A gruta é mais extensa do que a gruta

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    sábado, julho 03, 2004

    Tróia / Gladiador / Coração Valente

    Help them to learn songs of joy instead of burn, baby, burn. Let us show them how to play the pipes of peace.

    Eu nunca consegui compreender a necessidade que certas pessoas têm de partir para a porrada, em vez de resolverem suas míseras diferenças por meio do diálogo. A última vez que me lembro de ter saído no braço com alguém foi quando eu tinha 8 ou 9 anos de idade. Eu era razoavelmente bom de briga (acho que é de família), inclusive era capaz de bater em moleques maiores do que eu com certa facilidade, mas nunca fui valentão; sempre tive verdadeiro horror a violência e só batia em último caso, para me defender. Desde muito cedo, aprendi que a melhor maneira de derrotar seus inimigos é torná-los seus amigos.

    Agora, vai fazer a mesma coisa no cinema; em vez de um blockbuster, sai um filme do Rohmer. A galera quer ver sangue, gafanhoto. É paradoxal: fora das telas (ou dos palcos, dos livros etc.), a violência é grotesca, feia, bruta, abominável; em certas obras, é como um balé, coreografada, edulcorada, empolgante. Vira arte. Some um grande orçamento, capaz de comprar belas locações, cenógrafos e figurinistas, compositores e técnicos, dublês (d)e astros de Hollywood e pronto: salta uma superprodução com ares de épico histórico.

    No caso de "Tróia" (visto no Cine Votuporanga, o pulgueiro mais importante do Brasil), filme que superou minhas expectativas, a inspiração vem da "Ilíada". A adaptação é extremamente livre (o poema homérico começa com a discussão entre Aquiles e Agamênon, nas praias de Tróia, após quase dez anos de batalha, e termina com os funerais de Heitor _ou seja, o filme começa bem antes e termina bem depois), o que é ótimo; por mais que o antipático Aquiles de Brad Pitt apresente (exageradamente _o que são aqueles pulinhos?) características sobre-humanas, a ausência dos deuses (e de muitos outros personagens _os que sobraram estão bem representados: digno de nota é o Príamo de Peter O'Toole, assim como o Páris de Orlando Bloom, de quem muitos reclamaram, mas que se ajustou bem ao papel; Eric Bana convence como Heitor, causa empatia, o que não é pouco, e a Helena... bem, claro que ela é uma coisinha tão bonitinha do pai, mas uma beleza hollywoodiana comum, nada tão marcante) foi bastante inteligente.

    O filme também é muito menos violento do que o poema; este fornece descrições extremamente detalhadas da ação do ferro contra ossos e carnes. Se a versão para o cinema lhe fosse minimamente fiel neste aspecto, seriam poucos os que teriam estômago para vê-la. Não tive, como muitos têm (ou poderiam ter), a impressão de que se trata de uma grotesca glorificação da guerra ou de que existe uma agenda política por trás de tudo, mas de mais uma produção industrial que se apóia em clichês para alcançar o lucro certo. O capitalismo tem dessas coisas, o show tem de continuar; o tempo passa, o filme, também.

    O mesmo não ocorreu com o "Gladiador" de Ridley Scott. Quando eu ainda trabalhava na redação da Ilustrada, tive de editar um artigo do Marcelo Coelho sobre o filme; o título que escolhi (naquela época, era eu quem intitulava os textos dele) causou polêmica não só entre os leitores (teve carta publicada que clamava: "deixem Hollywood nos entreter!" _será que era ironia?), mas também em parte da equipe do caderno, porque condensava a surra implacável que o meu xará dava na produção. O mote era justamente essa história de que "Gladiador" glorificava o imperialismo americano etc. E olha que isso foi mais de um ano antes do 11 de setembro de 2001...

    Eu nem vejo muito por esse lado; tenho uma admiração imensa por essas superproduções, justamente pelo aspecto da (super)produção; é uma proeza de vulto dar forma a tais filmes. Trabalho e investimentos colossais. No caso de "Gladiador", todo o fausto e toda a competência formal estão evidentes; o que impressiona é que elas fazem parte de um filme muito, muito pequeno (o bom documentário histórico sobre gladiadores romanos que vem no DVD de extras _e faz interessantes analogias com a contemporaneidade_ vale mais do que a obra principal). A gloriosa exceção é a interpretação de Richard Harris como o imperador Marco Aurélio.

    Diferentemente de "Tróia", "Gladiador" investe na romantização da vida após a morte, com direito a trilha sonora apelativa de praxe. Coisa parecida ocorre em "Coração Valente" (no qual o herói também tem a amada assassinada), mas Mel Gibson a retrata de uma maneira muito mais talentosa. Fica também evidente a coerência do diretor (e a competência do produtor; a primeira grande cena de batalha, com direito a cavalos mecânicos e tudo, é, literalmente, de arrepiar); comparando a saga de William Wallace com "A Paixão de Cristo", não dá para ninguém dizer que Gibson não tem estilo (ou não capricha; o que não falta são planos belos e bem encadeados, aliados a caracterizações marcantes _até o Brian Cox aparece, antes de ser tão hypado na tela grande...). Até o fantasma da personagem da bela Catherine McCormack é retratada da mesma forma que o Satanás da Rosalinda Celentano...

    "Coração Valente" é um filme obviamente cristão (bem mais do que o seu sucessor _que, apesar dos problemas já discutidos aqui, nunca chega ao ponto de ser uma porcaria), e Gibson faz questão de deixar isto bem claro. O título do making of de seu filme, "A Paixão de um Cineasta", deixa ainda mais claro qual tema é a obsessão do ator/diretor. Vem mais por aí, a gente vai ver.

    P. S. Mais um trecho do livro do Merten, sobre dois grandes diretores que também fizeram suas superproduções históricas (lembrando que, quando faço essas citações aqui, não quer dizer que eu concorde com elas; é apenas mais material para discussão):

    "Jean-Luc Godard, nos seus tempos de crítico, escreveu que, se fosse possível fundir Nicholas Ray e Anthony Mann, o resultado seria o maior diretor de cinema do mundo. Ninguém sabia revelar um personagem no plano interior como Ray, ninguém era melhor no plano externo do que Mann. Ray escolheu para personagem central de seus filmes o homem ferido. Criou obras de um lirismo imenso, de grande riqueza sociológica: 'Juventude Transviada' é um de seus filmes definitivos. Mann destacou-se no cinema de ação, primeiro no thriller policial de inspiração noir, depois numa memorável série de westerns interpretada por James Stewart até criar, com 'El Cid', o mais grandioso dos épicos.

    Os westerns de Mann são o que de mais perfeito e puro o gênero produziu, escreveram Bertrand Tavernier e Jean-Pierre Coursodon. Pode ser que a 'pureza' de Mann não fosse a mesma dos westerns de John Ford ou de Budd Boetticher. Mann será quase sempre o psicanalista do western. Ray teve um final de carreira melancólico após o fracasso, de público e de crítica, de duas superproduções sucessivas, 'Rei dos Reis' e '55 Dias de Pequim'. É o cineasta dos atormentados. A paz de Jesus Cristo não é material para ele. Mann saiu-se melhor: 'El Cid' é sublime, e 'A Queda do Império Romano', que antecipa 'Gladiador', é, no seu desfecho extraordinário, o mais glauberiano dos filmes que Glauber Rocha não realizou. Mann fez o 'Terra em Transe' da Antigüidade clássica."

    P. P. S. Raul Seixas cantou que "lá em Nova York todo mundo é feliz. Vi o Marlon dançando o último tango de Paris". Agora, o povo quer saber: qual a melhor atuação do Brandão no cinema?

    Na platéia