A gruta é mais extensa do que a gruta

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    sexta-feira, setembro 19, 2003

    Cidadão Kane / Othello / O Processo / F for Fake

    Don't you think it's rather funny I should be in this position? I'm the one who's always been so calm, so cool, no lover's fool, running every show... She scares me so.

    Como prometido, Orson Welles (1915-1985). Um artista multifacetado, cuja vida é envolta em uma série de mitos (ele teria sido músico na infância, pintor e, pasmem, toureiro na adolescência...), comumente rotulado como gênio maldito. É irônico: no P. S. do texto abaixo, coloquei um artigo de Welles lamentando o abandono que Griffith sofreu durante seus últimos anos; com Welles aconteceria o mesmo: após algumas experiências frustradas em Hollywood, ele partiu para a produção independente no exterior dos EUA, passando o resto de sua vida a buscar financiamento para seus filmes _fazendo, inclusive, uma série de pontas como ator em tudo quanto é tipo de película, para sobreviver, deixando muitos projetos inacabados. Sad but true, baby.

    E olha que essa vida profissional desgraçada teve um início não menos do que brilhante: em meados da década de 30, o jovem Welles (com cerca de 21, 22 anos) montou, na Broadway, uma heterodoxa versão de “Macbeth” com um elenco de atores negros. Não muito depois, ele voltou a causar escândalo com um programa radiofônico (o meio de Welles, por excelência _seus filmes têm grande influência do rádio, não é à toa que o gordão barbudo é chegado numa narração) baseado em “A Guerra dos Mundos”, que disseminou pânico em uma parte da população de Nova York.

    Fenômeno de mídia, Welles foi cooptado por executivos da RKO (que acabaria sendo comprada por uma atriz que Welles tinha proposto para um filme, mas foi rejeitada: a brilhante comediante Lucille Ball) com uma proposta irrecusável: pela primeira vez no “studio system”, um diretor teria decisão final na montagem do filme _o famoso “final cut”. Welles sequer permitiu que os executivos do estúdio vissem os copiões ou as filmagens, realizadas praticamente em segredo (diz a lenda que eles fingiam que estavam ensaiando, enquanto filmavam, e que, quando os chefões apareciam, eles paravam tudo e começavam a jogar softball...). Coisa que nem veteranos importantíssimos, como Cecil B. de Mille, haviam conseguido. E o cara era apenas um moleque de 24 anos que nunca tinha feito um filme... Desnecessário dizer que a inveja generalizada fez com que Welles se tornasse persona non grata antes mesmo de começar a trabalhar.

    Um de seus primeiros projetos, que não vingou, era justamente uma adaptação de “Coração das Trevas”, de Joseph Conrad _obra que inspirou o “Apocalypse Now” de Coppola_, feita totalmente com câmera subjetiva, ou seja, veríamos a história através dos olhos do protagonista. Mas o desafio era grande demais, e o projeto foi trocado por uma idéia chamada “American”, que se tornaria “Citizen Kane” (1941).

    Todo mundo está careca de saber que Kane é inspirado na figura de William Randolph Hearst (1863-1951), que acabou sendo ligado ao nosso Roberto Marinho por aquele documentário muito discutido e pouco visto da Channel Four. Dono de uma vasta cadeia de veículos de comunicação, o Chatô dos EUA não deu trégua para Welles, fazendo com que o filme, que tinha tudo para ser um sucesso, fosse mal e porcamente exibido, além de não ir tão bem no Oscar _levou apenas o de roteiro original.

    Para o filme, Welles trouxe seus amigos do Mercury Theatre, estreantes em cinema: gente como a Agnes Moorehead (chamada por Welles no fantástico trailer de “Kane” de “a melhor atriz do mundo" _e que ficaria famosa por interpretar a bruxa-sogra da série “A Feiticeira”, uns vinte anos depois), Dorothy Comingore (que estava grávida, forçando Welles a colocá-la em cena de modo a não mostrar a barriguinha), Joseph Cotten (que protagonizaria “A Sombra de uma Dúvida”, o filme preferido de Hitchcock) e o figura Everett Sloane, entre outros. Mas, para a excelente e revolucionária fotografia, que deixa tudo em foco, brincando com a perspectiva, e desenha uns movimentos de câmera que deixam o babaca do David Fincher no chinelo (vocês viram o Inácio Araújo na Ilustrada de quinta, descendo a lenha em “Se7en” e em “Clube da Luta”? Boa, velhinho!), chamou o experiente Gregg Toland (que já havia ganhado um Oscar por “O Morro dos Ventos Uivantes”); para a edição, Robert Wise, que depois dirigiria clássicos como “Amor, Sublime Amor” e “A Noviça Rebelde”, entre outros (as transições de cenas são fantásticas); para o roteiro, Herman J. Mankiewicz; para a trilha sonora, o grande Bernard Herrmann (que foi indicado ao Oscar, mas perdeu para... ele mesmo!) and so on...

    Em suma, “Cidadão Kane”, notório campeão dessas listas de melhores filmes de todos os tempos... realmente merece. Acho que não o coloquei naquele meu top 20 por pura birra, não com o filme, que eu amo e já vi várias vezes, mas com essa unanimidade toda. Trata-se de uma obra esplêndida, muitíssimo feliz, dotada de uma narrativa concisa, aliada a uma grande força poética. “Kane” é um poema fílmico, sem, por isso, ser desagradavelmente pretensioso ou hermético. Da tremenda atuação de Welles (que usa espartilho para parecer mais magro) ao fantástico enigma de Rosebud (o nosso amigo Spielby pagou US$ 60 mil, em um leilão realizado em 1982, por um exemplar do dito-cujo), passando pelo fascinante cinejornal “News on the March”, trata-se de uma obra-prima imortal, jamais igualada pelo diretor _embora ele afirme que, se não tivessem cortado 40 minutos de “Soberba”, ele seria superior a “Kane”...

    Depois de “Kane”, vocês sabem, Welles caiu em desgraça. “Soberba” foi mutilado enquanto ele estava aqui no Brasil, fazendo o inacabado “It’s All True”. Seus próximos projetos em Hollywood, como o também famoso “A Marca da Maldade”, sofreriam interferências mil, nunca saindo do jeito imaginado pelo artista. Tsc, tsc.

    Daí, Welles partiu para a produção independente, aos trancos e barrancos. E foi assim que ele fez “Othello” (1952), a segunda e última adaptação de Shakespeare que Welles realizou para o cinema (em 1978, Welles dirigiria um documentário chamado “Filming ‘Othello’”, rememorando a atabalhoada produção). Apesar da ótima cenografia e da fotografia (as locações são lindas, e a iluminação beneficia muito o rosto pintado de Welles), o filme me decepcionou _e o fato de eu não gostar tanto assim da peça, longe de ser a minha favorita do velho bardo, provavelmente influiu. Mas não deixa de ser admirável a tenacidade e a criatividade do diretor nos momentos de aperto: a falta de dinheiro fez com que Welles filmasse uma importante cena num banho turco, justamente porque não tinha mais dinheiro para os figurinos... Ah, outra curiosidade: Welles filma o texto de Shakespeare da maneira que o nosso Machado de Assis havia imaginado, mais de meio século antes...

    Em “O Processo”, o processo foi semelhante... Filmado na França, a adaptação do romance incompleto de Kafka traz um elencaço: o grande Anthony Perkins, que Hitchcock havia transformado em estrela com “Psicose”, protagoniza, tendo a companhia da belíssima Romy Schneider, de Jeanne Moreau e do próprio Welles (mais uma vez no papel de advogado). Trata-se de um filme escuro, com grande constraste de luz e um grande senso de humor negro _Welles afirma que quis dar ao filme uma atmosfera onírica. Se o resultado pode decepcionar algumas pessoas (Peter Bogdanovich, um dos maiores amigos de Welles em seus últimos anos, não gosta deste filme), ele é muito melhor do que a versão dos anos 90 e do que aquele filme metido a besta do Soderbergh. E, pelo menos, Welles teve liberdade para fazer o filme do jeito que quis.

    Mas grande filme mesmo é este fantástico “F for Fake”, chamado no Brasil de “Verdades e Mentiras” (e não “É Tudo Mentira”, como alguns gostam de dizer). François Truffaut é quem diz que este é um dos dez melhores filmes de um diretor norte-americano feitos nos anos 70, e não sou eu quem vai discordar. A verdade é que, após três minutos do começo da bagaça, eu já sabia que estava diante de uma obra-prima...

    É o seguinte: o cineasta François Reichenbach (que já havia dirigido um perfil de Welles para a TV francesa) estava preparando um documentário sobre um tal de Clifford Irving, que teria efetuado uma fraude, relativa a uma biografia do excêntrico milionário ermitão Howard Hughes. Welles viu o material e o comprou, adaptando-o para um “documentário fictício”, que aborda o tema das fraudes, enfocando personagens como o pintor Elmyr de Hory (que falsifica quadros de gente como Matisse e Modigliani, para em seguida queimá-los, dizendo “lá se vão US$ 50 mil...” _Elmyr acabou ficando tão famoso que suas falsificações se tornaram valiosas e começaram a ser... falsificadas!), o avô de sua “amiga” Oda Kojar, que teria falsificado Picassos e o próprio Welles, que relembra a sua experiência com “A Guerra dos Mundos”. Um filme brilhante, onde nos questionamos o tempo todo sobre o que é falso e o que é verdadeiro _a começar pelo próprio Welles, que começa fazendo truques de prestidigitação... Se é verdade que “o poeta é um fingidor”, então Orson acertou em cheio.

    P. S. Jean Renoir, em entrevista a Peter Bogdanovich, fala de Orson Welles:

    “Li um artigo de Marcuse e, segundo a teoria dele, os filmes mudos foram feitos para as classes trabalhadoras porque conseguiram atrair todas as camadas, o que talvez explique a grande popularidade de atores como Chaplin e Keaton. Mas, hoje em dia, o homem da classe trabalhadora tem dois carros e manda os filhos para as melhores escolas; na verdade, a classe trabalhadora se transformou na classe média. E quase todos os filmes atuais e dos últimos vinte anos têm sido feitos para a classe média. Aliás, a maioria dos diretores _mesmo os grandes_ é de burgueses. Orson Welles está entre um pequeno punhado de aristocratas. E seus filmes são trabalhos aristocráticos. É provável que seja esse o motivo de quase nunca serem sucesso comercial. Orson também é um grande ator, mergulha de tal forma num papel que, enquanto está dentro da pele daquela personagem, até sua personalidade própria cessa de existir. Gosto tanto do trabalho de Welles que gosto inclusive quando ele não é muito bom, porque em todos os momentos ele permanece um artista.”

    P. P. S. A epígrafe do texto sobre “Crepúsculo dos Deuses”, “A Malvada” e “Os Desajustados” é de autoria do grande Johnny Cash _talvez o maior nome do country norte-americano, ao lado do Hank Williams. Um grande artista.

    quarta-feira, setembro 10, 2003

    Macbeth / A Paixão de Joana D’Arc

    Life's but a walking shadow, a poor player that struts and frets his hour upon the stage and then is heard no more: it is a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing.

    Ou, como diria Carlos Drummond de Andrade: êta vida besta, meu Deus.

    É provável que muitos fãs do Nick Hornby não saibam que "A Vida É Cheia de Som e Fúria" foi assim batizada por causa desta citação da temível "peça escocesa" (os supersticiosos do teatro dizem que pronunciar o título da obra dá azar), do velho bardo inglês adorado pelo Harold Bloom e pelo Neil Gaiman. Claro que não só o teatro se aproveita do legado de Shakespeare _o cinema já enjoou de interpretar (e de adaptar _o "Ran" de Kurosawa é um "Rei Lear" espetacular) suas obras-primas.

    Além dos shakesólatras assumidos como Laurence Olivier, Orson Welles (que também adaptou "Macbeth", uma versão de baixíssimo orçamento) e Kenneth Branagh, o nosso amigo estuprador de garotinhas Roman Polanski também entrou na brincadeira.

    Era fim dos anos 60 (o filme foi lançado em 1971), aquela fofura do Charles Manson tinha tocado o terror na gostosa da Sharon Tate (que estava grávida de oito meses), então não é de estranhar a escolha de Polanski, que, com financiamento de Hugh Hefner, o homem mais invejado do planeta Terra, deu ao mundo esta razoavelmente fiel adaptação da sangrenta história do nobre que, instado por sua cruel mulher, assassina a torto e a direito para conquistar e se manter no poder.

    Mas nem vou ficar discutindo a riqueza de Shakespeare aqui _"Macbeth", assim como a maioria de seus trabalhos, vem sendo estudada e reestudada até hoje e o será por muito tempo, duvida? O que eu quero mesmo é indicar este filme, repleto de violência, de pesadelos horripilantes e de crueza explícita, já que estou cheio de amor em meu coraçãozinho desempregado.

    O "Macbeth" de Polanski não só vale a pena pelos seus belos figurinos e cenografia ou pela incrível coreografia dos duelos entre cavaleiros, mas, principalmente, pela atuação magistral de Jon Finch (o azarado protagonista de "Frenesi"). O cara é muito bom, dá umas nuances incríveis ao personagem, mesmo durante as cenas de porrada.

    Fora algumas outras seqüências de destaque, como aquela em que Macbeth vai visitar as bruxas (que aqui não são três, mas inúmeras, todas velhas, feias, deformadas e peladas) e se depara com os descendentes de Banquo contidos em espelhos e também a da morte do filho de Macduff, antecedida de um famoso diálogo, no qual a criança afirma que os desonestos deveriam enforcar os honestos... Também é notável a bela Francesca Annis, que tem alguns ótimos momentos na pele de Lady Macbeth _interessante a visão da personagem, que associa o mal à masculinidade e ofende o marido quando ele reluta em praticar os covardes homicídios.

    Ainda nesta seara de bruxas, de morte e de histórias inspiradas em fatos (sim, "Macbeth", uma encomenda de um rei a Shakespeare, foi inspirada numa história real), vem bem a calhar esta magnífica e controvertida obra-prima do cinema (ainda em sua fase muda, ou melhor, sem som sincronizado), "A Paixão de Joana D’Arc", de 1928 (quem me falou deste filme pela primeira vez foi, vejam só, a Cat Power...).

    Um dos filmes mais celebrados do mais famoso diretor dinamarquês, Carl Theodore Dreyer (outros longas de destaque são "Vampyr", de 1932, e "A Palavra", de 1955), é também uma das muitas adaptações (Bresson, Preminger, Fleming e outros também fizeram das suas) do histórico processo de julgamento de Joana D’Arc _que durou cerca de um ano e meio e consistiu de 29 interrogatórios, mas que aqui aparece condensado em um só dia.

    Dreyer (considerado o maior mestre de Godard _em "Viver a Vida", Anna Karina chora ao ver este filme_ e de Bergman), que foi jornalista e cobriu tribunais, consultou os legítimos documentos do processo para construir o seu filme, que inova incrivelmente nos enquadramentos (é quase todo em primeiro plano) e na incrível fotografia de Rudolph Mate (discípulo do grande Alexander Korda e do expressionista Karl Freund _ele também trabalhou com Fritz Lang, René Clair, William Wyler, Howard Hawks, King Vidor, Alfred Hitchcock, Ernst Lubistch e outros, além do famosíssimo "Gilda", que imortalizou a Rita Hayworth).

    Ainda se destacam a presença de Antonin Artaud (que atuou em clássicos como o "Napoleão" de Abel Gance e roteirizou uma das obras mais conhecidas do cinema surrealista francês, "A Concha e o Padre" _cujo resultado final ele abominou, diga-se), celebrizado por seu Teatro da Crueldade e por sua posterior loucura, e a de Maria Falconetti, famosa atriz de teatro, nascida na Córsega para morrer em Buenos Aires, aqui em seu segundo e último papel no cinema (reza a lenda que fazer este filme teria sido traumático para ela...).

    Os figurinos e cenários (feito pela mesma equipe do clássico alemão "O Gabinete do Dr. Caligari") são simples, como se não quisessem aparecer mais do que os atores, figuras interessantíssimas, quase caricatas (embora estivessem todas sem maquiagem), como as que Fellini usaria em seus filmes. Mas nada consegue ofuscar a dolorosa atuação de Falconetti, neste filme que busca mostrar a purificação espiritual sob um viés realista ao extremo. O resultado é encantador, emocionante, fantástico. Taí um filme para ter em casa, assistir mil vezes e se deslumbrar em todas elas.

    P. S. Já que falamos de Orson Welles (quem nem gostava tanto assim de "A Paixão de Joana D’Arc", mas que admirava intensamente o Alexander Korda), aí segue um trecho de um artigo do mesmo sobre D. W. Griffith, responsável pelo longa-metragem mais influente (apesar da controvérsia a respeito do racismo) da história do cinema, "O Nascimento de uma Nação":

    "Encontrei-me uma única vez com David W. Griffith, e não foi um encontro feliz. Um coquetel numa tarde chuvosa do último ano da década de 30. A Idade de Ouro de Hollywood fora, entretanto, uma década triste e vazia para o maior de todos os seus diretores. A imagem em movimento que ele praticamente inventara havia se tornado um produto _produto exclusivo_ da quarta maior indústria norte-americana, e nas linhas de montagem das monstruosas usinas de filmes não havia lugar para Griffith. Era um exilado em sua própria cidade, um profeta sem honra, um artesão sem ferramentas, um artista sem trabalho. Não admira que me odiasse. Eu, que nada sabia sobre filmes, acabara de ter garantido o maior grau de liberdade jamais incluso num contrato em Hollywood. Era o contrato que ele merecia. Dava para ver que ele não estava nem um pouco velho para isso, e não podia culpá-lo por achar que eu era jovem demais. Ficamos embaixo de uma daquelas árvores de Natal cor-de-rosa que eles usam por lá, tomamos nosso drinque e olhamos um para o outro através de um abismo sem esperança. Eu o amava e idolatrava, mas ele não precisava de um discípulo. Precisava de um emprego. Nunca cheguei realmente a odiar Hollywood, exceto pelo que fizeram com D. W. Griffith. Cidade nenhuma, indústria nenhuma, profissão nenhuma, nenhuma forma de arte deve tanto a um único homem. Todos os cineastas que vieram depois fizeram justamente isso: vieram depois dele. Ele deu o primeiro close e movimentou a primeira câmera. Foi, porém, mais do que um fundador e um pioneiro, e sua obra há de resistir, junto com suas invenções. Os filmes de Griffith estão hoje menos obsoletos do que há um quarto de século, quando bebemos lado a lado debaixo de uma árvore de Natal cor-de-rosa, e eu fracassei, abominavelmente, porque não consegui expressar o que ele significa para mim _para todos nós. Falhei de novo. Ele está além de homenagens."

    quinta-feira, agosto 28, 2003

    Estranhos no Paraíso / Ghost Dog / Dirigindo no Escuro

    Save your poison for a lover who is on your side.

    Há pouco tempo, rolou aqui em Sampa (no Cinesesc, a míseros R$ 2 por sessão _assim, sim) uma pequena mostra dedicada ao cineasta independente norte-americano Jim Jarmusch (que tem uma interessantíssima participação como ator no fraco "Sem Fôlego", de Wayne Wang e Paul Auster). Além dos dois filmes que batizam este texto, passou também "Daunbailó" (aquele com o Tom Waits e o Benigni), que eu não pude conferir _dizem que a sessão se esgotou, o que causou a volta do filme ao circuito comercial, só que num cinema longe demais das capitais.

    Jarmusch foi uma espécie de queridinho da crítica durante os anos 80 _uma época que se via como o ápice do "cool", mas que já chegou a ser chamada de "a década perdida". Claro que não foi nem uma coisa nem outra _mas que rolava muita babaquice na época, isso rolava. Aliás, parece que ser babaca era chique, nos 80. Eu era criança, não entendia nada _sigo não entendendo, como o meu amigo Tremendão.

    Mas, contraditoriamente, meus inexplicáveis intintos me diziam que a obra do J. J. devia ser interessante, apesar de tanta gente metida a besta babar ovo cozido para o cara. E não deu outra: 1) a mostra foi freqüentada, basicamente, por "jornalistas culturais" (urrrk!), "povinho do cinema" (bluéargh!) e "povinho MTV" (bléco!), ou seja, a mesma situação de quando eu peguei uma ponte aérea com o Enéas: só não desejei que uma bomba explodisse porque eu também estava ali; 2) os filmes eram mesmo bons, hallelujah.

    Interessante, vi duas obras de épocas bem distintas: a primeira, de 1983; a segunda, de 1999. Há um abismo não somente temporal entre as duas, embora ambas compartilhem de uma grande e fundamental característica: senso de humor.

    "Stranger than Paradise" (a tradução brasileira está errada, perceberam?), segundo longa de Jarmusch, é um filme de baixíssimo orçamento _chegaria a lembrar um trabalho de faculdade, se os trabalhos de estudantes de cinema não costumassem ser tão péssimos. Feito em p&b, com som mono, poucos cenários, poucos e desconhecidos atores. E é um filmaço.

    John Lurie (saxofonista e líder do grupo de jazz Lounge Lizards, que também assina a trilha sonora) interpreta Willie, imigrante húngaro que vive de pequenos golpes em Nova York. Um dia, sua prima Eva (a estreante Eszter Balint, que também mexe com música), uma fanática por Screamin' Jay Hawkins (do clááássico "I Put a Spell on You", que toca no filme), chega da Hungria, para passar uns tempos com ele, antes de se dirigir à gelada Cleveland, onde morará com uma tia. Completa o trio de protagonistas Eddie (Richard Edson, que foi o primeiro baterista do Sonic Youth, mas acabou mesmo seguindo a carreira de ator, aparecendo em filmes como "Faça a Coisa Certa" e "Platoon"), parceiro de Willie em seus trambiques, que parece arrastar uma asinha pra Eva.

    A ação é mínima: boa parte da platéia ria justamente da vida besta dos protagonistas, que, basicamente, ficam em casa o dia inteiro, sem fazer nada de interessante. Mas o que soa como uma cabecice insuportável dá realmente num filme divertido, delicioso de assistir. Um interessante retrato dos jovens perdedores da América, sem perspectivas ou objetivos claros.

    Já "Ghost Dog: The Way of the Samurai" parece uma superprodução perto de "Estranhos no Paraíso". Traz um ator famoso (Forest Whitaker) no papel principal, uma equipe técnica muito mais experiente e profissional (em "Strangers..." foi tudo mesmo na base da brodagem, com várias pessoas acumulando funções) e uma grande estrela da música cuidando da trilha (o milionário rapper RZA, líder do Wu-Tang Clan, que não está à toa na função). Por isso mesmo, é um filme muito mais "fácil" de ver.

    Ghost Dog é um cara que, como diz o título, trilha "o caminho do samurai". O filme mostra como suas ações são guiadas pelo código do samurai, cujos trechos aparecem na tela, explicando a história. Um samurai moderno, "afro-americano", que escuta rap e é vassalo de um capanga da máfia ítalo-americana, que salvou sua vida. Ou seja, nosso herói é um matador de aluguel, mas não um matador comum.

    Uma idéia que a obra martela é a crítica à modernidade e a seus valores. Ghost Dog vive à moda antiga, se comunica por pombos-correio etc. Seu único amigo é Raymond, um sorveteiro francês que acha que sorvete é bom pra saúde porque contém cálcio, e tem como uma espécie de discípula a garotinha Pearline, com quem fala de livros como "Frankenstein" e "Rashomon".

    Com muito mais ação e uma narrativa interessantíssima, que usa de desenhos animados como "Pica-Pau", "Gato Félix" e "Comichão e Coçadinha", o filme te faz pensar e te faz rir ao usar de certa atmosfera à David Lynch. É pouco?

    Ainda no ramo da comédia e ainda em Nova York, o nome que vem à cabeça é Woody Allen. Seu filme mais recente a estrear no Brasil (já tem um novo, chamado "Anything Else", estrando em Veneza _que sorte a do Allen, poder filmar tanto, hein?), "Hollywood Ending", vem endorsado pela Dreamworks, do nosso amigo Spielby, e traz todo o egocentrismo do artista, além de Téa Leoni, Debra Messing (a Grace de "Will & Grace") no notório papel da vulgarzinha aspirante a atriz, e aquela gostosa (Tiffani Thiessen, uh) que era a malvada em "Barrados no Baile" (será que a Globo pagou royalties ao Eduardo Dusek?), no papel de atriz gostosa _que ela sabe interpretar muito bem.

    "Dirigindo no Escuro" (título imbecil, me faz pensar numa auto-escola que só funciona à noite) pode e vai ser visto por um monte de gente como uma comedinha besta, mas é um dos melhores Allen dos últimos anos, não tão sério e artístico como "Memórias", mas é igualmente autobiográfico. A seguir, reproduzo um trecho de um e-mail onde eu discutia o filme com uns amigos:

    "Neste mesmo filme, Allen se assume como egocêntrico, portanto, não é de espantar que ele repita uma série de 'clichês', vistos em várias de suas obras _isto se chama estilo. É impossível negar a personalidade do autor _é uma questão de se identificar ou não com ela.
    O que mais me chamou a atenção em 'Hollywood Ending' foi a frase 'Graças a Deus existem os franceses!'. O que parece uma crítica aos europeus (certamente, esta será a interpretação dos conterrâneos de Allen, que amam odiar os franceses) é, na verdade, uma crítica aos norte-americanos, que, em geral, não absorvem bem o humor do diretor (caso semelhante é o de Jerry Lewis, subestimado nos EUA e endeusado na França _é, os franceses amam discordar dos americanos...). O próprio Allen já disse em entrevistas não entender o porquê desta realidade, já que ele se considera um americano típico, 'amante de baseball, de jazz e de loiras peitudas'.
    Quem não conhece bem a obra de Allen e deseja se aprofundar, recomendo em especial 'Memórias' (sua obra-prima), 'Manhattan', 'Annie Hall' (traduzido no Brasil como 'Noivo Neurótico, Noiva Nervosa') e 'Maridos e Esposas'. Todos bastante autobiográficos." É isso aê.

    P. S. Finalmente vi "Catch Me if You Can". Que bom que o Spielby e o Tom Hanks deixaram de lado (pelo menos um pouco) o politicamente correto _é uma delícia ouvir o ex-comediante gritando "fuck you!". E o filme me fez pensar em como os malandros brasileiros são mais interessantes do que os americanos... Ah, mas quem rouba o filme é mesmo Christopher Walken: ele está brilhante e, quando aparece, domina _não sobra pra ninguém. Ele é o cara!

    P. P. S. Uma coisinha que o David Mamet falou sobre o ofício da direção cinematográfica já havia sido dita pelo grande Orson Welles (de quem falaremos bastante em breve), em entrevista ao também cineasta Peter Bogdanovich. Aí vai um trecho:

    "OW: (...) E agora, você tem o quê, aí? Mais uma citação explanatória?
    PB (lendo): 'Os escritores deveriam ter a primeira e última palavra num filme. E a única alternativa melhor é o escritor-diretor, com ênfase na primeira palavra.'
    OW: E mantenho. Dirigir, pura e simplesmente, é a tarefa mais fácil do mundo.
    PB: Essa vai precisar de uma explicação!
    OW: Peter, não existe outro ofício no mundo em que um homem consiga atravessar tranqüilamente trinta anos de carreira sem que ninguém descubra que ele é incompetente. Dê-lhe um bom roteiro, um bom elenco e um bom montador _ou só um desses elementos todos_, e tudo o que ele tem para fazer é dizer 'Ação' e 'Corta', e o filme se faz sozinho. Falo sério, Peter... Dirigir um filme é o refúgio perfeito do medíocre. Mas, quando um bom diretor faz um mau filme, o universo inteiro sabe quem é o responsável."

    P. P. P. S. Esta mensagem vale para sexta-feira, 29 de agosto: feliz aniversário para Luana Piovani, Michael Jackson, Edu Lobo e outros virginianos. Para este desempregado/endividado/desesperado que vos fala, não vai ser grande coisa. Abraços!

    quinta-feira, agosto 21, 2003

    Crepúsculo dos Deuses / A Malvada / Os Desajustados

    It's not the last time that I'll break instead of bend, but, for the moment, love has lost again.

    Quem visita este site há um certo tempo deve ter percebido que ando falando cada vez menos de filmes que estão em circuito comercial (justamente a proposta inicial da bagaça). Os motivos são vários: estou semi-desempregado (ou seja, vivendo de frilas _raríssimos, infelizmente), então falta grana; estou desgraçadamente solteiro, então falta companhia (algo fundamental, concordam?); estou atolado em estudos e trabalhos (que não geram dinheiro, apenas experiência e falta de dinheiro), então falta tempo; iludido pela falsa promessa de um emprego duradouro (que durou dois meses), cometi a extravagância de comprar um aparelho de DVD (que só vai terminar de ser pago em novembro, oh, penúria), então tenho acesso a muitos filmes que preciso ver/rever e que não estão no cinema (tenho acesso porque me emprestam; dinheiro para alugar, não tenho. Aliás, nunca aluguei um DVD até hoje, três meses após ter comprado o aparelho, e não pretendo alugar tão cedo _só se a bonança chegar). Então, vamos falar de mais clássicos, mesmo. Vocês se incomodam?

    Não sei se foi uma reação emocional ou não, mas, quando o Billy Wilder morreu, Carlos Heitor Cony escreveu que "Crepúsculo dos Deuses" (título interessante, embora não tenha nada a ver com o original, "Sunset Blvd.") era o melhor filme de todos os tempos. Eu, que sei muito menos do que o Cony, discordo (ah, discordar é legal, vá). Mas que o filme é incrível, uma obra-prima, isso eu acho quase indiscutível.

    Lançado em 1950, trata-se de uma obra ousadíssima porque desnudava, de maneira revolucionária para a época, o mundo mítico de Hollywood, justamente no momento em que a televisão ficava cada vez mais popular nos EUA, o que causou um duro golpe na indústria cinematográfica (e que levou às superproduções em cinemascope e technicolor, uma tentativa de oferecer um espetáculo que a TV de então não podia _sim, a tecnologia só avança quando é preciso fazer dinheiro, sabiam?). Bem no começo do fim da Era de Ouro do cinema hollywoodiano, um pouco da sordidez contida naquela indústria foi exposta nas telas. Não foram poucos os que receberam a obra com escândalo.

    A história é exemplar: assim como em "Memórias Póstumas de Brás Cubas", o narrador do filme é um cadáver (aliás, a cena em que vários cadáveres batiam papo num necrotério, que originalmente abria o longa, foi cortada, porque as pessoas se esgüelaram de tanto rir nas projeções-teste). E um cadáver de um roteirista, com sérios problemas financeiros (engraçado, conheço alguém assim...), chamado Joe Gillis (William Holden, no papel que, originalmente, seria de Montgomery Clift).

    Por obra do acaso (um pneu furado enquanto fugia de credores), Gillis acaba chegando a uma mansão da Sunset Boulevard, onde moram Norma Desmond (Gloria Swanson), uma antiga estrela hollywoodiana, da época dos filmes mudos, e seu sisudo mordomo (Erich von Ströheim), ambos em ostracismo.

    Ora, Gloria Swanson realmente era uma ex-estrela de cinema, e Ströheim realmente era um ex-diretor (responsável por "Greed", um dos filmes mais ambiciosos e megalomaníacos da história, cujo fracasso causou sua descida ao inferno em Hollywood _para maior realismo, "Greed" foi todo rodado em locações, com objetos de cena genuínos, ou seja, uma superprodução caríssima, cuja versão original tinha nada mais, nada menos do que OITO horas de duração...). Some-se a isso a presença de outros atores que um dia haviam sido famosos, numa cena de carteado (um deles, H. B. Warner, havia interpretado Jesus Cristo em "King of Kings", de Cecil B. de Mille; o outro é simplesmente Buster Keaton, talvez o maior comediante da história da sétima arte).

    Vale a pena também destacar a participação mais do que especial do próprio Cecil B. de Mille, que aparece no set de filmagens de "Sansão e Dalila" (uma dessas superproduções espetaculares das quais falamos). E preciso confessar uma coisa: eu sou um baita de um cara casca grossa, mas, sempre que vejo o final deste filme, sinto um nó na garganta e excesso de lágrimas nos olhos. É, literalmente, de arrepiar.

    Também lançado em 1950, "A Malvada" (um título estranho e confuso; o original é "All About Eve") foi o bicho-papão de Oscars daquele ano (foi indicado a 14 e ganhou 6, incluindo os de filme, direção e roteiro original), embora não seja tão imenso quanto "Crepúsculo dos Deuses" (que só ganhou os de argumento, direção de arte para p&b e trilha sonora). Mas traz uma atuação imensa: a de Bette Davis como Margo Channing _na minha opinião, é uma das maiores personagens femininas da história do cinema, ao lado da Scarlett O'Hara, da Mrs. Robinson e da já citada Norma Desmond (quem mais você indicaria?). E, sim, Davis perdeu o Oscar de melhor atriz, vai entender...

    Channing também é uma estrela, só que dos palcos. Mas a diva está em plena crise dos quarenta e precisa decidir se continua dando mais ênfase à carreira ou se casa (lembrem-se, estamos no fim da década de 40). E é bem aí que surge Eve Harrington (Anne Baxter, neta do célebre arquiteto Frank Lloyd Wright), fã de Margo... Mas não quero comentar o enredo da belíssima e complexa obra de Joseph L. Mankiewicz, e sim me limitar a dizer que trata-se de um filme para quem ama as mulheres. Para quem realmente ama as mulheres, eu falo sério _podem perguntar pro Almodóvar, que não teria feito "Tudo Sobre Minha Mãe" se "All About Eve" não existisse.

    E já que Thelma Ritter (grande figura, famosa por ser a "babá" de James Stewart em "Janela Indiscreta") e Marilyn Monroe aparecem em "A Malvada" (a primeira, como o braço direito de Margo; a segunda, no papel de uma sexy e burra aspirante a atriz _foi aí que a 20th Century Fox contratou Marilyn), vamos falar de outro filme no qual ambas contracenam: "The Misfits", uma das obras-primas do sr. John Huston, de quem falamos um tiquinho aí no texto abaixo.

    "Os Desajustados" (1961) é um desses dramas com "D". Um filme especial, que juntou o talento de Huston ao do dramaturgo Arthur Miller (autor do clássico teatral "A Morte do Caixeiro-Viajante"), trazendo Clark Gable em seu último papel no cinema (o Rhett Butler de "...E o Vento Levou" morreu antes de o filme ser lançado) e o também já citado Montgomery Clift, além do ótimo Eli Wallach, grande e subestimado ator, como Guido, o piloto.

    Gable simplesmente arrebenta como o velho cowboy que vive à deriva, mas quem brilha é mesmo Marilyn (também em seu último filme). Sua atuação não é brilhante, mas ela é. O papel de Roslyn, ex-dançarina de boate que se sente deslocada no mundo (o logotipo de "The Misfits" é justamente o de peças de quebra-cabeça que não se encaixam) após se divorciar, foi especialmente escrito para ela por Miller, seu ex-marido. Ou seja, Roslyn é um alter ego de Marilyn.

    Sou suspeitíssimo para falar de Marilyn, pois sou muito fã, mas é emocionante vê-la em ação pela última vez em um papel tão tocante _mesmo que seja dançando bêbada ao redor de uma árvore, gritando no meio do deserto, entrando e saindo de uma casa aos pulos, brincando com uma raquete de pingue-pongue. Prestem atenção no que Guido diz a respeito da moça: "Você tem o dom da vida, Roslyn. O resto de nós está apenas procurando por um esconderijo para vê-la passar", antes de brindar à vida dela, desejando que ela dure para sempre. Mais tarde, o mesmo Guido dirá que Roslyn "está ligada a tudo. É uma bênção".

    Vejam ainda este pequeno diálogo de Miller, travado entre Gable e Marilyn. Ele diz: "Você é realmente uma mulher bonita. Ficar ao seu lado é quase uma espécie de honra. Você reluz nos meus olhos. É o que eu realmente sinto, Roslyn". Ela apenas olha, sem responder. Ele continua: "O que te faz tão triste? Acho que você é a garota mais triste que já conheci". Ela esboça um sorriso, mas segue triste e diz: "Você é o primeiro homem que me diz isso. Geralmente me dizem que eu sou muito feliz". Ele responde: "É porque você faz os homens felizes". E em outro trecho de seu último filme, Marilyn pergunta: "Estamos todos morrendo, não?". Parece que ela estava.

    P. S. Notícia boa: saíram as revistas Sandman Apresenta 5 e Hellblazer 6, ambas iniciando novas histórias. Podem comprar. Notícia péssima: a Conrad cancelou a Crocodilo, que era a melhor revista do país. Dizem que as vendas ficaram abaixo do esperado _mas, também, ninguém conseguia encontrá-la nas bancas... Que sacanagem!

    sábado, agosto 16, 2003

    The Westerner / Roy Bean, o Homem da Lei / Bola de Fogo

    Oh, where are you now, pussy willow that smiled on this leaf? When I was alone, you promised the stone from your heart. My head kissed the ground, I was half the way down, treading the sand. Please, please, lift a hand (...). Won't you miss me? Wouldn't you miss me at all?

    A cada dia, mais coisas a fazer. E menos dinheiro. Não é mole, não. Onde isso vai parar? Ainda bem que não sei.

    Então vamos logo: coloquei o título original de "The Westerner" aí em cima porque encontrei duas versões brasileiras para esta grande película, produzida por Samuel Goldwyn, dirigida por William Wyler, estrelada por Gary Cooper e lançada em 1940: "A Última Fronteira" e "O Galante Aventureiro" (eca). Em uma palavra: filmaço.

    Um faroeste maduro, no qual Cooper (um ator que, segundo Orson Welles, foi feito para o cinema) interpreta um anti-herói (ou seja, um cara razoavelmente filho da puta, que faz o papel de "herói" simplesmente por ser o "menos pior" na história) que chega a uma cidadezinha chamada Vinegaroon, na qual vive uma figura bastante peculiar, inspirado em uma pessoa real: Roy Bean (grande interpretação de Walter Brennan), que se intitula juiz, além de ser dono do saloon local.

    Bean, um dos vilões (na verdade, outro anti-herói) mais estranhos da história (o cara é uma figura), sai enforcando gente a torto e direito, sempre aditivado por altas doses de álcool (quem não bebe periga ser preso), e nutre uma admiração inigualável pela atriz (mais uma vez, uma pessoa real) Lily Langtry, cujas fotos de divulgação decoram o saloon de Bean.

    O mais legal é que, em plena Era de Ouro do cinema, fizeram um faroeste que cospe na idéia do esquema mocinho/mocinha/bandido. Os personagens são seres humanos, polidimensionais, complexos e, acima de tudo, politicamente incorretos. Há senso de humor, aventura, romance, crítica social, mas apresentados sempre de uma maneira desconcertante. Podem ir atrás, é diversão garantida ou sua frustração de volta.

    E o tal de Roy Bean é um personagem tão legal, mas tão legal mesmo, que até o sr. John Huston (cuja obra, ou melhor, parte dela, está em retrospectiva no CCSP, aproveitem que é de graça) resolveu fazer outro filme para ele (antes disso, o personagem já havia ganho uma série para a TV que, em 1959, rendeu 39 episódios de meia hora, e um "western spaghetti" lançado em 1970). "The Life and Times of Judge Roy Bean" foi lançado em 1972, com roteiro de John Milius (mais conhecido por ser o diretor de "Conan, o Bárbaro", mas o cara também produziu filmes do então jovem Spielberg e participou da escrita de grande obras como "Apocalypse Now" e "Tubarão", além de ter criado a famosa frase de Dirty Harry: "Go ahead, punk. Make my day" _ou seja, não é pouca bosta, não), figurinos da famosa Edith Head e música de Maurice Jarre, traz o grande Paul Newman no papel principal, além de uma galeria de estrelas em participações especiais (incluindo o próprio Huston).

    Não se trata de um "remake" de "The Westerner", e sim uma versão quase que totalmente diferente da história. Bean continua exercendo a lei ilegalmente, continua sendo um juiz/barman que adora enforcar qualquer um que saia da linha. Mas, desta vez, ele é o "herói", embora não seja glamouroso, invencível ou um edificante exemplo para as nossas crianças. Huston aproveita o caráter (ou melhor, a falta dele) do personagem para fazer uma comédia de ação bem mais amalucada e com o roteiro mais frouxo (na verdade, trata-se de uma colagem de episódios) do que o filme original.

    Não chega nem perto do filme do Wyler, mas ainda assim é muito divertido e traz uma brilhante (e, infelizmente, curta) participação de Anthony Perkins como um reverendo, além de Ava Gardner como Lily Langtry. Completam a parte estelar do elenco Ned Beatty, Stacy Keach, Roddy McDowall, a bela Jacqueline Bisset e o urso Bruno. Assista logo após "The Westerner", depois venha me contar o que achou.

    Para completar o nosso papo de hoje, vamos voltar a outro filme produzido por Samuel Goldwyn e estrelado por Gary Cooper, mas, desta vez, dirigido por Howard Hawks: "Ball of Fire", de 1941. E é aqui que surge uma pequena decepção: além de ter um grande diretor, traz como roteiristas a brilhante dupla Billy Wilder e Charles Brackett _ou seja, era de se esperar uma obra-prima, certo?

    Infelizmente, "Bola de Fogo" não é um filme tão memorável. Trata-se de uma espécie de "Branca de Neve e os Sete Anões" transportado para o mundo dos gângteres (ou seja, comédia). Cooper interpreta um professor que, em conjunto com alguns colegas de alto QI, prepara a mais ambiciosa enciclopédia do mundo. Mas, ao perceber que sua pesquisa lingüística deixou de considerar as gírias correntes, ele precisa deixar seu mundinho acadêmico e partir para a pesquisa nas ruas. E é aí que ele conhece Sugarpuss O'Shea (Barbara Stanwyck), uma cantora (que, olha o luxo, é acompanhada por Gene Krupa e sua Orquestra _o cara esmerilha até ao solar em uma caixa de fósforos, com dois palitos) envolvida até o pescoço com a Máfia. Preciso contar o resto da história? Veja por si mesmo...

    P. S. Ia deixar para falar destes filmes em um post separado, mas, como não são grandes coisas, seguem comentários curtos, mesmo.

    "Cidade Ameaçada", de Roberto Farias (diretor de "Assalto ao Trem Pagador" e dos filmes com Roberto Carlos, além de ser irmão de Reginaldo Faria _sim, o sobrenome é diferente por causa de um erro do cartório), um filme policial melodramático feito no início dos anos 60, estrelado pelo "irmão do diretô" e pela linda Eva Wilma. Completam o elenco figuras como Milton Golçalves, Jardel Filho e Dionísio Azevedo.

    "Por um Fio", de Joel Schumacher, é um filme pequeno em mais de um sentido (ainda mais se comparado a outro filme pós-11/09, o ótimo "A Última Noite"). Colin Farrel está razoável, Kiefer Sutherland empresta a voz para o vilão, um psicopata moralista (what?). Tem também Forest Whitaker, como um policial sensível e compreensivo (ãhn?). E tem a Katie Holmes, a Joey do finado "Dawson?s Creek" (nunca fui fã do seriado, mas vi o episódio final e achei ridículo)... O que vocês acharam?

    Ah, e, finalmente, eu vi "O Tigre e o Dragão", do Ang Lee. Achei bem meia-boca, com exceção das impressionantes coreografias de luta, que superam em muito as da série "Matrix" (por sinal, o coreógrafo é o mesmo). Será que ele merecia tantos Oscars assim?

    segunda-feira, agosto 11, 2003

    O Homem Que Copiava / Longe do Paraíso / Cada Um Vive Como Quer

    The best thing I've done was to make you the one who I'd walk with down to the altar. And you'd stand by me and together we'd be that great, steady Rock of Gibraltar.

    E aí, todo mundo foi ver "O Homem Que Copiava"? Lembro que eu estava com uma tremenda expectativa, desde quando li sobre o projeto nos jornais... Ora, o Jorge Furtado é um curta-metragista consagrado (meu preferido continua sendo "O Dia em Que Dorival Encarou a Guarda"), faz um ótimo trabalho na Globo (eu adorava as "Comédias da Vida Privada"), então não tinha como não ser bom.

    E é bom. Mas não tanto quanto eu esperava. É, eu me decepcionei (gostei mil vezes mais de "Houve Uma Vez Dois Verões", o filme anterior de Furtado, bem mais simples e tocante _sim, sentimental eu sou). Provavelmente, é mais um problema meu do que do filme. Que é bem-feito, rico, narrado de uma maneira interessante, sem ser raso, mas também sem ser desagradavelmente pretensioso (Shakespeare é pop, certo?). Tem suas doses de romance, de comédia, de aventura, de sensualidade, de crítica social, de animação (by Allan Sieber), de videoclipe (com "Travelling Band", do Creedence Clearwater Revival, música bem chupada da rainha do rock Little Richard) etc. E a sacada mais legal, na minha paupérrima opinião, é a cultura fragmentada (referências mil) do protagonista (Lázaro Ramos, que está OK, mas não tão impressionante quanto em "Madame Satã"), que, de certa forma, podemos relacionar com o próprio cinema (que também é uma arte "copiável" e composta de fragmentos que são montados após serem captados). Só que o filme me deixou a impressão de que se trata de uma obra muito mais intelectual do que emotiva, muito mais pensada do que sentida, e isso vai de encontro às minhas idiossincrasias, ui.

    Mas eu preciso dizer que a Luana Piovani mata a pau (ou melhor...). Leandra Leal é uma coisinha linda, está ótima em seu papel; Pedro Cardoso está interpretando o mesmo personagem de sempre (ou seja, enjoou e perdeu a graça _tá na hora de ele se reciclar, não?), mas a Luana está fantástica. E quando ela fala, com a cara mais lambida do mundo, que não usa calcinha? E quando ela fala que é virgem, mas já fez "de tudo"? Canalha. Filha da puta. Hmgrsftrpl. Taí um filme que eu preciso ver mais vezes.

    Falando em decepção, "Far from Heaven" me deixou na mão (ou melhor...). Novamente, a culpa é minha. Eu estava esperando uma obra-prima, nem sei por quê. Talvez pela Julianne Moore (que, na vida real, dá umas gargalhadas igualzinho à Fafá de Belém, já viram?), talvez pelo Todd Haynes, talvez pelo Douglas Sirk (rei dos melodramas fílmicos dos anos 50, que inspirou toda a atmosfera da obra), talvez porque o cartaz é bonito, sei lá. Só sei que o filme é bem menos do que eu esperava.

    Novamente (sim, novamente), não se trata de um filme ruim. Boas atuações, boa fotografia, boa direção de arte (excelente reconstituição de época) etc. Tudo "certinho", até os letreiros captam o espírito romântico dos anos 50, numa edulcorada e burguesa e suburbana América (como eles gostam de dizer por lá). Gosto do modo como o filme se segura e não apela para uma lacrimosidade excessiva. E não deixa de ser interessante o fato de Haynes, homossexual militante, desta vez ter desviado a questão do preconceito (que serve de mola para o melodrama durante todo o filme) para o dito "racial" (que eu saiba, a raça é humana, pô) e não ter produzido um panfleto (justamente o grande defeito de "Velvet Goldmine", seu longa anterior). Mas não possui brilho, não transcende, não tem o "tchan" da mulata tipo exportação. Vale ver, mas trata-se de um filme esquecível, bem pouco marcante.

    Agora, se você quer ver um drama com "D", se você quer ver uma obra-prima verdadeiramente antológica, pode ir correndo atrás de "Cada Um Vive Como Quer" ("Five Easy Pieces"), do diretor Bob Rafelson (sobrinho do roteirista de "O Cantor de Jazz", o primeiro filme falado da história, e criador da série de TV "The Monkees" _e, conseqüentemente, da banda), lançado em 1970.

    Jack Nicholson (talvez em sua maior atuação no cinema) é Robert "Bobby" Eroica Dupea. O cara é um desses anti-heróis trágicos, fadado a consternar, a desconcertar, a enojar, a chocar, a emocionar, a surpreender o espectador (e a fazer alguns deles se identificarem com o personagem). Bobby sente-se inadequado num mundo cheio de gente preconceituosa. Como ele mesmo diz, ele vive como um nômade, apenas para se "afastar das coisas que dão errado". Como dizem a respeito dele, é uma "pessoa estranha", que "não se ama, não se respeita, não ama os amigos, a família, o trabalho", enfim, nada. Uma pessoa "sem sentimento", "temperamental", entre outras coisas. Mas isso tudo é mesmo verdade? Por que Bobby faz o que faz? Ele é doente? É apenas um covarde? Um gênio incompreendido?

    Rafelson (que voltaria a dirigir seu amigo _e co-roteirista em "Head - Os Monkees Estão À Solta", de 1968_ Jack em "O Destino Bate À Sua Porta", de 1981, com a Jessica Lange) fez um filme muito, muito sério e complexo (cuja trilha sonora, fantástica, é radicalmente dividida entre as canções country-bregas de Tammy Wynette e peças de piano de Chopin, Mozart e Bach). Como já disse, Nicholson (indicado ao Oscar de melhor ator por esta película _também indicada ao prêmio de melhor filme e de roteiro original) está extraordinário. Mas quem rouba a cena é Karen Black (indicada ao Oscar, como atriz coadjuvante, mas levou mesmo o Globo de Ouro _Rafelson levou o de melhor diretor, e o filme ganhou o grande prêmio), que interpreta Rayette Dipesto, uma mulher ao mesmo tempo patética e irresistível, sexy e deprimente, repulsiva e adorável (a atriz, também escritora, compositora, produtora etc., filmaria com Altman e Hitchcock, entre outros). Também chama a atenção uma tal de Helena Kallianiotes, que interpreta Palm Apodaca (sua amiga, Terry Grouse, é interpretada pela coreógrafa Toni Basil, que, em 1982, quase aos 40 anos, estouraria na carreira musical com o hit new wave "Mickey", um clássico podreira, bem legal), uma doida que acha que tudo está sujo, muito sujo. Talvez esteja, mesmo.

    P. S. Falando em sujeira, quando eu escuto uma coisa tão tosca quanto "United States of Whatever", do Liam Lynch, eu me pergunto: por que eu não monto uma banda, mesmo sem saber tocar ou cantar ou ter vontade de montar uma banda?

    quarta-feira, agosto 06, 2003

    Réquiem a Lênin / Câmera Olho / Outubro

    It's no good trying to hold your love where I can't see, because I understand that you're different from me. Yes, I can tell that you can't be what you pretend.

    Você sabe muito bem que arte é sempre uma atividade engajada, não sabe? Se você vir um autor arrotando um suposto "não-engajamento" (como se isso fosse chique), desconfie. Se o cara não for um mentiroso, então é uma tremenda de uma besta poligonal.

    Mas nem todo engajamento significa, necessariamente, panfletarismo. E nem todo panfleto deixa, automaticamente, de ter valor artístico somente por ser um panfleto. É preciso saber separar o joio do trigo, entende (como diria aquele ex-atleta e ex-ministro que não é homem o bastante para assumir uma filha fora do casamento)?

    No século XX, o século do cinema por excelência, essa tal de sétima arte foi usada, reusada e treusada como instrumento ideológico. De nazistas a anarquistas e capitalistas, todo mundo tentou vender o seu "way of life" por meio de filmes. Só que ninguém o fez de modo tão inventivo, tão vanguardístico, quanto o cinema leninista soviético.

    Não estou discutindo posicionamento político. Para mim, isso é tão infrutífero quanto discutir se o Corinthians é melhor do que o Palmeiras. Mas que os cineastas que trabalharam sob a tutela do então jovem Estado soviético eram grandes artistas, isso eram. Sem dúvida. E não apenas grandes artistas, mas também grandes pensadores e teóricos, que revolucionaram a arte das imagens em movimento ao negarem a linguagem clássica do cinema narrativo estabelecido por D. W. Griffith e criarem uma forma de fazer filmes que é moderna até hoje.

    Basicamente, o cinema leninista soviético adotou o que foi chamado de "princípio da montagem" por Eisenstein, o nome mais famoso do grupo (que também continha gente como Pudovkin, Kuleshov, Dovshenko e outros). Ou seja, a forma ideal de se fazer cinema seria através de uma sucessão de imagens que, sozinhas, contêm um significado, mas, quando ordenadas (montadas) em uma determinada seqüência, dão origem a idéias novas (já toquei neste assunto em posts passados, quando reproduzi trechos de livros de Eisenstein e de seu seguidor David Mamet). Ou seja, o filme nasceria na sala de edição (em geral, esses diretores nem operavam a câmera, só faziam o roteiro e deixavam para dirigir o filme na moviola, mesmo).

    Até hoje, essas idéias, de quase oitenta anos atrás, geram polêmica e são incompreendidas. Mas elas encamparam uma maneira brilhante de fazer cinema: um cinema exigente, mas também generoso. Exigente porque esses filmes pedem a participação do cérebro do espectador, que também precisa montar os significados de todas aquelas imagens. E generoso pelo mesmo motivo.

    O texto está ficando longo, e não vou entrar em detalhes para não encher o saco da maioria de vocês, apesar de o assunto ser riquíssimo e fascinante. Vamos logo falar, bem por cima, de alguns filmes da época (será que algum de vocês também viu?), que, obviamente, são centrados na figura de Lênin, o líder bolchevique da Revolução de 1917 (não preciso ficar falando sobre quem foi Lênin, né?), e realizados por dois dos maiores nomes do cinema sociético, um documentarista e um ficcionista.

    O primeiro é Denis Kaufman, mais conhecido pelo pseudônimo Dziga Vertov (1896-1954), um dos pioneiros do documentário em longa-metragem (talvez o maior nome do gênero na história). Nascido onde hoje é a Polônia, Vertov foi estudar música em São Petersburgo na adolescência e acabou trabalhando por anos com cinejornal. Daí nasce sua visão de um cinema sem atores, sem roteiro, feito fora de estúdios. E isso ele precisa explicar em letreiros antes do início de "Réquiem a Lênin", também conhecido como "Três Cânticos para Lênin" (que aqui eu iria contrapor a "Taurus", do russo Sokúrov, se eu o tivesse visto _alguém viu e quer comentar?).

    Feito em 1934, com uma hora de duração, mostra imagens do funeral de Lênin (Stálin já estava por ali) e também imagens de arquivo do líder político, chamado nos letreiros de "libertador do povo" e "mais do que um pai" _também podemos ler frases como "se ele pudesse ver nosso país agora" e a clássica "os capitalistas do mundo cairão". É dividido em três partes (três canções populares) e mostra as fazendas coletivas, a casa onde Lênin morreu, alguns de seus discursos, alguns depoimentos, tudo centrado nas idéias de progresso e de trabalho.

    "Kino-Glaz" ("Câmera Olho" ou "Cinema Olho", como queiram), de dez anos antes, é um documentário ainda mais interessante e experimental, que, além de glorificar Lênin e o ideal socialista, é dedicado a mostrar o funcionamento da sociedade soviética (também com a incansável ênfase no progresso), adotando uma espécie de didatismo que não tem nada a ver com chatice, o que faz do filme um documento histórico preciosíssimo, mesmo sendo feito sob tutela estatal. Por exemplo, para explicar como a carne e o pão chegam às mesas dos trabalhadores (se é que chegavam mesmo), Vertov passa o filme de trás para frente, ou seja, vemos um boi voltando à vida e o pão virando trigo (imaginem o impacto de tais imagens nos anos 20, devia parecer mágica). Mais interessante ainda é o estudo que o cineasta faz do corpo humano mergulhando em um rio _além de mostrar de trás para a frente, brinca com a câmera lenta, e o resultado fica longe do banal.

    E como eu não consegui ver "Taurus", acabei escolhendo "Outubro", recriação dos momentos decisivos da Revolução de 1917 encomendada pelo Estado soviético a Eisenstein para comemorar os dez anos do evento. A exemplo de suas principais obras, como "A Greve" (meu preferido) e "O Encouraçado Potemkin" (pronuncia-se "potiônkim"), "Outubro" abusa do corte rápido (quem fala cretinices como "estética de videoclipe" deveria ser estapeado em praça pública), de justaposições de imagens (entre outras trucagens aprendidas com Méliès), das quebras de eixo (contrariando o cinema clássico de Griffith) e é um grande atestado da excelência do princípio da montagem como gerador de ação dramática. Também é um documento histórico (mesmo sendo peça de propaganda, glorificando Lênin e exigindo "paz, pão e terra" para o povo), enfocando nomes como Trotsky e Kerensky. As cenas antológicas são muitas, como a da destruição da estátua do czar e a do discurso de Lênin. Vai encarar, tovarich?

    P. S. Quem quiser ler o texto que escrevi sobre a lista publicada dois posts atrás, põe o dedo aqui.

    P. P. S. Assisti a "Matrix" de novo, agora em DVD. Continua sendo um filminho legalzinho e superficial, cujos melhores momentos remetem a "Star Wars". E, apesar de todos os defeitos, "Reloaded" é mesmo melhor.

    P. P. P. S. Chamar o Crépax de "trepax" é sacanagem. Era um grande artista, sério, moderno, cheio de estilo e merecedor de sucesso. Não será esquecido.

    P. P. P. P. S. Last but not least: estou assim atrasado porque foi só na semana passada que a minha ex-ex-amiga-e-agora-mamãe me contou do nascimento (não tem link direto, vão lá embaixo e cliquem no título do texto) da Catarina (nome da minha avó materna, vejam só), em 15 de julho. Nas palavras dela, é "a coisa mais linda do mundo", e eu sei que ela não mente. Ficam aqui registrados meu amor e votos de felicidades.

    quinta-feira, julho 31, 2003

    Vacas / Terra / Os Amantes do Círculo Polar

    When I woke up today and you weren't there to play, then I wanted to be with you. When you showed me your eyes, whispered love at the skies, then I wanted to stay with you. Inside me I feel alone and unreal, and the way you kiss will always be a very special thing to me...

    Então, houve uma mudança de planos, e os filmes que seriam colocados na roda ficaram pra outra ocasião. Mas não tem problema, porque posso bancar o chato e reclamar dos paulistanos mais cedo (nada contra paulistanos em geral _alguns deles até que chegam a valer um centavo de peso argentino...): mas, afinal, que mania estúpida é essa de gostar de pegar fila, hein?

    Sintam o drama: para ver filmes gratuitos nas muitas mostras legais que rolam no Centro Cultural São Paulo, você precisa retirar o ingresso com uma hora de antecedência. Até aí, tudo bem, você pega uma filinha. Mas é necessário que, logo após os ingressos serem distribuídos, outra fila seja formada para entrar na sala? Cáspite, em vez de aproveitar a horinha que falta até o início da sessão para desfrutar dos inúmeros atrativos do Centro Cultural e da barraquinha de pastel e dogão no capricho a R$ 0,70 que fica na calçada, os quadrúpedes desmiolados (que só podem se reproduzir por partenogênese) se amontoam novamente próximos ao acesso às salas, cada um olhando pra cima, fazendo cara de samambaia murcha! E o neurótico aqui, que faz questão de pegar um lugar decente para ver os filmes, é obrigado a ficar na maldita fila, também. Vão freqüentar o Banespa, seus mentecaptos!

    Ufa, agora que destilei toda a minha virulência fétida e implacável, posso voltar a ser a criatura afável e malemolente de praxe e comentar algumas atrações do festival Julio Medem, cujos três filmes supracitados e mais "Lucía e o Sexo" (ficou faltando só o segundo dos cinco longas do diretor, "O Esquilo Vermelho", de 93) compuseram a tal exposição, acompanhados de vários curtas de diferentes autores (em geral, bem bons, embora estivessem sem legenda).

    O Medem, pasmem (se quiserem pasmar, é claro), é médico. Cirurgião. Fazia uns curtas como hobby, nos anos 80, aí foi levando a coisa mais a sério, acabou fazendo um longa em 91, "Vacas", que foi bem-sucedido o suficiente para que o cara largasse a medicina e se dedicasse a cortar películas em vez de corpos humanos. Muito bem, seu Medem.

    Comecemos, pois, pela estréia do diretor, o pior entre os que eu vi. "Vacas", estrelado por Carmelo Gómez (que atua em "Entre las Piernas", thrillerzinho mais ou menos com a Victoria Abril e o Javier Bardem, já viram?), é uma espécie de "O Tempo e o Vento" (guardadas as devidas proporções, é claro) espanhol: um desses "filmes de linhagem", no qual acompanhamos Carmelo interpretando três personagens da mesma família, no conturbado período 1870-1935 (ou seja, guerras não faltam), no igualmente conturbado País Basco (onde Medem nasceu). Some a isso rixas entre vizinhos, amores "impossíveis" (porque a gente sabe que esse negócio de "amor impossível" não existe pra valer), sangue, morte, arte e principalmente... é, vacas. Deu pra dar uma idéia?

    Já em "Tierra" (96), o terceiro longa de Medem (que também roteiriza seus filmes, ou seja, trata-se de um autor cinematográfico), vemos o estilo do diretor mais cristalizado: aqui ele lida com o elemento do "duplo" (não do uísque duplo, mas do doppleganger, saca?): Ángel, o protagonista (mais uma vez, Carmelo Gómez), trabalha como exterminador de pragas (será uma referência ao clássico de Buñuel, "O Anjo Exterminador"?).

    Recém-saído de um hospital psiquiátrico, Ángel ainda sofre de esquizofrenia e tem visões de um "anjo" que nada mais é do que seu duplo. Ele encontrará seu nêmesis na figura do violento Patrício (Karra Elejalde, outro ator que trabalhou bastante com Medem), e se dividirá entre o amor/desejo (sim, o artista gosta de mostrar cenas de nudez/sexo em seus filmes _ele é latino, afinal) por Ángela (Emma Suárez, a bela loira de "Vacas"), a santinha, e Mari (a deliciosa Silke Klein), a diabinha. Sim, há misticismo (a cena inicial é fantástica, em mais de um sentido), e os personagens não são batizados à toa. Medem demonstra mais cuidado com as imagens neste belo filme, e, na trilha sonora, colocou Caetano Veloso (a música, óbvio, é "Terra"), antes do Almodóvar.

    E "Os Amantes do Círculo Polar", o melhor de todos (está em cartaz no Telecine Emotion, não perca), está fadado a se tornar clássico. E não falo à toa de destino, pois este é um dos temas centrais do filme, que também aborda os palíndromos (os protagonistas se chamam Otto e Ana _não falei que Medem se preocupa com os nomes?), os ciclos, os círculos, as coincidências, expressas nas histórias das famílias dos protagonistas, que se mesclam. Incrivelmente bem escrito, cheio dessas sacadas que deslumbram os espectadores, a obra ainda traz essa coisinha linda que é a Najwa Nimri (além de Kristel Díaz, que interpreta a Ana adolescente, hmm), e eu já vou parando por aqui, porque todos esses filmes dão muito pano pra manga... Já pros comentários!

    P. S. Falando no CCSP, terminei de fazer por lá uma oficina de literatura com a poeta paranaense Alice Ruiz, de quem eu sou fã há um bom tempo. E eu nem sabia que ela era a mulher do Paulo Leminski...

    sexta-feira, julho 25, 2003

    Roma / O Talentoso Ripley / Frenesi

    Though we're apart, you are part of me still, for you were my friend on Blueberry Hill.

    Ah, as cidades. Muito a dizer, muito a mostrar. Será que um dia eu brinco de "Amarcord" e faço um filme sobre Votupa? Mais fácil um projeto sobre os 450 anos de Sampa, né?

    Fellini, que no filme supracitado recriou a Rimini de sua infância, homenageou anteriormente a capital de seu país, uma das cidades mais importantes do mundo, que batizou um dos maiores e mais duradouros impérios da história da humanidade. Não só por isso, "Roma" é um filme fascinante.

    Muito de ficção, um tantinho de documentário (um pouco a exemplo de "I Clowns"), a Roma de Fellini, registrada no comecinho da década de setenta, mistura a própria história do diretor, que chegou à capital ainda jovenzinho (vemos o rapazola sendo recebido por uma "típica" família italiana, indo jantar em uma animada cantina, freqüentando prostíbulos pobres e ricos _ah, o que seria de Fellini sem as putas? Não é à toa que uma delas se converteu no cartaz do filme), com a narração em off do próprio Federico-diretor, se dirigindo a personalidades como Anna Magnani (em sua última aparição nas telas), Gore Vidal, Alberto Sordi, John Francis Lane e o meu xará Mastroianni.

    E tudo isso recheado com hippies (dezenas deles) nas piazzas, motoqueiros nas rodovias, pontos turísticos que misturam antigüidade e modernidade, crianças saudavelmente bagunceiras, uma expedição aos túneis do metrô e um impressionante desfile de roupas eclesiásticas (seqüência que chegou a ser censurada, por seu forte teor anticlerical), sempre no estilo único do artista, deixando bem claro que, no final das contas, as cidades se tratam de pessoas, e não de lugares. Quem gostou de "Amarcord" mas ainda não conhece "Roma", pode tratar de ir correndo.

    É também em Roma onde se passa boa parte da história de "O Talentoso Ripley", além de outros locais como Veneza, San Remo, Mongibello etc. O diretor Anthony Minghella (o mesmo do chatolengo "O Paciente Inglês") fez questão de filmar in loco a história do interessantíssimo personagem criado pela escritora norte-americana Patrícia Highsmith (1921-1995), cujo primeiro livro, "Strangers on a Train", foi filmado por Hitchcock, com roteiro de Raymond Chandler, e batizado no Brasil de "Pacto Sinistro" (vocês assistiram a "Jogue a Mamãe do Trem", do Danny De Vito?).

    Nos livros (ele protagonizou vários deles), Tom Ripley é um tremendo de um canalha. Mentiroso, assassino, falsário, ladrão etc. Um cara detestável em todos os sentidos. Só que a autora faz você torcer por ele o tempo inteiro. Ela o transforma em um homem encantador, enquanto que seus inimigos, ainda que respeitosos à Lei, são mostrados como pessoas detestáveis. É uma notável inversão de valores, que te faz questionar seu próprio caráter. São leituras fascinantes, que eu recomendo com entusiasmo.

    Só que, no filme de Minghella (não vi a versão de René Clément, "O Sol por Testemunha", com Alain Delon no papel de Ripley _por sinal, o preferido de Highsmith), o Thomas de Matt Damon não transmite nem um décimo do charme que o personagem requer. E olha que Damon atua bem. Jude Law, como o playboy Dickie Greenleaf, está pior, e Gwyneth Paltrow está sem graça como quase sempre (será que ela superará sua performance em "The Royal Tennenbaums"?), enquanto Cate Blanchett aparece pouco demais. Quem mata a pau mesmo como um digno representante de um personagem de Highsmith é o nosso amigo arroz-de-festa Philip Seymour Hoffman, fazendo a linha correto-mas-detestável, a habitual vítima do senhor Ripley.

    Enfim, "O Talentoso Ripley" é um filme legal, muito bem feito, mas suas qualidades se apóiam principalmente no fabuloso livro de Highsmith. Com um ponto de partida tão excelente, só mesmo um completo inepto estragaria tudo. Imagina se o Hitch tivesse adaptado a obra?

    Falando em Hitch e em grandes cidades, "Frenesi" (1972) marca a volta do mestre do suspense a Londres. O início, uma tomada aérea do Tâmisa, é antológico, e o cotidiano da capital inglesa é mostrado com sutileza ao longo da história de perseguição a um "serial killer" sexual, o "assassino da gravata". Vemos os pubs, o mercado de frutas, os parques etc., ao acompanharmos a vida desgraçada de Richard Blaney (interpretado por Jon Finch), um cara que só se dá mal. Vamos falar a verdade: o cara só se fode, é incrível. Ele fica atolado na merda até os 30 segundos finais do filme. Poucas vezes eu vi um personagem tão azarado no cinema, trata-se de um verdadeiro Pato Donald humano.

    E não é que o tal do Blaney será incriminado como o tal do assassino da gravata? Sim, trata-se de mais um filme no estilo "o homem errado" que Hitchcock consagrou. Só que, desta vez, o veterano diretor vai mais fundo, porque, afinal de contas, o tal do Blaney não é mesmo flor que se cheire...

    Na real, "Frenzy" é um Hitch mediano, embora tenha classe. Tem um jeitão de produção "B", com atores desconhecidos (colhidos do teatro inglês), sem tradição cinematográfica, e está repleto de cenas grotescas (incluindo nudez). A tônica é de humor negro, com situações bastante estranhas, como a mulher do policial que empurra para o coitado uma série de iguarias absurdas que aprendeu num curso de culinária... Mas, ah, Hitch domina a narrativa cinematográfica como poucos e realiza seqüências incríveis, como a do tribunal (mais simples e eficiente, impossível) e a abrupta cena final _digamos que o filme termina exatamente onde deveria terminar, mas é tão rápido que, se você piscar, perdeu. É, Hitch era gênio até debaixo d'água.

    P. S. Vocês já devem estar calvos de saber que morreu o Rogério Cardoso, cômico dos grandes. Chico Anysio está certo: ele vai fazer muita falta.

    P. P. S. Outro que se foi: John Schlesinger, diretor de filmes antológicos como "Midnight Cowboy" e "Maratona da Morte". Será que tem dentista no céu?

    P. P. P. S. Não sou fã de listas e não dou a mínima pro Nick Hornby. Mas o Moacy Cirne está fazendo uma pesquisa e pediu para um monte de gente a elaboração de uma seleção com "os vinte melhores filmes da história". Com muito custo, fiz a tal lista, que é totalmente instável (pode e vai mudar a qualquer momento) e baseada em critérios emocionais, ou seja, não tentei realmente elencar os melhores ou os mais importantes filmes. Alguns deles já foram debatidos aqui, os outros talvez o serão, algum dia. Aí vai a danada:

    1 - Tempos Modernos (Chaplin, 1936)
    2 - Janela Indiscreta (Hitchcock, 1954)
    3 - Gritos e Sussurros (Bergman, 1973)
    4 - A Regra do Jogo (Renoir, 1939)
    5 - Luzes da Cidade (Chaplin, 1931)
    6 - Um Corpo Que Cai (Hitchcock, 1958)
    7 - Os Nibelungos (Lang, 1923)
    8 - São Paulo S/A (Luiz Sérgio Person, 1965)
    9 - Apocalypse Now Redux (Coppola, 1979/2001)
    10 - Terra em Transe (Glauber Rocha, 1967)
    11 - Repulsa ao Sexo (Polanski, 1965)
    12 - Touro Indomável (Scorsese, 1980)
    13 - Crepúsculo dos Deuses (Wilder, 1950)
    14 - Os Incompreendidos (Truffaut, 1959)
    15 - O Poderoso Chefão (Parte I) (Coppola, 1972)
    16 - Memórias (Allen, 1980)
    17 - Todas as Mulheres do Mundo (Domingos de Oliveira, 1967)
    18 - O Professor Aloprado (Lewis, 1963)
    19 - Cantando na Chuva (Donen & Kelly, 1952)
    20 - Clamor do Sexo (Kazan, 1961)

    sábado, julho 19, 2003

    A Última Noite / Embriagado de Amor / B. Monkey

    Cuidado, baby, que este texto é pra machucar seu coração. Hoje sou um satélite solitário, orbitando desesperadamente o desolado planeta Amorrr. Uh yeah.

    OK, se você conseguiu segurar os sucessivos jatos de vômito até aqui, então merece saber que "A Última Noite" (que não deve ter sido traduzido literalmente, como "25ª Hora", para não lembrar daquele velho programa das madrugadas da Record que falava de paranormalidade) é, provavelmente, o melhor filme de Spike Lee (ainda não vi todos, então não posso afirmar categoricamente), e um dos melhores que vi neste ano.

    Não duvido que muito brazuca enfezado deva ter detestado algumas partes do filme, que podem ser consideradas meras patriotadas, já que se trata de uma declaração de amor a Nova York, abalada com a ainda recente tragédia de 11 de setembro de 2001. Eu já acho bastante natural que um nova-iorquino da gema como Lee tenha resolvido encarar tal tema. E, felizmente, ele não se limitou a fazer um melodrama barato e apelativo (lembre-se de "Pearl Harbor", "Independence Day", "Armageddon" e outros lixos), mas criou uma história interessante, razoavelmente complexa, com personagens ricos e uma bela estrutura narrativa.

    Edward Norton (um ator que já provou ser bom, esperemos que ele não se transforme numa caricatura de si mesmo, como aconteceu com o De Niro) interpreta um traficante que roda na mão dos tiras e vai pegar uma cana brava de sete anos. A última noite da qual fala o filme é justamente a sua última noite de liberdade, antes de pagar um veneno no inferno. E tudo o que ele quer é se divertir. É um pouco como o "Decamerão": já que estamos fodidos, vamos botar pra foder.

    Mas não é só isso. A última noite do trafica será, na verdade, um grande ajuste de contas com a namorada porto-riquenha (suspeita de ter dedurado o cara), com o melhor amigo (que se tornou um bambambã de Wall Street e não entende porque Norton entrou na vida do crime), com outro amigo (Philip Seymour Hoffman, um professor que tem uma natural tara pela aluninha Anna Paquin, sexy as hell), com os parceiros de bandidagem (máfia russa e tal), com o pai e até com o cachorro (que ele salva na primeira cena do filme, belíssima). Além de New York City e seu povo, é claro.

    "25th Hour" é, de várias maneiras, um filme de amor. Lee dá um grande passo na carreira ao deixar de lado, nem que seja apenas por um momento, a questão racial (longe de ser um problema desimportante), e fazer um filme muito mais abrangente, sério candidato a clássico. Será que estou exagerando?

    Agora, estou longe de exagerar ao dizer que maravilha mesmo é este "Embriagado de Amor" _que, coincidentemente, eu acabei vendo na noite do Dia dos Namorados. Que filme lindo! Uma das coisas mais românticas que já vi em toda a minha vida, juro.

    Adam Sandler, um comediante do qual eu sempre gostei (ele era ótimo no "Saturday Night Live", mas não me lembro de ter visto suas comédias no cinema), mostra que pode ser um ator dramático excelente, se bem dirigido. Emily Watson está OK, e Philip Seymour Hoffman (olha ele aqui de novo) está bom como sempre. A música, de Jon Brion, é impagável (vá correndo baixar "He Needs Me", aquela que toca quando Sandler chega ao Havaí), e o Paul Thomas Anderson conseguiu sair daquele estilo característico (que marcou seus também ótimos "Boogie Nights" e "Magnolia") e mostrar algo novo.

    E o mais legal é que "Punch-Drunk Love" é estranho, abrasivo, incômodo, um desses filmes que te deixam nervoso, irrequieto. É uma comédia na qual você não ri, um drama no qual você não chora, mas um romance que te enleva sem que você perceba de imediato. Saí do cinema leve, com um sorriso enorme, pronto para me apaixonar e ser feliz para sempre.

    Já um outro romance, também explosivo, à sua maneira, é "B. Monkey", cujo título brasileiro eu felizmente consegui esquecer, porque é ridículo de tão anódino. Quem dirigiu é o Michael Radford, autor de uma adaptação de "1984", do velho George Orwell, e de "O Carteiro e o Poeta", aquele no qual brilha o Massimo Troisi.

    B. Monkey é o apelido de Beatrice (de Dante Alighieri?), a protagonista, deliciosamente intertrepada por Asia Argento (filha de Dario Argento, o maior nome do cinema de terror italiano), que é tatuada e dez mil vezes mais musa do que a Christina Ricci aí de baixo (sorry, Chris), além de ser fã do Einstürzende Neubauten e produtora, escritora, diretora e todos os outros "oras" que ela quiser, ora. Ela é uma assaltante, membro de gangue, barra pesada, bad girl, bad, bad girl, que larga a vida de crimes ao se apaixonar por um professor de escola primária, um baita de um bundão. Sim, absolutamente inverossímil, por isso que é um belíssimo de um romance. E um romance cheio de sangue e de bala. E da Asia mostrando as tatoos.

    Ainda a respeito de "B. Monkey", duas coisinhas: 1) Dusty Springfield também parte o meu coração; 2) Asia, mi amore: atira em mim também, baby.

    P. S. Sábado passado, nasceu a Kaiane, filha da minha ex-namorada e atual amiga e editora de revista de mulher pelada Kate. Ela é a coisinha mais linda do mundo, toda cabeluda e fofinha. Bem-vinda!

    domingo, julho 13, 2003

    Buffalo '66 / Cães de Aluguel

    I could try to be big in the eyes of the world, what matters to me is what I could be to just one girl...

    Falando em girl, o que é essa Christina Ricci, hein? Surgiu mesmo como estrela-mirim há mais de dez anos (a intérprete perfeita para a bizarra Wednesday, a pequerrucha da família Addams), participou de películas infantis como "Garparzinho" e "Aquele Gato Danado" (mesmo em tenra idade, sempre demonstrou inteligência e personalidade ímpares em entrevistas), antes de se tornar musa em filmes como "A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça", do nosso bom amigo Tim Burton.

    Mas a menina, que tem cabeça de sobra (com duplo sentido, por favor), não quis saber de ser apenas mais uma Shirley Temple de porta de boteco e partiu para o abraço com o cinema independente americano, em filmes como "Pecker" e "The Opposite of Sex". Um desses filmes é o bastante comentado "Buffalo '66", estréia em longas do multiartista xaropão Vincent Gallo (entrem neste link, cliquem em "interview" e depois em "Village Voice" para sentirem o drama), que já havia feitos curtas e clipes para algumas de suas músicas e do chapa John Frusciante (que eu entrevistei na primeira semana de 2001; gente finíssima).

    Um parêntese: seu segundo longa, "The Brown Bunny", foi massacrado em Cannes, este ano; dizem que, em uma das cenas, Chloë Sevigny, aquela garotinha que se fode (e é fodida) em "Kids", do tiozão Larry Clark, paga um boquete (de verdade) para o sr. Gallo (que ganhou uma "homenagem" musical da lindaça Cat Power); a moçoila (Sevigny, não a Ricci) ainda aparece em "Dogville", filme do Von Trier que também passou por Cannes.

    Voltando a "Buffalo": a história não é o que mais importa no filme de Gallo: ele interpreta Billy Brown, um cara azarado que curte jogar boliche e que, após ficar cinco anos na cadeia, mesmo sendo inocente, busca vingança: ele planeja matar um ex-jogador de futebol americano, sabe-se lá por que cargas d'H2O. No caminho, rapta uma dançarina, Layla (sim, a Ricci, mais totosa, glamourosa, linda, biscoituda, irresistível, gatinha, fofoléti e loira do que nunca), e ordena que ela finja ser sua esposa, durante uma visita a seus pais: Anjelica Huston, desgraçadamente engraçada como uma torcedora fanática do time de futebol de Buffalo, e Ben Gazzara, que curte bancar o crooner e abusar do "pobrezinho" Billy, que, por sua vez, adora encher o saco do seu amigo Goon (ou Rocky), interpretado grotescamente (no bom sentido) pelo sensacional Kevin Corrigan, um cara que já vez uma porrada de filmes e, dizem as más línguas, também é guitarrista.

    Mas a história fica um tanto em segundo plano, e Gallo parte para experimentalismos que dividem opiniões; muita gente gosta do filme pelo trato que o cara dá às imagens, em seqüências interessantíssimas, como a do jantar na casa dos pais de Billy, os showzinhos de Gazzara e de Ricci (que sapateia no boliche), as reminiscências da infância do protagonista e a cena em que Brown finalmente fica cara a cara com o seu nêmesis, num puteiro cheio de peitudas peladas, ao som de, sim, Yes (!). Mas também tem muita gente que acha o filme um porre, devido à aparente inconseqüência do diretor/roteirista/ator. Eu até que gostei, embora não o considere um grande filme (não chega nem perto disso, mas tem dignidade; e tem Christina Ricci mais adorável do que nunca _não ouse dizer que isso é pouco).

    Falando em cinema independente americano, é impossível não citar um dos campeões entre os filmes "cult" de baixo orçamento: "Reservoir Dogs", o segundo (sim, segundo) longa de Quentin Tarantino, um cara que até dirigiu um episódio de "Plantão Médico" (ou "ER", se você não viu na Globo), além de ter virado o melhor amigo de John Travolta, aquele que é chegado numa Cientologia.

    Tem gente que gosta de falar que "Cães de Aluguel" é melhor do que "Pulp Fiction", só porque o primeiro foi menos visto e é mais chique esfregar isso na cara dos outros. Bullshit! "Cães" é um grande filme de baixo orçamento, mas não passa de um rascunho para "Pulp", um filme que eu simplesmente não me canso de (re)assistir.

    A grande sacada de "Cães" é seu elenco fenomenal, o embate entre grandes atores, num palco onde o acerto de contas entre integrantes de uma gangue de assaltantes se passa (não sem antes vermos uma das cenas de abertura mais legais do cinema, a incrível tese de Tarantino a respeito do verdadeiro significado da letra de "Like a Virgin"; faz o maior sentido _e bota "maior" nisso). Temos Harvey Keitel (que também se envolveu na produção da película, dando uma chance para Tarantino brilhar), Tim Roth, Lawrence Tierney, Chris Penn (irmão do Sean) no papel de sua vida (ele vai participar, ao lado de Ben Stiller, Owen Wilson, Snoop Dogg, Juliette Lewis e da yummy Carmen Electra, da versão cinematográfica para uma famosa série dos anos 70, "Starsky & Hutch", que deve pretender seguir o caminho de "Charlie's Angels"), mas quem mata a pau mesmo é Steve Buscemi como o invocado Mir. Pink (também, com um nome desses, quem iria querer dar gorjeta?) e, acima de todos, Michael Madsen, um cara que, como todo bom fã de Lee Marvin, não quer ser lembrado por "Free Willy" _talvez seja por isso que ele aparecerá em "Inglorious Bastards", a obra de Tarantino que sucederá "Kill Bill", na qual Madsen também aparece (vai ser interessante ver um filme de Segunda Guerra Mundial escrito e dirigido pelo Taranta, não?).

    Some a isto tudo uma trilha sonora interessante (mas não antológica, como a de "Pulp Fiction"), os diálogos fantásticos de Tarantino (seu maior talento, afinal de contas) e sangue, muito sangue: temos um pequeno grande filme, que marcou época e vai virar clássico, apesar de ter sido eclipsado pelo seu irmão mais novo. Todo mundo junto: "I'm fucking dying!".

    P. S. Ninguém morreu, né?

    segunda-feira, julho 07, 2003

    O Poderoso Chefão - Partes I, II e III

    They say I got brains, but they ain't doing me no good. I wish they could.

    Então: Francis Ford Coppola poderia ser o maior cineasta norte-americano em atividade, se sua carreira como diretor (atualmente, ele anda produzindo bem mais do que filmando, embora "Megalopolis" esteja a caminho _dizem, pelo menos) fosse menos irregular, e suas obras mantivessem o nível de qualidade de "Apocalypse Now", "A Conversação" e a trilogia "O Poderoso Chefão" _para ficar apenas nos mais manjados (eu, por exemplo, amo "O Fundo do Coração"...). Bem antes de se meter com "Chatô" e fazer o velho Marlon passar vergonha em "Don Juan de Marco", o Coppolão fez coisas maravilhosas (alias, este texto era pra ser bem melhor, se o disquete onde minhas anotações sobre os filmes, entre outras coisas mais importantes, funcionasse; vá lá, pelo menos o texto fica menor).

    O dito ex-colega de faculdade de Jim Morrison fez o seu primeiro filme digno de ser chamado de grande a partir de um livro de Mario Puzo (que colaborou com o roteiro), escritor que morreu há poucos anos. "The Godfather" (1972), que eu considero o meu favorito, em especial por causa da atuação antológica de Brando (ele satirizaria seu personagem em um filme de 1990, "Um Novato na Máfia"), inicia a saga da família Corleone, que tem como personagem central o jovem Michael, interpretado por Al Pacino _era o seu terceiro papel no cinema, ora, vejam.

    Michael é, digamos, o filho preferido de Vito Corleone: herói da Segunda Guerra Mundial, retorna para Nova York e é, inicialmente, "poupado" dos negócios da família, que ficam mais sobre os ombros do primogênito, o cabeça-quente Santino "Sonny" Corleone (o maior papel da carreira de James Caan), e do consigliere Tom Hagen (Robert Duvall, que brilharia mais sob a batuta do F. F. como o milico maluco/surfista em "Apocalypse..."). Assim, Michael se preocupa mais em namorar Kay (Diane Keaton, que então era a mulher de Woody Allen _mais tarde, ela também namoraria o Warren Beatty, que danada), até que chega a hora de ele sujar as mãos e se mandar para a Sicília, o berço de sua família _que se completa com o atrapalhado Fredo (John Cazale, ator que morreu cedo e participou somente de cinco películas, todas indicadas ao Oscar de Melhor Filme _além dos dois primeiros "Chefão", ele aparece em "O Franco Atirador", "Um Dia de Cão" e no já citado "A Conversação"_, e ainda teve tempo de ficar noivo da Meryl Streep), a chave-de-cadeia Connie (Talia Shire, irmã do Coppolão, mais famosa como Adrian, a mulher do Rocky) e a "mamma" Carmella.

    Para não estragar as surpresas de quem ainda não viu, vamos pular rapidinho para a segunda parte, de 1974, que segue com a história de Michael, que, nos anos 50, chafurda mais e mais no sangue e no crime, apesar de prometer legalizar os negócios dos Corleone. Paralelamente, somos levados a conhecer, em "flashbacks", a história de Vito, que veio da Sicília para os EUA na primeira década do século XX. Interpretado soberbamente por Robert De Niro (em seu papel imediatamente anterior ao famoso Travis Bickle de "Taxi Driver"), Vito luta para sobreviver na Nova York de mil novecentos e guaraná de rolha (cuja ambientação lembra outro grande filme do qual ele participa, "Era uma Vez na América", um primoroso Sergio Leone).

    Quando a terceira parte da série foi lançada, mais de quinze anos depois da segunda, muita gente caiu de pau no Coppolão, dizendo que ele só continuou com a história dos Corleone para ganhar dinheiro (além de ter sido criticadíssimo por escalar a filhota Sofia, como se o nepotismo não fosse algo de praxe entre os Coppola _o Nicolas Cage, sobrinho do F. F. e da Talia Shire, mudou de sobrenome apenas para tentar não ser "mais um"). Sacanagem, pura sanha de bater em gigante. O terceiro "Chefão" não fica tão atrás dos filmes anteriores, apesar de não trazer nem Brando nem De Niro, além da ausência não-justificada do personagem de Robert Duvall. Entretanto, vários atores dos outros dois filmes dão o ar de sua graça, e ainda temos uma atuação muito boa de Andy Garcia, bastante adequado como o sucessor de Michael nos negócios da família.

    No geral, Coppola conseguiu criar um estilo "Chefão", presente nos três filmes _vários paralelismos podem ser traçados, e eles não se limitam aos personagens e à música de Nino Rota e Carmine Coppola (o pai do F. F.). Talvez o mais legal deles seja a presença de laranjas em quase todas as cenas de morte. Falando em laranja, e essa gripe que não passa...

    P. S. Em vez de escrever sobre Katharine Hepburn, vou passar a palavra para Sidney Lumet, que a dirigiu em "Longa Jornada de um Dia Noite Adentro" (1962), adaptação da peça de Eugene O'Neill (pai da Oona O'Neill, a última mulher de Chaplin). Os trechos seguintes foram retirados do livro "Making Movies" (1995):

    "Quando nos encontramos pela primeira vez (...), ela estava morando na antiga casa de John Barrymore [avô da Drew, também um ator famoso], em Los Angeles. Passei pelas portas do que me parecia ser uma sala de estar de quinze metros de comprimento. Ela se levantou na outra extremidade da sala e começou a andar na minha direção. Tínhamos transposto metade da distância quando ela disse: 'Quando quer começar a ensaiar?' (nada de 'Olá' ou 'Como vai?'). 'Dezenove de dezembro', eu disse. 'Só posso começar dia vinte e seis', ela disse. 'Por quê?', perguntei. 'Porque então', ela disse, 'você saberia mais sobre o roteiro do que eu'. Divertida, charmosa, mas falava sério. (...) A partir daí, o trabalho foi emocionante. Ela perguntava, falava, queixava-se, tentava, fracassava, acertava. Construía aquele personagem pedra a pedra. (...) A visão daquela Hepburn colossal em tal estado era a personificação da representação trágica. Quando os gregos diziam que a tragédia é para a realeza, estavam apenas dizendo que a tragédia era para gigantes. (...) Quando íamos saindo, Kate me chamou para um canto. 'Sidney', disse ela, 'eu assisti aos copiões de quase todos os filmes que fiz. Mas não virei ver estes. (...) Se eu for aos copiões, tudo o que verei é isto' _e pôs a mão sob o queixo e beliscou a pele ligeiramente bamba_ 'e isto' _e fez a mesma coisa debaixo do braço_, e preciso de todas as minhas forças e concentração para desempenhar meu papel.' As lágrimas me vieram aos olhos. Eu nunca tinha visto um ator com tamanho autoconhecimento e tal dedicação, confiança e garra. Ela estava rompendo hábitos de trinta anos porque sabia que eles interfeririam no trabalho. Essa é uma das grandes."

    P. P. S. Não vou dizer, a exemplo dos Fun Loving Criminals, que "Barry White saved my life", mas que o homem da voz grave era massa, ah, isso era.

    P. P. P. S. Felizmente, o Morfina não morre tão cedo. O imprescindível site da Van está de endereço novo (de novo).

    Na platéia