A gruta é mais extensa do que a gruta

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    sexta-feira, junho 27, 2003

    X-Men 2 / Matrix Reloaded / Hulk

    Quiero llorar mi pena y te lo digo para que tú me quieras y me llores en un anochecer de ruiseñores, con un puñal, con besos y contigo.

    Eu sou bastante exigente quando vou ao cinema: faço questão absoluta de freqüentar boas salas e de me sentar em um bom lugar, ou seja, no meio. Nunca, em hipótese alguma (salvo lotação extrema, o que é muito raro), eu me sento nas laterais, por causa do som. Se você se senta nos lados, você só ouve meio filme; prefiro me sentar numa fileira bem na frente (também detesto sentar muito atrás, para não diminuir a sensação da tela grande _sou meticuloso a ponto de calcular a abrangência ocular, entre outras manias_, assim como não gosto de ficar em um nível extremamente acima do meio da tela), mas ficar no centro da mesma. E, para quem se interessa por zodíaco, sim, eu também sou virginiano, e daí?

    Estou dizendo isso por um simples motivo: a melhor coisa de "X-Men 2" é o som. É sério. Não perceberam? Um cuidado incrível com os nossos queridos tímpanos e trompas de Eustáquio. Obrigado, Bryan Singer e equipe.

    O primeiro "X-Men" foi legal, não? Um dos gibis mais populares de super-heróis (não um dos meus preferidos _eu sempre fui mais o Batman, que hoje acho ridículo) ganhou adaptação decente para a tela grande _bem melhor do que o infame desenho animado que passava na Xuxa (era Xuxa? Não sei). Um elenco muito bom, em geral _em especial, Ian McKellen como Magneto (não dá a impressão de que ele está se divertindo horrores?) e Hugh Jackman como Wolverine foram agradabilíssimas surpresas. Mas o longa de estréia da série (teremos uma trilogia?) tem alguns probleminhas, causados pela necessidade de apresentar os personagens não apenas para seus ardorosos fanboys, mas para gente que não fazia idéia do que era um mutuna: o exagerado, mas totalmente compreensível, foco em Wolverine prejudicou a obra, especialmente por causa da rixinha besta entre o velho Logan e o Cíclope, além da subestimação absurda do Dentes de Sabre, uma figura interessantíssima nos comics. Ainda assim, uma grande adaptação, um filme importante para o filão "HQ nos cinemas".

    O segundo filme é naturalmente superior por se dedicar muito mais ao seu enredo (muitíssimo bem amarrado, por sinal; é uma perfeita continuação do primeiro, não há muitos pontos sem nós), em grande parte embasado na origem de Wolverine (mais uma vez, o Jackman está espetacular, dando ao personagem um senso de humor altamente irônico que nem sempre é transmitido pelo gibi _o cara também é mais bonito do que o Wolvie dos quadrinhos, deliciando as moçoilas e as bibas), mas também por insinuar a transformação da Jean Grey na poderosíssima Fênix (mais uma vez: tomara que role o terceiro filme; o final deste não deixa muita escolha), além de apresentar outros mutantes importantes, como o Noturno (sensacional caracterização de Alan Cumming _aliás, o prólogo, no qual ele invade a Casa Branca, é a melhor parte, fácil, fácil), o Colossus e o grande Hank McCoy, que aparece por um segundinho (sério candidato a se juntar à trupe no terceiro filme, não?). Ah, e a pergunta fundamental: e a Mística, hein? Mais uma vez, mais uma vez: e a Mística, hein? Rebecca Romijn-Stamos, você merece.

    Ainda no ramo das continuações, "Matrix Reloaded". Começando do princípio: eu passei totalmente ao largo do fenômeno "Matrix" (por que não traduziram? Que saco!). Não vi o primeiro filme nos cinemas. Não aluguei em vídeo. Não havia lido praticamente nada a respeito, a não ser elogios vaguíssimos e dignos de desconfiança, como "o filme dos irmãos Wachowski (saúde!) revolucionou a ficção científica". Sejamos francos: revolucionou nada! "Blade Runner" é um trilhão de vezes mais revolucionário, só para ficar em um exemplo.

    Então, só fui assistir ao primeiro filme da trilogia (trilogia mesmo? Ou os irmãos Atchim vão dar uma de George Lucas?) poucos dias antes de o "Reloaded" estrear, porque o canal a cabo TNT o exibiu (eu havia me recusado a vê-lo no SBT). Não fiquei muito impressionado (provavelmente, se o tivesse visto num cinema, em 1999, a recepção teria sido melhor). Aliás, fiquei bastante decepcionado, em especial, nos trechos que se passam no suposto mundo real _a cenografia é pobre, lembra um sub-"Alien". Mas as famosas seqüências repletas de efeitos visuais, satirizadas à exaustão, são legais e merecem todo o frisson que causaram.

    No "Reloaded", a coisa não muda muito de figura, neste aspecto. A melhor coisa do filme, em termos de imagem, é a briga do Neo com os múltiplos Agentes Silva. Aquela cena é um triunfo cinematográfico. Aliás, o Agente Smith (o ator nigeriano Hugo Weaving já havia entrado para a história como a drag-leader do pequeno grande filme "Priscilla, a Rainha do Deserto") é o personagem mais legal da série. O trio Neo-Trinity-Morpheus não vale uma perna do óculos de sol do figura. Agent Smith rules! O único personagem que chega perto, em termos de carisma, é o Oráculo (interpretado pela boa atriz Gloria Foster, infelizmente morta em 2001).

    Mas eu preciso dizer que assistir a "Reloaded" foi uma espécie de tortura. O filme me deu um mal-estar tremendo, coisa que raramente acontece. E tal mal-estar não se deve a uma opinião negativa a respeito da obra (na verdade, gostei mais deste do que do primeiro, contrariando boa parte dos matrix-maníanos): eu simplesmente não via a hora de o filme acabar. Foi um suplício. Em especial naquela ceninha imbecil, nojenta e absolutamente desnecessária de kung-fu (que só perde para a asquerosa "cena de amor" entre Neo e Trinity, sub-"Nove Semanas e Meia de Amor" _talvez até tenha sido de propósito). Perda de tempo precioso, puras demonstrações de mau gosto.

    Quanto à outra questão imprescindível na série, o conteúdo, não gostaria de me manifestar antes de ver a trilogia completa. Não sou afeito a conjecturas e nunca dedicaria o meu tempo a discutir os "aspectos filosóficos" em "Matrix" (uma imensa colagem paródica, um sem-número de referências). Acho que o mosaico montado pelos irmãos Espirro é muitíssimo inteligente, sim, e muita gente boa que conheço leva a obra a sério (em algum casos, exageradamente demais). Para mim, é mero entretenimento-pipoca, e eu prefiro discutir outros sexos dos anjos, bem mais pertinentes, do tipo "o que querem as mulheres"?. Ah, e a pergunta fundamental: e a Persephone, hein? Mais uma vez, mais uma vez: e a Persephone, hein? Monica Bellucci, você merece.

    O outro filme que deveria ser sensação em 2003, "Hulk", nunca chegou a ofuscar os outros dois abordados neste texto. Perto das aguardadas seqüências de franquias milionárias, a história do maior palmeirense do universo conhecido era mesmo peixe pequeno.

    Eu estava esperando uma bomba, tal qual "Demolidor" (o qual nem vi, mas acredito que seja um lixo). Mas o filme, dirigido pelo Ang Lee, tem dignidade, apesar de não ser nenhuma maravilha. Nenhuma atuação chega a ser irritantemente ruim (teve gente que achou o Nick Nolte _a quem vivo confundindo com o Jeff Bridges_ um horror, mas eu não me incomodei com a maluquice de seu David Banner _nome usado para o Hulk da série dos anos 70, que eu via sempre na finada "Sessão Aventura", que deu lugar a "Malhação" nos fins de tarde da Globo), e, ao contrário de muita gente, não me incomodei nem um pouco com a "falsidade" do abacatão, que ficou mesmo parecendo o Geléia de "Os Caça-Fantasmas". O "gigante esmeralda" (como as calças dele não rasgam?) ficou muito mais parecido com o dos quadrinhos (os quais nunca li com regularidade, por não ser personagem de minha predileção _aliás, eu sempre gostei mais do Hulk cinza e inteligente, meio gângster, bem mau-caráter, bem irônico), muito melhor do que a caracterização do (também Hércules) Lou Ferrigno (um sub-Schwarza), que aparece em uma ponta, como segurança, ao lado do grande Stan Lee. E as cenas de luta contra os tanques no deserto ficaram bem boas. Ah, e a pergunta fundamental: e a Betty Ross, hein? Mais uma vez, mais uma vez: e a Betty Ross, hein? Jennifer Connelly, você merece.

    P. S. Morreu Walter Hugo Khouri, cineasta importantíssimo, dono de vasta e invulgar obra, que inclui obras-primas como "Noite Vazia". Vários de seus filmes têm como protagonista um personagem chamado Marcelo. Eu gosto.

    domingo, junho 22, 2003

    Ben-Hur / Desmundo / Laranja Mecânica

    His road is dark and lonely, he don’t drive no Cadillac. If that sky serves as his eyes, then that moon’s a cataract.

    Uma das coisas mais legais do cinema (não só dele, mas, no caso da tal sétima arte, é algo mais óbvio) é a manipulação do tempo. A edição nos permite brincar o tempo todo com o tempo todo. Não preciso entrar em detalhes, vocês sabem do que estou falando.

    Outro conceito interessante é o de “filme de ópoca”. Cinema também é documento, é registro, e eu acho bastante irônico ver o letreiro “dias de hoje” no início de um filme feito há cerca de duas décadas, como é o caso de “Splash – Uma Sereia em Minha Vida”, sessão-da-tarde responsável pela decolagem da carreira do duplamente oscarizado e milionaríssimo Tom Hanks. Hoje, o primeiro “Matrix” já me parece meio tosco...

    Pois os tais “filmes de época” também exalam modismos mil. Vejam o caso de “Ben-Hur”, sem dúvida o mais ambicioso (em termos de produção, não de direção, roteiro, montagem, fotografia etc.) épico bíblico já realizado. Uma monstruosidade de filme, não apenas em duração (mais de três horas e meia _inclusive é dividido em duas partes, para dar um merecido descanso ao público), mas por ter sido realizado em mais de 300 sets de filmagens, com cerca de 8.000 figurantes (incluindo aí membros da realeza européia _boa parte do filme foi feita na Itália, no famoso estúdio Cinecittà), 100.000 figurinos, 11 Oscars, entre outros números impressionantes. “Titanic” é fichinha perto de “Ben-Hur”, assim como outros monstros da época, como “Cleópatra” (de Joseph L. Mankiewicz, com a Elizabeth Taylor e seu Richard Burton), “Sansão e Dalila” e “Os Dez Mandamentos (ambos de Cecil B. DeMille, o primeiro com Victor Mature e Hedy Lamarr, o segundo com o mesmo protagonista de Ben-Hur) e até mesmo os especialmente invulgares “Rei dos Reis” (de Nicholas Ray _mas DeMille, sempre ele, também dirigiu filme homônimo em 1927) e “Spartacus” (de Stanley Kubrick, com Kirk Douglas e grandíssimo elenco).

    E olha que a história, de autoria de um militar norte-americano que lutou na guerra de Secessão (o general Lew Wallace), já havia sido transposta do livro para as telas (e para o teatro) várias vezes, incluindo um curta de 1907 e um longa de 1925 (este último também uma impressionante superprodução, na qual quase ocorreu um desastre durante a filmagem da famosa batalha naval _que só perde em grandiosidade para a ainda mais famosa corrida de bigas).

    Impressionante, também, é a escolha de William Wyler, um direitor mais afeito a dramas introspectivos (a exemplo de sua adaptação da obra-prima “O Morro dos Ventos Uivantes” _ainda não leu a Emily Brontë? Não tem vergonha???), para tocar o superprojeto. Ah, outra coisinha: sabia que, originalmente, quem interpretaria o Messala, o amigo/nêmesis de Judah Ben-Hur, seria o Leslie Nielsen? Sim, o engraçadíssimo protagonista da séria “Corra que a Polícia Vem Aí”... Mas o papel ficou mesmo para Stephen Boyd.

    E, apesar do canastríssimo Charlton Heston (o velhinho amante de armas de “Tiros em Columbine”) e de todo o melodrama inerente à época (ah, as leprosas, ah, o Cristo, ah, o amigo que vira inimigo, ah, a prisão injusta, ah, o jugo de Roma sobre os judeus etc.), considero o filme especialmente feliz no trato com a figura do brother Jésa. Sim, o hippie mais famoso da história nunca tem o seu rosto mostrado, o que intensifica ainda mais seu caráter não-humano, celestial. A cena em que ele dá água a Ben-Hur é especial, assim como a da tempestade após a crucificação. Mas eu sou suspeito para falar, eu adoro os Evangelhos e Jesus Christ is my friend _e do Jorge Ben, também.

    Já de uns tempos pra cá, os filmes de época “amadureceram”, ficaram menos idealizados, buscam retratar os “fatos históricos” de maneira menos romanceada e mais verossímil (é claro que não estou falando de “Independência ou Morte” nem de “A Casa das Sete Mulheres”, McBarker), como vimos em “A Missão”, por exemplo.

    “Desmundo”, novo filme do francês criado no Brasil Alain Fresnot (“Ed Mort”), segue esta tendência, apresentada de forma ainda mais radical em “Hans Staden” (ninguém viu, né?). Também uma adaptação literária (de Ana Miranda, belíssima escritora que já catou o Jards Macalé _não é aquele do "Ih! Nojento!"_ e que chegou a trabalhar no roteiro deste filme), a obra tentou ir fundo na reconstituição temporal, da construção do set até a adoção do português/castelhano retirado de documentos da época _um pesquisador da USP traduziu os diálogos do roteiro para o linguajar adotado na obra, que, não se preocupe, vem com legendas.

    Taí um filme que dividiu opiniões: muita gente gostou, muita gente detestou, muita gente achou mais ou menos. Eu gostei, apesar de ter achado o final um tanto abrupto (no livro, a história segue em frente, com desfecho trágico). Simone Spoladore está ótima como a órfã portuguesa Oribela, enviada, junto com outras meninas, ao Brasil de 1570, para se casar com os colonos (entre eles, muitas participações especiais, inclusive de gente de teatro, como o Cacá Rosset e os Parlapatões, Patifes e Paspalhões). Um papel dificílimo, no qual a atriz consegue passar as contradições de uma personagem razoavelmente complexa, que tem poucas falas (lembram que ela simplesmente não diz palavra em “LavourArcaica”?). E você, o que achou? A cena em que a Oribela fica entre as espingardas de Caco Ciocler e Osmar Prado não é legal?

    Outra coisa que me fascina nas artes é a maneira como o futuro é visto. Jules Verne, “Flash Gordon”, “Buck Rogers”, “Admirável Mundo Novo”, “1984”, “2001 – Uma Odisséia no Espaço” etc., são visões de futuro hoje extremamente datadas, não? Mas não é uma delícia ver “Viagem à Lua”, do Méliès? Ou “A Mulher na Lua”, do nosso amigo Fritz? O que dizer da dupla “Viagem Fantástica” e “Viagem Insólita”?

    Então, “Laranja Mecânica”, filme do velho Kuby baseado no livro do Anthony Burgess, é mais uma dessas obras que retratam o futuro como uma possibilidade de presente. Política, comportamento em sociedade, sexo, crime, religião, ciência, arte, a polêmica obra toca todos esses assuntos e dá muito pano pra manga. O que é a história de Alex e seus “droogs”, malchicks chegados num leitinho e na boa e velha ultraviolência, no “in-out, in-out” com as devotchkas, em Ludwig Van, numa sociedade em que a cura pode ser tão ruim quanto a doença? Uma obra perspicaz sobre a natureza humana ou um simples alerta moralista, excessivamente didático e desprovido de sutileza?

    Seja como for, o filme (que não é o melhor de Kubrick, um grande diretor, apesar de não estar entre os meus favoritos _intelectual e frio demais, na minha opinião), feito logo após “2001”, é antológico como retrato do mundo na virada dos 60 para os 70 e traz um Malcolm McDowell violentamente engraçado, uma trilha sonora proto-eletrônica que cafoniza os clássicos (tem também “Singing in the Rain”!), uma direção de arte brilhante e ironia pra dar e vender, além de mulher pelada. Não é pouco, não.

    P. S. No texto, retrasado, fui pego no contrapé pelas mortes de Gregory Peck ("se a Deborah Kerr...") e Itamar Assunção. No texto passado, não falei deles por puro esquecimento, fica aí a citação. Mas, antes que o assunto caduque totalmente, quero só contar uma historinha: quando o Itamar saiu do Hospital do Câncer, há cerca de dois anos, ele foi fazer uns shows no Supremo Musical, ali na Oscar Freire. Fui designado pela minha velha amiga de guerra Dri (Adriana Ferreira para os íntimos) para entrevistá-lo para o “Guia da Folha”, já avisado de que o cara odiava jornalistas e não era de papo. Dito e feito: Itamar me atendeu com muita má vontade e só topou falar comigo, muito a contragosto, porque eu jurei de pés juntos e dedos cruzados que a conversa só duraria cinco minutos. Fiz as duas perguntinhas que queria e me despedi, em menos de cinco minutos, para a surpresa de Itamar. Aí, de repente, ele ficou simpático e começou a puxar conversa, me convidou para ir ao show, recomendou a comida do Supremo, falou para eu dar uma passada no camarim, depois (todos falam isso, por sinal). Pena que eu não fui.

    terça-feira, junho 17, 2003

    As Horas / O Canto do Mar

    Hit me up, baby, and knock me down, drop what you’re doing and come around. We can hold hands till the sun goes down, cause I know that you and I can be together, cause I love you. Babe, I'm on fire!

    Então, demorei uma cara para assistir a “As Horas” _um pouco por falta de tempo/oportunidade, um muito por preconceito, mesmo. “Billy Elliot”, o filme anterior de Stephen Daldry, é uma solene bosta (apesar da trilha sonora sublime _a abertura com “Cosmic Dancer”, do T. Rex de São Marc Bolan, o homem que David Bowie queria ser, é emocionante, pra dizer o mínimo), inclusive dormi durante boa parte dele. Agora, o cara vem com uma “sensível” adaptação de um livro (“The Hours”, de Michael Cunningham) baseado em outro livro (“Mrs. Dalloway” _vivida no cinema pela Vanessa Redgrave_, de Virginia Woolf), com três atrizes hollywoodianas “respeitadas”. “Ugh”, pensei eu, cá com minhas camisetas de algodão.

    Mas não é que a bagaça é muito melhor do que eu esperava? Pelo menos esta é a minha primeira impressão, pois ainda não li nenhum dos dois livros em que a obra se baseia.

    Nicole Kidman (que, de mera mulher de Tom Cruise, está construindo uma carreira interessantíssima _quando é que “Dogville” chega por aqui?) levou um Oscar por sua ótima recriação da autora de “Orlando” (que também virou filme, com a Tilda Swinton), com direito a prótese nasal e tudo. Julianne Moore... sem comentários. Meryl Streep fica até um pouco apagada, em comparação com as outras duas. Ed Harris, um cara digno, também está ótimo como o escritor soropositivo às beiras do desespero. E John C. Reilly está se especializando no papel de marido bonzinho. Faz um vilão bem sacripanta da próxima vez, hein, Johnny?

    Mas um dos trunfos do filme é a montagem. As histórias das três mulheres, que, de alguma forma, se entrelaçam paralelamente (prestem atenção nos ovos, no livro, no rio), são contadas de modo interessante, poético até, sem ser desagradavelmente pretensioso. Parece que você adivinha o final, mas o filme te prega uma peça. E a trilha sonora do chatongo Philip Glass, que alguns amaram, outros odiaram, nem fede nem cheira a esterco misturado com lavagem de porco.

    E, sim, “As Horas” é um drama, mas não tão lacrimoso quanto poderia ser. Apesar das aparências, não é só um filme de mulherzinha. Pode levar o seu namorado pit-boy para assistir, garanto que ele vai te encher de porrada depois.

    Falando em choradeira, quem dá o tom em “O Canto do Mar”, tragédia dirigida pelo nosso velho amigo Alberto Cavalcanti (mais conhecido simplesmente como “Cavalcanti”) no início dos anos 50, quando ele voltou ao Brasil para participar da panelinha em volta da Vera Cruz, é o outrora famoso José Mauro de Vasconcellos (autor de “Rosinha, Minha Canoa” e “Meu Pé de Laranja Lima”, lembra?), que assina o argumento do filme. Ah, e a trilha sonora é do maestro Guerra Peixe, que emula Nino Rota.

    Pois “O Canto do Mar” é um filme claramente inspirado no neo-realismo italiano. E é uma espécie de prévia de “Vidas Secas”, bem mais antiga e melodramática (como os livros do Vasconça, aliás).

    O mote é “o mar só traz desgraça”, frase dita aos prantos pelo protagonista Raimundo, um rapazola nordestino que sonha ir para o Sul maravilha. Só que seu irmãozinho morre, sua irmã vira puta, sua namorada foge com um cafajestão com cara de Cauby Peixoto depois da hanseníase, seu pai, louco-louco-louco, morre afogado, e o rapaz ainda parte pro crime e detona com todo o dinheirinho de sua pobre e sofrida mama. Quer mais desgraça do que isso? Pois o clima é de total desesperança. Não assista se você está com ímpetos suicidas! Falei.

    P. S. Hoje não tem P. S. Ôps!

    quinta-feira, junho 12, 2003

    Carandiru / Carandiru.doc

    Opa. Tamos aí.

    Então, parece que o inferno astral chegou mais cedo, neste ano. Essa história de ficar sem computador foi a coisa menos chata que me aconteceu no último mês.

    Mas nada de ficar reclamando, Charlie Brown, porque coisas boas também acontecem _e a gente precisa acreditar que a situação não pode piorar... Sorrir pra não chorar, como cantava o meu velho amigo Cartola.

    Falando em problemas, que decepção este “Carandiru”, hein? O maior balde de água fria do ano, até agora. Um diretor reconhecido mundialmente como o Hector “Pixote” Babenco, um best seller de uma figura respeitabilíssima como o dr. Drauzio Varella... e um filme broxante como o quê.

    Sim, há cenas muito boas, atores de responsa, a produção (caríssima, para um filme nacional) é de primeira, o sucesso de público (muita grana no marketing, Globo Filmes na parada, um livro com centenas de milhares de exemplares vendidos, um tema “de cunho social” etc.) é maravilhoso, mas “Carandiru”, apesar de não ser um horror, é uma obra cheia de problemas.

    A maior delas, a meu ver, é a falta de uma linha narrativa mais clara. O médico, interpretado de maneira insossa pelo Luiz Carlos Vasconcelos, não tem nome nem história nem ponto de vista: é um mero ouvinte dos causos de alguns dos detentos (destaque para o figura Majestade, que tem duas mulheres) da Casa de Detenção. Então temos um mero painel com alguns personagens, mostrados em flashbacks. Como pano de fundo, o cotidiano do presídio (dia de visitas, show da Rita Cadillac, consultas médicas, a cozinha, crimes ocorridos lá dentro, o comércio entre os presos, travestis _uma considerável parcela idiota do público se esbaldava de gargalhar do Rodrigo Santoro com peitões_, soropositivos etc.).

    Talvez o grande problema do filme tenha sido a fidelidade extrema ao livro (ainda não li “Estação Carandiru”, portanto me baseio no que ouvi de algumas pessoas de confiança). É sabido que houve desentendimento entre os roteiristas, e a impressão que tive é a de que a produção da obra foi bastante atabalhoada, para dizer o mínimo. Só quem trabalhou ali pode contar melhor essa história...

    E não adianta assistir ao documentário “Carandiru.doc”, que foi exibido pelo canal pago GNT (Globosat, claro) na época da estréia do filme. Eu o vi no Cinesesc, durante o festival “É Tudo Verdade” deste ano (vocês foram? Abaixo comento algumas coisas que eu vi por lá), e a decepção foi ainda maior. O filme não é nem um documentário sobre a cadeia nem um making of decente do filme, e é extremamente frustrante por ficar assim em cima do muro.

    Então vemos entrevistas com o Baba, o Drauzio e os figurantes, alguns deles ex-detentos (claramente traumatizados, como enfatiza o médico/autor) ou parentes de ex-hóspedes da Detenção. E é aí que rola uma situação engraçada: durante as filmagens do fatídico dia do massacre, rolou uma rixa forte entre os figurantes que faziam os policiais e os que faziam os detentos, porque os primeiros teriam se tornado brutamontes e maltratados os últimos... hahaha.

    Mas a melhor coisa mesmo da peça de propaganda é a presença do finado rapper Sabotage (a quem o “documentário” é dedicado), cantando “Questão de Ordem” (a de Luiz Melodia, não a do Ministro Gegê)... e olha que, em “Carandiru”, o figura mal aparece. Certo, mano?

    P. S. Eu estive no agora implodido Carandiru uma vez, no começo de 2000, quando eu trabalhava na Ilustrada. Fui entrevistar o 509-E, dupla de rap formada por Dexter e Afro-X (este último embucharia a Simony, ex-musa infantil que chegou a cantar até com o Roberto Carlos e que traiu a infância de milhares de fãs ao posar nua em pêlo para a Playboy, a Sexy e outras revistas de mulher pelada de alto nível e gosto refinado, e daria muita audiência para o Gugu), acompanhado do Flávio Florido, fotojornalista dos bons. A conversa (tranqüila, apesar do clima pesado do local) rolou regada a Fanta no coreto da Divinéia, uma espécie de “hall de entrada” para os pavilhões. Depois, por telefone, falei com o Edy Rock, dos Racionais MC’s, um dos produtores do CD. A matéria ficou legal e deve estar nos arquivos do UOL. Procure, se quiser.

    P. P. S. Também entrevistei o Babenco, também para a Ilustrada, também no início de 2000. O assunto era a peça “Mais Perto”, do autor britânico Patrick Marber, estrelada por José Mayer, Renata Sorrah, Marco Ricca e Guta Stresser (entrevistei a todos, além do cenógrafo Gringo Cardia), que o Baba estava dirigindo. Foi a minha primeira matéria de capa para o caderno. Eu estava lá há pouco mais de um mês e não sabia que era uma operação de risco (porque, segundo me disseram depois, o diretor de redação, Otavio Frias Filho, é dramaturgo e lê com bastante atenção os textos de teatro. Se estivesse uma merda, eu teria sido demitido na hora). O editor era o Sérgio Dávila, um cara legal, que recentemente andou lá pelo Iraque, fazendo um turismo básico.

    Ah, e eu encontrei com o Babenco novamente quando fazia outra matéria de capa, desta vez para o Folhateen, sobre o documentário “O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas”, dos diretores Paulo Caldas (“Baile Perfumado”) e Marcelo Luna. Rolou uma estréia no Espaço Unibanco (com direito a um grupo de street dance e tudo), e lá estava eu com o Garnizé, percussionista do grupo pernambucano Faces do Subúrbio (encontrei com os caras várias vezes, são muitas as histórias, ficam para a mesa do bar), quando o Baba veio cumprimentá-lo e ficou comentando o filme com a gente. Nas duas conversas que tivemos, ele foi bem simpático, devo dizer.

    P. P. P. S. O “É Tudo Verdade” é um festival interessante, procuro freqüentá-lo todos os anos. É grátis e é em uma boa sala, a do Cinesesc. Neste ano, consegui ver duas obras sobre filhos lembrando-se dos pais: o perturbador e francês “Exílio em Sedan” (ah, os horrores do nazismo) e o belo sueco “Boogie Woogie Papa”. “Morning Sun”, um longa interessantíssimo, aborda um aspecto especial da revolução cultural chinesa, mostrando como o conflito de gerações separou pais (inimigos do partido) e filhos (que, jovens, ardiam pelo ideal revolucionário) _mais tarde, estes últimos acabam renunciando a Mao. Uma fatia aterrorizante da história do século XX. Infelizmente, não conseguir ver o filme ganhador do festival, “O Prisioneiro da Grade de Ferro”, que traz os próprios detentos do Carandiru manuseando as câmeras e registrando o seu cotidiano... Este, sim, é um filme que eu recomendo, de olhos fechados.

    domingo, maio 25, 2003

    Roger e Eu / The Big One / Tiros em Columbine

    Weep not, child. Weep not, my darling. With these kisses, let me remove your tears.

    Mas eu estava conversando com um amigo sobre a identidade do homem da primeira base... Já percebeu que é só fazer papel de débil mental para ganhar um Oscar? O Dustin Hoffman em “Rain Man”, o Geoffrey Rush em “Shine”, o Russel Crowe em “Uma Mente Brilhante”... Quem fizer o papel de George W. Bush no cinema vai levar uma estatueta dourada, é barbada. Quem seria o ator ideal para a façanha?

    Falando no Oscar, e esse Michael Moore, hein? O gordinho barbudo de óculos, boné e cabelo ensebado, que lava as axilas rigorosamente uma vez por ano e depois veste a mesma roupa, já era razoavelmente conhecido por uma parte da descolândia, mas foi só ganhar o prêmio de melhor documentário por “Bowling for Columbine” (que está sendo exibido até no Cinemark! E é documentário! Documentário, um palavrão para os cartolas do cinema!) e mandar o filho bêbado do ex-vice do Reagan tomar vergonha naquela cara apatetada e orelhuda para virar um superstar. Já tem gente chamando o cara de “o Anticristo da era Bush”... Legal, legal!

    Pois foi só o figura ganhar o Oscar, e as TVs brasileiras, felizmente, não demoraram a exibir alguns dos filmes do cara. O canal do Silvio Santos, pasmem, passou “Roger and Me”, o documentário que revelou Moore (que era jornalista da imprensa alternativa), legendado, em uma madrugada... Parece pouco? Não é.

    Bom, para entender qual é, afinal de contas, a desse tal de Michael Moore, é preciso contextualizar a trajetória do mancebo (ou melhor, “man sebo”), e “Roger e Eu” (não, não é sobre um suposto “affair” tórrido com o líder do Ultraje a Rigor) é o filme ideal para apresentá-la. Tudo começa na cidade de Flint, em Michigan, a cerca de uma hora de Detroit, região célebre por ser a sede de grandes indústrias automobilísticas. Foi em Flint, narra Moore, que a General Motors nasceu. A famosa greve de 1936 é citada como fato histórico, e a presença de celebridades como Pat Boone nas festas da empresa conferia um certo glamour ao local, cuja economia girava em torno da fábrica.

    Só que, no fim dos anos 80, a empresa, cujo presidente chama-se Roger Smith, fecha 11 fábricas na região, causando a demissão de umas 30 mil pessoas. Em seu filme, Moore documenta a catástrofe que o acontecimento causou em Flint: a criminalidade aumenta assustadoramente, a população apela para subempregos (a personagem mais pitoresca do filme é justamente uma mulher que passa a criar coelhos para vender), dezenas, centenas, talvez milhares de famílias são despejadas (outro personagem de destaque é um policial cujo doloroso serviço é fazer cumprir as ordens de despejo), e os políticos empreendem tentativas patéticas e desastrosas de reavivar a economia local, como procurar transformar a cidade em ponto turístico, bóf.

    Paralelamente a isso tudo, Moore entrevista personalidades inusitadas, como a Miss Michigan (que, bem, é uma miss...), e passa três anos perseguindo Roger Smith, desejando que ele testemunhe o abandono que tomou conta de Flint, e só consegue falar com o dito cujo uma vez. Sim, uma das qualidades jornalísticas de Moore é que ele é um carrapato. E “Roger e Eu” é um documentário interessante, feito de maneira bem, digamos, “largada”, bem no estilo Michael Moore, um precursor do grunge. E que tem, como tema, a maravilhosa “Wouldn't It Be Nice”, dos Beach Boys, citada por um ex-empregado da GM, aos prantos.

    “The Big One”, exibido aqui pelo GNT, é uma espécie de continuação de “Roger and Me”. Traz, exacerbada como nunca, uma das características que mais depõem contra o cineasta: seu narcisismo, seu “jornalismo gonzo”, esta muleta na qual muita gente sem talento, mas com delírios de grandeza, se apóia. Isso causa um certo desequilíbrio em seus filmes (e, provavelmente, em seus livros), há o risco de o documentarista se tornar maior do que o documentário, e Moore parece curtir a persona de celebridade, além de saber dramatizar certas situações, o que nos dá a impressão de que ele, por vezes, é tendencioso demais, apesar de bem-intencionado.

    Então, “The Big One” (nome que Moore sugere para rebatizar os EUA em um programa de rádio, satirizando os executivos de marketing) documenta uma turnê literária _nos EUA, é bastante comum os autores de best sellers viajarem o país, dando noites de autógrafos em livrarias (aqui no Brasil isso também chega a rolar, mas em proporções infinitamente menores). São, se não me engano, 47 cidades em 50 dias, atravessando o país de costa a costa. E, no meio de algumas palhaçadas dignas de pegadinha do Mallandro (como mandar o segurança expulsar sua própria agente literária, entre outras muitas ironias, algumas divertidas), Moore, que lança um livro chamado “Downsize This!”, uma crítica aos cortes de funcionários norte-americanos em multinacionais e ao fechamento de fábricas (lógico que o drama de Flint será repisado à exaustão), visita várias empresas ao longo do país, tentando falar com os CEOs para questionar a política de empregar mão-de-obra barata em países como México, em vez de seguir alimentando a população dos EUA. Claro que ele só levará portas na cara, com uma exceção louvável: o bambambã da Nike, empresa famosa por ter aberto uma fábrica na Indonésia, aquele país que massacrou o povo do Timor Leste, pagando meia pataca para os funcionários, recebe Moore e é fustigado com perguntas como “você não tem consciência?”.

    Mas o documentarista atinge o seu auge com o oscarizado “Tiros em Columbine”: partindo do infame episódio em que dois garotos matam e ferem vários colegas e funcionários de um colégio, Moore faz uma pesquisa muito interessante sobre a cultura do medo e da violência no “Grandão”, comparando-o com outros países do dito “mundo livre”, como França, Austrália, Inglaterra e Canadá (taí, eu gostaria que o nosso Brazuca tivesse entrado na roda. Talvez o país do Tio Sam não seja tão violento assim...).

    Diz aí: você sabe que um animal acuado ataca, não? Paranóia tem potencial de gerar violência, concorda? Armas não são nem um pouco perigosas, desde que dedos dementes não carreguem os pentes e puxem os gatilhos, certo? Pois essas questões óbvias parecem absurdas para o norte-americano mediano. Moore mostra que a mentalidade deles é a de “eliminar o intermediário”. “Para que eu vou chamar a polícia, se eu posso ter armas em casa e defender minha família com elas?”, pergunta uma mulher, que atira desde criancinha. Como diria o Homer Simpson, doh!

    Então os absurdos pululam, como o banco que dá armas como brinde para quem abrir uma conta (hilário, se tamanha estupidez não fosse lamentável) e a cidade na qual todos os cidadãos são OBRIGADOS a portar armas de fogo. E, mais do que mostrar essas barbaridades, o nosso amigo Moore põe o dedo na ferida e exibe, em um clipe cuja trilha sonora é “What a Wonderful World” (a música mais triste já escrita, na opinião do indispensável Nick Cave), relatando as porcarias que a política externa dos EUA realizou no século XX. Qual o exemplo mais nocivo para a sociedade, o extremamente lúcido Marilyn Manson ou o presidente norte-americano ordenando bombardeios em outros países?

    O terror aflora nas gravações de chamadas do 911 (e depois os americanos ficam putos com o Lars von Trier por causa de “Dogville”, que perdeu para Gus Van Sant a Palma de Ouro em Cannes _vocês não acharam que ia dar “Carandiru”, né?), nas entrevistas com os jovens, com o irmão de um dos responsáveis pelo horroroso atentado que matou quase 200 pessoas em Oklahoma (e que nunca ouviu falar em Gandhi), no caso de um menino de seis anos que matou uma menina da mesma idade, num desenho animado a la “South Park” (e um dos criadores da série também dá seu testemunho) que resume a trajetória do país de Dick Cheney (e bota “dick” nisso) e no próprio Moisés, o Charlton Heston, dizendo que só arrancarão as armas de suas “mãos geladas e mortas”. Brr.

    Mas o melhor de tudo é que Moore, finalmente, conseguer fazer a diferença: vejam o que acontece quando ele leva dois garotos, baleados em Columbine, para protestar contra as vendas de balas (não as doces, claro) na maior rede de supermercados da América. É emocionante, ele mesmo não consegue acreditar.

    É, é como cantam os Beach Boys na faixa que abre o “Pet Sounds”: “maybe if we think and wish and hope and pray it might come true / baby, then there wouldn't be a single thing we couldn't do”.

    P. S. A trabalhosa apuração dos votos da importantíssima pesquisa "as notas ficam ou não" foi a seguinte: um voto a favor, dois votos contra. Portanto, os filmes não mais recebem notas duvidosas neste site. Regozijem-se!

    terça-feira, maio 20, 2003

    Chicago / Psicose

    Olha só: comprei um DVD. Fodeu.

    Então, segunda-feira, 7 de abril, e a maledetta greve de ônibus me impediu de fazer o que eu achava que tinha de fazer. O jeito foi aproveitar o dia de bobeira para ir ao cinema e tirar o atraso (não, amiguinhos, eu não fui ver filme pornô nem bolinar mocinhas inocentes nas salas; é que, ultimamente, diminuí bastante a minha freqüência nos cinemas, por mais de um motivo).

    Eu queria ver “As Horas”, mas o filme já tinha saído de cartaz no cinema mais próximo do meu cafofo nervoso, então o jeito foi conferir o "grande vencedor do Oscar da temporada de 2002", credo.

    E já vou falando na cara: eu ADORO musicais. Tem gente que torce o nariz e acha que é coisa de perobo, mas eu acho o máximo. Quando são bem feitos, claro. E, quando digo bem feitos, não estou falando apenas das canções, dos intérpretes, dos figurinos, das coreografias, da dramaturgia, dos músicos e de tudo o mais que faz parte de um espetáculo musical. Estou falando de cinema, do uso criativo de uma câmera para registrar as performances e nos transmitir, através do olhar, uma história interessante.

    E é aqui que a porca torce o rabo e faz de “Chicago” um filme bastante decepcionante. A maior parte da obra é composta de um mero show da Broadway muito bem executado, mas mal e porcamente filmado. Os números musicais são externos à trama (uma solução fácil, mas não a melhor), imaginados pela cabecinha de Roxie Hart (mais uma prova de competência da texana Reneé Zellweger), a mulher ambiciosa que mata o amante e vai pro xilindró, onde encontra uma estrela que também fez burrada (Catherine Zeta-Jones, chuchu da minha marmita), uma policial durona (Queen Latifah, que, de cantora, passa para o cinema, onde está tendo sucesso) e um advogado mutreteiro (Richard Gere, um cara bem zen, com quem eu simpatizo extremamente).

    Sim, o elenco de Chicago, completado por John C. Reilly, como o Mr. Cellophane, o marido bonzinho da loira assassina, é muito bom. O show da Broadway original, pelo que a gente pôde ver pelo filme, parece também ser de qualidade, embora as músicas sejam bem pouco marcantes, e as letras, nada demais. A obra é irônica, inteligente ao criar certas expectativas para frustrá-las logo em seguida, e é legal o modo como ela se mistura a dois outros gêneros, o dos “filmes de tribunal” e o dos “filmes de cadeias femininas” (este último, prato cheio para apreciadores de sadomasoquismo, tanto sexual quanto cinematográfico).

    Tá, “Chicago” nem faz muito feio, de modo geral. Dá pra se divertir, passar o tempo e tal, mas, como resultado final, ficou bastante pobre (especialmente quando a gente os compara às obras-primas que Hollywood já realizou _taí um tema para mais uma estroboscópica cuspe-enquete: qual o seu musical preferido?), e aí não me surpreende ele ter sido contemplado com o Oscar, que também já consagrou filmes do quilate de “Shakespeare Apaixonado”, bluérgh.

    Mas vamos mudar da água para o vinho e falarmos de um outro tipo de crime, baby: “Psycho”, talvez o mais famoso filme de “serial killer” da história.

    Longe de ser o meu Hitchcock preferido, “Psicose” é admirável e extremamente marcante. A famosíssima “cena do chuveiro” talvez seja a cena cinematográfica mais satirizada da história (assim como a do balcão em “Romeu e Julieta”, se formos pensar em teatro). E acho que não exagero ao dizer que a incrível trilha sonora (difícil cravar se é melhor ou pior do que a de "Vertigo") de Bernard Herrmann é um dos maiores fatores do sucesso do filme... Poucas vezes uma trilha marcou tanto uma determinada cena (só posso compara-la com a de “Tubarão”, composta por outro bambambã do métier, o John Williams).

    Também marcante é a atuação de Anthony Perkins, que está genial como o jovem Norman Bates _seu rosto, no final, é uma das mais terríveis expressões do mal já vistas, brr (e só falo isso porque todo mundo, mesmo quem não viu o filme, conhece a conclusão do enredo, uma pena). A performance de Perkins é tão antológica que o "coitado" nunca mais conseguiu se livrar do estigma e, no fim da vida, passando por apertos, teve de voltar ao personagem em seqüências heréticas, na onda de continuações de séries de terror “gore”, nos anos 80. Triste, triste. Ah, mas ele esteve em outros filmes legais, como "Ardil 22", com Alan Arkin...

    Mas o que faz mesmo de “Psicose” um filme genial é a brilhante construção de planos que o Hitch usa para costurar uma história também fantástica, assim como é fantástica a atmosfera irrealista, de pesadelo, das imagens (não vou me alongar em questões técnicas para que vocês não durmam, caros tiroleses alegres). O filme traz uma brilhante virada de enredo, justamente quando a personagem de Marion Crane (Janet Leigh), que rouba uma grande soma em dinheiro e foge pelo interior dos EUA, vai tomar sua fatídica chuveirada (que é o verdadeiro clímax da obra).

    Ah, como se não bastasse, o filme foi copiado por Gus Van Sant, numa versão simplesmente imbecil _porque se trata de uma cópia quase exata, plano a plano, mas em cores e com atores menos carismáticos. Vão tomar banho!

    Chicago: 6,5/10
    Psicose: 9,9/10

    P. S. Você, quando vê um bom filme, também participa dele, pequeno gafanhoto. Ou você fica babando na poltrona, segurando um saco enorme de pipocas gordurosas e isoporentas, engolindo tudo o que é despejado nas suas retinas tão fatigadas? Ou fica com as mãos nas têmporas, gritando, enlouquecido, “Aaaaaargh! Estou pensaaaaandooooo!”, enquanto chuta o coitado que está sentado à sua frente?

    Então, para aumentar a sua auto-estima, dá só uma lida no seguinte trecho de “Palavra e Imagem”, um dos artigos que compõem “O Sentido do Filme”, a primeira coletânea de textos de Sergei Eisenstein, um dos maiores mestres do cinema em todos os tempos (para ficar mais divertido, conte quantas vezes ele usa a palavra “individualidade”):

    “A força do método reside também no fato de que o espectador é arrastado para o ato criativo, no qual sua individualidade não está subordinada à individualidade do autor, mas se manifesta através do processo de fusão com a intenção do autor, exatamente como a individualidade de um grande ator se funde com a individualidade de um grande dramaturgo na criação de uma imagem cênica clássica. Na realidade, todo espectador, de acordo com sua individualidade, a seu próprio modo e a partir de sua própria experiência _a partir das entranhas de sua fantasia, a partir da urdidura e trama de suas associações, todas condicionadas pelas premissas de seu caráter, hábitos e condição social_, cria uma imagem de acordo com a orientação plástica sugerida pelo autor, levando-o a entender e sentir o tema do autor. É a mesma imagem concebida e criada pelo autor, mas esta imagem, ao mesmo tempo, também é criada pelo próprio espectador. (...)

    E, agora, podemos dizer que é precisamente o princípio da montagem, diferente do da representação, que obriga os próprios espectadores a criar, e o princípio da montagem, através disso, adquire o poder do estímulo criativo interior do espectador, que distingue uma obra emocionalmente empolgante de uma outra que não vai além da apresentação da informação ou do registro do acontecimento. Examinando esta diferença, descobrimos que o princípio da montagem no cinema é apenas um caso particular de aplicação do princípio da montagem geral, um princípio que, se entendido plenamente, ultrapassa em muito os limites da colagem de fragmentos de filme.”

    P. P. S. Jesus!

    quinta-feira, maio 15, 2003

    Mouchette, a Virgem Possuída / Pickpocket

    Voltei ao meu peso normal. Meu cabelo está ficando legal de novo. Sinto bem menos necessidade de álcool/drogas. O sexo oposto voltou a demonstrar o interesse de sempre. I feel good.

    Então, notaram algumas diferenças entre os textos mais recentes e os antigos deste site? Não foi nada planejado, mas acho que mudou muita coisa (nem vou me alongar sobre o assunto).

    Mas tenho certeza de que, em alguns meses, terei vergonha deste texto. Ora, quem sou eu para falar de Robert Bresson (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui)? Quem sou eu diante da imensidão das estrelas? “Eu já ia chegar no senhor, chefinho...”

    Pois teve uma mostra (gratuita, como tudo que é realmente bom na vida) do célebre cineasta francês no Centro Cultural São Paulo, costumeiro refúgio de punks e jogadores de Reeducação de Postura Global. Sim, deixei de jogar o quase tradicional basquetinho de sábado (pasmem, eu joguei basquete por um bom tempo, apesar de não ter mais de 2m de altura e deixar as unhas das mãos compridas _era pivô, inclusive) e fui conferir duas sessões lotadas, na seqüência _infelizmente, não deu para ver “O Processo de Joana D’Arc”, o que eu mais queria (falando nisso, já viram o impressionante filme do Dreyer? A minha amiga Cat Power (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) me disse, em uma das duas longas conversas que tivemos até hoje, que também gosta).

    Sem mais delongas: Mouchette é uma menina que não se dá bem com os colegas de escola (uma de suas diversões é jogar terra nas patricinhas; ela também foge do assédio dos moleques mais velhos), tem a mãe doente em casa, apanha do pai grosseiro (o irmão mais velho não fala nada) e cuida do mais novo, bebê. Fala pouco, mas se expressa bem. Tem seus momentos felizes, como a deliciosa cena dos carrinhos tromba-tromba (amostra da perícia de Bresson, assim como nas cenas de roubo em “Pickpocket”), mas isso é raro. Trata-se de uma dessas personagens trágicas, miseráveis, pungentes, desgraçadas, belas e o caralho a quatro.

    A história da guriazinha acaba se misturando com a de um guarda e de um caçador, que se digladiam sobre uma mulher e sobre a caça (há cenas cruéis de pássaros e coelhinhos sendo mortos, causou certo nojo na platéia). Após uma briga, que, tudo indica, acaba em homicídio, o caçador encontra Mouchette e a leva para sua cabana, onde passam a noite e... bem, há quem diga que a menina foi estuprada, outros acham que ela “deu gostoso”, para usarmos de um vocabulário mais condizente com o nível de sofisticação e requinte desta página eletrônica. E aí...

    Em resumo, é um desses filmes que, apesar de mostrarem tudo (com clareza e beleza assustadoras), sugerem bastante, deliciando e, às vezes, confundindo seus espectadores, sem, no entanto, menosprezá-los em momento algum. E a cena final é primorosa, sublime, lindíssima, emocionante. Vale o filme.

    Já “Pickpocket” (que já foi batizado aqui no Brasil como “O Batedor de Carteiras” e “Como Roubar com Inteligência”, urgh), outro clássico do diretor, é livremente inspirado em “Crime e Castigo”, simplesmente um dos livros que mudaram a minha vida _se você ainda não leu, não sabe o que está perdendo. Vá caçá-lo já na biblioteca mais próxima e devore-o!

    O protagonista, um jovem estudante e aspirante a escritor (que diz “não crer em nada”, justamente a parte do filme que mais me fez lembrar da obra-prima de Dostoievski), especializa-se em bater carteiras e vive de golpes. Ele fica absolutamente viciado na adrenalina dos crimes (como já falei anteriormente, as cenas dos furtos são incrivelmente engenhosas, ágeis, divertidas _a platéia ria, deliciada) e não consegue abandoná-los, dando-nos a impressão de que seu destino será fatídico. Para completar, ele também tem a mãe doente e se relaciona com uma vizinha, que cuida da velha... Ah, mais uma vez, Bresson mostra que sabe caprichar nos desfechos: o de “Pickpocket” também é tocante. Au revoir!

    Mouchette, a Virgem Possuída: 9/10
    Pickpocket: 8,5/10

    P. S. Esta recomendação é para todos, mas é especial para as mulheres: assistam “Desmundo”, de Alain Fresnot, baseado no romance de Ana Miranda. Já vou avisando: teve gente que achou chato. Eu achei bom. Não ótimo, mas bom. Gostei, me envolvi, me emocionei. Espero que vocês gostem, também.

    P. P. S. Aí vai mais um trechinho de “Sobre Direção de Cinema”, livraço (não em extensão, porque é curtíssimo e muito simples) do meu amigo David Mamet. Este aqui refere-se à direção de atores:

    Humphrey Bogart contava a seguinte história: estavam rodando ‘Casablanca’ e, na hora em que alguém chega para ele e diz ‘Eles querem tocar a Marselhesa, o que a gente faz? Os nazistas estão aqui, e a gente não devia tocar a Marselhesa...’, Humphrey Bogart simplesmente acena com a cabeça para a orquestra, nós cortamos para a orquestra, e eles começam a tocar ‘tá-rá-tá-rá’.

    Quando alguém perguntava o que ele fizera para que aquela linda cena funcionasse, ele explicava: Michael Curtiz, o diretor, disse ‘fica parado naquela varanda ali, e quando eu disser ação, conta um e acena com a cabeça’, e foi o que ele fez. Isso é que é uma grande atuação. Por quê? O que mais ele poderia ter feito? Pediram que ele acenasse com a cabeça; ele acenou com a cabeça. É isso aí. A platéia fica incrivelmente comovida pela simples contenção numa situação emocional... e essa é a essência do bom teatro: o bom teatro é ter gente executando tarefas extraordinariamente comoventes da maneira mais simples possível. A dramaturgia, filmografia e atuação contemporâneas tendem a nos oferecer o inverso: gente executando ações prosaicas e previsíveis de maneira exagerada. O bom ator executa suas tarefas da maneira mais simples e menos emocional possível. Isso permite à platéia ‘entender a idéia’, assim como a justaposição de imagens não-infletidas a serviço de uma terceira idéia cria a peça na mente da platéia.

    Aprendam isso, e vão lá fazer o filme.”

    sábado, maio 10, 2003

    Durval Discos / 2 Perdidos numa Noite Suja

    I know that you’ll feel better when you send us in your letter and tell us the name of your... your favorite vegetable.

    Oba, oba, eu estava louco de vontade de escrever sobre “Durval Discos”, justamente porque o longa de estréia de Anna Muylaert (filha do seu Roberto, ex-presidente da Fundação Padre Anchieta e responsável pela melhor fase da TV Cultura, na virada dos anos 80 para os 90) parece ser uma dessas obras capazes de gerar amor e ódio: o filme papou os principais prêmios em Gramado (inclusive o de escolha popular, consagração total) e fez sucesso entre a grande maioria dos críticos, mas também causou ojeriza em um monte de gente... Legal, legal!

    Eu confesso que fui ver o filme com os dois pés atrás, porque a Van já tinha me falado muito mal dele, e a Teca (que faz aniversário quarta-feira, parabéns para a manceba) tinha dito que era bom. E, para piorar tudo, eu havia presenciado a leitura do roteiro em um evento na Folha, há alguns anos. Ou seja, eu já conhecia, de antemão, todas as surpresas do filme. E isso estragou todo o impacto da obra. Mas me permitiu analisar friamente outros aspectos.

    E, vendo as diferentes reações das pessoas (isso é o mais interessante de tudo), é fácil constatar que “Durval Discos” é mesmo um filme impactante _o que é bom. E não o considero apelativo, abusivo ou qualquer outra coisa do tipo. Mas arrojo não é prerrogativa de qualidade: infelizmente, a película tem uma série de problemas.

    Um dos mais gritantes é a atuação decepcionante de Ary França, um homem de teatro, que ganhou certa fama nos anos 80, junto com o Ornitorrinco, companhia teatral encabeçada pelo sr. Cacá Rosset. França é, acima de tudo, um comediante (mais ligado ao humor físico), e “Durval Discos” não é uma mera comédia _o personagem principal não dá muita chance para o ator brilhar.

    Só que foi justamente esta a escolha da diretora: fazer um filme repleto de ruídos. “Durval Discos” é como um vinil velho, todo riscado, cheio de chiados, que fica pulando a toda hora. Tem um lado A, mais bobinho, e um lado B, mais soturno. E, se essa sacada poderia ter dado em algo muito legal, no caso de “Durval Discos” foi como um tiro no pé, porque, aqui, o que interessa mais é o ato de virar o disco, e não de “escutá-lo”. Trata-se de mais uma dessas obras onde a forma ofusca o conteúdo (percebam que nem vou comentar o enredo neste texto).

    Por isso, o filme torna-se absolutamente irritante (e até mesmo inconseqüente) em certos trechos dispensáveis do “lado A”: pura encheção de lingüiça, como as participações especiais de Rita Lee e do ex-marido da diretora, André Abujamra (encarnando Fat Marley, que até já lançou disco _é sério). Nessas partes, é ruim mesmo. Já em outros, é gracioso, especialmente na cena em que Durval e sua mãe (Etty Fraser, maravilhosa, dona da melhor atuação) jantam, naquela em que eles, mascarados, dançam com a menina (Isabela Guasco, uma figurinha), na do passeio de charrete por São Paulo, ao som de “Besta É Tu”, dos Novos Baianos _não por acaso, o momento mais leve e alegre da obra_, e no melhor plano de todos, sensacional, que rola lá pelo final, mas que não posso descrever aqui, sob pena de entregar algumas surpresas do enredo.

    E é interessantíssimo observar que o filme, de orçamento relativamente baixo (cerca de R$ 1,8 mi), feito totalmente em locação, subverte a cartilha cinematográfica ao usar uma bitola larga (Super 35, considerada por muitos como superior ao Cinemascope) e lentes grande-angulares para filmar em interiores, em espaços pequenos. Neste sentido bastante específico, “Durval Discos” é legal pra caralho.

    Só que, como eu disse antes, tais ousadias não bastam para gerar um bom filme. Mas são suficientes para fazer dele, para o bem ou para o mal, uma obra interessante, que merece ser vista e discutida. É por isso que, apesar de não considerá-lo maravilhoso, eu recomendei e continuo recomendando “Durval Discos”. Agora, sejamos francos: o final é uma merda!

    Do outro lado da moeda temos “2 Perdidos numa Noite Suja” (escreve-se assim mesmo, com o “2”), uma película baseada em um texto (primoroso, diga-se) teatral _o que, em geral, acaba restringindo a maneira de o diretor contar a história. Obviamente, filmes ótimos podem ser feitos a partir de peças teatrais (os exemplos são inúmeros, e alguns deles já foram comentados aqui), mas o perigo de assistirmos a uma narrativa cinematográfica frouxa (como é o caso do decepcionante “Chicago”, que comentaremos em breve) sempre existe.

    Neste sentido, o filme mais recente de José Joffily (veterano produtor e roteirista carioca, que também dirigiu “A Maldição de Sampaku” e “Quem Matou Pixote?”, entre outros) até que é bem-sucedido. Apesar de tornar o título da peça sem sentido, ele consegue ser razoavelmente fiel ao âmago da obra de Plínio Marcos (embora exista uma diferença fundamental entre o enredo deste filme e o texto original que, por razões óbvias, não poderei comentar aqui), mesmo com a transposição temporal e geográfica que os personagens Paco e Tonho sofreram.

    Quem, por acaso, torceu o nariz ao saber que os pobretões miseráveis (que, na peça, brigam por um par de sapatos) viraram imigrantes brasileiros na Nova York pré e pós 11 de setembro (há um certo descompasso por causa disso, mas é só um detalhe, não sejamos tão cri-cri assim), pode endireitar a napa: bordar mais este problema da “modernidade” foi uma idéia feliz do diretor. Assim como a mudança de sexo do agressivo Paco, aqui vivido razoavelmente bem pela gatinha Débora Falabella (sim, ela aparece pelada; sim, ela é uma delícia, smurfs).

    Mas o destaque do filme é mesmo Roberto Bomtempo, um ator muito bom, que encarnou com dignidade imensa o choroso Tonho, também o personagem mais interessante da peça. Outra coisa legal do filme é, pasmem, “2 Perdidos”, canção do ex-titã e atual tripudialista Arnaldo Antunes em parceria com Dadi (um cara que tocou com todo mundo, vocês sabem, não?): ficou muito bonita, pena que o AA tenha insistido em cantá-la... teria ficado bem melhor se uma mulher (ou qualquer um mais afinado) a tivesse interpretado. E por hoje é só, folks!

    Durval Discos: 6,5/10
    2 Perdidos numa Noite Suja: 7,5/10

    P. S. Mais uma liçãozinha a respeito da sétima arte, desta vez transmitida por David Mamet, que aprendeu tudo com Eisenstein (trata-se de trechos do livro “Sobre Direção de Cinema”, publicado aqui pela Civilização Brasileira):

    “Você sempre quer contar a história por meio dos cortes. (...) Deixem que o corte conte a história. Porque de outra forma não se terá ação dramática, e sim narração. (...) Isso é filmar, é justapor imagens. (...) Os documentários captam imagens basicamente desconexas e as justapõem para dar ao espectador a idéia que o realizador quer transmitir. Pegam imagens de pássaros quebrando um graveto. Pegam a imagem de um veado erguendo a cabeça. Os dois planos não têm nada a ver um com o outro. Foram filmados em dias ou anos diferentes, separados por quilômetros. E o realizador justapõe essas imagens para dar ao espectador a idéia de alerta total. Esses planos não têm nada a ver um com o outro. Não são um registro do que o protagonista fez. Não são um registro de como o veado reagiu ao pássaro. São imagens basicamente não-infletidas. Mas, quando são justapostas, dão ao espectador a idéia de alerta ao perigo. Isso é filmar bem.”

    P. P. S. Sacanagem, o Dadi é esse aqui, ó.

    terça-feira, maio 06, 2003

    São Paulo Sociedade Anônima / Copacabana me Engana

    É, o Waly Salomão pegou aquele velho navio. Será que ele já encontrou a Dr. Nina?

    Então, macabeu, enquanto você espera a sua vez de carpir o gato por toda a eternidade, recomendo que você preencha parte de seu precioso tempinho com um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos _talvez o melhor de todos: “São Paulo Sociedade Anônima”, mais conhecido pela abreviação de seu título, “São Paulo S/A”.

    A película, de 1964, é a obra-prima de seu diretor, Luiz Sérgio Person (1936-1976), figura importantíssima do cinema nacional (trabalhou com um monte de gente legal, inclusive o velho Mojica) que vai ganhar um documentário em longa-metragem dirigido por sua filha mais velha, Marina, que também é cineasta, mas é mais conhecida por ser a “menina veneno” da MTV.

    “São Paulo S/A” é o melhor retrato da maior metrópole do Brasil já feito. É também a melhor interpretação do período Juscelino _vocês sabem, Juscelino Kubitschek, o JK, o “presidente bossa nova”, aquele construiu Brasília, o cara da antiga nota de cem mil cruzados etc. Aborda os anos de 1957 a 1961 e mostra os reflexos do “50 anos em 5”, o plano de aceleração da industrialização do país, que teve no êxodo rural um de seus principais efeitos colaterais.

    Então não é à toa que o protagonista, brilhantemente vivido pelo grande (e meio sumido, atualmente) Walmor Chagas (ainda sem os famosos cabelos grisalhos), trabalha na indústria automobilística. O filme mostra como cerca de 2.000 fábricas de autopeças “surgiram de um dia pro outro” na região de São Paulo/ABC e discute não apenas economia e política, mas, principalmente, as transformações na sociedade brasileira.

    E não se trata apenas de denúncias de corrupção generalizada, como o desrespeito aos direitos trabalhistas e a sonegação de impostos, e de críticas ao capitalismo e ao “jeitinho brasileiro” _que, como sabemos, não é somente “privilégio” do Brasil, mas um fenômeno universal (ou melhor, humano)_, representado em boa parte pelo personagem Arturo (Otelo Zeloni), o arquétipo do imigrante (tinha de ser italiano) que se deu bem por aqui. Conhecem aquela peça de Martins Pena na qual um português reclama que está há anos no Brasil e “ainda” não ficou rico? Pois é...

    Mas o mais legal do filme, além de seu aspecto histórico (vemos, por exemplo, o edifício Itália em construção, além das antigas praças da República e da Sé), é o retrato das relações entre homens e mulheres. Eva Wilma (grande atriz, pena que foi banalizada pela Globo _sabiam que ela chegou a fazer teste para um filme de Hitchcock?), aqui lindíssima, personifica a garota de classe média que vai estudar inglês (as cenas das aulas são engraçadíssimas, irônicas, fantásticas) e datilografia para “arranjar um bom trabalho”, mas que, no fundo, deseja ser uma “boa esposa”, assim como sua mãe. Darlene Glória, gostooosa, faz o papel da vagaba, da mulher-máquina, garota-propaganda, engrenagem-vedete que usa e abusa do corpo e da sensualidade para “subir” na vida. E a personagem de Ana Esmeralda, a mais pungente, que começa sustentada por amantes ricos, mas encontra um grande amor e torna-se heroína trágica... E, mesmo assim, todas essas mulheres, cada uma maravilhosa à sua maneira, ainda vivem em função dos homens, ainda perpetuam as mesmas relações econômicas (sim, econômicas) que pautam as nossas vidas limitadas...

    “São Paulo S/A” é o “Tempos Modernos” brasileiro, é o “Dom Casmurro” cinematográfico, é o filme que abre a nossa cidade e nos mostra uma engrenagem perdida, que quer se libertar, desesperadamente, mas não consegue quebrar o aparentemente incansável ciclo de produção. É o retrato vertiginoso da velocidade crescente, em uma montagem impecável (“Pulp Fiction” perde), ao mesmo tempo revolucionária e cristalina, com um afastamento narrativo que chega a ser cruel, uma épica simbiose brasileira de nouvelle vague com neo-realismo (Person estudou na Itália por um bom tempo), emoldurada pela excelente música de Cláudio Petraglia. Um tesouro, uma glória, um filme para ver vinte, cinqüenta, mil vezes, e se emocionar em todas elas. Ao final da sessão em que eu estive, o público aplaudiu, e de pé, espontaneamente. Person e sua equipe fizeram por merecer.

    Mas vamos pisar no freio um pouquinho e ir para um lugar mais relax, o Rio de Janeiro, superfície maravilhosa. Estamos em 1969, o país está sob o jugo da ditadura militar, e Antonio Carlos Fontoura (o mesmo de “Rainha Diaba”) dirige, roteiriza e produz (com fotografia de Afonso Beato e câmera de Jorge Bodansky _o pai da Laís, que dirigiu “Bicho de Sete Cabeças”) “Copacabana me Engana”, filme que, apesar do nome, não chega a ser “intelectualice tropicalista” (graças a deus), como o insuportável “Meteorango Kid”, glacê metálico no bolo espacial.

    Tá, a música tema é “Baby”, ouvimos muito Mutantes e Gilberto Gil, o Chacrinha (“vai lá fora e chama ele”) aparece na TV. É um filme “jovem”, “ousado”, traz uma família desestruturada, o “respeitável” pai é adúltero, a mãe é uma neurótica que apanha do filho, os irmãos dividem mulher _uma cena antológica ao som de “Try a Little Tenderness”, com o meu velho amigo Otis Redding e tal.

    É, basicamente, um painel da juventude carioca no final dos anos 60, sem entrar em política, como era de se esperar, devido à dureza dos tempos _tá, há uma seqüência em uma reunião de sindicato, que é ridicularizada pelos playbas, mas o que pega mesmo são as questões sociais/sexuais, uma espécie de “Porky’s” muito mais irônico, maduro, bonito e engraçado. Os diálogos são supimpas.

    Os destaques óbvios são Paulo Gracindo, sempre excelente, e Odete Lara, esta mulher fantástica que, recentemente, ganhou cinebiografia _alguém viu? O Cláudio Marzo também aparece, mas nem fede nem cheira _quem rouba a cena mesmo é o hilário Joel Barcellos (novinho, mas já feio), que mais tarde estrelaria o quase-pornô “Rio Babilônia”, de Neville D’Almeida, com a Christiane Torloni.

    Mas o legal deste filme é a imagem diferente que ele traz da mulher. Odete Lara (que fica ali-ali com Leila Diniz e Norma Bengell) traz um discurso de independência e de liberdade sexual que foi e é necessário _um dos maiores avanços da humanidade. E assim a gente segue, recomeçando, recomeçando, recomeçando.

    São Paulo S/A: 10/10

    Copacabana me Engana: 7,5/10

    P. S. Leiam este trecho do livro “Making Movies”, do grande Sidney Lumet, no qual ele comenta o primoroso “Doze Homens e uma Sentença” (justamente seu primeiro filme, que já ganhou texto aqui), e percebam como um autor cinematográfico pensa o filme não apenas em termos de conteúdo, de ação dramática, de luz, cenografia e figurino. É pena que, muitas vezes, mesmo os analistas mais sagazes (entre os quais eu não me incluo, lógico) não conseguem pegar essas sutilezas...

    “Nunca me ocorreu que rodar um filme inteiro numa única sala fosse um problema. Na verdade, eu achava que poderia tirar vantagem disso. Um dos mais importantes elementos dramáticos para mim era a sensação de aprisionamento que aqueles homens deveriam sentir naquela sala. Imediatamente me ocorreu um ‘enredo de lentes’. À medida que o filme se desenrolava, eu queria que a sala fosse parecendo cada vez menor. Isso queria dizer que eu iria, aos poucos, passar a usar lentes mais longas com o decorrer do filme. Começando com a faixa normal (28mm a 40mm), passamos para lentes de 50mm, 75mm e 100mm. Além disso, rodei o primeiro terço do filme acima do nível do olho e, depois, abaixando a câmera, rodei o segundo terço ao nível do olho e o último terço abaixo do nível do olho. Desse modo, já no final, o teto começava a aparecer. Não apenas as paredes se fechavam; o teto também. A sensação de aparente claustrofobia ajudou muito a elevar a tensão da última parte do filme. Na tomada final, uma externa que mostrava os jurados saindo do tribunal, usei uma lente grande-angular, mais larga do que qualquer lente que tivesse sido usada em todo o filme. Também levantei a câmera para a posição mais elevada acima do nível do olho. A intenção era, literalmente, nos dar todo o ar, deixar-nos finalmente respirar, depois de duas horas cada vez mais confinados.”

    P. P. S. We like tha moon.

    sexta-feira, maio 02, 2003

    Os Nibelungos / A Última Gargalhada

    Eu avisei, mas vocês, tubérculos ruminantes, não me ouviram. Eu falei pra vocês não perderem a mostra de filmes da UFA, que rolou durante o mês de março, na agradabilíssima Cinemateca de São Paulo, um lugar básico para quem gosta dessa tal de sétima arte.

    Entonces, a UFA não era a Unidade dos Filmes Anormais nem União dos Fodedores Anônimos nem qualquer outra dessas coisas pornográficas e amorais nas quais você pensou, Joãozinho. Era uma produtora alemã que começou a funcionar logo após a Primeira Guerra Mundial _ou seja, o país do chucrute, derrotado, estava arrasado não apenas economicamente (hiperinflação e tal), mas moralmente as well.

    Daí a idéia de produzir filmes (a indústria cinematográfica cresceu horrores na segunda década do século XX, em especial nos EUA, tendo em D. W. Griffith, o diretor de superproduções como “O Nascimento de uma Nação” e de “Intolerância”, o principal formador de um estilo realmente narrativo nos EUA) que aumentassem a auto-estima dos alemães, retratando-os como um povo corajoso, destemido, estóico até.

    E o maior de todos estes filmes (botem aí nesse saco de gatos obras-primas como “O Gabinete do Dr. Caligari”, de Robert Wiene, “Nosferatu” e “Fausto”, de F. W. Murnau, “Metropolis”, de Fritz Lang etc.) é, na minha irrelevante opinião, o díptico “Os Nibelungos”, do sr. Lang (que pode ser visto atualmente em São Paulo no filme “O Desprezo”, de Jean-Luc Godard, como ator _tem também a Brigitte Bardot, ulalá).

    Dividido em duas partes, “A Morte de Siegfried” (sim, o título entrega o final, uma lástima) e “A Vingança de Kriemhild”, o épico de 1923-1924 é uma das maiores realizações do cinema. A primeira é bastante mítica e folclórica, centrada no personagem Siegfried, um loirão-fortão-estilo-Capitão-Guapo que pode ser considerado a encarnação da pureza da tal “raça ariana”, evocada por Hitler para justificar o extermínio dos judeus. E, apesar de ser um dos filmes preferidos do Zé Bigodinho, a obra nada tem de nazista _embora sua roteirista, Thea von Harbou (esposa e parceira constante de Lang em sua fase alemã), tenha ficado na Alemanha hitlerista em vez de seguir seu marido rumo aos EUA.

    Mas não vou ficar contando o enredo (que é riquíssimo), senão o texto fica gigantesco. Basta dizer que Siegfried, personagem também de uma ópera de Wagner, acaba se casando com Kriemhild, a irmã de um rei, e, como o título já entrega, morre no final, após enfrentar dragões, bruxas e outros bichos, em cenários fantásticos (os figurinos e a caracterização das personagens também são extasiantes e inesquecíveis).

    A partir daí começa a segunda parte (cada uma tem cerca de duas horas), dividida, como a primeira, em cantos (como um poema épico). Ao contrário de sua antecessora, que se passava em vários lugares e mostrava várias aventuras, “A Vingança de Kriemhild” limita-se justamente a mostrar o que seu título indica. Kriemhild, a loira das tranças rapunzelescas (desempenho espetacular da atriz Margarethe Schön, em atuação contida, baseada na expressão facial, tipo Lilian Gish, Clara Bow etc.), de luto, torna-se obcecada pela vingança e, plena de ódio, não mede esforços para matar o assassino do marido _chega até a casar-se com o tétrico Átila, o rei dos hunos, para conquistar seu objetivo. É lindo. É sério, o ódio da Kriemhild é lindo. Não deixe de assistir, o filme é maravilhoso demais, uma glória.

    Só que “Os Nibelungos”, de tão caro, quase quebrou a UFA. Em vista disso, o nosso amigo Carl Mayer (roteirista de “Dr. Caligari”, "Aurora" e de outras obras-primas) inventou uma espécie de Dogma 95 do dito cinema expressionista alemão, que acabou sendo chamado de Kammerspiel. Ou seja, em vez de épicos, filmes que abordassem temas do cotidiano, com poucas locações, atores e figurinos.

    E o maior representante desta nova e despojada estética é outro filme interessantíssimo, de 1924: “A Última Gargalhada” (também chamado de “O Último Homem”), dirigido por F. W. Murnau, encarnado por John Malkovich naquele filme que prometia, mas não cumpriu.

    Estrelado por Emil Jannings (que fez Mephisto em “Fausto” e o professor no excessivamente moralista “O Anjo Azul”), conta a história de um porteiro de hotel que, por causa da idade avançada, é rebaixado ao cargo de faxineiro do banheiro. Com isso, ele perde seu portentoso uniforme (lembra uma farda militar de luxo) e, junto com ele, o respeito dos moradores do subúrbio onde mora. Este pequeno drama mundano, que desnuda alguns aspectos sociais da época (de imensa crise), é um bom exemplo de que um bom argumento não precisa ser necessariamente “grandioso”, como o de “Os Nibelungos”.

    Mas, além do conteúdo, é muito legal comparar o estilo narrativo de ambos os diretores: Lang é sóbrio, mantém a câmera imóvel durante o tempo todo, delineia os enquadramentos com cuidado ímpar _cada tomada é como um quadro. Murnau tem um estilo muito mais moderno e dinâmico, abusa do zoom, do travelling, da panorâmica e, no final de “A Última Gargalhada”, realiza um dos planos seqüência mais impressionantes (imaginem rodar um plano complicado desses com a câmera primitiva da época, à base de manivela) da história. Ufa!

    Os Nibelungos – A Morte de Siegfried: 9,5/10
    Os Nibelungos – A Vingança de Kriemhild: 10/10
    A Última Gargalhada: 9/10

    P. S. Vi outros dois filmes do Lang na mostra da UFA (que também trazia uma exposição muito legal de cartazes dos filmes da época _os de “Metropolis” são esplêndidos): o raríssimo “Os Espiões”, que ficou perdido durante décadas e é uma espécie de embrião da série 007, e “A Mulher na Lua”, uma comédia de ficção científica na qual um grupo de pessoas viaja ao nosso satélite em busca de ouro. As maquetes usadas na produção são impagáveis, assim como a espetacular “transformação” do vilão...

    P. P. S. Pra quem não se ligou, o “Joãozinho” do segundo parágrafo foi uma pequena homenagem ao David Drew Zingg, figuraça que morreu quando eu trabalhava na Ilustrada _o desgramado me fez madrugar e ir correndo pro jornal fechar a página de seu necrológio... Bom, mas ele merecia. Ah, e um amigo meu era o maior fã do Tio Dave e vivia deixando recados na secretária eletrônica do velhinho. O cara simplesmente delirou de felicidade quando o amigo das Jennifers escreveu uma crônica sobre um chato que vivia telefonando para sua casa...

    P. P. P. S. Tá, o "tubérculos ruminantes" foi brincadeira...

    terça-feira, abril 22, 2003

    O Pianista / Roma, Cidade Aberta

    Que o amor é um palito de fósforo riscado, abandonado numa enorme poça de mijo velho, isso todo mundo já sabe. Mas você sabia que o Danoninho de chocolate não é lá essas coisas?

    Pelo menos o segundo volume de “Monstro do Pântano”, de autoria do sr. Alan Moore, já está nas livrarias da plantação de inhame. Sim, mais um livro lindo, que compila oito histórias clássicas do fantástico personagem de Len Wein e Berni Wrightson. E, como se não bastasse, saiu também “Pecados Originais”, que traz as primeiras oito histórias solo de John Constantine, o Hellblazer (escritas pelo Jamie Delano _entrem no site do cara e leiam sua biografia, é de rolar de rir_, o melhor autor de toda a série até agora, na minha humilíssima opinião, e ilustradas pelo John Ridgway). O legal é que as histórias, no fundo, são sobre política. Preciso dizer que é muito bom?

    Falando nisso, há pelo menos uns vinte anos o sr. Polanski não fazia um filme tão bom quanto “O Pianista”. Claro que, se compararmos com maravilhas como “Repulsa ao Sexo” (o melhor e mais assustador), “O Bebê de Rosemary”, “Macbeth” e “O Inquilino” (alguém ainda vai querer falar de “A Dança dos Vampiros”), o vencedor da Palma de Ouro de 2002 e de alguns Oscars fica para trás, mas se lembrarmos de “O Último Portal”... argh!!!

    Mostrar (tentar, pelo menos), no cinema, os horrores da guerra sempre será pertinente. O holocausto judeu da Segunda Guerra ainda vai dar muito pano pra manga _quanto mais escarafunchadas forem as histórias de pessoas como Wladyslaw Szpilman, Anne Frank, Oskar Schindler etc., mais argumentos para filmes interessantes surgirão. É importante que continuem surgindo. Assim como é importante o papel social de figuras públicas como Susan Sarandon, Sean Penn, Martin Sheen e outros artistas de respeito, que ultrapassam a limitada idéia de nacionalismo para abraçar algo muito maior.

    Dito isto, o filme, uma produção com recursos de quatro países diferentes, traz cenografia, figurino, trilha sonora (ah, a trilha sonora...), blablablá, de qualidade. Adrien Brody, o homem das narinas gigantescas, está excelente como o pianista polonês que, mais por ação dos outros do que dele mesmo (é impressionante a passividade do personagem, ele passa o filme todo sem fazer absolutamente nada, só é salvo porque outros se empenham para fazê-lo), consegue sobreviver ao infame Gueto de Varsóvia. O Oscar foi merecido.

    Claro que o tema da Segunda Guerra me faz traçar um paralelo com “Roma, Cidade Aberta” (outro ganhador da Palma de Ouro), o filme de Rosselini que inaugurou o neo-realismo italiano. Lançado em 1945, ano em que a guerra acabou (a obra traz, no início, o aviso de que “qualquer semelhança é mera coincidência”, mas, neste caso, não era bem verdade), é um trabalho que mantém sua atualidade _não é à toa que é considerado um clássico.

    Uma cena, longe de ser a mais famosa da produção, me chama a atenção: um oficial alemão, que não participa tanto das orgias de tortura promovidas pelos colegas, prevê a derrocada dos nazistas, fala em genocídio e em ódio _o que me lembra também uma cena do filme de Polanski, quando são mostrados os alemães derrotados, e os poloneses vão à forra (outra cena registrada por Rosselini que muito me lembra “O Pianista” é a seqüência de abertura de “Alemanha, Ano Zero”, de 1948: um exemplo de onde Polanski se inspirou para recriar a Varsóvia arruinada com a qual Szpilman se depara). Outros destaques são, obviamente, Anna Magnani (que brilharia mais vezes, em filmes de Rosselini e de Jean Renoir, entre outros) e a frase dita por Don Pietro, que, para mim, resume bem a mensagem da obra: “Não é difícil morrer bem; viver bem é que é difícil”.

    O Pianista: 8,5/10
    Roma, Cidade Aberta: 9/10

    P. S. Para falar um pouco mais deste gigante cinematográfico que foi Rosselini (procurem por “Viagem à Itália”, outro clássico), leiam as seguintes palavras do Federico, um rapazola que deu uma ajudinha no roteiro de “Roma, Cidade Aberta” (os seguintes trechos foram retirados do livro “Fazer um Filme”, lançado pela coleção Oficina Interior, da editora Civilização Brasileira, o qual eu também recomendo):

    “Seguindo Rosselini enquanto filmava ‘Paisà’, tudo me pareceu claro de repente, uma feliz revelação, a de que se podia fazer cinema com a mesma liberdade, a mesma leveza com a qual se desenha e se escreve, era possível realizar um filme se divertindo e sofrendo dia após dia, hora após hora, sem muita angústia com relação ao resultado final (...). Rosselini procurava, seguia o filme no meio da estrada, com os tanques dos aliados que passavam a um metro de nós (...), com toda espécie de problemas, autorizações revogadas no último momento, programas não cumpridos, misteriosos desaparecimentos de dinheiro, na ciranda rumorosa de produtores improvisados sempre mais ávidos, infantis, mentirosos, aventureiros.
    ...É isso, parece-me que com Rosselini aprendi (...) a possibilidade de caminhar em equilíbrio no meio das condições mais adversas, mais contrastantes e, ao mesmo tempo, a capacidade natural de usar em benefício próprio essas adversidade e esses contrastes, transformá-los num sentimento, em valores emocionais, num ponto de vista. Rosselini fazia isso, vivia a vida de um filme como uma aventura maravilhosa que deve ser vivida e contada. Seu abandono nos confrontos com a realidade, sempre atento, límpido, fervoroso, aquela sua forma de se situar com naturalidade num único ponto impalpável e inconfundível entre a indiferença do distanciamento e a falta de habilidade da adesão, permitia-lhe capturar, fixar a realidade em todos os espaços, olhar o interior e o exterior das coisas, desvendar o que a vida tem de inalcançável, de misterioso, de mágico. Por acaso o neo-realismo não é isso? Daí, quando se fala de neo-realismo, só se pode falar de Rosselini. Os outros fizeram realismo, verismo ou tentaram traduzir um talento, uma vocação, numa fórmula, numa receita.”

    quinta-feira, abril 17, 2003

    Arca Russa / De Volta das Cinzas

    Your lovin' gives me a thrill... but your lovin' don't pay my bills.

    O negó é o segui: algumas vezes já falei de dois (e até mais) filmes em um texto só. Comparar é legal (eu havia escrito uma explicação enorme aqui, mas preferi deixar de frescura e simplificar). Então, como este site acabou de entrar em seu segundo ano, clamando por reformas, companheiros, daqui pra frente vou (tentar) mandar bala em dois filmes (que sempre estarão ligados de uma maneira, embora nem sempre isso seja óbvio) de uma vez só. Vamos ver se funciona.

    Ah, “Arca Russa”. Ouvi falar do filme de Aleksandr Sokúrov (diretor de “Moloch”, entre outros, que veio lançar o filme no Brasil, ano passado, na Mostra de São Paulo) lendo um artigo do Alcino, que, se bem me lembro, o viu em Paris, há cerca de um ano. Um longo plano-seqüência (mais de uma hora e meia de duração) dentro de um museu que aborda os últimos séculos da história da Rússia. Soa insuportavelmente chato? Mas que nada!

    É, eu adoro a Rússia. Morro de vontade de visitar Moscou e São Petersburgo. Lógico que o meu amor pelo país veio da literatura, em especial a oitocentista. Sim, eu sou um homem do século XIX. “Crime e Castigo” mudou a minha vida. Quem nunca leu “Guerra e Paz”, “Anna Karenina”, “Os Irmãos Karamázov”, “O Idiota” e outros, não sabe o que é bom. Dá até vontade de aprender russo só para ler essas belezas no original.

    E, no entanto, conheço tão pouco o cinema da Mãe Rússia. Basicamente, se bem me lembro, assisti apenas a alguns Eisenstein, como “O Encouraçado Potenkim” e “Outubro”, há muuuito tempo. Mas isso vai mudar, em breve.

    Então, “Arca Russa” é lindo. O título faz muito sentido: o filme é um rio. A câmera navega pelo magnífico museu/teatro/palácio Hermitage, em São Petersburgo, e desemboca no mar (um final sublime, ui). Durante o trajeto, somos guiados por um estrangeiro, que, inadvertidamente, nos mostra a história recente do maior país da Europa, através de seus salões (com quadros de Reubens e Van Dyck, entre outros) e das personagens de diversas épocas.

    Adicione belos diálogos (é uma maravilha ouvir a língua russa e saber que dá para entender algumas palavras), uma trilha sonora lindíssima (o som do filme é excelente, assim como sua fotografia, figurinos e direção de arte) e o justo deslumbre com o feito técnico (o plano foi ensaiado durante quase um ano, antes de a filmagem começar) e pronto: taí um grande passeio.

    Agora passe uma borracha nos neurônios, pois aí vai um filme quase igual, mas completamente diferente: “De Volta das Cinzas” (“Return from the Ashes”), lançado em 1965 pelo britânico J. Lee Thompson (morto há menos de um ano), diretor de clássicos como “Os Canhões de Navarone” e a versão original de “Cabo do Medo”, que o nosso amigo desoscarizado Scorsese refilmou. Curto e grosso: o filme é foda.

    Ambientado em Paris, conta a história de Michele Wolf, uma linda e viúva médica judia (a sueca Ingrid Thulin _uma das atrizes preferidas de Bergman_, excelente) que, após se casar com um interesseiro campeão de xadrez (o austríaco Maximilian Schell, canastríssimo), em 1940, é mandada para o campo de concentração de Dachau. Todos, seu marido, sua enteada (a inglesa Samantha Eggar, lindíssima _é ela a raptada de “O Colecionador”, de William Wyler, lançado no mesmo ano) e seu melhor amigo (o tcheco Herbert Lom _Herbert Charles Angelo Kuchacevich Schluderpacheru para os íntimos_, mais conhecido por interpretar o hilário nêmesis do Inspetor Clouseau na série “A Pantera Cor-de-Rosa”) pensam que ela está morta, mas, anos depois, ela retorna.

    A princípio, a dra. Wolf não deseja que seu marido a veja no estado debilitado em que se encontra; por isso adota uma falsa identidade (lembra “Vertigo”, a princípio), mas acaba sendo vista pela enteada, Fabienne, que avisa o enxadrista Stanislaus Pilgrin _a propósito, agora eles são amantes e estão de olho na fortuna que Wolf herdou com o extermínio de todos os seus outros parentes.

    Mas, neste filme, nada é como parece e nada sai como a gente pensa. Quando achamos que já delineamos o rumo que a história irá tomar, ela nos surpreende por completo. Eu mesmo só fui descobrir quem, afinal de contas, era o vilão, nos últimos minutos da obra. E olha que não se trata de um “whodunit”: todas as ações dos ardilosos personagens são mostradas com clareza... Sem dúvida, um dos melhores thrillers que já vi (estranhamente, o filme nunca foi um sucesso de crítica). Alugue correndo e divirta-se com esta maravilha em preto-e-branco, politicamente incorreta e ousadíssima para sua época. Hasta.

    Arca Russa: 8,5/10

    De Volta das Cinzas: 9,5/10

    P. S. OK, segundo ano de site, temos a obrigação de mostrar coisas novas (tá, não temos, mas mostramos assim mesmo). Então está lançada a série "Women in Porn". A regra é clara: se você possui ovários, assistiu a um filme pornô, escreveu uma resenha e faria de tudo para vê-la publicada aqui (inclusive um teste do sofá básico _garanto que é legal), é só mandar um e-mail para o sempre alerta heybabyxxx@hotmail.com. Quem inaugura a putaria é a primeira e única Dani Bee:

    "Fantasias Colegiais 2 (Freshman Fantasies 2): O elenco masculino é representado por Alex Sanders, Peter North, Valentino e Sean Michaels (um desses é famoso, porque meu namorado fez um comentário tipo 'ah, é com esse cara'). As mulheres são Randi Lee, Kim, Toni James e uma bizarra chamada Nicci Neels. São várias situações de sexo explícito, porém nenhuma delas se passa na sala de aula. A primeira historinha é uma loira ninfeta com um negão de 2m de altura com o membro proporcional, e é a mais normalzinha, curti. Eles se encontram num apartamento e fazem coisas básicas. Só é meio foda [grifo do editor] uma parte em que a loirinha fica numa posição incômoda, com aquele negão gigante em cima dela, mas, enfim, ela deve estar acostumada com esse tipo de coisa. A segunda é um casal meio sujinho, o cara é artista plástico, cabelo comprido, e a mulher, uma loira tipo Marilyn Monroe, mas parece que eles não tomam banho há meses, quase dá pra sentir a nhaca. É bobinho, eles transam, e depois a mulher desenha um pau (pênis é coisa pro Pasquale) na tela que o cara tava pintando antes de rolar o clima. O terceiro casal é bem esquisito, o cara se mexe tipo o Fagner cantando, dá umas tremidas, deus me livre. Ele não tem a manha, é muito afobado e dá até pena da mulher (que é uma morena bonita de sainha colegial, a única coisa que se aproxima do tema do filme). Sem falar que, além de afobado, o cara é o demo chupando manga, mó exu. Ele é tão descontrol que nem percebe que a mulher tava doida pra acabar logo, nem tava curtindo. O quarto casal é o cara famoso e uma mulher um pouco mais velha do que as outras, deve ter uns 30. Essa dá muito nervoso, porque, além de ela fazer umas coisas que eu preferia não ter visto, é daquelas americanas que têm unhas gigantes e nojentas, faz umas caras bem enjoadas e enfia a unha na boca toda hora, tá mais pra fantasia sexual do Zé do Caixão (que eu tenho nojo também). O último casal é com a bizarra. A tal da Nicci Neels é uma sujinha toda tatuada, e o cara, um loiro que lembra o irmão do Supla. Ele deve ser tipo o galã dos filmes eróticos, é o menos feio de todos. Eles começam transando num banco de madeira, atrás de uma casa. Eis que, no meio do negócio, a polícia aparece (de verdade) e dá até pra ouvir um 'what's going on here?'. A bizarra olha pra trás, e o filme é cortado. Eles então aparecem num apartamento transando no sofá, e o cara, enquanto come a bizarra, vai explicando o que rolou. Parece que os vizinhos ouviram uns berros (além de sujinha, ela é histérica) e chamaram a polícia. A produção teve que arrumar um lugar pra terminar a cena, e eles acabaram na casa do clone do irmão do Supla, por falta de opção. Trash metal.
    Nota: 7/10.(unhas gigantes: -1 ponto; bizarra sujinha: -1 ponto; cena que eu preferia não ter visto: -1 ponto; o exu que não sabe transar: -1 ponto; a polícia chegando: +1 ponto).
    Obs: sexo não combina com Fagner, Zé do Caixão, unhas enormes (meninos, cortem as unhas do pé);
    Obs 2: sexo combina com João Suplicy e Supla.
    Obs 3: eu não lembro se tem música no filme.
    Obs 4: Meu namorado comprou a revista DVD por R$14,90, e veio o filme de brinde. Fazer o que, néam?

    segunda-feira, abril 14, 2003

    Retrospectiva: um ano na tela

    Hoje, este espaço completa um ano de existência. Para comemorar, atendo a um pedido antigo dos freqüentadores deste espaço: uma lista com tudo que foi comentado aqui, neste primeiro ano de atividade (que é dedicado com todo amor e carinho à Vanessa, autora deste template, que me acompanhou em muitas sessões de cinema).

    Abril

    Snatch - Porcos e Diamantes
    Pollock
    Coisas que Você Pode Dizer Só de Olhar para Ela
    O Exorcista (versão do diretor)
    Gimme Shelter
    Quase Famosos
    O Lixo e a Fúria
    Shrek
    Profissão de Risco
    Evolução
    A Comilança
    Copacabana
    Planeta dos Macacos (versão de Tim Burton)
    Final Fantasy - The Spirits Within
    Memórias Póstumas
    Bufo & Spallanzani
    Amnésia
    Concorrência Desleal
    Inteligência Artificial
    Moulin Rouge
    O Dom da Premonição
    Velozes e Furiosos
    Festival Troma on Parade (O Acampamento do Macho, Espreme-espreme no Beisebol e Garçonetes em Ação)
    A Espinha do Diabo
    Os Queridinhos da América
    Liam
    Fama para Todos
    Hedwig - Rock, Amor e Traição
    Refém do Silêncio
    A Conspiração
    O Xangô de Baker Street
    A Cartada Final
    Os Outros
    A Sombra do Vampiro
    LavourArcaica
    E Tua Mãe Também
    Harry Potter e a Pedra Filosofal
    A Bruxa de Blair

    Maio

    Vida Bandida
    História Real
    Latitude Zero
    O Quarto do Filho
    A Bruxa de Blair 2
    Onze Homens e um Segredo
    Homem-Aranha
    O Homem Que Não Estava Lá
    O Poder Vai Dançar
    Assassinato em Gosford Park
    Os Excêntricos Tennenbaums
    E. T. - O Extraterrestre
    O Invasor
    Apocalypse Now Redux
    Memórias
    A Última Ceia
    Dia de Treinamento
    Abril Despedaçado

    Junho

    Cidade dos Sonhos
    Especial Dee Dee Ramone
    Promessas de um Novo Mundo
    Italiano para Principiantes
    Cecil Bem Demente
    Quanto Mais Quente Melhor

    Julho

    Quarto do Pânico
    ABC África
    O Ataque Dos Clones
    Janela da Alma
    Lilo e Stitch

    Agosto

    A Soma de Todos os Medos
    8 Mulheres
    Cidade de Deus
    Um Corpo Que Cai
    Minority Report – A Nova Lei
    O Escorpião de Jade
    Um Dia Muito Especial

    Setembro

    Uma Vida em Segredo
    O Terror das Mulheres
    O Assalto
    Terra em Transe
    Insônia
    Um Grande Garoto

    Outubro

    Houve uma Vez Dois Verões
    Lucía e o Sexo
    Sinais
    Eraserhead
    O Articulador
    Rocha Que Voa

    Novembro

    Fora de Controle
    Rio Vermelho
    A Teia de Chocolate
    Madame Satã
    48 Horas

    Dezembro

    O Casamento Grego
    Doze Homens e uma Sentença
    Dívida de Sangue
    Paraíso
    Edifício Master

    Janeiro

    Full Frontal
    A Missão
    O Filho da Noiva
    Ônibus 174
    A Noite Americana
    Sangue de Pantera

    Fevereiro

    O Pai do Povo
    Let It Be
    Os Palhaços / A Estrada da Vida
    Os Cafajestes / Navalha na Carne
    O Grande Ditador

    Março

    O Chamado
    Femme Fatale / Um Tiro na Noite
    Rocky – Um Lutador / Rocky II – A Revanche
    Adaptação
    Gangues de Nova York

    Na platéia