A gruta é mais extensa do que a gruta

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    domingo, novembro 13, 2005

    Balanço da Mostra 2005

    Amarrei o seu retrato no bigode do meu gato, ele não parou mais de miar.

    Ah, o tempo, este eterno inimigo imaginário. Sem mais delongas, vamos ao relatório do que consegui ver durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: apesar de não ter trabalhado para esta edição do festival, consegui pegar 13 sessões (14 filmes ao todo), contra 19 do ano anterior. É pouco, perto do pessoal digno do rótulo de "cinéfilo", mas para mim vale como maratona. A seguir, breves observações sobre o pouco que vi:

    "A Dignidade dos Ninguéns", Fernando Solanas: uma coisa assim Michael Moore, mas sem o senso de humor. Documentário que sequer pretende ter algo de jornalístico, já que parte do pressuposto de que a imprensa é vendida (e também comprada, é claro). Se serve de algo (no sentido de "passar uma mensagem"), mostra que lutar pelos seus direitos às vezes vale a pena (desde que você more na Argentina?). Os velhinhos que cantam o hino são legais.

    "Trilogia - O Vale dos Lamentos", Theo Angelopoulos: filme que não tem medo de ser poético. Planos-seqüência longos, lentos, premeditadamente artificiais. Rimais visuais e elipses. Chegou a confundir as duas senhoras que estavam do meu lado e passaram boa parte do filme me perguntando o que estava acontecendo. Lindão, mas termina pior do que começa.

    "O Espelho Mágico", Manoel de Oliveira: maravilhoso, superior a "Um Filme Falado". E, apesar do evidente cuidado com enquadramento, mise en scène etc., mais uma vez é o texto que brilha. Ricardo Trêpa e Leonor Silveira interpretam personagens interessantíssimas, envoltas numa atmosfera pouco naturalista. Diferentemente de Angelopoulos (e à moda de Kiarostami), Oliveira mais uma vez termina com um plano sublime. Após o filme, quase duas horas de bate-papo com o diretor.

    "Refém", Constantinos Giannaris: meu segundo filme grego na Mostra (muito legal ouvir a língua e reconhecer várias raízes do nosso português). Típico filminho de refém em ônibus, misto de "Ônibus 174" com "Velocidade Máxima" (mas bem longe de "Eureka"), que poderia muito bem ter passado no Super Cine ou numa má Sessão do Comodoro. Sem muito interesse, não chegou sequer a irritar.

    "Todos Contra Zucker!", Dani Levy: comédia alemã que poderia muito bem ser brasileira. Malandro finge enfartes para ir jogar sinuca a dinheiro, enquanto também finge respeitar suas raízes judaicas (sendo comunista e ateu, tendo permanecido na antiga Alemanha Oriental) para botar a mão na herança da mãe. Passatempo bem agradável, com bom ritmo e elenco carismático. O público saiu da sessão elogiando.

    "O Inferno", Danis Tanovic: parecia impensável que se poderia fazer justiça a Kieslowski, mas o premiado cineasta bósnio (que colocou pelo menos umas 15 ou 20 referências diretas aos filmes do polonês), em seu segundo longa-metragem, conseguiu. A estrela é o roteiro, mas arte, fotografia e elenco (Emanuelle Béart impressiona numa das melhores e mais inverossímeis cenas do ano _e certamente a mais violentamente sexy) são de respeito. Não sei se este terá o sucesso de seu filme anterior (embora mereça), mas Tanovic se firma como promessa. Tive a oportunidade de conhecê-lo (e também ao seu produtor e sócio Cedomir Kolar, de "Antes da Chuva" e outros), parece ser um homem bastante ético, sério (embora com senso de humor, é claro) e claramente marcado pela guerra. E um viva a Edith Piaf!

    "Tirando o Véu", Angelina Maccarone: filme altamente indicado para quem sente atração fatal por iranianas lésbicas. Tem um plano muito bonito de uns pássaros voando, que o Fernando Meirelles teria dado um dedo para incluir em "O Jardineiro Fiel". Há algo de muito sexy no nome da diretora, deve ser uma baranga.

    "Napola - Antes da Queda", Dennis Gansel: esse subtítulo brasileiro obviamente quer tirar uma casquinha daquele filme em que Bruno Ganz interpreta o Adolf (será que ainda batizam alguém com este nome?). É filme de época (1942), mas não reconstituição histórica; o início prometia, mais pela direção de arte caprichada, mas o filme acaba se afogando em chavões (tem até plano que faz referência direta a "Titanic", pff). Convencional, previsível, desprezível (como alguns filmes germânicos exibidos no ano passado). Os alemães querem ser Hollywood?

    "St. Francis Bird Tour", Clemens Klopfenstein: descompromisso quase total deste suíço malucão, que, com equipe de quatro pessoas (incluindo sua esposa), fez este longa com câmera digital. Klopfenstein, com mais de 40 anos de cinema, interpreta a si mesmo e registra as aventuras de dois amigos (que também interpretam a si mesmos _um deles é um rockstar local, o Serguei deles) que acabam se perdendo numa floresta. Apesar do senso de humor, é difícil de acompanhar _na verdade, achei um saco. Como ele conseguiu torrar 500 mil euros com isso?

    "Allegro", Christoffer Boe: belíssimo filme, este dinamarquês que dá uma banana para o Dogma foi a mais agradável surpresa deste festival. A princípio, tinha tudo para ser mais um melodrama razoavelmente convencional, mas torna-se uma ficção científica kafkiana absolutamente fantástica, fazendo referências claras ao "Stalker" do Tarkovski. Fiquei com vontade de conhecer outros trabalhos deste jovem cineasta.

    "Primeiros Passos", Evaldo Mocarzel: curta bonito, mas um tanto pretensioso, a partir de um poema de Augusto dos Anjos. Inofensivo e suficientemente agradável.

    "Do Luto à Luta", Evaldo Mocarzel: como não havia gostado muito de "À Margem da Imagem", não esperava grandes coisas deste filme, o que talvez tenha colaborado para o fato de eu ter gostado. Mas sou suspeito para falar, porque tenho um carinho especial por certos portadores da Síndrome de Down, que são pessoas maravilhosas. O filme acerta ao evitar o tom puramente didático e dar voz aos "Downs", com o apropriado senso de humor (inclusive com as músicas dos Beatles "Don't Let Me Down" e "I'm Down" _poderia ter ficado com gosto de piada infame, mas encaixou). A seqüência em que um casal de "Downs" dirige uma cena (levando o Carlos Ebert à loucura) é quase antológica.

    "Snowland", Hans W. Geibendörfer: dramalhão convencional e deprimente, típico daquela região inóspita durante o inverno. Longo e baixo astral, não se destaca de forma alguma, diferentemente de um filme muito bom que vi no ano passado, chamado "Luz Fria". Tem mulher pelada, mas é feia.

    "Al Outro Lado", Gustavo Loza: sabem esses filmes de criancinha? Pois é, este é mais um do tipo, só que não se contenta em ser sobre apenas uma criancinha, mas sobre três, todas em busca do pai, que teve de abandonar a família para trabalhar. Uma das histórias se passa no México, outra no Marrocos e na Espanha, e a outra... hmm, já me esqueci. Ano que vem tem mais e promete, será a 30ª edição do evento.

    P. S. Vi, há pouco tempo, o maravilhoso "O Tesouro de Sierra Madre", do meu amigo John Huston. Em homenagem ao velho aventureiro, mais um trecho do livro do Walter Murch:

    "O problema da comparação entre filmes e sonhos é que ela é interessante, provavelmente verdadeira, mas relativamente infrutífera. Sabemos tão pouco sobre a natureza dos sonhos que não há o que acrescentar à observação, depois de feita.
    Um aspecto a ser considerado, porém, é a possibilidade de existir uma parcela da nossa realidade que, mesmo acordados, vivenciamos como cortes cinematográficos, quando as imagens das realidade se agrupam numa justaposição mais descontínua do que parece.
    Comecei a pensar nisso por ocasião do primeiro filme que editei _'A Conversação'_, quando reparei que Gene Hackman piscava em momentos muito próximos dos pontos em que eu decidia cortar. Era interessante, mas eu não sabia o que fazer com isso.
    Foi então que certa manhã, depois de ter virado a noite trabalhando, saí para tomar acafé e, passando em frente a uma sala de leitura da 'hristian Science, vi que a primeira página da 'Monitor' trazia uma entrevista com John Huston. Parei para ler e uma coisa me chamou a anteção, porque tinha exatamente a ver com a questão do piscar de olhos:
    'Para mim, o filme perfeito é aquele que se desenrola como que por trás do seus olhos, como se os seus olhos o projetassem, e você estivesse vendo o que quer ver. Filme é como pensamento. De todas as artes, é a mais próxima do processo de pensar.
    Olhe para aquela lâmpada ali. Agora olhe para mim de novo. Viu o que você fez? Você piscou. Isso são cortes. Depois de ver uma primeira vez, você sabe que não precisa fazer um movimento contínuo entre mim e a lâmpada porque já sabe o que tem no meio. A sua mente corta a cena. Primeiro você olha a lâmpada. Corta. Depois olha para mim.'"

    domingo, outubro 16, 2005

    O Auto da Compadecida / O Coronel e o Lobisomem / Senta no Meu que Eu Entro na Sua

    Pra ver pesar na balança, cinco véio não dá um quilo, mais de cem grama de grilo no bucho de uma criança.

    Guel Arraes (ao lado de Jorge Furtado e de alguns outros, responsável por algumas das obras mais interessantes da TV aberta nos últimos anos) admitiu, sem problema algum, em entrevista recente, que é um cineasta muito mais da palavra do que da imagem. Talvez isto explique seu trabalho na adaptação de uma série de obras populares da literatura brasileira para as telas _como é o caso deste "O Auto da Compadecida" (1999), feito em película e lançado em cinema (numa versão desnecessariamente editada, já que a minissérie original tem apenas 2h35 de duração, a mesma de "Pulp Fiction") graças ao produtor Daniel Filho. Mas não só isso.

    No filme (tratemos filme e minissérie como sinônimos), temos umas das edições mais "ágeis" (não concordo muito com o termo, já consagrado) dos últimos tempos (talvez bem mais adequada mesmo para a TV do que para o cinema), que acompanha os diálogos, também rápidos, disparados como tiros, um atrás do outro. Não é necessariamente ruim, mas o ritmo frenético é cansativo, e a gente acaba mais ouvindo do que vendo. Como o texto é bom (embora dito naquele sotaque nordestino que nem sei se existe fora da Globo), o estrago não é tão grande; mas o maior trunfo do projeto é mesmo o elenco, com destaque especial para Denise Fraga, talvez em seu melhor papel (o que ocorre também com Selton Mello, que se destacou aqui, mas nunca mais foi tão bom _com possível exceção de "LavourArcaica", cuja revisão não deve tardar, graças ao lançamento em DVD).

    No recém-lançado "O Coronel e o Lobisomem" (que, a exemplo de "Lisbela e o Prisioneiro" e "Deus É Brasileiro", já tinha ganhado versão anterior para a TV _neste caso, o coronel Ponciano era Marco Nanini), co-produzido por Arraes e Paula Lavigne, o falatório também não dá uma trégua, embora o ritmo da edição seja mais lento e permita que alguns planos sejam contemplados com mais calma. Novamente, a estrela é o texto, na boca principalmente do protagonista, desta vez interpretado por Diogo Vilela (a quem tive o prazer de ver no teatro, numa bela montagem de "Tio Vânia"), que faz o padeiro em "Auto". Selton Mello também está aqui, mas desta vez errou o ponto da interpretação, assim como Andréa Beltrão (que também vi no teatro _em "A Prova", peça recém-filmada nos EUA, com Gwyneth Paltrow_, onde estava ótima); quem se dá melhor são Tonico Pereira (eterno coadjuvante; um ator da qualidade e da intensidade dele merecia mais destaque) e Francisco Milani, a quem o filme é dedicado.

    Ambos os projetos investem num humor supostamente mais refinado, embora o tipo de sátira apresentado seja secular (talvez milenar); o resultado dificilmente arranca gargalhadas, pois choques cômicos, típicos de piadas, são evitados. Muitíssimo diferente é o que ocorre em "Senta no Meu que Eu Entro na Sua" (1986), um dos filmes que atestam a melancólica decadência da Boca do Lixo paulistana. Apesar de ser um filme de sexo explícito (gênero que conheço pouquíssimo, talvez porque a produção é gigantesca demais e tudo seja muito parecido, embora clássicos sejam notórios, a começar pelo recém-recuperado "Garganta Profunda", tema de documentário e tudo), dirigido por Ody Fraga (1927-1987), um dos mais prolíficos da época, ele vale a pena somente como comédia. Talvez o desencanto com o nível a que os cineastas da época tiveram que descer tenha sido a mola propulsora para a esculhambação _quem me disse isso, há mais de dez anos, foi José Mojica Marins, que definiu seu "24 Horas de Sexo Ardente" como uma tentativa de ridicularizar o cinema pornô. Neste aqui (aliás, o primeiro filme do gênero que vi num cinema, e não numa sala qualquer, mas na da Cinemateca, numa sessão inacreditável), Fraga adota um caminho menos radical, mas tão imaginativo quanto: no primeiro dos dois episódios, sutilmente intitulado "Alô, Buça!", uma mulher descobre que tem uma vagina falante (e também cantante: a cena em que ela entoa, no chuveiro, "Tic Tic Nervoso" deveria entrar para uma antologia da comédia no cinema nacional); no segundo, cujo título não me lembro agora (alguém vai acabar me socorrendo nos comentários, espero), um segundo pênis brota da cabeça de um homem, cujo escritório fica de frente para a... Embrafilme!

    A exemplo de "Deep Throat", o filme de Fraga é de uma época em que o cinema pornô (ou pelo menos parte dele) não apenas se preocupava em ter algum esboço de roteiro como era feito em película (por sinal, nos créditos aparecem nomes como Aloysio Raulino na direção de fotografia e Ozualdo Candeias como fotógrafo de cena) _será que o avanço do cinema digital fará com o "cinemão" o mesmo que fez com o pornô? Mas o absoluto destaque vai, assim como nos filmes de Arraes e sua turma, para o texto: os diálogos, recheadíssimos de palavrões, não têm sutileza nenhuma e ganham muito com a evidente canastrice dos elenco. Um exemplo: homem chega do trabalho e vai ler o seu jornal. Mal passa os olhos sobre a capa da Folha de S. Paulo e exclama: "Puta que pariu! Estamos fodidos"! Aí ele chama a empregada e pede uma bebida. Mas rapidamente muda de idéia e fala com um sorriso no rosto e a maior naturalidade do mundo: "Pensando melhor, acho que vou querer um suco de buceta!". O resto da cena, não preciso descrever... Fraga arranja até um modo de abordar a famosa luta de classes, ao mostrar que o marido pode comer a empregada (e quem da classe média nunca comeu?) o quanto quiser, mas se ela tenta trepar com o jardineiro (um anão negro chamado Chumbinho, que, dois anos antes, protagonizou "As Taras do Mini Vampiro", de José Adalto Cardoso, já viram? O pessoal que vive entrando aqui através do Google, procurando por "sexo com anões", deve conhecer...), é um escândalo, somente por que se trata de um empregado. A senhora não se faz de rogada e manda um discurso do gênero "Essa classe média é uma bosta, mesmo!", para chegar a uma solene conclusão: "Pau não tem classe social.". E não só: por mais de uma vez, a atriz se dirige à platéia, chegando a nos chama de "bando de filhos da puta"... Curiosíssimo exemplo de filme (supostamente) erótico que não dá tesão nenhum, mas que arranca gargalhadas durante quase o tempo todo. Se tirassem as cenas de sexo, melhorava e muito...

    P. S. Faz tempo que não cito textos sobre cinema aqui, não? Reflexo da vida corrida, plena de atividades... Mas como falei de edição neste texto, vamos de Walter Murch, "Num Piscar de Olhos" (neste trecho em particular, ele contradiz muita gente que se diz entendida por aí...):

    "O corte ideal (para mim) obedece simultaneamente aos seis critérios que seguem: 1) reflete a emoção do momento; 2) faz o enredo avançar; 3) acontece no momento 'certo', dá ritmo; 4) respeita o que podemos chamar de 'alvo de imagem' (eye trace) _a preocupação com o foco de interesse do espectador e sua movimentação dentro do quadro; 5) respeita a 'planaridade' _a gramática das três dimensões transpostas para duas pela fotografia (a questão da linha de eixo, stageline etc.) e 6) respeita a continuidade tridimensional do próprio espaço (onde as pessoas estão na sala e em relação umas com as outras).
    1) emoção: 51%
    2) enredo: 23%
    3) ritmo: 10%
    4) alvo de imagem 7%
    5) plano bidimensional da tela: 5%
    6) espaço tridimensional da ação: 4%"

    sexta-feira, setembro 30, 2005

    A Batalha de Argel / A Lista de Schindler / A Queda! - As Últimas Horas de Hitler / O Triunfo da Vontade

    Marcha, soldado cabeça-de-papel.

    Parece que até pouco tempo atrás os historiadores tinham certa reserva de encarar filmes como documentos historiográficos. A questão é interessante e merece debate: um documento "em papel" é necessariamente mais confiável do que um "em filme"? E quando o filme em questão é uma reconstituição dramática? Documentários são necessariamente mais isentos (se é que a palavra tem cabimento)? Sabia que o sabiá sabia assobiar?

    Pois recentemente voltou aos cinemas de São Paulo este "A Batalha de Argel" (1965), filme mais conhecido do veterano italiano Gillo (apelido de Gilberto) Pontecorvo, ainda em atividade apesar de ter passado dos 80 anos, que assisti ao lado de dois bons amigos (um deles vibrava a cada vez que um policial era assassinado) no Espaço Unibancool de Cinema. Feito poucos meses depois da independência da Argélia, colonizada pelos franceses por cerca de 130 anos, não só mostra parte do processo revolucionário (como também ocorre no documentário "25", co-dirigido por Zé Celso Martinez Corrêa e já comentado aqui), ao demonstrar como o grupo se organizava e se relacionava com o povo, como explicita a política colonialista que ainda veio se arrastando pela segunda metade do século XX.

    Jean Martin, no papel do coronel Mathieu (ótima atuação), dá voz aos instrumentos de repressão ao mesmo tempo em que questiona esta política; é soldado, cumpre ordens, mas mede conseqüências e as expõe (inclusive no que tange assuntos absolutamente terríveis, como a nossa velha conhecida tortura) antes de entrar em ação. Por outro lado, os revolucionários, apesar de cometerem atos terroristas e assassinatos, destruindo muitas vidas e propriedades de inocentes, estão lutando pela liberdade e estão longe de serem retratados como assassinos fanáticos. É evidente que o filme escolhe um lado, e parte da reação na França não deve ter sido das melhores... Mas, mesmo deixando de lado este caráter documental do filme, resta um thriller interessante, que não se detém tanto sobre as personagens (Ali La Pointe, um dos principais líderes da revolução, não chega a ser endeusado, como poderia ocorrer em outro tipo de produção).

    Bastante diferente é o caso de "A Lista de Schindler" (1993), filme que comprou certo respeito a Steven Spielberg (como se o fato de fazer blockbusters acima da média fosse pouca coisa). Aqui trata-se justamente de focar nas personagens, em Oskar Schindler, "seus" judeus e em figuras como Amon Goeth, em papéis que levantaram as carreiras de Liam Neeson e Ralph Fiennes. Trata-se, aqui, de reproduzir a história oral, somente do ponto de vista das vítimas do mais famoso dentre os muitos genocídios cometidos nas últimas décadas.

    Acusado de pretensioso por aí, o filme na verdade é um trabalho de mestre; Spielby demonstra grande senso de enquadramento, de decupagem, de ritmo, de direção de atores. Tinha visto no cinema, na época de estréia, e não tinha gostado muito (especialmente por certas cenas melodramáticas demais e aparentemente inverossímeis); mais de dez anos depois, ao revê-lo, mesmo estes momentos acabam funcionando, e o filme, por mais que nos exponha a uma série de crueldades terríveis, traz para os anais da história uma reconstituição baseada em depoimentos que são essenciais para compreender o que ocorreu na Europa durante aquele triste período (embora historiadores muitas vezes critiquem o tom emocionado deles, não deixam de ter grande valor). Nem sempre o inferno é feito de boas intenções.

    Já o menos cinematograficamente ambicioso "Der Untergang" (2004), baseado num (mas apenas em um, salvo engano) depoimento de uma testemunha que esteve no bunker em Berlim onde Hitler cometeu suicídio, parece cumprir o seu papel de registro de um importante momento histórico. Mas, como cinema, não apresenta nada de muito espetacular, com exceção da belíssima interpretação de Bruno Ganz. Por sinal, esta história de dizer que Ganz nos entrega um Hitler "humano" como se fosse uma proeza é de uma estupidez lamentável; separar Hitler da humanidade e tachá-lo de "monstro" não apenas é insensato: é insensível. É como justificar o injustificável. Mas não é isso o que me proponho a discutir aqui; é que este tipo de burrice-clichê (dita por gente bem-intencionada, mas equivocada) simplesmente me revolta, e como posso espernear à vontade neste espacinho abandonado por Deus...

    Já em "O Triunfo da Vontade" (1935), que transita entre os limites de documentário e filme de propaganda, é, sim, um documento assustador e valiosíssimo para compreender um fenômeno difícil de compreender (compreendeu?). Todo o odioso preconceito (a tal da "pureza da raça") instilado pelo nazismo está exposto ali, nos discursos de gente ("gente", não "monstros" _por sinal, nem aqueles do filme de Tod Browning merecem tal pecha) como Goebbels (que cita especificamente "a nova e criativa ciência da propaganda política") e o próprio Führer. Parece haver um tom desesperado na necessidade de um povo humilhado (merecidamente?) de recobrar sua auto-estima não apenas por meio do progresso econômico, mas do poderio militar _que acabou levando a um tresloucado e napoleônico (mas a comparação é mesmo apropriada?) plano de conquistar territórios alheios. É deprimente ver Hitler (que nunca achei orador de merda nenhuma _taí mais um clichê dito por gente idiota) se dirigindo aos jovens, sufocando todo individualismo, naquele espetáculo imperial romano antiquado.

    Fora isso, não é à toa que não se nega o talento de Helene Bertha Amalie Riefenstahl (a ser interpretada por Jodie Foster numa cinebiografia, dizem) como diretora (além deste, a ex-bailarina e atriz de filmes "de montanha" _dos quais vi apenas um "O Inferno Branco de Piz Palü", muito bom_ assinou somente a direção de mais sete filmes em seus 101 anos de vida). Planos impressionantes, nos quais se notam um evidente capricho de enquadramento, abundam. Só que é outro clichê dizer, como ela e todos os que viveram suas vidas sob aquele governo, que eles "não sabiam". Os discursos daqueles políticos nazistas deixa bem claro que dali não podia sair coisa boa; não somos ninguém para julgar as pessoas (que, segundo "Der Untergang", o Führer culparia pela derrota e abandonaria) que tentaram simplesmente sobreviver por meio de acomodação (não deve ser mesmo fácil abandonar tudo, país, família, propriedades etc.) a um determinado sistema _quantos de nós fariam diferente? Impossível saber. Agora, Lang, Lubistch, Murnau e outros caíram fora, não? Dona Leni "should have known better"... Imaginem a carreira que ela teria tido em Hollywood, filmando coisas bem mais bonitas?

    P. S. Don Adams e, mais ainda, Ronald Golias: muito obrigado!

    P. P. S. Já faz quase um mês (tá difícil encontrar tempo para escrever aqui, vocês sabem) que saiu esta matéria que cita o CCE, entre outros. A entrevista original ficou muito legal; caso interesse, peçam para eu publicar quando este espaço completar 4 aninhos, em abril de 2006...

    P. P. P. S. Alguns de vocês devem saber que não dou a mínima para o Oscar _meu negócio é cinema, não economia. Mas não tenho dúvidas de que a escolha de "2 Filhos de Francisco" para ser o concorrente brasileiro foi a melhor. O filme é emocionante e popular de uma maneira rara nos últimos anos, por aqui. Vamos ver se a gente reaprende a fazer cinema para o povo _mesmo que esse povo seja classe média, fazer o quê...

    P. P. P. P. S. Finalmente vi o tal de "Herói". É um lixão só. Parece comercial de Vinólia, só que pior!

    P. P. P. P. P. S. Falando em lixão, tremei: "A Volta do Regresso" vem aí. Graaaaande filme! Graaaaande sucesso!

    segunda-feira, agosto 29, 2005

    2 Filhos de Francisco

    É o amor.

    Em outra recente cinebiografia (não raro, um gênero difícil, por ser deveras vendido, mesmo quando supostamente politicamente incorreto, como em "Lenny", do Bob Fosse _que nem acho tão ruim, por sinal), a oscarizada "Ray", o personagem-título diz gostar muito de música caipira "por causa das histórias". Não só a música é uma linguagem universal, mas as experiências relatadas em toda forma de sons e imagens, que devem nos tocar quando existe um mínimo de identificação. E é mais fácil a maioria se identificar com a pobreza, não?

    Pois fui ver "2 Filhos de Francisco", mais um produto da Conspiração Filmes (por sinal, um dos "menos piores", adianto), e atrás de mim um senhor, antes da projeção (ocorrida numa sala da pobre-rica Avenida Paulista, imagem máxima da metrópole brasileira), se dizia pronto a entrar em contato com suas raízes. Ora, eu também; menos por ter crescido em uma cidade do interior, mais por ser filho de ex-engraxate e neto de bóias-frias e pedreiros (além de outros membros da família que são caseiros de sítio, porteiros de hotel, caixas de supermercado etc.).

    Voltando à questão da história: com um material tão interessante quanto a vida da família da dupla Zezé di Camargo e Luciano (enredo que casa perfeitamente com as propaladas jornadas do herói e tal), para que o filme resultante fosse ruim, a equipe envolvida teria de ser especialmente ruim. Então não impressiona nem um pouco que a obra sobre a dupla não seja considerada do mesmo nível que seus discos (os quais, por sinal, desconheço _nisto, o filme, espertamente, não ajuda).

    É aqui que a porca torce o rabo. Esse pessoal da Conspiração, a Paula Lavigne, o Guel Arraes, o Caetano Veloso, o próprio Zezé e sei lá mais quem envolvido só têm de bobos as caras. Como o cinema deixou de ser diversão popular por aqui há pelo menos duas décadas, o filme foi minuciosamente calculado para atender ao suposto "bom gosto" da classe média _em especial, no que tange os ouvidos. Então, em vez de sucessos da dupla (mesmo o megahit "É o Amor" é ouvido na versão de Maria Bethânia, escandalosa à época por burrice e preconceito), clássicos da música sertaneja (interpretados por Caetano e pela irmã _não ficou exatamente ruim, mas cheira a farsa), Roberto Carlos e outros mais palatáveis.

    Enfim, não tinha como o filme não ser bonito e não tinha como o filme não ser emocionante, por mais que se perceba com clareza as estratégias de manipulação do espectador (neste sentido, o filme nunca chega a ser desonesto). As coisas pioram muito quando Luciano envelhece, mas a bem-sucedida escolha do elenco (Ângelo Antônio está adorável) e algumas soluções de imagem (o ensaio de Camargo e Camarguinho tendo a enxada como microfone e a apresentação de um caixãozinho, por exemplo) ajudam a trazer um sorriso ao rosto. E, de vez em quando, até umas lágrimas.

    sábado, julho 30, 2005

    A Viagem de Chihiro / Procurando Nemo / A Fantástica Fábrica de Chocolate / Terra dos Mortos

    Só não abro pra essa gente que diz (a mim bem me importa...) que se uma pessoa é burra, é burra como uma porta.

    Entre as lembranças mais vívidas da minha infância (da época que eu ainda morava em Itapeva, de onde me mudei logo após fazer 6 anos) estão os desenhos animados japoneses; japoneses, vírgula: de um japonês, Osamu Tezuka, uma espécie de Disney deles _guardadas as devidas proporções. Do romântico "A Princesa e o Cavaleiro" ao mais aventureiro "Astroboy", complementavam minha dose de produtos culturais nipônicos, como as séries "Spectreman", "Ultra-Seven", "Robô Gigante" (sou velho demais para "Jaspion" e aquelas séries de boys-bands coloridas e boiolas) etc., todas recheadas de brigas com monstros em uma maquete de uma Tóquio em constante destruição.

    Mas os desenhos japoneses (assim como alguns europeus _especialmente os mais "do leste") sempre foram muito mais longe do que os produtos norte-americanos (invariavelmente baseados em super-heróis ou no supracitado tio Walt), em termos de enredo: na verdade, talvez fossem até inadequados para crianças, já que não economizavam na violência ou na carga emocional, enfocando assuntos doloridos como morte e saudade _com direito, inclusive, a requintes de escatologia. Uma outra visão pedagógica, talvez?

    Essas questões voltam à minha mente diante deste "Sen to Chihiro no Kamikakushi", de Hayao Miyazaki. A protagonista, uma menina de 10 anos, deve causar a identificação necessária mais pelas agruras do que pelas alegrias da infância: a princípio um tanto chatinha, medrosa e atrapalhada, é vítima da comum frustração infantil de não atrair para si atenção suficiente, atestado de desimportância. Mas isto acaba sendo suavizado não só pela beleza do traço e das cores de Miyazaki, mas principalmente pelo desbragado senso de fantasia tão bem-vindo a estas produções. Ao contrário do que dizem por aí, é um filme infinitamente melhor do que seu antecessor direto, "Princesa Mononoke" _este, com inúmeras cenas de mutilação e assassinato, além de um enredo bastante confuso, definitivamente não é para crianças.

    Em comum com "...Chihiro", "Finding Nemo" (se não me engano, o primeiro longa da Pixar-Disney que vejo) apresenta uma excelência absurda em termos de beleza plástica, mas as coisas vão parando por aí. A imensa fantasia do primeiro (favorecida por uma fantástica cultura milenar, bastante distinta da nossa, de ex-colônias européias que deixaram muito pouco da cultura autóctone de pé) é substituída por uma mera sátira social que busca identificação e humor em uma série de estereótipos reforçados pela antropomorfização de animais marinhos. Funciona que é uma beleza, mas, apesar de convencer como mistura de saga aventuresca e drama familiar, fica a anos-luz de distância do interesse gerado pelo fantástico mundo dos espíritos orientais.

    Já "...Nemo" e esta segunda versão de "Charlie and the Chocolate Factory", que mais uma vez une Tim Burton e Johnny Depp, chamam minha atenção por se tratarem de fábulas morais dirigidas... aos pais! Ambos são filmes infantis que falam mais aos adultos, que buscam corrigi-los, que praticamente passam um pito neles, ali sentados ao lado das crianças encantadas com o que quer que seja que passa na tela. De um lado, puxão de orelha nos pais que superprotegem suas crianças; de outro, nos que mimam e demonstram prepotência por meio da permissividade e da isenção da responsabilidade de educar e de preparar seus rebentos para os desafios da existência.

    Mais de um "colega" já andou classificando o filme de Burton como um "pesadelo", praticamente um filme de terror para crianças. Talvez estejam certos _eu mesmo, quando pequeno, lembro de ter ficado assustado com a cena na qual o gordinho é sugado no filme original, estrelado pelo fantástico Gene Wilder_; mas a coisa toda, pra mim, ficou mais numa mistura de moralismo um belo atestado de valorização da família (representada, acima de tudo, pela soberba imagens dos quatro avós de Charlie _Carlitos?_ deitados numa mesma cama). Se Charlie é tão bonzinho que chega a soar inverossímil (e, desconfio, gera antipatia nas crianças _meu eu menino provavelmente bateria num bundão daqueles) e as quatro outras crianças são tão monstruosas e repulsivas a ponto de não sabermos qual delas é a pior, é justamente a sexta criança da história, ninguém menos que o poderoso Willy Wonka, que é dotada de algum interesse. Um eremita duplamente traumatizado que se esforça (mas não muito) para se reintegrar e que fica visivelmente embaraçado quando as coisas não saem exatamente como planejado...

    Daí a gente passa para outro personagem dos mais pungentes a figurar nas telas, ultimamente: o zumbi Big Daddy de "Land of the Dead", mais um belo capítulo na saga iniciada há quase 40 anos por George A. Romero. Já ensaiada no anterior "Dia dos Mortos" (o qual eu preciso rever, já que a primeira impressão não foi das mais agradáveis _talvez por toda aquela atmosfera oitentista, horrível), a "re-humanização" dos mortos-vivos é mostrada de uma maneira incrivelmente tocante neste quarto episódio da série. De meras criaturas acéfalas, desesperadas pela sobrevivência (como se todos nós não passássemos por momentos nos quais não somos mais do que isso), algumas das vítimas (não as únicas), representantes máximas dos escombros de uma civilização, ganham arremedos de consciência, de capacidade de comunicação e, mais do que isso, de uma espécie de memória (especialmente emocionante é o momento em que nosso amigo Big Daddy, ex-mecânico, decide operar uma bomba de gasolina) que tornam impossível a não-identificação. As coisas deixam de ser tão simples (mas elas nunca foram tão simples, pelo menos nos filmes de Romero), e a gente se torna ciente de que... até os mortos-vivos têm direito à vida após a morte!

    P. S. Todos os quatro filmes de Romero com os zumbis são, à sua maneira, claustrofóbicos. Curiosamente, bem antes de "Por um Fio", meu velho amigo Alfred Hitchcock confabulou com François Fruffaut a respeito de um filme ambientado numa cabine telefônica:

    "Toda a ação de 'Disque M para Matar' se passa numa sala, mas isso não tem a menor importância. Eu também filmaria de bom grado um filme inteiro dentro de uma cabine telefônica. Imaginemos um casal de apaixonados dentro de uma cabine. Suas mãos se tocam, suas bocas se unem e, acidentalmente, a pressão de seus corpos faz com que o gancho se levante e o telefone dê linha. Agora, sem que o casal saiba, a telefonista pode acompanhar a conversa íntima entre eles. O drama avançou um passo. Para o público que olha essas imagens, é como se lesse os primeiros parágrafos de um romance ou como se ouvisse a exposição de uma peça de teatro. Portanto, uma cena na cabine telefônica confere a nós, cineastas, a mesma liberdade que a página em branco confere a um romancista."

    P. P. S. Eu vivo me esquecendo dessas coisas, vamos lá: o CCE foi objeto de pelo menos mais dois textos, recentemente publicados. Este aqui é de autoria de Marcelo Miranda e cita este espaço ao lado de outros blogs mais jovens, mais sérios e feitos com mais propriedade e capricho; já este outro é uma pequena entrevista feita por Rodney Brocanelli (que ficou com um perfil um tanto sério, mesmo com minhas tentativas de esculhambação _eu tinha visto "School of Rock" no dia anterior, sacumé). É isso aí, pessoal, tem gosto pra tudo!

    sábado, julho 09, 2005

    Glen ou Glenda / A Noiva do Monstro / Plano 9 do Espaço Sideral / Guerra dos Mundos

    A ciência, excitada, fará o sinal da cruz. E acenderemos fogueiras para apreciar a lâmpada elétrica.

    Já observaram que, quando algo é considerado "o pior de todos os tempos", é sempre sinônimo de sucesso (mesmo que póstumo, no caso de pessoas)? Não só pelo reconhecimento e pela notoriedade (mais pelas falhas do que pelos acertos), mas porque sempre é encontrado, debaixo de toda aquela incompetência, algo de qualidade, digno de ser lembrado. Isso é algo que pode ser observado em tudo quanto é campo (inclusive no de futebol); mas, no cinema, os exemplos costumam ser muito saborosos.

    O caso de Edward D. Wood, Jr. é clássico. Bem antes do maravilhoso filme de Tim Burton (o qual preciso _e vou_ rever com urgência), o dito "pior cineasta do mundo" (ou seja, dos EUA _mais especificamente ainda, de Hollywood) e alguns de seus asseclas (em especial, a estarlet meio feiosa Vampira e o ex-lutador Tor Johnson) já haviam virado objeto de culto. E não é difícil entender o porquê. Mais do que garantia de risos (embora nem todas as piadas sejam involuntárias; em "A Noiva do Monstro" há uma ótima: um investigador de polícia apresenta-se para uma secretária, dizendo "Sou Fulano de Tal, da Homicídios", a quem ela responde "Mas já faz quase um mês que eu não mato ninguém!"), apesar de um certo tédio permear boa parte dos filmes, é evidente que Wood tinha uma mínima compreensão do poder do cinema (em especial, da montagem e da trilha sonora _quem trabalhou com ele diz, acreditem se quiserem, que a grande preocupação dele era com os enquadramentos e a iluminação, e que ele não dava absolutamente a mínima para a performance dos atores, o que é evidente), além de uma genuína paixão pelo veículo.

    Quando isso tudo se alinha a um imenso senso de ética ao abordar um assunto extremamente pessoal (pelo menos, assim diz a lenda), a coisa pode ganhar contornos de "obra-prima doente". Este é certamente o caso de "Glen ou Glenda" (1953), um dos filmes mais bizarros que qualquer ser humano já viu. Baseado num caso clínico de mudança de sexo que acabou virando prato cheio para o sensacionalismo dos jornais (como o próprio filme explica), Wood, ex-herói da Segunda Guerra Mundial que escreve, dirige e atua, acaba tentando fazer um ensaio fílmico sobre o travestimo, "doença" da qual ele mesmo sofria.

    Idealizado como drama, com o intuito de emocionar e informar as pessoas sobre o tema, o filme acaba quase que saindo totalmente pela culatra, em grande parte, por ser inacreditavelmente confuso. A presença (inesquecível, por sinal) do húngaro Bela Lugosi (cuja parceria com Wood indica um cúmulo de decadência), no inexplicável papel de cientista (embora pareça mais um anfitrião de sessões televisivas de terror na madrugada), aparentemente está ali mais para matar o tempo e dar algum interesse à fita (que teria a chancela de um "astro", algo sempre necessário em Hollywood) do que para realmente conduzir a narrativa, já que há outro narrador, também cientista _ou melhor, médico, que busca dar um mínimo de autoridade às afirmações do filme (nos créditos, há uma espécie de "consultor médico", ou seja, tudo indica que Wood fez um trabalho sério de pesquisa, e que seu "Glen ou Glenda" era um projeto ambicioso e sério _pode-se dizer que o filme está para Wood assim como "8 1/2" está para Fellini ou "Stardust Memories" está para Woody Allen...).

    Em "Glen ou Glenda", tudo está ali para provar um ponto de vista (ou seja, o filme não poderia estar mais distante da categoria documentário _jornalisticamente falando, em especial). Os diálogos, os mais artificiais possíveis, servem para martelar a idéia de que o travestismo (e não o homossexualismo ou o transexualismo, como é frisado _para evitar censura, talvez? O próprio Wood é testemunha _assim como o nosso Mojica_ de que tudo quanto é "sadismo" ou "perversão" pode ser mostrado no cinema sem ser incomodado pela censura, desde que o final seja moralista, com o "mal" sendo devidamente punido) deve ser compreendido pela sociedade. Em um trecho particularmente interessante (por ser esquisitíssimo, mas também tocante e claramente à frente de seu tempo _pelo menos, no que tange as convenções sociais dos ditos pudicos anos 1950), os conceitos de perfeição de Deus (ou da natureza) são questionados para afirmar a normalidade da existência de "papéis sexuais" aparentemente confusos: "Se Deus quisesse que eu fosse menina, eu teria nascido menina. Mas a natureza também comete seus erros...".

    "Glen ou Glenda", além de tudo isso e muito mais, é também um filme... romântico. Dolores Fuller, namorada de Wood à época, interpreta seu par na história. Como num mundo de sonho, ela é compreensiva e declara ao terapeuta, ao saber dos "problemas" de Glen, que o amor é mais forte, e que a felicidade do noivo está acima de tudo. O plano em que ela dá a Glen o seu espalhafatoso casaco cor-de-rosa e felpudo (não à toa, destacado por Burton como a capa de sua homenagem ao diretor) é um dos mais emocionantes que já vi, um ápice da tolerância, do amor, da compreensão. Um momento luminoso num filme que, quando não chuta nossas gônadas, nos deixa perplexos por boa parte de sua curta (ufa) duração.

    Já "A Noiva do Monstro" (título que faz muito menos sentido do que o original, "Bride of the Atom"), de 1955, é quase que totalmente desinteressante justamente por ser muito mais convencional (ou seja, não tão ruim assim) do que os outros dois filmes de Wood citados neste texto. Claramente inspirado na série de James Whale sobre o livro de Mary Shelley, misturado à lenda do monstro de Loch Ness, o que se salva é mesmo a atuação "estilosa" (sacanagem, sacanagem) de Lugosi, além do inacreditável polvo de mentira que encarna o tal monstro do título. Curiosamente, é aqui que Wood consegue construir, de maneira minimamente bem-sucedida, uma narrativa baseada, acima de tudo, na montagem ("Glen ou Glenda" era bastante prejudicado neste sentido não apenas por investir em imagens de arquivo, não raro sem ligação clara entre os planos _o que também ocorre bastante em "Plan 9...", mas por outros motivos_, mas principalmente por ser um filme que não pretende contar uma história, mas defender uma hipótese). Não fosse o baixíssimo orçamento e o fato de os filmes de monstro terem deixado de ser vanguarda há décadas (o que há de interessante é justamente o contexto histórico da Guerra Fria e da corrida atômica entre EUA e URSS), quem sabe "Bride of the Monster" não poderia ter se tornado um clássico do gênero?

    "Plan 9 from Outer Space" (que também teve seu título alterado, como praticamente todos os filmes de Wood _o original, "Grave Robbers from Outer Space" entregava mais o protótipo de enredo, mas teve de ser alterado porque, como vimos na cine-bio-homenagem de Burton, os financiadores eram religiosos batistas, que inclusive obrigaram toda a equipe a ser... batizada), de 1956 (lançado somente em 1959), é o mais célebre _justamente por ser o pior. É absolutamente incrível que Wood o tenha finalizado, apelando para todo tipo de gambiarra imaginável, após a morte de Lugosi _que "quase" estrela o filme. Para começar, Wood nos "mostra" que a personagem de Lugosi foi atropelada fora de quadro _não por sofisticação no uso da elipse, mas por ter enfiado no filme imagens caseiras do ator. Depois, quando a personagem é ressuscitada por alienígenas, quem a interpreta durante quase o tempo todo (obviamente, cobrindo o rosto com a capa, apesar de ficar claro que não se trata da mesma pessoa) é simplesmente o... quiroprata da mulher de Wood, que protagoniza um dos momentos mais hilários do filme: ao atacar o herói, sua capa se desprende, mas o quiroprata é esperto e consegue segurá-la, impedindo que Wood peça para refazer a tomada (se é que ele ia refazê-la).

    Aliado a tudo quanto é tipo de erro de continuidade possível (é fácil entender as intenções de Wood ao ordenar os planos _difícil é abarcar a magnitude da tolerância do diretor para os erros mais crassos, como alternar dia e noite, externas e estúdios e outros absurdos mais), está o baixíssimo nível dos diálogos (quanto à qualidade da interpretação dos atores, nem se fala), a ponto de a coisa entrar num nível de nonsense que, se proposital, seria um marco da comédia. Já começamos com um tal de Criswell (uma espécie de Mãe Dinah deles, que previu que o mundo vai acabar em 18 de agosto de... 1999), obviamente lendo o seu texto, dizendo que "todos estamos interessados no futuro, pois será lá que passaremos o resto de nossas vidas. E lembrem-se, meus amigos, eventos futuros como este irão afetá-los no futuro!". Outra frase clássica, dita por um dos sempre apatetados policiais (no caso, o mesmo Kelton de "A Noiva do Monstro"!): "É muito difícil procurar, especialmente quando a gente não sabe o que está procurando!"; e o diálogo que praticamente define o filme: "Esta é a história mais fantástica que já ouvi!", "E é tudo verdade!", "Esta é a parte mais fantástica!". Pois é, não apenas é fantástico que um filme como "Plano 9 do Espaço Sideral" exista e seja considerado um "cult"; mais fantástico ainda é saber que Wood, cujo ídolo era ninguém menos do que Orson Welles, realmente tentou fazer o melhor que pôde... E não é que ele fez?

    Quanto a "Guerra dos Mundos", o novo blockbuster de Spielberg estrelado pelo megapopstar Tom Cruise: à primeira vista, é um filme que não tem muito de memorável. Por um lado, parecia que se tratava de uma volta às raízes do diretor de "Encurralado" e "Tubarão" (e, realmente, o filme é extremamente tenso, mal te dá uma folga), por ser, apesar do orçamento de vulto, um projeto bastante despretensioso (há quem fique vendo "aspectos políticos" aqui e ali, mas nunca é isso que está em primeiro plano). Mas a obra deixa de lado inclusive o grande sentimentalismo do diretor de lado (as relações familiares, embora tenham posição central na história, não são melodramaticamente carregadas) para se concentrar num "mezzo thriller mezzo road movie". Mesmo durante o filme (que não chega aos pés de "Minority Report", a parceria anterior de Spielby e Cruise) eu ficava me lembrando de "Marte Ataca!", do nosso amigo Burton _um filme que nem chamou muito a minha atenção, mas que cresce imensamente na memória, comparado a este aqui. Ainda bem que passa...

    P. S. Falando em travestismo, existe filme mais legal sobre o tema do que "Vestida para Matar", do De Palma? Só aquela seqüência no museu é de uma maestria... Mas tem muito mais.

    quinta-feira, junho 30, 2005

    O Meu Boi Morreu / Cupido É Moleque Teimoso / Tarde Demais para Esquecer

    What a perfect combination, no wonder we're in love.

    Diante de um título como "O Meu Boi Morreu", das duas, uma: ou é muito bom ou é muito ruim. Mas basta olhar para o nome do diretor, que a dúvida se desfaz na hora: quem assina o filme, de 1932, é Leo McCarey, uma das figuras mais proeminentes (hoje, meio esquecida, injustamente) da "era de ouro" hollywoodiana, que tinha no rol de admiradores gente do porte de Jean Renoir e Charles Chaplin _como já falei no texto sobre os Irmãos Marx ("Duck Soup" foi feito depois deste), McCarey é apenas o cara que criou o Gordo e o Magro, entre muitas outras coisas...

    Aí o filme começa e, com o desenrolar dos créditos, vemos que o diretor de fotografia é o Gregg Toland (imortalizado por "Cidadão Kane", embora tenha feito bem mais do que isso); quem também marca presença é Busby Berkeley (sabe aquelas coreografias com meninas mergulhando em uma piscina, uma atrás da outra? Pois é, está tudo aqui), ainda antes de se tornar diretor. Pronto:
    já estou mais do que fisgado, pronto para assistir a um belo filme.

    E não sou desapontado: apesar de ter como protagonista Eddie Cantor, um cômico considerado bastante limitado, o filme consegue equilibrar de forma magistral seus aspectos de musical (são apenas quatro temas repetidos durante o filme, e todos funcionam), comédia e romance. Com um destaque especial e impressionante para o erotismo (contrastando com a fama de católico e conservador que marcaria McCarey); o filme é permeado por uma licenciosidade rara nos filmes da era Bush, eficaz (e mais poderosa, beirando o vulgar) justamente por ser apenas insinuada.

    "The Kid from Spain", assim como os filmes dos Marx, também é exemplar por ilustrar como as primeiras comédias com som sincronizado mudaram tudo (na verdade, retrocederam) e apostaram no texto (as tiradas verbais vêm uma atrás da outra, algo bem Mae West), embora McCarey seja um mestre do cinema e nunca deixe que a imagem fique totalmente em segundo plano (os exemplos são muitos). Também vemos aqui a mesma base das famosas comédias estreladas nos anos 40 e 50 por Martin & Lewis (guardadas as devidas proporções, é claro): um galã romântico às voltas com um trapalhão que vive se metendo em encrencas. Mas se você acha que é tudo clichê e que não vai se surpreender com nada... tem que ver para crer.

    Cinco anos depois, McCarey estava indo de vento em popa: além de ter feito um de seus clássicos, o drama "Make Way for Tomorrow" (que, lamentavelmente, ainda não pude ver), ganhou o Oscar de melhor direção por este "The Awful Truth" (que também ganhou um título brasileiro estrambótico), uma das comédias mais sofisticadas (embora o próprio McCarey discordasse deste adjetivo) que já vi e a estréia de Cary Grant no gênero, estrelando ao lado da ótima Irene Dunne. O estilo de McCarey está mais depurado, e tudo é mais sutil, embora até humor físico seja usado (Grant despencando fantasticamente de uma cadeira, por exemplo). A ingenuidade do roteiro é apenas aparente e, embora McCarey afirme que tudo foi feito às pressas, com baixo orçamento e na base do improviso, as cenas se encaixam belissimamente; tudo é muito bem pensado (ou, pelo menos, aparenta ter sido). Coisa de mestre.

    Já "An Affair to Remember", feito 20 anos depois e também estrelado por Grant, é um remake de "Love Affair", filme de McCarey datado de 1939 e estrelado por Irene Dunne. Não vi o original, que praticamente todo mundo, inclusive McCarey, diz ser superior. Mas foi o filme de 1957 que estourou nas bilheterias, talvez por estar mais em voga, em tempos de Douglas Sirk e afins, romances edulcorados como este, que começa como comédia mas desemboca no melodrama. Apesar de inferior aos outros filmes comentados neste texto, a mão de mestre do diretor se faz sentir em vários momentos: um primeiro beijo fora de quadro, o reflexo do Empire State numa janela e mais... Saudade da época em que os diretores dos grandes estúdios americanos sabiam filmar!

    P. S. Com a palavra, Leo McCarey, em entrevista a Peter Bogdanovich, após comentar um trecho de "An Affair to Remember" (e, de quebra, nos dando uma pequena, mas valiosa, aula de roteiro):

    "Todos os meus filmes são construídos desse modo. Na verdade, tenho uma teoria sobre isso, que chamo de inelutabilidade dos acidentes. A idéia é a de que, se algo acontece, outras coisas decorrem inevitavelmente disso _como a noite após o dia; os eventos são ligados entre si. Sempre desenvolvo as minhas histórias dessa forma, uma sucessão de incidentes, que decorrem uns dos outros. Nunca trabalho com mistérios."

    P. P. S. No final do ano 2000, época em que eu era repórter do Folhateen, tive a honra de conhecer pessoalmente um dos gigantes do cartunismo norte-americano, Jerry Robinson. O homem tem uma biografia fantástica, mas, apesar de ter feito muita coisa importante, ele acabou ficando mais conhecido pelo grande público como o criador, ao lado do roteirista Bill Finger, do Coringa e do Robin (Robin...son, sacaram?), quando assumiu a tira "Batman", criada por Bob Kane. Ouvi da própria boca de Robinson, sentado ao lado dele no hall do Cinesesc, que nem ele nem ninguém sequer podiam imaginar que uma tirinha de jornal infanto-juvenil e despretensiosa como "Batman" poderia vir a se tornar um negócio tão grande _é como se, decepcionado, ele se desse conta de que o mundo não é mesmo um lugar sério, e que os valores da maioria das pessoas acabam estacionando numa escala muito baixa... Dois ou três dias depois, ainda em São Paulo (e antes de a minha entrevista ser publicada, na mesma página com outro texto meu, sobre os 20 anos da morte de John Lennon), Robinson teve um enfarte. Felizmente, não foi dos fatais.

    Mas por que é que estou falando disso, mesmo? Ah, por causa de um filminho aí, o tal do "Batman Begins" (sim, ninguém mais se digna a traduzir filmes, é a globalização _não seria divertido se o mesmo indivíduo que batizou "The Kid from Spain" de "O Meu Boi Morreu" e "The Awful Truth" de "Cupido É Moleque Teimoso" transformasse este aqui em "Morcego Neurótico, Espantalho Nervoso"?). Que nem chega a ser tão ruim, coitado; até tem um roteirozinho bem construidinho e tal, pasteurizadíssimo, como pede a média dos blockbusters "me-engana-que-eu-gosto" hollywoodianos. Na verdade, mais do que ter como protagonista um ator ruim (Adam West segue imbatível!), o filme peca por não fazer uma transposição encantadora e bem-sucedida (como ocorre nos recentes "X-Men" de Synger e nos "Homem-Aranha" de Raimi) das HQs para a tela. O único personagem minimamente compatível é mesmo o James Gordon de Gary Oldman _embora o Espantalho de Cillian Murphy mereça uma menção honrosa. Mas ainda não foi desta vez que o morcegão ganhou uma versão cinematográfica à altura. Quando é que vão mandar o Robert Rodriguez filmar "O Cavaleiro das Trevas" em parceria com o Frank Miller (depois que eles terminarem os números 2 e 3 de "Sin City", claro)?

    terça-feira, maio 31, 2005

    Mulheres e Luzes / Abismo de um Sonho / Os Boas-Vidas

    These chains of sorrow, they are heavy, it is true. And these locks cannot be broken, no, not with one thousand keys. Ai, que viadagem.

    Vendo um documentário sobre Pier Paolo Pasolini, no DVD de "O Evangelho Segundo S. Mateus", comentado aí embaixo, um entrevistado na rua elogia bastante o diretor. Aí o repórter pergunta: "E Fellini?". O transeunte abre um sorriso e fala algo como: "Fellini não é só o melhor da Itália, é o melhor do mundo!". Mas era mesmo?

    Não é de hoje que me impressiono com as semelhanças entre Itália e Brasil, não só no que tange o caráter dos dois povos (mas sou meio suspeito pra dizer, já que sou descendente de "carcamanos", com direito a olhos claros e tudo), mas, em especial, num certo tipo de cinema. Diante destes primeiros esforços de Federico Fellini na direção, datados do início dos anos 1950, fica bem evidente o modelo trazido para cá na mesma época, graças a um intenso intercâmbio (na verdade, mais de lá para cá do que o contrário) que rolou (vocês sabem, Franco Zampari, Adolfo Celi, a Vera Cruz etc.).

    Pois "Luci Del Varietà" (1950 _este dirigido em parceria com Alberto Lattuada) e "Lo Sceicco Bianco" (1952), principalmente, lembram bem de perto algumas de nossas então criticadíssimas chanchadas _inclusive na pobreza da produção, na falta de capricho dos enquadramentos, da montagem, da decupagem, da cenografia etc., adicionando a isto a extrema, quase patética, ingenuidade dos roteiros (intensificada por interpretações bastante caricatas, como a de Leopoldo Trieste no filme de 1952). Mas, apesar de todos estes problemas, é possível vislumbrar, com certa boa vontade, um prenúncio das obras maiores do diretor _à época, certamente bastante pressionado por questões comerciais, que impediam uma expressão autoral mais explícita.

    Nestas obras ainda embrionárias, o que se destaca mesmo como oásis de qualidade assegurada é a música (tanto as canções-chiclete apresentadas em "Mulheres..." quanto à primeira da série de trilhas de Nino Rota para as películas fellinianas em "Abismo...") e a sempre brilhante Giulietta Masina _em especial no primeiro filme (que registra também a estréia da carioca Vanja Orico, antes da consagração/rotulação com "O Cangaceiro"), como Melina Amour, onde ela pôde mostrar sua versatilidade como atriz dramática (sua expressão facial é absolutamente fantástica), antes de ser pasteurizada pelo sucesso a partir de Gelsomina; em "Abismo...", temos uma participação especial que marca a primeira aparição de Cabíria, a "puta com coração de ouro".

    Com "I Vitelloni" (1953), podemos notar um início de virada que se intensificaria em "La Strada" e em "Noites de Cabíria" (ainda não vi "A Trapaça", alguém conhece?) e que serviria de grande inspiração para cineastas como Martin Scorsese. A história de um jovem (Franco Interlenghi, revelado ainda menino por De Sica em "Sciuscià" e ativo até hoje) que sai de uma pequena cidade litorânea (a voz que se despede ao final é a de Fellini _Scorsese faria algo parecido ao dublar os pensamentos de Harvey Keitel em "Mean Streets") já serve como um primeiro alter ego do diretor, aqui em tom que fica mais para o dramático, embora o quinteto formado pelos boas-vidas do título esteja mais para o irreverente, mesmo. Pelo menos temos um aproveitamento melhor de Alberto Sordi, cujo carisma ficou meio embaçado em "Abismo...", e um Leopoldo Trieste menos bobão. Nada muito desprezível, mas ainda a anos-luz de gigantes como Visconti e Rossellini.

    P. S. Admiro a erudição de Peter Greenaway e seu claro desejo de fazer arte, e não meros produtos culturais. Só falta ele fazer grandes filmes. Após abandonar "Prospero's Books" e "O Livro de Cabeceira" pela metade, finalmente encarei uma de suas obras na totalidade, só porque se tratava de uma homenagem a Fellini. Mas "8 Mulheres ½" (1999) não cumpre exatamente o que promete (apesar de homenagear o cineasta italiano mais do que explicitamente _aliás, finalmente vi "8 ½", e me decepcionei tremendamente, embora saiba que ele vai melhorar na revisão); o falatório é insuportável, e a composição de imagens deixa a desejar (Wim Wenders e seu "Tokyo-Ga" humilham). Para piorar, é um filme extremamente pudico e gélido (mesmo a nudez de Toni Collette e de Polly Walker são cruelmente desperdiçadas), típico de gente que prefere falar a fazer. Chamem o Tinto Brass!

    P. P. S. OK, ando vendo bastante filmes, mas está difícil arranjar tempo e disposição para comentá-los aqui (tenho escrito algo no Multiply, também esporadicamente). Então vamos, rapidinho, dar uma pincelada sobre as últimas coisas que andei vendo no cinema:

    "Star Wars - Episódio 3 - A Vingança dos Sith - Eita Título Longo": é só mais um "Star Wars". Não há muito a dizer. Lucas não é um gênio, também não é um merda; simpatizo com o homem, no final das contas, mas o fanatismo excessivo dos "trekkers" (OK, sacanagem) é absolutamente ridículo, coisa de gente que não apanhou o suficiente na infância (será que eles também escutam Legião Urbana até hoje?).

    "Quanto Vale ou É por Quilo?": uma das frases que aparecem na tela poderia servir como título alternativo do filme, "A Denúncia como Negócio". Sérgio Bianchi diz que quer "provocar" ou coisa que o valha; para ele, no Brasil (quiçá no mundo inteiro), todo mundo é filho da puta. Só que ironia é uma coisa, perversidade, outra; não há muita graça no roto falando do esfarrapado. O que o diretor prova, por A + B, é que para ganhar dinheiro (dos Correios e de outrem), o lance é explorar pobres e negros, abusando da violência. Parabéns!

    "Bom Dia, Noite": Não tou nem aí se é de direita ou de esquerda. Quando até a breguice de botar Pink Floyd na trilha funciona, aí tem coisa. Ou melhor, talento. Chupa, Bruno Barreto!

    "A Vida Marítima de Steve Zissou": Não é maravilhoso, mas é maravilhoso, entendeu? Hilário, mas, principalmente, emocionante. "É tudo uma aventura."

    sábado, abril 30, 2005

    O Evangelho Segundo São Mateus / A Última Tentação de Cristo

    If you strip away the myth from the man, you will see where we all soon will be.

    Saindo da sessão de "A Paixão de Cristo", perguntei a um dos amigos que encontrei lá (coisa meio rara, vários amigos comparecendo à mesma sessão sem combinar nada _se tivéssemos combinado, provavelmente não teria dado certo): "E aí, foi convertido?". Claro que era brincadeira, porque um filme daqueles não converte ninguém a nada, só assusta, aterroriza ou, no meu caso, entorpece.

    Muito diferente é o caso de "Il Vangelo Secondo Matteo" (1964), de Pier Paolo Pasolini. Não que eu tenha sido convertido à alguma coisa ou que fazer um filme que "evangelizasse" (pelo menos, religiosamente _quando partimos para o lado político, a coisa muda de figura) tenha sido o propósito do diretor (sempre tachado de ateu, comunista e gay _"herege" também costuma ser usado para classificá-lo). É muito interessante ver que o filme de um descrente (dedicado ao papa João XXIII, o "papa bom" _este Bento XVI não é a cara do Imperador Palpatine?) é muito mais cristão do que o de um crente.

    Mas é muito difícil um filme baseado nos evangelhos dar totalmente com os burros n'água (caso do filme do Mel Gibson e de alguns outros, como o "Jesus de Montreal", daquele chato do Denys "As Invasões Bárbaras" Arcand), porque a história é simplesmente boa demais. Tem drama, romance, política, ação etc. Tem tudo. Mas Pasolini, em vez de buscar emocionar as platéias por meio do drama, encena o primeiro dos evangelhos com certa frieza, que, paradoxalmente, acaba atingindo em cheio o espectador _muito por causa da música e dos acertos de casting.

    Já começamos o filme com um plano dos fantásticos olhos (e da estranha boca, que nunca fala) de Margherita Caruso (em seu único filme); outra presença extremamente marcante é a do espanhol Enrique Irazoqui, perfeito como um Cristo jovem, bonito porém exótico (aquela monocelha...). Pasolini, de certa forma, mostra que a santidade é bela, mas muito esquisita.

    O Jesus de Pasolini tem muito pouco de humano (como convém a filmes que agradem ao Vaticano); prega com dureza, deixa claro que quem ama a sua família mais do que o Filho de Deus não é digno de segui-lo; que não veio para trazer a paz, e sim para trazer a espada (frase que também aparecerá no filme de Scorsese); que sua mensagem é definitiva e deve ser espalhada por todas as nações. Considerado por muitos como um marxista "avant la lettre", o Jesus de Pasolini insiste na idéia de que é mais fácil um camelo passar por um buraco de agulha do que um rico ganhar a vida eterna. Mas também deixa bem claro que é preciso ser como as crianças, e demonstra com sutileza a importância da fé na belíssima cena em que anda sobre as águas.

    Diferentemente do filme de Gibson, Pasolini entende que o que move é a palavra (e agora me lembro de que preciso escrever um dia sobre o filme do Dreyer...), e deixa seu Jesus em primeiro plano, por minutos a fio, desfiando o evangelho de Mateus. Em outro momento importante, nos mostra o julgamento de Cristo por meio dos olhos de Pedro, numa subjetiva incrível (a maioria dos cineastas trabalharia com cortes e enquadraria Jesus com câmera baixa; Pasolini supera esta mediocridade e atinge momentos de grande cinema). Considerando a proposta do diretor, é de uma grandeza ética impressionante.

    Mas entre as muitas coisas que mais impressionam neste filme (até agora, o melhor que já vi a respeito da vida de Cristo _sim, bateu até o "Rei dos Reis" do Nicholas Ray, pelo menos até uma revisão deste) está a música. Pasolini foi extremamente feliz na escolha da trilha sonora; a música que abre o filme é ao mesmo tempo sacra e profana, com uma percussão que nos remete à África; sempre que ela aparece (e, aqui, a importância dos cortes bem feitos também é imensa) é para causar um tremendo impacto, seja na ressureição de Cristo ou, especialmente, na cura de um leproso que faz o Homem-Elefante parecer uma Miss Brasil. Outro momento acachapante é quando Jesus é condenado à morte e Judas se arrepende, jogando as moedas aos zelotes: começa a tocar um blues (!!!), daqueles bem rústicos e doloridos. É preciso ver para crer, homens de pouca fé.

    Já o filme que Martin Scorsese tanto lutou para realizar (Sidney Lumet andou interessado em adaptar o livro de Kazantzakis, mas era mesmo mais interessante que um católico o fizesse) deixa logo de cara que não é inspirado pelos evangelhos, e sim uma tentativa de compreender as contradições da carne e do espírito (tema que, de certa forma, aparece em todos os filmes do diretor). Willem Dafoe aparece como um Jesus que não inspira grande admiração, pelo contrário: é uma vítima, um mero títere atormentado por vozes e sombras. Como ele próprio diz, seu deus é o medo. E o medo sempre foi algo tremendamente ligado ao sentimento religioso (Mel Gibson e esses pastores evangélicos salafrários que o digam).

    O Jesus de Scorsese, ao contrário do de Pasolini, se mostra contraditório, imperfeito, bem mais perto de ser humano: ele quer matar as pessoas que estavam apedrejando Maria Madalena, mas, quando abre a boca, o que sai é amor; mais tarde, quando vai ao templo acompanhado de seus seguidores, o que ele prega é o uso do machado, para derrubar a árvore da maldade dos homens; mas, ao final, sua sina é o sacrifício. Não ouvimos da boca dele palavras fortes; mesmo quando opera milagres, o faz às custas de muito sofrimento ou de certa soberba (quando transforma água em vinho, deixa transparecer fanfarronice). Quando deixa a cruz e vai viver como um homem, de repente passa a ver a beleza do mundo, mas de uma redoma imaginária, quebrada apenas quando se encontra com Paulo, que lhe informa que existe um Jesus muito mais importante, que morreu e ressuscitou. Quando decide voltar a ela e abraçar o seu verdadeiro destino, o filme... O que acontece com o filme? Ah...

    P. S. Falando em Scorsese (e em pais e filhos), vamos a ele, em mais um trecho de "Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano":

    "Você não podia escapar do sistema; estava em dívida com a quadrilha por toda a vida; eles usavam você para sempre. Queriam que você sacrificasse sua própria família. Essa demência culminou em 'O Poderoso Chefão', de Francis Coppola. Como Al Pacino descobria ao voltar da Segunda Guerra Mundial, o filho tinha que seguir o caminho criminoso de seu pai. Quando você era um Corleone, não havia como despir o uniforme. Era uma família infeliz, unida pelo medo e dilacerada pela traição, mas você a servia sem nem sequer qustionar sua legitimidade _como se ela fosse seu país. Os valores americanos _família, livre iniciativa, patriotismo_ eram virados do avesso. O próprio individualismo estava morto. A organização era um estado dentro do estado; o gângster, um presidente de conselho; e o crime, um meio de vida."

    quinta-feira, abril 14, 2005

    Retrospectiva: três anos na tela

    Como acredito piamente que os incautos (e surpreendentemente numerosos!) visitantes deste rincão esquecido pelos deuses têm uma cultura vastíssima e sofisticada, certamente vocês sabem o que um tobogã disse para o outro. Pois é, vejam só, quem diria: este endereço completa hoje três anos de existência. Considerando que os primeiros textos publicados aqui, em 2002, pertenciam a outro site que eu tinha desde 2001, façam as contas... Muita água rolou de lá pra cá. Mas não precisamos falar (muito) sobre isso.

    Este texto comemorativo de aniversário, tradicionalmente, serve para recapitular um pouco do que rolou por aqui no ano que passou (além de ajudar a quem quiser consultar algum texto específico sobre determinado filme _embora eu não saiba porque alguém em sã consciência faria uma coisa dessas). Também serve para esclarecer algumas coisinhas muito básicas e fundamentais, a saber: este site não é dedicado à crítica cinematográfica (eu não escrevo resenhas de filmes aqui _para outras publicações, até penso no assunto, desde que você seja meu amigo ou me pague decentemente ou seja uma mulher gostosa e insaciável que saiba cozinhar e fazer massagem) e eu não sou "cinéfilo" (não que eu não ame o cinema; amo, pratico e dou muito dinheiro pra esse miserável. É que a palavra me soa preconceituosa, e eu tenho uma vida sexual ativa demais para ter esta pecha colada em mim; desculpa aí, gente). Quem quiser mais esclarecimentos, pode perguntar depois, no nosso espaço nobilíssimo, a área de comentários otários (bom, só os meus são otários... geralmente).

    Dando uma olhada no ano que passou, dá pra perceber com clareza que o tempo escasseou muito; em compensação, creio que os textos estão mais equilibrados: ao mesmo tempo menos pernósticos, porém menos frívolos. Sabem como é, algumas coisas são como o vinho: dão uma baita dor de estômago...

    Mas o importante mesmo é agradecer a todo mundo e... ué, cadê a minha coroa de espinhos?

    Abril

    Nanook, o Esquimó / O Homem da Câmera / The Beatles Anthology
    Retrospectiva: dois anos na rede
    Glória Feita de Sangue / Nascido para Matar / Casablanca / De Crápula a Herói
    Festim Diabólico / A Dama de Shanghai / O Veredicto / O Sol É para Todos

    Maio

    Barravento / A Terra Treme / Diários de Motocicleta / 25 / Di
    Kill Bill Vol. 1 / Era uma Vez no Oeste

    Junho

    Pulp Fiction / Scarface (1983) / Platoon / Matador

    Julho

    Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban / Shrek 2 / Homem-Aranha 2
    Cazuza - O Tempo Não Pára / Amadeus
    Tróia / Gladiador / Coração Valente

    Agosto

    Igual a Tudo na Vida / Edu Coração de Ouro
    Harakiri / Lugares Comuns / Fahrenheit 9/11

    Setembro

    Minha Esperança É Você / A Vila / O Garoto Selvagem / Cama de Gato
    Barry Lyndon / Dr. Fantástico ou Como Aprendi a Parar de me Preocupar e Amar a Bomba

    Outubro

    Super-Homem: o Filme / Super-Homem 2: A Aventura Continua / Super-Homem 3
    Kill Bill Vol. 2

    Novembro

    Nina / Balanço da Mostra 2004

    Dezembro

    Má Educação / Labirinto de Paixões / Thriller - A Cruel Picture

    Janeiro

    Reinado de Terror / Pueblerina
    Peões / Entreatos / Meu Tio Matou um Cara
    Alexandre / Eureka/ Sobre Café e Cigarros

    Fevereiro

    Closer - Perto Demais / Menina de Ouro
    O Aviador / Alice Não Mora Mais Aqui / Depois de Horas / Quem Bate à Minha Porta?

    Março

    Diabo a Quatro / Um Dia nas Corridas / Uma Noite na Ópera

    P. S. Como o aniversário é nosso, mas o presente... também é nosso, segue aí de lambujem um inacreditável texto gerado a oito mãos (as de Ana, Marcelo, Danilo e Maurício) neste outro logradouro virtual. Com vocês, "A Manca":

    "Ele sempre bebia às sextas-feiras. Ele sempre ficava alterado. Ele sempre achava que a manca, garçonete do boteco, era a mulher da vida dele.
    Mas ele tinha uma maneira meio estranha de chamar a atenção da manca. Sempre que ela passava por sua mesa, exibindo aquele rebolado peculiar, ele dizia algum sutil galanteio, como:
    _ Psst! Ô, gostosa!
    Ou como:
    _ Ô, coxuda!
    Ou ainda:
    _ Chuchu da minha marmita!
    Como a manca não se mancava e sempre o ignorava, uma hora ele resolvia apelar para a ignorância: passava uma rasteira na moçoila. Esta, ao estatelar-se no chão, se limitava a olhar, perplexa, para ele, que dizia:
    _ Tô falando com você.
    Até que, numa sexta-feira, a manca não deu as caras no bar.
    Nem na outra sexta. E nem na outra.
    Foi quando ele parou pra perguntar pra um outro garçom:
    _ Ô meu, cadê aquela moça manca?
    _ Ah, vai casar com o dono do bar...
    Diante desta espantosa revelação, o jovem e ébrio galant reuniu toda a potência de seus neurônios combalidos pela marvada e procurou formular uma complexa sentença. Mas, em vez de algo como "Por que coxa, se bonita? Por que bonita, se coxa?", o que saiu foi:
    _ Que me importa que a mula manque, eu quero é rosetar!
    Decidido a conquistar a mulher da sua vida e informado do endereço da mesma, dirigiu-se à residência daquela ingrata, munido de uma garrafa de Velho Barreiro. Chegando lá, deparou-se com as venezianas cruelmente fechadas (também, eram três da manhã). Caprichou na mira bêbada e atirou a garrafa na janela da amada (mas acabou acertando um gato preto que passava por ali), gritando, com toda a força de seus pulmões:
    _ Grandes são os desertos, minha manca! Grandes são os desertos!
    Mas o que o nosso miserável herói não sabia era que a manca, além de manca, era surda-muda...
    Sua amada manca-surda-muda não acordou. Porém, sua vizinha, cega e dona do gato, saiu à janela chamando pelo animal.
    A deslumbrante visão de uma mulher de óculos escuros a tatear o vazio em frente a própria janela e a gritar no meio da madrugada fez com que ele, mais desesperado ainda, tivesse um ataque de diarréia bem naquele momento, bem naquele lugar.
    Felizmente, a manca, que era surda-muda, mas tinha um olfato excelente, abriu a janela e, vendo seu fiel cliente em apuros, desenrolou um papel higiênico como se fosse Rapunzel jogando as tranças para seu amado.
    Nosso herói, tocado pela generosidade da manca, não se importou por ela ser manca, surda e muda, mesmo após ficar sóbrio. E a manca surda e muda finalmente ficou sabendo que aquele homem, a quem havia servido tantas vezes, lhe dirigia galanteios à mesa, em vez de querer ensiná-la a lutar capoeira. Pena que a manca também tinha cisticercose, mas esta é uma outra história."

    domingo, março 13, 2005

    Diabo a Quatro / Um Dia nas Corridas / Uma Noite na Ópera

    This is your life, don't play hard to get. It's a free world, all you have to do is fall in love.

    Eu gosto muito de música. Como alguns devem saber, até me sustentei durante algum tempo fazendo críticas de disco, cobrindo shows e entrevistando popstars (inclusive fodões como Chuck Berry e Lou Reed, pessoalmente). Mas esta é a parte chata da coisa. A parte legal é que a música tem um poder especial (como o cinema também tem, mas de uma forma menos dinâmica, creio) de potencializar (ou, em certos casos, neutralizar _por exemplo, se me sinto deprimido, escuto Clash e fico pronto pra outra) sentimentos.

    Então, se eu ando com altos níveis de testosterona, ouço The Who (ou The Stooges) para extravazar; só falta eu sair pra brigar na rua (especialmente com o Who, que é praticamente banda de hooligan). Já quando estou sensível, como atualmente (será a gripe ou o jejum?), eu ouço Queen. Porque o Freddie Mercury é uma bicha romântica e melancólica, é o Álvares de Azevedo do rock inglês. Só o Frederico Mercúrio é capaz de escrever versos como "I could give up all my life for just one kiss", que pode parecer exagero, mas que descreve algo que todo mundo já sentiu ou vai sentir.

    Pois dois dos CDs do Queen são homônimos de filmes estrelados pelos Irmãos Marx, "A Night at the Opera" e "A Day at the Races", dos quais falaremos a seguir. Antes vamos falar de "Duck Soup", mas, antes ainda, falemos dos Brothers, que tornaram-se famosos na Broadway do início dos anos 1920. Seus dois primeiros filmes, "The Cocoanuts" (1929) e "Animal Crackers" (1930), eram transposições de suas peças, algo típico do início do cinema com som gravado. Esse tom geral de "teatralidade" grudou em suas obras, não importando muito quem as dirigisse.

    "Duck Soup", de 1933, (no Brasil, "Diabo a Quatro", um bom título), é considerado por muitos o melhor da trupe, talvez por ser o único dirigido por um cineasta de renome, Leo McCarey (só o homem que juntou Laurel & Hardy). Mas a história ambientada em Freedonia, (com destaque para o número musical que comemora uma declaração de guerra, na qual todo mundo começa a dar coices _não é à toa que Mussolini proibiu o filme na Itália_, e para a clássica cena do espelho, imitada no Brasil com Oscarito e Eva Todor e refeita por Harpo com Lucille Ball em um episódio de "I Love Lucy"), foi um fracasso de público e quase declarou o fim da carreira cinematográfica dos Marx. Graças a Irving Thalberg, da MGM, eles, então convertidos em trio (Gummo e Zeppo ficaram de fora), ganharam novo fôlego e fizeram sucesso com "Uma Noite na Ópera" e "Um Dia nas Corridas". Mas, pelo pouco que conheço da obra deles (além destes, acho que só vi "Horse Feather" _ou "Os Gênios da Pelota"), o período inicial deles na Paramount é mesmo mais interessante, talvez por ser mais irreverente.

    "A Night..." e "A Day..." são obviamente filmes irmãos, muito parecidos, e carregam a série de clichês dos Marx, como Chico (apelidado assim por ser mulherengo _ou seja, gostar de "chicks") tocando piano com seu indefectível estilo "pistolinha", Harpo deixando de fazer careta enquanto toca harpa e Groucho às voltas com uma ricaça abobalhada (sempre a ótima Margaret Dumont, uma escada e tanto). Allan Jones ocupa a posição de Zeppo (que, dizem, era o mais engraçado de todos, embora só fizesse o papel do certinho), fazendo o galã cantante, o que deve ter colaborado para o sucesso comercial dos filmes, embora as cenas em que ele aparece sejam sempre as mais constragedoras.

    O destaque mesmo desses filmes são os três Bros. em ação, em especial a química entre Chico e Groucho, exuberante em cenas como a da leitura (e "rasgação") do contrato em "A Night..." e o sensacional esquete em que Chico vende uma barbada para Groucho em "A Day...", totalmente teatral, com câmera fixa e plano de conjunto. Já Harpo, por não falar, acaba respondendo pelos momentos mais "cinematográficos" dos filmes _em especial nos planos detalhe de seus dedos tocando harpa. São momentos brilhantes como estes que fazem valer a pena ver estes filmes mais de 70 anos depois de sua realização; os números musicais, em geral, são de doer (em "A Day..." há uma cena no gueto dos negros que hoje soa absurdamente racista, mas naquela época bem menos politicamente correta, soa justamente o contrário). É, anarquia, oi, oi...

    P. S. Leo McCarey fala sobre a experiência de trabalhar com os Marx em "Duck Soup" (trechos retirados do livro de Bogdanovich):

    "Não gostei. Eles eram muito irresponsáveis, e eu nunca conseguia reunir todos ao mesmo tempo (...). Groucho julgava ser ele próprio o mais criativo, mas para mim era Harpo _era ele quem respondia melhor. (...) O mais incrível sobre esse filme é o fato de eu não ter enlouquecido. Eles eram completamente doidos. Apesar disso, gostei de rodar diversas cenas. A experiência que eu tinha com filmes mudos me influenciou muito, de modo que eu geralmente preferia trabalhar com Harpo. Mas aquele não era o filme para mim. Na verdade, foi a única vez na minha carreira que baseei o humor nas falas, porque esse era o único jeito de se obter de Groucho alguma coisa engraçada. Ele dispunha de quatro ou cinco redatores, que lhe forneciam gags e falas. Não fiz nenhuma delas."

    sábado, fevereiro 26, 2005

    O Aviador / Alice Não Mora Mais Aqui / Depois de Horas / Quem Bate à Minha Porta?

    Just like a car, you're pleasing to behold. I'll call you Jaguar, if I may be so bold.

    Em 2004, Martin Scorsese olha para uma personalidade do passado que olhava para o futuro. Howard Hughes, transformado em lenda até por Orson Welles em seu absolutamente brilhante "F for Fake", tornou-se famoso mais pela suposta "esquisitice" (hoje melhor compreendida, já que até Luciana Vendramini e Roberto Carlos falam em transtorno obsessivo-compulsivo, e o Jack Nicholson levou um Oscar por uma de suas piores atuações só porque brincou de ter TOC) de seus últimos anos de vida do que por suas realizações em Hollywood, no campo da aviação ou no da putaria.

    Até uma revisão, "The Aviator" é um grande filme, grande com G maiúsculo (bem diferente de "Alexandre", um elefante branco desgovernado, embora acima da média, considerando a obra de Oliver Stone), muito melhor do que eu esperava. Não só pelos aspectos de produção, mas, principalmente, pelo roteiro: em cerca de três horas, conseguiu erigir um retrato interessantíssimo de Hughes, cuja verossimilhança não importa nem um pouco. Neste contexto, a escolha de Leonardo DiCaprio para o papel parece adequadíssima, numa história tão fascinante que até parece real (não sei se todo mundo vai entender, mas como isto não é jornalismo _nem mesmo jornalismo gonzo...). Alguém aí lembrou de "Tucker"?

    Retrocedemos 30 anos no passado e reencontramos Scorsese olhando para o presente, hoje distante. Assim como "The Aviator", "Alice Doesn't Live Here Anymore" não era um projeto original de Scorsa, mas oferecido a ele por outrem. Numa época pré-"Star Wars" (estou devendo um texto sobre a trilogia original, um dia rola), o que, hoje, poderia até significar "pré-tudo" (uma grande besteira, é claro), o diretor consegue pegar um roteiro que, à primeira vista, não tinha nada a ver com o seu universo de novaiorquino descendente de italianos, e conseguir imprimir suas marcas: uns toques de cinefilia (como a evidente homenagem a "O Mágico de Oz" no prólogo), de paixão pela música pop (a trilha sonora é ótima, como esperado num filme em que a protagonista se pretende cantora), Harvey Keitel quebrando tudo e um rascunho do que Jodie Foster, então moleca, faria em "Taxi Driver" (que, não à toa, também cita Kris Kristofferson).

    Mas há algo neste "road movie" que o faz "menor" (é importante que este "menor" esteja entre aspas) do que muitos dos filmes posteriores de Scorsese, e me parece que não se trata necessariamente de falta de experiência, mas sim de ambição. "Alice..." parece ter sido um desses exercícios saudáveis que certos diretores mergulham de tempos em tempos, como que para se testarem. Tenho a impressão de que foi um filme mais gostoso de fazer do que de assistir (o molequinho Alfred Lutter, hoje um engenheiro trabalhando com informática _bem, cara de nerd ele já tinha_, é muito engraçado), embora esteja longe de configurar um trabalho desprezível. Há sensibilidade de sobra durante praticamente todas as cenas, além de uma evidente disposição do diretor em mergulhar mais profundamente do que a média no dito "universo feminino", a princípio não muito associado ao homem. Belo filminho, que deveria ser mais conhecido, apesar de ter virado série de TV...

    Cerca de dez anos depois, Scorsese estava numa pior: "A Última Tentação de Cristo", filme que ele queria fazer desde o início dos anos 1970, teve sua produção cancelada. Seu filme anterior, "O Rei da Comédia", tinha sido uma experiência bastante desagradável, e o diretor sentia que nunca mais faria outro filme. É até irônico que ele tenha vindo a dirigir "After Hours" (o título em português é um dos mais idiotas da história), que mostra uma espécie de calvário novaiorquino numa noite que parece não ter fim.

    Vi o filme na Globo, quando era criança, e me lembro de ter achado tudo muito esquisito e angustiante _ou seja, as lembranças que eu tinha do coitado do Griffin Dunne não era nada agradáveis. Agradável foi rever o filme e descobrir que ele é simplesmente hilariante, com uma câmera fantástica (e uma Linda Fiorentino que faz jus a seu prenome), e que consegue se manter moderno mesmo sendo muito fiel ao seu zeitgeist (com direito a Cheech & Chong e tudo). Difícil imaginar o que teria saído se Tim Burton tivesse mesmo realizado o filme, mas provavelmente não teria ficado tão bom quanto a versão de Scorsese. A trilha sonora também é um deleite.

    Voltando lá para trás de novo, "Who's That Knocking at my Door" é uma gratíssima surpresa. Praticamente todo mundo que conheço havia falado mal do filme, mas ele mostra que as raízes de Scorsese já estavam todas ali (não é à toa que o filme começa com a mãe do diretor). Ruas de NY, violência, Harvey Keitel (descoberto através de anúncio em jornal), música, cinefilia (com destaque adequadíssimo para John Ford), catolicismo (e mesmo um pouco de nouvelle vague _Godard, em especial), até parece que o diretor queria colocar tudo o que tinha em um só filme, coisas da juventude. Feito durante anos, a princípio como filme estudantil, mas que acabou se profissionalizando, é natural que "Quem Bate à Minha Porta?" seja quase uma colcha de retalhos (o trecho em que toca "The End" foi filmado quatro anos depois do resto do filme, só pra colocar mulher pelada e deixar tudo mais comercial), mas ainda assim é uma obra que empolga pela evidente paixão empregada em sua produção, mesmo que Scorsese ainda não soubesse contar direito uma história. E quem pensa que contar histórias é fácil e que esta não é a função do cinema, sinceramente, vá pastar.

    P. S. Falando no homem, vamos citar um trecho de seu "Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano", recentemente lançado por aqui na forma de livro pela CosacNaify. Aqui, ele fala de um John e acaba citando outro:

    "Cassavetes encarnou a emergência de uma nova escola de cinema de guerrilha em Nova York. Seus filmes eram feitos literalmente na base da confiança. John era destemido _um verdadeiro renegado montando um psicodrama atrás do outro com a cumplicidade de um pequeno grupo de amigos. Ele insistia em ter 'prazer' ao fazer filmes _enquanto buscava algum tipo de verdade, talvez mesmo uma reveleção.

    John Cassavetes (1984): Ter uma filosofia é saber como amar e saber onde colocar o amor. Você não pode colocá-lo em toda parte. Teria que ser um sacerdote para dizer: 'Sim, meu filho, ou sim, minha filha, Deus te abençoe'. Mas as pessoas não vivem desse jeito. Elas vivem com raiva e hostilidade e problemas. E falta de dinheiro, sabe, decepções tremendas na vida. Então o que elas precisam é de uma filosofia. O que eu acho que todo mundo precisa é de uma maneira de dizer: 'Onde e como eu posso amar e ser amado de modo a viver com algum grau de paz?'. Então é por isso que eu preciso que os personagens realmente analisem o amor, discutam o amor, matem-no, destruam-no, firam-se uns aos outros, façam tudo aquilo, naquela guerra, naquele discurso polêmico e naquele retrato polêmico do que é a vida. E o resto da coisa realmente não me interessa. Pode interessar a outras pessoas, mas eu tenho uma mente monotemática. Só tem uma coisa que me interessa. O amor.

    Martin Scorsese: Todos os filmes de Cassavetes são 'épicos da alma humana'. Ao assisti-los, me vem à mente um comentário feito por John Ford a um colaborador que estava se queixando das péssimas condições do tempo quando eles tentavam rodar um filme no deserto. O homem perguntou: 'Olhe, sr. Ford, o que é que podemos filmar aqui?'. E Ford respondeu: 'O que podemos filmar? A coisa mais interessante e empolgante que existe no mundo: um rosto humano'."

    P. P. S. Agora, é hora de esculhambar. Republico aqui um dos monstros de Frankenstein costurados em uma singela comunidade do Orkut chamada, apropriadamente, Contos Tontos. Este aqui se chama "O Almeida" e foi escrito por Ana, Marcelo, Bruno, Alexandre e Maluco (todos os direitos reservados, é óbvio):

    "Almeida era uma das pessoas mais egoístas que já existiram. Do tipo que anda com espelhinho e só escuta a voz alheia se essa proferiu o seu articulado nome.
    Almeida quis ficar no escuro. Talvez para dormir e sonhar consigo mesmo. Mas não bastava desligar apenas a luz do seu quarto. Almeida desligou a chave-geral do prédio inteiro. Jamais iria passar pelo seu cérebro que tinha outras pessoas na edificação. E mais, que esses seres estivessem fazendo uso da energia elétrica. Almeida só percebeu seu erro quando uma pessoa EXATAMENTE idêntica a ele apareceu em sua frente e disse:
    _ Almeida! Arrependa-te de seus pecados!
    Ao que o Almeida, entre surpreso e satisfeito por finalmente ter encontrado alguém minimamente interessante para conversar, indagou:
    _ Mas quem és tu, ó insólita criatura?
    _ Ué, rapaz, não está me reconhecendo? Eu sou Deus, pô!
    _ Impossível _ replicou Almeida.
    _ Como assim, impossível?!? Se te digo que sou Deus, só posso ser DEUS. Achas que alguém seria louco de brincar com algo desta magnitude?
    _ Não só acho, tenho certeza. E te digo o porquê! EU sou Deus.
    _ Justamente... Sinal apenas de que sou onipresente...
    O Almeida (ou os Almeidas...) estava tão entretido em seu papo que nem ouviu as batidas insistentes na porta. Eram mais e mais ferozes, até que a madeira cedeu e entraram dezenas de moradores.
    Estupefatos de vê-lo discutindo com um espelho, desandaram a quebrar tudo na sala dele.
    Até que só sobrou o espelho. E foi do reflexo de Almeida, talvez assustado com a idéia de tomar uma sapatada e se ver tomado por rachaduras que iam estragar seu visual, que veio o alerta.
    - Ô, Almeidinha!!! Esses vizinhos mulambos que você tem estão destruindo seu apartamento. Faça alguma coisa!
    Almeida olhou toda aquela destruição e, em vez de se desesperar como prejuízo, deu um sorriso de canto de boca. Ele tinha um plano.
    Ajuntou toda a mobília destruída pelos vizinhos no centro da sala, formando uma pequena montanha de entulho. Colocou o espelho em pé, fincado no alto da montanha, de modo que continuava a ver seu reflexo. Pegou uma caixa de fósforos na cozinha e um litro de álcool na dispensa. Voltou para a sala e derramou metade do litro sobre a montanha de entulho, e a outra metade sobre seu corpo. E, olhando para o espelho, com a caixa de fósforos na mão, gritou:
    _ Cansei de ser Deus! A partir de agora, eu me tornarei Prometeu e trarei o fogo aos homens! Eu lhes devolverei a luz que outrora neguei à humanidade!
    Os vizinhos do Almeida, inertes diante de suas atitudes incompreensíveis, só esboçaram alguma reação depois que o dono do apartamento em frangalhos quebrou todos os palitos da caixa de fósforos, na vã tentativa de acendê-los: caíram na gargalhada.
    Impávido, o Almeida não perdeu as estribeiras. Dirigiu-se até a janela, que ficava no 18º andar e, antes de atirar-se aos ares, bradou para os vizinhos, novamente estupefatos:
    _ Eu sou a Fênix renascida! Meu destino é a glória eterna!
    Seu corpo nunca foi encontrado. Há quem diga que, naquela noite, o Almeida voou."

    sábado, fevereiro 12, 2005

    Closer - Perto Demais / Menina de Ouro

    Vou pescar sua alma e lutar...

    Querido bloguinhu: há cerca de cinco anos, fui transferido da editoria de Ciência da Folha de S. Paulo para a Ilustrada, para escrever sobre... teatro. Fiz umas reportagens aqui e acolá, entrevistei gente do porte de Paulo Autran e tal, até que, perto de completar um mês na nova função, fui atirado aos leões: tive de escrever uma matéria de capa, com chamada para uma página inteira. Para quem acha que estou sendo dramático demais, a parada era a seguinte: Otávio Frias Filho, diretor de redação do jornal e filho do dono, é dramaturgo; portanto, acompanha com grande interesse tudo o que sai sobre teatro no jornal de sua família. E, se um de seus empregados escreve alguma besteira numa matéria de capa sobre teatro, está praticamente assinando sua carta de demissão (bom, se é verdade, não sei; foi o que me disseram os colegas mais experientes _felizmente, eles só me contaram esta história depois que a matéria foi publicada e eu continuei no emprego... Mas confesso que nunca entendi nem compartilhei deste pavor todo que a maioria dos meus colegas sentia).

    Mas por que é que estou contando esta história desinteressante neste rincão esquecido por Deus, tanto tempo depois? Ah, é porque a peça em questão era "Mais Perto", como foi batizada a montagem brasileira de "Closer", dirigida por Hector Babenco (que fez uma pausa no complicado processo de adaptar "Estação Carandiru", de Drauzio Varella, para o cinema) e estrelada por José Mayer, Renata Sorrah, Marco Ricca e Guta Stresser... Então, para fazer minhas entrevistas (além dos citados, também falei com o cenógrafo Gringo Cardia e com o autor da peça, Patrick Marber), é claro que tive de ler a peça primeiro e... bem, na época, achei um belo texto, com diálogos razoavelmente bem escritos, personagens razoavelmente interessantes, clichês razoavelmente clichezentos e tal. Sim, eu gostei bastante, embora não concordasse com Mayer, que dizia considerar Marber muito melhor do que Mamet...

    Aí eu vi o espetáculo (um grande sucesso em dezenas de países, inclusive nos EUA, onde o próprio Marber dirigiu a versão que foi para a Broadway), e não achei mais tão boa quanto no papel. Cinco anos depois, revejo-a em forma de filme, dirigido por Mike Nichols (que, poucos sabem, é alemão), um cara com experiência em levar o teatro para o cinema. E a coisa piorou ainda mais.

    Piorou em grande parte por causa do elenco: Jude Law e Julia Roberts estão tremendamente inadequados, e são ainda mais prejudicados por pegarem os dois personagens mais fracos da peça; Clive Owen se encaixa bem como o médico Larry, e Natalie Portman surpreende no papel de Alice, não por ser uma performance espetacular (pelo contrário, ela transforma Alice em uma menina chorona e chatinha, em vez da grande personagem trágica, "larger than life", que o texto original de Marber delineava), mas por não se limitar a ser um picolé de chuchu, aquele jeito Marisa Monte de ser. Guta Stresser fez o papel de modo bem melhor nos palcos brasileiros, embora a Portman seja infinitamente mais gostosa _que pecado ela ter pedido para o Nichols cortar as cenas de nudez, que desserviço à arte, tsc, tsc...

    Mas o que me deixou chateado mesmo foi a alteração criminosa do final (quem não viu o filme, pule este parágrafo). Marber se acovardou e retirou do roteiro o grande fecho trágico da peça, que a tornava um ciclo incontornável; no original, Alice morre atropelada (em circunstâncias parecidas com a da primeira cena da peça e do filme), e só ficamos sabendo sua identidade verdadeira (e identificamos o momento em que ela, pela única vez, se "desnudou" e falou a verdade) quando Dan e Anna se reencontram. O final que Nichols filmou é infinitamente mais broxante, perneta, oco. Cagaram na saída. Mas o resto do filme também é chatinho... É, acho que "Closer" dá mesmo um belo livro.

    Mudando da água para o vinho: que filme profundo e bonito o nosso velho amigo Clint realizou. É difícil falar de "Million Dollar Baby", porque palavras não vão chegar nem perto de expressar a beleza ao mesmo tempo discreta e evidente desta obra. O que posso dizer é que é uma alegria ver um filme que não tenta te fazer de idiota, que é sincero e honesto ao conquistar a complexa proeza da simplicidade. Clint Eastwood é uma raridade, nesse mundo cheio de prestidigitadores sem talento.

    E o cara é tão bom que deixa os outros brilharem: Hilary Swank prova de uma vez por todas que é boa atriz (basta darem a ela uma personagem interessante para interpretar), mas a grande surpresa da película é Morgan Freeman; normalmente detestável, não é que ele finalmente conseguiu fazer um trabalho decente? O que é que uma boa direção e um bom roteiro não fazem, hein? Saí do cinema até achando merecida a indicação para o Oscar de melhor ator coadjuvante...

    "Menina de Ouro" deu a Clint Eastwood o Globo de Ouro de direção, enquanto "O Aviador" ganhou o prêmio de melhor filme de drama. Acho um tremendo de um saco ficar discutindo premiações, embora seja algo meio inevitável. Vou ver o filme do Scorsa na semana que vem, o próximo texto deverá ser sobre ele, aí a gente discute se o filme da "Mo Cuishle" (o correto é "mo chuisle", ninguém é perfeito) é mesmo imbatível ou não. Porque parece tremendamente difícil que "The Aviator" o supere... embora isso não queira dizer nada em relação ao Oscar, estamos mais do que carecas de saber que o prêmio não costuma fazer justiça. Então, inté.

    P. S. Arthur Miller era fodão. Não só entrou para a história como um dos maiores dramaturgos americanos no século XX, mas casou com a Marilyn. E escreveu a também complexa obra-prima "Os Desajustados", um filme que o Clint deve admirar...

    P. P. S. Falando em Marilyn (também uma menina de ouro), vamos ler o que alguns de seus diretores falaram dela? Os textos são retirados do livro "Afinal, Quem Faz os Filmes" ("Who the Devil Made It"), de Peter Bogdanovich. Comecemos com Fritz, the Lang:

    "...não foi fácil trabalhar com Marilyn Monroe (...). Ela possuía uma combinação muito peculiar de timidez e incerteza (...), mas ela sabia exatamente o efeito que produzia nos homens. (...) Devido à sua timidez, ela ficava muito assustada em ir para o estúdio _sempre se atrasava. Não sei por que ela não conseguia se lembrar das suas falas, mas sou perfeitamente capaz de compreender a zanga de todos os diretores que trabalharam com ela, pois certamente por sua causa o trabalho se atrasava. Mas ela respondia bem."

    Agora, Howard, the Hawks:

    "No caso de Monroe, quanto mais se insistisse, melhor ela ficava. (...) Monroe só se assustava em aparecer _tinha grande complexo de inferioridade_, eu tinha pena dela. (...) Por exemplo, quando a pusemos para cantar, por duas ou três vezes ela tentou fugir do estúdio de gravação. Tivemos de agarrá-la e segurá-la para que não saísse. E, na verdade, Marilyn cantava bastante bem (...). Ela estava assustada, isso é tudo _e, quando se assustava, não conseguia trabalhar direito."

    Finalmente, George of the Cukor:

    "Marilyn não tinha confiança em si própria. Para ela, era muito difícil se concentrar, não acreditava que fosse tão boa quanto era. Ela se preocupava com tudo e fazia muito bem as coisas muito difíceis. Às vezes, distraía-se muito e não conseguia fazer uma representação sustentada, o que nos obrigava a filmar pedaço a pedaço; outras vezes, ficava tão nervosa que tínhamos de filmar fala por fala. Mas a sua mágica era tamanha que, quando tudo era montado, parecia que ela tinha dito as falas todas de uma vez. Ela era uma personalidade cinematográfica de verdade _uma verdadeira rainha do cinema. (...) Ela gerava excitação. Ava Gardner também faz isso."

    Na platéia