A gruta é mais extensa do que a gruta

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    sábado, julho 24, 2004

    Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban / Shrek 2 / Homem-Aranha 2

    Eu sou a lâmpida, e as muié é as mariposa, que fica dando volta em volta de mim, toda noite, só pra me beijar.

    Não sou (e, pelo que me lembro, nunca fui) de torcer o nariz para os blockbusters hollywoodianos e suas seqüências. Detesto ambos os extremos: gente deslumbrada que fica falando de "arte" como se fosse algo transcendental, quase mágico (e não trabalho duro, duríssimo, sem glamour algum), enquanto segura o copo de uísque com o dedo mindinho ereto e deixa o olhar perdido no vazio, e gente insensível que acha que quem critica Hollywood são uns "chatos".

    Mas confesso que fui assistir à adaptação para as telas do terceiro volume da série do Harry Potter só porque estava muitíssimo bem acompanhado de um belo, gentil e querido exemplar do sexo feminino (e porque era o filme aparentemente "menos pior" dentre as opções disponíveis). Não li nem vou ler nenhum dos livros (até leria se tivesse 8 anos de idade...), assim como não vi o segundo filme da série _o primeiro, vi por pura curiosidade ou por falta de coisa melhor pra fazer ou por que também estava acompanhando uma beldade, já não me lembro mais. Ou seja, para deixar bem claro: acho o Harry Potter ótimo para as crianças (se ele é um agente do capitalismo ou um ativista antiglobalização, não só não sei e sequer chego a ter raiva de quem sabe como acho isso secundário, mera punheta de intelectual de meia tigela), mas acho muito, muito esquisito ele ser lido por gente com mais de 14 anos... Mas deve-se respeitar as diferenças, e vocês sabem que eu respeito.

    Voltando ao filme: não sei se o fato de Chris Columbus ter deixado a direção para Alfonso Cuarón (parece que até o Kenneth Branagh e o Spielby estiveram na briga para a vaga) fez grande diferença; apesar de este filme ser considerado mais "dark" que os outros (mas não é por que os livros também vão ficando mais pesados?), a impressão que tive foi de que pouca coisa mudou, além do envelhecimento evidente do protagonista e de seus dois amigos. Ah, e a personagem de Gary Oldman (cuja presença é uma das coisas que mais me deixou curioso em relação ao projeto) me decepcionou um pouco, ficou meio artificial por causa de uma transição um tanto brusca demais, que deixou o conjunto meio frouxo. Mas a brincadeira com os paradoxos temporais a la "Back to the Future" ficou interessante, assim como aquelas cenas em que Potter cavalga o grifo e a do ônibus. Enfim, talvez eu veja o próximo, se novamente eu estiver acompanhado de uma bela fã da série...

    Quanto a "Shrek 2", é mais um caso de curiosidade que vitima o gato. Gostei bastante do primeiro filme, divertido, e este é ainda melhor; mesmo assim, já não me entusiasma tanto a lucrativa franquia (a seqüência parece que já entrou no top 5 das bilheterias americanas, e a parte 3 já está engatilhada). Em parte porque o impacto do excelente trabalho da animação digital (melhorado nesta seqüência) diminuiu; também porque o melhor personagem da série, interpretado pelo melhor ator envolvido (Burro Falante/Eddie Murphy), foi muito mal aproveitado desta vez. De longe, a melhor cena do filme é logo no início, quando o Burro empata a lua-de-mel de Shrek e sua Fiona...

    Mas a qualidade do filme, não só na forma, mas também no conteúdo (até que o roteiro é esperto) fica evidente, por exemplo, na cena musical da Fada Madrinha, aqui transformada em gangster (boa sacada), e em algumas outras pequenas piadas, espalhadas aqui e ali. Impressionante mesmo é a trilha sonora, justamente o ponto fraco do primeiro filme; eu nunca imaginei que fosse ouvir Nick Cave e Tom Waits numa obra tão pop...

    Mas, em termos de comédia e de piadas eficientes, o filme do ogro verde perde feio para o da aranha azul e vermelha. O que há de mais impressionante no segundo longa do Sam Raimi sobre o cabeça de teia é que se trata de uma baita comédia! Depois de um bom filme, mas que pecava pela falta de personalidade, iniciando a série, o diretor finalmente resolve botar sua assinatura no projeto; e eis que temos uma cena num hospital que é puro "Evil Dead", além da hilária participação especial de Bruce Campbell como um porteiro de teatro.

    Também é impressionante vermos funcionar o discurso de Tia May (Rosemary Harris, agora com mais espaço, chega muito perto de roubar o filme) sobre heroísmo; felizmente, estamos longe do patriotismo babaca e maldoso de Bush e seus asseclas. Outro momento marcante vem logo após a cena do trem; juro que me deu vontade de chorar, algo raro no cinema e muito inesperado num filme como este. E, para arrematar, o fato de as cenas de ação serem, sabiamente, praticamente deixadas de lado; o que vemos, o tempo todo, é o drama de Peter Parker _a máscara do Aranha torna-se, cada vez mais, um acessório descartável.

    P. S. Aí vai o trecho final de "Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento" _que, lamentavelmente, ainda tem certa atualidade, após mais de três décadas. Mas voltaremos ao Paulo Emilio em breve...

    "Se, em determinado momento, o Cinema Novo ficou órfão de público, a recíproca teve conseqüências ainda mais aflitivas. O núcleo de espectadores recrutados na intelligentsia _particularmente em seus setores juvenis_ tendia, por um lado, a se ampliar socialmente e, por outro, a se interessar por outras faces do filme brasileiro, além da cinemanovista. A deterioração da conjuntura estimulante dos inícios de 1960 fez com que o público intelectual que corresponde hoje ao daquele tempo se encontre órfão de cinema brasileiro e voltado inteiramente para o estrangeiro, onde julga, às vezes, descobrir alimento para sua inconfidência cultural. Na realidade, ele encontra apenas uma compensação falaciosa, uma diversão que o impede de assumir a frustração, primeiro passo para ultrapassá-la. Rejeitando uma mediocridade, com a qual possui vínculos profundos, em favor de uma qualidade importada das metrópoles com as quais tem pouco o que ver, esse público exala uma passividade que é a própria negação da independência a que aspira. Dar as costas ao cinema brasileiro é uma forma de cansaço diante da problemática do ocupado e indica um dos caminhos de reinstalação na ótica do ocupante. A esterilidade do conforto intelectual e artístico que o filme estrangeiro pródigo faz da parcela de público que nos interessa uma aristocracia do nada, uma entidade em suma muito mais subdesenvolvida do que o cinema brasileiro que desertou. Não há nada a fazer a não ser constatar. Este setor de espectadores nunca encontrará em seu corpo músculos para sair da passividade, assim como o cinema brasileiro não possui força própria para escapar ao subdesenvolvimento. Ambos dependem da reanimação sem milagre da vida brasileira e se reencontrarão no processo cultural que daí nascerá."

    terça-feira, julho 13, 2004

    Cazuza - O Tempo Não Pára / Amadeus

    Ouça-me bem, querida: preste atenção, o mundo é um moinho. Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos, vai reduzir as ilusões a pó.

    Talvez seja mesmo uma característica dos povos cristãos essa mania de endeusar ídolos mortos precocemente. Na música, então, os exemplos são múltiplos: de Raul Seixas a John Lennon, de Jimi Hendrix a Elvis Presley, de Cazuza a Renato Russo. Este dois últimos, então, ganham força não apenas por terem morrido em conseqüência da Aids, a grande praga incurável que muitos já chamaram de "flagelo de Deus" e que vem apavorando o mundo há mais de 20 anos (o que contribui para que, até inconscientemente, muitos os encarem como mártires, de certa forma), mas principalmente por terem feito sucesso nos anos 80, década na qual a população jovem adulta da atualidade se criou e, compreensivelmente, tem grande parte de suas memórias afetivas enraizadas. Então, uma cinebiografia de qualquer um deles certamente encontraria respaldo razoável no público; fazer filmes sobre esses ídolos é uma esperteza comparável à de Mel Gibson e sua "Paixão de Cristo".

    Pois foram lá, a Globo e mais um pessoal, pegaram dinheiro dos nossos impostos e fizeram uma cinebiografia do Cazuza. OK, legal. Que ele merece, ninguém discute. Ainda mais eu, que sou fã (bem mais dele do que do Russo, por sinal; ora, a diferença de qualidade das letras de ambos é abissal, mas não é isso que vai se debater aqui). Só que, justamente por isso, eu acho que ele merecia coisa muito melhor do que este filme de Sandra Werneck e Walter Carvalho, de longe o pior que vi nos cinemas este ano. De longe.

    O filme acabava, e eu me perguntava, numa grande e lotada sala de cinema de São Paulo: "por que isto existe? Qual a razão desta coisa existir?". Eu não sei. Talvez consolar a Lucinha Araújo, que experimentou a dor inconcebível de ver seu único filho, um artista popular amado em seu país, agonizar e morrer ainda bem jovem (como Maria teria visto Jesus morrer na cruz _mas vamos parar com a comparação antes que algum maluco qualquer venha me xingar de tudo quanto é nome). O filme foi baseado num livro da Lucinha, "Só as Mães São Felizes", e a própria aparece no filme, não apenas (bem) encarnada por Marieta Severo, mas em pessoa, em vários closes durante aquele show que a Globo exibiu e que se tornou clássico. É a única explicação que consegui encontrar (tirando a óbvia, a de fazer a máquina capitalista girar).

    Uma das letras de Cazuza diz que "só não há perdão para o chato". Pois este filme é pior do que isso. Sequer nos cutuca. Não há pungência. Impera a caretice, formal e de conteúdo. O filme tem a intenção de relatar a verdade dos fatos, mas não passa verdade nenhuma; mesmo correspondendo aos fatos, os mesmos são retratados, em sua maioria, de forma grotescamente falsa, mas sem beleza, sem sonho, sem delírio. Antes fosse alegórico de vez ou então um documentário; mas fazer um filme que não faz falta alguma sobre um artista que faz muita falta é um pecado, quase um crime.

    "Cazuza - O Tempo Perdido" é um filme que não acrescenta nada a coisa nenhuma; mesmo a atuação de Daniel Oliveira (esforçadíssimo, não há como negar) dá com os burros n'água, embora melhore bastante no final. Mas não o suficiente para salvar esta obra da indigência. Daqui a pouco, ninguém mais vai lembrar que este filme existiu; aí, talvez façam um retrato decente sobre o ídolo e sua época, que, apesar de ter cultuada, nos anos 2000, grande parte do que produziu de pior, foi mais rica do que se supõe.

    Pois foi nos anos 80 que Milos Forman adaptou para o cinema a peça teatral "Amadeus". Um filme extremamente competente e bem-feito (ótima recriação de época e trilha sonora), mas nunca brilhante. Quem brilha, aqui, são os atores: F. Murray Abraham e Tom Hulce estão soberbos como Salieri e Mozart. Trechos da vida deste último são narrados pelo primeiro, que, a partir de um delírio de inspiração religiosa, teria vindo a causar a morte de Mozart. Um retrato da contraposição entre o medíocre bem-sucedido e o gênio miserável, um tema clichê (porque tão real quanto perene; a vida vem nos mostrando isso há milênios), aqui encarado com certo frescor.

    O Mozart de Hulce é um popstar: usa uma peruca meio "Ziggy Stardust", é rebelde, extravagante e petulante, se dá bem com as "groupies" e vive na boemia, torrando tudo o que ganha. No final das contas, de forma também meio cristã, seu fracasso representa seu triunfo. Salieri, o casto amante da arte, pergunta a si mesmo se o talento (divino?) de Mozart poderia ser percebido apenas com o contemplar de sua face; horrorizado, ele o reconhece num homem que considera vulgar, obsceno, ridículo. É uma idéia muito boa que, se não foi traduzida em imagens à altura, pelo menos não foi totalmente desperdiçada.

    P. S. Falando em rock'n'roll, vamos voltar a Paulo Emilio Salles Gomes e seu "Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento" (1973), num trecho em que ele fala do que de mais punk o nosso cinema produziu:

    "Desintegrado o Cinema Novo, os seus principais participantes, agora órfãos de público catalizador, se dispersaram em carreiras individuais norteadas pelo temperamento e gosto de cada um, dentro do condicionamento estreito que envolve todos. Nenhum deles, porém, se instalou na falta de esperança que cercou a agonia desse cinema. A linha do desespero foi retomada por uma corrente que se opôs frontalmente ao que tinha sido o cinemanovismo e que se autodeterminou, pelo menos em São Paulo, Cinema do Lixo. O novo surto situou-se na passagem dos anos sessenta para os setenta e durou aproximadamente três anos. A vintena de filmes produzidos se situou, com raras exceções, numa maior ou menor área de clandestinidade decorrende de uma opção fortalecida pelos obstáculos habituais do comércio e da censura. O Lixo não é claro como a Bela Época, a Chanchada ou o Cinema Novo, onde se formou a maior parte de seus quadros. Estes poderiam, em outras circunstâncias, ter prolongado e rejuvenescido a ação do Cinema Novo, cujo universo e tema retomam em parte, mas agora em termos de aviltamento, sarcasmo e uma crueldade que nas melhores obras se torna quase insuportável pela neutra indiferença da abordagem. Conglomerado heterogêneo de artistas nervosos da cidade e de artesãos do subúrbio, o Lixo propõe um anarquismo sem qualquer rigor ou cultura e tende a transformar a plebe em ralé, o ocupado em lixo. Esse submundo degradado percorrido por cortejos grotescos, condenado ao absurdo, mutilado pelo crime, pelo sexo e pelo trabalho escravo, sem esperança ou contaminado pela falácia, é porém animado e remido por uma inarticulada cólera. O Lixo teve tempo, antes de perfazer sua vocação suicida, de produzir um timbre humano único no cinema nacional. Isolada na clandestinidade, essa última corrente de rebeldia cinematográfica compõe de certa forma um gráfico do desespero juvenil no último qüinqüênio. Não foi porém somente através do Lixo que o nosso filme se vinculou de maneira aguda às preocupações brasileiras do período. O setor documental com intenções culturais e didáticas reassumiu, em nível de consciência e realização mais alto, a função reveladora que o gênero desempenhara anteriormente. Focalizando sobretudo as formas arcaicas da vida nordestina e constituindo de certa forma o prolongamento, agora sereno e paciente, do enfoque cinemanovista, esses filmes documentam a nobreza intrínseca do ocupado e da sua competência. Quando se voltou para o cangaço, esse cinema o evocou com uma profundidade de que a melhor ficção fora incapaz."

    sábado, julho 03, 2004

    Tróia / Gladiador / Coração Valente

    Help them to learn songs of joy instead of burn, baby, burn. Let us show them how to play the pipes of peace.

    Eu nunca consegui compreender a necessidade que certas pessoas têm de partir para a porrada, em vez de resolverem suas míseras diferenças por meio do diálogo. A última vez que me lembro de ter saído no braço com alguém foi quando eu tinha 8 ou 9 anos de idade. Eu era razoavelmente bom de briga (acho que é de família), inclusive era capaz de bater em moleques maiores do que eu com certa facilidade, mas nunca fui valentão; sempre tive verdadeiro horror a violência e só batia em último caso, para me defender. Desde muito cedo, aprendi que a melhor maneira de derrotar seus inimigos é torná-los seus amigos.

    Agora, vai fazer a mesma coisa no cinema; em vez de um blockbuster, sai um filme do Rohmer. A galera quer ver sangue, gafanhoto. É paradoxal: fora das telas (ou dos palcos, dos livros etc.), a violência é grotesca, feia, bruta, abominável; em certas obras, é como um balé, coreografada, edulcorada, empolgante. Vira arte. Some um grande orçamento, capaz de comprar belas locações, cenógrafos e figurinistas, compositores e técnicos, dublês (d)e astros de Hollywood e pronto: salta uma superprodução com ares de épico histórico.

    No caso de "Tróia" (visto no Cine Votuporanga, o pulgueiro mais importante do Brasil), filme que superou minhas expectativas, a inspiração vem da "Ilíada". A adaptação é extremamente livre (o poema homérico começa com a discussão entre Aquiles e Agamênon, nas praias de Tróia, após quase dez anos de batalha, e termina com os funerais de Heitor _ou seja, o filme começa bem antes e termina bem depois), o que é ótimo; por mais que o antipático Aquiles de Brad Pitt apresente (exageradamente _o que são aqueles pulinhos?) características sobre-humanas, a ausência dos deuses (e de muitos outros personagens _os que sobraram estão bem representados: digno de nota é o Príamo de Peter O'Toole, assim como o Páris de Orlando Bloom, de quem muitos reclamaram, mas que se ajustou bem ao papel; Eric Bana convence como Heitor, causa empatia, o que não é pouco, e a Helena... bem, claro que ela é uma coisinha tão bonitinha do pai, mas uma beleza hollywoodiana comum, nada tão marcante) foi bastante inteligente.

    O filme também é muito menos violento do que o poema; este fornece descrições extremamente detalhadas da ação do ferro contra ossos e carnes. Se a versão para o cinema lhe fosse minimamente fiel neste aspecto, seriam poucos os que teriam estômago para vê-la. Não tive, como muitos têm (ou poderiam ter), a impressão de que se trata de uma grotesca glorificação da guerra ou de que existe uma agenda política por trás de tudo, mas de mais uma produção industrial que se apóia em clichês para alcançar o lucro certo. O capitalismo tem dessas coisas, o show tem de continuar; o tempo passa, o filme, também.

    O mesmo não ocorreu com o "Gladiador" de Ridley Scott. Quando eu ainda trabalhava na redação da Ilustrada, tive de editar um artigo do Marcelo Coelho sobre o filme; o título que escolhi (naquela época, era eu quem intitulava os textos dele) causou polêmica não só entre os leitores (teve carta publicada que clamava: "deixem Hollywood nos entreter!" _será que era ironia?), mas também em parte da equipe do caderno, porque condensava a surra implacável que o meu xará dava na produção. O mote era justamente essa história de que "Gladiador" glorificava o imperialismo americano etc. E olha que isso foi mais de um ano antes do 11 de setembro de 2001...

    Eu nem vejo muito por esse lado; tenho uma admiração imensa por essas superproduções, justamente pelo aspecto da (super)produção; é uma proeza de vulto dar forma a tais filmes. Trabalho e investimentos colossais. No caso de "Gladiador", todo o fausto e toda a competência formal estão evidentes; o que impressiona é que elas fazem parte de um filme muito, muito pequeno (o bom documentário histórico sobre gladiadores romanos que vem no DVD de extras _e faz interessantes analogias com a contemporaneidade_ vale mais do que a obra principal). A gloriosa exceção é a interpretação de Richard Harris como o imperador Marco Aurélio.

    Diferentemente de "Tróia", "Gladiador" investe na romantização da vida após a morte, com direito a trilha sonora apelativa de praxe. Coisa parecida ocorre em "Coração Valente" (no qual o herói também tem a amada assassinada), mas Mel Gibson a retrata de uma maneira muito mais talentosa. Fica também evidente a coerência do diretor (e a competência do produtor; a primeira grande cena de batalha, com direito a cavalos mecânicos e tudo, é, literalmente, de arrepiar); comparando a saga de William Wallace com "A Paixão de Cristo", não dá para ninguém dizer que Gibson não tem estilo (ou não capricha; o que não falta são planos belos e bem encadeados, aliados a caracterizações marcantes _até o Brian Cox aparece, antes de ser tão hypado na tela grande...). Até o fantasma da personagem da bela Catherine McCormack é retratada da mesma forma que o Satanás da Rosalinda Celentano...

    "Coração Valente" é um filme obviamente cristão (bem mais do que o seu sucessor _que, apesar dos problemas já discutidos aqui, nunca chega ao ponto de ser uma porcaria), e Gibson faz questão de deixar isto bem claro. O título do making of de seu filme, "A Paixão de um Cineasta", deixa ainda mais claro qual tema é a obsessão do ator/diretor. Vem mais por aí, a gente vai ver.

    P. S. Mais um trecho do livro do Merten, sobre dois grandes diretores que também fizeram suas superproduções históricas (lembrando que, quando faço essas citações aqui, não quer dizer que eu concorde com elas; é apenas mais material para discussão):

    "Jean-Luc Godard, nos seus tempos de crítico, escreveu que, se fosse possível fundir Nicholas Ray e Anthony Mann, o resultado seria o maior diretor de cinema do mundo. Ninguém sabia revelar um personagem no plano interior como Ray, ninguém era melhor no plano externo do que Mann. Ray escolheu para personagem central de seus filmes o homem ferido. Criou obras de um lirismo imenso, de grande riqueza sociológica: 'Juventude Transviada' é um de seus filmes definitivos. Mann destacou-se no cinema de ação, primeiro no thriller policial de inspiração noir, depois numa memorável série de westerns interpretada por James Stewart até criar, com 'El Cid', o mais grandioso dos épicos.

    Os westerns de Mann são o que de mais perfeito e puro o gênero produziu, escreveram Bertrand Tavernier e Jean-Pierre Coursodon. Pode ser que a 'pureza' de Mann não fosse a mesma dos westerns de John Ford ou de Budd Boetticher. Mann será quase sempre o psicanalista do western. Ray teve um final de carreira melancólico após o fracasso, de público e de crítica, de duas superproduções sucessivas, 'Rei dos Reis' e '55 Dias de Pequim'. É o cineasta dos atormentados. A paz de Jesus Cristo não é material para ele. Mann saiu-se melhor: 'El Cid' é sublime, e 'A Queda do Império Romano', que antecipa 'Gladiador', é, no seu desfecho extraordinário, o mais glauberiano dos filmes que Glauber Rocha não realizou. Mann fez o 'Terra em Transe' da Antigüidade clássica."

    P. P. S. Raul Seixas cantou que "lá em Nova York todo mundo é feliz. Vi o Marlon dançando o último tango de Paris". Agora, o povo quer saber: qual a melhor atuação do Brandão no cinema?

    sexta-feira, junho 18, 2004

    Pulp Fiction - Tempo de Violência / Scarface / Platoon / Matador

    Rush, rush to the yeyo. Buzz, buzz to the yeyo. Loco!

    Mais de um mês sem publicar textos novos no site, um recorde nesses mais de dois anos de existência. E o mais impressionante é que o ritmo de visitas não caiu... Claro que a parte principal deste logradouro, o espaço para comentários, não parou; sinal de que existe gente que saca que o propósito deste site não é exibir textos, mas discutir, debater, trocar idéias _se possível amigavelmente, embora sem frescura. Então vamos tentar voltar à velha forma, até que novos compromissos surjam...

    O que dizer de "Pulp Fiction", dez anos depois? É um filme ainda impressionante, embora isso não seja, necessariamente, um elogio. Depois de tê-lo visto umas cinco vezes (trata-se de um dos filmes que mais revi), duas delas no cinema (sessões seguidas, no Shopping Metrópole de São Bernardo do Campo, em companhia do meu amigo Maurito Ramírez, el chileno de la tampita, no feriado de 1º de maio de 1994 _ou será que foi 1995?), sempre com entusiasmo de fã, foi uma experiência interessantíssima revê-lo com olhos de analista. É como se, pela primeira vez, eu assistisse a ele prestando atenção...

    O resultado: trata-se de um filme de baixo orçamento (apesar de contar com Bruce Willis, à época um poderoso chamariz de bilheteria), com uma narrativa bastante interessante, bons diálogos (nem um pouco naturalistas _muita gente tem uma impressão errônea sobre os diálogos de Tarantino, ainda um sub-Leone em mais de um aspecto) e momentos incrivelmente divertidos. O ponto alto do filme, para mim, é a cena do twist: irônica, histórica, imbatível, mescla Vincent Vega a Tony Manero e a Danny Zuko em questão de segundos. Aliás, John Travolta e Uma Thurman voltam a contracenar em "Be Cool", seqüência de "Get Shorty", que, além de Danny De Vito e James Gandolfini, trará também Harvey Keitel, The Rock, Steven Tyler (interpretando... o vocalista do Aerosmith) e Andre 3000 (sim, aquele do "Hey Ya!"). Será que vai ser tão bom quanto o do Sonnenfeld?

    E, apesar de o filme ter diminuído na revisão (não há dúvida de que se trata de um dos longas mais importantes do cinema norte-americano dos anos 90, mas nem por isso trata-se de uma obra-prima _sequer é o melhor Tarantino, como muitos, ainda cegos pela faísca do revólver, insistem em propalar), é uma delícia descobrir novos detalhes: por exemplo, eu nunca tinha me tocado de que o garçom Buddy Holly, do Jack Rabbit Slim's, é o Steve Buscemi! Não só ele está irreconhecível, como não aparece em planos fechados, mas lá está ele, Mr. Pink em pessoa (por sinal, um roteirista britânico quer fazer um filme sobre o Mr. Pink de "Cães de Aluguel", mas parece que o Taranta não se animou muito). Mas a coisa mais deliciosa de todas foi reparar que, no travelling que nos apresenta ao Slim's, a câmera pára num cartaz do fantástico "Machine Gun Kelly", filmaço do Roger Corman estrelado por Charles Bronson (outro ídolo do Taranta). Legal, legal!

    Falando em filmaço, "Scarface, a Vergonha de uma Nação" (1932), dirigido pelo grande Howard Hawks, com roteiro do também grande Ben Hecht e com uma atuação antológica do austríaco Paul Muni, ganhou um remake nos anos 80 que agora chega ao DVD em uma edição caprichada. Quem iria dirigir o filme era Sidney Lumet, que desistiu do projeto por considerar o roteiro de Oliver Stone violento demais. Stone ainda não tinha cacife para dirigir uma produção como essa, então quem tocou o barco foi Brian De Palma (que, na cena final, teve direito até a palpites de Steven Spielberg). Ou seja, fica bastante evidente que se trata de um trabalho de equipe, e não de um projeto mais pessoal de De Palma; não é à toa que está longe de ser um de seus melhores filmes _em retrospecto, parece mais um ensaio para "Os Intocáveis" e "O Pagamento Final", ambos bem melhores.

    Mas seu "Scarface" também está longe de ser desprezível. Graças, acima de tudo, a Al Pacino. Seu Tony Montana, "a political prisioner from Cuba", é um personagem interessantíssimo: ladrão, assassino, traficante, machista, estúpido, junkie e mais um monte de coisas ruins, ainda assim emerge como o herói do filme, apesar de não ser tratado com tanto glamour. Montana (que ganha uma série de falas antológicas; minha preferida é "this city is a great big pussy ready to be fucked, man", qual é a sua?), por mais criminoso que seja, por vezes é mostrado com um mínimo de escrúpulos, nunca passando uma imagem 100% monstruosa. Não entro muito em detalhes para não estragar a experiência de quem ainda não viu.

    Depois de Pacino, a grande figura do filme parece mesmo ser Oliver Stone. Seu roteiro é bastante oportuno, ao situar a história de um bando de gângsteres na Miami do início dos anos 80, quando mais de 100 mil refugiados cubanos (drama relembrado no recente documentário "Balseros") desembarcaram nos EUA _uma boa parte deles era de presidiários, ou seja, Fidel (que de bobo não tem nada), num maquiavélico golpe de mestre, aproveitou para esvaziar as cadeias de sua ilha... Além de jogar luz sobre o tráfico de cocaína proveniente da América Latina, o filme não se priva de escancarar uma série de podres do capitalismo americano, de bancos que lavam dinheiro a jornalistas que se põem contra a descriminalização das drogas, passando por políticos, militares, policiais etc. Montana, o criminoso grosseiro, é mostrado como "fichinha" perto dessa corja toda. Ou seja, dá a impressão de ser o filme mais moral de De Palma.

    Este, destaca-se mais pela estética dada ao filme, que de noir não tem nada; o exuberante visual "Miami Vice" surge aqui (por sinal, quem já jogou o ótimo "Grand Theft Auto - Vice City" vai sacar de cara de onde veio a inspiração), embalado pelo contagiante (apesar de brega) tecnopop de Giorgio Moroder (com convidados do naipe de Deborah Harry). Só que a narrativa é estranha, truncada, incômoda. O filme é longo demais (2h50min) e, apesar de o diretor ter conseguido, com muito custo, lançar nos cinemas sua versão integral, a saga de Montana ainda nos parece cheia de buracos. Mas que é um filme interessantíssimo, isso é (e o pequeno documentário que mostra Montana como o ídolo dos "gangsta rappers" norte-americanos chega a ser assustador). Say hello to my lil' friend!

    Falando em Stone, seu projeto mais bem-sucedido como diretor, "Platoon", saiu pouco depois, em 1986. Eu era criança, na época, mas me lembro bem do impacto que o oscarizado filme causou; o relato praticamente autobiográfico de Stoned sobre sua experiência no Vietnã, talvez por ser mais palatável que o épico de Coppola, paradoxalmente causou mais comoção. É que o filme não se priva de ser estritamente "hollywoodiano", indo baixo ao tentar emocionar as pessoas com uso de uma trilha sonora apelativa, câmera lenta, voz over e um final pra lá de babaca. Politicamente correto até o osso, o filme é salvo pelos atores, em especial Tom Berenger e Willem Dafoe, ambos dignos de lembrança. De resto, sobra pouco _o que é uma pena; confesso que tenho a maior simpatia do mundo por Stoned e suas boas intenções... Só falta ele dirigir um filme realmente grande.

    Do outro lado da moeda, temos este "Matador", também de 1986 e, fácil, fácil, um dos melhores filmes de Pedro Almodóvar, apesar de o enredo se encaminhar para um final óbvio, mas nem por isso menos bonito. Sem medo de ser simbólico, conjuga Eros e Tânatos (a frase-chave é: "deixar de matar seria como deixar de viver") durante um eclipse e por meio de metáforas visuais que associam a tauromaquia às relações sexuais, homens e bestas. O machismo espanhol, mais uma vez, é desnudado, enquanto o próprio Almodóvar, impagável no papel de um estilista, abusa do discurso político com a maior desfaçatez, dizendo que a Espanha está dividida entre invejosos e intolerantes, para depois afirmar que pertence simultaneamente aos dois lados. O cara pode ser um mala, mas é foda e faz filmes mais "pra macho" do que o Stallone e o Schwarza juntos. E como filma bem uma mulher, o puto: Assumpta Serna (por onde anda?) está belíssima! "To die for", como dizem lá no país das "freedom fries"...

    P. S. Vi, há pouco, "Coisas Belas e Sujas", do irregular Stephen Frears. Infelizmente, não está entre seus melhores trabalhos. O início é bem interessante, os atores estão bons, mas a fotografia é incômoda demais e o desfecho é digno de dramalhão mexicano. Pena...

    P. P. S. Trecho de "Cinema - Entre a Realidade e o Artifício", de Luiz Carlos Merten, mais conhecido como um dos críticos de cinema de "O Estado de São Paulo":

    "Só há duas maneiras de tratar o clichê no cinema, escreveu um crítico: ironizando-o ou filmando-o melhor do que qualquer outro. Tarantino parecia ironizar, mas na verdade o que exibia era competência. Seu cinema refletia uma tendência que já havia se manisfestado nos anos 70, na grande fase de Robert Altman e Sidney Pollack: a persistência de obras e autores das primeiras décadas do século passado não era exatamente novidade.

    A novidade estava no estilo: na força dos diálogos, da história, na estrutura circular, no perfil de seus personagens. 'Tempo de Violência' virou cult imediatamente. (...) Tarantino ainda revelaria sinais de talento em 'Jackie Brown', que adaptou de um de seus autores preferidos, Elmore Leonard, com a musa dos blaxpoitation movies dos anos 70, Pam Grier, no papel da aeromoça que se envolve com o crime. Pam é uma heroína mais humana do que os assassinos de 'Cães de Aluguel' e 'Tempo de Violência', e a ironia do filme também é mais sutil. O humor está nos personagens de Pam e Robert Forster, outro egresso do limbo dos anos 70, com muitas passagens pela TV. Em 'Tempo de Violência', o humor está todo nos diálogos, muito bem escritos ou escritos adequadamente, porque Tarantino, que fez parcos estudos, sabia como usar o verbo para expressar a boçalidade."

    segunda-feira, maio 17, 2004

    Barravento / A Terra Treme / Diários de Motocicleta / 25 / Di

    You let me love you till I was a failure... Your beauty on my bruise like iodine.

    Estou gripado, entupido de coisas para fazer. Nem acredito que arranjei tempo para escrever este texto... Bom, vamos lá, sem mais delongas, porque não sou homem de ficar jogando conversa fora, acredito que a concisão é uma virtude e não me agrada nem um pouquinho de nada ficar desperdiçando o tempo das outras pessoas, é por isso que prefiro ir direto ao assunto, em vez de me limitar a encher este espaço maravilhoso e democrático de letrinhas inúteis, concordam comigo? Então, tá.

    Quando eu era um jovem mancebo de 12 anos, a TV Cultura de São Paulo (na época em sua melhor fase, presidida pelo Roberto Muylaert, pai da diretora de "Durval Discos") promoveu um ciclo com filmes de Glauber Rocha. Os mesmos de sempre: "Deus e o Diabo na Terra do Sol", "Terra em Transe", "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro" e "Barravento". Leitor compulsivo (como era muito jovem, ainda não havia sido subjugado pela paixão pelas mulheres _ou seja, tinha muito mais tempo para outras atividades), obviamente já tinha bastante informação sobre Glauber, mas nunca tinha visto um filme do feladaputa. Pois vi os quatro e caí de quatro. Bom bragarái.

    Agora, em 2004, o Canal Brasil também inventa de fazer um ciclo Glauber Rocha e passa os mesmos quatro filmes (nada de "Câncer", "Cabezas Cortadas", "Claro", "Der Leone Have Sept Cabeças" etc.), mais "A Idade da Terra", que não consegui terminar de ver. Aproveitei para rever os dois que tinha gostado menos, "O Dragão..." e "Barravento". Muito mais crítico e menos deslumbrado do que quando tinha 12 anos, me surpreendi ao gostar ainda mais dos filmes, em especial da continuação da saga de Antônio das Mortes.

    Mas "Barravento" (1962) me chamou a atenção por que havia revisto, há pouco, os restos de "It's All True", do nosso amigo Orsie. Como o filme nunca foi finalizado, e as latas ficaram "perdidas" até a metade da década de 80, é lógico que Glauber (1938-1981) não viu o maravilhoso trabalho de Welles _fã de Griffith e de Flaherty que, talvez inconscientemente, se aproximou imensamente de uma maneira de fazer filmes que seria consagrada na Itália sob o rótulo de neo-realismo.

    Ora, muita gente considera o Cinema Novo brasileiro muito mais próximo do neo-realismo italiano do que da Nouvelle Vague francesa, por exemplo (não deixe de ler o P. S., trataremos disso por lá), e é impossível não enxergar uma relação entre "Barravento", o primeiro longa de Glauber, e "La Terra Trema: Episodio del Mare", primeira parte de uma trilogia que Lucchino Visconti (1906-1976) nunca terminou. Ambos (assim como o episódio de Welles filmado em Fortaleza) nos mostram o cotidiano de vilas de pescadores, explorados e humilhados pelas companhias que fornecem os equipamentos, ficam com a maior parte da produção e pagam uma miséria aos trabalhadores, que arriscam a vida no mar todos os dias. O tom dos discursos das personagens principais de ambas as obras (no de Glauber, temos Antônio Pitanga que, na época, ainda assinava Antônio Sampaio; no do "conde vermelho", todo o elenco é simplesmente creditado como "pescadores sicilianos") é claramente marxista.

    A diferença que mais me chamou a atenção entre esses dois filmes é que o de Visconti (com um belo e justificado uso da narração com voz over) se limita a mostrar, quase melodramaticamente, a dura e triste vida de uma família de pescadores que tenta se desvencilhar da exploração capitalista. O de Glauber concentra-se em atacar a religião, denunciando que o misticismo é usado para controlar o povo, que, por atribuir tudo ao destino divino, torna-se submisso. "Preto e pobre precisa largar a religião e partir pra luta", deixa bem claro Firmino, a personagem de Pitanga. Visconti, curiosamente, ignora completamente a religiosidade em seu filme. Ambos são ótimos, ambos devem ser vistos.

    Não me lembro de Walter Salles ter se pronunciado sobre o neo-realismo ou o Cinema Novo em alguma entrevista ou texto (o Fernando Meirelles, pelo que ouvi dizer, não gosta muito deles), mas é célebre o engajamento do homem com o gênero documentário. Em seu recente "Diários de Motocicleta", Salles se inspirou nos trabalhos de um fotógrafo peruano (não consigo me lembrar de seu nome e não consegui encontrá-lo no Gúgou), deixando isto bem claro ao inserir várias imagens em preto-e-branco em seu longa, tentando reproduzir tais trabalhos. Nos créditos finais, desta vez por meio de fotografias e da aparição do homem que inspira o companheiro do protagonista, também faz questão de mostrar que a história que narrou é uma reconstituição de fatos, registrados em dois livros de memórias.

    Assisti a este filme (após entrar na sala errada e ver o final de "Scooby-Doo 2"... _só havia um garoto na sala, uma sessão particular em pleno shopping Higienópolis!!!) acompanhado de meu amigo Julito, filho de argentino, que não só é fã do Salles como conhece boa parte das regiões mostradas no filme. Como se isto não bastasse, seu avô foi mineiro em Potosí _e o encontro do jovem Guevara com os mineiros marxistas o emocionou bastante. Mas eu, confesso (mas sem aquela culpa cristã), não cheguei nem perto de me emocionar tanto com o filme, embora algumas passagens sejam realmente impactantes, como a comparação entre a Machu Picchu dos incas e a Lima dos "incapazes"...

    Também confesso que não achei o melhor filme do Salles, ao contrário do que muita gente anda dizendo por aí. Tanto "Central do Brasil" como "Abril Despedaçado" (este último pede por uma revisão) me parecem melhores, mais bem-construídos e poderosos _não vi "O Primeiro Dia", e "Terra Estrangeira", que muita gente defende, me obrigou a abandoná-lo no meio, estava insuportável, horrível mesmo). Mas os atores estão muito bem (em especial De La Serna), algumas canções da trilha são deliciosas e, mais do que tudo, o filme tem sua razão de existir pelos problemas que relata. Não se trata necessariamente de uma defesa de Che (pelo menos, espero que não), considerado um herói quase santo por uns, um facínora diabólico por outros; uma das coisas que mais me agradou, no filme, foi justamente ele ter sido encarado como um ser humano normal, repleto de fraquezas, embora irredutível em sua honestidade. E aquela cena no Amazonas, o que vocês acharam? É piegas ou não?

    Aconteceu que, um dia após eu ter visto o longa do Salles (que ficou pequeeeno, em comparação), finalmente consegui assistir a um filme que há muito tempo eu queria ver: "25" (1977), documentário ético, poético e revolucionário em mais de um sentido, dirigido por Celso Luccas (que estava presente na sessão) e por José Celso Martinez Corrêa _mais conhecido por seu brilhante trabalho no Teatro Oficina, atualmente administrado pela minha também brilhante amiga Paulitcha, a mãe do Tomás e do Léo (trata-se do segundo filme da dupla, que, anteriormente, havia feito "O Parto", documentário sobre a Revolução dos Cravos, marco final do regime salazarista _aliás, amigos portugueses que porventura passarem os olhos por aqui podem nos informar melhor a respeito).

    O número do título é a data da independência de Moçambique, país que virou música de Bob Dylan e que se separou de Portugal em junho de 1975, após dez anos de guerrilha. A primeira parte do filme é simplesmente genial, ao apostar num cinema mais poético do que narrativo (ao contrário de muita gente metida a entendedor de cinema por aí _uma corja de chatos, ignorantes e arrogantes, para usar expressões eufemísticas e gentis_, não acho que um seja necessariamente melhor do que outro) para narrar a história recente dos dois países, fazendo uma sutil ponte com a história do nosso Brasil, também ex-colônia portuguesa, que também ansiava, novamente, por liberdade. Minha amiga Lili (a embaixadora do hip hop cubano), a quem reencontrei por lá, só começou a curtir o filme em seus dois terços finais, quando a narrativa se torna contínua e, usando de farto material de arquivo aliado à captação das imagens quentes da época, documenta o evento. Um filme indispensável, que deveria ter maior circulação, ser passado nas escolas etc. Saí do cinema gostando ainda mais do Zé Celso... Ah, e antes de "25", pudemos assistir a "Aruanda", do Linduarte Noronha _um dos documentários-chave ligados ao Cinema Novo, é um filme que lembra muito "Nanook..."... Perceberam como tudo está interligadíssimo?

    Outro filme que finalmente pode ser visto pelos brasileiros é o célebre "Di Cavalcanti Di Glauber" (ou simplesmente "Di", como foi apelidado), a fantástica homenagem de Glauber Rocha a seu amigo Emiliano Di Cavalcanti, grande pintor. E o impressionante do filme é justamente o texto, narrado por Glauber; quem diria, a coisa mais importante em um filme sobre um pintor é o som! Claro que há imagens interessantes, a começar pelo cadáver de Di no caixão (tão terrível quanto necessário, vemos a morte cara a cara) e pela aparição de Antônio Pitanga (de novo, ele) em frente a algumas obras do pintor. No enterro, além do próprio Glauber acompanhando o caixão, vemos também o impagável (tenho birra com esta palavra, mas aqui me sinto obrigado a empregá-la) Joel Barcellos, o homem da cagadinha de chocolate! Uau! Este deve ser um dos poucos filmes que devem ser pirateados por uma questão de princípios.

    P. S. Mais um trecho de "Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento", de Paulo Emilio Salles Gomes, que complementa bem este meu texto improvisado e mal-pensado:

    "A voga do neo-realismo, logo após o término da guerra, teve conseqüências extremamente frutuosas para nós. Aconteceu que o difuso sentimento socialista que se alastrou a partir do fim dos anos 1940 envolveu muita gente de cinema e particularmente as personalidades mais criativas surgidas após o malogro do surto industrial de São Paulo. O próprio comunismo político, ortodoxo e estreito, acabou tendo uma função cultural na medida em que, por um lado, procurava, mesmo desajeitadamente, compreender a vivência dos ocupados, e, por outro, encorajava a leitura de grandes escritores membros ou simpatizantes do partido, Jorge Amado, Graciliano Ramos ou Monteiro Lobato. Esse clima intelectual e mais a prática do método neo-realista conduziriam à realização de alguns filmes do Rio e de São Paulo que glosavam artisticamente a vida popular urbana. O antigo herói desocupado da chanchada foi suplantado pelo trabalhador, mas nos espetáculos cinematográficos que essas fitas proporcionavam, os ocupados estavam muito mais presentes na tela do que na sala. Em matéria de construção dramática consistente e eficaz, essas obras deixaram longe não só a tenaz chanchada carioca, mas também os produtos mais ou menos diretos da efêmera industrialização paulista. No terreno das idéias, a contribuição que trouxeram foi ainda maior. Sem ser propriamente políticas ou didáticas, essas fitas exprimiam uma consciência social corrente na literatura pós-modernista, mas inédita em nosso cinema. Além de um vasto elenco de méritos intrínsecos, esses poucos filmes realizados por dois ou três diretores constituíram o tronco poderoso do qual se esgalhou o Cinema Novo."

    P. P. S. Em homenagem ao nosso mui querido e respeitado presidente da República (que, apesar de bêbado, não é nem um pouquinho truculento ou idiota), trecho de "Um Cinema Chamado Desejo", de Andrzej Wajda, um dos maiores cineastas da terra de Polanski, Kieslowski e Wojtila:

    "Se o diretor é um homem sensível _e se não fosse, como poderia comunicar suas 'sensações' aos outros?_, deve, dominado pelo mecanismo da produção, buscar meios de se descontrair. Em certos países, entre os quais a Polônia, o meio mais difundido é a vodca. Tem-se visto, em outros lugares, até mesmo diretores que 'criam' estimulados pelo álcool. À primeira vista, isso se apresenta de um modo mais simpático. A euforia do cineasta é contagiosa. Ri-se muito durante a filmagem. Lamentavelmente, as cenas realizadas nessa atmosfera quase não comunicam seu bom humor aos espectadores. A razão disso é bem simples.

    Vi diretores embriagados, mais raramente cinegrafistas. Encontrei até mesmo uma equipe bêbada como poloneses _mas jamais me foi dado topar com uma câmera embriagada. A objetividade da objetiva é, infelizmente, inscrita na língua. Se você pretende forçar a câmera a um olhar subjetivo, precisará concentrar sua inteligência mais objetiva para lhe impor a vontade. Somente um diretor sóbrio é capaz disso. A platéia do cinema é sóbria também. Um filme embriagado só pode ser apresentado a convidados, dando-lhes antes o que beber. Mas isso não é de nossa profissão. Deixemo-lo aos amadores, que filmam uma festa familiar em seu jardim."

    P. P. P. S. "O Iluminado". Em 30 segundos. Com coelhinhos. Aqui.

    domingo, maio 02, 2004

    Kill Bill - Vol. 1 / Era uma Vez no Oeste

    Bang, bang, he shot me down. Bang, bang, I hit the ground. Bang, bang, that awful sound. Bang, bang, my baby shot me down.

    Antes de mais nada, acho terrível essa história de lançar só meio filme. Dizem que, originalmente, “Kill Bill” teria cerca de 3h30 de duração. Ora, é mais curto do que “Era uma Vez na América” e “...E o Vento Levou” e praticamente da mesma duração de “Apocalypse Now Redux” e “Ben-Hur”. Então que #!&*%$ é essa de dividir em dois? Ainda bem que não sou mulher, senão estaria com mais raiva ainda...

    Tudo bem que o final de KB1 é tão impactante que até parece fim de penúltimo capítulo de novela da Janete Clair. Sim, quem diria, KB1, no fundo, não passa de um novelão, assim como “Cães de Aluguel” _embora, se eu me lembro bem, um tom mais sentimental, porém menos “dramático”, era o que predominava em “Jackie Brown" (taí um filme que preciso rever). A diferença é que “Kill Bill – Vol. 1” é mais “pra macho”.

    Pois, então. O Taranta é um cara muito inteligente. Espertalhão, mesmo. Ele faz filmes legais. Divertidos, mesmo. A gente sabe que vai sorrir quando vê um filme dele. E sorri, mesmo. Eu sorri várias vezes durante a primeira parte de “Kill Bill”. Cheguei a dar gargalhadas. Em dois momentos bem específicos, os mais engraçados do filme: o primeiro é a Daryl Hannah de enfermeira-pirata (aquele tapa-olho é de matar). O segundo, a piada mais genial do filme, é quando a noiva (cujo nome é dito por Bill na primeira cena do novelão _mas Tarantino é esperto e deixa tudo ambíguo) desperta do coma, olha para a linha da vida de sua mão esquerda e grita, desesperada/furiosa: “Four years!”. Esse é o tipo de sacada brilhante que vai ser lembrada no documentário de comemoração dos 30 anos de “Kill Bill”...

    O Taranta, antes de tudo, é um humorista _e ele é o primeiro a admitir. “Pulp Fiction”, o primeiro dele que vi (e o que mais se aproxima do primeiro volume de “Kill Bill”), também me fez gargalhar em dois momentos chave: um é quando Bruce Willis pega a espada de samurai (ãh? Espada? Samurai?); o outro (este me fez chorar e me doeu os músculos abdominais, de tanto rir) é quando Vincent Vega atira na cabeça de seu informante, sentado no banco de trás do carro, sem querer, fazendo aquela meleca.

    Agora, prestemos atenção em uma coisa: um tiro na cabeça é uma coisa grotesca. É talvez a maneira mais estúpida de se matar alguém. E olha que matar alguém não é bolinho, não, como bem disse o nosso amigo William Munny from Missouri, que manja muito dessas paradas. Mas o Taranta consegue fazer a gente gargalhar histericamente quando alguém leva um tiro na cabeça. É uma proeza. Diante disso, fica evidente que é preciso prestar atenção nesse garoto.

    Então, dez anos depois, ele volta com um filme muitíssimo mais trabalhado, em termos técnicos. Há um apuro infinitamente maior na cenografia, nos figurinos, na fotografia etc. Os enquadramentos são extasiantes, a trilha sonora impressiona muita gente (o que me impressionou, para falar a verdade, foram as 5, 6, 7, 8s _e eu nem sabia que eu tinha uma quedinha por japonesas roqueiras que tocam descalças...) e tudo colabora para que a gente nem preste muita atenção no enredo da tragicomédia shakespeareana/bruceleetica do quarto filme de Quentin Tarantino.

    É que Tarantino não precisa ser abertamente metido a intelectual. Ele é mais esperto do que isso. Sabe que é melhor não ter vergonha de misturar “O Poderoso Chefão”, “Alien – O Oitavo Passageiro” e “Monty Python em Busca do Cálice Sagrado” em uma mesma cena. Também sabe que bom gosto é uma coisa que não funciona tão bem no cinema. O século XXI clama por vulgaridade. E o Taranta (já falei que ele é esperto?) finge dar ao povo o que ele quer, mas joga pérolas aos porcos (sim, adoro esta imagem).

    Não, o cinema de Tarantino não é violento. “Pulp Fiction” não merece ser chamado de “Tempo de Violência”. O público de Tarantino não suportaria violência. O público de Tarantino é o mesmo de “Comichão e Coçadinha” _vocês sabem que não sou chegado em frases de efeito, mas vou abrir uma rara exceção e mandar uma, apesar de achar que bem pouca gente vai entender: o público dos filmes de Quentin Tarantino se divide em Barts e Lisas. Quem gosta de violência é quem gosta de “Elefante”. Taranta, esse cara tão esperto, abre seu “Kill Bill” com uma cena violenta. Assusta, mas depois o espectador só ganha lambida e cócega (a não ser durante o anime que conta a origem de O-Ren Ishii _talvez a personagem da vida de Lucy Liu_, que quebra impiedosamente a estética e o ritmo do filme), como aquele lindo jardim de inverno que me lembra “Cidadão Kane” e a melhor frase de todo o filme, dita pelo dono do impagável Pussy Wagon: “My name is Buck and I’m here to fuck”. Vai demorar muito pra alguém fazer uma camiseta?

    Mas, apesar de eu já ter escrito um texto considerável até aqui, acho bem difícil dizer qualquer coisa sobre meio filme. Se “Kill Bill” fosse só o volume 1, seria fácil o pior filme de Tarantino. Como não é, é preciso aguardar para fazer qualquer afirmação mais categórica. Então que venha o volume 2, quando a noiva “will be back for the final cut”.

    Vamos passar para um nível superior e olharmos para Sergio Leone, provavelmente um dos heróis do Taranta. “Once Upon a time in the West” (1968) também se configura como o máximo de apuro técnico/estético de um cineasta. Um orçamento maior, que permitiu a Leone brincar no Monument Valley, o playground de John Ford, fez a diferença. E que diferença: é o melhor western de Leone, bastante superior a “Três Homens em Conflito”, por exemplo. Dá até vontade de dizer besteiras como “trata-se de um metawestern” ou “é uma ópera da morte” ou qualquer outra redundância do tipo.

    É uma história de vingança, e aqui nem precisamos de um antigo provérbio klingon para deixar isto bem claro. Até porque demora um tempão (o filme tem 2h45 de duração, que passam voando, apesar da deliciosa lentidão da narrativa) para ficarmos sabendo quem está se vingando de quem e por quê.

    O homem sem nome da vez é Charles Bronson (a quem, por sinal, “Kill Bill – Vol. 1” é sabiamente dedicado), que perspassa todo o filme de modo sobrenatural. Seu nêmesis é, quem diria, Henry Fonda _normalmente o símbolo da integridade, Fonda interpreta um vilão tremendamente maligno e covarde, mas que, diante de um inimigo letal, demonstra respeito e honra dignos de samurai). O pivô da história é Claudia Cardinale _uma das atrizes preferidas de Lucchino Visconti, aqui no auge da beleza (aliás, porque essas belas italianas, quando envelhecem, ficam todas com cara de Sophia Loren?). Completa o time de protagonistas um bandido romântico com nome de índio, interpretado por Jason Robards (o pai de Tom Cruise em “Magnolia” _curiosidade: tanto ele quanto Fonda lutaram na Segunda Guerra Mundial, na Marinha, e voltaram condecorados). Um elenco incomum em um filme ímpar.

    O domínio que Leone tem do tempo é assombroso. A beleza dos planos (abertos ou fechados), idem. A trilha sonora de Morricone, um tema para cada um dos quatro protagonistas, é inesquecível. E os diálogos, sem nenhum pingo de verossimilhança, soam como falas de bardo: seja Bronson dizendo “dentro dos casacos havia três homens. Dentro dos homens, três balas” ou Robards aconselhando Cardinale a ir “lá fora, servir uma bebida aos homens que trabalham na ferrovia. E, se algum deles passar a mão na sua bunda, faça de conta que não foi nada; eles merecem”. Logo no espetacular início do filme (Leone sempre foi genial ao iniciar um filme), somos brindados com um diálogo absurdamente suculento: Bronson chega para o que deveria ser um encontro com um homem e se depara com três capangas armados; ao indagar sobre o cavalo que deveria levá-lo para o tal encontro, um dos homens (que, na versão original do roteiro, deveriam ser interpretados por Clint Eastwood, Lee Van Cliff e Eli Wallach, ou seja, “the good, the bad and the ugly” _pena que não rolou) responde, ironicamente: “Parece que estamos com um cavalo a menos"; Bronson, impassível como um fantasma, retruca: “Parece que vocês estão com dois cavalos a mais”. Rú!

    Fora toda a beleza e toda a diversão, tem gente que ainda vê no filme implicações políticas, embora não tão claras como em filmes de Sergio Corbucci ou Damiano Damiani. Mas a gente gosta de ver críticas ao capitalismo em tudo quanto é lugar (menos nos filmes do Taranta, né?), então deixa o menino brincar!

    P. S. O Tarantino até pode ser foda. O Leone é obviamente foda. Mas quem também é foda, já falei e vou repetir, é o Roger Corman. Quando ele filma com o Charles Bronson (que está longe de ser o mero brucutu retratado nos filmes dos anos 80 em diante), então, sai de baixo. “Machine-Gun Kelly” (1958) é um policial invulgar e interessantíssimo, mas não posso falar muito sobre ele sem estragar as surpresas que o filme traz. Trate de assistir, depois venha me dizer se não é uma pequena maravilha ou se eu sou só mais um paga-pau de filmes que quase ninguém que se considera "normal" viu.

    P. P. S. Falando em coisas assombrosas e fascinantes, não deixem de ler o impressionante artigo “Citizen Kubrick” _o nome já diz tudo!

    P. P. P. S. Pra variar, segue um trechinho (inicial) de “Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento”, talvez o mais importante ensaio já escrito sobre o cinema brasileiro. A reflexão feita aqui é de importância capital, não deixe de ler! O autor é o grande Paulo Emilio Salles Gomes, a data é 1973 (ano da morte do Bruce Lee):

    “O cinema norte-americano, o japonês e, em geral, o europeu, nunca fora subdesenvolvidos, ao passo que o hindu, o árabe ou o brasileiro nunca deixaram de ser. Em cinema, o subdesenvolvimento não é uma etapa, um estágio, mas um estado: os filmes dos países desenvolvidos nunca passaram por essa situação, enquanto os outros tendem a se instalar nela. O cinema é incapaz de encontrar dentro de si próprio energias que lhe permitam escapar à conjuntura do subdesenvolvimento, mesmo quando uma conjuntura particularmente favorável suscita uma expansão na fabricação de filmes.

    No caso da Índia, com uma produção das maiores do mundo. As nações hindus possuem culturas próprias de tal maneira enraizadas que criam uma barreira aos produtos da indústria cultural do Ocidente, pelo menos como tais: os filmes americanos e europeus atraíam moderadamente o público potencial, revelando-se incapazes de construir por si um mercado. Abriu-se assim uma oportunidade para os ensaios de produção local que durante décadas não cessou de aumentar e em função da qual teceu-se a rede comercial da exibição. Teoricamente a situação era ideal: uma nação ou um grupo de nações com cinema próprio. Tudo isso ocorria, porém, num país subdesenvolvido, colonizado, e essa atividade cultural aparentemente tão estimulante, na realidade refletia e aprofundava um estado cruel de subdesenvolvimento. (...)

    No Japão, que não conheceu o tipo de relacionamento exterior que define o subdesenvolvimento, o fenômeno cinematográfico foi totalmente diverso. Os filmes estrangeiros conquistaram de imediato uma imensa audiência e foram, de início, o estímulo principal na estruturação do mercado consumidor do país. Essa produção de fora era, no entanto, por assim dizer, ‘japonizada’ pelos benshis _os artistas que comentavam oralmente o desenrolar dos filmes mudos_, que logo se transformaram no principal atrativo do espetáculo cinematográfico. Na verdade, o público japonês também nunca aceitou o produto cultural estrangeiro tal qual, isto é, os filmes mudos apenas com os letreiros traduzidos. A produção nacional, ao se desenvolver, não encontrou dificuldades em predominar, principalmente depois da chegada do cinema falado, que dispensou a atuação dos benshis. Diferentemente do que ocorreu na Índia, o cinema japonês foi feito com capitais nacionais e se inspirou na tradição, popularizada mas direta, do teatro e da literatura do país.”

    P. P. P. P. S. Last, but least: me rendi ao MSN Messenger; o e-mail é o mesmo exibido neste site. Quem quiser bater boca, que se arrisque. Bill Gates venceu de novo, raios!

    domingo, abril 25, 2004

    Nanook, o Esquimó / O Homem da Câmera / The Beatles Anthology

    As the mist leaves no scar on the dark green hill, so my body leaves no scar on you, and never will. True love leaves no traces, if you and I are one. It's lost in our embraces like stars against the sun.

    “É Tudo Verdade” é um título obviamente mentiroso, assim como todos os livros, jornais, este site etc. Tem gente que desconfia até da ciência... No caso do cinema, então, a coisa complica: muita gente acha as imagens bem mais críveis do que as palavras, e um filme como “A Paixão de Cristo” é interpretado por muita gente como “fiel aos fatos”.

    Agora, que o gênero batizado de “documentário” (uma palavra que carrega armadilhas) parece ganhar cada vez mais popularidade, é preciso prestar muito mais atenção quanto às supostas idoneidade e neutralidade desses filmes. Porque está cheio de documentário (como definir o gênero? Seria, como tentou resumir Jean-Claude Bernardet, um filme que mostra “situações que ocorreriam sem a presença da câmera”?) por aí que se utiliza de recursos claramente ficcionais, como curva dramática e uso de trilha sonora para dar “aquele clima”... O interessante é que o contrário também ocorre: a série “Band of Brothers”, por exemplo, não é uma dramatização do “real”? A verdade, segundo a boneca Emília, não é uma mentira tão bem contada que todo mundo acredita?

    Vejam o caso de “Nanook of the North”, lançado em 1922, considerado por muitos o primeiro documentário em longa metragem da história. Em seu filme de estréia, o diretor Robert Flaherty (1884-1951), explorador e geólogo, não só idealiza os esquimós, transformando o caçador de ursos Nanook em uma figura heróica (algo típico da ficção) e ignorando problemas já vigentes entre aqueles povos, como a prostituição e o alcoolismo, como utiliza uma série de subterfúgios, por exemplo: Nyla, apresentada no filme como mulher de Nanook, era, na verdade, amante de Flaherty; o diretor pedia para os esquimós encenarem ações que ele não havia conseguido captar (por exemplo, os fazia “matar um bicho morto”); para mostrá-los dentro do iglu, mandou construir meio iglu, enquadrando-o de forma a dar a ilusão (característica básica de qualquer filme) de que estamos vendo o interior de um iglu verdadeiro etc. Sem falar que ele retrata, ali, um modo de vida que não mais existia, pois, naquela época, os esquimós já caçavam com rifles há décadas...

    O que nos leva ao ponto principal, ao discutirmos o gênero: a questão não é se o documentário é realista (ele pode mirar para o real, mas nunca será real), mas se é honesto _porque, como bem sabemos (ou deveríamos saber), isenção é como o Papai Noel: não existe nem no pólo norte... O que conta, muitas vezes, nem é o que está na tela, mas como tal informação foi processada (coisa que o nosso Eduardo Coutinho costuma mostrar muito bem). Isso dá um pano pra manga...

    Botando essas questões de lado por um minuto, “Nanook...” é um filmão. Não só pela homérica proeza, quase sobre-humana (imagine você, há 85 invernos, sozinho no pólo norte por mais de um ano, com um equipamento arcaico e não tão portátil, tendo de aprender a preservar e a revelar um filme a temperaturas de pelo menos -20ºC) e pela coragem de um empreendimento realmente novo, mas porque o filme é delicioso de assistir. “Nanook, o Esquimó”, pode não nos contar a verdade, mas é grande cinema _não é à toa que Orson Welles (que, no já citado “It’s All True”, demonstra ter sido clararamente influenciado por filmes como “O Homem de Aran” e “Moana”) considerava Flaherty um gigante comparável a Griffith.

    Por acaso vocês acham que “O Homem da Câmera” (1929), o filme mais famoso do nosso amigo Dziga Vertov e o preferido da Tatica, estaria mais perto da “realidade” do que “Nanook...”, mesmo com todos aqueles efeitos especiais? Pessoalmente, eu acho essas “sinfonias da cidade” (alguém aí já viu os adoráveis curtas do holandês Joris Ivens?) muito mais atraentes... Trata-se de outra obra monumental, sofisticadíssima, um poema visual metalingüístico claramente empolgado pela apropriação artística da cidade pelo olho mecânico. É uma declaração de amor ao cinema, que abarca a tela, o público, a câmera, o filme, a moviola. Outra proeza admirável e inesquecível, sem muito do ranço político explícito de outros trabalhos do diretor (embora, no fundo, também se tratasse de demonstrar como o socialismo leninista levava ao “progresso”). Vá ver e depois me conte o que achou, sim?

    Mas vamos viajar no tempo para uma época (1995) e um assunto (os quatro cabeludos de Liverpool) bem mais acessíveis, senão quase ninguém vai saber o que falar nos comentários, a parte mais nobre e mais legal deste site. “The Beatles Anthology”, série televisiva em oito capítulos, foi o produto que deu o pontapé inicial na retrospectiva oficial da carreira da banda (que teve, como experiências anteriores, o lançamento do disco “The Beatles at the BBC” e de um documentário nos mesmos moldes sobre o “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, aquele disco que, apesar de representar uma ruptura estética bem mais drástica do que seus dois antecessores imediatos, está longe de ser o melhor da banda), seguida de três CDs duplos com duas músicas “novas” e de uma enciclopédia, ambos baseados na série.

    O enfoque é bem simples: tentar fugir daquele esquema mais tradicional de documentário, com um narrador conduzindo a história, e deixar que os próprios protagonistas contem sua versão dos fatos. A princípio, a idéia é bem boa, mas a realização deixa a desejar em certos momentos _ora, cinema é imagem, e o documentário falha ao ilustrar as músicas (sim, é um problema fazer documentário sobre música, a Vaquinha Eugênia que o diga) com imagens vazias, estáticas e desinteressantes, como instrumentos abandonados em um estúdio e uma reconstituição de um quarto de um fã. Dá vontade de bocejar dançando twist...

    Outra coisa que enche o saco é a evidente encheção de lingüiça com apresentações ditas “raras”, como a banda no Japão, na França, na Holanda e na favela da Rocinha. Evidente tentativa de ganhar mais uns cobres (como se já não tivessem ganhado o bastante) em cima do fanatismo dos beatlemaníacos. E é lógico que a gente enfia a mão no bolso para colaborar com eles...

    Mas é inegável que o documentário é importante e feito com capricho, embora o resultado final tenha desapontado. Como era de esperar, há todo um tom nostálgico ao falar de Lennon, embora isso tente ser dissimulado, sem sucesso. Macca, o político, é o que mais faz macaquices, daquele jeito maquiavélico dele. Ringo, considerado sempre o bufão do grupo, o mais bem-humorado e tal, surpreende ao aparecer como um chato, evidentemente entediado com a coisa toda. Quem se mostra mais ponderado, sincero e crítico a respeito de sua própria história é George Harrison. Claro. Além dele, o que ajuda mesmo a salvar este documentário é o senso de humor dos realizadores. Por exemplo, todos parecem discordar ao falarem sobre a canção “All You Need Is Love”, de autoria de John. Como John está morto, todos vão jogando a batata quente para o outro, em cortes rápidos, até que uma imagem de George Martin calado deixa a questão sem solução.

    P. S. Meu texto sobre "Elefante" foi publicado na mais nova edição da revista eletrônica Cine Imperfeito. Entrem lá, cliquem no link "Em Cartaz", leiam o texto (lembrem-se de que não é uma resenha) e venham comentar aqui. Se quiserem, claro. Ah: meu sobrenome continua grafado errado (é por isso que o abrevio aqui)...

    P. P. S. Por causa do Chico, acabei entrando no tão falado Orkut, a mania internética da vez. Não há nada de novo: tudo se resume à interação social (olha só o que apareceu na minha tela: “You are connected to 222222 people through 2 friends” _o que é ótimo, a gente sempre acaba comendo alguéns), a consumir mais tempo de nossas vidas e a nos colocar diante de uma quantidade i-na-cre-di-tá-vel de lixo. Não deixa de ser uma experiência interessante, mas os blogs ainda são MUITO mais legais.

    P. P. P. S. Ontem, revi mais uma vez “O Encouraçado Potemkin”, de Sergei Eisenstein (sim, a parte da escadaria de Odessa é mesmo uma das melhores seqüências já realizadas no cinema; é um deleite infernal). Por isso (e não só isso), vamos a mais um trechinho do livro “As Principais Teorias do Cinema”, de J. Dudley Andrew, que indica uma diferença fundamental entre Eisenstein e outro importante teórico e cineasta russo, Vsevolod Pudovkin:

    “Ao tornar o cineasta igual ao pintor, ao compositor e ao escultor, Eisenstein supera Pudovkin, com o qual freqüentemente tem sido associado. Pudovkin colocava o cineasta à mercê do plano e insistia que a direção criativa deriva da escolha e organização apropriadas desses pedaços da realidade que já têm um poder definido. Ele afirmava que o cineasta vê através da confusão da história e da psicologia e cria uma suave sucessão de imagens que levam em direção a um completo evento narrativo. Para Pudovkin, o sentido do mundo já existe na realidade capturada pelos planos, mas poderia ser ampliado e liberado pela montagem meticulosa. O cineasta tem meios, acreditava Pudovkin, para forçar o espectador a sentir um evento cinematográfico como se fosse um evento natural. Pode sutilmente dirigir e controlar a atenção e as emoções do espectador, já que o leva, não através da confusão do enredo, mas através da claridade de uma realidade reorganizada pelo filme, de modo que suas relações secretas são esclarecidas. A ênfase de Pudovkin no plano individual como fragmento básico do filme coloca-o muito mais próximo do que Eisenstein dos teóricos cinematográficos realistas. Mesmo em seu período mais formativo, quando falava da criação de eventos pelo cinema através da montagem, Pudovkin queria ligar os planos para levar o espectador a aceitar sub-repticiamente um acontecimento, uma história ou um tema. Eisenstein mencionou isso e reinvidicou, não uma ligação, mas uma colisão, não uma platéia passiva, mas uma platéia de co-criadores.”

    Cena da semana: Gregory Peck põe a mãozona na bunda de Ava Gardner, com vontade; Fred Astaire, que observa tudo por um binóculo, diz para Anthony Perkins: “Até parece que estou vendo um filme francês” (“On the Beach”, de Stanley Kramer, 1959).

    quarta-feira, abril 14, 2004

    Retrospectiva: dois anos na tela

    Hoje, este espaço completa dois anos de existência. Apesar de sua pouca importância e de sua qualidade duvidosa (já que é feito às pressas e de modo bem displicente), muito mais gente do que eu imaginava passou por aqui (não faço idéia de quantas visitas o CCE teve, mas é bem provável que tenha passado de 100 mil _o que é espantoso para um site que nunca se autopromoveu, que não faz parte de nenhuma panelinha e que não pertence a uma jovem mulher disposta a compartilhar suas tórridas peripécias sexuais), e novos visitantes chegam a cada dia. Alguns freqüentadores antigos sumiram, outros continuam fiéis. Na verdade, o único motivo da existência deste espaço é a presença participativa de seus visitantes, já que a proposta, desde o primeiro dia, é a de ser um fórum de discussão.

    Discussão, aliás, é a palavra fundamental. Como escrevi no FAQ (que não está mais disponível porque o provedor faliu e não vi necessidade de hospedá-lo em outra página), este espaço serve para bater boca mesmo, de igual para igual _o que, às vezes, irrita muita gente, uma pena. A discordância (cavalheiresca, sempre) é fundamental _e quem não concordar com isso que vá para as cucuias.

    Falando sério, é bom repetir que este site NÃO É dedicado à crítica cinematográfica, como muitos pensam. Não existem resenhas de filmes aqui. Os rasos textos (considero os posts antigos péssimos, o que é ótimo) publicados apenas pretendem servir de mero estímulo aos visitantes _que vocês procurem assistir ao que se comenta aqui e que se disponham a conversar sobre o que viram, de modo civilizado e honesto, colaborando para espalhar o amor pela arte e pela vida. Simples assim.

    Não preciso agradecer aos muitos amigos que fiz por intermédio deste site (sem dúvida, o melhor pagamento que eu poderia receber); todos sabem quem são e qual sua importância. Então vamos parar com a lenga-lenga e listar tudo o que rolou por aqui no segundo ano (abril de 2003 a março de 2004) de existência desta bodega:

    Abril

    Deus É Brasileiro
    Retrospectiva: um ano na tela
    Arca Russa / De Volta das Cinzas
    O Pianista / Roma, Cidade Aberta

    Maio

    Os Nibelungos / A Última Gargalhada
    São Paulo Sociedade Anônima / Copacabana me Engana
    Durval Discos / 2 Perdidos numa Noite Suja
    Mouchette, a Virgem Possuída / Pickpocket
    Chicago / Psicose
    Roger e Eu / The Big One / Tiros em Columbine

    Junho

    Carandiru / Carandiru.doc
    As Horas / O Canto do Mar
    Ben-Hur / Desmundo / Laranja Mecânica
    X-Men 2 / Matrix Reloaded / Hulk

    Julho

    O Poderoso Chefão - Partes I, II e III
    Buffalo 66 / Cães de Aluguel
    A Última Noite / Embriagado de Amor / B. Monkey
    Roma / O Talentoso Ripley / Frenesi
    Vacas / Terra / Os Amantes do Círculo Polar

    Agosto

    Réquiem a Lênin / Câmera Olho / Outubro
    O Homem Que Copiava / Longe do Paraíso / Cada Um Vive Como Quer
    The Westerner / Roy Bean, o Homem da Lei / Bola de Fogo
    Crepúsculo dos Deuses / A Malvada / Os Desajustados
    Estranhos no Paraíso / Ghost Dog / Dirigindo no Escuro

    Setembro

    Macbeth / A Paixão de Joana D’Arc
    Cidadão Kane / Othello / O Processo / F for Fake
    O Homem do Ano / Lisbela e o Prisioneiro / Amarelo Manga
    Hombre / Uma Bala para o General

    Outubro

    2001 – Uma Odisséia no Espaço / Barbarella / Scanners – Sua Mente Pode Destruir
    A Noite dos Mortos Vivos / Halloween – A Noite do Terror / A Morte do Demônio / O Iluminado

    Novembro

    Noites de Cabíria / O Caso dos Irmãos Naves / Crônicas de um Amor Louco
    The Matrix Revolutions / The Animatrix
    De Olhos Bem Fechados / Noite Vazia / Luxúria
    Taxi Driver / Maratona da Morte / Desafio no Bronx / Assassinos por Natureza

    Dezembro

    As Invasões Bárbaras / Os Reencarnados
    Uma Rua Chamada Pecado / Dois na Gangorra / Meu Amigo Harvey / Viagem a Roma
    Sobre Meninos e Lobos / Os Imperdoáveis/ A Promessa

    Janeiro

    O Mensageiro Trapalhão / Mocinho Encrenqueiro
    Simplesmente Amor / Narradores de Javé

    Fevereiro

    Dogville / Era uma Vez na América
    Encontros e Desencontros / 21 Gramas / Interiores
    O Mágico de Oz / Labirinto, a Magia do Tempo / Veludo Azul
    O Gabinete do Dr. Caligari / O Golem / Nosferatu (1922 e 1979) / Fausto

    Março

    Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas / Abry / 33 / Maridos e Esposas
    Bang Bang / Hitler IIIº Mundo
    A Paixão de Cristo

    P. S. Vocês viram que este ano começou com "Deus" e acabou com "Cristo"? Ai, que medo!

    sábado, abril 10, 2004

    Glória Feita de Sangue / Nascido para Matar / Casablanca / De Crápula a Herói

    I don’t know but I’ve been told: eskimo pussy is mighty cold! Ho Chi Minh is a son of a bitch: got the blue balls, crabs and the seven-year itch!

    Eu nem estava esperando a resistência iraquiana tocar o terror pra lá de Bagdá (com direito a manifestação do Paul Virilio, autor do livro "Guerra e Cinema", e tudo) para falar de guerra. Mera coincidência.

    Vamos começar com um Kubrick ainda embrionário, embora tenha alcançado status de clássico. “Paths of Glory” (1957), um dos mais importantes filmes sobre a Primeira Guerra Mundial (outro é “A Grande Ilusão”, de Jean Renoir, com Jean Gabin e Erich von Ströheim), traz, à primeira vista, um desequilíbrio entre forma e conteúdo, algo que não ocorreria nos filmes mais famosos do diretor nova-iorquino. Acima de tudo, o que conta aqui é o farol ético representado pelo protagonista, coronel Dax, a quem Kirk Douglas emprestou sua face pétrea.

    Basicamente, “Glória Feita de Sangue” enfoca a dicotomia covardia/bravura, mostrando o que geralmente acontece: a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. Em tempos de guerra, como podemos perceber atualmente, a verdade e a honra costumam ficar em segundo plano; quem está no alto da hierarquia também está mais suscetível à degeneração e à vaidade, características de quem manda homens à morte sem grande peso na consciência, sejam militares, políticos, sacerdotes ou empresários. Qualquer questionamento dá vazão a punições tão severas quanto injustas. Seria desumano, se não fosse tão humano.

    Em contraposição à franca manipulação emocional da cena final, na qual uma alemãzinha canta para os soldados franceses, que se comovem, temos, trinta anos depois, um pelotão de jovens norte-americanos de classe baixa entoando o tema do Clube do Mickey, enquanto caminham pela terra devastada do Vietnã. Um progresso e tanto.

    Muitas vezes tenho a impressão de que “Full Metal Jacket” (1987), penúltimo longa do velho Kuby, é injustamente menosprezado. O filme é brilhante ao assumir tom de comédia (bastante sombria, mas ainda comédia) para mostrar, sem um pingo de sutileza (é preciso coragem para ser didático, o jornalismo ensina isso), como os oficiais militares desumanizam seus recrutas para que morram por qualquer que seja a causa. O próprio sargento Hartman (para quem nunca teve de lidar com um sargento, saibam que a personagem de Lee Ermey, merecidamente indicado ao Oscar de coadjuvante, é extremamente verossímil) deixa bem claro que os recrutas não são seres humanos _durante o Tiro de Guerra, lá se vão dez anos, meus companheiros e eu éramos chamados de “porcos”. Aliás, não só nós, como as nossas mães, também.

    O processo de transformação de garotos em máquinas de matar passa pela sexualidade (“this is my rifle, this is my gun, this is for fight and this is for fun”; “o nome do meu rifle é Charlene”), pela religião (antes de dormir, os recrutas rezam a oração do rifle; o sargento faz um discurso sobre como os marines servem a Deus, enviando almas fresquinhas para o Céu) e pela glorificação de assassinos (inclusive o de JFK), na primeira parte do filme, que começa com a cruel tosa dos cabelos (ao som de "goodbye, my darling, hello, Vietnam"), uma imagem sempre poderosa. Gomer Pyle, personagem de Vincent D’Onofrio, me lembra um pouco as de Jerry Lewis, o eterno desajustado num mundo que cobra eficiência; só que ele acaba chegando lá (e paga o preço). Sobre a segunda parte do filme, conversamos no espaço nobre dos comentários, se vocês quiserem.

    Voltando no tempo, encontramos “Casablanca” (1942), produzido em época de guerra por um dos grandes estúdios de Hollywood (Warner) e dirigido por um veterano estrangeiro, o húngaro Mihály Kertész (1886-1962), aqui rebatizado como Michael Curtiz (pronuncia-se “curtís”), rei de filmes de ação (como "As Aventuras de Robin Hood", com Errol Flynn e Olivia de Havilland) que viria a dirigir Elvis Presley em “Balada Sangrenta” (“King Creole”) e John Wayne e Lee Marvin em “Os Comancheros”, seu último filme.

    Há um mistério em “Casablanca”? A princípio, deveria ser apenas mais um produto hollywoodiano, um filme de esforço de guerra (mas bem mais universalista do que poderíamos supor _você imagina ouvir “A Marselhesa” num filme da era Bush, xará daquele pit-bull que atacou um garotinho de 4 anos nesta semana?), feito aos trancos e barrancos (os atores gravavam sem o roteiro completo, sem saber como a história terminaria), apenas para cumprir tabela, numa época em que a indústria cinematográfica estava em seu auge de produção. Mas, como bem diz Lauren Bacall na introdução do DVD, uma mágica aconteceu. “Casablanca” não só ganhou três Oscars, incluindo o de Melhor Filme, como se tornou um clássico. Melhor: um clássico que, apesar de tudo, permanece incrivelmente moderno.

    Os diálogos são exemplares, assim como o timing; o filme é agilíssimo, e a narrativa, apesar de razoavelmente complexa (são muitos personagens, todos capitais para a trama), se desenrola com tranqüilidade. Bogart, no papel de sua vida, está simplesmente genial (e pensar que Ronald Reagan chegou perto de pegar o papel, brr!); Bergman, encantadora, apesar de um tanto chorosa demais; Henreid (que dirigiria dezenas de episódios da série “Alfred Hitchcock Presents”), completando o trio principal, consegue transmitir a grandeza de Victor Laszlo. Os coadjuvantes, todos não-americanos (assim como Bergman e Henreid), também são incríveis: Claude Rains está impagável como Louis Renault, o tão corrupto quanto simpático chefe de polícia; Conrad Veidt (o sonâmbulo Cesare de “O Gabinete do Dr. Caligari”), que morreria poucos meses depois, faz um vilão sem exageros; e Peter Lorre... bem, Peter Lorre é sensacional, certo?

    O legal de “Casablanca” (que, curiosidade, tem Don Siegel como um dos montadores) é não se limitar a um drama choroso sobre um casal separado pela guerra. Com muita sutileza e economia, o filme também cumpre seu papel ético ao mostrar um verdadeiro herói disfarçado de anti-herói, cuja abnegação acaba triunfando sobre a corrupção e falando de amor de uma maneira que até o Cristo do Mel Gibson não consegue. Este é pra ter em casa e rever todos os meses. Here’s looking at you, kid.

    Ainda falando em ética, o péssimo título brasileiro de “Il Generale Della Rovere” (1959) entrega e resume todo o enredo. O filme de Roberto Rossellini (a este ponto, já separado de Ingrid Bergman _por sinal, os arquivos de todos os textos sobre filmes do Rossa e de muitos outros que eu escrevi não estão disponíveis, alguém sabe como recuperá-los?), “um santo”, segundo Glauber Rocha, é ainda melhor que o clássico “Roma, Cidade Aberta” e traz Vittorio de Sica (o diretor de “Ladrões de Bicicleta” também era um excelente ator, meio “latin lover” _neste filme, aliás, ele se parece bastante com Chaplin) como o protagonista, num papel que lembra, em termos gerais, o Rick Blaine de Bogey. Seu Bardone é um trambiqueiro que, durante a ocupação alemã na Itália, tira dinheiro de famílias cujos homens estão em prisões nazistas, até que, acossado por um oficial da Gestapo, ele é obrigado a fingir ser o general Della Rovere, herói da resistência, e identificar outros rebeldes em uma prisão.

    Não é difícil imaginar onde a história vai dar, já que o título brazuca entrega tudo; mesmo assim, assistir a este filme é uma experiência emocionante, mesmo sem nenhum tipo de sensacionalismo ou pieguice (os toques de comédia também são freqüentes e eficientes), mas pela sua verdadeira grandeza ética e cinematográfica. E, como bônus, já que ninguém é de ferro e o Rossa não era bobo, apesar de “santo”, mulheres belíssimas, dessas de pendurar na parede. Viva l’Italia!

    P. S. Falando em guerra e romance, revi, na semana passada, "...E o Vento Levou", que só havia visto na Globo, quando criança. Vivien Leigh é uma grande atriz, como podemos ver no superior "A Streetcar Named Desire", e eu sou fã do Clark Gable especialmente por causa de "The Misfits" (mais uma vez, o arquivo do texto não está disponível), mas o filme só é espetacular no quesito produção, como ocorre com "Ben-Hur"; de resto, não passa de um novelão para mulherzinhas, excessivamente longo (quase quatro horas de duração, sem necessidade). Mas é claro que há bons momentos e boas cenas, especialmente por causa dos atores principais...

    P. P. S. Anteontem, foi o aniversário de dez anos do descobrimento do cadáver de Kurt Cobain. Dez anos parece ser muito tempo, mas a verdade é que estes anos voaram. Felizmente, foram riquíssimos. Os próximos dez prometem, porque, apesar de vivermos num momento social e econômico terrível, sem grandes perspectivas de melhora, eu sou doente de esperança e não conheço a cura. E parece que eu não vou morrer aos 27... Será?

    quinta-feira, abril 01, 2004

    Festim Diabólico / A Dama de Shanghai / O Veredicto / O Sol É para Todos

    Deixou a marca dos dentes dela no braço pra depois mostrar pro delegado se acaso ela for se queixar da surra que levou por causa de um ciúme incontrolado...

    Mas essa violência toda é de matar, hein? Não adiantou nada terem crucificado o Cristo: em 1924, na terra dos Bush, dois rapazes ricos assassinaram um garoto de 14 anos, só para ver como era, só para sentir o prazerzinho de matar. A imprensa, é claro, faz um carnaval para vender jornal, e, assim como Crosby, Stills, Nash & Young capitalizaram em cima da morte de quatro estudantes em “Ohio”, não demora para alguém transformar a monstruosidade em peça (não, não estou sendo moralista e condenando tais fatos, seria pior se estas mortes passassem em branco).

    Aí, em 1948, nosso velho amigo Hitch, já estabalecido nos EUA, adapta “Rope’s End” para o cinema, que vira “Rope”, sua primeira película em cores e sua primeira produção independente naquele país. Ela destaca-se em sua filmografia mais pela forma do que pelo conteúdo; o mestre do suspense quis fazer uma “Arca Russa” (ou 25% de “Timecode”, que vi semana passada e considerei bastante interessante, embora não brilhante), mas, como naquele tempo, oh, ainda não existia vídeo, teve que fazer cortes a cada dez minutos, mais ou menos, para trocar o rolo de filme.

    Há quem diga que “Festim Diabólico” (título nada a ver, como de praxe) fracassou nas bilheterias por causa disso; outros creditam o tropeço à escalação de James Stewart (realmente esquisito no papel de Rupert Cadell, que, originalmente, deveria ser de Cary Grant, que recusou; na minha modesta opinião, James Mason, curiosamente citado em um dos diálogos, seria mais adequado), que normalmente encarnava homens moralmente inquestionáveis, mas aqui defende idéias que lembram o ainda recente regime nazista (Nietzsche e seu übermensch são citados e, mais uma vez, distorcidos, ai, ai). Claro que o final moral (necessário, talvez) não é uma surpresa; aliás, em Hitchcock, vocês devem saber, nunca é o final que interessa, mas o percurso até lá (mentira, mentira, primeiro de abril).

    Uma coisa que me deixou impressionado é saber que o filme deveria deixar bastante claro que os personagens assassinos são homossexuais, coisa que nunca havia passado pela minha cabeça ingênua e desprovida de maldade. Mesmo ao rever o filme, não consigo obter tal impressão (no documentário que vem no DVD, o roteirista diz que queria deixar a franguice mais acentuada, além de não mostrar o cadáver no início, mas Hitch não teria deixado), apesar das diversas discussões entre as personagens de Farley Granger e John Dall (este último entrou no projeto para substituir Montgomery Clift, mas, novamente na minha opinião, quem mataria a pau no papel seria o Orson Welles _se ele usasse espartilho, lógico). Teria mesmo ficado mais interessante? Enfim, um Hitch menor ainda é memorável...

    Falando no velho Welles, seu “The Lady from Shanghai” também foi lançado em 1948 (mesmo ano de seu “Macbeth” de baixíssimo orçamento), apesar de ter sido feito dois anos antes. Aqui, Welles (ele mal tinha acabado de fazer 30 anos e sua carreira já estava em declínio) trabalha meio como diretor contratado, adaptando um romance, mas impõe sua personalidade ao roteirizar e atuar como o protagonista, além de dirigir.

    As filmagens não devem ter sido nada fáceis: seu casamento com Rita Hayworth, a estrela (belíssima, apesar de ter o cabelo cortado e pintado de loiro, distanciando-se do padrão “Gilda”, que a transformou na maior pin-up do pós-Segunda Guerra _praticamente uma pré-Marilyn, especialmente quando, lânguida, canta o tema do filme), estava indo por água abaixo; perfeccionista, filmando em locações como Acapulco e San Francisco, Welles estourou o cronograma de filmagem porque queria refazer várias cenas; no final, acabou tendo de cortar mais de uma hora de seu filme _o que, ironicamente, o deixou com um ritmo de cortes bastante acelerado, criando um efeito impressionante (graças também ao esmero de Welles na decupagem dos planos).

    “A Dama de Shanghai” é comumente descrito como um filme noir, o que é bastante compreensível: o uso da voz over, a história de um anti-herói que se envolve com uma mulher fatal (bota fatal nisso), um punhado de personagens sinistros (Everett Sloane e Glenn Anders são extremamente bem-sucedidos ao encarnarem personagens asquerosos), locações exóticas (como um aquário e um alucinante parque de diversões, entre outras) e um plot recheado de crimes e traições, além de uma hilariante, quase inacreditável seqüência de tribunal. Mas é óbvio que Welles transcende os clichês do gênero e faz um filme memorável, imensamente invulgar. E Hayworth (Margarita para os íntimos) brilha, no papel que deveria tê-la imortalizado. É verdade que o Jorge Guinle comeu?

    Misturemos outra história que passa por um tribunal com o já citado James Mason e temos “The Verdict”, um Lumet de 1982 estrelado por Paul Newman e roteirizado por David Mamet. A trama lembra o estilo consagrado por John Grisham: um pobre indivíduo íntegro (um velho, patético e fracassado advogado-alcoólatra-de-porta-de-velório) combate uma máquina industrial de advogados que jogam sujíssimo, em mais uma disputa entre o poder do dinheiro e o discurso ético (algo fundamental não só no direito, mas na medicina, no jornalismo, no cinema, na política, enfim, até lixeiro precisa ter ética). Sim, o desfecho deste Davi versus Golias é altamente previsível, mas isto não tira o prazer de ver Newman e Mason em ação.

    Mas o campeão da ética mesmo é Atticus Finch, personagem de Gregory Peck em “To Kill a Mocking Bird” (1962). Atticus, como é chamado por seu casal de filhos, Jem e Scout (a narradora da história, bem no estilo “Anos Incríveis”), foi eleito o maior herói do cinema americano, em uma daquelas intermináveis enquetes promovidas pelo American Film Institute. Sim, John Rambo perdeu para um advogado viúvo que, apesar de ótimo atirador, não quer que o filho tenha uma espingarda. Alguém lembra em que filme uma personagem se pergunta “o que Gregory Peck faria numa situação dessas”? Será que foi o Michael Moore? Brincadeirinha...

    A história se divide entre a defesa de um jovem negro acusado de estupro (o racismo começava a ser discutido nos EUA, em tempos de Rosa Parks e Martin Luther King) e a curiosidade dos filhos de Atticus a respeito de um misterioso vizinho. Em meio a tudo isso, um filme sobre a paternidade, a família, a solidariedade entre vizinhos (em plena depressão econômica, numa região pobre do país, Atticus aceita ser pago com mercadorias, em vez de dinheiro), tudo de uma maneira bonita, mas pouco apelativa, sem moralismo reacionário ou sentimentalismo barato, mas com responsabilidade. No final, Scout lembra que Atticus passou uma noite inteira ao lado do filho acamado _coisa que todo pai decente faria, ou seja, mais uma vez, o herói é o homem comum.

    P. S. “Out of Time” é nome de uma música dos Rolling Stones (os Ramones regravaram no “Acid Eaters”, lembra?). É também o título original de “Por um Triz”, de Carl Franklin, ator de séries de TV dos anos 70 que passou a dirigir no final dos anos 80. O filme se apropria de uma série de clichês do cinema policial norte-americano (lembra Hitchcock de raspão em vários momentos, apesar de não ser a mesma coisa), mas não se limita a uma mera sessão da tarde, porque é incrivelmente (faço questão deste negrito) bem-feito. Competentíssimo e imperdível. Será que o Franklin seria mais reconhecido se fosse branco, como falaram por aí?

    P. P. S. Momento “herrei”: a minha piadinha com o “C. S. I.”, feita no texto anterior, foi por água abaixo; a atriz que interpreta a mãe de Jesus Caviezel não é a mesma da série (os nomes e os rostos de ambas são bem parecidos, daí a confusão, que eu fiquei com preguiça de consertar porque não ganho dinheiro com este site). E o Mel Gibson, quem diria, é americano mesmo: ele nasceu no Estado de Nova York. Tudo bem que chamar o Gibson de americano, em vez de australiano, é a mesma coisa que dizer que o Nelson Rodrigues é pernambucano, e não carioca, mas, tecnicamente...

    P. P. P. S. Tá, o texto já está bem comprido e tal, mas a melhor parte vem agora: mais um trecho do livro do Andrew, sobre como Bazin via a questão de o uso da profundidade de campo (ou seja, até que ponto as imagens entram em foco) poder dar maior ou menor liberdade de interpretação ao espectador, citando dois grandes diretores:

    “Bazin achava que William Wyler, em seus primeiros filmes, proporcionou ao espectador uma ampla qualidade de informações e o encorajou a escolher, em grande medida, sua própria perspectiva. Defensores da montagem afirmam que Wyler é fraco e que seus filmes não têm autoridade, mas Bazin achava que ‘a profundidade de campo de William Wyler pretende ser tão liberal e democrática quanto a consciência do norte-americano e dos heróis de seus filmes’. Embora a filmagem em sua profundidade de campo permitisse a Wyler dar à platéia uma posição privilegiada, outros diretores usaram-na para insistir na prioridade do mundo diante do espectador.

    Orson Welles é o exemplo perfeito. Ele usou esse título tão brilhantemente e com tanto sucesso em seus dois primeiros filmes que o que antes era considerado não-cinematográfico ganhou prestígio. Mas seu uso da profundidade de campo foi completamente diferente do de Wyler. Ninguém jamais cometeu o equívoco de chamar Welles de democrático. Ele desencorajava o espectador com sua profundidade de campo, pois ‘ela força o espectador a usar sua liberdade de atenção e o obriga ao mesmo tempo a sentir a ambivalência da realidade’. A profundidade de campo de Welles criou um realismo triplo: realismo ontológico, dando aos objetos uma densidade e uma independência concretas; realismo dramático, recusando-se a separar o ator do cenário; e, mais importante para nós, realismo psicológico, colocando ‘o espectador nas verdadeiras condições de percepção nas quais nada é jamais determinado a priori’.”

    terça-feira, março 23, 2004

    A Paixão de Cristo

    A lágrima de um homem vai cair. Esse é o seu B. O. pra eternidade. Diz que homem não chora; tá bom, falô. Não vai pra grupo, irmão. Aí, Jesus chorou.

    Me diga você, que sabe datilografia: o Jim Morrison não morreu de ataque cardíaco, numa banheira em Paris, em 1971? Então por que cargas d'H2O o Mel Gibson resolveu crucificar o bebum? Podia ter escolhido o Bono, não?

    Então, eu não ia atualizar o site tão rapidamente nem ultrapassar a fila de filmes vistos anteriormente que ainda não foram pitacados, mas prefiro falar sobre "The Passion of the Christ" assim, no calor do momento, porque não estou sendo pago para escrever este texto e posso me dar ao luxo de ser irresponsável. Vi a coisa hoje à tarde, e está rolando o contrário do que aconteceu com "Lost in Translation": a cada minuto que passa, ele me parece pior (ei, preste atenção: a seguir, vamos discutir cinema, e não religião; sem maluquice, tá?).

    E olha que eu não esperava grande coisa, até por já estar cabeludo de saber que o Mad Mel não é exatamente o atípico americano liberal heterodoxo hippongo e meio de esquerda que eu conheci em Berkeley (até porque ele sequer é americano, apesar de ter feito "O Patriota"). Mas, puerra, estamos falando de uma das minhas narrativas preferidas, que inspirou belas obras (do "King of Kings" do Nicholas Ray a "Monty Python's Life of Brian", passando pelo bizarro, porém interessante, "Jesus Christ Superstar") e o mega-over "Ben-Hur".

    Mas, antes de começar a jogar pedra na cruz, é bom eu dizer que ter visto "A Paixão de Cristo" não foi, de maneira nenhuma, uma perda de tempo. Também está longe de ser um dos piores filmes que já vi (você deve estar imaginando que já vi muito filme ruim; pois é, já passei até por "Se7en"). Mas que é de doer, ah, isso é.

    E não exatamente pelo suposto anti-semitismo da peripécia de US$ 25 milhões (cadum cadum; eu, particularmente, não senti ódio de ninguém por causa da película _nem mesmo do Mel Gibson_, até porque é preciso muito mais do que um filme para me fazer sentir ódio) ou por causa de seu "excesso de violência", justamente o que todo mundo anda comentando. O problema é que o filme se limita a uma espécie de lavagem cerebral programada para incutir culpa em seus espectadores. O espetáculo sádico de malhação do Jésa (acho que só vi tanto sangue em "Cães de Aluguel" e no "Macbeth" do Polanski) serve para martelar na testa de todo mundo que o salvador sofreu horrores por nossa causa, e que devemos purgar nossos pecados pela compaixão _até parece que Gibson corrobora aqueles espetáculos grotescos de crucifixão e autoflagelação nas Filipinas que os jornais, todos os anos, mostram. As mensagens basilares da doutrina cristã de amor ao próximo ficam totalmente em segundo plano. Ou seja, o filme é anticristão, e quem acha que ele é evangelizador só pode estar doente.

    Na verdade, "A Paixão de Cristo" deveria ser rotulado como um filme de terror, pois é justamente este o seu propósito: assustar, e da maneira mais grotesca. Embora a caracterização da atriz italiana Rosalinda Celentano como Satã seja a melhor do filme (adorei o vermezinho rebolando na narina dela, um dos poucos planos que valeram a pena), as nada sutis aparições demoníacas que permeiam toda a obra, compondo metáforas bem rasas, depõem contra a mesma. Taí uma das coisas que vieram à minha mente enquanto eu assistia ao filme: quando criança, eu nunca tive medo do diabo, porque nunca cheguei a acreditar nele; Jesus, por outro lado, era como um bicho-papão ou um homem do saco: eu morria de medo de ele vir me buscar, à noite. Mel Gibson diz que acredita no diabo. Isso nunca é um bom sinal.

    Outra coisa que me incomodou muito é o desperdício da dramaticidade da história. Ao se limitar a mostrar incansavelmente o castigo físico do protagonista (sim, pegaram Jesus pra Cristo _e ainda queriam que fosse censura livre), Gibson anestesia seu espectador, em vez de fazer com que ele se compadeça de seu herói. O filme é monótono, monótono. As tentativas de manipular as emoções do público dão com os burros no açude, justamente por exageradas demais. A cena com o maior potencial dramático do filme, aquela em que Maria vai falar com o filho no meio da via crúcis, é totalmente arruinada pela péssima trilha sonora (ora metida a exótica, ora metida a transcendental). O uso de câmera lenta e suas variantes também é desastroso; Cristo pós-"Matrix", façam-me o favor.

    E o elenco, sorry, não dá para levar a sério. Usar a atriz de "C. S. I." para fazer a Maria parece piada de mau gosto; fiquei imaginando a hora em que ela fosse exumar o cadáver do filho e colher pistas que a levassem até o assassino. Até a Giovanna Antonelli seria melhor. E a Momô, hein? Quando se trata da Momô, é sempre bom perguntar duas vezes: e a Momô, hein? Como disse meu amigo Julito, que viu o filme do meu lado esquerdo, só mesmo o filho de Deus (ou um muito do viado) para não comer. E porque não chamaram o Bowie para fazer o Pilatos de novo? Eu, hein? Vade retro, Mel!

    P. S. Falando em filme de terror chinfrim e de coisas que eu tinha medo quando criança (como o E. T.), revi, há poucos dias, "Poltergeist, o Fenômeno" (na época, o Ronaldinho ainda não era famoso). O início, com o hino dos EUA tocando na TV e as cenas que introduzem a vizinhança onde a trama ocorre, é bem interessante (assim como a cena dos pais fumando maconha), mas não demora muito para a coisa descambar. O final é horroroso, e não sei porque eu fiquei com tanto medo quando era pequeno, já que se trata de um terrorzinho família produzido e roteirizado pelo Spielby. As continuações, nunca vi, obrigado. É verdade que a menininha morreu?

    P. P. S. Ah, falando em terror e suas continuações, vi o segundo e o terceiro "Halloween". Ambos são produzidos por John Carpenter, nenhum é dirigido por ele, e o criador do Michael Myers só assina o roteiro do segundo, que continua bem de onde o original parou e nos revela "o segredo" _após um monte de mortes estúpidas. E, diferentemente deste, que é bem interessante, ambos são porcarias. Será que o Mel Mortífero vai fazer a continuação de "The Passion of the Christ", com Jesus Morrison apavorando os infiéis no dia do Juízo Final? Seria mais legal e mais lúcido (e, talvez, mais lucrativo) da parte dele...

    Na platéia