A gruta é mais extensa do que a gruta

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    segunda-feira, outubro 25, 2004

    Super-Homem: o Filme / Super-Homem 2: A Aventura Continua / Super-Homem 3

    Quem sabe o Super-Homem venha nos restituir a glória, mudando como um deus o curso da história, por causa da mulher.

    (Eu ia citar "Super-Homem, cascateiro, só faz força no banheiro", mas achei que era muita sacanagem e que seria mais propício citar os famosos versos do Ministro Gegê _isso não tem nada a ver com o fato de eu ter projeto inscrito no MinC.)

    Aconteceu tudo meio que simultaneamente: um dos meus irmãos comprou o pacote com os três DVDs dos primeiros filmes da série (ficaram com vergonha do quarto, é?); Quentin Tarantino, via Bill, cita o imenso Jules Feiffer filosofando sobre a questão da identidade secreta do pioneiro super-herói da DC; Christopher Reeve finalmente encontra a paz. Tudo conspirou para que eu revisse estes filmes e para que este texto pintasse por aqui (em vez do texto que se dedicaria exclusivamente aos filmes exibidos na última ótima Sessão Dupla do Comodoro, que ganha um honorável P. S.).

    Os dois primeiros filmes da série (que, na verdade, formam um pacote: a maioria dos profissionais envolvidos foram contratados pelos produtores para dois filmes, ainda no meio dos anos 70), eu sempre via na Globo, dublados; o terceiro, estreou no Brasil via SBT ("Cinema em Casa", lembra?). Até que faz sentido, pois são projetos totalmente diferentes. Minhas opiniões a respeito deles eram também bastante diferentes, antes desta revisão. Eu gostava mais da segunda parte e desprezava a terceira, o que, por enquanto, felizmente mudou.

    Do início: é interessante observar como essa ânsia pelos blockbusters estava em alta na segunda metado dos anos 70. O provável culpado é o então jovem Spielberg e seu fantástico "Tubarão" (que vi recentemente num DVD de edição caprichadíssima). "Super-Homem", não à toa, acaba tendo muito a ver com "Guerra nas Estrelas" (cuja caixa com os episódios 4, 5 e 6 meu irmão também comprou, o que indica que eles pintarão por aqui mais cedo ou mais tarde _provavelmente mais tarde...).

    O primeiro filme tem um grande (e caríssimo) bônus, que é Marlon Brando. Que nem está tão bom assim como Jor-El, que mais parece um cruzamento de Cid Moreira com Walmor Chagas, mas que, enfim, está lá. Gene Hackman também não é de se jogar fora, mas... jogaram. Seu Lex Luthor, tão terrível nos quadrinhos (isso quando o roteirista não o é), aqui vira um vigaristinha
    meio babaca, fanfarrão e cercado de asseclas que ou são incompetentes ou não muito fiéis (fórmula que se repetirá no terceiro filme da série). Sobra Glenn Ford, numa participação pequena, mas digna, no melhor trecho do longa: a adolescência de Clark Kent em Smallville (que, nos quadrinhos, costumava ser chamada, adequadamente, de Pequenópolis _ah, os tempos em que globalização não era um termo corrente e "Superman" se escrevia "Super-Homem"...).

    O filme piora muito quando Reeve aparece, mas não é culpa dele. Acho que ninguém poderia imaginar alguém melhor do que ele para o papel. Reeve conseguia vestir aquele figurino ridículo e... bem, ficar ridículo, mas ele dava ao Super-Homem um ar tão cândido que... tá, ficava ainda mais ridículo. O que quero dizer é que a trama do filme, após os anos de formação de Clark Kent, é fraca, tirando a relação Super-Homem/Lois Lane/Clark Kent, que é um achado e é, em geral, bem conduzida (mas não muito bem conduzida).

    Inesquecível mesmo são cenas como o primeiro vôo de Super-Homem e Lois Lane (o texto dito por Margot Kidder, a Courtney Love dos anos 70, é muito bonito) e o mundo girando ao contrário, suficientes para que o projeto, dirigido por Richard "A Profecia" Donner, fosse um sucesso e se tornasse um clássico entre os blockbusters.

    O segundo filme segue no mesmo tom, apesar da inesperada troca de diretores (saiu Donner, entrou Lester _sim, aquele que fazia filmes com os Beatles). Mas, agora, o Super-Homem finalmente tem rivais à altura: o trio de vilões que seu pai Brandão tinha mandado para a Zona Fantasma. Para complicar tudo, Lois fica sabendo a verdade sobre a relação entre Super-Homem e Clark Kent (temática que foi retrabalhada pelo Sam Raimi em seus "Homem-Aranha" _quando é que vão começar a chamar de "Spider-Man", hein?). Mas sabem que eu achei o filme meio chatim? Sei lá, mil coisas...

    Surpreendentemente, o terceiro filme me agradou bem mais do que eu esperava. Lester finalmente assume o comando e dá ao filme a sua cara: vira uma comédia bem sem-vergonha (não exatamente no mau sentido), repleta de situações rocambolescas e inverossímeis. Lester não leva o enredo a sério, o que é um tremendo trunfo num filme desse tipo. E não só isso: praticamente todo o universo de seus antecessores é desprezado (por exemplo, não aparece a Fortaleza da Solidão), mas apenas superficialmente: Robert Vaughn encara um novo tipo de criminoso multimilionário (a diferença é que ele não era um fugitivo como Luthor), Lana Lang toma o lugar de Lois Lane como par romântico (Kidder só faz uma ponta, bastante irônica mas coerente com os rumos da série) e Richard Pryor é o assecla atrapalhado _infelizmente, muito mais sem graça do que Ned Beatty (é, Gene Wilder sempre foi o fodão da dupla). A melhor piada, mesmo, é a da loira que finge ser burra, mas é inteligentíssima, lê e discute Kant...

    Desta vez, o destaque é mesmo Reeve, que pode mostrar melhor seus dotes de ator. A caracterização do Super-Homem como um babaca (após ser exposto a uma kryptonita de meia-tigela) ficou muito bem feita: ver o maior herói do mundo apagando a tocha olímpica, desentortando a Torre de Pisa e mandando ver no Red Label (é por isso que ele gritava "great scotch" no desenho dos
    Super-Amigos? _que, por sinal, também saiu em DVD, credo) com amendoim são ótimas sacadas do roteiro. Outro fator interessante é ver, no filme, já alguma discussão a respeito da ameaça dos hackers e do avanço da informática no cotidiano das pessoas (a própria Atari foi contratada para criar animações do Super-Homem para o filme, com direito à trilha sonora do Pac Man e tudo). Ah, e Lester não deixa de incluir uma música dos Beatles, como se assinasse, sutilmente, seu trabalho... Vale a pena "reever". Para o bar e avante!

    P. S. Falando no Ministro Gegê, acabei vendo o documentário "Doces Bárbaros" (1976), de Jom Tob Azulay. E é aqui que documentário vira documento: na época, talvez não fizesse muito sentido ver o registro desta turnê , mas, hoje, ela se converte num pequeno tesouro, ao nos mostrar como era boçal o Brasil dos anos 70 (como se o de hoje também não o fosse, mas não é isso que vamos discutir aqui _ou vamos?). À parte as músicas (algumas, impressionantes, como as sumida "Pássaro Proibido", numa boa interpretação de Caetano Veloso, e a linda "O Seu Amor", que destaca a voz de Gal Costa), há momentos interessantíssimos, como praticamente todo o episódio em torno da prisão de Gilberto Gil (hilário, hilário) por posse da "erva maldita" e uma entrevista tensa dada Maria Bethânia a um repórter provocador. Bethânia, por sinal, é e sempre foi a personalidade mais interessante do grupo; seria tremendamente agradável passar uma tarde conversando com ela, penso. Ou mesmo só ficar do lado dela, sem falar nada, olhando pro seu bigode. Melhor do que discutir fenomenologia com o Caetano.

    P. P. S. México lindo! Infelizmente não pude ver muitos filmes da bela mostra que o CCSP fez da obra de Emílio "Índio" Fernandez, mas só o "Pueblerina" valeu a pena. Além do espetáculo à parte que é a fotografia em p&b do Gabriel Figueroa, há um enredo fortíssimo e boas atuações... Uma espécie de "Casablanca" mexicano, ouso dizer. Ah, se todo dramalhão mexicano fosse assim...

    Falando em México lindo, vi hoje, na Mostra, o novíssimo "Temporada de Patos", de Fernando Eimbcke. Também em p&b (não entendi o porquê), mas bem chocho. Teatral pra burro, vale como tentativa de realizar filme de baixo orçamento, mas faltou ousar... Em contrapartida, tem um sensacional senso de humor, é fresco, tem boa trilha sonora e também tira uma onda com os Beatles. Só faltou mulé pelada.

    P. P. P. S. E falando em pelada, a Sessão Dupla do Comodoro, sob responsabilidade de Carlos Reichenbach, é um programa imperdível para quem mora em São Paulo e gosta de cinema. Infelizmente, o perderei quase sempre, porque é num horário desgraçado de ruim. Que tal fazermos uma campanha para mudá-la para sábado? Será que o Cinesesc deixa? Bom, mas valeu a pena ter furado os compromissos para ir ver "O Quarto Homem" (o melhor Verhoeven que vi até hoje) e "No Vale das Deusas Acromegálicas" (boa tradução para "Beneath the Valley of the Ultravixens"), do grande e recém-falecido Russ Meyer, em quem me inspirei para dirigir o meu primeiro curta-metragem mais, digamos, "sério". Se bem que nem sei se "sério" é realmente a palavra...

    quarta-feira, outubro 06, 2004

    Kill Bill Vol. 2

    Please, don't let me be misunderstood.

    A única certeza que tenho é a de que não tenho certeza de nada _ou melhor, nem disso eu tenho certeza...

    Digo isto (que poderia ser dito de forma geral, mas...) porque, como aconteceu com "Dogville", ainda não consegui ter uma posição solidamente formada a respeito do projeto "Kill Bill" (por isso que é tão legal eu ter esta oportunidade de discutir o filme com todos vocês que, sabe-se lá por que, passam por aqui). Assisti ao primeiro volume no cinema, como tem de ser _apesar de o filme, gravado num CD-R por um dos meus irmãos, estar à minha disposição para ser visto neste computador que agora uso para encher esta tela de letrinhas. E o sentimento foi de certa euforia, uma coisa gostosa _que nem sempre a gente sente ao ver um filme e que não tem preço.

    Engraçado, apesar de ter gostado do primeiro volume (mesmo tendo-o considerado o pior Tarantino até agora), não posso dizer que fiquei extremamente ansioso para ver a continuação. Não tive o menor ímpeto de procurar ver o filme, apesar de ter tido a oportunidade de fazê-lo. Não era nem um pouco penoso, para mim, esperar meses, até o então longínquo outubro (já é outubro? Puxa...) para saber como a história termina. Sim, eu tenho sangue de monge.

    Mesmo assim, não é que fui ver o "Vol. 2" numa pré-estréia (não, não agüento acordar cedo para as cabines de imprensa nem tenho mais tempo ou muita vontade de freqüentá-las), num sábado à noite (não freqüento salas comerciais nos fins de semana, o preço é um roubo), numa sala que ainda não conhecia (o Kinoplex Itaim, mais um típico templo comercial paulistano "preibói", como diz o JG _aliás, a sala é do veterano grupo Severiano Ribeiro...)? Pois, após assisti-lo, saí meio decepcionado, achando-o apenas "legalzinho", não muito mais do que isso. A verdade é que o filme não causou em mim o impacto do primeiro volume.

    Aí, com duas concepções conflitantes na cabeça ("a parte 1 é melhor", vinda do coração, e "não dá para comparar, são duas metades do mesmo filme", do cérebro), resolvi encarar o maldito CD-R com a primeira parte. Foi o primeiro longa-metragem que vi no computador, e a experiência foi terrível. O filme ficou um lixo! Perdeu totalmente sua capacidade de impacto, sua beleza, seu poder. Lamentável, mesmo.

    Agora, a segunda parte da obra cresce. Estou ligeiramente tentado a revê-la, caso entre em cartaz no cinema vizinho, o que constituiria outra experiência inédita para mim: a de pagar duas vezes para ver um mesmo filme (até porque, na pré-estréia, fui obrigado a me sentar longe demais da tela, o que me deixou muito irritado _nunca me sento depois da terceira ou quarta fileira, em geral). Taí uma das virtudes do Tarantino: seus filmes são bons de serem revistos. "Pulp Fiction" eu vi duas sessões seguidas, em 1995, depois revi o filme várias vezes em vídeo; "Cães de Aluguel" eu tenho em DVD e vejo sempre que dá vontade. O raro "Jackie Brown", considerado por muitos o melhor, só vi uma vez no Telecine, depois nunca mais. "Kill Bill Vol. 1" despencou na revisão, talvez por causa da péssima qualidade que o computador oferece.

    Por enquanto, o que fica, de "Kill Bill", é que, antes de tudo, trata-se do primeiro filme épico (e francamente de ação) dirigido pelo Taranta, baseado numa mescla de filmes de lutas marciais com western spaghetti _Tarantino homenageia, no primeiro volume, os primeiros; na seqüência, os últimos, representados por nomes óbvios como Sergio Leone e Sergio Corbucci, além de Lucio Fulci (este, mais lembrado por filmes de terror bem sangrentos). Interessante é a montagem subordinada à música (a trilha sonora é capital nos filmes de Tarantino, e é no quinto capítulo de "Kill Bill" que ela é usada de maneira mais irônica: durante o combate com os Crazy 88s, toca o roquinho "Nobody But Me", transbordando empáfia, e, nos momentos que antecedem a luta com O'Ren-Ishii, toca Santa Esmeralda...), a estereotipia das personagens (as sobrancelhas do Pai Mei de Gordon Liu arrancaram gargalhadas da platéia, Daryl Hannah está, mais uma vez, "pretty cool", e o Budd de Michael "Mr. Cool" Madsen mostra-se bem diferente do que o aperitivo fornecido na primeira parte sugeria), a participação de uma ex-estrela da filmografia do diretor numa ponta minúscula, praticamente impossível de identificar (a exemplo do que ocorreu em "Pulp Fiction" com Steve Buscemi; a bola da vez é Samuel L. Jackson) e o fato de não existirem heróis (a polícia, quando aparece, chega tarde demais e é boçal ao máximo). Aliás, o Bill de David Carradine, com direito a língua presa e tudo, também quebra as expectativas construídas no primeiro volume, assim como Tarantino dribla aqueles que pensavam que o filme poderia ter um final imprevisível. Invertendo aquele velho ditado: alguém, no final, tinha que se dar bem. Quase que o cinema imita a vida...

    P. S. "Perdidos na Noite" ("Midnight Cowboy", 1969), de John Schlesinger, é interessante justamente por ser mais focado na força dos personagens do que na do enredo (como, aliás, é o caso de "Kill Bill"). Jon Voight e Dustin Hoffman (mas especialmente o primeiro) estão excelentes; a narrativa, cheia de flashbacks que contam pedaços da vida de Joe Buck (que "was there to fuck") e que são maravilhosamente montados, é soberba, e a trilha sonora é simplesmente inesquecível, apesar de a repetição dos temas parecer excessiva. Um belo clássico moderno, em mais de um sentido.

    P. P. S. Como passou "Hatari!" na Bandeirantes (que está dando um pau na Globo em termos de filmes clássicos exibidos com som original e legendas), no domingo passado, vai aí o último trecho que separei do livro do Merten, que fala deste imenso diretor que foi Howard Hawks:

    "Por mais famoso que seja Ford, não são poucos os críticos que pensam que Hawks, nascido um ano depois, foi ainda maior. Idolatrado pela crítica francesa, Hawks disse que o expressionista Josef Von Sternberg, criador do mito de Marlene Dietrich, gostava de transformar a anedota em epopéia. Ele, pelo contrário, transformava a epopéia em anedota. É uma boa definição do seu projeto de cinema. Hawks realizou o modelo acabado da screwball comedy dos anos 1930: 'Levada da Breca', com Cary Grant e Katharine Hepburn; com 'Scarface', de 1932, inventou o filme de gângsteres; com 'À Beira do Abismo', com Humphrey Bogart como Philip Marlowe, fez um clássico noir definitivo. Pelo número reduzido de westerns que fez, Hawks não deveria ser páreo para Ford, mas com 'Rio Vermelho' ele criou nada menos que o épico do capitalismo."

    P. P. P. S. Voltando a Tarantino e a "Kill Bill", segue um interessante trecho de uma entrevista do diretor (cuja íntegra eu já forneci o link neste texto, a quem interessar possa):

    "About Kage no Gundan for a bit. There's like multiple sequel shows. You know, Kage no Gundan 1, 2, 3, 4. Every time they did a new series it was always a different Hattori Hanzo. It was set a little further in history. Hattori Hanzo number three, Hattori Hanzo number four. It just kept on going down. So now Sonny Chiba is playing Hattori Hanzo one hundred and still continuing that character. Now the thing about this is that, the audience doesn't need to know any of this. I'm very much a believer that if you're creating your own universe and your own mythology, you can have no question unanswered. But here's the thing: I don't have to answer the questions to you the audience. You just need to know I know the answer. I can tell you the whole story of how Hattori Hanzo ended up in Okinawa and why he didn't make a sword for 30 years, and who the bald guy is. I can tell you that. I don't have to tell you this during the watching of the movie, but you need to know how large this world is. This is how much I'm going to tell you now, and what I don't tell you, you can figure out. You can make up your own things. I know what's going to happen with Nikki (Vivica A. Fox's daughter). She will grow up and she will seek her revenge. I could go backwards. Once we get all done with this, we're talking about the concept of doing a couple of prequels with maybe Production IG just doing full-on animation. You know, the origin of Bill for instance. But I could do it with any of the characters. As far as actually continuing the story? Again, I don't know about shooting this in live-action or animation or writing it as a paperback, who knows? But it would be every ten years. Right now, The Bride is 30. The next one would be at 40. The last one would be ten years later when she's 50."

    terça-feira, setembro 28, 2004

    Minha Esperança É Você / A Vila / O Garoto Selvagem / Cama de Gato

    E isso é ameaça de quem pensa em você desde que nasceu.

    Meu aparente desprezo pela humanidade é apenas um disfarce mal-ajambrado do imenso amor que nutro por ela. Mas disso vocês já sabem.

    O que alguns de vocês talvez não saibam é que tive uma certa convivência, desde a infância, com pessoas portadoras de deficiências mentais, de casos de síndrome de Down a paralisias cerebrais mais graves. E, apesar de pessoas como estas serem, em geral, as mais carinhosas e confiáveis que você pode conhecer, elas ainda sofrem um tremendo preconceito e raramente são tratadas com a dignidade que merecem (por sinal, se tenho um mínimo de simpatia pela Xuxa é porque ela sempre fez um esforço, em seus programas, de incluir estas crianças, ajudando a combater tais preconceitos. Não é pouco).

    Pois "A Child Is Waiting" (1963), produção de Stanley Kramer dirigida por John Cassavetes, é justamente um raro exemplo de como retratar deficientes mentais com dignidade extrema. E para isso é preciso uma baita coragem. Porque não só no cinema, como na TV e no teatro de todo o mundo, atores que representam papéis de pessoas com algum tipo de deficiência ou de desordem mental acabam deixando as platéias impressionadas (como se a caricatura fosse o maior desafio para um ator)... Mas trazer para a tela pessoas com deficiências reais?

    Pois Cassa não teve medo e, com extrema sensibilidade, realiza um filme notável (também em termos formais: os enquadramentos e os movimentos de câmera são sofisticadíssimos, apenas o uso da trilha sonora me incomodou um pouco), com um elenco de renome (Burt Lancaster, Judy Garland e Gena Rowlands à frente), mas que não rouba a cena dos verdadeiros protagonistas da história.

    Já em "A Vila", Adrien Brody, oscarizado por "O Pianista", é o Geoffrey Rush (ou Russel Crowe ou Edward Norton ou...) da vez. Mas o diretor Shyamalan está longe de ser bobo, e utiliza tal clichê (e todos os outros contidos no filme) com eficiência, quase com maestria. "The Village" é, talvez, seu melhor filme (gostaria de rever "Corpo Fechado" para tirar a teima), mas, estranha e saborosamente, entrou para a categoria dos filmes que ou são amados ou são odiados. Por que será, hein?

    O filme é quase tão carregado de símbolos quanto os últimos trabalhos de Kubrick, e Shyamalan também se mostra extremamente competente ao criar e sustentar suspense (com direito até a pelo menos dois grandes sustos, também deliciosamente eficientes), sem ser desagradavelmente metido a inovador. "A Vila" é quase clássico, e se destaca justamente por não utilizar meros truques para manipular seu espectador. O brilhantismo (com duplo sentido) desta obra vem justamente do fato de ela não surpreender nem um pouco: dá para adivinhar o final do filme até mesmo antes de vê-lo (como eu o fiz), e é esta previsibilidade que potencializa o prazer de assistir a este filme.

    Como bônus, ainda temos William Hurt e o destaque para Bryce Dallas Howard (a verdadeira "surpresa" do filme, também interpretando uma deficiente...), que, ainda bem, pegou o papel que originalmente seria de Kirsten Dunst, num momento muito, muito feliz. Quero muito revê-lo, recomendo a quem não gostou que também o faça. Ah, e "Sinais" não teria sido muito mais legal se os tais não tivessem sido feitos por alienígenas? Mal aí.

    O caso de "O Garoto Selvagem" (1970) não é exatamente deficiência (mental ou física), mas as conseqüências do isolamento da sociedade (mas não como no filme de Shyamalan), como já vimos em outros personagens, reais ou fictícios, como Tarzan, Mowgli, Kaspar-Hauser etc. Baseada em uma história real, o drama de Victor, o menino que é encontrado vivendo nas matas de Aveyron, no final do século XVIII, e é educado pelo médico Jean Itard, nos é mostrada por François Truffaut com simplicidade, num filme de baixo orçamento, mas que nem por isso é descuidado (especialmente por ser "de época").

    O roteiro, baseado nos relatos do dr. Itard, é bastante inteligente. Truffaut foge do sentimentalismo barato não somente como diretor, mas também como ator, e faz um interessante paralelo com sua biografia ao dedicar o longa a Jean-Pierre Léaud. Não está entre os filmes mais conhecidos do francês, mas é um pequeno glóbulo duro, brilhante e nacarado.

    Falando em selvageria (ou em deficiência mental), "Cama de Gato" é um filme que tem dado o que falar no mundinho fashion do cinema já há alguns anos. Eu tenho certa ojeriza a manifestos artísticos e gosto mais de obra do que de discurso; o filme de Alexandre Stockler contém bem mais do segundo, mas isso não surpreende. Quanto a questões de honestidade (intelectual inclusive), não sabemos como foram captados os "depoimentos espontâneos" que iniciam e finalizam o filme (e que nos mostram o que a gente já está careca de conhecer _talvez este seja um filme adequado somente a maiores de 40 anos?), assim como todo o projeto foi financiado (questão que se torna mais interessante por o baixo custo da produção independente, cerca de R$ 13 mil, ter sido destacada pelo realizador). Infelizmente, não tem nada a ver com "A Bruxa de Blair" (será que "A Bruxa de Apucarana" teve mais sorte?), mas até que a tentativa de fazer algo "minimamente audacioso" não dá totalmente com os burros n'água; o início do filme, até pouco depois dos créditos, nem era tão ruim... Mas uma tentativa é apenas uma tentativa.

    P. S. Andei esquecendo de colocar trechos de livros sobre cinema que gosto de colecionar por aqui. Segue, então, mais um do livro do Merten, que cita dois cineastas de renome:

    "Nesse cinema tão violento, onde o herói, via de regra, é tão criticado, Aldrich apreciava trabalhar com personagens contrastantes, mas não gostava de dividi-los em bons e maus absolutos. O bom podia até vencer, já que o cineasta, mesmo do contra, continuava preso a muitas das convenções hollywoodianas. (...) Aldrich, mais do que qualquer outro diretor, foi quem deu forma definitiva à paranóia americana no cinema.

    Por causa disso, ele costuma ser comparado a Samuel Fuller (...). Fuller dá, em 'O Demônio das Onze Horas', a sua definição de cinema: emoção. (...) Na guerra de Fuller não existem heróis, só sobreviventes. Na de Aldrich existem heróis amargurados, que não são confiáveis porque não se iludem: sabem que a sociedade que os condecora também os discrimina e marginaliza. Aldrich, no fundo, era ainda mais derrisório do que Fuller: desde 'Morte sem Glória' insistia na sua tese de que a guerra exalta o ímpeto de destruição que a sociedade civil pune em tempo de paz."

    sábado, setembro 11, 2004

    Barry Lyndon / Dr. Fantástico ou Como Aprendi a Parar de Me Preocupar e Amar a Bomba

    We'll meet again, don't know where, don't know when.

    O tempo urge, ruge etc. Pois "Barry Lyndon" (1975), filme que o nosso velho amigo Citizen Kuby dirigiu entre este e este aqui, ultrapassa três horas de duração, mas passa bem mais rápido do que muito curta-metragem de estudante de cinema metido a artista que já tive o excruciante desprazer de assistir (qualquer diretor que eu realmente prezo define-se, antes de tudo, como "contador de histórias". Se você conhece algum mané que insiste em fazer discurso contrário só porque "estudou" cinema, desconfie).

    Sem dúvida (e com duplo sentido), trata-se de um grande filme, mas não chega perto de ser o melhor Kubrick, apesar de existirem afirmações discordantes a este respeito (sabe como é, o filme não é tão popular, então é chique ficar dizendo que é o melhor só porque menos gente viu). Mas o que me agrada tremendamente neste filme, além do óbvio (sua fotografia absolutamente extasiante _é famosa a história das lentes especialmente desenvolvidas para esta obra, capazes de captar ambientes exclusivamente iluminados a luz de vela, saudável característica do velho nerd com cara de gnomo, essa a de contribuir com inovações técnicas, como um George Lucas menos nocivo), é o fato de ele possuir um tremendo, imenso senso de humor. É, talvez, o filme menos frio do Kuby.

    Claro que o melodrama (de características viscontianas, talvez?) também tem o seu peso na história do interessantíssimo personagem interpretado por Ryan O'Neill (então uma estrela hollywoodiana no auge da popularidade). Partes do enredo (inspirado no livro de William Makepeace Thackeray _autor recentemente adaptado pela indiana Mira Nair, cujo "Vanity Fair" foi exibido na Veneza que premiou Mike Leigh e seu "Vera Drake"), inclusive, chegam a lembrar o novelão-mor "...E o Vento Levou"...

    Já "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb" (um filme que, de certa forma, encerra uma fase na carreira de seu diretor), de 1963, é uma comédia assumida (é quase histérica _o que dizer diante de uma frase como "Vocês não podem brigar aqui, esta é a Sala de Guerra!"?), mas versa sobre um assunto tão pesado (ainda hoje, apesar de aquela loucura de Guerra Fria e sua corrida armamentista ter, aparentemente, terminado) que não me surpreenderia se fosse encarada por alguns (ou muitos, especialmente aqueles preocupados com seus fluidos corporais, Coca-Cola inclusive) como filme de terror.

    O que também impressiona é saber que Kuby, notório pelo seu perfeccionismo quase insuportável, deixou que Peter Sellers (que, inicialmente, interpretaria quatro papéis, mas um acidente o impediu de encarnar também o major Kong _inesquecivelmente interpretado por Slim Pickens, ex-palhaço de rodeio que acabou fazendo um monte de papéis de caubóis e militares, aqui juntando ambos num só. Por sinal, Kuby queria que Pickens tivesse atuado também em "O Iluminado", no papel que ficou com Scatman Crothers, mas o ator recusou por não querer ficar repetindo tomadas até chegar perto da loucura) improvisasse praticamente durante quase toda a filmagem. George C. Scott também dá o seu showzinho, além de Sterling Hayden (curiosidade: é o filme de estréia de James Earl Jones). Infelizmente, problemas técnicos impediram que a última cena prevista para o filme, que mostrava uma guerra de tortas em plena Sala de Guerra (que, dizem, Reagan pensava realmente existir, quando assumiu a presidência dos EUA), pastelão puro. Mein führer, I can walk!

    P. S. Pra não dizer que não falei de "Olga"... Sinceramente, é menos pior do que eu pensava (não chega a ser um "Cazuza...", ufa), mas ainda é ruim. A experiência de vê-lo foi muito parecida com a de ver "A Paixão de Cristo": trata-se de um filme extremamente apelativo, sem um pingo de sutileza, o que acaba tranformando-o num espetáculo de uma chatice atroz. Eu quase dormi. Cadê a "interessância"?

    Cena da semana (ou da quinzena ou do mês, sei lá): Ao som de "O Messias", de Händel, um mendigo sujo e desdentado dança embriagadamente, vestido de noiva ("Viridiana", de Luís Buñuel, 1961).

    domingo, agosto 29, 2004

    Igual a Tudo na Vida / Edu Coração de Ouro

    Pamonha quentinha, pamonha cremosa. Vem chupar minha maionese, porque ela é a mais gostosa.

    Quem acha que quem já viu um Woody Allen viu todos levanta a mão? A pergunta não é injusta, especialmente para quem já assistiu a "Interiores" e "Setembro" ou a "Annie Hall" e este "Anything Else" (que diziam ser o filme em que Allen finalmente abordava questões relativas a Israel _tremenda bobagem), por exemplo. São filmes muito parecidos entre si, por razões mais do que óbvias. E nem é este o problema; Allen é um autor, portanto tem estilo. Já sabemos o que vem por aí e, de certo modo, nos sentimos reconfortados ao vermos que certas coisas não mudam.

    Bom, certas coisas mudam, é claro. Allen, hoje, quase um septuagenário, precisa recorrer a um ator como Jason Biggs para interpretar uma espécie de alter ego mais jovem. E Biggs é muito mais sem graça do que Allen (o filme ganha muito quando o velho diretor neurótico também está atuando). A mulher que vira a cabeça do comediante (ou escritor ou qualquer outro personagem típico de Allen) em um relacionamento mais do que conturbado, desta vez, é a minha querida Christina Ricci, aqui interpretando uma moça muito da chatinha, mas que tem seus atrativos.

    Claro, há as decepções, como o normalmente grande (chamar o cara de grande é sacanagem?) Danny De Vito, que aqui é bem mal aproveitado. Por outro lado, temos a presença esplendorosa de Stockard Channing, a inesquecível Rizzo de "Grease", que protagoniza, ao piano (precisa falar que o jazz _Billie Holiday e Diana Krall estão em destaque_ é praticamente uma personagem à parte?), uma cena não menos do que linda. E dá para não se identificar quando Biggs, estupefato e meio com raiva, clama: "Não acredito que me apaixonei por uma fumante!"?

    Contemporâneo de Allen (este é apenas alguns meses mais velho), o nosso Domingos de Oliveira já foi chamado de "Woody Allen brasileiro". O que não é bem verdade e sequer é muito justo, apesar de a comparação ser pretensamente elogiosa, já que o pai da Maria Mariana começou a fazer cinema bem antes do que o judeu nova-iorquino quatro-olhos (por sinal, Oliveira co-escreveu e co-dirigiu, com Joaquim Pedro de Andrade, o clássico episódio "Couro de Gato", considerado o melhor de "Cinco Vezes Favela", de 1962).

    Este "Edu Coração de Ouro" (1968), seu segundo longa, veio na cola do sucesso "Todas as Mulheres do Mundo", do ano anterior. O casal Paulo José e Leila Diniz volta a marcar presença, mas é o primeiro o protagonista e personagem-título. E o tal Edu não tem nada a ver com Nova York e a psicanálise (a não ser quanto tenta passar uma cantada numa bela psiquiatra, vivida pela Norma Bengell). É mais um malandro carioca, mas não o malandro do morro que apanha da polícia, mas o burguês que, aos quase 30 anos, nem quer saber de trabalhar (está desatualizado, neste ponto; hoje em dia, ver alguém que está sem trabalho porque quer é uma ofensa dolorosa), só de farra e de mulher.

    O filme, feito às vésperas do AI-5, transborda de alegria, em contraposição, por exemplo, a "As Amorosas" (do mesmo ano e também estrelado por Paulo José, hoje, infelizmente, bastante afetado pelo mal de Parkinson), nos mostra belas mulheres (entre elas Joana Fomm e Dina Sfat), sem deixar de tirar um sarro do Cinema Novo (em sua festa de aniversário, Edu veste uma fantasia intitulada "Deus e o Diabo na Terra do Sol"). Mas também tem seus momentos sombrios e melancólicos, e a gente fica nessa eterna balança que é a vida, sem saber direito, no final, para qual dos lados ela vai pender. Um dia, a gente descobre. Feliz ano novo!

    P. S. Sei que ando atrasado para uma porção de coisas e estou devendo comentários sobre muitos filmes que passaram ultimamente. Então, vamos lá, rapidinho (a gente continua a conversa no espaço nobre, porém efêmero, deste velho site, a janela de comentários):

    "Irreversível", de Gaspar Noé, não é um grande filme, mas também não é péssimo como a crítica andou apregoando (e não digo isso só por causa da Momô pelada, motivo mais do que suficiente para vê-lo e revê-lo). Rasíssimo de conteúdo e nem sempre bem-sucedido na forma (de maneira geral, é bem mal-enquadrado), pelo menos é uma interessante experiência física. Agora, se o diretor foi corajoso ou metido a besta... Prefiro pensar que a primeira opção é a verdadeira. De qualquer forma, estou arrependido de não tê-lo visto no cinema.

    Conheço fãs de Godard que acharam "Passion" um filme "chato". Que injustiça! Até porque é muito menos disnarrativo (existe mesmo esta palavra?) do que poderíamos esperar. É um filme belíssimo (Rembrandt, Reubens _não é o Pee-Wee!_ e outros bambas são citados), extremamente sintonizado com a época em que foi feito (1982) e que traz atores estelares (Michel Piccoli, Isabelle Huppert, Hanna Schygulla, entre outros, todos interpretando personagens batizados com seus próprios nomes) atuando da forma mais discreta. Ah, e tem muita mulher pelada, também.

    "O Dia Depois de Amanhã" pode ser comparado a "Dança com Lobos" no quesito "filme mais politicamente correto do mundo". Diferente deles (e bem melhor) é "Pacto de Justiça", mais recente incursão de Kevin Costner no faroeste. Filme que, se um tanto lento e irregular, é emocionante para garotos como eu, fanáticos por westerns. O longo "showdown" é delicioso e brinca com alguns clichês de forma extremamente satisfatória. Nem tudo é perfeito, mas está longe de ser um programa desprezível.

    "O Satânico Dr. No" (1962) impressiona justamente por não se tratar de um filme espetacular; Bond não usa engenhocas de tecnologia de ponta para enfrentar o inimigo, e sim um fio de seus cabelos; não se trata de um super-herói, mas, como nota o vilão, de apenas mais um policial que falha e tem medo. Chega a ser meio decepcionante, também... Mas que Connery foi o melhor James Bond, alguém duvida? É isso aí!

    terça-feira, agosto 03, 2004

    Harakiri / Lugares Comuns / Fahrenheit 9/11

    She was long gone, long, long gone, she was gone, gone, the bigger they come the larger her hand 'till no one understands why for so long she'd been gone. And I stood very still by the window sill and I wondered for those I love still. I cried in my mind where I stand behind the beauty of love's in her eyes...

    Tony Montana, o ídolo número 1 dos gangsta rappers, já dizia: primeiro, você ganha dinheiro; com ele, você adquire poder; conseqüentemente, você consegue mulher. E é isso que move o mundo, meu chapa. Basicamente, quem consegue botar comida suficiente no bucho para conseguir reproduzir cumpre o seu papel nesta vida; o resto é perfumaria. É, é cruel, é selvagem...

    Cruel e selvagem como o capitalismo (e quando digo isto, não estou sendo míope e escolhendo um lado como esquerda ou direita, falo de um sistema bem mais amplo e complexo). Vejam o caso deste magnífico filme (datado de 1962 e também conhecido como "Seppuku") de Masaki Kobayashi (1916-1996), imenso cineasta japonês que merecia ser tão conhecido quanto Kurosawa, por exemplo.

    Poucas vezes vi, retratada na tela, uma história tão dolorosa _que não vou contar aqui, para não entregar as surpresas do enredo, mas adianto sua palavra-chave, que muito tem a ver com a gente: desemprego. Dolorosa e extremamente engenhosa, digna das maiores tragédias gregas, narrada soberbamente por meio de inúmeros flashbacks, enquanto a ação corrente se desenrola. Os diálogos são extremamente envolventes (nessas horas eu gostaria de ter continuado os meus estudos da língua japonesa _sim, eu gosto de estudar, apesar de não ser nerd, e me alfabetizei em japonês, também), e a atuação de Tatsuya Nakadai (uma das maiores estrelas daquele país, estrelou, entre outros, o "Kagemusha" e o "Ran" de Kurosawa e, septuagenário, está vivo e trabalhando até hoje) é monstruosa de tão boa. Mas o que mais impressiona é a decupagem: simplesmente não há, no filme inteiro (2h15 de duração), um plano sequer que não seja bom...

    Ah, e se vocês querem saber de onde o Tarantino tirou inspiração para a seqüência dos 88 Loucos em "Kill Bill Vol. 1", é só ir atrás deste filme. O do Taranta fica comendo poeira com sushi de quinta... Este longa é tão bom que chamá-lo de obra-prima soa como menosprezo. E dizem que "Rebelião", filme que Kobayashi lançou cinco anos depois, é ainda melhor... Quem aí já viu?

    Crueldade, crise, tristeza, (falta de) futuro, medo, todos esses fantasmas que sempre assolaram os seres humanos também estão presentes neste "Lugares Comunes" (2002), penúltimo longa (até agora) do veterano diretor, produtor, ator e roteirista argentino Adolfo Aristarain, em cartaz em São Paulo _e que só fui ver graças à bela senhorita que me acompanhava.

    Desemprego, também. Obviamente, o filme gira em torno da terrível crise econômica que se abateu sobre a Argentina e que também está sobre nossas cabeças (alguém aí ainda não percebeu que estamos quebrados, falidos, fodidos e mal pagos?). É um filme que fala sobre nós, também _assim como o do Kobayashi falava, do outro lado do mundo, 40 anos antes. E, apesar de tudo, o longa, que poderia ser muitíssimo mais cruel e pungente (o que talvez fizesse dele um gigante como "Harakiri"? Difícil, hein?), encontra beleza não exatamente na tragédia, mas numa esperança tão incompreensível quanto inevitável.

    Esperança seria justamente o que Michael Moore vê em John Kerry, aquele arremedo de milico? Seu novo "documentário", vencedor da Palma de Ouro no Cannes presidido por Tarantino, tem como único objetivo arrancar George W. Bush (inspirador do digníssimo grito de torcida "Aê, Bush, vai tomá no cu") da Casa Branca. Ah, e faturar muitos e muitos e muitos e muitos e muitos milhões de dólares, também...

    Mas, diferentemente do que meus irmãos haviam me falado, este filme é muito, muito melhor do que "Tiros em Columbine". Claro que o sensacionalismo continua lá, mas a apelação, quem diria, é bem menor, apesar da exploração que o man-sebo faz da dor de uma mãe que perde seu filho no Iraque (retratada por Moore como nação soberana, que nunca atacou os EUA nem matou algum cidadão americano _mas e o Saddam, era santo?).

    O ponto forte deste filme é justamente ir ao centro do problema: money, baby. Moore não apenas faz o máximo para classificar o Moita Filho como um preguiçoso, boçal, incompetente, idiota e desonesto (por que será que ele não mencionou o alcoolismo?), mas tenta jogar uma luz sobre as relações econômicas entre os EUA (em especial, a família Moita) e a Arábia Saudita, lar da família Bin Laden e um dos maiores produtores de petróleo do mundo (se não for o maior). Eu não me surpreenderia se alguém, um dia, viesse a revelar que o Osama, aquele homem bonito, segundo Caê, é, na verdade, agente da CIA...

    Sobre o dito 11 de Setembro (já virou feriado, por lá?), pouco se fala, na verdade (sequer vemos as manjadas imagens das torres caindo, isso o Moore deixou para "As Invasões Bárbaras" _filme que, por sinal, tem sido comparado a "Lugares Comuns", mas este último é bem melhor). Mas uma das coisas mais interessantes do filme é constatar, mais uma vez, que, se pelo menos Moore está longe de ser o típico redneck americano, o gordinho sujismundo é um dos maiores patriotas (e defensores do capitalismo) dos EUA. Como o Schwarza (só que Moore parece ser mais esperto e não deve se candidatar... ou não?). Ah, mas que é divertido vê-lo cutucando os políticos, isso é _só que quem aponta o dedo também tem teto de vidro. Como todos nós.

    P. S. O que mais impressiona em "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças", à primeira vista, é o seu romantismo exacerbado e inesperado (como ocorre em dois filmes também recentes, porém bem melhores, "Simplesmente Amor" e "Embriagado de Amor"). Depois, o fato de o filme ter muito mais a cara do roteirista do que do diretor (será por isso que Kaufman detestou trabalhar com George Clooney?). Michel Gondry, famoso por seus videoclipes e filmes publicitários belos e inovadores, não mostra sua cara. E Jim Carrey finalmente consegue se libertar da comédia e entrega um personagem que não é nem um pouco engraçado (para quê? O que você quer provar, Jim? Sai dessa, rapaz!). O que não surpreende é o filme dividir opiniões, como sempre ocorre quando se trata de Kaufman, cuja marca é ironizar metalinguisticamente os clichês narrativos, para depois... empregá-los! Até agora, "Adaptação" continua sendo o seu melhor trabalho, de longe. Por sinal, um trabalho deveras romântico, também...

    P. P. S. Mais um trecho do livro do Merten, agora sobre dois diretores japatutas (e que mostra uma característica típica _até porque necessária_ dos textos jornalísticos: o uso de comparações):

    "A estética de Mizoguchi combina o olho do pintor e a alma do poeta, resume Jean Tulard em seu 'Dicionário de Cinema'. É (quase) toda ela calcada no passado e privilegia a mulher, transformando-a no centro de uma mise-en-scène que não escolhe entre a imperatriz e a prostituta, usando ambas para refletir sobre a condição feminina num mundo dominado pelos homens. Mizoguchi, nesse sentido, terá seu equivalente no Ocidente na obra de diretores americanos como Joseph L. Mankiewicz e George Cukor. O caso de Ozu é ainda mais complicado, o que não deixa de ser um paradoxo, pois ele é o mais simples dos cineastas. Simples, mas não simplista. Ozu representa a vertente intimista do cinema japonês. Será sempre o diretor da família, do ciclo das estações. (...) Ozu reconhecia que os filmes devem ter uma estrutura narrativa própria, caso contrário não seriam filmes. Mas ele também confessava que os filmes de enredos elaborados demais o aborreciam. Achava que o filme, para ser bom, tem de renunciar aos excessos, de drama e de ação. Apesar da diferença de temas (e estilos), comporta a comparação, pelo grau de exigência artística e pessoal, com o francês Robert Bresson."

    sábado, julho 24, 2004

    Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban / Shrek 2 / Homem-Aranha 2

    Eu sou a lâmpida, e as muié é as mariposa, que fica dando volta em volta de mim, toda noite, só pra me beijar.

    Não sou (e, pelo que me lembro, nunca fui) de torcer o nariz para os blockbusters hollywoodianos e suas seqüências. Detesto ambos os extremos: gente deslumbrada que fica falando de "arte" como se fosse algo transcendental, quase mágico (e não trabalho duro, duríssimo, sem glamour algum), enquanto segura o copo de uísque com o dedo mindinho ereto e deixa o olhar perdido no vazio, e gente insensível que acha que quem critica Hollywood são uns "chatos".

    Mas confesso que fui assistir à adaptação para as telas do terceiro volume da série do Harry Potter só porque estava muitíssimo bem acompanhado de um belo, gentil e querido exemplar do sexo feminino (e porque era o filme aparentemente "menos pior" dentre as opções disponíveis). Não li nem vou ler nenhum dos livros (até leria se tivesse 8 anos de idade...), assim como não vi o segundo filme da série _o primeiro, vi por pura curiosidade ou por falta de coisa melhor pra fazer ou por que também estava acompanhando uma beldade, já não me lembro mais. Ou seja, para deixar bem claro: acho o Harry Potter ótimo para as crianças (se ele é um agente do capitalismo ou um ativista antiglobalização, não só não sei e sequer chego a ter raiva de quem sabe como acho isso secundário, mera punheta de intelectual de meia tigela), mas acho muito, muito esquisito ele ser lido por gente com mais de 14 anos... Mas deve-se respeitar as diferenças, e vocês sabem que eu respeito.

    Voltando ao filme: não sei se o fato de Chris Columbus ter deixado a direção para Alfonso Cuarón (parece que até o Kenneth Branagh e o Spielby estiveram na briga para a vaga) fez grande diferença; apesar de este filme ser considerado mais "dark" que os outros (mas não é por que os livros também vão ficando mais pesados?), a impressão que tive foi de que pouca coisa mudou, além do envelhecimento evidente do protagonista e de seus dois amigos. Ah, e a personagem de Gary Oldman (cuja presença é uma das coisas que mais me deixou curioso em relação ao projeto) me decepcionou um pouco, ficou meio artificial por causa de uma transição um tanto brusca demais, que deixou o conjunto meio frouxo. Mas a brincadeira com os paradoxos temporais a la "Back to the Future" ficou interessante, assim como aquelas cenas em que Potter cavalga o grifo e a do ônibus. Enfim, talvez eu veja o próximo, se novamente eu estiver acompanhado de uma bela fã da série...

    Quanto a "Shrek 2", é mais um caso de curiosidade que vitima o gato. Gostei bastante do primeiro filme, divertido, e este é ainda melhor; mesmo assim, já não me entusiasma tanto a lucrativa franquia (a seqüência parece que já entrou no top 5 das bilheterias americanas, e a parte 3 já está engatilhada). Em parte porque o impacto do excelente trabalho da animação digital (melhorado nesta seqüência) diminuiu; também porque o melhor personagem da série, interpretado pelo melhor ator envolvido (Burro Falante/Eddie Murphy), foi muito mal aproveitado desta vez. De longe, a melhor cena do filme é logo no início, quando o Burro empata a lua-de-mel de Shrek e sua Fiona...

    Mas a qualidade do filme, não só na forma, mas também no conteúdo (até que o roteiro é esperto) fica evidente, por exemplo, na cena musical da Fada Madrinha, aqui transformada em gangster (boa sacada), e em algumas outras pequenas piadas, espalhadas aqui e ali. Impressionante mesmo é a trilha sonora, justamente o ponto fraco do primeiro filme; eu nunca imaginei que fosse ouvir Nick Cave e Tom Waits numa obra tão pop...

    Mas, em termos de comédia e de piadas eficientes, o filme do ogro verde perde feio para o da aranha azul e vermelha. O que há de mais impressionante no segundo longa do Sam Raimi sobre o cabeça de teia é que se trata de uma baita comédia! Depois de um bom filme, mas que pecava pela falta de personalidade, iniciando a série, o diretor finalmente resolve botar sua assinatura no projeto; e eis que temos uma cena num hospital que é puro "Evil Dead", além da hilária participação especial de Bruce Campbell como um porteiro de teatro.

    Também é impressionante vermos funcionar o discurso de Tia May (Rosemary Harris, agora com mais espaço, chega muito perto de roubar o filme) sobre heroísmo; felizmente, estamos longe do patriotismo babaca e maldoso de Bush e seus asseclas. Outro momento marcante vem logo após a cena do trem; juro que me deu vontade de chorar, algo raro no cinema e muito inesperado num filme como este. E, para arrematar, o fato de as cenas de ação serem, sabiamente, praticamente deixadas de lado; o que vemos, o tempo todo, é o drama de Peter Parker _a máscara do Aranha torna-se, cada vez mais, um acessório descartável.

    P. S. Aí vai o trecho final de "Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento" _que, lamentavelmente, ainda tem certa atualidade, após mais de três décadas. Mas voltaremos ao Paulo Emilio em breve...

    "Se, em determinado momento, o Cinema Novo ficou órfão de público, a recíproca teve conseqüências ainda mais aflitivas. O núcleo de espectadores recrutados na intelligentsia _particularmente em seus setores juvenis_ tendia, por um lado, a se ampliar socialmente e, por outro, a se interessar por outras faces do filme brasileiro, além da cinemanovista. A deterioração da conjuntura estimulante dos inícios de 1960 fez com que o público intelectual que corresponde hoje ao daquele tempo se encontre órfão de cinema brasileiro e voltado inteiramente para o estrangeiro, onde julga, às vezes, descobrir alimento para sua inconfidência cultural. Na realidade, ele encontra apenas uma compensação falaciosa, uma diversão que o impede de assumir a frustração, primeiro passo para ultrapassá-la. Rejeitando uma mediocridade, com a qual possui vínculos profundos, em favor de uma qualidade importada das metrópoles com as quais tem pouco o que ver, esse público exala uma passividade que é a própria negação da independência a que aspira. Dar as costas ao cinema brasileiro é uma forma de cansaço diante da problemática do ocupado e indica um dos caminhos de reinstalação na ótica do ocupante. A esterilidade do conforto intelectual e artístico que o filme estrangeiro pródigo faz da parcela de público que nos interessa uma aristocracia do nada, uma entidade em suma muito mais subdesenvolvida do que o cinema brasileiro que desertou. Não há nada a fazer a não ser constatar. Este setor de espectadores nunca encontrará em seu corpo músculos para sair da passividade, assim como o cinema brasileiro não possui força própria para escapar ao subdesenvolvimento. Ambos dependem da reanimação sem milagre da vida brasileira e se reencontrarão no processo cultural que daí nascerá."

    terça-feira, julho 13, 2004

    Cazuza - O Tempo Não Pára / Amadeus

    Ouça-me bem, querida: preste atenção, o mundo é um moinho. Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos, vai reduzir as ilusões a pó.

    Talvez seja mesmo uma característica dos povos cristãos essa mania de endeusar ídolos mortos precocemente. Na música, então, os exemplos são múltiplos: de Raul Seixas a John Lennon, de Jimi Hendrix a Elvis Presley, de Cazuza a Renato Russo. Este dois últimos, então, ganham força não apenas por terem morrido em conseqüência da Aids, a grande praga incurável que muitos já chamaram de "flagelo de Deus" e que vem apavorando o mundo há mais de 20 anos (o que contribui para que, até inconscientemente, muitos os encarem como mártires, de certa forma), mas principalmente por terem feito sucesso nos anos 80, década na qual a população jovem adulta da atualidade se criou e, compreensivelmente, tem grande parte de suas memórias afetivas enraizadas. Então, uma cinebiografia de qualquer um deles certamente encontraria respaldo razoável no público; fazer filmes sobre esses ídolos é uma esperteza comparável à de Mel Gibson e sua "Paixão de Cristo".

    Pois foram lá, a Globo e mais um pessoal, pegaram dinheiro dos nossos impostos e fizeram uma cinebiografia do Cazuza. OK, legal. Que ele merece, ninguém discute. Ainda mais eu, que sou fã (bem mais dele do que do Russo, por sinal; ora, a diferença de qualidade das letras de ambos é abissal, mas não é isso que vai se debater aqui). Só que, justamente por isso, eu acho que ele merecia coisa muito melhor do que este filme de Sandra Werneck e Walter Carvalho, de longe o pior que vi nos cinemas este ano. De longe.

    O filme acabava, e eu me perguntava, numa grande e lotada sala de cinema de São Paulo: "por que isto existe? Qual a razão desta coisa existir?". Eu não sei. Talvez consolar a Lucinha Araújo, que experimentou a dor inconcebível de ver seu único filho, um artista popular amado em seu país, agonizar e morrer ainda bem jovem (como Maria teria visto Jesus morrer na cruz _mas vamos parar com a comparação antes que algum maluco qualquer venha me xingar de tudo quanto é nome). O filme foi baseado num livro da Lucinha, "Só as Mães São Felizes", e a própria aparece no filme, não apenas (bem) encarnada por Marieta Severo, mas em pessoa, em vários closes durante aquele show que a Globo exibiu e que se tornou clássico. É a única explicação que consegui encontrar (tirando a óbvia, a de fazer a máquina capitalista girar).

    Uma das letras de Cazuza diz que "só não há perdão para o chato". Pois este filme é pior do que isso. Sequer nos cutuca. Não há pungência. Impera a caretice, formal e de conteúdo. O filme tem a intenção de relatar a verdade dos fatos, mas não passa verdade nenhuma; mesmo correspondendo aos fatos, os mesmos são retratados, em sua maioria, de forma grotescamente falsa, mas sem beleza, sem sonho, sem delírio. Antes fosse alegórico de vez ou então um documentário; mas fazer um filme que não faz falta alguma sobre um artista que faz muita falta é um pecado, quase um crime.

    "Cazuza - O Tempo Perdido" é um filme que não acrescenta nada a coisa nenhuma; mesmo a atuação de Daniel Oliveira (esforçadíssimo, não há como negar) dá com os burros n'água, embora melhore bastante no final. Mas não o suficiente para salvar esta obra da indigência. Daqui a pouco, ninguém mais vai lembrar que este filme existiu; aí, talvez façam um retrato decente sobre o ídolo e sua época, que, apesar de ter cultuada, nos anos 2000, grande parte do que produziu de pior, foi mais rica do que se supõe.

    Pois foi nos anos 80 que Milos Forman adaptou para o cinema a peça teatral "Amadeus". Um filme extremamente competente e bem-feito (ótima recriação de época e trilha sonora), mas nunca brilhante. Quem brilha, aqui, são os atores: F. Murray Abraham e Tom Hulce estão soberbos como Salieri e Mozart. Trechos da vida deste último são narrados pelo primeiro, que, a partir de um delírio de inspiração religiosa, teria vindo a causar a morte de Mozart. Um retrato da contraposição entre o medíocre bem-sucedido e o gênio miserável, um tema clichê (porque tão real quanto perene; a vida vem nos mostrando isso há milênios), aqui encarado com certo frescor.

    O Mozart de Hulce é um popstar: usa uma peruca meio "Ziggy Stardust", é rebelde, extravagante e petulante, se dá bem com as "groupies" e vive na boemia, torrando tudo o que ganha. No final das contas, de forma também meio cristã, seu fracasso representa seu triunfo. Salieri, o casto amante da arte, pergunta a si mesmo se o talento (divino?) de Mozart poderia ser percebido apenas com o contemplar de sua face; horrorizado, ele o reconhece num homem que considera vulgar, obsceno, ridículo. É uma idéia muito boa que, se não foi traduzida em imagens à altura, pelo menos não foi totalmente desperdiçada.

    P. S. Falando em rock'n'roll, vamos voltar a Paulo Emilio Salles Gomes e seu "Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento" (1973), num trecho em que ele fala do que de mais punk o nosso cinema produziu:

    "Desintegrado o Cinema Novo, os seus principais participantes, agora órfãos de público catalizador, se dispersaram em carreiras individuais norteadas pelo temperamento e gosto de cada um, dentro do condicionamento estreito que envolve todos. Nenhum deles, porém, se instalou na falta de esperança que cercou a agonia desse cinema. A linha do desespero foi retomada por uma corrente que se opôs frontalmente ao que tinha sido o cinemanovismo e que se autodeterminou, pelo menos em São Paulo, Cinema do Lixo. O novo surto situou-se na passagem dos anos sessenta para os setenta e durou aproximadamente três anos. A vintena de filmes produzidos se situou, com raras exceções, numa maior ou menor área de clandestinidade decorrende de uma opção fortalecida pelos obstáculos habituais do comércio e da censura. O Lixo não é claro como a Bela Época, a Chanchada ou o Cinema Novo, onde se formou a maior parte de seus quadros. Estes poderiam, em outras circunstâncias, ter prolongado e rejuvenescido a ação do Cinema Novo, cujo universo e tema retomam em parte, mas agora em termos de aviltamento, sarcasmo e uma crueldade que nas melhores obras se torna quase insuportável pela neutra indiferença da abordagem. Conglomerado heterogêneo de artistas nervosos da cidade e de artesãos do subúrbio, o Lixo propõe um anarquismo sem qualquer rigor ou cultura e tende a transformar a plebe em ralé, o ocupado em lixo. Esse submundo degradado percorrido por cortejos grotescos, condenado ao absurdo, mutilado pelo crime, pelo sexo e pelo trabalho escravo, sem esperança ou contaminado pela falácia, é porém animado e remido por uma inarticulada cólera. O Lixo teve tempo, antes de perfazer sua vocação suicida, de produzir um timbre humano único no cinema nacional. Isolada na clandestinidade, essa última corrente de rebeldia cinematográfica compõe de certa forma um gráfico do desespero juvenil no último qüinqüênio. Não foi porém somente através do Lixo que o nosso filme se vinculou de maneira aguda às preocupações brasileiras do período. O setor documental com intenções culturais e didáticas reassumiu, em nível de consciência e realização mais alto, a função reveladora que o gênero desempenhara anteriormente. Focalizando sobretudo as formas arcaicas da vida nordestina e constituindo de certa forma o prolongamento, agora sereno e paciente, do enfoque cinemanovista, esses filmes documentam a nobreza intrínseca do ocupado e da sua competência. Quando se voltou para o cangaço, esse cinema o evocou com uma profundidade de que a melhor ficção fora incapaz."

    sábado, julho 03, 2004

    Tróia / Gladiador / Coração Valente

    Help them to learn songs of joy instead of burn, baby, burn. Let us show them how to play the pipes of peace.

    Eu nunca consegui compreender a necessidade que certas pessoas têm de partir para a porrada, em vez de resolverem suas míseras diferenças por meio do diálogo. A última vez que me lembro de ter saído no braço com alguém foi quando eu tinha 8 ou 9 anos de idade. Eu era razoavelmente bom de briga (acho que é de família), inclusive era capaz de bater em moleques maiores do que eu com certa facilidade, mas nunca fui valentão; sempre tive verdadeiro horror a violência e só batia em último caso, para me defender. Desde muito cedo, aprendi que a melhor maneira de derrotar seus inimigos é torná-los seus amigos.

    Agora, vai fazer a mesma coisa no cinema; em vez de um blockbuster, sai um filme do Rohmer. A galera quer ver sangue, gafanhoto. É paradoxal: fora das telas (ou dos palcos, dos livros etc.), a violência é grotesca, feia, bruta, abominável; em certas obras, é como um balé, coreografada, edulcorada, empolgante. Vira arte. Some um grande orçamento, capaz de comprar belas locações, cenógrafos e figurinistas, compositores e técnicos, dublês (d)e astros de Hollywood e pronto: salta uma superprodução com ares de épico histórico.

    No caso de "Tróia" (visto no Cine Votuporanga, o pulgueiro mais importante do Brasil), filme que superou minhas expectativas, a inspiração vem da "Ilíada". A adaptação é extremamente livre (o poema homérico começa com a discussão entre Aquiles e Agamênon, nas praias de Tróia, após quase dez anos de batalha, e termina com os funerais de Heitor _ou seja, o filme começa bem antes e termina bem depois), o que é ótimo; por mais que o antipático Aquiles de Brad Pitt apresente (exageradamente _o que são aqueles pulinhos?) características sobre-humanas, a ausência dos deuses (e de muitos outros personagens _os que sobraram estão bem representados: digno de nota é o Príamo de Peter O'Toole, assim como o Páris de Orlando Bloom, de quem muitos reclamaram, mas que se ajustou bem ao papel; Eric Bana convence como Heitor, causa empatia, o que não é pouco, e a Helena... bem, claro que ela é uma coisinha tão bonitinha do pai, mas uma beleza hollywoodiana comum, nada tão marcante) foi bastante inteligente.

    O filme também é muito menos violento do que o poema; este fornece descrições extremamente detalhadas da ação do ferro contra ossos e carnes. Se a versão para o cinema lhe fosse minimamente fiel neste aspecto, seriam poucos os que teriam estômago para vê-la. Não tive, como muitos têm (ou poderiam ter), a impressão de que se trata de uma grotesca glorificação da guerra ou de que existe uma agenda política por trás de tudo, mas de mais uma produção industrial que se apóia em clichês para alcançar o lucro certo. O capitalismo tem dessas coisas, o show tem de continuar; o tempo passa, o filme, também.

    O mesmo não ocorreu com o "Gladiador" de Ridley Scott. Quando eu ainda trabalhava na redação da Ilustrada, tive de editar um artigo do Marcelo Coelho sobre o filme; o título que escolhi (naquela época, era eu quem intitulava os textos dele) causou polêmica não só entre os leitores (teve carta publicada que clamava: "deixem Hollywood nos entreter!" _será que era ironia?), mas também em parte da equipe do caderno, porque condensava a surra implacável que o meu xará dava na produção. O mote era justamente essa história de que "Gladiador" glorificava o imperialismo americano etc. E olha que isso foi mais de um ano antes do 11 de setembro de 2001...

    Eu nem vejo muito por esse lado; tenho uma admiração imensa por essas superproduções, justamente pelo aspecto da (super)produção; é uma proeza de vulto dar forma a tais filmes. Trabalho e investimentos colossais. No caso de "Gladiador", todo o fausto e toda a competência formal estão evidentes; o que impressiona é que elas fazem parte de um filme muito, muito pequeno (o bom documentário histórico sobre gladiadores romanos que vem no DVD de extras _e faz interessantes analogias com a contemporaneidade_ vale mais do que a obra principal). A gloriosa exceção é a interpretação de Richard Harris como o imperador Marco Aurélio.

    Diferentemente de "Tróia", "Gladiador" investe na romantização da vida após a morte, com direito a trilha sonora apelativa de praxe. Coisa parecida ocorre em "Coração Valente" (no qual o herói também tem a amada assassinada), mas Mel Gibson a retrata de uma maneira muito mais talentosa. Fica também evidente a coerência do diretor (e a competência do produtor; a primeira grande cena de batalha, com direito a cavalos mecânicos e tudo, é, literalmente, de arrepiar); comparando a saga de William Wallace com "A Paixão de Cristo", não dá para ninguém dizer que Gibson não tem estilo (ou não capricha; o que não falta são planos belos e bem encadeados, aliados a caracterizações marcantes _até o Brian Cox aparece, antes de ser tão hypado na tela grande...). Até o fantasma da personagem da bela Catherine McCormack é retratada da mesma forma que o Satanás da Rosalinda Celentano...

    "Coração Valente" é um filme obviamente cristão (bem mais do que o seu sucessor _que, apesar dos problemas já discutidos aqui, nunca chega ao ponto de ser uma porcaria), e Gibson faz questão de deixar isto bem claro. O título do making of de seu filme, "A Paixão de um Cineasta", deixa ainda mais claro qual tema é a obsessão do ator/diretor. Vem mais por aí, a gente vai ver.

    P. S. Mais um trecho do livro do Merten, sobre dois grandes diretores que também fizeram suas superproduções históricas (lembrando que, quando faço essas citações aqui, não quer dizer que eu concorde com elas; é apenas mais material para discussão):

    "Jean-Luc Godard, nos seus tempos de crítico, escreveu que, se fosse possível fundir Nicholas Ray e Anthony Mann, o resultado seria o maior diretor de cinema do mundo. Ninguém sabia revelar um personagem no plano interior como Ray, ninguém era melhor no plano externo do que Mann. Ray escolheu para personagem central de seus filmes o homem ferido. Criou obras de um lirismo imenso, de grande riqueza sociológica: 'Juventude Transviada' é um de seus filmes definitivos. Mann destacou-se no cinema de ação, primeiro no thriller policial de inspiração noir, depois numa memorável série de westerns interpretada por James Stewart até criar, com 'El Cid', o mais grandioso dos épicos.

    Os westerns de Mann são o que de mais perfeito e puro o gênero produziu, escreveram Bertrand Tavernier e Jean-Pierre Coursodon. Pode ser que a 'pureza' de Mann não fosse a mesma dos westerns de John Ford ou de Budd Boetticher. Mann será quase sempre o psicanalista do western. Ray teve um final de carreira melancólico após o fracasso, de público e de crítica, de duas superproduções sucessivas, 'Rei dos Reis' e '55 Dias de Pequim'. É o cineasta dos atormentados. A paz de Jesus Cristo não é material para ele. Mann saiu-se melhor: 'El Cid' é sublime, e 'A Queda do Império Romano', que antecipa 'Gladiador', é, no seu desfecho extraordinário, o mais glauberiano dos filmes que Glauber Rocha não realizou. Mann fez o 'Terra em Transe' da Antigüidade clássica."

    P. P. S. Raul Seixas cantou que "lá em Nova York todo mundo é feliz. Vi o Marlon dançando o último tango de Paris". Agora, o povo quer saber: qual a melhor atuação do Brandão no cinema?

    sexta-feira, junho 18, 2004

    Pulp Fiction - Tempo de Violência / Scarface / Platoon / Matador

    Rush, rush to the yeyo. Buzz, buzz to the yeyo. Loco!

    Mais de um mês sem publicar textos novos no site, um recorde nesses mais de dois anos de existência. E o mais impressionante é que o ritmo de visitas não caiu... Claro que a parte principal deste logradouro, o espaço para comentários, não parou; sinal de que existe gente que saca que o propósito deste site não é exibir textos, mas discutir, debater, trocar idéias _se possível amigavelmente, embora sem frescura. Então vamos tentar voltar à velha forma, até que novos compromissos surjam...

    O que dizer de "Pulp Fiction", dez anos depois? É um filme ainda impressionante, embora isso não seja, necessariamente, um elogio. Depois de tê-lo visto umas cinco vezes (trata-se de um dos filmes que mais revi), duas delas no cinema (sessões seguidas, no Shopping Metrópole de São Bernardo do Campo, em companhia do meu amigo Maurito Ramírez, el chileno de la tampita, no feriado de 1º de maio de 1994 _ou será que foi 1995?), sempre com entusiasmo de fã, foi uma experiência interessantíssima revê-lo com olhos de analista. É como se, pela primeira vez, eu assistisse a ele prestando atenção...

    O resultado: trata-se de um filme de baixo orçamento (apesar de contar com Bruce Willis, à época um poderoso chamariz de bilheteria), com uma narrativa bastante interessante, bons diálogos (nem um pouco naturalistas _muita gente tem uma impressão errônea sobre os diálogos de Tarantino, ainda um sub-Leone em mais de um aspecto) e momentos incrivelmente divertidos. O ponto alto do filme, para mim, é a cena do twist: irônica, histórica, imbatível, mescla Vincent Vega a Tony Manero e a Danny Zuko em questão de segundos. Aliás, John Travolta e Uma Thurman voltam a contracenar em "Be Cool", seqüência de "Get Shorty", que, além de Danny De Vito e James Gandolfini, trará também Harvey Keitel, The Rock, Steven Tyler (interpretando... o vocalista do Aerosmith) e Andre 3000 (sim, aquele do "Hey Ya!"). Será que vai ser tão bom quanto o do Sonnenfeld?

    E, apesar de o filme ter diminuído na revisão (não há dúvida de que se trata de um dos longas mais importantes do cinema norte-americano dos anos 90, mas nem por isso trata-se de uma obra-prima _sequer é o melhor Tarantino, como muitos, ainda cegos pela faísca do revólver, insistem em propalar), é uma delícia descobrir novos detalhes: por exemplo, eu nunca tinha me tocado de que o garçom Buddy Holly, do Jack Rabbit Slim's, é o Steve Buscemi! Não só ele está irreconhecível, como não aparece em planos fechados, mas lá está ele, Mr. Pink em pessoa (por sinal, um roteirista britânico quer fazer um filme sobre o Mr. Pink de "Cães de Aluguel", mas parece que o Taranta não se animou muito). Mas a coisa mais deliciosa de todas foi reparar que, no travelling que nos apresenta ao Slim's, a câmera pára num cartaz do fantástico "Machine Gun Kelly", filmaço do Roger Corman estrelado por Charles Bronson (outro ídolo do Taranta). Legal, legal!

    Falando em filmaço, "Scarface, a Vergonha de uma Nação" (1932), dirigido pelo grande Howard Hawks, com roteiro do também grande Ben Hecht e com uma atuação antológica do austríaco Paul Muni, ganhou um remake nos anos 80 que agora chega ao DVD em uma edição caprichada. Quem iria dirigir o filme era Sidney Lumet, que desistiu do projeto por considerar o roteiro de Oliver Stone violento demais. Stone ainda não tinha cacife para dirigir uma produção como essa, então quem tocou o barco foi Brian De Palma (que, na cena final, teve direito até a palpites de Steven Spielberg). Ou seja, fica bastante evidente que se trata de um trabalho de equipe, e não de um projeto mais pessoal de De Palma; não é à toa que está longe de ser um de seus melhores filmes _em retrospecto, parece mais um ensaio para "Os Intocáveis" e "O Pagamento Final", ambos bem melhores.

    Mas seu "Scarface" também está longe de ser desprezível. Graças, acima de tudo, a Al Pacino. Seu Tony Montana, "a political prisioner from Cuba", é um personagem interessantíssimo: ladrão, assassino, traficante, machista, estúpido, junkie e mais um monte de coisas ruins, ainda assim emerge como o herói do filme, apesar de não ser tratado com tanto glamour. Montana (que ganha uma série de falas antológicas; minha preferida é "this city is a great big pussy ready to be fucked, man", qual é a sua?), por mais criminoso que seja, por vezes é mostrado com um mínimo de escrúpulos, nunca passando uma imagem 100% monstruosa. Não entro muito em detalhes para não estragar a experiência de quem ainda não viu.

    Depois de Pacino, a grande figura do filme parece mesmo ser Oliver Stone. Seu roteiro é bastante oportuno, ao situar a história de um bando de gângsteres na Miami do início dos anos 80, quando mais de 100 mil refugiados cubanos (drama relembrado no recente documentário "Balseros") desembarcaram nos EUA _uma boa parte deles era de presidiários, ou seja, Fidel (que de bobo não tem nada), num maquiavélico golpe de mestre, aproveitou para esvaziar as cadeias de sua ilha... Além de jogar luz sobre o tráfico de cocaína proveniente da América Latina, o filme não se priva de escancarar uma série de podres do capitalismo americano, de bancos que lavam dinheiro a jornalistas que se põem contra a descriminalização das drogas, passando por políticos, militares, policiais etc. Montana, o criminoso grosseiro, é mostrado como "fichinha" perto dessa corja toda. Ou seja, dá a impressão de ser o filme mais moral de De Palma.

    Este, destaca-se mais pela estética dada ao filme, que de noir não tem nada; o exuberante visual "Miami Vice" surge aqui (por sinal, quem já jogou o ótimo "Grand Theft Auto - Vice City" vai sacar de cara de onde veio a inspiração), embalado pelo contagiante (apesar de brega) tecnopop de Giorgio Moroder (com convidados do naipe de Deborah Harry). Só que a narrativa é estranha, truncada, incômoda. O filme é longo demais (2h50min) e, apesar de o diretor ter conseguido, com muito custo, lançar nos cinemas sua versão integral, a saga de Montana ainda nos parece cheia de buracos. Mas que é um filme interessantíssimo, isso é (e o pequeno documentário que mostra Montana como o ídolo dos "gangsta rappers" norte-americanos chega a ser assustador). Say hello to my lil' friend!

    Falando em Stone, seu projeto mais bem-sucedido como diretor, "Platoon", saiu pouco depois, em 1986. Eu era criança, na época, mas me lembro bem do impacto que o oscarizado filme causou; o relato praticamente autobiográfico de Stoned sobre sua experiência no Vietnã, talvez por ser mais palatável que o épico de Coppola, paradoxalmente causou mais comoção. É que o filme não se priva de ser estritamente "hollywoodiano", indo baixo ao tentar emocionar as pessoas com uso de uma trilha sonora apelativa, câmera lenta, voz over e um final pra lá de babaca. Politicamente correto até o osso, o filme é salvo pelos atores, em especial Tom Berenger e Willem Dafoe, ambos dignos de lembrança. De resto, sobra pouco _o que é uma pena; confesso que tenho a maior simpatia do mundo por Stoned e suas boas intenções... Só falta ele dirigir um filme realmente grande.

    Do outro lado da moeda, temos este "Matador", também de 1986 e, fácil, fácil, um dos melhores filmes de Pedro Almodóvar, apesar de o enredo se encaminhar para um final óbvio, mas nem por isso menos bonito. Sem medo de ser simbólico, conjuga Eros e Tânatos (a frase-chave é: "deixar de matar seria como deixar de viver") durante um eclipse e por meio de metáforas visuais que associam a tauromaquia às relações sexuais, homens e bestas. O machismo espanhol, mais uma vez, é desnudado, enquanto o próprio Almodóvar, impagável no papel de um estilista, abusa do discurso político com a maior desfaçatez, dizendo que a Espanha está dividida entre invejosos e intolerantes, para depois afirmar que pertence simultaneamente aos dois lados. O cara pode ser um mala, mas é foda e faz filmes mais "pra macho" do que o Stallone e o Schwarza juntos. E como filma bem uma mulher, o puto: Assumpta Serna (por onde anda?) está belíssima! "To die for", como dizem lá no país das "freedom fries"...

    P. S. Vi, há pouco, "Coisas Belas e Sujas", do irregular Stephen Frears. Infelizmente, não está entre seus melhores trabalhos. O início é bem interessante, os atores estão bons, mas a fotografia é incômoda demais e o desfecho é digno de dramalhão mexicano. Pena...

    P. P. S. Trecho de "Cinema - Entre a Realidade e o Artifício", de Luiz Carlos Merten, mais conhecido como um dos críticos de cinema de "O Estado de São Paulo":

    "Só há duas maneiras de tratar o clichê no cinema, escreveu um crítico: ironizando-o ou filmando-o melhor do que qualquer outro. Tarantino parecia ironizar, mas na verdade o que exibia era competência. Seu cinema refletia uma tendência que já havia se manisfestado nos anos 70, na grande fase de Robert Altman e Sidney Pollack: a persistência de obras e autores das primeiras décadas do século passado não era exatamente novidade.

    A novidade estava no estilo: na força dos diálogos, da história, na estrutura circular, no perfil de seus personagens. 'Tempo de Violência' virou cult imediatamente. (...) Tarantino ainda revelaria sinais de talento em 'Jackie Brown', que adaptou de um de seus autores preferidos, Elmore Leonard, com a musa dos blaxpoitation movies dos anos 70, Pam Grier, no papel da aeromoça que se envolve com o crime. Pam é uma heroína mais humana do que os assassinos de 'Cães de Aluguel' e 'Tempo de Violência', e a ironia do filme também é mais sutil. O humor está nos personagens de Pam e Robert Forster, outro egresso do limbo dos anos 70, com muitas passagens pela TV. Em 'Tempo de Violência', o humor está todo nos diálogos, muito bem escritos ou escritos adequadamente, porque Tarantino, que fez parcos estudos, sabia como usar o verbo para expressar a boçalidade."

    segunda-feira, maio 17, 2004

    Barravento / A Terra Treme / Diários de Motocicleta / 25 / Di

    You let me love you till I was a failure... Your beauty on my bruise like iodine.

    Estou gripado, entupido de coisas para fazer. Nem acredito que arranjei tempo para escrever este texto... Bom, vamos lá, sem mais delongas, porque não sou homem de ficar jogando conversa fora, acredito que a concisão é uma virtude e não me agrada nem um pouquinho de nada ficar desperdiçando o tempo das outras pessoas, é por isso que prefiro ir direto ao assunto, em vez de me limitar a encher este espaço maravilhoso e democrático de letrinhas inúteis, concordam comigo? Então, tá.

    Quando eu era um jovem mancebo de 12 anos, a TV Cultura de São Paulo (na época em sua melhor fase, presidida pelo Roberto Muylaert, pai da diretora de "Durval Discos") promoveu um ciclo com filmes de Glauber Rocha. Os mesmos de sempre: "Deus e o Diabo na Terra do Sol", "Terra em Transe", "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro" e "Barravento". Leitor compulsivo (como era muito jovem, ainda não havia sido subjugado pela paixão pelas mulheres _ou seja, tinha muito mais tempo para outras atividades), obviamente já tinha bastante informação sobre Glauber, mas nunca tinha visto um filme do feladaputa. Pois vi os quatro e caí de quatro. Bom bragarái.

    Agora, em 2004, o Canal Brasil também inventa de fazer um ciclo Glauber Rocha e passa os mesmos quatro filmes (nada de "Câncer", "Cabezas Cortadas", "Claro", "Der Leone Have Sept Cabeças" etc.), mais "A Idade da Terra", que não consegui terminar de ver. Aproveitei para rever os dois que tinha gostado menos, "O Dragão..." e "Barravento". Muito mais crítico e menos deslumbrado do que quando tinha 12 anos, me surpreendi ao gostar ainda mais dos filmes, em especial da continuação da saga de Antônio das Mortes.

    Mas "Barravento" (1962) me chamou a atenção por que havia revisto, há pouco, os restos de "It's All True", do nosso amigo Orsie. Como o filme nunca foi finalizado, e as latas ficaram "perdidas" até a metade da década de 80, é lógico que Glauber (1938-1981) não viu o maravilhoso trabalho de Welles _fã de Griffith e de Flaherty que, talvez inconscientemente, se aproximou imensamente de uma maneira de fazer filmes que seria consagrada na Itália sob o rótulo de neo-realismo.

    Ora, muita gente considera o Cinema Novo brasileiro muito mais próximo do neo-realismo italiano do que da Nouvelle Vague francesa, por exemplo (não deixe de ler o P. S., trataremos disso por lá), e é impossível não enxergar uma relação entre "Barravento", o primeiro longa de Glauber, e "La Terra Trema: Episodio del Mare", primeira parte de uma trilogia que Lucchino Visconti (1906-1976) nunca terminou. Ambos (assim como o episódio de Welles filmado em Fortaleza) nos mostram o cotidiano de vilas de pescadores, explorados e humilhados pelas companhias que fornecem os equipamentos, ficam com a maior parte da produção e pagam uma miséria aos trabalhadores, que arriscam a vida no mar todos os dias. O tom dos discursos das personagens principais de ambas as obras (no de Glauber, temos Antônio Pitanga que, na época, ainda assinava Antônio Sampaio; no do "conde vermelho", todo o elenco é simplesmente creditado como "pescadores sicilianos") é claramente marxista.

    A diferença que mais me chamou a atenção entre esses dois filmes é que o de Visconti (com um belo e justificado uso da narração com voz over) se limita a mostrar, quase melodramaticamente, a dura e triste vida de uma família de pescadores que tenta se desvencilhar da exploração capitalista. O de Glauber concentra-se em atacar a religião, denunciando que o misticismo é usado para controlar o povo, que, por atribuir tudo ao destino divino, torna-se submisso. "Preto e pobre precisa largar a religião e partir pra luta", deixa bem claro Firmino, a personagem de Pitanga. Visconti, curiosamente, ignora completamente a religiosidade em seu filme. Ambos são ótimos, ambos devem ser vistos.

    Não me lembro de Walter Salles ter se pronunciado sobre o neo-realismo ou o Cinema Novo em alguma entrevista ou texto (o Fernando Meirelles, pelo que ouvi dizer, não gosta muito deles), mas é célebre o engajamento do homem com o gênero documentário. Em seu recente "Diários de Motocicleta", Salles se inspirou nos trabalhos de um fotógrafo peruano (não consigo me lembrar de seu nome e não consegui encontrá-lo no Gúgou), deixando isto bem claro ao inserir várias imagens em preto-e-branco em seu longa, tentando reproduzir tais trabalhos. Nos créditos finais, desta vez por meio de fotografias e da aparição do homem que inspira o companheiro do protagonista, também faz questão de mostrar que a história que narrou é uma reconstituição de fatos, registrados em dois livros de memórias.

    Assisti a este filme (após entrar na sala errada e ver o final de "Scooby-Doo 2"... _só havia um garoto na sala, uma sessão particular em pleno shopping Higienópolis!!!) acompanhado de meu amigo Julito, filho de argentino, que não só é fã do Salles como conhece boa parte das regiões mostradas no filme. Como se isto não bastasse, seu avô foi mineiro em Potosí _e o encontro do jovem Guevara com os mineiros marxistas o emocionou bastante. Mas eu, confesso (mas sem aquela culpa cristã), não cheguei nem perto de me emocionar tanto com o filme, embora algumas passagens sejam realmente impactantes, como a comparação entre a Machu Picchu dos incas e a Lima dos "incapazes"...

    Também confesso que não achei o melhor filme do Salles, ao contrário do que muita gente anda dizendo por aí. Tanto "Central do Brasil" como "Abril Despedaçado" (este último pede por uma revisão) me parecem melhores, mais bem-construídos e poderosos _não vi "O Primeiro Dia", e "Terra Estrangeira", que muita gente defende, me obrigou a abandoná-lo no meio, estava insuportável, horrível mesmo). Mas os atores estão muito bem (em especial De La Serna), algumas canções da trilha são deliciosas e, mais do que tudo, o filme tem sua razão de existir pelos problemas que relata. Não se trata necessariamente de uma defesa de Che (pelo menos, espero que não), considerado um herói quase santo por uns, um facínora diabólico por outros; uma das coisas que mais me agradou, no filme, foi justamente ele ter sido encarado como um ser humano normal, repleto de fraquezas, embora irredutível em sua honestidade. E aquela cena no Amazonas, o que vocês acharam? É piegas ou não?

    Aconteceu que, um dia após eu ter visto o longa do Salles (que ficou pequeeeno, em comparação), finalmente consegui assistir a um filme que há muito tempo eu queria ver: "25" (1977), documentário ético, poético e revolucionário em mais de um sentido, dirigido por Celso Luccas (que estava presente na sessão) e por José Celso Martinez Corrêa _mais conhecido por seu brilhante trabalho no Teatro Oficina, atualmente administrado pela minha também brilhante amiga Paulitcha, a mãe do Tomás e do Léo (trata-se do segundo filme da dupla, que, anteriormente, havia feito "O Parto", documentário sobre a Revolução dos Cravos, marco final do regime salazarista _aliás, amigos portugueses que porventura passarem os olhos por aqui podem nos informar melhor a respeito).

    O número do título é a data da independência de Moçambique, país que virou música de Bob Dylan e que se separou de Portugal em junho de 1975, após dez anos de guerrilha. A primeira parte do filme é simplesmente genial, ao apostar num cinema mais poético do que narrativo (ao contrário de muita gente metida a entendedor de cinema por aí _uma corja de chatos, ignorantes e arrogantes, para usar expressões eufemísticas e gentis_, não acho que um seja necessariamente melhor do que outro) para narrar a história recente dos dois países, fazendo uma sutil ponte com a história do nosso Brasil, também ex-colônia portuguesa, que também ansiava, novamente, por liberdade. Minha amiga Lili (a embaixadora do hip hop cubano), a quem reencontrei por lá, só começou a curtir o filme em seus dois terços finais, quando a narrativa se torna contínua e, usando de farto material de arquivo aliado à captação das imagens quentes da época, documenta o evento. Um filme indispensável, que deveria ter maior circulação, ser passado nas escolas etc. Saí do cinema gostando ainda mais do Zé Celso... Ah, e antes de "25", pudemos assistir a "Aruanda", do Linduarte Noronha _um dos documentários-chave ligados ao Cinema Novo, é um filme que lembra muito "Nanook..."... Perceberam como tudo está interligadíssimo?

    Outro filme que finalmente pode ser visto pelos brasileiros é o célebre "Di Cavalcanti Di Glauber" (ou simplesmente "Di", como foi apelidado), a fantástica homenagem de Glauber Rocha a seu amigo Emiliano Di Cavalcanti, grande pintor. E o impressionante do filme é justamente o texto, narrado por Glauber; quem diria, a coisa mais importante em um filme sobre um pintor é o som! Claro que há imagens interessantes, a começar pelo cadáver de Di no caixão (tão terrível quanto necessário, vemos a morte cara a cara) e pela aparição de Antônio Pitanga (de novo, ele) em frente a algumas obras do pintor. No enterro, além do próprio Glauber acompanhando o caixão, vemos também o impagável (tenho birra com esta palavra, mas aqui me sinto obrigado a empregá-la) Joel Barcellos, o homem da cagadinha de chocolate! Uau! Este deve ser um dos poucos filmes que devem ser pirateados por uma questão de princípios.

    P. S. Mais um trecho de "Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento", de Paulo Emilio Salles Gomes, que complementa bem este meu texto improvisado e mal-pensado:

    "A voga do neo-realismo, logo após o término da guerra, teve conseqüências extremamente frutuosas para nós. Aconteceu que o difuso sentimento socialista que se alastrou a partir do fim dos anos 1940 envolveu muita gente de cinema e particularmente as personalidades mais criativas surgidas após o malogro do surto industrial de São Paulo. O próprio comunismo político, ortodoxo e estreito, acabou tendo uma função cultural na medida em que, por um lado, procurava, mesmo desajeitadamente, compreender a vivência dos ocupados, e, por outro, encorajava a leitura de grandes escritores membros ou simpatizantes do partido, Jorge Amado, Graciliano Ramos ou Monteiro Lobato. Esse clima intelectual e mais a prática do método neo-realista conduziriam à realização de alguns filmes do Rio e de São Paulo que glosavam artisticamente a vida popular urbana. O antigo herói desocupado da chanchada foi suplantado pelo trabalhador, mas nos espetáculos cinematográficos que essas fitas proporcionavam, os ocupados estavam muito mais presentes na tela do que na sala. Em matéria de construção dramática consistente e eficaz, essas obras deixaram longe não só a tenaz chanchada carioca, mas também os produtos mais ou menos diretos da efêmera industrialização paulista. No terreno das idéias, a contribuição que trouxeram foi ainda maior. Sem ser propriamente políticas ou didáticas, essas fitas exprimiam uma consciência social corrente na literatura pós-modernista, mas inédita em nosso cinema. Além de um vasto elenco de méritos intrínsecos, esses poucos filmes realizados por dois ou três diretores constituíram o tronco poderoso do qual se esgalhou o Cinema Novo."

    P. P. S. Em homenagem ao nosso mui querido e respeitado presidente da República (que, apesar de bêbado, não é nem um pouquinho truculento ou idiota), trecho de "Um Cinema Chamado Desejo", de Andrzej Wajda, um dos maiores cineastas da terra de Polanski, Kieslowski e Wojtila:

    "Se o diretor é um homem sensível _e se não fosse, como poderia comunicar suas 'sensações' aos outros?_, deve, dominado pelo mecanismo da produção, buscar meios de se descontrair. Em certos países, entre os quais a Polônia, o meio mais difundido é a vodca. Tem-se visto, em outros lugares, até mesmo diretores que 'criam' estimulados pelo álcool. À primeira vista, isso se apresenta de um modo mais simpático. A euforia do cineasta é contagiosa. Ri-se muito durante a filmagem. Lamentavelmente, as cenas realizadas nessa atmosfera quase não comunicam seu bom humor aos espectadores. A razão disso é bem simples.

    Vi diretores embriagados, mais raramente cinegrafistas. Encontrei até mesmo uma equipe bêbada como poloneses _mas jamais me foi dado topar com uma câmera embriagada. A objetividade da objetiva é, infelizmente, inscrita na língua. Se você pretende forçar a câmera a um olhar subjetivo, precisará concentrar sua inteligência mais objetiva para lhe impor a vontade. Somente um diretor sóbrio é capaz disso. A platéia do cinema é sóbria também. Um filme embriagado só pode ser apresentado a convidados, dando-lhes antes o que beber. Mas isso não é de nossa profissão. Deixemo-lo aos amadores, que filmam uma festa familiar em seu jardim."

    P. P. P. S. "O Iluminado". Em 30 segundos. Com coelhinhos. Aqui.

    domingo, maio 02, 2004

    Kill Bill - Vol. 1 / Era uma Vez no Oeste

    Bang, bang, he shot me down. Bang, bang, I hit the ground. Bang, bang, that awful sound. Bang, bang, my baby shot me down.

    Antes de mais nada, acho terrível essa história de lançar só meio filme. Dizem que, originalmente, “Kill Bill” teria cerca de 3h30 de duração. Ora, é mais curto do que “Era uma Vez na América” e “...E o Vento Levou” e praticamente da mesma duração de “Apocalypse Now Redux” e “Ben-Hur”. Então que #!&*%$ é essa de dividir em dois? Ainda bem que não sou mulher, senão estaria com mais raiva ainda...

    Tudo bem que o final de KB1 é tão impactante que até parece fim de penúltimo capítulo de novela da Janete Clair. Sim, quem diria, KB1, no fundo, não passa de um novelão, assim como “Cães de Aluguel” _embora, se eu me lembro bem, um tom mais sentimental, porém menos “dramático”, era o que predominava em “Jackie Brown" (taí um filme que preciso rever). A diferença é que “Kill Bill – Vol. 1” é mais “pra macho”.

    Pois, então. O Taranta é um cara muito inteligente. Espertalhão, mesmo. Ele faz filmes legais. Divertidos, mesmo. A gente sabe que vai sorrir quando vê um filme dele. E sorri, mesmo. Eu sorri várias vezes durante a primeira parte de “Kill Bill”. Cheguei a dar gargalhadas. Em dois momentos bem específicos, os mais engraçados do filme: o primeiro é a Daryl Hannah de enfermeira-pirata (aquele tapa-olho é de matar). O segundo, a piada mais genial do filme, é quando a noiva (cujo nome é dito por Bill na primeira cena do novelão _mas Tarantino é esperto e deixa tudo ambíguo) desperta do coma, olha para a linha da vida de sua mão esquerda e grita, desesperada/furiosa: “Four years!”. Esse é o tipo de sacada brilhante que vai ser lembrada no documentário de comemoração dos 30 anos de “Kill Bill”...

    O Taranta, antes de tudo, é um humorista _e ele é o primeiro a admitir. “Pulp Fiction”, o primeiro dele que vi (e o que mais se aproxima do primeiro volume de “Kill Bill”), também me fez gargalhar em dois momentos chave: um é quando Bruce Willis pega a espada de samurai (ãh? Espada? Samurai?); o outro (este me fez chorar e me doeu os músculos abdominais, de tanto rir) é quando Vincent Vega atira na cabeça de seu informante, sentado no banco de trás do carro, sem querer, fazendo aquela meleca.

    Agora, prestemos atenção em uma coisa: um tiro na cabeça é uma coisa grotesca. É talvez a maneira mais estúpida de se matar alguém. E olha que matar alguém não é bolinho, não, como bem disse o nosso amigo William Munny from Missouri, que manja muito dessas paradas. Mas o Taranta consegue fazer a gente gargalhar histericamente quando alguém leva um tiro na cabeça. É uma proeza. Diante disso, fica evidente que é preciso prestar atenção nesse garoto.

    Então, dez anos depois, ele volta com um filme muitíssimo mais trabalhado, em termos técnicos. Há um apuro infinitamente maior na cenografia, nos figurinos, na fotografia etc. Os enquadramentos são extasiantes, a trilha sonora impressiona muita gente (o que me impressionou, para falar a verdade, foram as 5, 6, 7, 8s _e eu nem sabia que eu tinha uma quedinha por japonesas roqueiras que tocam descalças...) e tudo colabora para que a gente nem preste muita atenção no enredo da tragicomédia shakespeareana/bruceleetica do quarto filme de Quentin Tarantino.

    É que Tarantino não precisa ser abertamente metido a intelectual. Ele é mais esperto do que isso. Sabe que é melhor não ter vergonha de misturar “O Poderoso Chefão”, “Alien – O Oitavo Passageiro” e “Monty Python em Busca do Cálice Sagrado” em uma mesma cena. Também sabe que bom gosto é uma coisa que não funciona tão bem no cinema. O século XXI clama por vulgaridade. E o Taranta (já falei que ele é esperto?) finge dar ao povo o que ele quer, mas joga pérolas aos porcos (sim, adoro esta imagem).

    Não, o cinema de Tarantino não é violento. “Pulp Fiction” não merece ser chamado de “Tempo de Violência”. O público de Tarantino não suportaria violência. O público de Tarantino é o mesmo de “Comichão e Coçadinha” _vocês sabem que não sou chegado em frases de efeito, mas vou abrir uma rara exceção e mandar uma, apesar de achar que bem pouca gente vai entender: o público dos filmes de Quentin Tarantino se divide em Barts e Lisas. Quem gosta de violência é quem gosta de “Elefante”. Taranta, esse cara tão esperto, abre seu “Kill Bill” com uma cena violenta. Assusta, mas depois o espectador só ganha lambida e cócega (a não ser durante o anime que conta a origem de O-Ren Ishii _talvez a personagem da vida de Lucy Liu_, que quebra impiedosamente a estética e o ritmo do filme), como aquele lindo jardim de inverno que me lembra “Cidadão Kane” e a melhor frase de todo o filme, dita pelo dono do impagável Pussy Wagon: “My name is Buck and I’m here to fuck”. Vai demorar muito pra alguém fazer uma camiseta?

    Mas, apesar de eu já ter escrito um texto considerável até aqui, acho bem difícil dizer qualquer coisa sobre meio filme. Se “Kill Bill” fosse só o volume 1, seria fácil o pior filme de Tarantino. Como não é, é preciso aguardar para fazer qualquer afirmação mais categórica. Então que venha o volume 2, quando a noiva “will be back for the final cut”.

    Vamos passar para um nível superior e olharmos para Sergio Leone, provavelmente um dos heróis do Taranta. “Once Upon a time in the West” (1968) também se configura como o máximo de apuro técnico/estético de um cineasta. Um orçamento maior, que permitiu a Leone brincar no Monument Valley, o playground de John Ford, fez a diferença. E que diferença: é o melhor western de Leone, bastante superior a “Três Homens em Conflito”, por exemplo. Dá até vontade de dizer besteiras como “trata-se de um metawestern” ou “é uma ópera da morte” ou qualquer outra redundância do tipo.

    É uma história de vingança, e aqui nem precisamos de um antigo provérbio klingon para deixar isto bem claro. Até porque demora um tempão (o filme tem 2h45 de duração, que passam voando, apesar da deliciosa lentidão da narrativa) para ficarmos sabendo quem está se vingando de quem e por quê.

    O homem sem nome da vez é Charles Bronson (a quem, por sinal, “Kill Bill – Vol. 1” é sabiamente dedicado), que perspassa todo o filme de modo sobrenatural. Seu nêmesis é, quem diria, Henry Fonda _normalmente o símbolo da integridade, Fonda interpreta um vilão tremendamente maligno e covarde, mas que, diante de um inimigo letal, demonstra respeito e honra dignos de samurai). O pivô da história é Claudia Cardinale _uma das atrizes preferidas de Lucchino Visconti, aqui no auge da beleza (aliás, porque essas belas italianas, quando envelhecem, ficam todas com cara de Sophia Loren?). Completa o time de protagonistas um bandido romântico com nome de índio, interpretado por Jason Robards (o pai de Tom Cruise em “Magnolia” _curiosidade: tanto ele quanto Fonda lutaram na Segunda Guerra Mundial, na Marinha, e voltaram condecorados). Um elenco incomum em um filme ímpar.

    O domínio que Leone tem do tempo é assombroso. A beleza dos planos (abertos ou fechados), idem. A trilha sonora de Morricone, um tema para cada um dos quatro protagonistas, é inesquecível. E os diálogos, sem nenhum pingo de verossimilhança, soam como falas de bardo: seja Bronson dizendo “dentro dos casacos havia três homens. Dentro dos homens, três balas” ou Robards aconselhando Cardinale a ir “lá fora, servir uma bebida aos homens que trabalham na ferrovia. E, se algum deles passar a mão na sua bunda, faça de conta que não foi nada; eles merecem”. Logo no espetacular início do filme (Leone sempre foi genial ao iniciar um filme), somos brindados com um diálogo absurdamente suculento: Bronson chega para o que deveria ser um encontro com um homem e se depara com três capangas armados; ao indagar sobre o cavalo que deveria levá-lo para o tal encontro, um dos homens (que, na versão original do roteiro, deveriam ser interpretados por Clint Eastwood, Lee Van Cliff e Eli Wallach, ou seja, “the good, the bad and the ugly” _pena que não rolou) responde, ironicamente: “Parece que estamos com um cavalo a menos"; Bronson, impassível como um fantasma, retruca: “Parece que vocês estão com dois cavalos a mais”. Rú!

    Fora toda a beleza e toda a diversão, tem gente que ainda vê no filme implicações políticas, embora não tão claras como em filmes de Sergio Corbucci ou Damiano Damiani. Mas a gente gosta de ver críticas ao capitalismo em tudo quanto é lugar (menos nos filmes do Taranta, né?), então deixa o menino brincar!

    P. S. O Tarantino até pode ser foda. O Leone é obviamente foda. Mas quem também é foda, já falei e vou repetir, é o Roger Corman. Quando ele filma com o Charles Bronson (que está longe de ser o mero brucutu retratado nos filmes dos anos 80 em diante), então, sai de baixo. “Machine-Gun Kelly” (1958) é um policial invulgar e interessantíssimo, mas não posso falar muito sobre ele sem estragar as surpresas que o filme traz. Trate de assistir, depois venha me dizer se não é uma pequena maravilha ou se eu sou só mais um paga-pau de filmes que quase ninguém que se considera "normal" viu.

    P. P. S. Falando em coisas assombrosas e fascinantes, não deixem de ler o impressionante artigo “Citizen Kubrick” _o nome já diz tudo!

    P. P. P. S. Pra variar, segue um trechinho (inicial) de “Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento”, talvez o mais importante ensaio já escrito sobre o cinema brasileiro. A reflexão feita aqui é de importância capital, não deixe de ler! O autor é o grande Paulo Emilio Salles Gomes, a data é 1973 (ano da morte do Bruce Lee):

    “O cinema norte-americano, o japonês e, em geral, o europeu, nunca fora subdesenvolvidos, ao passo que o hindu, o árabe ou o brasileiro nunca deixaram de ser. Em cinema, o subdesenvolvimento não é uma etapa, um estágio, mas um estado: os filmes dos países desenvolvidos nunca passaram por essa situação, enquanto os outros tendem a se instalar nela. O cinema é incapaz de encontrar dentro de si próprio energias que lhe permitam escapar à conjuntura do subdesenvolvimento, mesmo quando uma conjuntura particularmente favorável suscita uma expansão na fabricação de filmes.

    No caso da Índia, com uma produção das maiores do mundo. As nações hindus possuem culturas próprias de tal maneira enraizadas que criam uma barreira aos produtos da indústria cultural do Ocidente, pelo menos como tais: os filmes americanos e europeus atraíam moderadamente o público potencial, revelando-se incapazes de construir por si um mercado. Abriu-se assim uma oportunidade para os ensaios de produção local que durante décadas não cessou de aumentar e em função da qual teceu-se a rede comercial da exibição. Teoricamente a situação era ideal: uma nação ou um grupo de nações com cinema próprio. Tudo isso ocorria, porém, num país subdesenvolvido, colonizado, e essa atividade cultural aparentemente tão estimulante, na realidade refletia e aprofundava um estado cruel de subdesenvolvimento. (...)

    No Japão, que não conheceu o tipo de relacionamento exterior que define o subdesenvolvimento, o fenômeno cinematográfico foi totalmente diverso. Os filmes estrangeiros conquistaram de imediato uma imensa audiência e foram, de início, o estímulo principal na estruturação do mercado consumidor do país. Essa produção de fora era, no entanto, por assim dizer, ‘japonizada’ pelos benshis _os artistas que comentavam oralmente o desenrolar dos filmes mudos_, que logo se transformaram no principal atrativo do espetáculo cinematográfico. Na verdade, o público japonês também nunca aceitou o produto cultural estrangeiro tal qual, isto é, os filmes mudos apenas com os letreiros traduzidos. A produção nacional, ao se desenvolver, não encontrou dificuldades em predominar, principalmente depois da chegada do cinema falado, que dispensou a atuação dos benshis. Diferentemente do que ocorreu na Índia, o cinema japonês foi feito com capitais nacionais e se inspirou na tradição, popularizada mas direta, do teatro e da literatura do país.”

    P. P. P. P. S. Last, but least: me rendi ao MSN Messenger; o e-mail é o mesmo exibido neste site. Quem quiser bater boca, que se arrisque. Bill Gates venceu de novo, raios!

    Na platéia