episódio (os ganchos são muito fortes), certamente muito melhor do que "Lost". Algumas atuações especialmente boas (só dá mulherada: Ali Larter e Hayden Panettiere, além das pequenas participações de Nora Zehetner e Jayma Mays) e diretores veteranos de certo renome (Allan Arkush e John Badham) seguram as pontas, além de bons roteiros (um ou outro diálogo é boboca, especialmente quando a palavra "hero" está no meio _será que os japoneses se ofendem com o Nakamura?) e excelentes efeitos visuais. Quem já viu a primeira temporada põe o dedo aqui. *** É isso aí, pessoal. Etiquetas: Alfred Hitchcock, Andre de Toth, Arnaud Desplechin, Elia Kazan, Frank Borzage, George Sidney, Jacques Rivette, John Ford, John Huston, Joseph H. Lewis, Lina Chamie, Takashi Miike, Zhang Ke Jia
Terça-feira, Outubro 09, 2007
Conteúdo: "Comédia é, em essência, uma arte raivosa e anti-social." A frase do Robert McKee (interpretado pelo Brian Cox em "Adaptação") me parece um tanto generalizante e radical, mas não incorreta. Parece se encaixar especialmente a "A Volta do Regresso", um filme quase que totalmente calcado na ironia _talvez a ponto de soar terrivelmente desagradável a alguns (estou louco de curiosidade para ver as reações de mais gente, especialmente as negativas; até o momento, parece que quem desgosta mais do filme sou eu, mas sei que isto vai mudar). Forma: "PERGUNTA - Você rodou o filme com câmera digital, em lugar de película. Até que ponto isso foi libertador para você? LYNCH - A palavra 'livre', se você a escrevesse com L maiúsculo, a fizesse tão alta quanto o Empire State Building e a sublinhasse muito _foi tão libertador assim. É tão belo, e de tantas maneiras diferentes. Depois dessa experiência, eu nunca mais poderei voltar a filmar em película." Talvez a película ainda seja, no momento (mas não por muito tempo), o melhor suporte para a exibição de filmes; mas para captação de imagens, não creio _ou seja, fecho com o David Lynch (não me lembro de onde peguei a entrevista, normalmente dou o link, sorry), apesar de ainda não ter visto seu "Inland Empire", que vai passar na Mostra e estrear logo depois. Ter feito "A Volta do Regresso" em 16mm deixou o projeto muito engessado e caro: deixei de fazer mais takes, negando pedidos do elenco, por falta de grana para comprar mais latas, e, também por contingências financeiras, não pude fazer uma truca sequer _os créditos tiveram que ser em cartela, e não sobre imagem, como eu queria (e este é apenas um dos exemplos). Não penso mais em filmar em película, e mesmo o transfer eu espero que esteja com seus dias contados. *** Estava esperando ver "Tropa de Elite" para atualizar este site. Vi o filme ontem, na promoção de aniversário de 14 anos do Espaço Unibanco (lembro de quando o lugar era Espaço Banco Nacional de Cinema, antes de o mesmo quebrar), justamente em projeção digital; durante o filme em si, não dá para perceber muita diferença na qualidade de imagem _a parte mais estressante foi durante as propagandas. Mas vamos ao filme, que deu o que falar por motivos exteriores ao mesmo: ele só virou esta sensação por causa da pirataria (nunca saberemos do impacto da mesma sobre a bilheteria, mas parece que o resultado não será dos piores _provavelmente porque os públicos são mesmo diferentes: talvez a pirataria só alcance a quem não tem acesso ao cinema por questões de localidade e alto preço) e por causa do debate em torno da segurança pública (que o próprio diretor encampa) e da violência _bobagens, bobagens (leiam o grande texto de Carlos Reichenbach chamado "Apontamentos para uma Polêmica Anunciada" aqui). Não é prerrogativa de um diretor de cinema debater o assunto, mas sim a de fazer bons filmes; também é ridículo alguém reclamar do filme porque ele simula atos de tortura e violência com resultados fatais: cinema também é Eros e Thanatos, kiss-kiss-bang-bang, seria desonesto e covarde um filme deste gênero não mostrar alguns litros de tinta vermelha (por sinal, o filme é pudico, nada de putaria saudável nos bailes funk nem na boate de strip).O bafafá todo (que inclui piadas com o Capitão Nascimento, como bonequinho que fala "senta o dedo nessa porra!" e frases atribuídas anteriormente ao Chuck Norris _coisa parecida aconteceu com o Zé Pequeno do infinitamente superior "Cidade de Deus") me deixou na expectativa de ver um filmaço, talvez outro marco histórico em nosso cinema recente; infelizmente, "Tropa de Elite" sequer se classifica como um bom filme policial (gênero no qual temos uma bela tradição, os filmes precisam apenas ser recuperados _alguém dizer que este é "o melhor filme nacional que já vi" é atestado do descaso com nossa cinematografia). É prejudicado especialmente pela debilidade das situações dramáticas e pela falta de complexidade de conflitos das personagens; o final, péssimo e pífio, sublinha que nenhuma delas chegou aos limites que poderia ter chegado; o roteiro não tem fôlego, foi pouco ambicioso _prejudicam também as "cabecices" como citação de psicólogo e aulinha sobre Foucault, além de um excesso de didatismo "para inglês ver". Mas o famoso e fenomenal Capitão Nascimento é um caso à parte: chamado a torto e a direito de "herói" (até o Luciano Huck clamou por ele quando teve seu Rolex levado por uma dupla de assaltantes numa moto), me pareceu mais um fracote, louco para deixar de subir o morro e ficar trocando fralda de nenê, que só vira "macho" mesmo na hora de rodar a bainana e gritar "quem manda aqui sou eu" com a espoca recém-mamãe em seu apê de classe média. Sei que a comparação é covardia, mas na hora lembrei das personagens de James Cagney em "White Heat", de Charles Bronson em "Machine Gun Kelly" e de Warren Oates em "Bring Me the Head of Alfredo García", que eram "bad motherfuckers", mas tinham seus tocantes momentos de fragilidade; em "Tropa de Elite", o máximo que o Capitão Nascimento de Wagner Moura (que não está mal, a culpa é do roteiro) faz é dar uma travadinha durante uma escalada com a esposa, todo playboyzudo. Em suma: dada a qualidade do material de origem e dos nomes envolvidos no projeto, eu estava esperando bem mais. Mas, para não dizer que só falei dos espinhos, o filme passa rápido e tem senso de humor. *** Vamos continuar falando de filmes policiais? Na minha quase terminada "peregrinação" (como diz religiosamente o Ailton) pelos anos 40, o gênero aparece bastante, com variações. Um deles, "The Naked City", deu origem a uma série televisiva muito famosa; o diferencial é que a estrela é a cidade de Nova York: a narração da introdução já avisa que, diferentemente do padrão, o filme foi todo feito em locações _e funciona muito bem como documento da vida na metrópole (por outro lado, nenhuma personagem é explorada mais profundamente, embora o típico irlandês Barry Fitzgerald se destaque). Há muitas cenas sem som direto e com narração, o que causa certa estranheza. A seqüência final, o epílogo do filme, é excelente, mostrando o que unia aquele punhado de pessoas que acompanhamos durante 95 minutos, numa cidade de 8 milhões de habitantes. Do mesmo diretor, Jules Dassin (americano, apesar do nome e de ter ficado mais famoso após ir para a Europa, onde trabalhou principalmente na França e na Grécia), com roteiro de Richard Brooks, "Brute Force" é um filme de cadeia (de certa forma precursor do muito superior "Le Trou", do grande Jacques Becker) estrelado por Burt Lancaster e um marcante Hume Cronyn como o policial sádico, com uma estrutura bem interessante, mas hoje bastante envelhecido. A música de Miklós Rózsa é excelente, mas não muito bem usada. Também meio envelhecido (lembrando que um filme não é necessariamente velho porque foi feito há 60 anos) é "Kiss of Death", escrito por Ben Hecht e Charles Lederer e dirigido por Henry Hathaway, cujo destaque é a estréia de Richard Widmark num papel inesquecível, o do psicopata Tommy Udo, que comete um dos assassinatos mais horrorosos e revoltantes que já vi no cinema (retratado com uma sutileza arrebatadora _aqui, substantivo e adjetivo combinam). Uma pena que uma cena de estupro e outra de suicído foram cortadas pela censura. No capítulo dedicado a "amores em meio a rajadas de balas", que inspirariam filmes como "Bonnie and Clyde" e "Boxcar Bertha", temos "The Big Steal", de Don Siegel, marcando o reencontro de Robert Mitchum e Jane Greer. O roteiro é um fiapo (justamente o que impede que o filme alcance o nível de um "Out of the Past"); o destaque mesmo está na ação, brilhante e empolgantemente conduzida pelo diretor e encenada pelo elenco. De resto, o título engana _não se trata de um "filme de assalto", mas de perseguição. "Deadly Is the Female", também conhecido como "Gun Crazy", é dirigido por um diretor de quem gosto especialmente, Joseph H. Lewis, mas deixou um pouco a desejar; já tinha visto alguns trechos muito famosos (como o assalto ao banco sem que a câmera saia do carro _o início também é sensacional), o que colaborou com a pequena decepção. E ainda temos "They Live By Night", a estréia de Nicholas Ray como diretor, com um romance bem mais doce do que o do filme do Lewis; não é nenhum "In a Lonely Place", mas também é muito bonito; Cathy O'Donnell está excelente (curioso: a dupla de assassinos de "Festim Diabólico" estrela estes dois filmes: Farley Granger neste e John Dall no de Lewis).E já que falamos no Hitch, dois de seus filmes traíram minhas expectativas: por causa do tema (os relativos à moral e à fé me são caros, pela magnitude do conflito), eu achava que "I Confess" seria um grande filme, ainda mais por ser estrelado por Montgomery Clift; não é desprovido de interesse, e talvez o diretor tenha exagerado quando disse que "não deveria ter sido feito" a Truffaut, mas é um filme pouco marcante. De "Stage Fright" eu gostei muito, contrariando o diretor (que via como um de seus problemas a fraqueza dos vilões); a recém-falecida Jane Wyman está ótima (embora o diretor tenha reclamado bastante dela _mas Hitch vivia reclamando de seus elencos), mas é claro que Dietrich (a quem também vi em "The Devil Is a Woman", do Sternberg _mas eu prefiro "Desonrada", que também traz cenas em bailes de Carnaval) rouba todas as cenas em que aparece. E vi um filme de Robert Siodmak que poderia ter sido dirigido por Hitchcock: "Phantom Lady", um filme "Z", baratíssimo, sem atores conhecidos (só reconheci Aurora Miranda e Elisha Cook Jr., excelente como um baterista de jazz mulherengo), deu numa obra-prima, com uma premissa apaixonante. Valeu também por me apresentar a Ella Raines, linda e excelente; infelizmente, sua carreira não decolou. De quebra, revi "Monsieur Verdoux", que pode parecer atípico por vários motivos, mas que me soa bastante coerente com a obra sonora de Chaplin _Welles reclamava que só ganhou o crédito pela idéia (não fica claro se ele escreveu um tratamento do roteiro ou não) após o filme ter sido um fracasso de bilheteria e crítica. *** Ainda nos anos 40, passei por outra grande comédia de Lubitsch, "To Be or Not To Be": feito no ápice da Segunda Guerra, o diretor (berlinense, que já havia encarado as conseqüências da Primeira Guerra no melodrama "Broken Lullaby", de 1932) ridiculariza Hitler e o nazismo (dois anos depois de Chaplin), numa história que se desenrola em Varsóvia; é impressionante como ele consegue arrancar risadas de uma situação tão tensa _mas, à primeira vista, me pareceu um de seus filmes com menor carga erótica, apesar de Carole Lombard (morta num acidente de avião antes de o filme ser lançado _ou seja, foi o seu último) estar muito bonita (Jack Benny é o responsável por grande parte da comicidade). Do outro lado, ouvi o título do filme ser dito por Olivier em "Hamlet", seu segundo filme como diretor (o primeiro não-americano a ganhar o Oscar de melhor filme). Compreensivelmente, fica refém do texto (embora seja uma versão reduzida, de "apenas" 2h30, e com mudanças sutis para deixá-lo mais moderninho), embora a mise-en-scène (com a câmera em constante movimento e cortes disfarçados, criando uma bela fluidez temporal _bastante condizente com o texto de Shakespeare, aliás; não é à toa que, em "A Volta do Regresso", um dos poucos planos com movimento de câmera ocorre justamente quando Carlo Mossy encarna um híbrido de Rei Lear, Rei Momo e Scarlett O'Hara) contenha muita coisa interessante. Gosto muito da música e da Jean Simmons, adolescente, como Ofélia. Outra comédia interessante é "Adam's Rib", de George Cukor: mezzo comédia romântica mezzo drama de tribunal, baseia-se na idéia da igualdade entre os sexos (chamá-lo de feminista me parece inexato), tema que não envelheceu nem um pouco, embora a sociedade tenha mudado bastante nestas últimas décadas. O casal protagonista, Spencer Tracy e Katherine Hepburn, é fabuloso (especialmente nos improvisos cômicos do filme caseiro dentro do filme); o texto é esperto e há uma canção de Cole Porter como cereja do bolo. E há um plano impressionante, longuíssimo, com câmera fixa, totalmente segurado pelo diálogo e por Hepburn e Judy Holliday (que veio do teatro, fez pouco cinema e morreu jovem, de câncer de mama). Cole Porter, em companhia do diretor Vincente Minnelli e do co-coreógrafo e "leading man" Gene Kelly, não está em seus melhores dias em "The Pirate", romance musical ambientado no Caribe. As atenções vão todas para Judy Garland _mesmo ótima, não impediu que o filme tenha sido um fracasso de bilheteria. A montagem é bem estranha, e os cenários têm aquela cara de estúdio... E em "Diário de uma Camareira" de 1964, Burgess Meredith (o Pingüim da série do Batman e o treinador Mickey dos três primeiros "Rocky" _Cesar Romero, o Coringa, está no filme de Sternberg com Dietrich que comentei acima) produz, assina o roteiro e atua sob a direção de Jean Renoir, que adapta uma peça francesa que deu num dos meus filmes preferidos de Luís Buñuel, quase 20 a nos depois. Estrelada por uma Paulette Godard loira (bem diferente do que nos filmes de Chaplin), o filme do francês trabalhando nos EUA é muito mais leve e convencional do que o do espanhol na França. No período, também dei atenção a três trabalhos dos fabulosos arqueiros Michael Powell e Emeric Pressburger: "The Red Shoes"cai na revisão, mas ainda emociona ao final e impressiona com a seqüência do balé (quase 20 minutos que demoraram 6 semanas para serem produzidos); a paixão pela arte é sempre um tema que fala comigo. "I Know Where I'm Going!" é o primeiro filme delwa totalmente em preto-e-branco que vejo _curiosamente, dizem que o diretor de fotografia fez o filme inteiro (em estúdio, onde o protagonista de Roger Livesey, substituindo James Mason, filmou o tempo todo, mesmo com grande parte do filme se passando em locações na Escócia) sem usar um fotômetro. A história é tremendamente previsível; o diferencial mesmo é o senso de humor e de liberdade que são característicos de alguns filmes da dupla ("The Red Shoes" parece exceção); há inventividade e criatividade de sobra, como distribuição de vários elementos teoricamente inconciliáveis num mesmo plano, derrubando o naturalismo. E em "The Life and Death of Colonel Blimp", a escocesa Deborah Kerr, em começo de carreira, interpreta três personagens diferentes num épico em cores com quase três horas de duração; mas a estrela é, novamente, Roger Livesey (grande ator, mas que aparentemente só pegava os papéis porque a primeira opção _neste caso, Laurence Olivier_ não podia ou não queria fazê-los), em impressionantes caracterizações (acompanhamos seu personagem por mais de 40 anos). É um filme de esforço de guerra _mas que irritou Churchill, porque a personagem de Anton Wallbrook é um militar alemão simpático; o político teria impedido Olivier de estrelá-lo e tentado banir o filme_, mas ele transcende este aspecto (como fazem outros clássicos do período, como "Os 47 Ronin"). E assim como em "I Know Where I'm Going!", a dupla de cockers spaniels de Powell faz uma ponta... E já que o assunto é guerra, vale encaixar "Sands of Iwo Jima", que eu estava enrolando para ver desde o início do ano, quando os filmes de Clint Eastwood foram lançados; feito no calor dos acontecimentos pelo veterano Allan Dwan (diretor de quase 400 filmes) e estrelado por John Wayne, com a participação do sobrevivente trio de soldados que hasteou a famosa bandeira (que também aparece no filme, emprestada pelo exército _lembra Ford usando as locomotivas reais e histórias em "The Iron Horse"), é obviamente uma patriotada bastante romantizada _inclusive com direito a parzinho romântico (não na guerra, é claro); perde muito por justamente não investir em cenas de combate. E, como já é praxe, não poderia deixar de lado os dramas familiares de meu amigo Yasujiro Ozu: fui resgatar "Conto das Folhas Flutuantes", de 1934 (mudo, portanto), que aborda a paternidade, o orgulho e a premente necessidade de ganhar a vida numa sociedade com papéis sociais extremamente definidos _por exemplo, ser ator não é considerado uma atividade "digna". Os enquadramentos são magistrais, mas achei um filme meio frio, comparado a outros do diretor. Já num filme de 1948 que não tem título em português (a tradução seria algo como "Uma Fêmea de Ave ao Vento"), o diferencial (negativo, creio) é a menor sutileza no clímax (que contém a cena mais violenta que vi em seus filmes); curiosamente, o conflito, ditado pela moral, pela política e pela economia (mais uma vez, o diretor fala do universal por meio do particular, praticamente sem ação em externas), é exposto de maneira imensamente sutil. Bom, mas aquém do seu melhor. *** Misturando a linha do tempo: de 1921, vi "A Carroça Fantasma", de Sjöstrom, um conto moral e sobrenatural (bem à moda da época) que lembra bastante o clássico de Dickens sobre o velho Scrooge, que inspirou o Tio Patinhas. Engraçado que uma das mais famosas cenas da carreira do Kubrick, Nicholson arrebentando uma porta a machadadas para chegar à mulher e ao filho, foi praticamente copiada deste filme, como uma óbvia homenagem. Pulando para os anos 60, outra adaptação literária (que Kubrick filmaria 6 anos depois), mas quase irreconhecível: em "Vinyl", Andy Warhol adapta "Laranja Mecânica" quase que em um plano só, em enquadramentos bem esdrúxulos; o enredo é resumido a quase nada; a trilha sonora é ótima, mas o filme dá um sono... Anos 70: curioso que uma sessão do Videobrasil, festival de "arte eletrônica", seja composta justamente de três filmes feitos e projetados (muito mal, com som e foco sofríveis, no superestimado Cinesesc) em 16mm... O primeiro, "Water Wrackets" (1975), é uma picaretagem da grossa: imagens de rios e lagos sob uma narração sobre eventos num futuro distante. O segundo, "Dear Phone" (1977), é o melhor, por ter, pelo menos, senso de humor. O terceiro, "A Walk Through H: The Reincarnation of an Ornithologist (1978)", segue caminho parecido, mas mostra 92 pinturas de Greenaway ("mapas") e imagens de pássaros. Completando a sessão, antes vi, no Sesc Paulista, uma exposição com 92 malas de seu personagem Tulse Luper _esta fixação de Greenaway com o 92 é por ele se tratar do número atômico do urânio, compreensível que o diretor tenha tal preocupação devido à sua geração. Acho que não dou muita sorte com Greenaway, não vi seus filmes mais elogiados... Menos chato foi conferir "Macumba Sexual", um dos 13 (!!!) filmes que Jesus Franco (assinando como Jess Franco) fez em 1983. É um interessante exercício de mistura de sonho e realidade, com apenas um fiapo de história: Franco prefere criar climas com a trilha sonora, as paisagens do deserto (e algumas construções arquitetônicas bem interessantes e exóticas) e com os corpos nus do elenco _com Lina Romay (também assistente de direção, sob pseudônimo, e mulher do diretor) à frente (e de costas e de tudo quanto é lado). Há um plano fabuloso: vemos na areia dois objetos que parecem lápides; de repente, uma mão gigantesca invade a tela e as pega (na verdade, eram pequenas estatuetas!). *** De volta a este estranho ano de 2007: "Cartola: Música para os Olhos" é um bom documentário (de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda _este último esteve na sessão para debate e foi muito simpático) não apenas sobre o querido sambista, mas sobre o século XX. Vasto e rico material de arquivo garante sim informações mais do que suficientes para a biografia _a forma não briga com o conteúdo, diferentemente do que muita gente disse. E a primeira metade de "The Simpsons Movie", de David Silverman, é excelente; a segunda cai bastante, mas não deixa de ser boa. Os Simpsons ainda não envelheceram totalmente, mas não causam o frisson de antes justamente porque eles mudaram muita coisa e abriram espaço para as séries animadas politicamente incorretas, como "Beavis and Butt-Head", "South Park" e "Family Guy", entre outras. Mas não deixa de ser admirável a série estar no ar há quase 20 anos. Deste ano também é a série "The Tudors", que acabou de estrear aqui na TV a cabo: o que impressiona mais não é a razoável riqueza da reconstituição de época (historicamente, com certeza há muitos furos, mas estão lá Henrique VIII, Thomas Morus, Catarina de Aragão, Ana Bolena e outras figuras manjadas), mas o alto nível de erotismo (muito, mas muito sexo mesmo, para os padrões televisivos _e "Roma", que estou vendo no momento, é ainda mais ousada). Um episódio em especial, o da peste, me deu mais sustos do que todos os filmes de terror que vi nos últimos dez anos; era impressionante, um atrás do outro, mal dava para recuperar o fôlego e acalmar os batimentos cardíacos. Já a outra série vista neste ínterim, "Taken" (aparentemente produzida por Steven Spielberg como aquecimento para "Guerra dos Mundos" _Dakota Fanning está lá), sobre três gerações de três famílias (é meio confuso, mesmo) envolvidas com extraterrestres. É bem a cara do Spielba _bem, do pior dele: musiquinha vagabunda criando um climinha, câmeras rodando à toa em torno das personagens, textos boboquinhas na voz de uma criança, um chororô da mulherada... Fica mais divertido a partir do segundo episódio, mas a conclusão é meio broxante. *** É claro que estou esquecendo muita coisa, mas pelo menos quero registrar aqui os meus parabéns pelo primeiro aniversário da Zingu!, que traz uma entrevista com o inigualável Sady Baby (também recomendo o belíssimo texto de Andrea Ormond, embora a edição toda mereça ser lida), e de recomendar o disco "Carnival Nights", do Black Barn Music, projeto do talentoso André ZP. Outra coisa: fantástico o debate ocorrido na Cinética a respeito de um curta-metragem brasileiro e recente; seria maravilhoso se iniciativas como esta (um grupo de críticos debatendo com um cineasta) se repetissem com mais freqüência. Eu adoraria que "A Volta do Regresso" ou qualquer outro meu passasse pelo mesmo escrutínio. Etiquetas: Alfred Hitchcock, Andy Warhol, Charles Chaplin, Ernst Lubitsch, George Cukor, Jean Renoir, Jules Dassin, Michael Powell, Nicholas Ray, Peter Greenaway, Robert Siodmak, Vincente Minnelli, Yasujiro Ozu
Terça-feira, Agosto 21, 2007
Pronto. Agora que acabou o preparo de projeto para o Prêmio Estímulo (um longa que sofri para encurtar, foi o jeito), dá para voltar a rascunhar por aqui. Os últimos dias também foram dedicados a mixar o som e montar o copião de "A Volta do Regresso". Acho que realmente só vou entender melhor meus sentimentos em relação a este filme depois das primeiras exibições públicas; muita coisa me deixa insatisfeito (claro que estou falando das funções desempenhadas por mim), mas me peguei sorrindo algumas vezes, enquanto o via e revia, durante a mixagem. Engraçado que as duas pessoas que acompanharam o processo riam sempre num mesmo ponto do filme (um plano com Ênio Gonçalves), do qual não me lembro de alguém ter rido antes... Comédia é algo bem misterioso, as reações dos espectadores sempre me surpreendem _percebo também que fico mais feliz com as simples risadas do que com as demonstrações de que o filme teve seu complexo subtexto compreendido (é um filme muito pouco pretensioso, mas que contém uma overdose de informação) ou foi analisado de forma bem-sucedida. Ele também me veio à mente ao ler este texto de Filipe Furtado para a "Paisà", em especial quando ele fala em "cinema engasgado"; isto porque eu mesmo, numa tentativa de definir "A Volta do Regresso", saí com "cinema sufocado" (outra coisa que fica evidente é como o fato de ter trabalhado em película engessou o filme, porque não pude filmar todos os planos que queria nem repetir muitos takes e muito menos fazer qualquer trucagem, por causa dos custos; película ainda é imbatível como suporte de exibição, mas nunca mais quero usá-la na gravação). Parecem conceitos semelhantes, mas os filmes são muito diferentes (aliás, meu texto passado deve ter dado a entender que gostei menos de "Conceição - Autor Bom É Autor Morto" do que ocorreu na realidade; apesar de as referências citadas em outro artigo terem todas mais de 30 anos, o filme do quinteto não me parece velho _também não é novo; as inúmeras possibilidades de montagem são atraentes, porque há muitos filmes (alguns bem melhores que outros) ali dentro _tanto que gostei muito mais do trailer, o que geralmente parece ser coisa de quem desprezou o filme, o que está longe de ser o caso). Há algo de muito interessante nesta idéia de filme-rascunho, não-definitivo _mas, como a Ana salienta, ele também fica muito restrito a quem já estudou cinema. *** Mais de uma pessoa pediu para eu escrever alguma besteirinha sobre o Bergman. Vou tentar. Lá embaixo. Antes, eu quero citar mais comédias, como "As Três Faces de Eva", de Preston Sturges (que fazia aniversário no mesmo dia que eu). Não é meu preferido dele, mas há momentos inesquecíveis, como o pai da personagem de Henry Fonda desesperado para ser servido (parece uma criança grande) e o próprio Fonda tendo três ternos arruinados numa mesma seqüência. Comédia que não tem pudor de ser engraçada é uma delícia, pena que geralmente não são muito valorizadas. Bastante diferente é "Jour de Fête" _se não me engano, o primeiro longa de Jacques Tati; minha relação com os filmes deste parece um pouco com a que tenho com os de Antonioni (sobre quem não me pediram para escrever, se não me falha a memória; curiosamente, vi "Eros" poucos dias antes de ele morrer): de admiração, respeito e reconhecimento, mas de modo mais frio e intelectual. Tati é singular (dotado de um estilo reconhecido a quilômetros), rigoroso e brilhante (dirigiu menos de dez filmes e é lembrado praticamente por todos), mas obras como "O Professor Aloprado", do Jerry Lewis (que voltei a rever e é praticamente perfeito, com exceção da montagem que não me desce muito bem; por sinal, a diferença gritante de caracterização entre Julius Kelp e Buddy Love dá um banho naquela que a inspirou, a de Spencer Tracy como Jekyll/Hyde no remake da obra-prima do Mamoulian feito pelo Victor Fleming poucos anos depois _revi também "The Bellboy", estréia de Lewis na direção, o que o levou a inventar o video-assist; curiosamente, zapeando pela TV, caí num trecho daquele filme em que o Tim Roth é um mensageiro, e o Tarantino estava justamente falando sobre "The Bellboy", dizendo que, quando Lewis morresse, todo mundo ia dizer que ele era um gênio _há alguns anos, o "Fantástico" fez um auê sobre os problemas de saúde dele, querendo prever sua morte, e quebraram a cara. E finda aqui este enorme parêntese) me entusiasmam muito mais, epidermicamente. E "Jour de Fête" perde para "L'École des Facteurs", curta que tem trechos reaproveitados no longa. *** Uma pena que a eleição dos melhores filmes dos anos 50 para a Liga dos B. C. ocorra justamente agora, quando estou prestes a começar a passear pela mesma _minhas listas costumam caducar rapidamente, mas esta não vai durar nem um mês... Enquanto isto, na década anterior, foi inevitável passar por alguns exemplares do que se convencionou chamar de noir: "The Big Sleep", do Hawks (divertidíssimo e muito menos complicado do que eu pensava, embora o ritmo seja alucinante _e Martha Vickers, linda e morta precocemente sem ter feito muita coisa de destaque, rouba as cenas de Bacall), "Out of the Past", do Tourneur (bem diferente dos outros filmes dele que vi, com Jane Greer como uma das femme fatales mais perversas da história e Kirk Douglas em seu segundo filme) e "The Killers", do alemão Robert Siodmak (adaptação de Hemingway cuja seqüencia inicial é primorosa em termos de suspense e de narrativa cinematográfica, lembrando demais "Marcas da Violência" do Cronenberg _pena que depois se torne mais cansativo), além de uma dobradinha de Abraham Polonsky, famosa vítima do mccarthismo, estrelada pelo também estigmatizado John Garfield: "Body and Soul" traz seu primeiro roteiro filmado (por Robert Rossen), e "Force of Evil" é sua estréia como diretor. Ambos são histórias morais sobre o capital: o primeiro no mundo do boxe, o segundo, do direito como acessório ao crime. Este último é especialmente interessante (a influência sobre "O Poderoso Chefão" é gritante), e Beatrice Pearson, no seu primeiro e penúltimo trabalho no cinema (dedicou-se ao teatro), está maravilhosa, belíssima. "Mildred Pierce", do Curtiz, e "Leave Her to Heaven", do Stahl, se são noirs (o último é em Technicolor), são atípicos; o último até que começa docemente, mas o terror chega em meio a uma natureza exuberante fotografada de modo idem. Exuberante também é "A Matter of Life and Death", obra-prima de Powell e Pressburger: tive a impressão de que durava três horas, não por ser ruim, mas por ser tão épico e grandioso (começando com a Terra vista do espaço _mais de dez anos antes de Gagarin, ela era verde!)... Os efeitos visuais são maravilhosos, a alternância entre o preto-e-branco e o Technicolor funciona belissimamente, e o senso de humor transborda inteligência. É uma delícia de filme, uma história contada de uma forma que só o cinema poderia fazer _só não sei porque Kim Hunter filmava tanto: não a acho bonita, e suas atuações não costumam me impressionar _também a vi em "When Strangers Marry", de William Castle _Robert Mitchum era outro que estava com força total; além deste e do filme do Tourneur, também o vi em "Pursued", western do Raoul Walsh). Singulares também são "Odd Man Out", do Carol Reed, com James Mason no papel que ele dizia ser seu favorito, um famoso terrorista norte-irlandês (claro que o catolicismo permeia a história, e o final folhetinesco é poderoso), "Portrait of Jennie" (de outro alemão, William Dieterle), com Joseph Cotten (cujo personagem se parece um pouco comigo no que diz sentido à dedicação à arte) e Jennifer Jones (de "Duelo ao Sol") num romance (uma espécie de precursor de "Em Algum Lugar do Passado" e "Ghost") com um prólogo estranhíssimo (com um discurso sobre fé e quetais _lembra um pouco os filmes do Zé do Caixão, quando ele pergunta "o que é a morte?") e uma curiosa mistura de trechos em cores e em preto-e-branco (sendo que duas seqüências climáticas são naquele "preto-e-branco tingido" que se usava no período silencioso), e "Dreams That Money Can Buy", de Hans Richter, que até parece um roteiro de Charlie Kaufman filmado por David Lynch: homem (simplesmente chamado "Joe") descobre que tem o poder de vender sonhos para as pessoas; ao atender alguns clientes, temos uma série de sete esquetes, inspiradas por artistas de vanguarda, como Man Ray, Alexander Calder, Marcel Duchamp, Max Ernst, Fernand Leger e John Cage. O resultado é irregular e um tanto cansativo, mas pelo menos um deles, chamado de "A Garota do Coração Pré-Fabricado" (estrelado por manequins animados com uma canção sensacional), é excelente. Também voltei a John Ford, com "The Fugitive", adaptação de um grande romance de Graham Greene, "O Poder e a Glória"; o filme se parece muito mais com os melodramas de Emilio Fernandez (que é produtor associado e faz uma ponta), e não é à toa que a turma deste (Armendáriz, Dolores del Rio e Gabriel Figueiroa como fotógrafo) está toda lá; para contrabalançar, dois clássicos atores de Ford, Henry Fonda e Ward Bond. Há momentos belíssimos (como a primeira entrada de Fonda numa igreja), mas não o considerei um dos melhores do diretor _de quem também vi "Bucking Broadway", de 1917, estrelado por Harry Carey, o precursor de John Wayne (claro que não é da estirpe de "The Iron Horse", mas não é nada ruim e vale como documento histórico). Ainda no western, revi "Yellow Sky" (tinha visto na Cultura há anos), do Wellman. E não posso deixar de registrar outra revisão, a de "Begone Dull Care", clássico hipnotizante e divertido do escocês/canadense Norman McLaren, com trilha de Oscar Peterson Trio. Ainda fora dos EUA, vi pela primeira vez uma ficção do Clouzot (de quem só conhecia o filme sobre Picasso), "Quais des Orfrèves", que não me parece merecer a fama de "Hitchcock francês" (há quem diga o mesmo do Chabrol); começa prometendo muito (chega a lembrar o "Luci dei Varietà" de Fellini e Lattuada, mas é melhor), mas justamente quando aparece a trama de assassinato, o filme cai bastante (embora alguns detalhes, como o filho mestiço do policial e os sentimentos contraditórios da amiga do casal protagonista _interpretada por Simone Renant, belíssima_ permaneçam sendo muito interessantes). No Japão, passei por dois Mizoguchi, "Conto dos Crisântemos Tardios" (este é de 1939) e "Utamaro..."; o primeiro é um melodrama longo e folhetinesco; o segundo, melhor, incrivelmente transita entre a pornochanchada e a tragédia shakespeareana; no centro de tudo, a necessidade de criar aliada à paixão pelo sexo oposto (de novo, eu me reconheço). E quem não foi à Sessão do Comodoro ver "Rito de Amor e de Morte", único filme de Yukio Mishima estrelado pelo próprio, não sabe o que perdeu... Um epílogo: ter visto "Germania Anno Zero", do meu amigo Rossellini, me levou a rever "O Pianista", do Polanski; tinha gostado deste último no cinema, mas a revisão me mostrou um filme bem fraco, repleto de diálogos explicativos, personagens estereotipadas e vontade de imitar o Spielberg (sem chegar lá)... Em alguns momentos, Polanski se esforça para criar uns enquadramentos bonitos (com os atores dispostos no quadro à Orson Welles), mas são momentos raros; entretanto, a imagem de Varsóvia destruída ainda é forte. Do polonês estuprador também revi "The Fearless Vampire Killers", também fraquíssimo e sem graça; compensa pela fotografia, direção de arte, trilha do Komeda e por Jack MacGowran, Fiona Lewis, Sharon Tate (e os generosos decotes destas duas). *** Chegando à atualidade: vi em DVD "Estamira" (longo, monótono e redundante, prejudicado por uma trilha sonora excruciante e um preto-e-branco "cosmética-do-lixo"), "Amor em Cinco Tempos" (frio, distante, com mania de esvaziar o drama), "A Criança" (nem inovador nem rigoroso nem impressionante nem belo nem ousado. Para um brasileiro como eu, é até ridículo o retrato dos criminosos belgas: as ruas, as moradias _mesmo o albergue para desabrigados e a prisão, que tem máquina de café e tudo_, tudo é muito limpinho e pouco perigoso). Nos EUA, fui de "300" (no qual destaca-se a beleza plástica de alguns planos bem específicos _o que mostra o destino do rei Leônidas é praticamente uma pintura; o ritmo é péssimo, prejudicado por mau uso de câmera lenta que estraga as cenas de ação; não sei porque reclamaram tanto do Gerard Butler, achei que ele está bom como protagonista _em especial, quando seu Leônidas demonstra senso de humor; Rodrigo Santoro está muito bem como Xerxes, mas poderiam ter chamado a Ru Paul para o papel), "O Grande Truque" (meio previsível e caretão; Bowie está bem como Tesla) e "The Fountain". Este, primeiro que vejo do Aronofsky, foi chamado por muita gente de "pior filme já feito"; talvez o aviso tenha me levado a não chegar a tal ponto: o roteiro é realmente confuso, direção, fotografia (com a maldita mania de travellings em subjetivas de gente parada) e montagem são pouco econômicas/inteligentes, direção de arte brega (embora seja interessante a idéia de fazer fotomontagens com imagens microscópicas, não geradas por computador), e a trilha sonora é chata. Cheguei a dar gargalhadas com as primeiras imagens de "orientalismo de butique" (um cara parecido com um monge fazendo tai chi entre as estrelas?). A grande qualidade mesmo é o elenco _em especial, Rachel Weisz, grande atriz que aparentemente teve o mau gosto de se casar com o diretor. Mas há uma carga de emoção sincera neste filme, infelizmente ofuscada pela pretensão da coisa toda (imagino que teria sido pior se a versão original, duas vezes mais cara e estrelada por Brad Pitt _que brigou com o diretor e se demitiu, causando a interrupção da produção_ e Cate Blanchett, tivesse rolado). Ah, também vi "The Prairie Home Companion", réquiem bem adequado do Altman (não é o melhor dele; aquela câmera que não pára irrita...). Falando em réquiem... não, o Bergman fica mais pra baixo. *** Vai chegando o fim do ano, e de repente os festivais começam a bombar (as estatais deixam pra gastar mais nesta época?): bati ponto no festival latino (prejudicado imensamente pela friaca maldita que flagelou São Paulo), onde vi dois belos filmes: "Etnocidio, Notas sobre el Mezquital" (1977), do homenageado Paul Leduc (com imagens impressionantes, como a dos operários descendo dos prédios ou saindo da mina; trinta anos depois, vemos as conseqüências das injustiças apontadas ali), e "El Castillo de la Pureza", de Arturo Ripstein, que, além do excelente enredo, traz o primeiro papel importante da Diana Bracho (filha do Julio Bracho, prolífico diretor), deliciosamente pelada aos 18 aninhos. A tranqueira do festival foi justamente o filme de abertura, "As Leis de Família", do Daniel Burman (outro que faz aniversário no mesmo dia que eu), presente na sessão e muito simpático; muitos críticos elogiaram, mas me parece coisa de gente deslumbrada com a Argentina: o protagonista é um dos menos empáticos que já vi, esvazia todos os conflitos e, apesar de bastante coisa acontecer, dá a impressão de que nada aconteceu. Fui também ao segundo festival de hip hop (não tinha ouvido falar do primeiro), mas infelizmente não vi nada que merecesse destaque. No festival de cinema silencioso, infelizmente perdi a sessão de "Caligari" com a Patife Band, mas vi o alemão "A Flor do Pântano" (1913), drama competente de Viggo Larsen, com acompanhamento ao vivo _nesta sessão conheci a nova e bela sala da Cinemateca, espaço que finalmente começa a se revitalizar (infelizmente, continua sendo de difícil acesso). No Olido, que andava paradão, fui ver a palestra da Sheila Schvarzman sobre Umberto Mauro no festival dedicado ao mesmo, e de quebra vi o belo "Um Apólogo" (1939), que antes de adaptar a famosa fábula de Machado de Assis, traz um minidocumentário sobre o escritor (basicamente, a voz de Roquete Pinto sobre imagens externas do Rio ou meramente ilustrativas do texto, como exemplares de obras do escritor ou sua estátua no prédio da ABL). A coisa melhora muito quando entramos na ficção em si: em poucos minutos, Mauro cria com beleza um mundo particular, no qual agulha, linha e alfinete se transformam em atores e encenam o texto, num cenário que representa convincentemente o interior de uma caixinha de costura. E também está ocorrendo o festival de curtas, que me parece melhor do que nos anos anteriores: até o momento, o destaque é "Psicose de Valter", de Eduardo Kishimoto (um belo plano-seqüência na Augusta guiado por um diálogo do pornógrafo/professor de filosofia num quarto de puteiro que termina num boteco/sinuca com uma aula sobre Kant e um zarolho entoando "Cavalgada" belissimamente; de chorar de tão bom, deu até inveja positiva); o londrinense "Satori Uso", hypado por aí, não me agradou tanto (é rigoroso enquanto imagem, mas derrapa ao não definir com precisão o que são haikais _bem, é "chatice" de virginiano). E a sessão dedicada ao gigantesco Osamu Tezuka é imperdível: traz filmes (duas produções curtas dos anos 80 e um média de 1966) muito diferentes dos mangás ou dos animes de Tezuka para a TV _e também diferentes entre si! "Filme Quebrado" usa de ironia e metalinguagem, num traço e temáticas no estilo norte-americano (lembra Tex Avery); "Saltar" é simplesmente uma pequena obra-prima, merecia status de clássico; e "Quadros de uma Exposição" é justamente uma adaptação da peça de Mussorgsky, uma aglomeração brilhante e bem-humorada de vários estilos extremamante diversos em uma crítica à contemporaneidade (dos Beatles ao Vietnã, passando pelas cirurgias plásticas, a censura, a TV) transbordante de ironia. Atualmente estou lendo a série "Adolf", publicada aqui pela Conrad em cinco livros; recomendo. *** Chegamos às séries: vi a segunda temporada de "24 Horas", que diferentemente da (muito superior) primeira, que desde o primeiro episódio te deixava fisgado, só começa a ficar emocionante a partir de seu segundo terço. A suspensão de descrença que me perdoe, mas causa estranheza as personagens passarem pelas 24 horas sem demonstrar muito cansaço ou mesmo fome _o que talvez cause menos tensão. Outro problemão foi o final: diferentemente da primeira, não "fecha" _até aí, tudo bem; o problema é que, vendo as cenas cortadas nos extras do DVD, eles eliminaram justamente o melhor e mais impressionante gancho, sem deixar claro o destino de uma personagem capital (e, de quebra, perderam um plano final primoroso). De resto, Jack Bauer continua bad motherfucker (e assassina e tortura sem dó, o espírito "Guantánamo" permeia toda a série), e a Elisha Cuthbert, uma delícia. A grande surpresa é a personagem George Mason (interpretada por Xander Berkeley, na vida real marido da Sarah Clarke, que faz a Nina Myers), sempre mostrada sob um viés negativo, que se consagra como grande herói, no clímax (bastante antecipado) deste ciclo. Tirando isto, o roteiro, coalhado de conflitos em velocidade alta e constante, até que funciona, apesar do final meio broxante. Vi também a primeira temporada de "The Practice", que deu origem à elogiada "Boston Legal" (que ainda não vi _mas não tem como ser ruim, se traz o William Shatner num papel cômico, e ainda por cima, como advogado). É boazinha; o destaque mesmo é Lara Flynn Boyle (a trilha sonora dos créditos também é ótima). *** A primeira vez que vi um filme do Bergman foi num lugar bizarro: o banco Real da Paulista! Era uma mostra de clássicos europeus (passou também "O Anjo Exterminador" e outros, que não pude acompanhar _eu era estudante paupérrimo e morava em São Bernardo, fui à sessão depois do trampo como estagiário num lugar onde quem mandava hoje é ministro _foi ali que dei a idéia de o então nascente "Sou da Paz" se dedicar ao desarmamento, mas esta é uma outra história), e o escolhido do sueco foi "Persona", que vi bebendo um vinho que, pra variar, me causou uma baita dor de estômago. Nunca revi o filme, mas as imagens daquele prólogo me encantam até hoje, assim como a repetição daquele plano/contraplano, as confissões eróticas das "mulheres que pecam" (segundo o título brasileiro babaca) e a beleza da Liv Ullman. Outro impacto foi causado anos depois, por aquele vermelho de "Gritos e Sussurros", quando reestreou nos cinemas, e por uma seqüência específica de "Morangos Silvestres", a do sonho fúnebre e meio kafkiano de Sjöstrom. "A Fonte da Donzela" e "Cenas de um Casamento" (recomendado a mim por Hector Babenco, mas esta também é uma outra história) também são outros preferidos, no momento (de seus aproximadamente 60 filmes, vi cerca de uma dúzia, muito pouco). Já "O Sétimo Selo", considerado por muitos seu melhor, sempre me deixou um pouquinho decepcionado. Não deixo de reconhecer a qualidade de seu trabalho, mas a verdade é que ele não chega nem perto de entrar no meu panteão particular de ídolos. Então talvez valha a pena citar alguém que o tinha em bem mais alta conta: segue trecho de texto de Woody Allen publicado no "New York Times": "I’ve said it before to people who have a romanticized view of the artist and hold creation sacred: In the end, your art doesn’t save you. (...) I have joked about art being the intellectual’s Catholicism, that is, a wishful belief in an afterlife. Better than to live on in the hearts and minds of the public is to live on in one’s apartment, is how I put it. And certainly Bergman’s movies will live on and will be viewed at museums and on TV and sold on DVDs, but knowing him, this was meager compensati |