Os Nibelungos / A Última Gargalhada
Eu avisei, mas vocês, tubérculos ruminantes, não me ouviram. Eu falei pra vocês não perderem a mostra de filmes da UFA, que rolou durante o mês de março, na agradabilíssima Cinemateca de São Paulo, um lugar básico para quem gosta dessa tal de sétima arte.Entonces, a UFA não era a Unidade dos Filmes Anormais nem União dos Fodedores Anônimos nem qualquer outra dessas coisas pornográficas e amorais nas quais você pensou, Joãozinho. Era uma produtora alemã que começou a funcionar logo após a Primeira Guerra Mundial _ou seja, o país do chucrute, derrotado, estava arrasado não apenas economicamente (hiperinflação e tal), mas moralmente as well.
Daí a idéia de produzir filmes (a indústria cinematográfica cresceu horrores na segunda década do século XX, em especial nos EUA, tendo em D. W. Griffith, o diretor de superproduções como “O Nascimento de uma Nação” e de “Intolerância”, o principal formador de um estilo realmente narrativo nos EUA) que aumentassem a auto-estima dos alemães, retratando-os como um povo corajoso, destemido, estóico até.
E o maior de todos estes filmes (botem aí nesse saco de gatos obras-primas como “O Gabinete do Dr. Caligari”, de Robert Wiene, “Nosferatu” e “Fausto”, de F. W. Murnau, “Metropolis”, de Fritz Lang etc.) é, na minha irrelevante opinião, o díptico “Os Nibelungos”, do sr. Lang (que pode ser visto atualmente em São Paulo no filme “O Desprezo”, de Jean-Luc Godard, como ator _tem também a Brigitte Bardot, ulalá).
Dividido em duas partes, “A Morte de Siegfried” (sim, o título entrega o final, uma lástima) e “A Vingança de Kriemhild”, o épico de 1923-1924 é uma das maiores realizações do cinema. A primeira é bastante mítica e folclórica, centrada no personagem Siegfried, um loirão-fortão-estilo-Capitão-Guapo que pode ser considerado a encarnação da pureza da tal “raça ariana”, evocada por Hitler para justificar o extermínio dos judeus. E, apesar de ser um dos filmes preferidos do Zé Bigodinho, a obra nada tem de nazista _embora sua roteirista, Thea von Harbou (esposa e parceira constante de Lang em sua fase alemã), tenha ficado na Alemanha hitlerista em vez de seguir seu marido rumo aos EUA.
Mas não vou ficar contando o enredo (que é riquíssimo), senão o texto fica gigantesco. Basta dizer que Siegfried, personagem também de uma ópera de Wagner, acaba se casando com Kriemhild, a irmã de um rei, e, como o título já entrega, morre no final, após enfrentar dragões, bruxas e outros bichos, em cenários fantásticos (os figurinos e a caracterização das personagens também são extasiantes e inesquecíveis).
A partir daí começa a segunda parte (cada uma tem cerca de duas horas), dividida, como a primeira, em cantos (como um poema épico). Ao contrário de sua antecessora, que se passava em vários lugares e mostrava várias aventuras, “A Vingança de Kriemhild” limita-se justamente a mostrar o que seu título indica. Kriemhild, a loira das tranças rapunzelescas (desempenho espetacular da atriz Margarethe Schön, em atuação contida, baseada na expressão facial, tipo Lilian Gish, Clara Bow etc.), de luto, torna-se obcecada pela vingança e, plena de ódio, não mede esforços para matar o assassino do marido _chega até a casar-se com o tétrico Átila, o rei dos hunos, para conquistar seu objetivo. É lindo. É sério, o ódio da Kriemhild é lindo. Não deixe de assistir, o filme é maravilhoso demais, uma glória.
Só que “Os Nibelungos”, de tão caro, quase quebrou a UFA. Em vista disso, o nosso amigo Carl Mayer (roteirista de “Dr. Caligari”, "Aurora" e de outras obras-primas) inventou uma espécie de Dogma 95 do dito cinema expressionista alemão, que acabou sendo chamado de Kammerspiel. Ou seja, em vez de épicos, filmes que abordassem temas do cotidiano, com poucas locações, atores e figurinos.
E o maior representante desta nova e despojada estética é outro filme interessantíssimo, de 1924: “A Última Gargalhada” (também chamado de “O Último Homem”), dirigido por F. W. Murnau, encarnado por John Malkovich naquele filme que prometia, mas não cumpriu.
Estrelado por Emil Jannings (que fez Mephisto em “Fausto” e o professor no excessivamente moralista “O Anjo Azul”), conta a história de um porteiro de hotel que, por causa da idade avançada, é rebaixado ao cargo de faxineiro do banheiro. Com isso, ele perde seu portentoso uniforme (lembra uma farda militar de luxo) e, junto com ele, o respeito dos moradores do subúrbio onde mora. Este pequeno drama mundano, que desnuda alguns aspectos sociais da época (de imensa crise), é um bom exemplo de que um bom argumento não precisa ser necessariamente “grandioso”, como o de “Os Nibelungos”.
Mas, além do conteúdo, é muito legal comparar o estilo narrativo de ambos os diretores: Lang é sóbrio, mantém a câmera imóvel durante o tempo todo, delineia os enquadramentos com cuidado ímpar _cada tomada é como um quadro. Murnau tem um estilo muito mais moderno e dinâmico, abusa do zoom, do travelling, da panorâmica e, no final de “A Última Gargalhada”, realiza um dos planos seqüência mais impressionantes (imaginem rodar um plano complicado desses com a câmera primitiva da época, à base de manivela) da história. Ufa!
Os Nibelungos – A Morte de Siegfried: 9,5/10
Os Nibelungos – A Vingança de Kriemhild: 10/10
A Última Gargalhada: 9/10
P. S. Vi outros dois filmes do Lang na mostra da UFA (que também trazia uma exposição muito legal de cartazes dos filmes da época _os de “Metropolis” são esplêndidos): o raríssimo “Os Espiões”, que ficou perdido durante décadas e é uma espécie de embrião da série 007, e “A Mulher na Lua”, uma comédia de ficção científica na qual um grupo de pessoas viaja ao nosso satélite em busca de ouro. As maquetes usadas na produção são impagáveis, assim como a espetacular “transformação” do vilão...
P. P. S. Pra quem não se ligou, o “Joãozinho” do segundo parágrafo foi uma pequena homenagem ao David Drew Zingg, figuraça que morreu quando eu trabalhava na Ilustrada _o desgramado me fez madrugar e ir correndo pro jornal fechar a página de seu necrológio... Bom, mas ele merecia. Ah, e um amigo meu era o maior fã do Tio Dave e vivia deixando recados na secretária eletrônica do velhinho. O cara simplesmente delirou de felicidade quando o amigo das Jennifers escreveu uma crônica sobre um chato que vivia telefonando para sua casa...
P. P. P. S. Tá, o "tubérculos ruminantes" foi brincadeira...