Bang Bang / Hitler IIIº Mundo
When I am not this hunchback that you see, I sleep beneath the golden hill.Como boa parte das pessoas que visitam esta pequena propriedade rural da Internet são cinéfilas (eu não sou cinéfilo, longe disso), é bem provável que a maioria já tenha ouvido falar de “Bang Bang” (1971). Uns e outros até devem tê-lo assistido.
Pois sequer dá para dizer que o longa de Andréa Tonacci seja uma espécie de “pérola perdida do cinema nacional”, um “clássico cult do cinema marginal” ou qualquer outra frase não muito plena de sentido. Porque o filme é totalmente desconhecido, não tem sequer o status de obra muito falada e pouco vista, como “Limite”, “O Despertar da Besta” ou até mesmo as mais acessíveis “O Bandido da Luz Vermelha” e “Matou a Família e Foi ao Cinema”, por exemplo. “Bang Bang” não é visto nem discutido. A não ser, é claro, entre cinéfilos dignos do nome (eu não sou, faz-se o paradoxo).
E o que é que se diz a respeito de um filme tão pouco discutido, mas considerado extremamente importante por aqueles que o discutem? Grosso modo, que se trata de um cinema puro, no qual os planos (e tudo o que eles captam) não se deixam limitar pela narrativa. Uma discussão antiga...
Engraçado é que existe um esforço (de certas pessoas) de achar alguma narrativa em “Bang Bang”. Mas, até agora, todas as tentativas de sinopse deste filme (quer tentar?) que eu li parecem puro chute, como se fossem produtos de uma intuição (sempre redutora), e não da descrição do que se passa na tela.
E o que a gente vê, quando assiste a “Bang Bang” (classificado como pertencente ao gênero “policial”)? Paulo César Pereio briga (mais de uma vez) com um taxista, canta “Eu Sonhei que Tu Estavas Tão Linda” usando uma máscara de macaco, some e reaparece sob o estalar de dedos de um mágico, tem um diálogo sem muito nexo com uma dançarina de flamenco em um bar (a cena lembra muito o início de “Pulp Fiction”), passeia de carro por longos planos, é perseguido por um trio de figuras muito estranhas, como um travesti e um cego que, claro, dispara tiros a esmo. No final, risos, talvez de escárnio, talvez uma reiteração de que a única saída para a criatividade durante tempos de ditadura pesada, no Brasil, fosse o tal do desbunde. “Ou não”, como diria Caê.
Mas quer saber o que realmente interessa? “Bang Bang” é um filme muito divertido, gostoso de assistir. Podia ser pernóstico, narcisista e bobo como “Meteorango Kid, o Herói Intergalático”, por exemplo. Mas não é. E isto não é pouco.
“Hitler IIIº Mundo” (1968), de José Agrippino de Paula (mais conhecido por seu romance “PanAmérica”, hoje ele vive recluso no Embu das Artes, aqui pertinho de São Paulo _onde fiz, com um grupo de amigos, um vídeo bastante interessante em 2002, pena que vocês não vão ver), é comumente relacionado ao filme do Tonacci, embora seja uma experiência menos radical. Também nunca lançado comercialmente, este filme em 16mm (fotografado pelo Jorge Bodansky, pai da Laís, e montado por Rudá de Andrade, filho do Oswald e da Pagu) oferece uma visão menos enviesada politicamente do que “Bang Bang”: o regime de exceção em voga no Brasil (ainda em uma época pré-AI 5) é comparado, sem muita sutileza, ao nazi-fascismo.
É mais ou menos isso: um robô (referência aos políticos ditos “biônicos”, como Paulo Maluf?) semelhante a Hitler dá um golpe de estado (para depois reclamar que “é muito difícil manter a ordem no terceiro mundo”); relaciona-se, aos latidos, com os EUA (representados por um homem com tapa-olho de pirata, que pergunta “do you speak english, Adolf? Can you go to the United States, Adolf?”); Jô Soares (em sua melhor atuação no cinema) representa o Japão, no papel de um samurai de pantomima (a cena na qual ele enche uma Kombi com crianças de uma favela _dizem que se trata de uma sátira a um concurso lançado por Silvio Santos_ é sensacional); uma versão de Mussolini nos é apresentada como um homem de TV; ainda temos uma “anãzinha” e uma tentativa frustrada de suicídio do Coisa (sim, aquele do Quarteto Fantástico, numa caracterização incrível, uma roupa de espuma com olhos de bolinhas de gude), a ligação com a cultura pop dos EUA. E, para deixar tudo muito mais divertido, o som não é sincronizado. Coisa de quem tem peito (como a nossa amiga Courtney).
Fala a verdade, não te deu vontade de assistir? O povo da sala Lima Barreto (curiosamente, sem o seu característico cheiro de mofo, algo inédito) dormiu, saiu no meio ou falou muito mal no final _com exceção do tradicional bêbado que freqüenta a sala, que riu o filme inteiro e se divertiu reconhecendo logradouros da capital paulista, como o Viaduto do Chá... Acho que o Agrippino teria curtido, se não estivesse lá no Embu do mundo.
Cena da semana: James Taylor (sim, aquele cantor chato), jovem e com semblante impassível (como uma máquina), dirige um Chevy 55 em uma pista de aeroporto. O filme se desintegra (“Corrida sem Fim”, de Monte Hellman, 1971).