A gruta é mais extensa do que a gruta

    follow me on Twitter

    sábado, março 20, 2004

    Bang Bang / Hitler IIIº Mundo

    When I am not this hunchback that you see, I sleep beneath the golden hill.

    Como boa parte das pessoas que visitam esta pequena propriedade rural da Internet são cinéfilas (eu não sou cinéfilo, longe disso), é bem provável que a maioria já tenha ouvido falar de “Bang Bang” (1971). Uns e outros até devem tê-lo assistido.

    Pois sequer dá para dizer que o longa de Andréa Tonacci seja uma espécie de “pérola perdida do cinema nacional”, um “clássico cult do cinema marginal” ou qualquer outra frase não muito plena de sentido. Porque o filme é totalmente desconhecido, não tem sequer o status de obra muito falada e pouco vista, como “Limite”, “O Despertar da Besta” ou até mesmo as mais acessíveis “O Bandido da Luz Vermelha” e “Matou a Família e Foi ao Cinema”, por exemplo. “Bang Bang” não é visto nem discutido. A não ser, é claro, entre cinéfilos dignos do nome (eu não sou, faz-se o paradoxo).

    E o que é que se diz a respeito de um filme tão pouco discutido, mas considerado extremamente importante por aqueles que o discutem? Grosso modo, que se trata de um cinema puro, no qual os planos (e tudo o que eles captam) não se deixam limitar pela narrativa. Uma discussão antiga...

    Engraçado é que existe um esforço (de certas pessoas) de achar alguma narrativa em “Bang Bang”. Mas, até agora, todas as tentativas de sinopse deste filme (quer tentar?) que eu li parecem puro chute, como se fossem produtos de uma intuição (sempre redutora), e não da descrição do que se passa na tela.

    E o que a gente vê, quando assiste a “Bang Bang” (classificado como pertencente ao gênero “policial”)? Paulo César Pereio briga (mais de uma vez) com um taxista, canta “Eu Sonhei que Tu Estavas Tão Linda” usando uma máscara de macaco, some e reaparece sob o estalar de dedos de um mágico, tem um diálogo sem muito nexo com uma dançarina de flamenco em um bar (a cena lembra muito o início de “Pulp Fiction”), passeia de carro por longos planos, é perseguido por um trio de figuras muito estranhas, como um travesti e um cego que, claro, dispara tiros a esmo. No final, risos, talvez de escárnio, talvez uma reiteração de que a única saída para a criatividade durante tempos de ditadura pesada, no Brasil, fosse o tal do desbunde. “Ou não”, como diria Caê.

    Mas quer saber o que realmente interessa? “Bang Bang” é um filme muito divertido, gostoso de assistir. Podia ser pernóstico, narcisista e bobo como “Meteorango Kid, o Herói Intergalático”, por exemplo. Mas não é. E isto não é pouco.

    “Hitler IIIº Mundo” (1968), de José Agrippino de Paula (mais conhecido por seu romance “PanAmérica”, hoje ele vive recluso no Embu das Artes, aqui pertinho de São Paulo _onde fiz, com um grupo de amigos, um vídeo bastante interessante em 2002, pena que vocês não vão ver), é comumente relacionado ao filme do Tonacci, embora seja uma experiência menos radical. Também nunca lançado comercialmente, este filme em 16mm (fotografado pelo Jorge Bodansky, pai da Laís, e montado por Rudá de Andrade, filho do Oswald e da Pagu) oferece uma visão menos enviesada politicamente do que “Bang Bang”: o regime de exceção em voga no Brasil (ainda em uma época pré-AI 5) é comparado, sem muita sutileza, ao nazi-fascismo.

    É mais ou menos isso: um robô (referência aos políticos ditos “biônicos”, como Paulo Maluf?) semelhante a Hitler dá um golpe de estado (para depois reclamar que “é muito difícil manter a ordem no terceiro mundo”); relaciona-se, aos latidos, com os EUA (representados por um homem com tapa-olho de pirata, que pergunta “do you speak english, Adolf? Can you go to the United States, Adolf?”); Jô Soares (em sua melhor atuação no cinema) representa o Japão, no papel de um samurai de pantomima (a cena na qual ele enche uma Kombi com crianças de uma favela _dizem que se trata de uma sátira a um concurso lançado por Silvio Santos_ é sensacional); uma versão de Mussolini nos é apresentada como um homem de TV; ainda temos uma “anãzinha” e uma tentativa frustrada de suicídio do Coisa (sim, aquele do Quarteto Fantástico, numa caracterização incrível, uma roupa de espuma com olhos de bolinhas de gude), a ligação com a cultura pop dos EUA. E, para deixar tudo muito mais divertido, o som não é sincronizado. Coisa de quem tem peito (como a nossa amiga Courtney).

    Fala a verdade, não te deu vontade de assistir? O povo da sala Lima Barreto (curiosamente, sem o seu característico cheiro de mofo, algo inédito) dormiu, saiu no meio ou falou muito mal no final _com exceção do tradicional bêbado que freqüenta a sala, que riu o filme inteiro e se divertiu reconhecendo logradouros da capital paulista, como o Viaduto do Chá... Acho que o Agrippino teria curtido, se não estivesse lá no Embu do mundo.

    Cena da semana: James Taylor (sim, aquele cantor chato), jovem e com semblante impassível (como uma máquina), dirige um Chevy 55 em uma pista de aeroporto. O filme se desintegra (“Corrida sem Fim”, de Monte Hellman, 1971).

    sábado, março 06, 2004

    Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas / Abry / 33 / Maridos e Esposas

    Quando eu cair no chão, segure a minha mão, me ajude a levantar para lutar.

    Relação entre pais e filhos é um dos grandes temas narrativos, desde antes da Bíblia. Trata-se de uma história (em geral, poderosíssima) que todos podem contar _mesmo quem não os conheceu (neste momento, lembro de “O Menino que Inventou a Verdade”, livro do recém-falecido Pedro Bloch).

    Tim Burton, recentemente, deixou de ser filho (seu pai morreu há pouco) e tornou-se pai (com Helena Bonham-Carter, aqui transfigurada como uma bruxa). Em meio a esta revolução em sua vida, adapta um romance sobre um filho que vai visitar o pai, à beira da morte.

    Bem, não li o livro, mas o filme dá a impressão de ser uma adaptação muito mal-sucedida (ou a de que o livro é realmente ruim). O pai é mostrado como uma pessoa brilhante, extremamente carismática; nas entrelinhas, um homem comum, trabalhador, que conseguiu dar uma vida decente à família, dentro do sistema capitalista. Um de seus dons mais pronunciados é o de entreter e encantar as pessoas com as histórias maravilhosas do título em português. É o que ele faz com o filho, desde criança, e com todos aqueles que cruzam seu caminho.

    O filho, talvez por inveja, rompe com o pai, bem no dia de seu casamento. Ficam sem se falar por mais de três anos, até que a notícia da morte iminente do velho força a reaproximação. É aí que está a fragilidade do filme como narrativa: falta conflito. Burton se resume a ilustrar as histórias que formam a vida do pai, ou seja, ele não se arrisca, busca o caminho mais fácil, o gosto médio do público, fala ao hipocampo. Dá uma sensação desagradável de filme covarde, engana-trouxas, que não consegue encantar de verdade. Pena, porque Burton é bastante talentoso, e seu “Ed Wood” é um dos melhores filmes da década de 90. Vamos torcer para que o próximo seja melhor.

    “Abry”, despretensioso média-metragem do sul-mato-grossense Joel Pizzini (cineasta mais “poético” do que narrativo _basta ver seu “Caramujo-Flor”, de 1988), que eu vi na abertura da 17ª Mostra do Audiovisual Paulista, parte da mãe para enfocar o filho. O filme é de Lúcia Rocha, mãe de Glauber e avó de Paloma, a co-diretora. O verbo do título, com o “y” que o bifurca (não sabemos bem se é “abre” ou “abri”), faz menção a uma cirurgia para colocação de pontes de safena que a senhora octogenária sofreu, há pouco mais de um ano. O documentário a enfoca no hospital e faz um passeio por sua vida de artista: ela conta que não se casou com a grande paixão de sua vida; que era atriz, mas freqüentemente não era creditada; ouvimos algumas de suas poesias, enquanto vemos trechos de quase todos os filmes de Glauber (inclusive seu curta de estréia, “O Pátio”, e do proibido “Di”), além de imagens de Anecy Rocha _participam, também, Helena Ignez, Odete Lara, Pierre “Fatumbi”Verger etc. Para conhecer melhor a guardiã da memória do filho, como ela se intitula em uma carta a Jean-Luc Godard.

    Em “33”, documentário do mineiro Kiko Goifman que estréia na próxima sexta, é o filho que parte em busca da mãe. Goifman (xará de voz do Arnaldo Antunes) foi adotado pouco depois de nascer; aos 33 anos (e por sua mãe adotiva ter nascido em 1933), dá-se o prazo de 33 dias para encontrar a mãe biológica, fazendo um filme durante o processo. Usando da mídia (um diário na Internet abrigado pelo extinto no.com.br, hoje no.mínimo) como apoio ao projeto, o diretor, munido de uma mini-DV, passou os 33 dias entrevistando detetives, familiares, conhecidos e outros que foi encontrando pelo caminho, e, de noite, em plena época de apagão e pós-11 de setembro, capturava imagens noturnas que dão o tom de filme noir a seu documentário. A premissa é muito interessante, mas o filme não se resolve e deixa uma dúvida: o público vai se interessar em ver uma obra tão pessoal, quase narcisista, de um diretor que ainda não chegou ao estrelato?

    No filme de Woody Allen (que, ironicamente, chega perto de retratar o escandaloso fim de seu casamento com Mia Farrow), feito em 1992, com câmera na mão (o Dogma antes do Dogma), os pais da personagem de Juliette Lewis formam o único casal feliz da história, a única esperança. O casal encabeçado por Sidney Pollack é tristíssimo (ele, numa dessas crises de meia-idade, se envolve com a professora de aeróbica que acredita em astrologia; ela, fria, intelectual e de “bom gosto”, é outra personagem recorrente na obra de Woody), e o formado por Allen (bem menos histriônico do que de costume) e Farrow (descrita pelo primeiro marido como “passivo-agressiva”, ou seja, fica se fingindo de coitadinha e boazinha, mas sempre consegue o que quer _um retrato da verdadeira Farrow?) não fica muito atrás. Por fora, correm Lewis, a gostosinha da vez, e Liam Neeson, o bonitão-bonzinho. O filme está bem longe de ser ruim, mas, para quem conhece razoavelmente bem a extensa obra do diretor irá se confrontar com tantos de seus clichês (por exemplo, o escritor que tem uma relação de amor e ódio com sua obra e que, como veríamos de novo em “Celebridades”, perde os originais de seu livro) que não se surpreenderá com praticamente nada (a não ser a tal da câmera nervosa). Allen deve ter percebido que estava se repetindo demais e deu uma guinada de volta às comédias depois disso... É, às vezes, ter personalidade demais atrapalha.

    P. S. Falando em adaptações literárias, aí vai outro trecho do livro do Andrew, que aborda as relações entre o cinema e a literatura vistas por um dos maiores historiadores e teóricos da sétima arte, Jean Mitry:

    “Estruturalmente, o cinema está muito mais próximo, em natureza, do romance. Muitas das afirmações que hoje fazemos sobre cinema foram feitas sobre o romance quando ele se desenvolveu, no século XVIII. Desde o início, foi considerado uma forma ‘profana’, que estimulava a curiosidade natural das pessoas sobre o como as coisas funcionam. Mostrou pessoas comuns, caracterizando-as pelo discurso comum. Mostrou as amplas redes de interdependência (sociais e físicas) que existiam subjacentes a todas as situações e as ressaltou artisticamente através de um uso cuidadoso dos acidentes da vida. Posteriormente, sua estrutura sempre foi uma mistura de cenas, comentários e descrições. É uma forma pluralista, capaz de incorporar todos os tipos de escrita. Apesar de Mitry nunca escrever muito especificamente sobre a questão da organização cinemática, ele deduz que ela é, como o romance, livre. Os únicos constrangimentos são os que a protegem do absolutismo do mundo ‘totalmente significativo’ do teatro. O cinema e o romance devem criar mundos humanos, mas temos de ser sempre capazes de sentir o cerne dessa criação, a emergência do significado a partir do barro da experiência incipiente.

    E, aqui, o cinema tem a palavra final, pois é a arte em que nossas percepções adquirem significado e valor. Se o romance nos faz sentir a interdependência do homem ao homem ou dos homens ao mundo, o faz de modo muito abstrato, através de palavras e figuras do discurso; o cinema, por outro lado, o faz através do processo normal da percepção bruta. Daí a impossibilidade de uma verdadeira adaptação. Pode-se tentar preservar num filme a estrutura de um romance, mas se deve fazer isso por meios muito estranhos ao romance e à experiência da leitura. Na conclusão epigramática de seu estudo sobre esse problema, Mitry assegura que o ‘romance é uma narrativa que se organiza no mundo, enquanto o cinema é um mundo que se organiza em uma narrativa’. Novamente encontramos Mitry sintetizando tradições opostas, Assim como o ‘enquadramento’ age para nos revelar o mundo caótico da percepção, enquanto força esse mundo a padrões de significado estético, de igual modo à narrativa aberta do cinema organiza o mundo na tela de uma forma estética, mas possibilita ao mesmo tempo em que vejamos, através de sua organização, o mundo desorganizado que lhe é subjacente.”

    sexta-feira, fevereiro 20, 2004

    O Gabinete do Dr. Caligari / O Golem / Nosferatu (1922 e 1979) / Fausto

    Neste mundo de tantos espantos, cheio das mágicas de Deus, o que existe de mais sobrenatural são os ateus...

    Há cerca de um ano, escrevi, neste site, um texto bem fraquinho (como de praxe neste espaço específico) sobre alguns filmes que passaram num festival da Cinemateca que enfocava a UFA, estatal alemã que produziu obras importantíssimas, que inspiraram cineastas do mundo inteiro e acabaram recebendo, emprestado das artes plásticas, o rótulo de expressionistas.

    Considera-se o euro, quero dizer, o marco inicial deste estilo um filme de Robert Wiene, diretor que trabalhou bastante durante o início do século passado, mas que, ao contrário de Lang, Murnau, Lubistch e outros colegas, não emplacou outra obra-prima como “O Gabinete do Dr. Caligari” (1919). O filme (um média-metragem, uma hora de duração), bastante inteligente e com um final surpreendente e empolgante (seu modelo é seguido até hoje), aproveita-se de seu enredo, baseado em uma lenda do século XI, para promover uma fuga do real, usando cenários interessantíssimos, matéria de pesadelo. Como se não bastasse, as caracterizações de Caligari e do sonâmbulo sensitivo Cesare (Werner Krauss e Conrad Veidt, respectivamente) dão o tom das obras-primas posteriores _feitas durante um período terrível, já que o país havia sido derrotado na guerra e enfrentava grande crise econômica.

    Por exemplo, “O Golem” (a versão que eu vi é a de 1920, a terceira levada às telas por Paul Wegener, que é também co-roteirista e intérprete do monstro _a fotografia, outro destaque, é do Karl Freund) também se apropria de uma lenda alemã (no caso, judaica) para retratar o seu país. Sintam o drama: o imperador decreta a eliminação dos direitos de todos os judeus (lembra alguma coisa?); para proteger seu povo, um mago invoca o demônio Astaroth e pede que ele lhe revele a palavra mágica que trará vida a um ser feito de argila (que se rebelará depois de um tempo, graças ao coisa-ruim). No meio desta história, um romance proibido entre uma “donzela” (as aspas estão aí por pura desconfiança de minha parte) e um conde (não o Drácula, calma).

    Vejam que há uma relação entre essas obras (e a influência que elas tiveram sobre a série de filmes de terror que seria mania nos anos 30): o Golem lembra muitíssimo a história de Frankenstein, o Prometeu moderno (ser que acabou entrando para o imaginário em uma mesma categoria que os vampiros, os lobisomens, as múmias etc.). Há uma cena, na qual o monstro, já descontrolado e furioso, demonstra empatia com crianças _James Whale faria igualzinho, poucos anos depois.

    O famoso “Nosferatu” (1922), de Friedrich Wilhelm Murnau (que tem como epíteto mais comum “Uma Sinfonia de Horror”), chupa, na cara dura, o “Drácula” de Bram Stoker. A história é rigorosamente a mesma (quem viu o filme do Coppola vai ter vários “déjà vus”), embora os nomes sejam trocados (em vez de Jonathan, Hutter; Drácula vira Orlok; Ellen no lugar de Mina). O que entrou para a história, aqui, é a caracterização impressionante de Max Schreck, que, por sinal, aparece bem pouco (mas o suficiente). Até hoje, trata-se de uma figura de causar medo. Claro que não é só isso; a direção de Murnau é muito inventiva, há experiências com filtros e trucagens de edição que dão ao filme uma atmosfera única.

    A refilmagem/homenagem de Werner Herzog (“Nosferatu, o Fantasma da Noite”), de 1979, parece aproximar-se mais do livro de Stoker, mas apenas parece (por causa da adoção dos nomes normais dos personagens _apenas há uma curiosa troca entre Mina e Lucy). Herzog, que sempre afirmou que seus filmes vêm da dor, nunca do prazer, convida o espectador a uma viagem por planos de longa duração, com uma trilha sonora poderosa. As cenas fantásticas são muitas, como a de Lucy e Drácula perante o espelho e a dos caixões das vítimas da peste sendo carregados pela praça, além da engraçadíssima libertação de Jonathan (Bruno Ganz) pela empregada. A caracterização de Klaus Kinski como o bichão não é tão marcanta quanto a de Schreck (ou mesmo a de Willem Dafoe em “A Sombra do Vampiro”), mas é claro que não é ruim; mas quem rouba a cena mesmo é Isabelle Adjani, bela e alvíssima, sexy até em alemão. Vai bem com salsichão.

    Voltando a Murnau, “Fausto” (1926) é seu último filme feito na Alemanha (pouco depois ele foi a Hollywood, onde rodou sua obra-prima “Aurora”, que ainda não consegui ver), e lembra bastante “O Golem” em alguns aspectos. A produção é bem mais acabada do que em “Nosferatu” ou no maravilhoso “A Última Gargalhada” (meu Murnau preferido, disparado), trata-se de um filme extremamente bem-feito, com trucagens bastante refinadas. O destaque óbvio é o Emil Jannings como Mephisto (irônico como ele acabaria se unindo aos nazistas), com uma caracterização bem caricatural, com aquela pena enorme no chapéu e a espada fazendo vez de rabinho... O problema é que, depois de um início fenomenal, a história fica meio arrastada (o filme é longo, duas horas), e o resultado final fica a desejar, principalmente se o compararmos com o grande épico do Fritz Lang, “Os Nibelungos” _ou mesmo com a grande peça de Goethe, que o inspira.

    P. S. Chegamos aos tempos de hoje, tempo de “Adeus, Lênin!”. Um filme que não se resolve: não se decide entre comédia de erros, drama familiar ou filme político. Enfim, bonitinho, não mais. Mesmo a tão propalada cena da estátua ficou aquém do que eu esperava...

    P. P. S. O livro clássico sobre o expressionismo alemão, “De Caligari a Hitler” (1947), foi escrito por Siegfried Kracauer (outro que saiu por aqui, bem mais recente, foi “A Tela Demoníaca”, de Lotte Eisner), ironicamente, um teórico ligado ao realismo cinematográfico. A seguir, um trecho do ótimo “As Principais Teorias do Cinema”, de J. Dudley Andrew, que indica algumas diferenças entre as idéias dele e as do mais conceituado teórico realista, André Bazin:

    “Kracauer assume que o cinema deve registrar as ocorrências cotidianas da vida por causa de sua afinidade com a realidade empírica. Bazin, por outro lado, tem um ponto de vista muto mais complexo sobre a realidade, concebendo-a como multinivelada. Para ele, a realidade empírica contém correspondência e inter-relacionamentos que a câmera pode achar. Além disso, o homem criou um mundo político e artístico acima da ‘realidade natural’, e isso também está à disposição da câmera. Assim, embora Bazin criticasse as composições abstratas e pictóricas em filmes, apoiava totalmente os documentários sobre pinturas e pintores. De modo semelhante, apesar de sua teoria, como a de Kracauer, não ter lugar para o expressionismo alemão, Bazin defendeu um filme tcheco sobre um campo de concentração que tinha a aparência exata do expresionismo alemão, porque seu terrível cenário, esse ‘mundo de Kafka ou, mais curiosamente, de Sade’, tinha uma fidelidade interna que o transformava claramente não no desejo de um artista, mas em um resultado da lógica de uma máquina política. O expressionismo, nesse caso, existe não no cinema, mas na história. O cinema apenas o registra.”

    P. P. P. S. A minha época preferida do ano, o Carnaval, chegou, e eu, é claro, me vou. Desta vez, para a praia, onde estou certo de encontrar muita luxúria, depravação e bicho geográfico. Sei lá quando volto, eu quero é rosetar. Feliz Carnaval!

    domingo, fevereiro 15, 2004

    O Mágico de Oz / Labirinto, a Magia do Tempo / Veludo Azul

    Há um mundo bem melhor, todo feito pra você. É um mundo pequenino, que a ternura fez.

    Direto ao assunto: e daí que o filme de Victor Fleming (de “...E o Vento Levou”) que eternizou a Judy Garland tenha uma história super básica, e que a gente perceba perfeitamente os fundos pintados do estúdio ou que vejamos claramente o fiozinho que sustenta o rabo do Leão Covarde? Passados 65 anos, “O Mágico de Oz”, que eu vi pela primeira vez na “Sessão da Tarde” (quando a programação, apesar de passar filmes fracos, volta e meia despejava na molecada clássicos como este, além de Chaplin, Jerry Lewis, o “Robin Hood” com Errol Flynn, “O Pássaro Azul” com Shirley Temple etc.) ainda é uma diversão de primeira para pais e filhos.

    E não é só a música, realmente maravilhosa (as letras das canções que versam sobre a morte da Bruxa Má do Oeste, os objetos de desejo de cada um dos companheiros de Dorothy e a clássica “we’re off to see the Wizard, the wonderful Wizard of Oz” são riquíssimas em rimas e em aliterações), que faz deste filme um espetáculo: as caracterizações das personagens são perfeitas, da bruxa aos (ótimos) Munchkins, passando pelo Totó. Outros destaques vão para as atuações de Ray Bolger como o Espantalho (por sua habilidade como dançarino), Bert Lahr como o Leão Covarde (por seu talento para a comédia) e para Margaret Hamilton como a Bruxa Má do Leste (pelo physique du rôle). Ah, e aquele lance da sincronicidade entre o filme e “Dark Side of the Moon”, do Pink Floyd, é bacaninha.

    “Labyrinth”, de 1986, eu vi no cinema e não fiquei muito impressionado (lembro de ter gostado mais de “O Cristal Encantado”, do mesmo diretor). Hoje, ao revê-lo, não me surpreende tanto o fato de ele ter se tornado um clássico infantil contemporâneo, já que ele reúne uma série de grandes nomes: George Lucas assina a produção executiva; Terry Jones, do Monty Python, encabeça o roteiro; Jim Henson, o diretor, deveria dispensar apresentações, pois é um dos maiores idealizadores de produções infantis para TV e cinema (o cara só criou “Vila Sésamo” e os Muppets...); ainda temos Jennifer Connelly (responsável pelo desenvolvimento precoce da sexualidade em muitos meninos), que já era boa atriz, no papel principal, e David Bowie contribuindo com boas canções para a trilha. Há cenas que valem a pena, como o delírio da protagonista durante a canção “As the World Fall Down” e todas aquelas na qual a hilariante personagem Sir Didymus aparece. Difícil de engolir, só a peruca que o Bowie roubou da Tina Turner e a tentativa de realização de um “Labirinto” brasileiro, que se acabou se chamando “Super Xuxa contra o Baixo Astral”.

    “Blue Velvet” (1986), do nosso velho amigo David Lynch, está longe de ser um filme para crianças, mas existe nele (como existem em alguns outros filmes do diretor) algo de histórias para a infância. Por exemplo, a obsessão de Lynch com “portas” que levam a outros mundos, como ocorre nos filmes supracitados, nos livros de Carroll com Alice e em outros do próprio Lynch. Aqui, a tal passagem é representada por uma orelha humana (coberta de formigas, num plano que lembra bastante o da mão em “Um Cão Andaluz”, o clássico filme surrealista), encontrada por Jeffrey (Kyle MacLachlan, cria de Lynch), um decente jovem que larga a escola para cuidar do pai doente.

    Jeffrey, sem dúvida, combina com o ambiente de Lumberton, uma cidadezinha interiorana dos EUA que, como o nome indica, vive do comércio de madeira (o locutor da rádio é engraçadíssimo _sim, Lynch tem um baita senso de humor). Ao som da canção de Bobby Vinton que intitula o filme (aliás, todo o design de som é primoroso), vemos cercas brancas e flores, crianças atravessando a rua para ir à escola, um simpático bombeiro acompanhado de um cachorro nos acena em câmera lenta (tamanho bucolismo pede para ser perturbado). Também combina com ela a personagem de Laura Dern (então com 18 anos), a encarnação da inocência. Não só ela se chama Sandy, como é loirinha, usa vestidos comportados e namora o jogador de futebol americano do colégio _exatamente como a personagem de Olívia Newton-John em “Grease”.

    Mas a inocência de ambos será conspurcada quando Jeffrey, investigando a tal da orelha, se envolve com Dorothy Vallens, a “blue lady” (“O Anjo Azul”?). A terceira (e mais conhecida) personagem de Isabella Rossellini no cinema não apenas se chama Dorothy, mas canta “Blue Velvet” como uma caricatura da interpretação de Judy Garland para “Over the Rainbow”, além de usar sapatos cor de rubi, praticamente idênticos aos da adolescente do Kansas. Só que esta Dorothy, sempre maquiada como uma boneca estilhaçada, arrasta Jeffrey para um mundo de perversão, faz com que ele “coloque sua doença” dentro dela, o que fará o jovem chorar e se perguntar o porquê de tanta desgraça neste estranho mundo em que vivemos.

    A culpa de tudo seria de Frank Booth, um homem “doente e muito perigoso” no dizer de Jeffrey. Frank (Dennis Hopper, recém-liberado de uma clínica de desintoxicação, praticamente recomeçando sua carreira), seqüestrador, estuprador, assassino, corruptor e traficante, coloca as palavras fuck, fucking e fucker em todas as frases que diz, mas se emociona quando ouve Dorothy cantando com voz de veludo ou vê seu amigo Ben, o “suave” (brilhante caracterização de Dean Stockwell), dublando Roy Orbison. Na verdade, a culpa é toda de Lynch (originalmente um pintor), que tem esta mania de fazer obras que podem ser vistas muitas vezes, sem se tornarem desinteressantes. É claro que isto não impediu o filme (que teria quatro horas de duração, mas, por exigência de Dino de Laurentiis, teve de ser cortado pela metade) de ser muito mal recebido... o que não é uma grande surpresa, dado o estranho mundo em que vivemos.

    P. S. Quer brincar de dirigir um estúdio em Hollywood? .

    domingo, fevereiro 08, 2004

    Encontros e Desencontros / 21 Gramas / Interiores

    As I walk through this wicked world, searchin' for light in the darkness of insanity. I ask myself, is all hope lost? Is there only pain and hatred and misery? And each time I feel like this inside, there's one thing I wanna know: what's so funny 'bout peace love and understanding?

    Quem aí já ficou em outro país tempo suficiente para viver a experiência do expatriado? Certamente as “adaptabilidades” variam. No meu caso, para minha surpresa, foi o bastante para entender a palavra “homesickness” e o conceito de alienígena. Claro, é bem possível ser um expatriado em seu próprio país...

    E já disseram por aí que a pátria de um homem é o seu idioma. Por mais que eu estivesse familiarizado com o inglês, que falo fluentemente há muitos anos (sem nunca tê-lo estudado), viver na Califórnia tinha o seu quê de frustração justamente por isso. Mais do que tudo, eu sentia falta da língua portuguesa do Brasil (tá, da mulher brasileira, também).

    Pois, pasmem, eu já estudei japonês. Eu, brasileiro, com cara de galã de filme italiano, fui, sim, estudar os hiraganas e os katakanas da vida. Portanto, posso dizer que o idioma japonês é, para nós, ocidentais, a mesma coisa que marciano. Aos quase vinte anos de idade, lá estava eu de volta ao prézinho, desenhando vinte vezes a letra “A” em vinte quadradinhos.

    O filme de Sofia Coppola, “Lost In Translation” (o título brasileiro nem é tão absurdo, apesar de irônico e desnecessário), usa deste recurso para exprimir este sentimento de incomunicabilidade, de diferença, de separação. Um dos planos que mais me chamaram a atenção foi justamente o de um néon, indecifrável para o público-alvo do filme. A incomunicabilidade aparecerá na obra de muitas outras formas, como base para situações cômicas (o público da sala em que eu estava se esbaldou de gargalhar o tempo todo, talvez porque tivesse ido ao cinema com tal predisposição) e dramáticas, envolvendo o casal de protagonistas.

    Sou suspeito para falar do Bill Murray, ator de quem sou fã há muito tempo. Apesar de certos aspectos da cultura japonesa (vista, aqui, sem grandes estereótipos ou preconceitos, embora muitos pensem o contrário) parecerem hilários para nós, é com Murray, seu semelhante, que o espectador ri. Como uma espécie de Buster Keaton moderno (guardadas as devidas proporções, é óbvio), a personagem de Murray enfrenta as vicissitudes de sua condição, uma estrela de cinema em seu crepúsculo, sozinha em um outro planeta. O auge do estranhamento se dá justamente quando ele se vê na televisão do hotel, em um filme antigo, dublado em japonês (outro grande momento do filme). O auge da hilaridade, claro, é a sua imitação de Roger Moore.

    Seu par, interpretado por Scarlett Johansson (que me lembra a Winona Ryder e a loirinha de “Dawson’s Creek” _a atriz, de 19 anos, é mostrada sem glamour, com celulite e tudo, o que é legal, talvez apenas por se tratar de um filme assinado por uma mulher), faz o contraponto, por ser jovem e viver drama semelhante ao do veterano ator (problemas conjugais), mas sem se debater de modo tão hilariante com a cultura alienígena.

    E, além de Tóquio e suas luzes, a música é outro grande personagem do filme. Coppolinha, “moderninha”, se apropria de clássicos recentes do pop britânico e americano, e é óbvio que a estratégia funciona. My Bloody Valentine e Jesus & Mary Chain, Elvis Costello e Roxy Music na voz de Bill Murray (outro grande momento). Coincidência, comprei os CDs que contêm todas essas músicas na minha passagem por Berkeley.

    Parece que esta foi mesmo a escolha de Sofia: algumas risadas aqui, momentos de emoção (o diálogo final entre os protagonistas é mesmo muito bonito) embalados por boa música ali, dois bons atores num filme de baixo orçamento, despojado, que indica honestidade... E eu ainda não estou certo do quanto gostei do filme. Saí decepcionado do cinema, por não ter sido uma experiência genuinamente emocionante e transformadora (como a que tive diante de “Embriagado de Amor”). Depois, ao relembrá-lo, parecia que eu gostava mais e mais e, agora, eu simplesmente não sei (entretanto, considero-o melhor do que o bom “As Virgens Suicidas”, que é mais impactante e tem uma trilha sonora muito mais interessante). Ao revê-lo, o mais provável é que eu o considere superestimado. Veremos.

    Caso engraçado é o de “21 Gramas”, elogiadíssimo antes de estrear e, agora que quase todo mundo viu, vem sendo tratado como uma bomba. Não é uma coisa nem outra, embora seja inferior a “Amores Perros”. Assim como seu antecessor, o roteiro aposta no melodrama. Não é pela nacionalidade do diretor Inárritu, mas trata-se de um dramalhão mexicano, mesmo.

    A primeira vez que ouvi falar do filme foi num comentário do José Wilker, no Cineview do Telecine. Ele o comparava a “Irreversível” (que não vi, desestimulado pelo fiasco de crítica), malhando este último e elogiando este outro. Então, o diferencial do granuladíssimo filme seria a montagem, que avança e retrocede no tempo inúmeras vezes, revelando, aos poucos, qual é a relação entre o trio de protagonistas. Atores, estes, que são o grande patrimônio da obra. O destaque é Sean Penn (se desconsiderarmos os mamilos de Naomi Watts), numa atuação muitíssimo melhor do que a do filme do Clint. E aí temos os temas caros ao melodrama: filhos, fé, saúde, perdas, aproximação. E um final muito, muito ruim. Uma pena.

    Ainda no tom de melodrama, mas com muito mais peso e sobriedade, voltemos a 1978, ano em que Woody Allen lançou “Interiors”, talvez o seu filme mais maldito. Não é nada desprezível ter a coragem (ou a pretensão) de mexer em time que está ganhando: Allen, comediante experiente, tinha acabado de ser consagrado com o Oscar por seu longa mais conhecido, “Annie Hall”, e lança uma obra sem uma piada, uma gag, um sorriso que seja. “Interiores” é pesado e emula Bergman, por quem o cineasta declarava imensa admiração à época (“Manhattan” e “Stardust Memories”, seus filmes seguintes _e cada vez melhores_, também deixavam isto bem claro).

    Também contando com um elenco excelente, com grande cuidado com a cenografia e o som, Allen apresenta uma dramaturgia sólida, sem pontas soltas, mas um tanto previsível demais. Incomoda a pretensão e a afetação durante todo o filme, que se intensifica no final. Allen é melhor quando é leve, mesmo quando está em crise. Mas é admirável que o artista consiga transformar sua crise (que não deveria ser pequena, dado os filmes que fez nesta época) em obras bonitas e pessoais como esta. Taí um filme que, apesar das pequenas falhas, precisava ser redescoberto.

    P. S. Falando em “Dawson’s Creek”, vi, semana passada, “Regras da Atração”, do Roger Avary, mais conhecido como co-autor de “Pulp Fiction”. Até que o James van der Beek fica legal num outro personagem, e o início, com aquelas brincadeiras de inversão de tempo, é bom cinema. Já o final...

    P. P. S. E falando em regras da atração, sonhei que estava num ménage a trois com a Kelly Key e a Tati Quebra-Barraco. Oh, the humanity.

    domingo, fevereiro 01, 2004

    Dogville / Era uma Vez na América

    O meu egoísmo é tão egoísta que o auge do meu egoísmo é querer ajudar.

    Este verso de Raul Seixas (um grande cara, apesar de ter fãs muito chatos, desses que ficam gritando “toca Raul!”), que sempre julguei servir em mim como uma luva (episódios recentes ocorridos aqui mesmo corroboram o fato), veio à minha mente enquanto eu via o filme do Lars von Trier. Quem já assistiu deve entender o porquê.

    Ao sair do Cinesesc, já sabia que precisava ver o filme de novo, antes de formar uma opinião mais sólida. Mesmo com todo o falatório em cima de “Dogville” (no dia em que fui vê-lo, Contardo Calligaris, que me dava uma dor de cabeça enorme quando eu corrigia seus textos na Ilustrada, escrevia que o filme era medíocre e desonesto _em geral, ele costuma falar bem das obras que aborda), é difícil escolher um lado (embora eu não seja nada maniqueísta).

    Quem lê este site com freqüência sabe que não sou muito afeito a análises que buscam “desvendar os símbolos” de uma obra (embora, como autor, eu use bastante das entrelinhas); no caso de filmes, gosto mais de analisar o que vi, não o que “achei que vi”. E o que a gente vê, em “Dogville”? Uma história contada em tom de romance clássico (são nove capítulos e um prólogo, cujos títulos adiantam o que está por vir), que fala de poder e de liberdade, de misericórdia e de arrogância, de capitalismo e de vingança.

    Trier, já famoso por sua antipatia (e, dizem, pela mitomania _mas qual é o artista que não embeleza a verdade?), pisou na bola ao querer deixar bem claro, seja nas entrevistas ou no final do filme (eu amo aquela música), que “Dogville” é uma crítica aos EUA. Se é só isso, então o filme não é mesmo grande coisa, como muitos andam dizendo. Até por que certas piadas que ele usa (como chamar a rua principal do vilarejo de Elm Street e batizar personagens como Jason e Chuck) não soam tão inteligentes. Já o tom de contos de fadas (evidenciado pela trilha sonora) funciona em parte _a voz over do narrador não atrapalha tanto quanto poderia, mas causa um problema: muitas das cenas parecem apenas encheção de lingüiça, parecem estar ali apenas para dar o tempo de o texto terminar. E a idéia de situar a ação num ambiente teatral (embora o filme não o seja) parece genial apenas no quesito econômico e logístico _o recurso de poder observar todos os personagens, mesmo quando eles não estão no centro da ação, não é bem usado.

    Os personagens não demonstram grande profundidade, mas isto não chega a ser um problema; todos parecem cumprir o seu papel na história, e isto não é pouco. A duração, três horas, é quase plenamente justificada, e o filme, que tem um bom ritmo, não cansa. O tom de frieza não chega a ser desagradável, embora a história adentre por caminhos terríveis; o fato de o filme não nos manipular emocionalmente (como ocorria em “Dançando no Escuro”) é um ponto a favor.

    Mas a delícia mesmo de “Dogville” é assisti-lo sem ter lido muita coisa sobre ele. O elenco guarda surpresas agradabilíssimas (e irônicas), as quais, óbvio, não revelarei. Só chamo a atenção para a frase-chave do filme, que rende muito pano pra manga: “Quero fazer do mundo um lugar melhor, e o mundo será melhor sem Dogville”. É mesmo arrogância perdoar?

    “Era uma Vez na América” (1983) é outra película na qual um diretor europeu olha para os EUA, na época da Lei Seca e da grande depressão econômica. Outro filme longo, mas cuja duração (3h45min) se justifica. Outra obra cinematográfica na qual a câmera se move bastante, carregando a assinatura clara de seu diretor. Outro conjunto de imagens em movimento com som sincronizado lançado durante o governo de um presidente republicano, às voltas com o Oriente Médio.

    Ah, mas quanta diferença: se o filme de Trier é bastante previsível, o de Sergio Leone (mais conhecido como o rei do “bang-bang à italiana”) é surpreendente do começo ao fim. O início é absolutamente impressionante: pouquíssimos diálogos são travados durante a primeira meia-hora, na qual mal somos apresentados às personagens. Tudo é mostrado e narrado como deve ser, no cinema: as imagens (e o som incidental de um telefone tocando insistentemente) falando muito mais alto do que as palavras.

    E a quantidade de cenas absolutamente antológicas? Robert De Niro fumando ópio num teatro chinês; Jennifer Connely, menina, dançando num depósito, observada por um buraco na parede; um garotinho de olhos azuis tendo que escolher se vai matar a fome do adulto ou da criança; um outro menino, que tropeça; um carro que mergulha; um mamilo feminino acariciado pelo cano de um revólver; um policial pego com as calças na mão; uma maternidade vista do alto; uma jovem defunta que volta à vida; um restaurante para dois; o funeral festivo da Lei Seca; e muitas outras. Sem falar na música, que tem papel importantíssimo (até “Yesterday” está aqui, mas o destaque é mesmo o tema tocado pela flautinha de Cockeye).

    Na verdade, “Era uma Vez na América” pode ser visto como uma história muito simples: uma história de uma grande amizade, que marca para sempre as vidas dos envolvidos. Também pode ser uma dessas “histórias de formação” (seja a de seus personagens ou a de um país). Uma história ao mesmo tempo simples e complexa, narrada de uma maneira incrível, com sutis idas e vindas no tempo, transições fantásticas. Apesar de o conjunto ser extasiante, é nos detalhes que “Era uma Vez na América” exibe o seu grande valor. Um monumento em forma de filme. Uma amostra da outra face do perdão.

    P. S. Gosto muito de caminhar, adoro ser um pedestre. Não desejo ter carro novamente (dirigir, só filmes) e evito ao máximo o transporte coletivo. Então fui e voltei a pé do Cinesesc, apesar de eu morar no centro. Outra coisa que gosto é de conversar, nem que seja com estranhos. Em Votuporanga (ou a caminho dela), é comum bater papo com totais desconhecidos em qualquer fila, ou mesmo en passant; em São Paulo, é raríssimo. Daí que, quando a moça sorridente (até achei que ela me conhecesse) me perguntou se a noite estava bonita (estava), enquanto esperávamos para atravessar a Consolação, foi muito estranho, apesar de não dever ser. Assim como esta minha mensagem em homenagem à cidade de 450 anos.

    terça-feira, janeiro 27, 2004

    Simplesmente Amor / Narradores de Javé

    Eu cheguei em frente ao portão. Meu cachorro me sorriu, latindo.

    Bem que eu gosto de bancar o misantropo (sim, eu li Cioran...), mas a verdade é que eu gosto mesmo de gente (bem mais do que se imagina). Sempre disse que me apego às pessoas, e não aos lugares, mas, voltando do Cine Votuporanga (agora, para sair dele, é preciso passar por um corredor que também é o depósito de lixo...), pisando nos paralelepípedos da calçada da rua Amazonas, percebo que também amo toda aquela cidade (bem mais do que imaginava). É impressionante saber que os lugares também guardam histórias e abrigam raízes.

    Mas como eu sou muito jovem para ser tão nostálgico, é possível que o acontecido também se deva ao fato de eu ter acabado de assistir a “Love Actually”, filme pelo qual eu não dava a mínima (apesar de seu marketing dizer que se trata dos mesmos produtores de “Um Lugar Chamado Notting Hill”, outra obra belíssima), visto apenas por total falta de opção (sinceramente, “Abracadabra” e “Acquária” não estavam nos meus planos, apesar de este último ter recebido resenhas positivas).

    E querem saber? “Simplesmente Amor” é um filme próximo da perfeição. Poucas vezes eu vi uma “comédia romântica” que ilustrasse tão bem seu rótulo. Porque ele faz rir e emociona, sem ser desonesto ou apelativo, como muitos dos filmes “engana-trouxa” que abundam por aí (e até arrebanham prêmios importantes). Um filme que não tem medo de clichês ou de obviedades (toca até “God Only Knows”) e que, mesmo assim, impressiona e faz bonito. É muito difícil fazer um filme desses.

    E daí que o drama do menino apaixonado lembre demais a história de “Um Grande Garoto”? E que o inglês e a portuguesa dialoguem como o sorveteiro e o samurai de “Ghost Dog”? Que o político se apaixone pela secretária (dando uma flambadinha nos EUA), que o marido se incrimine com um presente de Natal, que uma dupla de astros de filmes pornô apenas queira romance, que uma mulher precise sacrificar seu amor por causa de um parente doente, que o astro de rock dê o devido valor ao seu empresário, que a paixão de um rapaz fique com seu melhor amigo? Esses plots são como as letras dos Beatles ou do Roberto Carlos, coisas que acontecem com absolutamente todo mundo (bem, aquela história do inglês que vai para os cafundós dos EUA não acontece mesmo). Não é à toa que o filme comece e termine com pessoas desconhecidas, recepcionando os entes queridos num terminal de viagens. Um filme para todos.

    Para todos também é “Narradores de Javé”, uma das melhores películas nacionais que eu vi em 2003. Trata-se de uma obra verdadeiramente popular, embora não seja simplória como as produções mais recentes de Renato Aragão. Eliane Caffé (de “Kenoma”) conseguiu ilustrar o contraste entre modernidade e rusticidade que impera no Brasil, além das tradições orais dos analfabetos, com a ajuda do povo de Gameleiras e do grande ator que é José Dumont. Sua performance como Antônio Biá é ótima, com direito a kung fu e tudo. Há problemas, claro, como nas cenas de imaginário, mas há momentos simplesmente adoráveis, como uma transição sonora do virar das páginas de um livro para o barulho das águas. E a presença do palhaço Picolino, interpretando o Outro (irmão gêmeo do Gêmeo), trazendo mais nostalgia da infância.

    Mas o grande problema é o seguinte: o povo não vai ver “Narradores de Javé”. Porque, vocês sabem, existem pouquíssimas salas de cinema no Brasil, e os ingressos são caros. Então temos um filme digníssimo, realmente feito para o povo (sem aquelas babaquices de “olhar sociologizante” ou de criar um projeto que mostre o povo como animais de um zoológico freqüentado pela classe média ou qualquer outra demonstração de arrogância), um povo que não terá a chance de vê-lo. É muito triste, é isso que precisa ser combatido. Ah, também faltou mulher gostosa no filme, mas ninguém é perfeito.

    P. S. Como diz aquele sábio adesivo criado pelo Forrest Gump, “shit happens”. Como fiquei sem acesso a e-mails durante mais de um mês, minha conta foi desativada. Agora, ela está funcionando novamente, mas eu perdi todas as mensagens mandadas nas últimas cinco semanas. Uma pena, porque eu adoro responder às mensagens de Natal. Então, se alguém me mandou algo durante este período, por favor, reenvie, para que eu possa ler e responder. Abraços e beijos a todos.

    P. P. S. Shit happens 2: é apenas aqui ou vocês também não conseguem mais ver a figura do site? Os links ainda estão lá, mas nada de a simpática claquetinha sangrenta aparecer... Shit.

    P. P. P. S. Shit happens 3: os arquivos deste site estão com problemas. Muitos problemas. Não gostam de sopa de legumes, por exemplo. Gostaria muito de consertá-los, mas não sei como. Alguém pode dar dicas? Valeu.

    domingo, janeiro 11, 2004

    O Mensageiro Trapalhão / Mocinho Encrenqueiro

    Seria bão ser bão nisso de ficar quieto, de não dar na vista quando quebro os ossos dos dedos da minha mão, quando soco as paredes.

    E aí, como vão vocês? Não sei se perceberam, mas, desde antes do Natal, estou completamente incomunicável. Sabe-se lá por quê (creio que a causa de tudo é o fato de este computador não executar os tais “javascripts”, seja lá o que isso for), estou sem acesso a e-mails (tive de usar o do meu irmão para mandar os votos da liga _por sinal, já discordo de quase todas as minhas escolhas) e aos comentários de todo e qualquer site, incluindo este (também não posso linkar, o que é uma pena, pois este texto teria um monte de links legais para vocês se divertirem). O que o inutiliza quase completamente, já que uma de suas primordiais razões de existir é justamente a comunicação com vocês, que dedicam um pouco do seu preciosíssimo tempo passando os olhos por cima destas letrinhas vagabundas. O correto seria eu nem atualizá-lo mais, até a volta a São Paulo (que pode ocorrer a qualquer momento, caso surja trabalho), mas, como eu sei que tem gente que reclama e pede por textos novos com mais freqüência (o que, claro, é bom sinal), este e o penúltimo texto foram publicados, mesmo com a consciência de que os meus pronunciamentos teriam de esperar. Então, é o seguinte: podem ir comentando, discutindo, xingando, elogiando etc., que, quando eu voltar, eu leio tudo, e a gente conversa mais. É issaí.

    Quem acompanha este site há algum tempo sabe que já falei do Michael Moore, um cara que já estava em certa evidência, estimulando ódio, admiração, desconfiança etc., até aparecer ainda mais por causa do Oscar. E ele continua aparecendo, até porque o SBT reprisa seu “Roger and Me” a cada três meses, sempre nas madrugadas. E este seu filme, em especial, seria muito cômico se não fosse tão trágico: as peripécias dos governantes da cidade de Flint para reerguê-la após a GM fechar sua fábrica são tão estapafúrdias que mal parece se tratar dos EUA, o país do “time is money”. A esculhambação é tanta (por exemplo, o célebre programa jornalístico “Nightline” ia fazer uma transmissão ao vivo de Flint, cancelada porque o caminhão-link foi roubado) que até parece o Brasil.

    Mas foi Jerry Lewis o artista que melhor retratou os podres da “certinha” sociedade norte-americana. Claro que estamos falando dos seus filmes de autor, aqueles que ele produz, dirige e roteiriza _Lewis sempre foi um grande cômico, mas, manipulado por alheios, não raro se limitava a reproduzir o moralismozinho do sistema hollywoodiano. E foi no início dos anos 60, como (grande) autor, que o artista teve o seu período áureo, produzindo obras-primas como “O Professor Aloprado” e “O Terror das Mulheres”, do qual já tratamos aqui.

    “The Bellboy” (1960) e “The Errand Boy” (1961) são outros dois grandes filmes, dignos de figurar entre as maiores comédias feitas em Hollywood (e na história). São filmes “sem moral”, que vão de encontro à obsessão americana pela perfeição que o capitalismo fabril e desumano gostaria de atingir. Lewis é a encarnação da incompetência num mundo que exige rapidez e precisão _ou seja, Lewis é a encarnação da humanidade num mundo que gostaria de ser governado por máquinas de fazer dinheiro. São filmes morais, com “M”, e, neste sentido bastante específico, se coadunam aos filmes de Chaplin, outro imenso autor (como é de praxe entre os grandes comediantes).

    Outra característica comum a estes filmes é a quase ausência de enredo, observada também em “The Ladies Man”. Mas é em “O Mensageiro Trapalhão”, o filme mais radical que Lewis já fez, que esta característica atinge o paroxismo: o próprio filme verbaliza, genialmente, a falta de história, apenas para criar uma “moral da história” _moral estapafúrdia, é claro. São grandes sucessões de gags (em especial as visuais _a personagem do bellboy simplesmente não fala, o que leva o cinema à sua pureza antiga, da época da pantomima, e sequer damos pela falta das palavras), de piadas, de situações absurdas, de exageros, de clipes de humor físico (Lewis é absolutamente genial neste aspecto _não é à toa que Jim Carrey é visto como seu discípulo, embora este ainda não tenha se firmado como autor) e momentos de pura poesia, além de claras demonstrações de pleno domínio da narrativa cinematográfica, com direito a malabarismos inventivos e impressionantes (Lewis até interpreta a si mesmo, junto com Milton Berle, em seqüências de tirar o chapéu, se a gente ainda usasse chapéus). São filmes de gênio, grandes declarações de amor ao cinema. Só vendo, mesmo.

    P. S. Estudar faz com que você veja seu objeto de pesquisa com novos olhos. O exercício do jornalismo também me fez perceber o mundo de um modo bem mais amplo (percepção esta que, felizmente, só vem crescendo, o que também aumenta cada vez mais a qualidade de meu trabalho _só falta permitirem que eu pratique mais). A princípio, tal transformação não é apenas boa ou ruim, mas é sempre interessante saber dar valor tanto ao intelecto quanto aos instintos e às emoções. Vejam só este trecho de “Ensaio sobre a Análise Fílmica”, de autoria de dois pesquisadores franceses (o livro é bem fraquinho, mas este parágrafo é legal):

    “Propomos que o analista se instale (...) diante do filme ou do fragmento sem tentar fazer um esforço intelectual particular; sugerimos a ele que solte as rédeas, que se permita nada buscar, que deixe o filme estabelecer sua lei. Assim, ele volta a encontrar uma espécie de disponibilidade e outorga-se a possibilidade de deixar-se surpreender agradavelmente e de conseguir acolher elementos novos que se situam fora de suas projeções e de suas preocupações particulares. (...) É claro que o conselho não pontifica parar por completo qualquer atividade intelectual. Propõe modificar e flexibilizar uma metodologia que a angústia tende a tornar rígida. Sugere simplesmente proceder a um afrouxamento intelectual que permita uma recepção mais sutil, mais refinada do filme, de um certo modo mais ‘terna’ e que pode se revelar muito produtiva. Voltar a ser o espectador ‘normal’ por alguns momentos, deixar o filme falar, procurar sem buscar: contemplar sem olhar freneticamente, prestar atenção sem aguçar os ouvidos, estar alerta sem violência. O trabalho opera-se através de uma série de vaivéns. O analista diz coisas sobre o filme, o filme também diz coisas. Podem ser estabelecidos um diálogo, uma respiração, que evitam a saturação, a estagnação.”

    P. P. S. Falando em instinto, o meu não costuma falhar (quando se trata de arte, pelo menos): considerando certos comentários alheios, bem que eu estava desconfiado de que o tal de “Donnie Darko” fosse meia-bomba. Pois é. Na verdade, chega a ser uma porcaria revoltante em certos momentos, mas o finalzinho até que o redime. Enfim, este foi mais um episódio da série “Eu Já Sabia”. Filma nóis, Galvão!

    terça-feira, dezembro 30, 2003

    Sobre Meninos e Lobos / Os Imperdoáveis / A Promessa

    A morte, surda, caminha ao meu lado, e eu não sei em que esquina ela virá me beijar.

    Se eu me lembro bem (poucas coisas são mais traiçoeiras do que a memória _em especial, a memória de um escritor), li “Crime e Castigo” quando tinha 14 anos (do homicídio deste para o suicídio em “O Idiota” e o parricídio em “Os Irmãos Karamázov”, passando pela pena de morte em “Memórias da Casa dos Mortos”, não demorou muito tempo _foi como droga aditiva). “East of Eden”, um dos maiores romances do século XX (cujas últimas das muitas páginas foram filmadas por Elia Kazan, marcando a estréia do cadáver-fetiche James Dean no cinema), foi um tempinho depois. Até o “Murder Ballads” e o Marquês de Sade acabaram entrando na história. Mas acho que tudo começou mesmo com o “Gênesis”...

    Para qualquer lado que a gente vire a cabeça, vemos assassinato. Matar parece um ato intrínseco a todos os animais, algo de nossa natureza. Todo mundo já matou, mesmo que seja um inseto. Tem gente que até mata por prazer... Mas é realmente preciso?

    O novo filme de Clint Eastwood se chama “Mystic River”. O Mystic é um rio de Boston, capital de Massachusetts, uma das áreas primeiras áreas dos EUA a ser colonizada e local de origem dos Pixies. Rios, vocês que gostam de histórias policiais devem saber muito bem, são os melhores lugares para a desova de cadáveres. Em português, ganhou um título diferente, mas bastante apropriado, que fala de meninos e lobos. A gente entende o que isso quer dizer quando assiste à obra.

    Temos aqui a história de três garotos, a princípio unidos pela amizade, depois, pela tragédia. Morte e morte. O que poderia ser uma simples trama de investigação policial se torna um grande romance sobre as vidas de Jimmy, Sean e Dave e a de suas famílias. Tem gente que até relaciona aspectos do enredo à atual situação geopolítica, mas eu não acato totalmente esse tipo de análise; creio que Eastwood lida, aqui, com arquétipos bem mais profundos. Meninos e meninas, lobos e lobas, assassinos e assassinados.

    É um belo filme, embora não tão bom quanto eu esperava (sim, eu espero muito do Clint). Eastwood (que também assina a trilha sonora), considerado um conservador em termos políticos (o homem já foi até prefeito republicano de uma cidade californiana, Estado no qual estrelas de cinema costumam se eleger), chama logo dois notórios rebeldes, Sean Penn e Tim Robbins (só faltou o Martin Sheen), para estrelar o filme. O primeiro está num papel que é a sua cara; o segundo está um tanto estranho _provavelmente, é o personagem. A grande surpresa é Kevin Bacon, fechando o trio de protagonistas, numa ótima performance _o que uma carreira de filmes meia-boca não faz com um ator... Quem também causa grande impressão é Laura Linney, com um discurso digno de Lady Macbeth, numa cena que chega a ser chocante. Não é pouco, não. Mas também não é o melhor do ano.

    “Unforgiven” (1992), por outro lado, é um dos melhores filmes da década de 90 _justamente a década em que Eastwood conquistou respeito como diretor. “Os Imperdoáveis” é sua obra-prima, dedicado singelamente a “Sergio and Don”, Sergio Leone e Don Siegel (já viram “O Estranho Que Nós Amamos”?), seus mestres, que o imortalizaram em papéis antológicos, e não apenas em faroestes.

    E a homenagem está à altura. O filme é um exemplo de mestria narrativa. Não há firulas, não somos subestimados, não somos tratados como idiotas, como Hollywood e seus malditos David Finchers costumam fazer. A obra impressiona justamente por não ser sensacionalista, evita de todas as maneiras adotar um tom épico, numa cinematografia e num gênero bastante propensos ao espetáculo. Também não se priva de emocionar, embora drible o sentimentalismo barato. E não se esquiva de cenas de extrema violência, mostrada com uma crueza digna de Peckimpah. Só que nunca um western trabalhou o suspense com tanta eficiência _são inúmeras as cenas em que a gente se segura na cadeira, esperando que algum clichê prevaleça, e sempre somos pegos de surpresa. E ainda temos atuações monumentais de Gene Hackman e Richard Harris. Clint também está ótimo, cristalizado, um diamante (em mais de um sentido). Tá, temos a mediocridade-mor de Morgan Freeman para atrapalhar, mas, mesmo assim, trata-se de um filme de mestre.

    Claro que não se trata de uma obra-prima apenas pelas suas qualidades técnicas. O conteúdo de “Unforgiven” é monstruoso, no bom sentido. Dois garotos, dois fazendeiros chucros, causam tumulto num prostíbulo da cidadezinha de Big Whiskey. Uma prostituta tem a cara toda cortada a faca, e o seu cafetão aciona o xerife Little Bill, exigindo reparação pelos danos à sua propriedade. As prostitutas, indignadas, querem que eles sejam enforcados. O homem da lei demonstra não querer mais derramamento de sangue, pondera que os réus não são criminosos, apenas trabalhadores que fizeram uma besteira, e se limita a aplicar uma multa razoavelmente pesada. Os rapazes pagam a multa direitinho, e ainda oferecem um adicional à vítima, que em nenhum momento chega a demonstrar rancor semelhante ao das colegas, que desejam vingança a todo custo. E elas juntam mil dólares e põem a cabeça dos dois rancheiros a prêmio, dando bastante trabalho para o xerife (cujo máximo de vilania é ser um policial truculento) e seus asseclas, que não pegarão leve ao tentarem assegurar a lei e a ordem na localidade. Como se vê, trata-se de um primoroso (e complexo) ponto de partida.

    É aí que ficamos conhecendo William Munny, viúvo, pai de duas crianças, dono de um pequeno sítio de porcos doentes. Na juventude, Munny foi alcoólatra e assassino, matava gente a troco de nada, sem sequer poupar mulheres e crianças. Como ele mesmo diz, matou tudo o que anda e rasteja sobre a terra. Mas, felizmente, há gosto para tudo nessa vida, e Munny, vejam só, é salvo pelo amor de uma mulher. Graças e ela, ele pára de beber e de matar. Ela morre, e ele fica com dois filhos, atolado em merda de porco, no meio do nada, até que surge Schofield Kid, um menino metido a valentão, disposto a coletar a recompensa das putas de Big Whiskey com a ajuda do lendário malfeitor.

    Munny não bebia e não matava ninguém havia onze anos. Seus filhos sequer desconfiam que o pai foi um dos assassinos mais cruéis e covardes que o Oeste já conheceu. O que vemos, a princípio, é um pai que se preocupa com o futuro de suas crias. Assim, ele, alquebrado, parte para tentar ceifar mais duas vidas. O grande dilema moral se instala.

    Munny é cheio de remorso. Ele reconhece que suas vítimas não mereciam ter morrido. Afirma não se lembrar da maioria das maldades que fez por causa do uísque e crê ter mudado. Diz que agora ele é apenas mais um, que não é mais diferente dos outros _mas o próprio embate entre Munny e Kid negará tal concepção. E o ciclo dá mais uma volta, e não ficamos sabendo se tudo termina ali ou se ele continua.

    “Os Imperdoáveis” (desconfio muito do plural desta tradução) foi saudado, por características que já observei aqui, como um “faroeste maduro” (como se tivesse sido o primeiro...). Mas, para um homem com a idade e a vivência de Clint, encarar a maturidade é algo naturalíssimo, e é justamente isso o que ele faz neste e em filmes seguintes, com diferentes tons, como em “Cowboys do Espaço” e “Dívida de Sangue”. Aqui, ele esbanja (como também o faz, com menor beleza, em “Sobre Meninos e Lobos”) responsabilidade e ética, simbolizadas pela frase-chave do filme, dita por Munny a Schofield Kid: “Matar um homem é uma coisa infernal. Você tira dele tudo o que ele tem e tudo o que um dia ele viria a ter”. Um verdadeiro gol de placa.

    Mas o cinema também adora os tais serial killers. Já viram o que se faz de filmes citando (enaltecendo?) essas pessoas que matam apenas porque gostam de matar? Claro que, no meio desse lixo todo, achamos filmes dignos, de pérolas como “M, o Vampiro de Dusseldorf” a este bonzinho “A Promessa”.

    Sean Penn volta a dirigir Jack Nicholson, como já havia feito no superior “Acerto Final” (1995). Novamente, o tema é a vingança contra um assassino de garotas. Desta vez, Jack encarna o velho clichê do policial prestes a se aposentar, mas que fica obcecado por seu último caso. O interessante é que Penn evita outros clichês do gênero, dando à sua história um dos desfechos mais tristes dos últimos tempos.

    Só que Penn, como diretor, ainda tem muito o que aprender. Aprender com Clint, por exemplo, a contar uma história sem apelar tanto para os símbolos, para as alegorias, para as “imagens interessantes”. Penn é chegado numa “poesia”, no mau sentido. É um caminho perigoso, que às vezes até funciona (como no curta que integra o filme do 11 de setembro), mas que, no caso deste longa, o compromete consideravelmente. Um pouquinho mais de foco não mata ninguém.

    P. S. Espero que 2004 seja um ano cheio de vida para todos. Afinal, não é a esperança que morre por último?

    domingo, dezembro 14, 2003

    Uma Rua Chamada Pecado / Dois na Gangorra / Meu Amigo Harvey / Viagem a Roma

    Na entrada do meu mundo tem um letreiro de luz. Meu mundo não é uma esfera, tem o formato de cruz.

    Este ano não acaba, hein? Mal vejo a hora de sair de São Paulo e ver minha família, apesar de estar adorando ralar como roteirista e diretor em projetos de curta-metragem (dinheiro que é bom, nada, mas a atividade é uma delícia).

    Mas muita gente reclama de 2003 por inúmeros motivos; eu, em vez de reclamar, quero agora lembrar que foi o ano em que perdemos vários cineastas, entre eles o Elia Kazan (1909-2003), que causou polêmica num Oscar, há alguns anos, e que, no próximo, certamente vai aparecer de novo, naquela parte em que são lembrados os falecidos durante o ano. Será que vai rolar a mesma celeuma? Acho que não, costuma-se perdoar os mortos...

    Bom, eu gosto bastante dos filmes do Kazan, embora ele não esteja entre os meus grandes preferidos. Infelizmente, assisti à maioria de suas obras há muitos anos, o que me impede de falar do cinema do homem com mais propriedade _"Viva Zapata!", "O Último Magnata" e este "Uma Rua Chamada Pecado" são os que vi recentemente, todos pela primeira vez, e não figuram entre os meus prediletos.

    Este último, de 1951, é o seu primeiro grande clássico, uma adaptação da célebre peça "Um Bonde Chamado Desejo" (por que a mudança no título?), de Tennessee Williams (um dos grandes fornecedores de obras adaptadas pelo cinema), sem a qual Almodóvar nunca teria feito o seu premiado "Tudo Sobre Minha Mãe". Temos Marlon Brando, o ator favorito de Kazan, no auge da beleza, e Vivien Leigh (a eterna Scarlett O'Hara de "...E o Vento Levou", embora tenha encarnado outros grandes personagens, como Cleópatra e Anna Karênina), não tão bela como a srta. O'Hara, mas novamente no papel de uma mulher do sul dos EUA _embora a atriz fosse britânica, nascida na Índia. E não é que é ela quem rouba o filme, apesar de todo o magnetismo de Brando?

    Pois sua Blanche Dubois (a "branca do bosque"), uma dessas grandes personagens femininas trágicas da dramaturgia, passa pelo calvário da morte dos familiares, das perdas financeiras, das paixões não-correspondidas, do aviltamento da moral e do próprio abalo da sanidade, ao mesmo tempo digna de pena e estranhamente fascinante. Todos os conflitos que vive ao se hospedar na casa da irmã, grávida do jovem e truculento marido de origem polonesa, são mostrados por Kazan com eficiência, apesar de a época não permitir bastante clareza em relação às questões sexuais _por sinal, os EUA de Bush parecem viver uma nova era de mccarthismo, com cineastas como Brian de Palma e Paul Verhoeven sendo compelidos a "pegar mais leve" quando o assunto é foda.

    E é justamente toda essa carga de repressão que dá vazão a alguns dos momentos mais poéticos do filme, como a cena em que o espelho se quebra e a do esguicho de champanhe de Brando _uma das maiores metáforas sexuais do cinema, como o famosíssimo plano final de "Intriga Internacional", do velho Hitch. Driblando todos esses problemas, Kazan conseguiu fazer considerável justiça ao texto do dramaturgo.

    Ainda na seara de adaptações do teatro para o cinema, temos este "Dois na Gangorra" ("Two for the Seesaw", 1962), belíssimo filme do grande Robert Wise, que está vivo (2003 não o vitimou _ainda) e, apesar de ter dirigido filmaços como "Punhos de Campeão" (além de ser o montador de Orson Welles), é mais conhecido pelos musicais "Amor, Sublime Amor" e "A Noviça Rebelde".

    Tá, "West Side Story" e "The Sound of Music" são bons, mas eu prefiro muito mais este aqui, uma produção de orçamento bem menor, baseada na peça de William Gibson (não confundir com o escritor de "Neuromancer") que enfoca o romance entre um um advogado recém-divorciado (um contido Robert Mitchum) e uma bailarina (Shirley McLane, simplesmente brilhante). Mais uma vez, quem rouba a cena é a atriz, que repete o papel de garota espevitada e pouco glamourosa de filmes como "Artistas e Modelos" (do Tashlin, com Martin e Lewis), só que, aqui, com muitíssimo mais charme e profundidade. Mitchum está muito bem, embora não tão sensacional quanto McLane _também, seu confuso personagem é bem menos atraente à primeira vista.

    Se a dramaturgia, como é de se esperar em filmes baseados em peças, é de primeira, alguns aspectos técnicos incomodam, como a edição (há muitos problemas com os planos e contra-planos). Mas isso fica em segundo plano diante da primorosa fotografia e da impressionante cenografia que une os apartamentos de McLane e Mitchum. Pode ir atrás, que vale a pena.

    Mais um grande filme, baseado numa grande peça (é o último deste texto, prometo), é "Harvey" (1950), dirigido pelo alemão Henry Koster e estrelado por James Stewart (a MGM quer fazer um remake, andaram sondando o John Travolta...). Mais uma vez, o enredo é de primeira, e não de espantar que Mary Chase tenha ganhado o Pulitzer com a peça.

    O mais brilhante é que tudo começa como uma mera comédia de erros, na qual Elwood P. Dowd, um milionário chegado numa cachaça (na verdade, em martínis), vive apresentando para os outros o seu amigo Harvey. Só que há dois probleminhas: 1) Harvey, a princípio, é um desses amigos imaginários e invisíveis, que a gente costuma ter na infância; 2) Harvey é um coelho de 1,90 m de altura.

    Parece hilário (e é _são raros os filmes que me fizeram gargalhar, e este é um deles), mas o filme dá uma reviravolta impressionante e se torna absolutamente comovente _e sem ser babaca ou sentimentalóide, o que é o melhor. Os vários personagens são introduzidos lentamente, e a gente desconfia de que a história vai ficar desamarrada, mas tudo vai se encaixando de modo encantador, o que atesta o talento dramatúrgico de Mary Chase, que criou uma verdadeira obra-prima sobre a realidade e a alienação social, sobre o amor e a amizade.

    E, além do roteiro, também são destaques James Stewart (apesar de "Janela Indiscreta" e "Um Corpo Que Cai" figurarem entre meus filmes favoritos, é em "Harvey" que Stewart realiza a sua maior atuação _sério, é a melhor performance dele que já vi, de longe) e a belíssima Peggy Dow, que abandonou a carreira ao se casar com um ricaço. Também não consigo me esquecer das palavras de Dowd, encarado como louco pela maioria: "Na vida, ou você é muito esperto ou muito agradável. Eu recomendo a segunda opção".

    Voltando a mais um filme sobre um casal em crise, temos o clássico "Viaggio in Italia" (1953), filme da fase em que Roberto Rossellini ("um santo", como dizia Glauber Rocha) era o esposo da sueca Ingrid Bergman (belíssima, apesar de estar beirando os 40), e cujo clássico é "Stromboli", no dizer da maioria. Ingrid contracena com George Sanders (que, a exemplo da atriz, também foi dirigido por Hitchcock), que impressiona pela frieza britânica (sim, o filme é em inglês, apesar do título italiano). E, se o filme (em especial, a cena final) tem o potencial de emocionar, é justamente por sua falta de apelo fácil ao sentimentalismo, como ocorre em todos os filmes discutidos neste texto.

    Outro grande destaque do filme é justamente que ele ilustra o seu título: boa parte dele é "turístico", o que representa, ao mesmo tempo, sua maior força e maior fraqueza. Fraqueza da dramaturgia, que realmente deixa a desejar (embora existam alguns momentos primorosos, como o modo que Rossellini passa o desejo de a mulher ter filhos), e força das imagens, impressionantes, especialmente para estrangeiros, que entram em contato com a região de Nápoles há cinco décadas (os destaques são as cenas no museu e em Pompéia, aos pés do Vesúvio). Mesmo assim, "Viagem à Itália" é, no geral, decepcionante, principalmente se você já viu as obras-primas do diretor, mas está longe de ser descartável. Uma pena que a edição do DVD da Versátil seja tão indigente e lamentável. Arrivederci, baby!

    P. S. Tá, mais unzinho: "O Mercador de Almas" ("The Long Hot Summer", 1958) é dirigido por Martin Ritt (de "Hombre"), baseado em dois contos de William Faulkner (sim, mais uma vez, o sul dos EUA e aquele delicioso sotaque caipira) e traz no elenco Joanne Woodward (ótima), Lee Remick (belíssima!), Paul Newman (...Paul Newman, né?) e Orson Welles, que dá um caldo em todos eles. Sério, o Will Varner de Welles é uma caracterização brilhante, e suas cenas com o Ben Quick de Newman são imperdíveis. Dá gosto ver dois grandes atores assim juntos...

    quarta-feira, dezembro 03, 2003

    As Invasões Bárbaras / Os Reencarnados

    I'm a humble guy with healthy desires. Don't give me no shit, because I've been tired.

    Não sei se não sei bem o porquê, mas, assim como eu detesto competição, eu gosto de divergências. Sinto especial comichão em ver filmes que dividem opiniões, como este "As Invasões Bárbaras". Várias pessoas adoraram (um até chegou a me dizer que "este é o filme que eu queria fazer"), várias detestaram (o termo mais usado foi "medíocre" _um termo que, necessariamente, não constitui ofensa, embora muita gente não o perceba), o que acho ótimo. Pena (pena?) que, quando o vi, ainda não tinha entrado em contato com tais opiniões.

    Antes de mais nada, é bom eu esclarecer que, infelizmente, não vi a preqüela (fiquei curioso), "O Declínio do Império Americano", datada do longínqüo 1986. Isso atrapalha muito um princípio de análise deste novo filme de Denys Arcand (de quem apenas vi o também mediano "Jesus de Montréal"). Pois há várias maneiras de pensar sobre um filme, vários são os critérios (uns melhores do que outros) que podemos adotar. Eu não costumo considerar um filme ruim apenas por ele apresentar idéias ou posições éticas diferentes das minhas (apesar de considerar essencial a responsabilidade, sou totalmente contra o moralismo reacionário), embora o conteúdo nunca seja desprezível... Mas, fechando este parêntese irritante, assim como vi o filme ser contaminado por opiniões alheias, minha opinião segue sem ser manchada pelo filme que o antecedeu.

    Não me incomoda, especificamente, o conteúdo de "As Invasões Bárbaras". Não me incomoda a demonstração do poder do dinheiro sobre a ética (apesar de o Canadá ser, há muitos anos, o campeão do índice de desenvolvimento humano, não é de espantar que lá também existam mazelas), não me incomoda o uso de drogas, não me incomoda o adultério, o homossexualismo ou o casamento entre cônjuges de idades muito diferentes, não me incomoda a idéia de que as ideologias vigentes durante parte do século XX sejam (sabiamente?) ridicularizadas diante da proximidade da morte. Nada disso me incomoda (deveria?).

    O que me incomoda, em "As Invasões Bárbaras" (filme inquestionavelmente bem-feito), é justamente o fato de ele ser "agradável". Não agradável no sentido de nos fazer bem, de nos fazer mais felizes ou nos tornar pessoas melhores ("Embriagado de Amor", o melhor filme do ano, é abrasivo, nos incomoda, nos faz até sofrer, mas acaba nos transformando, e saímos leves como uma pluma do cinema), mas no de nos anestesiar diante de assuntos vitais (e mortais). É um filme calculado para emocionar (nem é esse o problema), mas ele não nos transforma, sequer chega perto disso. Trata-se de um filme inofensivo, sem pungência alguma, previsível, "bonitinho", quase anódino e facilmente esquecível. No máximo, suscita algumas reflexões sobre a morte (mas passa longe de obras-primas como "Gritos e Sussurros"), mas é pouco, embora seja um tantinho acima da média dos terríveis filmes hollywoodianos "feitos para a família". A melhor imagem de "As Invasões Bárbaras", justamente, não foi filmada por Arcand: trata-se do avião chocando-se contra o World Trade Center, quando o título do filme é explicado. É muito pouco, seu Arcand. Será que um dia ele chega lá ou é caso perdido?

    Já este "Os Reencarnados" ("The Undead", de 1957), de um dos papas do cinema de baixo orçamento, Roger Corman (mestre do Scorsese aí de baixo), cuja importância ainda não foi bem mensurada, é um desses filmes adoráveis, que nos tornam melhores. Um filme que transpira princípios éticos, que combate de frente a idéia de egoísmo, de cinismo, e promove a do sacrifício para o bem maior _e, importantíssimo, sem ser um tiquinho chato ou reaça por causa disso.

    Apesar do que o título (e o nome do diretor) indica, não se trata de um filme de terror _embora o próprio diabo (apenas um patético barbudinho segurando um tridente tosco) e bruxas estejam entre os vilões. Trata-se de uma ficção científica de viagem no tempo (precursora direta da deliciosa trilogia "De Volta para o Futuro"), na qual o imaginário da Idade Média é aproveitado de modo absolutamente eficiente e encantador. É uma história contada de uma maneira leve e graciosa, um verdadeiro deleite narrativo. Mas quem é que vai levar a sério um filme de tão baixo orçamento, no qual os atores se transformam em morceguinhos de papelão puxados por fios? Não, a imensa maioria vai dizer, sem pensar, que "As Invasões Bárbaras" é melhor, embora este "Os Reencarnados" seja infinitamente mais emocionante... Ah, a humanidade! Hahahahaha!

    P. S. Alguém aí vai ao Resfest? Têm coisas muito legais rolando...

    quarta-feira, novembro 26, 2003

    Taxi Driver / Maratona da Morte / Desafio no Bronx / Assassinos por Natureza

    Eu pensei que, um dia, tudo fosse mudar. Me enganei, mentira, como vou suportar? Sem você, menina, já não posso viver. Sinto falta, lembro dos momentos legais.

    “Taxi Driver” é um desses filmes que, para mim, são míticos. Porque eu ouço falar dele desde criança _ou seja, para mim, ele sempre existiu. E, realmente, seu sucesso e sua perenidade indicam uma qualidade quase imaterial, como se o filme não fosse apenas um filme.

    E olha que, quando eu o vi pela primeira vez, achei um Scorsese ainda embrionário (é o quinto longa que ele assina sozinho), menor do que muitos de seus sucessores, além de ter me incomodado com a narrativa, que então considerei um tanto frágil, não só pelo uso da voz over (crianças, não digam “narração em off”, é feio), mas também pela movimentação de câmera, e com a tosquice dos (d)efeitos especiais na famosa cena em que Travis Bickle enfrenta os exploradores de Iris (talvez porque, apesar de ser um filme de baixíssimo orçamento, ele foi feito com tanto capricho e competência técnica que não aparenta falta de recursos), a prostituta de 12 anos interpretada pela Jodie Foster aos 12 anos. Mas, após revê-lo, o filme se mostra um trabalho cuidadosíssimo de narrativa (o uso da câmera lenta é primoroso), já que o anti-herói que protagoniza algumas semanas tensas de uma primavera nova-iorquina é o filtro através do qual vemos uma história incrível se desenrolar.

    “Taxi Driver” (ganhador da Palma de Ouro em Cannes, em 76 _o Oscar foi perdido para “Rocky – Um Lutador”), se for para resumir, é um filme sobre a solidão. Travis está distante da família, não tem amigos nem namoradas. Supõe-se que ele seja um veterano do Vietnã e que retornou de lá com sérias cicatrizes psicológicas. Ele não consegue dormir e demonstra enorme desajuste social (não é à toa que ele leva Cybill Shepherd, “fria e distante, como as outras”, para ver um filme pornô). Sua busca desesperada, a princípio, se limita a preencher seus dias e noites, o que ele faz atrás do volante de um táxi, regado a bebida e pílulas. Mas, em pouco tempo, isso não basta: ele precisa fazer algo com sua vida (apesar de “estarmos todos fodidos”, como diz o Wizard de Peter Boyle _o pai da série "Everybody Loves Raymond"), precisa fazer diferença, precisa limpar todo o lixo à sua volta. Aí, ele se rebela.

    De Niro (recém-alçado ao posto de estrela _havia recebido um Oscar de coadjuvante por “O Poderoso Chefão 2”_, foi tirar licença de taxista e, entre as viagens para a Itália, onde trabalhava no “Novecento” de Bertolucci, dirigia táxis em NY) está excelente, assim como o resto do elenco principal _até o próprio Scorsa (discípulo de Roger Corman, de quem falaremos em breve), que faz uma aparição estilo Hitchcock na cena em que Betsy é introduzida (no bom sentido), manda muito bem como um passageiro com dor de corno. O roteiro de Paul Schrader (a quem Scorsa conheceu por intermédio de De Palma) virou até letra de música do Clash, mas a melhor coisa de “Taxi Driver”, para mim, ainda é a imortal trilha sonora (baseada nos sopros, e não nas cordas) de Bernard Herrmann, que morreu na véspera de Natal de 1975, logo após tê-la composto.

    Antes de passarmos para o próximo filme, duas coisinhas. Um: o moicano de De Niro é peruca. Dois: não se esqueça de que você é tão saudável quanto sente que é.

    Também de 76, “Maratona da Morte” une novamente John Schlesinger (morto em julho deste ano) a Dustin Hoffman, que interpreta um historiador aspirante a maratonista, cuja família é marcada por tragédias. Mas o que chama a atenção, neste filme de violência crua, mas nunca sensacionalista, nem é seu enredo, em particular, mas o modo como a história é narrada (além da interpretação brilhante de Laurence Olivier). Corajosamente, o costumeiro didatismo hollywoodiano é deixado de lado, e só vamos entender como os vários personagens se relacionam com o tempo. Hoje, provavelmente, um grande estúdio forçaria o diretor a mudar tudo, deixando tudo mais mastigadinho para o público da era “Matrix”.

    Voltemos rapidinho a De Niro, que estreou na direção de longas em 1993, filmando a peça autobiográfica de Chazz Palminteri, que interpreta Sonny, o bandido gente boa. A história gira em torno do tema da paternidade: de um lado, De Niro quer que seu filho Calogero cresça sem se envolver com os gângsteres do bairro; de outro, Palminteri “adota” o garoto e o introduz no mundo da contravenção. Parece babaca, mas é um ponto de partida fantástico _e o de chegada também, já que ambos se complementam ao formar o caráter do garoto. Só que De Niro não é Scorsese (nem Leone), e o que poderia ter sido um grande filme sobre NY é apenas um bom filme (o que, convenhamos, não é pouco), cujo senso de humor deriva, em grande parte, da ótima trilha sonora, baseada nos grupos de doo-wop. Ah, e prestem atenção na cena do velório, com De Niro e Joe Pesci. Talento não-desperdiçado.

    Para acabar, avancemos um ano e vamos de Oliver Stone, um cara que labutou anos como roteirista (“O Expresso da Meia-Noite” de Parker, “Conan, o Bárbaro”, de Millius, “Scarface”, de De Palma, “O Ano do Dragão”, de Cimino etc.) para se consagrar como diretor ao encarar o Vietnã (onde, dizem, Stone serviu e até ganhou medalha) com “Platoon”, além de enfocar os presidentes JFK e Nixon em longas (sem falar naquele lixo que é “The Doors”, urgh).

    Mas polêmica mesmo ele causou com “Natural Born Killers”, baseado num argumento do então aspirante a diretor-estrela Quentin Tarantino. Eu o vi no cinema, e, realmente, o filme causava impacto, mas, principalmente após “Pulp Fiction”, o longa de Stone se mostra como uma tentativa dúbia de criticar a indústria do espetáculo (da qual o próprio Stone faz parte).

    Ainda sob uma certa influência de “The Doors” (Stone já foi preso mais de uma vez por porte de maconha e de haxixe _vou resistir à tentação de chamá-lo de Oliver Stoned), “Assassinos por Natureza” evoca um clima psicodélico de butique (ah, se fosse o Ken Russell) e descamba num psicologismo rasteiro, do tipo “papai me estuprou, então virei bandida”, ao contar a história de Mickey e Mallory, casal que mata a família e vai ao cinema. Daí temos, numa estética de desenho animado, misturado a projeções mil, cores saturadas alternadas a cenas em preto-e-branco, muitas imagens subliminares sem um pingo de sutileza, piadinhas sem graça com Charles Manson e uma arrogante depreciação da mídia arrogante, personalizada pelo personagem Wayne Gale. Até mesmo Tommy Lee Jones (que, curiosidade inútil, nasceu exatamente no mesmo dia que Stone) é desperdiçado _mas parece que foi intencional a adoção de personagens tão rasos, como se o diretor se vingasse da indústria que só faz porcaria ao fazer outra porcaria (neste caso, eu até respeito o filme um pouco mais). De bom mesmo, só a trilha sonora, em especial o meu velho amigo Leonard Cohen...

    P. S. Mais De Niro: meio a contragosto, vi “A Máfia Volta ao Divã”, sem ter visto o primeiro filme da série. É uma droga _só não é completa porque De Niro sabe ser um ótimo ator cômico. Os primeiros 30 minutos do filme valem só por causa dele. Depois, nem o homem salva.

    P. P. S. Se ninguém quis comentar sobre “Noite Vazia”, no texto aí debaixo, nem vou me alongar ao falar de “As Amorosas” (1967). Aqui, Khouri já encontra o caminho que trilharia por boa parte do resto de sua carreira: o graaande Paulo José interpreta o famoso personagem Marcelo, que tem Lilian Lemmertz como irmã (a pequena Júlia aparece). Quem também participa são os Mutantes, ainda adolescentes, executando a trilha sonora de Rogério Duprat. A cópia em DVD está ruim, os problemas técnicos abundam, mas o filme vale muito a pena. E até entendo que os cinemanovistas tenham considerado o Khouri um cineasta pequeno burguês, mas as questões que ele levanta continuam atuais _e eu até acho arrogância dizer que tais questões são pequeno burguesas, embora elas possam esperar mais do que a fome...

    P. P. S. Não percam “Narradores de Javé”, quando estrear. O filme da simpaticíssima Eliane Caffé, que venceu o Festival do Rio, é cinema popular e digno. Vale muito a pena conferir a atuação de José Dumont como Antonio Biá. Voltaremos a ele em breve.

    terça-feira, novembro 18, 2003

    De Olhos Bem Fechados / Noite Vazia / Luxúria

    Ah, se maldade vendesse na farmácia... Que bela fortuna você faria com esta cobaia que eu sempre fui nas suas mãos, oh, mulher!

    Então, em março de 2000, eu fiz uma entrevista com o Hector Babenco, que estava voltando a dirigir teatro e trabalhava numa das primeiras versões do roteiro de “Carandiru”. E um dos nomes que surgiram na nossa relativamente longa conversa (qualquer dia eu publico a versão integral) foi o do escritor austríaco Arthur Schnitzler (1862-1931), autor de “Traumnovelle”, obra que Kuby adaptou em seu último filme, “De Olhos Bem Fechados” (outro foi o de Bergman, lembrado, em particular, por causa de “Cenas de um Casamento” _mas isto fica para outro texto), então recém-lançado.

    A primeira vez em que vi o terceiro filme de Kuby em vinte anos (absurdo, não?), eu simplesmente amei, envolvido por todo o clima de mistério (inverossímil, mas é notório que o velho barbudo desprezava a verossimilhança, inclusive nas atuações) e de putaria classuda e asséptica (sem falar nas músicas de Shostakovich, Chris Isaak e György Ligeti, além da Nicole Kidman pelada). Gostei tanto que revi o filme no dia seguinte. Agora, vendo-o mais uma vez, alguns anos depois, o impacto não é mais o mesmo _o que é ótimo, quando se quer pensar sobre o filme.

    E como muitas cabeças pensam mais (melhor?) do que uma, eu os convido a se perguntarem: a história do filme parece envelhecida, no contexto pós-revolução sexual e pós-aids, ou a “pequena” crise vivida pelo casal Harford (Kidman e Cruise ainda eram casados, quando participaram do filme...) é atemporal? Freud explica mesmo? Eu costumo fechar mais com Darwin...

    Claro que há muitas outras questões dentro da obra de despedida de Kuby (por exemplo, o Alan Cumming não está genial? E que o capeta me livre da pedofilia, mas o que é aquela Leelee Sobieski, hein?), a começar pelo título _cuja tradução mais literal seria “Olhos Escancaradamente Fechados”_, e é sempre bom quando um filme dá pano pra manga. Então, não seja tímido(a) e colabore com a proposta deste site, que é a de ser um fórum de discussão _ou seja, entre pra suruba.

    Mas, antes de partir pra suruba, vamos dar uma passada pela São Paulo do início dos anos 60, mostrada em “Noite Vazia” (1964), o filme mais célebre de Walter Hugo Khouri _um cineasta menosprezado por muitos, mas que, para mim, merece ser chamado de artista. Pois temos aqui pitadas de sordidez e romantismo, filosofia existencialista e chauvinismo, luta de classes e guerra dos sexos, tédio e rock’n’roll, arte e chuva, comida japonesa e cinema.

    E daí que a fotografia, especialmente nas externas noturnas, deixa a desejar, e que o tom dos diálogos, hoje, soe sem naturalidade? Temos Odete Lara (um dos maiores exemplos de mulher “pra frente”, talvez ainda mais do que Leila Diniz) embelezadíssima pela câmera e atuando maravilhosamente; Norma Bengell, menos brilhante e menos bonita do que em “Os Cafajestes”, mas, ainda assim, nada desprezível (apesar do ar de “prima donna”); Mário Benvenutti (que acabou virando comediante de pornochanchada _ah, os caminhos do cinema no Brasil), para quem o filme foi escrito, também está sordidamente ótimo, assim como a música do futuro tropicalista Rogério Duprat (executada maravilhosamente pelo Zimbo Trio). Claro que não é um retrato da burguesia paulistana tão complexo quanto o mostrado no genial “São Paulo S/A” (falando nisso, o Person diz, numa entrevista à Joana Fomm reproduzida no documentário de sua filha Marina, que considera "O Caso dos Irmãos Naves", recentemente abordado por aqui, superior ao filme estrelado pelo Walmor Chagas), mas também está longe de ser pouco. E vocês, gostam mais de “As Amorosas” ou de “Corpo Ardente”?

    Falando em corpos ardentes, chegou a vez do dito “gênio do erotismo”, o velho Tinto Brass _cujo “Calígula”, pouco visto e muito comentado, é ainda mais famoso. De certa forma, creio que este “Luxúria” (“Senso ‘45”, de 2002) também toca na questão da transgressão x conservadorismo, como os outros filmes deste texto: até que ponto o sexo é alienante, em vez de libertário? Existe uma falta de foco, aqui? O filme deixa de abordar questões que seriam ainda mais interessantes? Há exagero? Isso é bom ou ruim?

    Seja como for, Brass é, reconhecidamente, um autor cinematográfico (assina roteiro, direção e montagem de seus filmes), e “Luxúria” (o título original está longe de ser tão apelativo) não é, de forma alguma, um mero filminho típico de “Cine Privê” (ainda existe isso?). A começar pela escalação de Anna Galiena (uma mulher de mais de 40 anos, e não uma moçoila turbinada) como a protagonista, uma aristocrata italiana que se apaixona loucamente por um tenente alemão e canalha. E, apesar de mostrar algumas taras (facilmente observáveis em nós mesmos e em nossos semelhantes, se deixarmos a hipocrisia e a vergonha de lado) e da cena de orgia, com direito a closes de órgãos genitais, Brass (que já filmou com nomes do calibre de Peter O’Toole, Alberto Sordi, Vanessa Redgrave, Silvana Mangano, Adolfo Celi e Franco Nero, entre outros), no fundo, realiza um filme sobre a paixão. Claro que seu retrato da Itália sob ocupação alemã não chega nem perto das obras-primas de Rossellini _mas também não era essa a sua intenção. Chega de politicamente correto!

    P. S. Sempre ouvi falar bem de “Férias de Amor” (“Picnic”, 1955), de Joshua Logan, com William Holden e a então ruiva Kim Novak. Mas, decepção: trata-se de um filme bastante antiquado, com atuações pouco naturalistas, que não servem a nenhum tipo interessante de alegoria... Perde feio para “Clamor do Sexo”.

    P. P. S. "Veludo Azul" ia entrar neste texto, mas como meu irmão emprestou o DVD antes que eu o revisse, fica para outra vez...

    quarta-feira, novembro 12, 2003

    The Matrix Revolutions / The Animatrix

    Mr. Anderson, would you like to dance?

    Por que o Agente Smith nunca disse esta frase? Hein? Hein?

    Então, já expliquei aqui que passei ao largo de toda a comoção que “The Matrix” causou em 1999. Vi o filme apenas neste ano, poucos dias antes de ver o “Reloaded”. Talvez seja este um dos motivos de eu não considerar a obra dos Wachowski “uma revolução da ficção científica”, como andaram falando por aí. “Star Wars”, uma série da qual eu nem sou um grande fã, revolucionou bem mais _e olha que nem falei de “2001 – Uma Odisséia no Espaço” ou de “Metropolis”...

    Também já falei que, contrariamente a muitos dos fãs da série (mas não todos), gostei mais do “Reloaded” do que do primeiro. Mas, agora, após ter visto “Revolutions” (o ingresso, caríssimo, aumentou em 10%, grrr!), fico em dúvida (seria bom ter revisto “Reloaded” em DVD, antes de conferir a conclusão da série). Porque, como já sabíamos, “Reloaded” e “Revolutions” são um mesmo filme dividido em dois (como “Kill Bill”, que, ao contrário do filme estrelado pelas máquinas, vai demorar pra chegar por aqui).

    O primeiro “Matrix” causa impacto porque é o filme que “desvenda a verdade”: ficamos sabendo que o mundo em que vivemos é ilusório, e que não passamos de pilhas humanas _como Morpheus explica numa das seqüências mais lembradas da obra. Também aturamos todo aquele blábláblá messiânico chato e as filosofices de biscoitos da sorte, além de engolir numerosas e pouco sutis referências à literatura, ao cinema etc. Tem gente que leva a sério, mas eu não consigo deixar de considerar o filme uma FC fuleirona, entretenimento com ares de pretensão, trash com verniz hollywoodiano.

    “Reloaded” me animou por causa da aparente complicação da trama: novos personagens, novos ambientes, novos símbolos, seqüências de ação espetaculares e barulhentas e a Monica Bellucci (e também o jogo “Enter the Matrix”, um porre, só agüentei jogar duas fases). “Reloaded”, apesar de se sustentar sozinho como espetáculo, é obviamente inconclusivo, mas parecia levar a um destino interessante. Mas “Revolutions” configura-se como um grande anticlímax. Não só porque as cenas de ação não chegam aos pés de seu antecessor (na verdade, o roteiro nem pedia isso), mas porque o desenvolvimento de certos personagens, como o Arquiteto e o Merovingian (e até a própria Oráculo), deixou a desejar (o que não ocorre com Morpheus, que já tinha cumprido seu papel e não tem muito mais a contribuir). Também incomoda a falta de mais cenas na Matrix, muito mais interessante do que o "mundo real". E o final acaba sendo extremamente simplório, talvez daí venha toda a decepção.

    E, talvez para o pasmo de alguns, confesso que cheguei a sentir tédio com um “T” bem grande durante a cena da guerra no hangar de Sião (ou Zion). Não havia sentido isso em “Reloaded” (apenas um desejo desesperador de que o filme acabasse logo), mas aqui me incomodou toda aquela glorificação do espírito guerreiro e militarista, que alguns relacionam à tal de “doutrina Bush”. Bem, eu acho que estou ficando cansado de violência. É só eu assistir a um Leone, Scorsese, Hitchcock ou Peckimpah, que passa...

    Ah, Hugo Weaving continua genial como o Agente Smith, mas a cena do confronto entre o vilão e Neo é a mais chata de toda a série. Mas o espetáculo é todo dele. Keanu Reeves é impressionante como nulidade dramática; seu Neo é muito chato e inexpressivo. Até a garotinha indiana atua melhor. Mas o decote da Persephone é um espetáculo... Agora, é hora de esperar por mais jogos, DVDs com extras e produtos mil. Nada contra.

    Falando em produtos mil, quem diria que “The Matrix” seria suplantado por uma coleção de animes (e olha que, desde Osamu Tezuka, os desenhos japoneses vêm criando gerações de crianças por todo o mundo)? “The Animatrix” me fez respeitar muito mais a obra dos Wachowski, ao mesmo tempo em que deixa claro que o universo criado por Atchim & Espirro pode dar vazão a histórias interessantíssimas, que não precisam se colar aos personagens apresentados nos filmes.

    E é justamente aí onde estão os melhores momentos do conjunto de nove curta-metragens animados. Se peças como “O Vôo Final de Osíris” (feito pelos animadores da Square Software, que faz jogos como “Final Fantasy”) e “O Segundo Renascer” são ruins, histórias como “Era uma Vez um Garoto” e “O Recorde Mundial” são interessantíssimas, ao mostrar como certos seres humanos conseguem, por si mesmos, ultrapassar o véu da Matrix. Outros aspectos deste universo são desdobrados de modo bem satisfatório em “Além da Realidade” e em “Uma História de Detetive”. E até os extras do DVD são melhores do que os do filme original...

    P. S. Já falei e vou repetir, porque se trata de algo importante: quem estiver em São Paulo e não for ver nenhum filme da mostra do Rossellini merece engolir os próprios dentes durante uma crise de hemorróidas. Não percam!

    sábado, novembro 01, 2003

    Noites de Cabíria / O Caso dos Irmãos Naves / Crônicas de um Amor Louco

    Nem vem com garfo, que hoje é dia de sopa.

    Há pouco tempo, disse aqui que achei o “Amélie Poulain” uma porcaria, e a declaração gerou muito mais polêmica do que eu imaginava _não sabia que o filme bobo do Jeunet tinha tantos fãs. Mas o que me impressionou é que, nos extras do filme, não há nenhuma menção a Giulietta Masina, em quem Audrey Tautou com certeza se baseou (mesmo que inconscientemente) para a caracterização de sua Amélie Poulain. E se a Emily Watson tivesse interpretado o personagem, criado para ela, não seria ainda mais a cara da Giuli?

    Também é impressionante como essa pecha de atriz “clown” colou na mulher de Fellini, por causa de sua Gelsomina. Após a consagração, Masina não se cansaria de repetir que nunca havia feito papel parecido, antes... E, se Masina também não chega a se consagrar exatamente como uma atriz explosivamente dramática, como a Anna Magnani (para ficarmos no mesmo país e época), sua também marcante interpretação como a pobre (porém romântica e otimista) prostituta Cabíria ajuda a dar uma amostra do potencial da senhôura, que até ganhou canção do Caê, afe!

    Mas eu já falei mais de uma vez que eu prefiro o Fellini dos anos 60 e 70 (já viram “Cidade das Mulheres”? Excelente!), e o episódico “Le Notte de Cabiria” (1957), ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro (Masina ganhou o de melhor atriz em Cannes _realmente, ela está excelente), apesar de um grande filme, merecedor da pecha de clássico, é ainda inferior a “La Strada”, que nem me marcou tanto assim... Engraçado como os filmes de Fellini dos anos 50 (pelo menos, os mais famosos) não conservam o frescor de algumas obras de Rossellini ou Visconti (diretores de quem já falamos, mas de quem voltaremos a falar muitas vezes, é claro)... Mas, além da famosíssima (e brilhante) cena final, vale a pena conferir o desempenho de Masina na também fantástica cena da hipnose... Depois, venha me contar o que você achou.

    Antes de falarmos de outro italiano, vamos voltar a um brasileiro que estudou na Itália na virada dos 50 para os 60 e que certamente foi influenciado pelo neo-realismo e tal: o nosso velho amigo Luiz Sérgio Person, diretor de um dos melhores (se não o melhor) filmes brazucas de todos os tempos, “São Paulo S/A”, devidamente lambido aqui. Logo após sua obra-prima, lançada em 1965, o pai da Marina e da Domingas (será que foi inspirada na do Babulina?) foi buscar no jornalismo policial o tema para seu longa seguinte, “O Caso dos Irmãos Naves” (1967).

    A história, ocorrida na época do Estado Novo (ou seja, outra ditadura, como a que o Brasil vivia em 1967 _parece que Person já antevia os excessos dos ditos “anos de chumbo”), é revoltante: dois irmãos (Raul Cortez e Juca de Oliveira) são acusados de um crime que não cometeram. A polícia (representada pelo personagem de Anselmo Duarte, antigo galã do cinema nacional e autor de filmes maravilhosos como “O Pagador de Promessas” e o injustamente esquecido “Vereda da Salvação”, também com Cortez) não só os prende e os tortura, mas faz o mesmo com a mãe deles, uma senhora sexagenária... O caso, ocorrido na cidade mineira de Araguari (onde o filme foi feito, com a participação de vários de seus habitantes _lembra o Rossellini, não?), chamou a atenção de um advogado (uma grande atuação do importante, porém injustamente menosprezado, John Herbert _ele rouba o filme), que enfrenta a coação da polícia (que não perdoa nem juiz) para defender os Naves.

    Cinematograficamente, “O Caso dos Irmãos Naves” é infinitamente inferior a “São Paulo S/A”, mas, historicamente, é uma obra importantíssima, precursora dos “Pra Frente, Brasil” e congêneres_ ainda mais se considerarmos a época em que esta veemente denúncia da arbitrariedade das autoridades policiais foi produzida e comercializada. Cadê as palmas para o Person? Melhor ainda, por que seus filmes não são restaurados e relançados no cinema? Cadê os DVDs? Tsc, tsc, tsc.

    Bom, vamos pegar mais uns italianos e levá-los para os EUA, lar do escritor-fetiche Charles Bukowski, tão amado quanto execrado _será que pelo menos é lido? Pois, em 1981, o malucão Marco Ferreri (do maravilhoso “A Comilança”) escalou outro ator meio maldito (Ben Gazzara, de “Anatomia de um Crime”) para encarnar um alter ego do velho Hank, autor de belíssimos poemas _apesar disso, Ferreri não deixa que seu longa se limite ao texto.

    Agora, imagem com I, é preciso dizer, é a da bunda da Ornella Muti _linda, pena que aparece pouco (a atriz, não apenas a sua bunda). Assim como “Cabíria”, o filme chega perto de ser episódico, centrando-se o tempo todo no escritor e em suas diversas conquistas amorosas/sexuais, entre muita bebida (Gazzara sempre está com um uísque na mão) e outras coisitas más. Ah, e as cenas na praia... embalagem perfeita para o belíssimo poema do final, um dos grandes responsáveis por ajudar a guardar na lembrança este filme, que está longe de ser grande, mas que também não é de se jogar fora. E é bem menos depressivo do que “Barfly”...

    P. S. Complementando um pouco o texto anterior sobre filmes de terror (eu acho o filme sobre os Naves muito mais assustador do que qualquer “Exorcista” ou “Iluminado”), mais uma citação do nosso simpaticíssimo Jean-Luc:

    “Eu diria, antes de tudo, que os verdadeiros filmes de monstros são os que não provocam medo, mas que, depois, nos tornam monstruosos. Enquanto os outros, os que dão um pouco de medo, só fazem liberar-nos um pouco.”

    P. P. S. Este site foi citado numa matéria, assinada por Cátia C. Simões e publicada em uma página portuguesa que trata de cinema. Cátia diz que meus comentários são “extensos” (sério? Eu acho que são absurdamente sucintos...) e que eu tenho um “estilo muito pessoal”... Ah, ‘brigado.

    Na platéia