Cidadão Kane / Othello / O Processo / F for Fake
Don't you think it's rather funny I should be in this position? I'm the one who's always been so calm, so cool, no lover's fool, running every show... She scares me so.Como prometido, Orson Welles (1915-1985). Um artista multifacetado, cuja vida é envolta em uma série de mitos (ele teria sido músico na infância, pintor e, pasmem, toureiro na adolescência...), comumente rotulado como gênio maldito. É irônico: no P. S. do texto abaixo, coloquei um artigo de Welles lamentando o abandono que Griffith sofreu durante seus últimos anos; com Welles aconteceria o mesmo: após algumas experiências frustradas em Hollywood, ele partiu para a produção independente no exterior dos EUA, passando o resto de sua vida a buscar financiamento para seus filmes _fazendo, inclusive, uma série de pontas como ator em tudo quanto é tipo de película, para sobreviver, deixando muitos projetos inacabados. Sad but true, baby.
E olha que essa vida profissional desgraçada teve um início não menos do que brilhante: em meados da década de 30, o jovem Welles (com cerca de 21, 22 anos) montou, na Broadway, uma heterodoxa versão de “Macbeth” com um elenco de atores negros. Não muito depois, ele voltou a causar escândalo com um programa radiofônico (o meio de Welles, por excelência _seus filmes têm grande influência do rádio, não é à toa que o gordão barbudo é chegado numa narração) baseado em “A Guerra dos Mundos”, que disseminou pânico em uma parte da população de Nova York.
Fenômeno de mídia, Welles foi cooptado por executivos da RKO (que acabaria sendo comprada por uma atriz que Welles tinha proposto para um filme, mas foi rejeitada: a brilhante comediante Lucille Ball) com uma proposta irrecusável: pela primeira vez no “studio system”, um diretor teria decisão final na montagem do filme _o famoso “final cut”. Welles sequer permitiu que os executivos do estúdio vissem os copiões ou as filmagens, realizadas praticamente em segredo (diz a lenda que eles fingiam que estavam ensaiando, enquanto filmavam, e que, quando os chefões apareciam, eles paravam tudo e começavam a jogar softball...). Coisa que nem veteranos importantíssimos, como Cecil B. de Mille, haviam conseguido. E o cara era apenas um moleque de 24 anos que nunca tinha feito um filme... Desnecessário dizer que a inveja generalizada fez com que Welles se tornasse persona non grata antes mesmo de começar a trabalhar.
Um de seus primeiros projetos, que não vingou, era justamente uma adaptação de “Coração das Trevas”, de Joseph Conrad _obra que inspirou o “Apocalypse Now” de Coppola_, feita totalmente com câmera subjetiva, ou seja, veríamos a história através dos olhos do protagonista. Mas o desafio era grande demais, e o projeto foi trocado por uma idéia chamada “American”, que se tornaria “Citizen Kane” (1941).
Todo mundo está careca de saber que Kane é inspirado na figura de William Randolph Hearst (1863-1951), que acabou sendo ligado ao nosso Roberto Marinho por aquele documentário muito discutido e pouco visto da Channel Four. Dono de uma vasta cadeia de veículos de comunicação, o Chatô dos EUA não deu trégua para Welles, fazendo com que o filme, que tinha tudo para ser um sucesso, fosse mal e porcamente exibido, além de não ir tão bem no Oscar _levou apenas o de roteiro original.
Para o filme, Welles trouxe seus amigos do Mercury Theatre, estreantes em cinema: gente como a Agnes Moorehead (chamada por Welles no fantástico trailer de “Kane” de “a melhor atriz do mundo" _e que ficaria famosa por interpretar a bruxa-sogra da série “A Feiticeira”, uns vinte anos depois), Dorothy Comingore (que estava grávida, forçando Welles a colocá-la em cena de modo a não mostrar a barriguinha), Joseph Cotten (que protagonizaria “A Sombra de uma Dúvida”, o filme preferido de Hitchcock) e o figura Everett Sloane, entre outros. Mas, para a excelente e revolucionária fotografia, que deixa tudo em foco, brincando com a perspectiva, e desenha uns movimentos de câmera que deixam o babaca do David Fincher no chinelo (vocês viram o Inácio Araújo na Ilustrada de quinta, descendo a lenha em “Se7en” e em “Clube da Luta”? Boa, velhinho!), chamou o experiente Gregg Toland (que já havia ganhado um Oscar por “O Morro dos Ventos Uivantes”); para a edição, Robert Wise, que depois dirigiria clássicos como “Amor, Sublime Amor” e “A Noviça Rebelde”, entre outros (as transições de cenas são fantásticas); para o roteiro, Herman J. Mankiewicz; para a trilha sonora, o grande Bernard Herrmann (que foi indicado ao Oscar, mas perdeu para... ele mesmo!) and so on...
Em suma, “Cidadão Kane”, notório campeão dessas listas de melhores filmes de todos os tempos... realmente merece. Acho que não o coloquei naquele meu top 20 por pura birra, não com o filme, que eu amo e já vi várias vezes, mas com essa unanimidade toda. Trata-se de uma obra esplêndida, muitíssimo feliz, dotada de uma narrativa concisa, aliada a uma grande força poética. “Kane” é um poema fílmico, sem, por isso, ser desagradavelmente pretensioso ou hermético. Da tremenda atuação de Welles (que usa espartilho para parecer mais magro) ao fantástico enigma de Rosebud (o nosso amigo Spielby pagou US$ 60 mil, em um leilão realizado em 1982, por um exemplar do dito-cujo), passando pelo fascinante cinejornal “News on the March”, trata-se de uma obra-prima imortal, jamais igualada pelo diretor _embora ele afirme que, se não tivessem cortado 40 minutos de “Soberba”, ele seria superior a “Kane”...
Depois de “Kane”, vocês sabem, Welles caiu em desgraça. “Soberba” foi mutilado enquanto ele estava aqui no Brasil, fazendo o inacabado “It’s All True”. Seus próximos projetos em Hollywood, como o também famoso “A Marca da Maldade”, sofreriam interferências mil, nunca saindo do jeito imaginado pelo artista. Tsc, tsc.
Daí, Welles partiu para a produção independente, aos trancos e barrancos. E foi assim que ele fez “Othello” (1952), a segunda e última adaptação de Shakespeare que Welles realizou para o cinema (em 1978, Welles dirigiria um documentário chamado “Filming ‘Othello’”, rememorando a atabalhoada produção). Apesar da ótima cenografia e da fotografia (as locações são lindas, e a iluminação beneficia muito o rosto pintado de Welles), o filme me decepcionou _e o fato de eu não gostar tanto assim da peça, longe de ser a minha favorita do velho bardo, provavelmente influiu. Mas não deixa de ser admirável a tenacidade e a criatividade do diretor nos momentos de aperto: a falta de dinheiro fez com que Welles filmasse uma importante cena num banho turco, justamente porque não tinha mais dinheiro para os figurinos... Ah, outra curiosidade: Welles filma o texto de Shakespeare da maneira que o nosso Machado de Assis havia imaginado, mais de meio século antes...
Em “O Processo”, o processo foi semelhante... Filmado na França, a adaptação do romance incompleto de Kafka traz um elencaço: o grande Anthony Perkins, que Hitchcock havia transformado em estrela com “Psicose”, protagoniza, tendo a companhia da belíssima Romy Schneider, de Jeanne Moreau e do próprio Welles (mais uma vez no papel de advogado). Trata-se de um filme escuro, com grande constraste de luz e um grande senso de humor negro _Welles afirma que quis dar ao filme uma atmosfera onírica. Se o resultado pode decepcionar algumas pessoas (Peter Bogdanovich, um dos maiores amigos de Welles em seus últimos anos, não gosta deste filme), ele é muito melhor do que a versão dos anos 90 e do que aquele filme metido a besta do Soderbergh. E, pelo menos, Welles teve liberdade para fazer o filme do jeito que quis.
Mas grande filme mesmo é este fantástico “F for Fake”, chamado no Brasil de “Verdades e Mentiras” (e não “É Tudo Mentira”, como alguns gostam de dizer). François Truffaut é quem diz que este é um dos dez melhores filmes de um diretor norte-americano feitos nos anos 70, e não sou eu quem vai discordar. A verdade é que, após três minutos do começo da bagaça, eu já sabia que estava diante de uma obra-prima...
É o seguinte: o cineasta François Reichenbach (que já havia dirigido um perfil de Welles para a TV francesa) estava preparando um documentário sobre um tal de Clifford Irving, que teria efetuado uma fraude, relativa a uma biografia do excêntrico milionário ermitão Howard Hughes. Welles viu o material e o comprou, adaptando-o para um “documentário fictício”, que aborda o tema das fraudes, enfocando personagens como o pintor Elmyr de Hory (que falsifica quadros de gente como Matisse e Modigliani, para em seguida queimá-los, dizendo “lá se vão US$ 50 mil...” _Elmyr acabou ficando tão famoso que suas falsificações se tornaram valiosas e começaram a ser... falsificadas!), o avô de sua “amiga” Oda Kojar, que teria falsificado Picassos e o próprio Welles, que relembra a sua experiência com “A Guerra dos Mundos”. Um filme brilhante, onde nos questionamos o tempo todo sobre o que é falso e o que é verdadeiro _a começar pelo próprio Welles, que começa fazendo truques de prestidigitação... Se é verdade que “o poeta é um fingidor”, então Orson acertou em cheio.
P. S. Jean Renoir, em entrevista a Peter Bogdanovich, fala de Orson Welles:
“Li um artigo de Marcuse e, segundo a teoria dele, os filmes mudos foram feitos para as classes trabalhadoras porque conseguiram atrair todas as camadas, o que talvez explique a grande popularidade de atores como Chaplin e Keaton. Mas, hoje em dia, o homem da classe trabalhadora tem dois carros e manda os filhos para as melhores escolas; na verdade, a classe trabalhadora se transformou na classe média. E quase todos os filmes atuais e dos últimos vinte anos têm sido feitos para a classe média. Aliás, a maioria dos diretores _mesmo os grandes_ é de burgueses. Orson Welles está entre um pequeno punhado de aristocratas. E seus filmes são trabalhos aristocráticos. É provável que seja esse o motivo de quase nunca serem sucesso comercial. Orson também é um grande ator, mergulha de tal forma num papel que, enquanto está dentro da pele daquela personagem, até sua personalidade própria cessa de existir. Gosto tanto do trabalho de Welles que gosto inclusive quando ele não é muito bom, porque em todos os momentos ele permanece um artista.”
P. P. S. A epígrafe do texto sobre “Crepúsculo dos Deuses”, “A Malvada” e “Os Desajustados” é de autoria do grande Johnny Cash _talvez o maior nome do country norte-americano, ao lado do Hank Williams. Um grande artista.