A gruta é mais extensa do que a gruta

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    sábado, julho 09, 2005

    Glen ou Glenda / A Noiva do Monstro / Plano 9 do Espaço Sideral / Guerra dos Mundos

    A ciência, excitada, fará o sinal da cruz. E acenderemos fogueiras para apreciar a lâmpada elétrica.

    Já observaram que, quando algo é considerado "o pior de todos os tempos", é sempre sinônimo de sucesso (mesmo que póstumo, no caso de pessoas)? Não só pelo reconhecimento e pela notoriedade (mais pelas falhas do que pelos acertos), mas porque sempre é encontrado, debaixo de toda aquela incompetência, algo de qualidade, digno de ser lembrado. Isso é algo que pode ser observado em tudo quanto é campo (inclusive no de futebol); mas, no cinema, os exemplos costumam ser muito saborosos.

    O caso de Edward D. Wood, Jr. é clássico. Bem antes do maravilhoso filme de Tim Burton (o qual preciso _e vou_ rever com urgência), o dito "pior cineasta do mundo" (ou seja, dos EUA _mais especificamente ainda, de Hollywood) e alguns de seus asseclas (em especial, a estarlet meio feiosa Vampira e o ex-lutador Tor Johnson) já haviam virado objeto de culto. E não é difícil entender o porquê. Mais do que garantia de risos (embora nem todas as piadas sejam involuntárias; em "A Noiva do Monstro" há uma ótima: um investigador de polícia apresenta-se para uma secretária, dizendo "Sou Fulano de Tal, da Homicídios", a quem ela responde "Mas já faz quase um mês que eu não mato ninguém!"), apesar de um certo tédio permear boa parte dos filmes, é evidente que Wood tinha uma mínima compreensão do poder do cinema (em especial, da montagem e da trilha sonora _quem trabalhou com ele diz, acreditem se quiserem, que a grande preocupação dele era com os enquadramentos e a iluminação, e que ele não dava absolutamente a mínima para a performance dos atores, o que é evidente), além de uma genuína paixão pelo veículo.

    Quando isso tudo se alinha a um imenso senso de ética ao abordar um assunto extremamente pessoal (pelo menos, assim diz a lenda), a coisa pode ganhar contornos de "obra-prima doente". Este é certamente o caso de "Glen ou Glenda" (1953), um dos filmes mais bizarros que qualquer ser humano já viu. Baseado num caso clínico de mudança de sexo que acabou virando prato cheio para o sensacionalismo dos jornais (como o próprio filme explica), Wood, ex-herói da Segunda Guerra Mundial que escreve, dirige e atua, acaba tentando fazer um ensaio fílmico sobre o travestimo, "doença" da qual ele mesmo sofria.

    Idealizado como drama, com o intuito de emocionar e informar as pessoas sobre o tema, o filme acaba quase que saindo totalmente pela culatra, em grande parte, por ser inacreditavelmente confuso. A presença (inesquecível, por sinal) do húngaro Bela Lugosi (cuja parceria com Wood indica um cúmulo de decadência), no inexplicável papel de cientista (embora pareça mais um anfitrião de sessões televisivas de terror na madrugada), aparentemente está ali mais para matar o tempo e dar algum interesse à fita (que teria a chancela de um "astro", algo sempre necessário em Hollywood) do que para realmente conduzir a narrativa, já que há outro narrador, também cientista _ou melhor, médico, que busca dar um mínimo de autoridade às afirmações do filme (nos créditos, há uma espécie de "consultor médico", ou seja, tudo indica que Wood fez um trabalho sério de pesquisa, e que seu "Glen ou Glenda" era um projeto ambicioso e sério _pode-se dizer que o filme está para Wood assim como "8 1/2" está para Fellini ou "Stardust Memories" está para Woody Allen...).

    Em "Glen ou Glenda", tudo está ali para provar um ponto de vista (ou seja, o filme não poderia estar mais distante da categoria documentário _jornalisticamente falando, em especial). Os diálogos, os mais artificiais possíveis, servem para martelar a idéia de que o travestismo (e não o homossexualismo ou o transexualismo, como é frisado _para evitar censura, talvez? O próprio Wood é testemunha _assim como o nosso Mojica_ de que tudo quanto é "sadismo" ou "perversão" pode ser mostrado no cinema sem ser incomodado pela censura, desde que o final seja moralista, com o "mal" sendo devidamente punido) deve ser compreendido pela sociedade. Em um trecho particularmente interessante (por ser esquisitíssimo, mas também tocante e claramente à frente de seu tempo _pelo menos, no que tange as convenções sociais dos ditos pudicos anos 1950), os conceitos de perfeição de Deus (ou da natureza) são questionados para afirmar a normalidade da existência de "papéis sexuais" aparentemente confusos: "Se Deus quisesse que eu fosse menina, eu teria nascido menina. Mas a natureza também comete seus erros...".

    "Glen ou Glenda", além de tudo isso e muito mais, é também um filme... romântico. Dolores Fuller, namorada de Wood à época, interpreta seu par na história. Como num mundo de sonho, ela é compreensiva e declara ao terapeuta, ao saber dos "problemas" de Glen, que o amor é mais forte, e que a felicidade do noivo está acima de tudo. O plano em que ela dá a Glen o seu espalhafatoso casaco cor-de-rosa e felpudo (não à toa, destacado por Burton como a capa de sua homenagem ao diretor) é um dos mais emocionantes que já vi, um ápice da tolerância, do amor, da compreensão. Um momento luminoso num filme que, quando não chuta nossas gônadas, nos deixa perplexos por boa parte de sua curta (ufa) duração.

    Já "A Noiva do Monstro" (título que faz muito menos sentido do que o original, "Bride of the Atom"), de 1955, é quase que totalmente desinteressante justamente por ser muito mais convencional (ou seja, não tão ruim assim) do que os outros dois filmes de Wood citados neste texto. Claramente inspirado na série de James Whale sobre o livro de Mary Shelley, misturado à lenda do monstro de Loch Ness, o que se salva é mesmo a atuação "estilosa" (sacanagem, sacanagem) de Lugosi, além do inacreditável polvo de mentira que encarna o tal monstro do título. Curiosamente, é aqui que Wood consegue construir, de maneira minimamente bem-sucedida, uma narrativa baseada, acima de tudo, na montagem ("Glen ou Glenda" era bastante prejudicado neste sentido não apenas por investir em imagens de arquivo, não raro sem ligação clara entre os planos _o que também ocorre bastante em "Plan 9...", mas por outros motivos_, mas principalmente por ser um filme que não pretende contar uma história, mas defender uma hipótese). Não fosse o baixíssimo orçamento e o fato de os filmes de monstro terem deixado de ser vanguarda há décadas (o que há de interessante é justamente o contexto histórico da Guerra Fria e da corrida atômica entre EUA e URSS), quem sabe "Bride of the Monster" não poderia ter se tornado um clássico do gênero?

    "Plan 9 from Outer Space" (que também teve seu título alterado, como praticamente todos os filmes de Wood _o original, "Grave Robbers from Outer Space" entregava mais o protótipo de enredo, mas teve de ser alterado porque, como vimos na cine-bio-homenagem de Burton, os financiadores eram religiosos batistas, que inclusive obrigaram toda a equipe a ser... batizada), de 1956 (lançado somente em 1959), é o mais célebre _justamente por ser o pior. É absolutamente incrível que Wood o tenha finalizado, apelando para todo tipo de gambiarra imaginável, após a morte de Lugosi _que "quase" estrela o filme. Para começar, Wood nos "mostra" que a personagem de Lugosi foi atropelada fora de quadro _não por sofisticação no uso da elipse, mas por ter enfiado no filme imagens caseiras do ator. Depois, quando a personagem é ressuscitada por alienígenas, quem a interpreta durante quase o tempo todo (obviamente, cobrindo o rosto com a capa, apesar de ficar claro que não se trata da mesma pessoa) é simplesmente o... quiroprata da mulher de Wood, que protagoniza um dos momentos mais hilários do filme: ao atacar o herói, sua capa se desprende, mas o quiroprata é esperto e consegue segurá-la, impedindo que Wood peça para refazer a tomada (se é que ele ia refazê-la).

    Aliado a tudo quanto é tipo de erro de continuidade possível (é fácil entender as intenções de Wood ao ordenar os planos _difícil é abarcar a magnitude da tolerância do diretor para os erros mais crassos, como alternar dia e noite, externas e estúdios e outros absurdos mais), está o baixíssimo nível dos diálogos (quanto à qualidade da interpretação dos atores, nem se fala), a ponto de a coisa entrar num nível de nonsense que, se proposital, seria um marco da comédia. Já começamos com um tal de Criswell (uma espécie de Mãe Dinah deles, que previu que o mundo vai acabar em 18 de agosto de... 1999), obviamente lendo o seu texto, dizendo que "todos estamos interessados no futuro, pois será lá que passaremos o resto de nossas vidas. E lembrem-se, meus amigos, eventos futuros como este irão afetá-los no futuro!". Outra frase clássica, dita por um dos sempre apatetados policiais (no caso, o mesmo Kelton de "A Noiva do Monstro"!): "É muito difícil procurar, especialmente quando a gente não sabe o que está procurando!"; e o diálogo que praticamente define o filme: "Esta é a história mais fantástica que já ouvi!", "E é tudo verdade!", "Esta é a parte mais fantástica!". Pois é, não apenas é fantástico que um filme como "Plano 9 do Espaço Sideral" exista e seja considerado um "cult"; mais fantástico ainda é saber que Wood, cujo ídolo era ninguém menos do que Orson Welles, realmente tentou fazer o melhor que pôde... E não é que ele fez?

    Quanto a "Guerra dos Mundos", o novo blockbuster de Spielberg estrelado pelo megapopstar Tom Cruise: à primeira vista, é um filme que não tem muito de memorável. Por um lado, parecia que se tratava de uma volta às raízes do diretor de "Encurralado" e "Tubarão" (e, realmente, o filme é extremamente tenso, mal te dá uma folga), por ser, apesar do orçamento de vulto, um projeto bastante despretensioso (há quem fique vendo "aspectos políticos" aqui e ali, mas nunca é isso que está em primeiro plano). Mas a obra deixa de lado inclusive o grande sentimentalismo do diretor de lado (as relações familiares, embora tenham posição central na história, não são melodramaticamente carregadas) para se concentrar num "mezzo thriller mezzo road movie". Mesmo durante o filme (que não chega aos pés de "Minority Report", a parceria anterior de Spielby e Cruise) eu ficava me lembrando de "Marte Ataca!", do nosso amigo Burton _um filme que nem chamou muito a minha atenção, mas que cresce imensamente na memória, comparado a este aqui. Ainda bem que passa...

    P. S. Falando em travestismo, existe filme mais legal sobre o tema do que "Vestida para Matar", do De Palma? Só aquela seqüência no museu é de uma maestria... Mas tem muito mais.

    quinta-feira, junho 30, 2005

    O Meu Boi Morreu / Cupido É Moleque Teimoso / Tarde Demais para Esquecer

    What a perfect combination, no wonder we're in love.

    Diante de um título como "O Meu Boi Morreu", das duas, uma: ou é muito bom ou é muito ruim. Mas basta olhar para o nome do diretor, que a dúvida se desfaz na hora: quem assina o filme, de 1932, é Leo McCarey, uma das figuras mais proeminentes (hoje, meio esquecida, injustamente) da "era de ouro" hollywoodiana, que tinha no rol de admiradores gente do porte de Jean Renoir e Charles Chaplin _como já falei no texto sobre os Irmãos Marx ("Duck Soup" foi feito depois deste), McCarey é apenas o cara que criou o Gordo e o Magro, entre muitas outras coisas...

    Aí o filme começa e, com o desenrolar dos créditos, vemos que o diretor de fotografia é o Gregg Toland (imortalizado por "Cidadão Kane", embora tenha feito bem mais do que isso); quem também marca presença é Busby Berkeley (sabe aquelas coreografias com meninas mergulhando em uma piscina, uma atrás da outra? Pois é, está tudo aqui), ainda antes de se tornar diretor. Pronto:
    já estou mais do que fisgado, pronto para assistir a um belo filme.

    E não sou desapontado: apesar de ter como protagonista Eddie Cantor, um cômico considerado bastante limitado, o filme consegue equilibrar de forma magistral seus aspectos de musical (são apenas quatro temas repetidos durante o filme, e todos funcionam), comédia e romance. Com um destaque especial e impressionante para o erotismo (contrastando com a fama de católico e conservador que marcaria McCarey); o filme é permeado por uma licenciosidade rara nos filmes da era Bush, eficaz (e mais poderosa, beirando o vulgar) justamente por ser apenas insinuada.

    "The Kid from Spain", assim como os filmes dos Marx, também é exemplar por ilustrar como as primeiras comédias com som sincronizado mudaram tudo (na verdade, retrocederam) e apostaram no texto (as tiradas verbais vêm uma atrás da outra, algo bem Mae West), embora McCarey seja um mestre do cinema e nunca deixe que a imagem fique totalmente em segundo plano (os exemplos são muitos). Também vemos aqui a mesma base das famosas comédias estreladas nos anos 40 e 50 por Martin & Lewis (guardadas as devidas proporções, é claro): um galã romântico às voltas com um trapalhão que vive se metendo em encrencas. Mas se você acha que é tudo clichê e que não vai se surpreender com nada... tem que ver para crer.

    Cinco anos depois, McCarey estava indo de vento em popa: além de ter feito um de seus clássicos, o drama "Make Way for Tomorrow" (que, lamentavelmente, ainda não pude ver), ganhou o Oscar de melhor direção por este "The Awful Truth" (que também ganhou um título brasileiro estrambótico), uma das comédias mais sofisticadas (embora o próprio McCarey discordasse deste adjetivo) que já vi e a estréia de Cary Grant no gênero, estrelando ao lado da ótima Irene Dunne. O estilo de McCarey está mais depurado, e tudo é mais sutil, embora até humor físico seja usado (Grant despencando fantasticamente de uma cadeira, por exemplo). A ingenuidade do roteiro é apenas aparente e, embora McCarey afirme que tudo foi feito às pressas, com baixo orçamento e na base do improviso, as cenas se encaixam belissimamente; tudo é muito bem pensado (ou, pelo menos, aparenta ter sido). Coisa de mestre.

    Já "An Affair to Remember", feito 20 anos depois e também estrelado por Grant, é um remake de "Love Affair", filme de McCarey datado de 1939 e estrelado por Irene Dunne. Não vi o original, que praticamente todo mundo, inclusive McCarey, diz ser superior. Mas foi o filme de 1957 que estourou nas bilheterias, talvez por estar mais em voga, em tempos de Douglas Sirk e afins, romances edulcorados como este, que começa como comédia mas desemboca no melodrama. Apesar de inferior aos outros filmes comentados neste texto, a mão de mestre do diretor se faz sentir em vários momentos: um primeiro beijo fora de quadro, o reflexo do Empire State numa janela e mais... Saudade da época em que os diretores dos grandes estúdios americanos sabiam filmar!

    P. S. Com a palavra, Leo McCarey, em entrevista a Peter Bogdanovich, após comentar um trecho de "An Affair to Remember" (e, de quebra, nos dando uma pequena, mas valiosa, aula de roteiro):

    "Todos os meus filmes são construídos desse modo. Na verdade, tenho uma teoria sobre isso, que chamo de inelutabilidade dos acidentes. A idéia é a de que, se algo acontece, outras coisas decorrem inevitavelmente disso _como a noite após o dia; os eventos são ligados entre si. Sempre desenvolvo as minhas histórias dessa forma, uma sucessão de incidentes, que decorrem uns dos outros. Nunca trabalho com mistérios."

    P. P. S. No final do ano 2000, época em que eu era repórter do Folhateen, tive a honra de conhecer pessoalmente um dos gigantes do cartunismo norte-americano, Jerry Robinson. O homem tem uma biografia fantástica, mas, apesar de ter feito muita coisa importante, ele acabou ficando mais conhecido pelo grande público como o criador, ao lado do roteirista Bill Finger, do Coringa e do Robin (Robin...son, sacaram?), quando assumiu a tira "Batman", criada por Bob Kane. Ouvi da própria boca de Robinson, sentado ao lado dele no hall do Cinesesc, que nem ele nem ninguém sequer podiam imaginar que uma tirinha de jornal infanto-juvenil e despretensiosa como "Batman" poderia vir a se tornar um negócio tão grande _é como se, decepcionado, ele se desse conta de que o mundo não é mesmo um lugar sério, e que os valores da maioria das pessoas acabam estacionando numa escala muito baixa... Dois ou três dias depois, ainda em São Paulo (e antes de a minha entrevista ser publicada, na mesma página com outro texto meu, sobre os 20 anos da morte de John Lennon), Robinson teve um enfarte. Felizmente, não foi dos fatais.

    Mas por que é que estou falando disso, mesmo? Ah, por causa de um filminho aí, o tal do "Batman Begins" (sim, ninguém mais se digna a traduzir filmes, é a globalização _não seria divertido se o mesmo indivíduo que batizou "The Kid from Spain" de "O Meu Boi Morreu" e "The Awful Truth" de "Cupido É Moleque Teimoso" transformasse este aqui em "Morcego Neurótico, Espantalho Nervoso"?). Que nem chega a ser tão ruim, coitado; até tem um roteirozinho bem construidinho e tal, pasteurizadíssimo, como pede a média dos blockbusters "me-engana-que-eu-gosto" hollywoodianos. Na verdade, mais do que ter como protagonista um ator ruim (Adam West segue imbatível!), o filme peca por não fazer uma transposição encantadora e bem-sucedida (como ocorre nos recentes "X-Men" de Synger e nos "Homem-Aranha" de Raimi) das HQs para a tela. O único personagem minimamente compatível é mesmo o James Gordon de Gary Oldman _embora o Espantalho de Cillian Murphy mereça uma menção honrosa. Mas ainda não foi desta vez que o morcegão ganhou uma versão cinematográfica à altura. Quando é que vão mandar o Robert Rodriguez filmar "O Cavaleiro das Trevas" em parceria com o Frank Miller (depois que eles terminarem os números 2 e 3 de "Sin City", claro)?

    terça-feira, maio 31, 2005

    Mulheres e Luzes / Abismo de um Sonho / Os Boas-Vidas

    These chains of sorrow, they are heavy, it is true. And these locks cannot be broken, no, not with one thousand keys. Ai, que viadagem.

    Vendo um documentário sobre Pier Paolo Pasolini, no DVD de "O Evangelho Segundo S. Mateus", comentado aí embaixo, um entrevistado na rua elogia bastante o diretor. Aí o repórter pergunta: "E Fellini?". O transeunte abre um sorriso e fala algo como: "Fellini não é só o melhor da Itália, é o melhor do mundo!". Mas era mesmo?

    Não é de hoje que me impressiono com as semelhanças entre Itália e Brasil, não só no que tange o caráter dos dois povos (mas sou meio suspeito pra dizer, já que sou descendente de "carcamanos", com direito a olhos claros e tudo), mas, em especial, num certo tipo de cinema. Diante destes primeiros esforços de Federico Fellini na direção, datados do início dos anos 1950, fica bem evidente o modelo trazido para cá na mesma época, graças a um intenso intercâmbio (na verdade, mais de lá para cá do que o contrário) que rolou (vocês sabem, Franco Zampari, Adolfo Celi, a Vera Cruz etc.).

    Pois "Luci Del Varietà" (1950 _este dirigido em parceria com Alberto Lattuada) e "Lo Sceicco Bianco" (1952), principalmente, lembram bem de perto algumas de nossas então criticadíssimas chanchadas _inclusive na pobreza da produção, na falta de capricho dos enquadramentos, da montagem, da decupagem, da cenografia etc., adicionando a isto a extrema, quase patética, ingenuidade dos roteiros (intensificada por interpretações bastante caricatas, como a de Leopoldo Trieste no filme de 1952). Mas, apesar de todos estes problemas, é possível vislumbrar, com certa boa vontade, um prenúncio das obras maiores do diretor _à época, certamente bastante pressionado por questões comerciais, que impediam uma expressão autoral mais explícita.

    Nestas obras ainda embrionárias, o que se destaca mesmo como oásis de qualidade assegurada é a música (tanto as canções-chiclete apresentadas em "Mulheres..." quanto à primeira da série de trilhas de Nino Rota para as películas fellinianas em "Abismo...") e a sempre brilhante Giulietta Masina _em especial no primeiro filme (que registra também a estréia da carioca Vanja Orico, antes da consagração/rotulação com "O Cangaceiro"), como Melina Amour, onde ela pôde mostrar sua versatilidade como atriz dramática (sua expressão facial é absolutamente fantástica), antes de ser pasteurizada pelo sucesso a partir de Gelsomina; em "Abismo...", temos uma participação especial que marca a primeira aparição de Cabíria, a "puta com coração de ouro".

    Com "I Vitelloni" (1953), podemos notar um início de virada que se intensificaria em "La Strada" e em "Noites de Cabíria" (ainda não vi "A Trapaça", alguém conhece?) e que serviria de grande inspiração para cineastas como Martin Scorsese. A história de um jovem (Franco Interlenghi, revelado ainda menino por De Sica em "Sciuscià" e ativo até hoje) que sai de uma pequena cidade litorânea (a voz que se despede ao final é a de Fellini _Scorsese faria algo parecido ao dublar os pensamentos de Harvey Keitel em "Mean Streets") já serve como um primeiro alter ego do diretor, aqui em tom que fica mais para o dramático, embora o quinteto formado pelos boas-vidas do título esteja mais para o irreverente, mesmo. Pelo menos temos um aproveitamento melhor de Alberto Sordi, cujo carisma ficou meio embaçado em "Abismo...", e um Leopoldo Trieste menos bobão. Nada muito desprezível, mas ainda a anos-luz de gigantes como Visconti e Rossellini.

    P. S. Admiro a erudição de Peter Greenaway e seu claro desejo de fazer arte, e não meros produtos culturais. Só falta ele fazer grandes filmes. Após abandonar "Prospero's Books" e "O Livro de Cabeceira" pela metade, finalmente encarei uma de suas obras na totalidade, só porque se tratava de uma homenagem a Fellini. Mas "8 Mulheres ½" (1999) não cumpre exatamente o que promete (apesar de homenagear o cineasta italiano mais do que explicitamente _aliás, finalmente vi "8 ½", e me decepcionei tremendamente, embora saiba que ele vai melhorar na revisão); o falatório é insuportável, e a composição de imagens deixa a desejar (Wim Wenders e seu "Tokyo-Ga" humilham). Para piorar, é um filme extremamente pudico e gélido (mesmo a nudez de Toni Collette e de Polly Walker são cruelmente desperdiçadas), típico de gente que prefere falar a fazer. Chamem o Tinto Brass!

    P. P. S. OK, ando vendo bastante filmes, mas está difícil arranjar tempo e disposição para comentá-los aqui (tenho escrito algo no Multiply, também esporadicamente). Então vamos, rapidinho, dar uma pincelada sobre as últimas coisas que andei vendo no cinema:

    "Star Wars - Episódio 3 - A Vingança dos Sith - Eita Título Longo": é só mais um "Star Wars". Não há muito a dizer. Lucas não é um gênio, também não é um merda; simpatizo com o homem, no final das contas, mas o fanatismo excessivo dos "trekkers" (OK, sacanagem) é absolutamente ridículo, coisa de gente que não apanhou o suficiente na infância (será que eles também escutam Legião Urbana até hoje?).

    "Quanto Vale ou É por Quilo?": uma das frases que aparecem na tela poderia servir como título alternativo do filme, "A Denúncia como Negócio". Sérgio Bianchi diz que quer "provocar" ou coisa que o valha; para ele, no Brasil (quiçá no mundo inteiro), todo mundo é filho da puta. Só que ironia é uma coisa, perversidade, outra; não há muita graça no roto falando do esfarrapado. O que o diretor prova, por A + B, é que para ganhar dinheiro (dos Correios e de outrem), o lance é explorar pobres e negros, abusando da violência. Parabéns!

    "Bom Dia, Noite": Não tou nem aí se é de direita ou de esquerda. Quando até a breguice de botar Pink Floyd na trilha funciona, aí tem coisa. Ou melhor, talento. Chupa, Bruno Barreto!

    "A Vida Marítima de Steve Zissou": Não é maravilhoso, mas é maravilhoso, entendeu? Hilário, mas, principalmente, emocionante. "É tudo uma aventura."

    sábado, abril 30, 2005

    O Evangelho Segundo São Mateus / A Última Tentação de Cristo

    If you strip away the myth from the man, you will see where we all soon will be.

    Saindo da sessão de "A Paixão de Cristo", perguntei a um dos amigos que encontrei lá (coisa meio rara, vários amigos comparecendo à mesma sessão sem combinar nada _se tivéssemos combinado, provavelmente não teria dado certo): "E aí, foi convertido?". Claro que era brincadeira, porque um filme daqueles não converte ninguém a nada, só assusta, aterroriza ou, no meu caso, entorpece.

    Muito diferente é o caso de "Il Vangelo Secondo Matteo" (1964), de Pier Paolo Pasolini. Não que eu tenha sido convertido à alguma coisa ou que fazer um filme que "evangelizasse" (pelo menos, religiosamente _quando partimos para o lado político, a coisa muda de figura) tenha sido o propósito do diretor (sempre tachado de ateu, comunista e gay _"herege" também costuma ser usado para classificá-lo). É muito interessante ver que o filme de um descrente (dedicado ao papa João XXIII, o "papa bom" _este Bento XVI não é a cara do Imperador Palpatine?) é muito mais cristão do que o de um crente.

    Mas é muito difícil um filme baseado nos evangelhos dar totalmente com os burros n'água (caso do filme do Mel Gibson e de alguns outros, como o "Jesus de Montreal", daquele chato do Denys "As Invasões Bárbaras" Arcand), porque a história é simplesmente boa demais. Tem drama, romance, política, ação etc. Tem tudo. Mas Pasolini, em vez de buscar emocionar as platéias por meio do drama, encena o primeiro dos evangelhos com certa frieza, que, paradoxalmente, acaba atingindo em cheio o espectador _muito por causa da música e dos acertos de casting.

    Já começamos o filme com um plano dos fantásticos olhos (e da estranha boca, que nunca fala) de Margherita Caruso (em seu único filme); outra presença extremamente marcante é a do espanhol Enrique Irazoqui, perfeito como um Cristo jovem, bonito porém exótico (aquela monocelha...). Pasolini, de certa forma, mostra que a santidade é bela, mas muito esquisita.

    O Jesus de Pasolini tem muito pouco de humano (como convém a filmes que agradem ao Vaticano); prega com dureza, deixa claro que quem ama a sua família mais do que o Filho de Deus não é digno de segui-lo; que não veio para trazer a paz, e sim para trazer a espada (frase que também aparecerá no filme de Scorsese); que sua mensagem é definitiva e deve ser espalhada por todas as nações. Considerado por muitos como um marxista "avant la lettre", o Jesus de Pasolini insiste na idéia de que é mais fácil um camelo passar por um buraco de agulha do que um rico ganhar a vida eterna. Mas também deixa bem claro que é preciso ser como as crianças, e demonstra com sutileza a importância da fé na belíssima cena em que anda sobre as águas.

    Diferentemente do filme de Gibson, Pasolini entende que o que move é a palavra (e agora me lembro de que preciso escrever um dia sobre o filme do Dreyer...), e deixa seu Jesus em primeiro plano, por minutos a fio, desfiando o evangelho de Mateus. Em outro momento importante, nos mostra o julgamento de Cristo por meio dos olhos de Pedro, numa subjetiva incrível (a maioria dos cineastas trabalharia com cortes e enquadraria Jesus com câmera baixa; Pasolini supera esta mediocridade e atinge momentos de grande cinema). Considerando a proposta do diretor, é de uma grandeza ética impressionante.

    Mas entre as muitas coisas que mais impressionam neste filme (até agora, o melhor que já vi a respeito da vida de Cristo _sim, bateu até o "Rei dos Reis" do Nicholas Ray, pelo menos até uma revisão deste) está a música. Pasolini foi extremamente feliz na escolha da trilha sonora; a música que abre o filme é ao mesmo tempo sacra e profana, com uma percussão que nos remete à África; sempre que ela aparece (e, aqui, a importância dos cortes bem feitos também é imensa) é para causar um tremendo impacto, seja na ressureição de Cristo ou, especialmente, na cura de um leproso que faz o Homem-Elefante parecer uma Miss Brasil. Outro momento acachapante é quando Jesus é condenado à morte e Judas se arrepende, jogando as moedas aos zelotes: começa a tocar um blues (!!!), daqueles bem rústicos e doloridos. É preciso ver para crer, homens de pouca fé.

    Já o filme que Martin Scorsese tanto lutou para realizar (Sidney Lumet andou interessado em adaptar o livro de Kazantzakis, mas era mesmo mais interessante que um católico o fizesse) deixa logo de cara que não é inspirado pelos evangelhos, e sim uma tentativa de compreender as contradições da carne e do espírito (tema que, de certa forma, aparece em todos os filmes do diretor). Willem Dafoe aparece como um Jesus que não inspira grande admiração, pelo contrário: é uma vítima, um mero títere atormentado por vozes e sombras. Como ele próprio diz, seu deus é o medo. E o medo sempre foi algo tremendamente ligado ao sentimento religioso (Mel Gibson e esses pastores evangélicos salafrários que o digam).

    O Jesus de Scorsese, ao contrário do de Pasolini, se mostra contraditório, imperfeito, bem mais perto de ser humano: ele quer matar as pessoas que estavam apedrejando Maria Madalena, mas, quando abre a boca, o que sai é amor; mais tarde, quando vai ao templo acompanhado de seus seguidores, o que ele prega é o uso do machado, para derrubar a árvore da maldade dos homens; mas, ao final, sua sina é o sacrifício. Não ouvimos da boca dele palavras fortes; mesmo quando opera milagres, o faz às custas de muito sofrimento ou de certa soberba (quando transforma água em vinho, deixa transparecer fanfarronice). Quando deixa a cruz e vai viver como um homem, de repente passa a ver a beleza do mundo, mas de uma redoma imaginária, quebrada apenas quando se encontra com Paulo, que lhe informa que existe um Jesus muito mais importante, que morreu e ressuscitou. Quando decide voltar a ela e abraçar o seu verdadeiro destino, o filme... O que acontece com o filme? Ah...

    P. S. Falando em Scorsese (e em pais e filhos), vamos a ele, em mais um trecho de "Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano":

    "Você não podia escapar do sistema; estava em dívida com a quadrilha por toda a vida; eles usavam você para sempre. Queriam que você sacrificasse sua própria família. Essa demência culminou em 'O Poderoso Chefão', de Francis Coppola. Como Al Pacino descobria ao voltar da Segunda Guerra Mundial, o filho tinha que seguir o caminho criminoso de seu pai. Quando você era um Corleone, não havia como despir o uniforme. Era uma família infeliz, unida pelo medo e dilacerada pela traição, mas você a servia sem nem sequer qustionar sua legitimidade _como se ela fosse seu país. Os valores americanos _família, livre iniciativa, patriotismo_ eram virados do avesso. O próprio individualismo estava morto. A organização era um estado dentro do estado; o gângster, um presidente de conselho; e o crime, um meio de vida."

    quinta-feira, abril 14, 2005

    Retrospectiva: três anos na tela

    Como acredito piamente que os incautos (e surpreendentemente numerosos!) visitantes deste rincão esquecido pelos deuses têm uma cultura vastíssima e sofisticada, certamente vocês sabem o que um tobogã disse para o outro. Pois é, vejam só, quem diria: este endereço completa hoje três anos de existência. Considerando que os primeiros textos publicados aqui, em 2002, pertenciam a outro site que eu tinha desde 2001, façam as contas... Muita água rolou de lá pra cá. Mas não precisamos falar (muito) sobre isso.

    Este texto comemorativo de aniversário, tradicionalmente, serve para recapitular um pouco do que rolou por aqui no ano que passou (além de ajudar a quem quiser consultar algum texto específico sobre determinado filme _embora eu não saiba porque alguém em sã consciência faria uma coisa dessas). Também serve para esclarecer algumas coisinhas muito básicas e fundamentais, a saber: este site não é dedicado à crítica cinematográfica (eu não escrevo resenhas de filmes aqui _para outras publicações, até penso no assunto, desde que você seja meu amigo ou me pague decentemente ou seja uma mulher gostosa e insaciável que saiba cozinhar e fazer massagem) e eu não sou "cinéfilo" (não que eu não ame o cinema; amo, pratico e dou muito dinheiro pra esse miserável. É que a palavra me soa preconceituosa, e eu tenho uma vida sexual ativa demais para ter esta pecha colada em mim; desculpa aí, gente). Quem quiser mais esclarecimentos, pode perguntar depois, no nosso espaço nobilíssimo, a área de comentários otários (bom, só os meus são otários... geralmente).

    Dando uma olhada no ano que passou, dá pra perceber com clareza que o tempo escasseou muito; em compensação, creio que os textos estão mais equilibrados: ao mesmo tempo menos pernósticos, porém menos frívolos. Sabem como é, algumas coisas são como o vinho: dão uma baita dor de estômago...

    Mas o importante mesmo é agradecer a todo mundo e... ué, cadê a minha coroa de espinhos?

    Abril

    Nanook, o Esquimó / O Homem da Câmera / The Beatles Anthology
    Retrospectiva: dois anos na rede
    Glória Feita de Sangue / Nascido para Matar / Casablanca / De Crápula a Herói
    Festim Diabólico / A Dama de Shanghai / O Veredicto / O Sol É para Todos

    Maio

    Barravento / A Terra Treme / Diários de Motocicleta / 25 / Di
    Kill Bill Vol. 1 / Era uma Vez no Oeste

    Junho

    Pulp Fiction / Scarface (1983) / Platoon / Matador

    Julho

    Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban / Shrek 2 / Homem-Aranha 2
    Cazuza - O Tempo Não Pára / Amadeus
    Tróia / Gladiador / Coração Valente

    Agosto

    Igual a Tudo na Vida / Edu Coração de Ouro
    Harakiri / Lugares Comuns / Fahrenheit 9/11

    Setembro

    Minha Esperança É Você / A Vila / O Garoto Selvagem / Cama de Gato
    Barry Lyndon / Dr. Fantástico ou Como Aprendi a Parar de me Preocupar e Amar a Bomba

    Outubro

    Super-Homem: o Filme / Super-Homem 2: A Aventura Continua / Super-Homem 3
    Kill Bill Vol. 2

    Novembro

    Nina / Balanço da Mostra 2004

    Dezembro

    Má Educação / Labirinto de Paixões / Thriller - A Cruel Picture

    Janeiro

    Reinado de Terror / Pueblerina
    Peões / Entreatos / Meu Tio Matou um Cara
    Alexandre / Eureka/ Sobre Café e Cigarros

    Fevereiro

    Closer - Perto Demais / Menina de Ouro
    O Aviador / Alice Não Mora Mais Aqui / Depois de Horas / Quem Bate à Minha Porta?

    Março

    Diabo a Quatro / Um Dia nas Corridas / Uma Noite na Ópera

    P. S. Como o aniversário é nosso, mas o presente... também é nosso, segue aí de lambujem um inacreditável texto gerado a oito mãos (as de Ana, Marcelo, Danilo e Maurício) neste outro logradouro virtual. Com vocês, "A Manca":

    "Ele sempre bebia às sextas-feiras. Ele sempre ficava alterado. Ele sempre achava que a manca, garçonete do boteco, era a mulher da vida dele.
    Mas ele tinha uma maneira meio estranha de chamar a atenção da manca. Sempre que ela passava por sua mesa, exibindo aquele rebolado peculiar, ele dizia algum sutil galanteio, como:
    _ Psst! Ô, gostosa!
    Ou como:
    _ Ô, coxuda!
    Ou ainda:
    _ Chuchu da minha marmita!
    Como a manca não se mancava e sempre o ignorava, uma hora ele resolvia apelar para a ignorância: passava uma rasteira na moçoila. Esta, ao estatelar-se no chão, se limitava a olhar, perplexa, para ele, que dizia:
    _ Tô falando com você.
    Até que, numa sexta-feira, a manca não deu as caras no bar.
    Nem na outra sexta. E nem na outra.
    Foi quando ele parou pra perguntar pra um outro garçom:
    _ Ô meu, cadê aquela moça manca?
    _ Ah, vai casar com o dono do bar...
    Diante desta espantosa revelação, o jovem e ébrio galant reuniu toda a potência de seus neurônios combalidos pela marvada e procurou formular uma complexa sentença. Mas, em vez de algo como "Por que coxa, se bonita? Por que bonita, se coxa?", o que saiu foi:
    _ Que me importa que a mula manque, eu quero é rosetar!
    Decidido a conquistar a mulher da sua vida e informado do endereço da mesma, dirigiu-se à residência daquela ingrata, munido de uma garrafa de Velho Barreiro. Chegando lá, deparou-se com as venezianas cruelmente fechadas (também, eram três da manhã). Caprichou na mira bêbada e atirou a garrafa na janela da amada (mas acabou acertando um gato preto que passava por ali), gritando, com toda a força de seus pulmões:
    _ Grandes são os desertos, minha manca! Grandes são os desertos!
    Mas o que o nosso miserável herói não sabia era que a manca, além de manca, era surda-muda...
    Sua amada manca-surda-muda não acordou. Porém, sua vizinha, cega e dona do gato, saiu à janela chamando pelo animal.
    A deslumbrante visão de uma mulher de óculos escuros a tatear o vazio em frente a própria janela e a gritar no meio da madrugada fez com que ele, mais desesperado ainda, tivesse um ataque de diarréia bem naquele momento, bem naquele lugar.
    Felizmente, a manca, que era surda-muda, mas tinha um olfato excelente, abriu a janela e, vendo seu fiel cliente em apuros, desenrolou um papel higiênico como se fosse Rapunzel jogando as tranças para seu amado.
    Nosso herói, tocado pela generosidade da manca, não se importou por ela ser manca, surda e muda, mesmo após ficar sóbrio. E a manca surda e muda finalmente ficou sabendo que aquele homem, a quem havia servido tantas vezes, lhe dirigia galanteios à mesa, em vez de querer ensiná-la a lutar capoeira. Pena que a manca também tinha cisticercose, mas esta é uma outra história."

    domingo, março 13, 2005

    Diabo a Quatro / Um Dia nas Corridas / Uma Noite na Ópera

    This is your life, don't play hard to get. It's a free world, all you have to do is fall in love.

    Eu gosto muito de música. Como alguns devem saber, até me sustentei durante algum tempo fazendo críticas de disco, cobrindo shows e entrevistando popstars (inclusive fodões como Chuck Berry e Lou Reed, pessoalmente). Mas esta é a parte chata da coisa. A parte legal é que a música tem um poder especial (como o cinema também tem, mas de uma forma menos dinâmica, creio) de potencializar (ou, em certos casos, neutralizar _por exemplo, se me sinto deprimido, escuto Clash e fico pronto pra outra) sentimentos.

    Então, se eu ando com altos níveis de testosterona, ouço The Who (ou The Stooges) para extravazar; só falta eu sair pra brigar na rua (especialmente com o Who, que é praticamente banda de hooligan). Já quando estou sensível, como atualmente (será a gripe ou o jejum?), eu ouço Queen. Porque o Freddie Mercury é uma bicha romântica e melancólica, é o Álvares de Azevedo do rock inglês. Só o Frederico Mercúrio é capaz de escrever versos como "I could give up all my life for just one kiss", que pode parecer exagero, mas que descreve algo que todo mundo já sentiu ou vai sentir.

    Pois dois dos CDs do Queen são homônimos de filmes estrelados pelos Irmãos Marx, "A Night at the Opera" e "A Day at the Races", dos quais falaremos a seguir. Antes vamos falar de "Duck Soup", mas, antes ainda, falemos dos Brothers, que tornaram-se famosos na Broadway do início dos anos 1920. Seus dois primeiros filmes, "The Cocoanuts" (1929) e "Animal Crackers" (1930), eram transposições de suas peças, algo típico do início do cinema com som gravado. Esse tom geral de "teatralidade" grudou em suas obras, não importando muito quem as dirigisse.

    "Duck Soup", de 1933, (no Brasil, "Diabo a Quatro", um bom título), é considerado por muitos o melhor da trupe, talvez por ser o único dirigido por um cineasta de renome, Leo McCarey (só o homem que juntou Laurel & Hardy). Mas a história ambientada em Freedonia, (com destaque para o número musical que comemora uma declaração de guerra, na qual todo mundo começa a dar coices _não é à toa que Mussolini proibiu o filme na Itália_, e para a clássica cena do espelho, imitada no Brasil com Oscarito e Eva Todor e refeita por Harpo com Lucille Ball em um episódio de "I Love Lucy"), foi um fracasso de público e quase declarou o fim da carreira cinematográfica dos Marx. Graças a Irving Thalberg, da MGM, eles, então convertidos em trio (Gummo e Zeppo ficaram de fora), ganharam novo fôlego e fizeram sucesso com "Uma Noite na Ópera" e "Um Dia nas Corridas". Mas, pelo pouco que conheço da obra deles (além destes, acho que só vi "Horse Feather" _ou "Os Gênios da Pelota"), o período inicial deles na Paramount é mesmo mais interessante, talvez por ser mais irreverente.

    "A Night..." e "A Day..." são obviamente filmes irmãos, muito parecidos, e carregam a série de clichês dos Marx, como Chico (apelidado assim por ser mulherengo _ou seja, gostar de "chicks") tocando piano com seu indefectível estilo "pistolinha", Harpo deixando de fazer careta enquanto toca harpa e Groucho às voltas com uma ricaça abobalhada (sempre a ótima Margaret Dumont, uma escada e tanto). Allan Jones ocupa a posição de Zeppo (que, dizem, era o mais engraçado de todos, embora só fizesse o papel do certinho), fazendo o galã cantante, o que deve ter colaborado para o sucesso comercial dos filmes, embora as cenas em que ele aparece sejam sempre as mais constragedoras.

    O destaque mesmo desses filmes são os três Bros. em ação, em especial a química entre Chico e Groucho, exuberante em cenas como a da leitura (e "rasgação") do contrato em "A Night..." e o sensacional esquete em que Chico vende uma barbada para Groucho em "A Day...", totalmente teatral, com câmera fixa e plano de conjunto. Já Harpo, por não falar, acaba respondendo pelos momentos mais "cinematográficos" dos filmes _em especial nos planos detalhe de seus dedos tocando harpa. São momentos brilhantes como estes que fazem valer a pena ver estes filmes mais de 70 anos depois de sua realização; os números musicais, em geral, são de doer (em "A Day..." há uma cena no gueto dos negros que hoje soa absurdamente racista, mas naquela época bem menos politicamente correta, soa justamente o contrário). É, anarquia, oi, oi...

    P. S. Leo McCarey fala sobre a experiência de trabalhar com os Marx em "Duck Soup" (trechos retirados do livro de Bogdanovich):

    "Não gostei. Eles eram muito irresponsáveis, e eu nunca conseguia reunir todos ao mesmo tempo (...). Groucho julgava ser ele próprio o mais criativo, mas para mim era Harpo _era ele quem respondia melhor. (...) O mais incrível sobre esse filme é o fato de eu não ter enlouquecido. Eles eram completamente doidos. Apesar disso, gostei de rodar diversas cenas. A experiência que eu tinha com filmes mudos me influenciou muito, de modo que eu geralmente preferia trabalhar com Harpo. Mas aquele não era o filme para mim. Na verdade, foi a única vez na minha carreira que baseei o humor nas falas, porque esse era o único jeito de se obter de Groucho alguma coisa engraçada. Ele dispunha de quatro ou cinco redatores, que lhe forneciam gags e falas. Não fiz nenhuma delas."

    sábado, fevereiro 26, 2005

    O Aviador / Alice Não Mora Mais Aqui / Depois de Horas / Quem Bate à Minha Porta?

    Just like a car, you're pleasing to behold. I'll call you Jaguar, if I may be so bold.

    Em 2004, Martin Scorsese olha para uma personalidade do passado que olhava para o futuro. Howard Hughes, transformado em lenda até por Orson Welles em seu absolutamente brilhante "F for Fake", tornou-se famoso mais pela suposta "esquisitice" (hoje melhor compreendida, já que até Luciana Vendramini e Roberto Carlos falam em transtorno obsessivo-compulsivo, e o Jack Nicholson levou um Oscar por uma de suas piores atuações só porque brincou de ter TOC) de seus últimos anos de vida do que por suas realizações em Hollywood, no campo da aviação ou no da putaria.

    Até uma revisão, "The Aviator" é um grande filme, grande com G maiúsculo (bem diferente de "Alexandre", um elefante branco desgovernado, embora acima da média, considerando a obra de Oliver Stone), muito melhor do que eu esperava. Não só pelos aspectos de produção, mas, principalmente, pelo roteiro: em cerca de três horas, conseguiu erigir um retrato interessantíssimo de Hughes, cuja verossimilhança não importa nem um pouco. Neste contexto, a escolha de Leonardo DiCaprio para o papel parece adequadíssima, numa história tão fascinante que até parece real (não sei se todo mundo vai entender, mas como isto não é jornalismo _nem mesmo jornalismo gonzo...). Alguém aí lembrou de "Tucker"?

    Retrocedemos 30 anos no passado e reencontramos Scorsese olhando para o presente, hoje distante. Assim como "The Aviator", "Alice Doesn't Live Here Anymore" não era um projeto original de Scorsa, mas oferecido a ele por outrem. Numa época pré-"Star Wars" (estou devendo um texto sobre a trilogia original, um dia rola), o que, hoje, poderia até significar "pré-tudo" (uma grande besteira, é claro), o diretor consegue pegar um roteiro que, à primeira vista, não tinha nada a ver com o seu universo de novaiorquino descendente de italianos, e conseguir imprimir suas marcas: uns toques de cinefilia (como a evidente homenagem a "O Mágico de Oz" no prólogo), de paixão pela música pop (a trilha sonora é ótima, como esperado num filme em que a protagonista se pretende cantora), Harvey Keitel quebrando tudo e um rascunho do que Jodie Foster, então moleca, faria em "Taxi Driver" (que, não à toa, também cita Kris Kristofferson).

    Mas há algo neste "road movie" que o faz "menor" (é importante que este "menor" esteja entre aspas) do que muitos dos filmes posteriores de Scorsese, e me parece que não se trata necessariamente de falta de experiência, mas sim de ambição. "Alice..." parece ter sido um desses exercícios saudáveis que certos diretores mergulham de tempos em tempos, como que para se testarem. Tenho a impressão de que foi um filme mais gostoso de fazer do que de assistir (o molequinho Alfred Lutter, hoje um engenheiro trabalhando com informática _bem, cara de nerd ele já tinha_, é muito engraçado), embora esteja longe de configurar um trabalho desprezível. Há sensibilidade de sobra durante praticamente todas as cenas, além de uma evidente disposição do diretor em mergulhar mais profundamente do que a média no dito "universo feminino", a princípio não muito associado ao homem. Belo filminho, que deveria ser mais conhecido, apesar de ter virado série de TV...

    Cerca de dez anos depois, Scorsese estava numa pior: "A Última Tentação de Cristo", filme que ele queria fazer desde o início dos anos 1970, teve sua produção cancelada. Seu filme anterior, "O Rei da Comédia", tinha sido uma experiência bastante desagradável, e o diretor sentia que nunca mais faria outro filme. É até irônico que ele tenha vindo a dirigir "After Hours" (o título em português é um dos mais idiotas da história), que mostra uma espécie de calvário novaiorquino numa noite que parece não ter fim.

    Vi o filme na Globo, quando era criança, e me lembro de ter achado tudo muito esquisito e angustiante _ou seja, as lembranças que eu tinha do coitado do Griffin Dunne não era nada agradáveis. Agradável foi rever o filme e descobrir que ele é simplesmente hilariante, com uma câmera fantástica (e uma Linda Fiorentino que faz jus a seu prenome), e que consegue se manter moderno mesmo sendo muito fiel ao seu zeitgeist (com direito a Cheech & Chong e tudo). Difícil imaginar o que teria saído se Tim Burton tivesse mesmo realizado o filme, mas provavelmente não teria ficado tão bom quanto a versão de Scorsese. A trilha sonora também é um deleite.

    Voltando lá para trás de novo, "Who's That Knocking at my Door" é uma gratíssima surpresa. Praticamente todo mundo que conheço havia falado mal do filme, mas ele mostra que as raízes de Scorsese já estavam todas ali (não é à toa que o filme começa com a mãe do diretor). Ruas de NY, violência, Harvey Keitel (descoberto através de anúncio em jornal), música, cinefilia (com destaque adequadíssimo para John Ford), catolicismo (e mesmo um pouco de nouvelle vague _Godard, em especial), até parece que o diretor queria colocar tudo o que tinha em um só filme, coisas da juventude. Feito durante anos, a princípio como filme estudantil, mas que acabou se profissionalizando, é natural que "Quem Bate à Minha Porta?" seja quase uma colcha de retalhos (o trecho em que toca "The End" foi filmado quatro anos depois do resto do filme, só pra colocar mulher pelada e deixar tudo mais comercial), mas ainda assim é uma obra que empolga pela evidente paixão empregada em sua produção, mesmo que Scorsese ainda não soubesse contar direito uma história. E quem pensa que contar histórias é fácil e que esta não é a função do cinema, sinceramente, vá pastar.

    P. S. Falando no homem, vamos citar um trecho de seu "Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano", recentemente lançado por aqui na forma de livro pela CosacNaify. Aqui, ele fala de um John e acaba citando outro:

    "Cassavetes encarnou a emergência de uma nova escola de cinema de guerrilha em Nova York. Seus filmes eram feitos literalmente na base da confiança. John era destemido _um verdadeiro renegado montando um psicodrama atrás do outro com a cumplicidade de um pequeno grupo de amigos. Ele insistia em ter 'prazer' ao fazer filmes _enquanto buscava algum tipo de verdade, talvez mesmo uma reveleção.

    John Cassavetes (1984): Ter uma filosofia é saber como amar e saber onde colocar o amor. Você não pode colocá-lo em toda parte. Teria que ser um sacerdote para dizer: 'Sim, meu filho, ou sim, minha filha, Deus te abençoe'. Mas as pessoas não vivem desse jeito. Elas vivem com raiva e hostilidade e problemas. E falta de dinheiro, sabe, decepções tremendas na vida. Então o que elas precisam é de uma filosofia. O que eu acho que todo mundo precisa é de uma maneira de dizer: 'Onde e como eu posso amar e ser amado de modo a viver com algum grau de paz?'. Então é por isso que eu preciso que os personagens realmente analisem o amor, discutam o amor, matem-no, destruam-no, firam-se uns aos outros, façam tudo aquilo, naquela guerra, naquele discurso polêmico e naquele retrato polêmico do que é a vida. E o resto da coisa realmente não me interessa. Pode interessar a outras pessoas, mas eu tenho uma mente monotemática. Só tem uma coisa que me interessa. O amor.

    Martin Scorsese: Todos os filmes de Cassavetes são 'épicos da alma humana'. Ao assisti-los, me vem à mente um comentário feito por John Ford a um colaborador que estava se queixando das péssimas condições do tempo quando eles tentavam rodar um filme no deserto. O homem perguntou: 'Olhe, sr. Ford, o que é que podemos filmar aqui?'. E Ford respondeu: 'O que podemos filmar? A coisa mais interessante e empolgante que existe no mundo: um rosto humano'."

    P. P. S. Agora, é hora de esculhambar. Republico aqui um dos monstros de Frankenstein costurados em uma singela comunidade do Orkut chamada, apropriadamente, Contos Tontos. Este aqui se chama "O Almeida" e foi escrito por Ana, Marcelo, Bruno, Alexandre e Maluco (todos os direitos reservados, é óbvio):

    "Almeida era uma das pessoas mais egoístas que já existiram. Do tipo que anda com espelhinho e só escuta a voz alheia se essa proferiu o seu articulado nome.
    Almeida quis ficar no escuro. Talvez para dormir e sonhar consigo mesmo. Mas não bastava desligar apenas a luz do seu quarto. Almeida desligou a chave-geral do prédio inteiro. Jamais iria passar pelo seu cérebro que tinha outras pessoas na edificação. E mais, que esses seres estivessem fazendo uso da energia elétrica. Almeida só percebeu seu erro quando uma pessoa EXATAMENTE idêntica a ele apareceu em sua frente e disse:
    _ Almeida! Arrependa-te de seus pecados!
    Ao que o Almeida, entre surpreso e satisfeito por finalmente ter encontrado alguém minimamente interessante para conversar, indagou:
    _ Mas quem és tu, ó insólita criatura?
    _ Ué, rapaz, não está me reconhecendo? Eu sou Deus, pô!
    _ Impossível _ replicou Almeida.
    _ Como assim, impossível?!? Se te digo que sou Deus, só posso ser DEUS. Achas que alguém seria louco de brincar com algo desta magnitude?
    _ Não só acho, tenho certeza. E te digo o porquê! EU sou Deus.
    _ Justamente... Sinal apenas de que sou onipresente...
    O Almeida (ou os Almeidas...) estava tão entretido em seu papo que nem ouviu as batidas insistentes na porta. Eram mais e mais ferozes, até que a madeira cedeu e entraram dezenas de moradores.
    Estupefatos de vê-lo discutindo com um espelho, desandaram a quebrar tudo na sala dele.
    Até que só sobrou o espelho. E foi do reflexo de Almeida, talvez assustado com a idéia de tomar uma sapatada e se ver tomado por rachaduras que iam estragar seu visual, que veio o alerta.
    - Ô, Almeidinha!!! Esses vizinhos mulambos que você tem estão destruindo seu apartamento. Faça alguma coisa!
    Almeida olhou toda aquela destruição e, em vez de se desesperar como prejuízo, deu um sorriso de canto de boca. Ele tinha um plano.
    Ajuntou toda a mobília destruída pelos vizinhos no centro da sala, formando uma pequena montanha de entulho. Colocou o espelho em pé, fincado no alto da montanha, de modo que continuava a ver seu reflexo. Pegou uma caixa de fósforos na cozinha e um litro de álcool na dispensa. Voltou para a sala e derramou metade do litro sobre a montanha de entulho, e a outra metade sobre seu corpo. E, olhando para o espelho, com a caixa de fósforos na mão, gritou:
    _ Cansei de ser Deus! A partir de agora, eu me tornarei Prometeu e trarei o fogo aos homens! Eu lhes devolverei a luz que outrora neguei à humanidade!
    Os vizinhos do Almeida, inertes diante de suas atitudes incompreensíveis, só esboçaram alguma reação depois que o dono do apartamento em frangalhos quebrou todos os palitos da caixa de fósforos, na vã tentativa de acendê-los: caíram na gargalhada.
    Impávido, o Almeida não perdeu as estribeiras. Dirigiu-se até a janela, que ficava no 18º andar e, antes de atirar-se aos ares, bradou para os vizinhos, novamente estupefatos:
    _ Eu sou a Fênix renascida! Meu destino é a glória eterna!
    Seu corpo nunca foi encontrado. Há quem diga que, naquela noite, o Almeida voou."

    sábado, fevereiro 12, 2005

    Closer - Perto Demais / Menina de Ouro

    Vou pescar sua alma e lutar...

    Querido bloguinhu: há cerca de cinco anos, fui transferido da editoria de Ciência da Folha de S. Paulo para a Ilustrada, para escrever sobre... teatro. Fiz umas reportagens aqui e acolá, entrevistei gente do porte de Paulo Autran e tal, até que, perto de completar um mês na nova função, fui atirado aos leões: tive de escrever uma matéria de capa, com chamada para uma página inteira. Para quem acha que estou sendo dramático demais, a parada era a seguinte: Otávio Frias Filho, diretor de redação do jornal e filho do dono, é dramaturgo; portanto, acompanha com grande interesse tudo o que sai sobre teatro no jornal de sua família. E, se um de seus empregados escreve alguma besteira numa matéria de capa sobre teatro, está praticamente assinando sua carta de demissão (bom, se é verdade, não sei; foi o que me disseram os colegas mais experientes _felizmente, eles só me contaram esta história depois que a matéria foi publicada e eu continuei no emprego... Mas confesso que nunca entendi nem compartilhei deste pavor todo que a maioria dos meus colegas sentia).

    Mas por que é que estou contando esta história desinteressante neste rincão esquecido por Deus, tanto tempo depois? Ah, é porque a peça em questão era "Mais Perto", como foi batizada a montagem brasileira de "Closer", dirigida por Hector Babenco (que fez uma pausa no complicado processo de adaptar "Estação Carandiru", de Drauzio Varella, para o cinema) e estrelada por José Mayer, Renata Sorrah, Marco Ricca e Guta Stresser... Então, para fazer minhas entrevistas (além dos citados, também falei com o cenógrafo Gringo Cardia e com o autor da peça, Patrick Marber), é claro que tive de ler a peça primeiro e... bem, na época, achei um belo texto, com diálogos razoavelmente bem escritos, personagens razoavelmente interessantes, clichês razoavelmente clichezentos e tal. Sim, eu gostei bastante, embora não concordasse com Mayer, que dizia considerar Marber muito melhor do que Mamet...

    Aí eu vi o espetáculo (um grande sucesso em dezenas de países, inclusive nos EUA, onde o próprio Marber dirigiu a versão que foi para a Broadway), e não achei mais tão boa quanto no papel. Cinco anos depois, revejo-a em forma de filme, dirigido por Mike Nichols (que, poucos sabem, é alemão), um cara com experiência em levar o teatro para o cinema. E a coisa piorou ainda mais.

    Piorou em grande parte por causa do elenco: Jude Law e Julia Roberts estão tremendamente inadequados, e são ainda mais prejudicados por pegarem os dois personagens mais fracos da peça; Clive Owen se encaixa bem como o médico Larry, e Natalie Portman surpreende no papel de Alice, não por ser uma performance espetacular (pelo contrário, ela transforma Alice em uma menina chorona e chatinha, em vez da grande personagem trágica, "larger than life", que o texto original de Marber delineava), mas por não se limitar a ser um picolé de chuchu, aquele jeito Marisa Monte de ser. Guta Stresser fez o papel de modo bem melhor nos palcos brasileiros, embora a Portman seja infinitamente mais gostosa _que pecado ela ter pedido para o Nichols cortar as cenas de nudez, que desserviço à arte, tsc, tsc...

    Mas o que me deixou chateado mesmo foi a alteração criminosa do final (quem não viu o filme, pule este parágrafo). Marber se acovardou e retirou do roteiro o grande fecho trágico da peça, que a tornava um ciclo incontornável; no original, Alice morre atropelada (em circunstâncias parecidas com a da primeira cena da peça e do filme), e só ficamos sabendo sua identidade verdadeira (e identificamos o momento em que ela, pela única vez, se "desnudou" e falou a verdade) quando Dan e Anna se reencontram. O final que Nichols filmou é infinitamente mais broxante, perneta, oco. Cagaram na saída. Mas o resto do filme também é chatinho... É, acho que "Closer" dá mesmo um belo livro.

    Mudando da água para o vinho: que filme profundo e bonito o nosso velho amigo Clint realizou. É difícil falar de "Million Dollar Baby", porque palavras não vão chegar nem perto de expressar a beleza ao mesmo tempo discreta e evidente desta obra. O que posso dizer é que é uma alegria ver um filme que não tenta te fazer de idiota, que é sincero e honesto ao conquistar a complexa proeza da simplicidade. Clint Eastwood é uma raridade, nesse mundo cheio de prestidigitadores sem talento.

    E o cara é tão bom que deixa os outros brilharem: Hilary Swank prova de uma vez por todas que é boa atriz (basta darem a ela uma personagem interessante para interpretar), mas a grande surpresa da película é Morgan Freeman; normalmente detestável, não é que ele finalmente conseguiu fazer um trabalho decente? O que é que uma boa direção e um bom roteiro não fazem, hein? Saí do cinema até achando merecida a indicação para o Oscar de melhor ator coadjuvante...

    "Menina de Ouro" deu a Clint Eastwood o Globo de Ouro de direção, enquanto "O Aviador" ganhou o prêmio de melhor filme de drama. Acho um tremendo de um saco ficar discutindo premiações, embora seja algo meio inevitável. Vou ver o filme do Scorsa na semana que vem, o próximo texto deverá ser sobre ele, aí a gente discute se o filme da "Mo Cuishle" (o correto é "mo chuisle", ninguém é perfeito) é mesmo imbatível ou não. Porque parece tremendamente difícil que "The Aviator" o supere... embora isso não queira dizer nada em relação ao Oscar, estamos mais do que carecas de saber que o prêmio não costuma fazer justiça. Então, inté.

    P. S. Arthur Miller era fodão. Não só entrou para a história como um dos maiores dramaturgos americanos no século XX, mas casou com a Marilyn. E escreveu a também complexa obra-prima "Os Desajustados", um filme que o Clint deve admirar...

    P. P. S. Falando em Marilyn (também uma menina de ouro), vamos ler o que alguns de seus diretores falaram dela? Os textos são retirados do livro "Afinal, Quem Faz os Filmes" ("Who the Devil Made It"), de Peter Bogdanovich. Comecemos com Fritz, the Lang:

    "...não foi fácil trabalhar com Marilyn Monroe (...). Ela possuía uma combinação muito peculiar de timidez e incerteza (...), mas ela sabia exatamente o efeito que produzia nos homens. (...) Devido à sua timidez, ela ficava muito assustada em ir para o estúdio _sempre se atrasava. Não sei por que ela não conseguia se lembrar das suas falas, mas sou perfeitamente capaz de compreender a zanga de todos os diretores que trabalharam com ela, pois certamente por sua causa o trabalho se atrasava. Mas ela respondia bem."

    Agora, Howard, the Hawks:

    "No caso de Monroe, quanto mais se insistisse, melhor ela ficava. (...) Monroe só se assustava em aparecer _tinha grande complexo de inferioridade_, eu tinha pena dela. (...) Por exemplo, quando a pusemos para cantar, por duas ou três vezes ela tentou fugir do estúdio de gravação. Tivemos de agarrá-la e segurá-la para que não saísse. E, na verdade, Marilyn cantava bastante bem (...). Ela estava assustada, isso é tudo _e, quando se assustava, não conseguia trabalhar direito."

    Finalmente, George of the Cukor:

    "Marilyn não tinha confiança em si própria. Para ela, era muito difícil se concentrar, não acreditava que fosse tão boa quanto era. Ela se preocupava com tudo e fazia muito bem as coisas muito difíceis. Às vezes, distraía-se muito e não conseguia fazer uma representação sustentada, o que nos obrigava a filmar pedaço a pedaço; outras vezes, ficava tão nervosa que tínhamos de filmar fala por fala. Mas a sua mágica era tamanha que, quando tudo era montado, parecia que ela tinha dito as falas todas de uma vez. Ela era uma personalidade cinematográfica de verdade _uma verdadeira rainha do cinema. (...) Ela gerava excitação. Ava Gardner também faz isso."

    sexta-feira, janeiro 28, 2005

    Alexandre / Eureka / Sobre Café e Cigarros

    Alexandre conquistou o Egito e a Pérsia, fundou cidades, cortou o nó górdio, foi grande; se embriagou de poder, alto e fundo, fundando o nosso mundo, foi generoso e malvado, magnânimo e cruel; casou com uma persa, misturando raças, mudou-nos terra, céu e mar, morreu muito moço, mas antes impôs-se do Punjab a Gilbraltar.

    Sabem qual a coisa que mais impressionou o público que assistia a "Alexandre" comigo, no final de uma quarta-feira quente, em uma sala lotada com capacidade para quase 300 pessoas? O logotipo de uma das produtoras do filme, que traz uma onda gigante ("Tsunami! Tsunami!", foi o comentário geral). De resto, o povão só se manifestou mesmo com risinhos de escárnio toda vez em que alguma mínima sugestão de homoerotismo pintava na tela (o que é triste, detestável etc.; depois acham ruim quando eu falo que homofobia é coisa de viado _ou melhor, enrustido invejoso...).

    Mas fato é que foram três horas que custaram a passar. Não, o filme não é um lixo; na verdade, é capaz de figurar entre os melhores do Oliver Stone (mas não sou eu quem vai estabelecer tal ranking)... o que não quer dizer muita coisa. O problema é que fazer um filme sobre Alexandre, o Grande, é mesmo uma tarefa muito difícil, justamente por causa da (relativa, sempre relativa) grandeza do personagem (ora, nem o Kubrick conseguiu fazer seu Napoleão...). Os estudos a respeito de Alexandre e de toda a cultura helênica são numerosos e profundos e, ouvindo de quem sabe bem mais do que eu a respeito, Stone e sua equipe até que fizeram um bom trabalho (embora o filme precisasse mesmo ser mais extenso ou, pelo menos, ter suas três horas usadas com mais concisão).

    Só que a "seriedade" com que Stone encara seu personagem acabou comprometendo seu filme, que não se assume integralmente como espetáculo ao mesmo tempo em que não o abandona por completo, saindo-se mal no processo (com a louvável exceção da batalha na Índia, onde até câmera lenta e alterações na fotografia funcionam, e muito bem). Querem que eu fale muito sério (apesar de me divertir de antemão, sabendo que tem gente que vai achar absurdo)? Até as devidas revisões, "Tróia" é melhor. Bem melhor como um todo, apesar de todos os pesares.

    Outro probleminha, claramente notável no filme: "Alexandre", apesar de não ter nada de "teatral" (adjetivo meio besta quando usado em relação ao cinema _ainda mais porque, em geral, as pessoas não sabem direito o que isso significa), narra muito mais por meio de palavras do que por imagens (o que, talvez seja até para o bem, porque Stone é mesmo mais um homem de letras do que de imagens). Falando em imagens, vamos logo ao principal: Rosario Dawson. Colossais, mesmo. Angelina Jolie (com aquele sotaque "Casamento Grego") merece prêmio por Melhor Insinuação de Mamilos. Agora, o resto: Colin Farrel não está tão ruim como andam dizendo (não creio que ele seja tão inadequado assim, embora quem seria capaz de passar maior "grandeza"? Não me venham falar em DiCaprio...). Val Kilmer está muito bom como Filipe da Macedônia, mas coadjuvante de respeito mesmo é Bucéfalo. Ganhou do Corcel Negro! No fim, até que valeu a tentativa, mas "Alexandre" está muito distante de ser uma obra-prima.

    Filme maior do que "Alexandre", não poderia ser menos "épico"; apesar de suas mais de três horas e meia de duração, "Eureka" (2000), do jovem e prolífico Shinji Aoyama (que o dirigiu, escreveu, montou e compôs a trilha sonora) é um drama intimista quase que totalmente em sépia. Se estes meros atributos já são suficientes para interessar a alguns e assustar a outros, o filme interessa mesmo por Aoyama demonstrar uma mestria imensa ao lidar com as imagens; já no primeiro plano a gente percebe a força de certo cinema japonês que o Tarantino tanto quis capturar em certos momentos de seus "Kill Bill".

    Embora, diferentemente de uma obra-prima como "Harakiri", este rigor não seja mantido durante toda a obra, Aoyama-san demonstra grande segurança na direção, dominando uma arte meio esquecida entre muitos cineastas de hoje: saber narrar com imagens, de forma poética e pouco óbvia. Um plano de um sapato boiando num rio pode ser muito mais eloqüente do que uma fala que expressasse o mesmo fato; aqui (e em outros momentos) a gente vê claramente um toque de mestre. Mais claramente: esses japas são foda, né?

    Depois de dois grandalhões, vamos dar uma relaxada e falar de um pequenininho: Jarmusch, com "Coffee and Cigarettes", coletânea de curtas feitos ao longo de quase 20 anos que acabaram se entrelaçando, resolver dar uma desencanada. Despretensioso (embora tenha gente que ache que é muita pretensão querer ser despretensioso), não empolga, embora faça rir, e muito. De bônus, presenças de gente como Bill Murray (que estará no próximo filme do diretor, contracenando com Sharon Stone _Julie Delpy, Tilda Swinton, Chloë Sevigny e Jéssica Lange lhes farão companhia), Roberto Benigni, Steve Buscemi, Lee Marvin (em uma pintura, mas o homem tá lá) e outros atores meio "cult", além de músicos como o conhecido Tom Waits (o curta em que atua com Iggy Pop foi premiado em Cannes), os White Stripes e RZA e GZA, do Wu-Tang Clan. Mas o destaque mesmo é o curta em que a bela Renée French folheia um catálogo de armas ao som de "Crimson and Clover"; é o mais bem decupado e visualmente inventivo, sem blablablá. Se ele não tivesse um certo prestígio, será que teria gerado algum comentário? Long live Joe Strummer!

    Mas o curioso, especificamente para mim, foi ver como os curtas de Jarmusch me lembraram de um curta de... bem, de minha autoria (que foi exibido ano passado no MIS, não lembro se comentei por aqui). Podem vomitar à vontade, mas a verdade é que eu também fiz um curta no qual duas pessoas estão conversando e bebendo em uma mesa até que um terceiro personagem vem interferir, usando o mesmo esquema de master shot/plano/contraplano. Só que eu não fumo (não só porque sou alérgico, mas principalmente porque acho feio, deselegante _quem é que liga pra saúde?) nem bebo café (por aversão à possibilidade de dependência química), então fiquei mesmo é com cerveja e batatas fritas... Um almoço um pouco mais saudável, não?

    P. S. Falei em toque de mestre em "Eureka", filme que me deu certa saudade de uma época em que os cineastas ainda sabiam contar uma história por meio de imagens. Assim como é facilmente observável em Hitchcock, os filmes sonoros de Fritz Lang conseguem conservar esta fantástica habilidade. Em "You Only Live Once" (1937), além do grande tema de Lang (homem x destino, carregado de certo misticismo), vemos cenas fantásticas inseridas na narrativa, como a que mostra um escritório de um editor de jornal, que aguarda o resultado do julgamento de Henry Fonda para saber qual manchete de capa usará... Não é muito mais interessante do que se estivéssemos na sala do tribunal? Custa ter um pouquinho de criatividade? Assistam e aprendam...

    P. P. S. Falando no Hitch e nessa questão de buscar formas interessantes de narrar visualmente, vai aqui um trechinho de sua famosa entrevista a François Truffaut, no capítulo em que eles discutem "Janela Indiscreta" (que eu tinha em DVD e me foi roubado, de dentro de minha própria casa):

    "É sempre a questão de escolher o tamanho das imagens em função dos objetivos dramáticos e da emoção, e não simplesmente com a finalidade de mostrar o cenário. (...) Para mim, é essencial me servir sempre de elementos ligados aos personagens ou aos lugares, e sinto que negligencio alguma coisa quando não os utilizo. (...) Para mim, o pecado capital de um roteirista é, quando se discute uma dificuldade, escamotear o problema dizendo: 'Justificaremos isso com uma linha de diálogo'. O diálogo deve ser um ruído entre outros, um ruído que sai da boca dos personagens e cujos atos e olhares contam uma história visual."

    sexta-feira, janeiro 14, 2005

    Peões / Entreatos / Meu Tio Matou um Cara

    Oito horas, e de pé. E de pé na fila, ônibus lotado. Duas horas em pé ou sentado.

    Estamos aqui mais para falar de cinema do que de política (embora a política, no fundo, esteja praticamente em toda a parte). Desconsidero totalmente opiniões do tipo "o projeto do PT não passa de ascensão social" ou afins, que andei lendo por aí, em especial a respeito de "Entreatos". Não torço nem pra clube de futebol, muito menos pra partido político. Se nem quando eu era do movimento estudantil, trabalhava na UNE e estava envolvido em política até os lóbulos auriculares eu sequer cogitei me filiar a uma sigla (não dizem que jornalista não tem amigos? Pois jornalista não deve ter é partido)...

    O que interessa, aqui, é a experiência de ter ido ao Espaço Unibanco no domingo passado para ver os novos filmes dos documentaristas Eduardo Coutinho e João Moreira Salles (este último tem a sorte de ser o dono da sala, senão...). No geral, as mais de três horas e meia passaram voando. Ambos os filmes são muito bons e deveriam ser vistos por muita gente. Mas não gente chata como o cara que se sentou ao meu lado em "Entreatos" e ficou xingando o Lula a cada vez que ele aparecia na tela (não que qualquer presidente não mereça ser xingado, mas não numa sala de cinema, certo?)...

    "Peões" é, disparado, o melhor filme do Coutinho que já vi. O itinerário da equipe do filme é muito claro e deixa-se seguir gostosamente. Os depoimentos são concisos e muito bem montados (um avanço imenso em relação a "Edifício Master", que se perdia em alguns excessos) e, por meio dos mesmos, é traçada uma linha muito evidente (talvez a clareza cristalina seja a grande qualidade da obra): entende-se perfeitamente o que uniu todas aquelas pessoas que falam para a câmera. São histórias importantes, que merecem ser contadas. Felizmente, nenhum depoimento se destaca muito mais do que os demais.

    O engraçado é que, quando eu assistia à última entrevista, na qual um ex-operário perguntava a Coutinho "O senhor já foi peão?" (o cineasta respondeu que não), eu pensei: "Ainda bem que eu nunca fui peão, como meu pai e meus avôs foram...". Aí, na saída, encontrei um velho colega da Ilustrada, Valmir Santos, que me disse: "Lembra de quando a gente trabalhava na Folha? A gente era peão também, não era?". Pensei bem e respondi: "É, a gente era". Peão com diploma e falando língua estrangeira, mas P-E-Ã-O.

    E muito difícil dizer se "Entreatos" é melhor do que "Peões" ou vice-versa. Ambos me parecem muito importantes, mas o filme de Salles (que, ultimamente, anda acertando mais do que o seu irmão mais velho, bandeado para a ficção com ares documentais) me deixou mais entretido, graças à graça de seu personagem principal.


    É, mais de dois anos de governo, algumas decepções naturais (e outras não muito) e tal, pode ficar difícil para muitos botar as coisas em perspectiva (até porque política é paixão que nem futebol, é muito raro entabular uma discussão de alto nível a respeito) e lembrar do contexto no qual o filme foi feito. Goste-se ou não de Lula, sua eleição foi histórica, o que faz do filme de Salles um clássico instantâneo.

    Agora, voltando ao ponto: por pior que Lula seja como político ou como pessoa (e conhecemos muitos bem piores do que ele), como personagem, ele é sensacional. Riquíssimo, divertido, carismático, às vezes até emocionante; mas o principal: ele nunca, nunca é chato. Seja contando histórias da época de peão, tripudiando sobre adversários como José Serra (como nas cenas da gravata e do telefonema de reconhecimento de derrota) e Fernando Henrique Cardoso (que "não bebe um gole" _aliás, é impressionante como muita coisa que depois virou notícia já aparecia ali, como as rinhas de galo do Duda Mendonça) ou interagindo com o povão, Lula é sempre uma figura (já não me lembro quem foi que disse: "Não sei como é que vai ser o governo desse cara, mas que vai ser engraçado, vai"). Se era mesmo a melhor opção para a presidência do Brasil, não interessa a mínima (não neste texto, pelo menos). Mas não adianta eu escrever um livro sobre o filme: tem que ver. Você vai, não vai?

    Dando uma aliviada, uma boa opção para uma matinê é o terceiro longa de Jorge Furtado, que desenvolve uma interessante carreira cinematográfica fazendo filmes meio "adolescentes" (bem, "O Homem Que Copiava" foge um tanto deste perfil). Mas o curioso é notar que, especialmente neste caso, se trata de filme de roteirista, mais do que filme de diretor. O grande destaque de "Meu Tio..." são os diálogos (pouco naturais, muito teatrais, nada a ver com "Elefante"), não os planos (exceto alguns muito felizes, como o de Lázaro Ramos, ainda melhor do que em "O Homem...", comemorando uma liberdade injustificada). O filme também é conciso, divertido e esperto, o que já está pra lá de bom (especialmente se lembrarmos de quanta porcaria nacional foi despejada no cinema em 2004 _não é á toa que a bilheteria de filmes brasileiros despencou, apesar de o maior lixo do ano, "Cazuza...", tenha vendido bem). Agora, espetacular mesmo é a Deborah Secco (digitando o sobrenome da moça, acabei pegando a tecla do lado e saiu Sexxo)... Sabiam que eu nunca tinha reparado que ela era gostosa? Só me lembro dela molecota em "Confissões de Adolescente"... Duvido que o Furtado vá virar o Truffaut brasileiro, mas considerando o que ele fez com a Luana Piovani (que pessoalmente não é lá essas coisas) e com a DB na tela... Uh!

    P. S. Agora que eu já limpei a baba, deixo aqui os meus parabéns para o Aílton Monteiro, que ganhou (merecidamente, a meu ver _especialmente pelas atualizações quase diárias, a exemplo do que costumavam rolar por aqui quando este blog, o primeiro a se dedicar exclusivamente ao cinema no Brasil, até onde eu sei, era jovem) o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema. Cheguei ao Cinesesc, no dia 5 de janeiro, bem na hora em que o nome dele estava na tela. Foi legal. Quase tão legal quanto "Profondo Rosso" (1975), filme de Dario Argento, o pai da mulher dos meus sonhos. Estrelado pelo David Hemmings de "Blow-Up" (traz também a Clara Calamai de "Ossessione", longa de estréia do Visconti) e com uma câmera bastante (mas apropriadamente) movimentada (e muitos zooms), é muito bem decupado, com uma direção de arte fantástica e belos enquadramentos. Além da criatividade e da competência na criação de climas de suspense (a cena em que Hemmings toca piano em seu apê, enquanto é espreitado pelo assassino, é ótima), Argento tem um grande senso de humor (seja voluntário ou involuntário), e "Profondo Rosso" é diversão pura (infinitamente melhor do que "O Jogador de Cartas", que passou dublado na Mostra), quem perdeu que vá atrás.

    P. P. S. E já que falamos em política, vai aí um trechinho de "Pequeno Cinema Antigo", ensaio de Paulo Emilio Salles Gomes, datado de 1969:

    "O que houve de mais interessante no gênero falado e cantado foram os filmes-revistas de atualidade política. (...) Mas nenhum desses filmes teve o êxito financeiro e artístico de 'Paz e Amor'. Exibida mais de mil vezes, a partir de março de 1910, e saudada por toda a imprensa, essa produção de Auler, filmada por Alberto Botelho, foi a primeira verdadeiramente a se enquadrar no gênero de filme-revista, focalizando as principais figuras e acontecimentos político-sociais. Com roteiro e versos de José de Patrocínio Filho, o filme mal poupa o presidente Nilo, que aparece sob o transparente pseudônimo de El Rei Olin. Já Rui Barbosa e Hermes da Fonseca surgem como tais, disputando a principal personagem feminina, a Presidência. Outras personagens femininas como a Imprensa, a Banda Alemã e a Viúva Alegre têm atuação destacada como símbolos da sociedade de então, ao lado de Compadre Xícara e Pagé-Acioly, reconhecidos imediatamente como os políticos Pires Ferreira e Nogueira Acioly. A ação era conduzida por Tibúrcio da Anunciação, personificação do matuto que 'A Careta' tornara popularíssimo: chega o herói para conhecer o Mundo da Lua, então sob o governo do Rei Olin. Como cicerone, é-lhe oferecida a Imprensa, que ele recusa por ser essa senhora sabidamente faladeira e venal. Quem o acompanha então nas aventuras é Mussiú Baboseira, em quem o público imediatamente reconhece o poeta-profeta Múcio Teixeira. Terminava o filme com uma apoteose ao Minas Gerais (...)."

    terça-feira, janeiro 04, 2005

    Reinado de Terror / Pueblerina

    Ah... Hora de trabalhar, trabalhar.

    Ué, mas isso é jeito de começar um ano, falando de um filme com um título tão macabro quanto "Reinado de Terror"? E olha que, se 2004 até que foi bem bom, 2005 promete ser melhor ainda (ou será que eu sou otimista demais?)...

    Na verdade, o que me faz abrir 2005 com "Terror in a Texas Town" (ah, o título original já deixa mais claro o gênero do filme...) é o fato de este curto (80 minutos) faroeste assinado pelo grande Joseph H. Lewis (mais conhecido pela obra-prima "Gun Crazy", filme que teria inspirado o famoso "Bonnie & Clyde" de Arthur Penn) e lançado em 1958 ser um imenso alento para quem ama o cinema. E tudo por causa de uma palavrinha mágica: originalidade.

    Ora, o filme já começa (e termina) com um duelo entre um pistoleiro e um pescador nórdico que empunha um arpão de caçar baleias (!!!). Tanto eu quanto meu pai (que já viu muitos filmes na vida), que assistia à obra comigo no mês passado, aqui em casa, comentamos que se tratava de algo inédito, único (até onde nós vimos) na história do cinema. É inspirador.

    Inspirador não só porque incute a importância de pelo menos tentar, como artista, fazer algo minimamente ousado e original, sem medo de parecer ridículo por desprezar a verossimilhança, mas também porque o filme simplesmente é muito bom, mesmo tendo sido feito com baixíssimo orçamento, considerado, portanto, como um "filme B".

    Em "Terror..." não há inconseqüência nem comicidade involuntária: a história do sueco interpretado por Sterling Hayden (também o vi recentemente no hoje clássico "Johnny Guitar", de Nicholas Ray, que, apesar de muitíssimo bom, me decepcionou um tanto) é trágica, o bandido fabulosamente interpretado por Nedrick Young é crudelíssimo (e sua relação com o chefe me lembra imensamente a de Henry Fonda e seu chefe em "Era uma Vez no Oeste" _será que o Leone viu o filme de Lewis?), e coadjuvantes fascinantes (como o vizinho mexicano e seu filho) preenchem todo o filme. Lewis constrói climas com uma maestria fantástica, fica difícil de acreditarmos nos próprios olhos. Mas a gente acredita, e gosta.

    Voltando um pouco mais no tempo (1949) e nos deslocando um pouquinho mais para o sul, encontramos "Pueblerina", o único filme que consegui ver na mostra (ocorrida no ano passado, no CCSP _eu recomendei que vocês fossem...) dedicada a Emilio "Indio" Fernandez, imensa figura do cinema mexicano, amigo de fé do John Huston e parceiro de Gabriel Figueroa.

    Também trágico, mas muito mais voltado para o melodrama do que o filme de Lewis, o filme combina certo romantismo dos faroestes americanos mais antigos com a valorização do folclore mexicano, receita que garantia o sucesso da fita. O drama do herói, um homem que volta à sua cidade após anos na prisão, por ter matado um amigo que estuprou (e engravidou, é claro) sua amada, não é mole; para piorar tudo, ele descobre que sua mãe morreu, que sua amada enlouqueceu e que os irmãos do homem que matou, os fazendeiros mais ricos da região, não o deixarão em paz de modo algum. Desgraça pouca é bobagem.

    Mas, assim como a implausibilidade funciona lindamente em "TTT", o exagero melodramático também não deixa "Pueblerina" cair no ridículo. Os olhos marejados das personagens não provocam risos (ou asco, considerando algumas novelas mexicanas que as TVs abertas adoram exibir), mas envolvem o espectador num drama muitíssimo bem conduzido. E a fotografia de Figueroa, aliada à tenacidade de Fernandez, fazem maravilhas até com o clima: a cena de duelo final (ora, faroeste sem cena de duelo no finalzinho perde muito a força, como ocorre no recente "Pacto de Justiça", de Kevin Costner, uns bons dez minutos mais longo do que devia) aproveita de forma brilhante a disposição das nuvens no céu, sem truques de computador, gerando um efeito quase milagroso. São de cineastas como Lewis e Fernandez que o cinema precisa, é isso o que queremos para 2005 e além.

    P. S. Alfred Hitchcock, que teria se casado virgem aos 25 anos e se mantido fiel até a morte, mostra que era um velhinho bem sem-vergonha, na célebre entrevista à François Truffaut:

    "Quando trato das questões de sexo na tela, não esqueço que, mesmo aí, o suspense comanda tudo. Se o sexo é espalhafatoso demais e óbvio demais, acabou-se o suspense. O que é que me dita a escolha de atrizes louras e sofisticadas? Procuramos mulheres de alta classe, verdadeiras damas, mas que no quarto se tornarão putas. A pobre Marilyn Monroe tinha o sexo estampado em todo o rosto, como Brigitte Bardot, e isso não é muito fino. (...) O sexo não deve ser exibido. Uma moça inglesa, com seu jeito de professora primária, é capaz de entrar num táxi com você e, para sua grande surpresa, arrancar a sua braguilha. (...) As mulheres conseguem suportar a vulgaridade na tela, contanto que não seja exibida por pessoas de seu próprio sexo."

    Ainda no assunto sexo, falando de "Vertigo":

    "Há outro aspecto, que chamarei de 'sexo psicológico', e que é, aqui, a vontade que anima esse homem de recriar uma imagem sexual impossível; para dizer as coisas simplesmente, esse homem quer se deitar com uma falecida, é pura necrofilia. (...) Todos os esforços de James Stewart para recriar a mulher são mostrados, cinematograficamente, como se ele procurasse despi-la em vez de vesti-la. E a cena que eu sentia mais profundamente era quando a moça voltava, despois de ter tingido de louro o cabelo. James Stewart não fica totalmente satisfeito, porque ela não prendeu os cabelos num coque. O que isso significa? Significa que ela está quase nua diante dele, mas ainda se nega a tirar a calcinha. Então James Stewart mostra-se suplicante, e ela responde: 'OK, tudo bem', e volta para o banheiro. James Stewart espera. Espera que, desta vez, ela volte nua, pronta para o amor."

    P. P. S. Falando em Alfred, este também é o nome do prêmio organizado anualmente por Chico Fireman. Em sua segunda edição, é a segunda vez que participo como votante. Seguem, a quem interessar possa, meus votos deste ano (é importante lembrar que eu vi apenas 39 dos filmes em competição, então é claro que, se alguma injustiça aberrante foi cometida, isso se deve ao fato de eu ainda não ter visto tudo...):


    Filme do ano: "Elefante"
    Direção: Gus van Sant, por "Elefante"
    Ator: Bill Murray, por "Encontros e Desencontros"
    Atriz: Maria Bethânia, por "Os Doces Bárbaros"
    Roteiro original: "Elefante"
    Roteiro adaptado: "Homem-Aranha 2"
    Ator coadjuvante: Lúcio Mauro, por "Redentor"
    Atriz coadjuvante: Irma P. Hall, por "Matadores de Velhinha"
    Elenco: "Igual a Tudo na Vida"
    Filme brasileiro: "Narradores de Javé"
    Filme de estréia: "Na Captura dos Friedmans"
    Fotografia: "Kill Bill Vol. 1"
    Montagem: "A Vila"
    Direção de arte: "Kill Bill Vol. 1"
    Figurinos: "Kill Bill Vol. 1"
    Maquiagem: "A Paixão de Cristo"
    Música (trilha sonora instrumental): "Kill Bill Vol. 1"
    Disco (trilha sonora - coletânea): "Matadores de Velhinha"
    Canção (canção original): "Come, Let Us Go Back To God" ("Matadores de Velhinha")
    Sonoplastia: "Shrek 2"
    Efeitos visuais: "Homem-Aranha 2"
    Cena do ano: Homem-Aranha sendo carregado no trem
    Pior filme: "Cazuza - O Tempo Não Pára"

    sexta-feira, dezembro 03, 2004

    Má Educação / Labirinto de Paixões / Thriller - A Cruel Picture

    Ah, vida noturna, eu sou a borboleta mais vadia na doce flor da tua hipocrisia.

    Eu, não, o Almodóvar. Vocês sabem que a Pedrucha anda bem falada por aí há muito tempo, mas "consagração", mesmo, só vem quando você ganha um Oscar, não? Ou dois. Agora, se "La Mala Educación", tão aguardado quanto "Tudo Sobre Minha Mãe" e "Fale com Ela", também será "consagrado" como eles, só o tempo dirá. Mas bastante gente está apostando que não (mentira, estou chutando, sou quase que completamente alheio ao Oscar _aliás, acho premiações em geral um saco, parece corrida de cavalo).

    Não chega a ser um filme ruim, muito menos um Almodóvar especificamente ruim; é um Pedrucha típico, ou seja, bom. Mas não é espetacular como "Carne Trêmula" nem tinha necessidade de ser. O interessante, mesmo, a respeito de "Má Educação", é que ele sedimenta uma tendência observada em "Fale com Ela": Pedrucha está se concentrando mais nos homens (será que isso é mesmo digno de nota?). Tirando a mãe do personagem do Gael e uma outra que praticamente só é citada, cadê a mulherada do filme? Ah, saudades de "Ata-me", "Kika", "Tacones Lejanos" (mentira, não gostei nada deste último)...

    Na verdade, a grande expectativa a respeito deste filme seria um suposto anticatolicismo espanhol, algo talvez buñuelesco, mas passamos bem longe disso (também, é covardia querer comparar Almodóvar a Buñuel...). Essas denúncias de pedofilia por parte de padres (algo que deve existir desde o australopithecus) que andaram movimentando os noticiários nos dias sem muito assunto dá muito pano pra filme, mas Pedrucha escolhe o caminho de se concentrar mais nas personagens do que nas situações. Em meio a tudo isso, temos o melhor do filme, uma versão de "Moon River" cantada por um garotinho.

    O oposto (na verdade, mais ou menos oposto) disso encontramos em seu segundo longa, "Laberinto de Pasiones" (1982), que vi no novo e bastante melhorado Belas Artes (antigo Belas Bostas), na companhia da srta. Ana e, pela primeira vez, do venerável Chico. Aqui, sim, temos o mais que saudável escracho generalizado: uma personagem ninfomaníaca chamada Sexília, uma garota que transa com o pai, um seqüestrador (o velho Antonio Banderas, antes de ser velho) que se apaixona pelo cara que deveria seqüestrar etc. _incluindo a própria Pedrucha, que aparece em dois momentos sensacionais, dirigindo uma sessão de fotos (ele faria algo parecido em "Matador") e cantando um tecnopop fuleiro e executando uma dancinha ridícula, usando brincos e maquiagem típicas dos anos 80, além de um sorriso que parece ser uma ode à idiotia.

    O filme é sem-vergonha no melhor sentido do termo, desde a cena inicial, que mostra subjetivas de dois personagens analisando uma parte bem especial da anatomia masculina, até uma velha gag típica de comédias populares, bem no estilo "Os Trapalhões", que termina na escatologia. Em suma, uma delícia politicamente incorreta, que arrancou inúmeras gargalhadas do público. Isso sim é que é filme, uma comédia realmente engraçada, sem se deixar afetar pelo nefasto "bom gostismo". É claro que Almodóvar não precisa retroceder (retroceder?) ao seu estilo de mais de 20 anos, mas também não precisava ter feito um filme tão pouco impactante quanto "Má Educação". E ainda vem nos falar de paixão, né, dona Pedrucha?

    Agora, "Thriller - En Grym Film", visto na Sessão Dupla do Comodoro desta semana, é um caso impressionante, porque único: foi a primeira vez (até onde me lembro _minha memória é quase tão fraca quanto minha carne) que vi planos fechados de sexo explícito (incluindo sexo anal e ejaculação) em um filme, digamos, "narrativo" (sei que existem os tais "pornô com história", mas é claro que isso deve ser enganação _apesar do meu apreço e do meu interesse pela pornografia, confesso que meu conhecimento desta cinematografia é muitíssimo pequeno, justamente por a imensa maioria desses filmes me parecer um tremendo de um lixo industrial, pura perda de tempo). E, mais impressionante ainda: apesar de fortes, as cenas não são apelativas (muitíssimo pelo contrário, são plenamente justificadas).

    "Thriller...", produção sueca de 1974, assinada por Alex Fridolinski, pseudônimo do também produtor, roteirista e ator (na verdade, ele só faz uma pontinha como vendedor de cachorro-quente) Bo Arne Vibenius (que, entre outras coisas, foi assistente de direção de Ingmar Bergman na obra-prima "Persona", mas anda afastado do cinema há muito tempo), é, sim, um filme cruel. Mas é bom, muito melhor do que eu esperava. É o filme que Quentin Tarantino deu para Daryl Hannah estudar, antes da filmagem de "Kill Bill". Conta a loira que, após vê-lo, falou, embasbacada, para o Taranta: "Quentin, você me mandou ver um filme pornô!". Ao que o lépido cineasta cinéfilo teria replicado: "Sim, mas um BOM pornô!". É, nosso amigo Quentin é um pândego...

    Mas, como já disse, "Thriller" (também conhecido por um título muito melhor, "They Call Her One Eye" _além de também ter sido lançado nos EUA como "Hooker's Revenge") não é um filme pornô. As cenas de sexo não são nem um pouco eróticas, mas cruéis, como adianta o título da obra. É a história de uma garota que, quando criança, foi estuprada por um velho nojento e, em conseqüência do trauma, ficou muda (genial; personagens sem voz, ainda mais com alguma parte do corpo faltando, têm tudo a ver com cinema, assim como anões e albinos _ainda vou fazer um filme protagonizado por um anão albino mudo e caolho, que, claro, será enterrado no final). Ao crescer, é seqüestrada, forçada a se viciar em heroína e a se prostituir. Como se isso tudo não bastasse, Tony, o homem que fez o diabo com a jovem, ainda fura um de seus olhos (esta cena também é explícita e, dizem, foi feita com um cadáver) e acaba levando os pais da garota a cometerem suicídio.

    OK, já deu para ter uma idéia de como o filme é dogão. O que a Noiva de Uma Thurman passa é fichinha perto do calvário da caolha Frigga/Madeleine (interpretada pela Christina Lindberg, belíssima atriz que participou de mais de 15 filmes no início dos 70 _aparentemente, todos com apelo erótico, a julgar pelos títulos_ e que reencarnou a assassina caolha mais de vinte anos depois, numa participação especial na comédia de humor negro chamada "Sex, Lögner & Videovåld"). E é aí que se justificam as cenas de sexo, que mostram a degradação cotidiana da protagonista de maneira exemplar. Já as cenas com drogas são bem mais brandas (pra dizer a verdade, são poucos os momentos em que vemos as seringas). Paralelamente, vemos, após a caolha ficar órfã, seu treinamento em diversas modalidades de combate que serão necessárias para ela empreender sua vingança: caratê, armas de fogo, direção ofensiva (sim, ofensiva) etc. Tudo isso narrado de forma absolutamente fascinante, com poucos diálogos e umas subjetivas bastante boas.

    As coisas pioram sensivelmente quando a vingança começa: a caolha (que tem figurinos espetaculares _a começar pelos tapa-olhos de diferentes cores, que combinam com as roupas, inclusive um sobretudo preto que lembra muito os da Trinity em "Matrix") persegue seus sádicos clientes e, no meio tempo, dá cabo de assassinos profissionais e de policiais. Algumas cenas de morte (todas em câmera lentíssima) são caricatas, mas há bons momentos em que a alteração da velocidade da imagem funciona lindamente, como quando voa uma arma da mão de um policial e de quando eles cospem sangue. Agora, nada nos prepara para a vingança final contra Tony... Não é à toa que o Tarantino adora este filme. Mas eu prefiro muito mais o Russ Meyer...

    P. S. Falando na Sessão do Comodoro, fui ver, pela primeira vez no cinema, alguns filmes de Carlos Reichenbach, que passaram no CCSP. Infelizmente, não consegui ver tudo o que queria, mas diante de "Filme Demência", "Garotas do ABC" e "Lilian M., Relatório Confidencial", já dá para ver com clareza que estamos falando de um autor cinematográfico. Pode-se detestar os filmes (nem é esse o caso), mas não dá para negar que se tratam de obras de expressão pessoal, e não de produtos comerciais _e isso já é garantia de respeito. Apesar de eu não ter gostado de algumas coisas (em especial, da falta de naturalidade da apresentação dos diálogos _é evidente demais que os atores estão atuando de acordo com um roteiro, e não vivendo suas personagens, problema que é especialmente visível em "Garotas...", já que nos outros dois, que me agradaram bem mais, a artificialidade é bastante justificada... Em "Lílian...", por exemplo, é feliz a falta de sync na dublagem), durante vários momentos tive a clara consciência de estar diante de construções imagéticas extremamente refinadas, cinema com C maiúsculo. Claro que os filmes poderiam ser melhores (e esse "melhores", claro, é algo totalmente subjetivo), mas aí não seriam filmes de Carlos Reichenbach.

    P. P. S. Gosto muito quando um filme divide opiniões de forma radical. "Contra Todos", longa de estréia de Roberto Moreira, professor de roteiro na ECA-USP, está sendo bastante elogiado, quando não está sendo tratado com asco. Assisti-lo não foi, de forma alguma, uma experiência desagradável ou desinteressante. Se a aparente displicência do uso da câmera de vídeo é mesmo aparente ou não, nem me importa muito; o que me incomodou e continua incomodando é o roteiro, não na maneira como é estruturado, mas em seu conteúdo: todos os personagens precisam ser violentos, promíscuos, traíras? Nenhuma possibilidade de redenção? Enfim, pelo menos, os atores (em especial o pai e a filha) estão bem. Salve-se quem puder!

    P. P. P. S. Falando em violência, escandalizem-se com as terríveis "Avaianas de Pau". Isso me lembrou tanto da minha infância...

    P. P. P. P. S. OK, o último: para quem ainda não enjoou do Orkut e não só gosta como sabe escrever, visitem Contos Tontos. O nome já diz quase tudo...

    Na platéia