A gruta é mais extensa do que a gruta

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    sexta-feira, maio 02, 2003

    Os Nibelungos / A Última Gargalhada

    Eu avisei, mas vocês, tubérculos ruminantes, não me ouviram. Eu falei pra vocês não perderem a mostra de filmes da UFA, que rolou durante o mês de março, na agradabilíssima Cinemateca de São Paulo, um lugar básico para quem gosta dessa tal de sétima arte.

    Entonces, a UFA não era a Unidade dos Filmes Anormais nem União dos Fodedores Anônimos nem qualquer outra dessas coisas pornográficas e amorais nas quais você pensou, Joãozinho. Era uma produtora alemã que começou a funcionar logo após a Primeira Guerra Mundial _ou seja, o país do chucrute, derrotado, estava arrasado não apenas economicamente (hiperinflação e tal), mas moralmente as well.

    Daí a idéia de produzir filmes (a indústria cinematográfica cresceu horrores na segunda década do século XX, em especial nos EUA, tendo em D. W. Griffith, o diretor de superproduções como “O Nascimento de uma Nação” e de “Intolerância”, o principal formador de um estilo realmente narrativo nos EUA) que aumentassem a auto-estima dos alemães, retratando-os como um povo corajoso, destemido, estóico até.

    E o maior de todos estes filmes (botem aí nesse saco de gatos obras-primas como “O Gabinete do Dr. Caligari”, de Robert Wiene, “Nosferatu” e “Fausto”, de F. W. Murnau, “Metropolis”, de Fritz Lang etc.) é, na minha irrelevante opinião, o díptico “Os Nibelungos”, do sr. Lang (que pode ser visto atualmente em São Paulo no filme “O Desprezo”, de Jean-Luc Godard, como ator _tem também a Brigitte Bardot, ulalá).

    Dividido em duas partes, “A Morte de Siegfried” (sim, o título entrega o final, uma lástima) e “A Vingança de Kriemhild”, o épico de 1923-1924 é uma das maiores realizações do cinema. A primeira é bastante mítica e folclórica, centrada no personagem Siegfried, um loirão-fortão-estilo-Capitão-Guapo que pode ser considerado a encarnação da pureza da tal “raça ariana”, evocada por Hitler para justificar o extermínio dos judeus. E, apesar de ser um dos filmes preferidos do Zé Bigodinho, a obra nada tem de nazista _embora sua roteirista, Thea von Harbou (esposa e parceira constante de Lang em sua fase alemã), tenha ficado na Alemanha hitlerista em vez de seguir seu marido rumo aos EUA.

    Mas não vou ficar contando o enredo (que é riquíssimo), senão o texto fica gigantesco. Basta dizer que Siegfried, personagem também de uma ópera de Wagner, acaba se casando com Kriemhild, a irmã de um rei, e, como o título já entrega, morre no final, após enfrentar dragões, bruxas e outros bichos, em cenários fantásticos (os figurinos e a caracterização das personagens também são extasiantes e inesquecíveis).

    A partir daí começa a segunda parte (cada uma tem cerca de duas horas), dividida, como a primeira, em cantos (como um poema épico). Ao contrário de sua antecessora, que se passava em vários lugares e mostrava várias aventuras, “A Vingança de Kriemhild” limita-se justamente a mostrar o que seu título indica. Kriemhild, a loira das tranças rapunzelescas (desempenho espetacular da atriz Margarethe Schön, em atuação contida, baseada na expressão facial, tipo Lilian Gish, Clara Bow etc.), de luto, torna-se obcecada pela vingança e, plena de ódio, não mede esforços para matar o assassino do marido _chega até a casar-se com o tétrico Átila, o rei dos hunos, para conquistar seu objetivo. É lindo. É sério, o ódio da Kriemhild é lindo. Não deixe de assistir, o filme é maravilhoso demais, uma glória.

    Só que “Os Nibelungos”, de tão caro, quase quebrou a UFA. Em vista disso, o nosso amigo Carl Mayer (roteirista de “Dr. Caligari”, "Aurora" e de outras obras-primas) inventou uma espécie de Dogma 95 do dito cinema expressionista alemão, que acabou sendo chamado de Kammerspiel. Ou seja, em vez de épicos, filmes que abordassem temas do cotidiano, com poucas locações, atores e figurinos.

    E o maior representante desta nova e despojada estética é outro filme interessantíssimo, de 1924: “A Última Gargalhada” (também chamado de “O Último Homem”), dirigido por F. W. Murnau, encarnado por John Malkovich naquele filme que prometia, mas não cumpriu.

    Estrelado por Emil Jannings (que fez Mephisto em “Fausto” e o professor no excessivamente moralista “O Anjo Azul”), conta a história de um porteiro de hotel que, por causa da idade avançada, é rebaixado ao cargo de faxineiro do banheiro. Com isso, ele perde seu portentoso uniforme (lembra uma farda militar de luxo) e, junto com ele, o respeito dos moradores do subúrbio onde mora. Este pequeno drama mundano, que desnuda alguns aspectos sociais da época (de imensa crise), é um bom exemplo de que um bom argumento não precisa ser necessariamente “grandioso”, como o de “Os Nibelungos”.

    Mas, além do conteúdo, é muito legal comparar o estilo narrativo de ambos os diretores: Lang é sóbrio, mantém a câmera imóvel durante o tempo todo, delineia os enquadramentos com cuidado ímpar _cada tomada é como um quadro. Murnau tem um estilo muito mais moderno e dinâmico, abusa do zoom, do travelling, da panorâmica e, no final de “A Última Gargalhada”, realiza um dos planos seqüência mais impressionantes (imaginem rodar um plano complicado desses com a câmera primitiva da época, à base de manivela) da história. Ufa!

    Os Nibelungos – A Morte de Siegfried: 9,5/10
    Os Nibelungos – A Vingança de Kriemhild: 10/10
    A Última Gargalhada: 9/10

    P. S. Vi outros dois filmes do Lang na mostra da UFA (que também trazia uma exposição muito legal de cartazes dos filmes da época _os de “Metropolis” são esplêndidos): o raríssimo “Os Espiões”, que ficou perdido durante décadas e é uma espécie de embrião da série 007, e “A Mulher na Lua”, uma comédia de ficção científica na qual um grupo de pessoas viaja ao nosso satélite em busca de ouro. As maquetes usadas na produção são impagáveis, assim como a espetacular “transformação” do vilão...

    P. P. S. Pra quem não se ligou, o “Joãozinho” do segundo parágrafo foi uma pequena homenagem ao David Drew Zingg, figuraça que morreu quando eu trabalhava na Ilustrada _o desgramado me fez madrugar e ir correndo pro jornal fechar a página de seu necrológio... Bom, mas ele merecia. Ah, e um amigo meu era o maior fã do Tio Dave e vivia deixando recados na secretária eletrônica do velhinho. O cara simplesmente delirou de felicidade quando o amigo das Jennifers escreveu uma crônica sobre um chato que vivia telefonando para sua casa...

    P. P. P. S. Tá, o "tubérculos ruminantes" foi brincadeira...

    terça-feira, abril 22, 2003

    O Pianista / Roma, Cidade Aberta

    Que o amor é um palito de fósforo riscado, abandonado numa enorme poça de mijo velho, isso todo mundo já sabe. Mas você sabia que o Danoninho de chocolate não é lá essas coisas?

    Pelo menos o segundo volume de “Monstro do Pântano”, de autoria do sr. Alan Moore, já está nas livrarias da plantação de inhame. Sim, mais um livro lindo, que compila oito histórias clássicas do fantástico personagem de Len Wein e Berni Wrightson. E, como se não bastasse, saiu também “Pecados Originais”, que traz as primeiras oito histórias solo de John Constantine, o Hellblazer (escritas pelo Jamie Delano _entrem no site do cara e leiam sua biografia, é de rolar de rir_, o melhor autor de toda a série até agora, na minha humilíssima opinião, e ilustradas pelo John Ridgway). O legal é que as histórias, no fundo, são sobre política. Preciso dizer que é muito bom?

    Falando nisso, há pelo menos uns vinte anos o sr. Polanski não fazia um filme tão bom quanto “O Pianista”. Claro que, se compararmos com maravilhas como “Repulsa ao Sexo” (o melhor e mais assustador), “O Bebê de Rosemary”, “Macbeth” e “O Inquilino” (alguém ainda vai querer falar de “A Dança dos Vampiros”), o vencedor da Palma de Ouro de 2002 e de alguns Oscars fica para trás, mas se lembrarmos de “O Último Portal”... argh!!!

    Mostrar (tentar, pelo menos), no cinema, os horrores da guerra sempre será pertinente. O holocausto judeu da Segunda Guerra ainda vai dar muito pano pra manga _quanto mais escarafunchadas forem as histórias de pessoas como Wladyslaw Szpilman, Anne Frank, Oskar Schindler etc., mais argumentos para filmes interessantes surgirão. É importante que continuem surgindo. Assim como é importante o papel social de figuras públicas como Susan Sarandon, Sean Penn, Martin Sheen e outros artistas de respeito, que ultrapassam a limitada idéia de nacionalismo para abraçar algo muito maior.

    Dito isto, o filme, uma produção com recursos de quatro países diferentes, traz cenografia, figurino, trilha sonora (ah, a trilha sonora...), blablablá, de qualidade. Adrien Brody, o homem das narinas gigantescas, está excelente como o pianista polonês que, mais por ação dos outros do que dele mesmo (é impressionante a passividade do personagem, ele passa o filme todo sem fazer absolutamente nada, só é salvo porque outros se empenham para fazê-lo), consegue sobreviver ao infame Gueto de Varsóvia. O Oscar foi merecido.

    Claro que o tema da Segunda Guerra me faz traçar um paralelo com “Roma, Cidade Aberta” (outro ganhador da Palma de Ouro), o filme de Rosselini que inaugurou o neo-realismo italiano. Lançado em 1945, ano em que a guerra acabou (a obra traz, no início, o aviso de que “qualquer semelhança é mera coincidência”, mas, neste caso, não era bem verdade), é um trabalho que mantém sua atualidade _não é à toa que é considerado um clássico.

    Uma cena, longe de ser a mais famosa da produção, me chama a atenção: um oficial alemão, que não participa tanto das orgias de tortura promovidas pelos colegas, prevê a derrocada dos nazistas, fala em genocídio e em ódio _o que me lembra também uma cena do filme de Polanski, quando são mostrados os alemães derrotados, e os poloneses vão à forra (outra cena registrada por Rosselini que muito me lembra “O Pianista” é a seqüência de abertura de “Alemanha, Ano Zero”, de 1948: um exemplo de onde Polanski se inspirou para recriar a Varsóvia arruinada com a qual Szpilman se depara). Outros destaques são, obviamente, Anna Magnani (que brilharia mais vezes, em filmes de Rosselini e de Jean Renoir, entre outros) e a frase dita por Don Pietro, que, para mim, resume bem a mensagem da obra: “Não é difícil morrer bem; viver bem é que é difícil”.

    O Pianista: 8,5/10
    Roma, Cidade Aberta: 9/10

    P. S. Para falar um pouco mais deste gigante cinematográfico que foi Rosselini (procurem por “Viagem à Itália”, outro clássico), leiam as seguintes palavras do Federico, um rapazola que deu uma ajudinha no roteiro de “Roma, Cidade Aberta” (os seguintes trechos foram retirados do livro “Fazer um Filme”, lançado pela coleção Oficina Interior, da editora Civilização Brasileira, o qual eu também recomendo):

    “Seguindo Rosselini enquanto filmava ‘Paisà’, tudo me pareceu claro de repente, uma feliz revelação, a de que se podia fazer cinema com a mesma liberdade, a mesma leveza com a qual se desenha e se escreve, era possível realizar um filme se divertindo e sofrendo dia após dia, hora após hora, sem muita angústia com relação ao resultado final (...). Rosselini procurava, seguia o filme no meio da estrada, com os tanques dos aliados que passavam a um metro de nós (...), com toda espécie de problemas, autorizações revogadas no último momento, programas não cumpridos, misteriosos desaparecimentos de dinheiro, na ciranda rumorosa de produtores improvisados sempre mais ávidos, infantis, mentirosos, aventureiros.
    ...É isso, parece-me que com Rosselini aprendi (...) a possibilidade de caminhar em equilíbrio no meio das condições mais adversas, mais contrastantes e, ao mesmo tempo, a capacidade natural de usar em benefício próprio essas adversidade e esses contrastes, transformá-los num sentimento, em valores emocionais, num ponto de vista. Rosselini fazia isso, vivia a vida de um filme como uma aventura maravilhosa que deve ser vivida e contada. Seu abandono nos confrontos com a realidade, sempre atento, límpido, fervoroso, aquela sua forma de se situar com naturalidade num único ponto impalpável e inconfundível entre a indiferença do distanciamento e a falta de habilidade da adesão, permitia-lhe capturar, fixar a realidade em todos os espaços, olhar o interior e o exterior das coisas, desvendar o que a vida tem de inalcançável, de misterioso, de mágico. Por acaso o neo-realismo não é isso? Daí, quando se fala de neo-realismo, só se pode falar de Rosselini. Os outros fizeram realismo, verismo ou tentaram traduzir um talento, uma vocação, numa fórmula, numa receita.”

    quinta-feira, abril 17, 2003

    Arca Russa / De Volta das Cinzas

    Your lovin' gives me a thrill... but your lovin' don't pay my bills.

    O negó é o segui: algumas vezes já falei de dois (e até mais) filmes em um texto só. Comparar é legal (eu havia escrito uma explicação enorme aqui, mas preferi deixar de frescura e simplificar). Então, como este site acabou de entrar em seu segundo ano, clamando por reformas, companheiros, daqui pra frente vou (tentar) mandar bala em dois filmes (que sempre estarão ligados de uma maneira, embora nem sempre isso seja óbvio) de uma vez só. Vamos ver se funciona.

    Ah, “Arca Russa”. Ouvi falar do filme de Aleksandr Sokúrov (diretor de “Moloch”, entre outros, que veio lançar o filme no Brasil, ano passado, na Mostra de São Paulo) lendo um artigo do Alcino, que, se bem me lembro, o viu em Paris, há cerca de um ano. Um longo plano-seqüência (mais de uma hora e meia de duração) dentro de um museu que aborda os últimos séculos da história da Rússia. Soa insuportavelmente chato? Mas que nada!

    É, eu adoro a Rússia. Morro de vontade de visitar Moscou e São Petersburgo. Lógico que o meu amor pelo país veio da literatura, em especial a oitocentista. Sim, eu sou um homem do século XIX. “Crime e Castigo” mudou a minha vida. Quem nunca leu “Guerra e Paz”, “Anna Karenina”, “Os Irmãos Karamázov”, “O Idiota” e outros, não sabe o que é bom. Dá até vontade de aprender russo só para ler essas belezas no original.

    E, no entanto, conheço tão pouco o cinema da Mãe Rússia. Basicamente, se bem me lembro, assisti apenas a alguns Eisenstein, como “O Encouraçado Potenkim” e “Outubro”, há muuuito tempo. Mas isso vai mudar, em breve.

    Então, “Arca Russa” é lindo. O título faz muito sentido: o filme é um rio. A câmera navega pelo magnífico museu/teatro/palácio Hermitage, em São Petersburgo, e desemboca no mar (um final sublime, ui). Durante o trajeto, somos guiados por um estrangeiro, que, inadvertidamente, nos mostra a história recente do maior país da Europa, através de seus salões (com quadros de Reubens e Van Dyck, entre outros) e das personagens de diversas épocas.

    Adicione belos diálogos (é uma maravilha ouvir a língua russa e saber que dá para entender algumas palavras), uma trilha sonora lindíssima (o som do filme é excelente, assim como sua fotografia, figurinos e direção de arte) e o justo deslumbre com o feito técnico (o plano foi ensaiado durante quase um ano, antes de a filmagem começar) e pronto: taí um grande passeio.

    Agora passe uma borracha nos neurônios, pois aí vai um filme quase igual, mas completamente diferente: “De Volta das Cinzas” (“Return from the Ashes”), lançado em 1965 pelo britânico J. Lee Thompson (morto há menos de um ano), diretor de clássicos como “Os Canhões de Navarone” e a versão original de “Cabo do Medo”, que o nosso amigo desoscarizado Scorsese refilmou. Curto e grosso: o filme é foda.

    Ambientado em Paris, conta a história de Michele Wolf, uma linda e viúva médica judia (a sueca Ingrid Thulin _uma das atrizes preferidas de Bergman_, excelente) que, após se casar com um interesseiro campeão de xadrez (o austríaco Maximilian Schell, canastríssimo), em 1940, é mandada para o campo de concentração de Dachau. Todos, seu marido, sua enteada (a inglesa Samantha Eggar, lindíssima _é ela a raptada de “O Colecionador”, de William Wyler, lançado no mesmo ano) e seu melhor amigo (o tcheco Herbert Lom _Herbert Charles Angelo Kuchacevich Schluderpacheru para os íntimos_, mais conhecido por interpretar o hilário nêmesis do Inspetor Clouseau na série “A Pantera Cor-de-Rosa”) pensam que ela está morta, mas, anos depois, ela retorna.

    A princípio, a dra. Wolf não deseja que seu marido a veja no estado debilitado em que se encontra; por isso adota uma falsa identidade (lembra “Vertigo”, a princípio), mas acaba sendo vista pela enteada, Fabienne, que avisa o enxadrista Stanislaus Pilgrin _a propósito, agora eles são amantes e estão de olho na fortuna que Wolf herdou com o extermínio de todos os seus outros parentes.

    Mas, neste filme, nada é como parece e nada sai como a gente pensa. Quando achamos que já delineamos o rumo que a história irá tomar, ela nos surpreende por completo. Eu mesmo só fui descobrir quem, afinal de contas, era o vilão, nos últimos minutos da obra. E olha que não se trata de um “whodunit”: todas as ações dos ardilosos personagens são mostradas com clareza... Sem dúvida, um dos melhores thrillers que já vi (estranhamente, o filme nunca foi um sucesso de crítica). Alugue correndo e divirta-se com esta maravilha em preto-e-branco, politicamente incorreta e ousadíssima para sua época. Hasta.

    Arca Russa: 8,5/10

    De Volta das Cinzas: 9,5/10

    P. S. OK, segundo ano de site, temos a obrigação de mostrar coisas novas (tá, não temos, mas mostramos assim mesmo). Então está lançada a série "Women in Porn". A regra é clara: se você possui ovários, assistiu a um filme pornô, escreveu uma resenha e faria de tudo para vê-la publicada aqui (inclusive um teste do sofá básico _garanto que é legal), é só mandar um e-mail para o sempre alerta heybabyxxx@hotmail.com. Quem inaugura a putaria é a primeira e única Dani Bee:

    "Fantasias Colegiais 2 (Freshman Fantasies 2): O elenco masculino é representado por Alex Sanders, Peter North, Valentino e Sean Michaels (um desses é famoso, porque meu namorado fez um comentário tipo 'ah, é com esse cara'). As mulheres são Randi Lee, Kim, Toni James e uma bizarra chamada Nicci Neels. São várias situações de sexo explícito, porém nenhuma delas se passa na sala de aula. A primeira historinha é uma loira ninfeta com um negão de 2m de altura com o membro proporcional, e é a mais normalzinha, curti. Eles se encontram num apartamento e fazem coisas básicas. Só é meio foda [grifo do editor] uma parte em que a loirinha fica numa posição incômoda, com aquele negão gigante em cima dela, mas, enfim, ela deve estar acostumada com esse tipo de coisa. A segunda é um casal meio sujinho, o cara é artista plástico, cabelo comprido, e a mulher, uma loira tipo Marilyn Monroe, mas parece que eles não tomam banho há meses, quase dá pra sentir a nhaca. É bobinho, eles transam, e depois a mulher desenha um pau (pênis é coisa pro Pasquale) na tela que o cara tava pintando antes de rolar o clima. O terceiro casal é bem esquisito, o cara se mexe tipo o Fagner cantando, dá umas tremidas, deus me livre. Ele não tem a manha, é muito afobado e dá até pena da mulher (que é uma morena bonita de sainha colegial, a única coisa que se aproxima do tema do filme). Sem falar que, além de afobado, o cara é o demo chupando manga, mó exu. Ele é tão descontrol que nem percebe que a mulher tava doida pra acabar logo, nem tava curtindo. O quarto casal é o cara famoso e uma mulher um pouco mais velha do que as outras, deve ter uns 30. Essa dá muito nervoso, porque, além de ela fazer umas coisas que eu preferia não ter visto, é daquelas americanas que têm unhas gigantes e nojentas, faz umas caras bem enjoadas e enfia a unha na boca toda hora, tá mais pra fantasia sexual do Zé do Caixão (que eu tenho nojo também). O último casal é com a bizarra. A tal da Nicci Neels é uma sujinha toda tatuada, e o cara, um loiro que lembra o irmão do Supla. Ele deve ser tipo o galã dos filmes eróticos, é o menos feio de todos. Eles começam transando num banco de madeira, atrás de uma casa. Eis que, no meio do negócio, a polícia aparece (de verdade) e dá até pra ouvir um 'what's going on here?'. A bizarra olha pra trás, e o filme é cortado. Eles então aparecem num apartamento transando no sofá, e o cara, enquanto come a bizarra, vai explicando o que rolou. Parece que os vizinhos ouviram uns berros (além de sujinha, ela é histérica) e chamaram a polícia. A produção teve que arrumar um lugar pra terminar a cena, e eles acabaram na casa do clone do irmão do Supla, por falta de opção. Trash metal.
    Nota: 7/10.(unhas gigantes: -1 ponto; bizarra sujinha: -1 ponto; cena que eu preferia não ter visto: -1 ponto; o exu que não sabe transar: -1 ponto; a polícia chegando: +1 ponto).
    Obs: sexo não combina com Fagner, Zé do Caixão, unhas enormes (meninos, cortem as unhas do pé);
    Obs 2: sexo combina com João Suplicy e Supla.
    Obs 3: eu não lembro se tem música no filme.
    Obs 4: Meu namorado comprou a revista DVD por R$14,90, e veio o filme de brinde. Fazer o que, néam?

    segunda-feira, abril 14, 2003

    Retrospectiva: um ano na tela

    Hoje, este espaço completa um ano de existência. Para comemorar, atendo a um pedido antigo dos freqüentadores deste espaço: uma lista com tudo que foi comentado aqui, neste primeiro ano de atividade (que é dedicado com todo amor e carinho à Vanessa, autora deste template, que me acompanhou em muitas sessões de cinema).

    Abril

    Snatch - Porcos e Diamantes
    Pollock
    Coisas que Você Pode Dizer Só de Olhar para Ela
    O Exorcista (versão do diretor)
    Gimme Shelter
    Quase Famosos
    O Lixo e a Fúria
    Shrek
    Profissão de Risco
    Evolução
    A Comilança
    Copacabana
    Planeta dos Macacos (versão de Tim Burton)
    Final Fantasy - The Spirits Within
    Memórias Póstumas
    Bufo & Spallanzani
    Amnésia
    Concorrência Desleal
    Inteligência Artificial
    Moulin Rouge
    O Dom da Premonição
    Velozes e Furiosos
    Festival Troma on Parade (O Acampamento do Macho, Espreme-espreme no Beisebol e Garçonetes em Ação)
    A Espinha do Diabo
    Os Queridinhos da América
    Liam
    Fama para Todos
    Hedwig - Rock, Amor e Traição
    Refém do Silêncio
    A Conspiração
    O Xangô de Baker Street
    A Cartada Final
    Os Outros
    A Sombra do Vampiro
    LavourArcaica
    E Tua Mãe Também
    Harry Potter e a Pedra Filosofal
    A Bruxa de Blair

    Maio

    Vida Bandida
    História Real
    Latitude Zero
    O Quarto do Filho
    A Bruxa de Blair 2
    Onze Homens e um Segredo
    Homem-Aranha
    O Homem Que Não Estava Lá
    O Poder Vai Dançar
    Assassinato em Gosford Park
    Os Excêntricos Tennenbaums
    E. T. - O Extraterrestre
    O Invasor
    Apocalypse Now Redux
    Memórias
    A Última Ceia
    Dia de Treinamento
    Abril Despedaçado

    Junho

    Cidade dos Sonhos
    Especial Dee Dee Ramone
    Promessas de um Novo Mundo
    Italiano para Principiantes
    Cecil Bem Demente
    Quanto Mais Quente Melhor

    Julho

    Quarto do Pânico
    ABC África
    O Ataque Dos Clones
    Janela da Alma
    Lilo e Stitch

    Agosto

    A Soma de Todos os Medos
    8 Mulheres
    Cidade de Deus
    Um Corpo Que Cai
    Minority Report – A Nova Lei
    O Escorpião de Jade
    Um Dia Muito Especial

    Setembro

    Uma Vida em Segredo
    O Terror das Mulheres
    O Assalto
    Terra em Transe
    Insônia
    Um Grande Garoto

    Outubro

    Houve uma Vez Dois Verões
    Lucía e o Sexo
    Sinais
    Eraserhead
    O Articulador
    Rocha Que Voa

    Novembro

    Fora de Controle
    Rio Vermelho
    A Teia de Chocolate
    Madame Satã
    48 Horas

    Dezembro

    O Casamento Grego
    Doze Homens e uma Sentença
    Dívida de Sangue
    Paraíso
    Edifício Master

    Janeiro

    Full Frontal
    A Missão
    O Filho da Noiva
    Ônibus 174
    A Noite Americana
    Sangue de Pantera

    Fevereiro

    O Pai do Povo
    Let It Be
    Os Palhaços / A Estrada da Vida
    Os Cafajestes / Navalha na Carne
    O Grande Ditador

    Março

    O Chamado
    Femme Fatale / Um Tiro na Noite
    Rocky – Um Lutador / Rocky II – A Revanche
    Adaptação
    Gangues de Nova York

    sábado, abril 05, 2003

    Deus É Brasileiro

    É, Deus é brasileiro. Pela lógica, deve ser palmeirense também.

    Mas Cacá Diegues é um cara que merece respeito mais pela constância do que pela qualidade da obra. Que bom que ele tem conseguido filmar longas com certa regularidade, desde os anos 60, tendo atravessado épocas brabas, como a do fim da Embrafilme (governo Collor, lembram?). O Brasil precisa de cineastas com obras extensas _qualidade é ótimo, mas quantidade também não seria nada mal.

    Falando em qualidade, o seu Carlos Diegues às vezes dá uma dentro... mas nem sempre. Seu grande acerto continua sendo “Bye Bye Brasil” _a melhor coisa que o Fábio Jr. fez na vida. “Deus É Brasileiro”, infelizmente, é bem xexelento. E olha que eu até gostei de “Orfeu”, apesar de ter a bunda do escroto do Toni Garrido (entrevistei o Cidade Negra uma vez, e o dublê de Angélica ameaçou um colega meu de surra, vai vendo o caráter da boneca _epa, agora ele e a turminha vão querer me pegar de porrada também...).

    Então, “God Is Brazilian” é uma produção de primeira, cinemão mesmo, Hollywood in Brazil. Locações lindas, fotografia extasiante de Afonso Beato (aquele que trabalhou até com Almodóvar), figurinos caprichados... tudo em excesso. É como o Xico Sá disse há alguns dias, no programa do João Gordo: o cinema nacional anda mostrando um sertão bonito demais... não existe esse glamour todo na vida real, não.

    Tá, mas cinema é fantasia, e eu realmente não sou de ficar cobrando verossimilhança de artista nenhum _isso seria, no mínimo, ridículo. Então o fato de existir uma sertaneja tão bonitinha quanto a Paloma Duarte não me incomoda (e olha que tem até Deus, metido a mágico, no filme...).

    Se a produção excessiva nem é o grande problema do filme, então qual é? Bem, todo o resto. “Deus É Brasileiro” não traz grandes interpretações (Wagner Moura, que aparece também em “Abril Despedaçado”, está OK, mas só), não traz grande roteiro (apesar de ter sido baseado em uma obra interessante de João Ubaldo Ribeiro, um cara bastante adaptável para o audiovisual), não traz praticamente nada _só público para o cinema, o que é ótimo, diga-se (é importante frisar que eu nunca torço contra, eu quero mais é que os filmes brasileiros batam recordes de bilheteria, é praticamente uma obrigação moral).

    É claro que dizer que o filme não tem conteúdo seria um exagero. Mas, para mim, o desequilíbrio entre forma e conteúdo neste filme é gritante, ainda mais quando Diegues deixa para trás a capacidade de emocionar que a obra de João Ubaldo possui para se limitar a uma comédia fraquinha, apoiada nos chiliques da personagem de Moura. A versão para a TV (uma produção pobre, apesar de ser da Globo), que trazia Lima Duarte no papel de Deus e Tony Ramos como Quincas das Mulas (ambos brilhantes) e que possui uma belíssima cena de milagre em um prostíbulo (ausente no filme), dá de trezentos milhões a zero. E que Quincas das Mulas vagabundo o filme de Diegues recriou, hein? Mesmo o geralmente ótimo Antônio Fagundes decepciona no papel do Criador... Pelo menos a trilha sonora é interessante, trazendo até uma participação especial do Cordel do Fogo Encantando... argh, mas tem Djavan!!! Bye, bye.

    Nota: 5/10

    P. S. Reitero aqui a recomendação que fiz nos comentários: não deixem de assistir a “Durval Discos” e a “2 Perdidos numa Noite Suja”, muito melhores do que o filme do Diegues. Voltaremos a falar de ambos no futuro próximo.

    P. P. S. Mais uma dica, esta, fundamental: está nas bancas um livro chamado “A Balada de Halo Jones”, de autoria de Alan Moore (roteiro) e Ian Gibson (ilustrações). É absolutamente MA-RA-VI-LHO-SO, imperdível, emocionante. Vão correndo comprar! O preço é salgadíssimo, mas, acredite, vale cada centavo. É a melhor coisa que o bruxo de Northampton já escreveu _e uma das melhores HQs que já li. Tá esperando o quê? Vai, VAI!

    segunda-feira, março 31, 2003

    Gangues de Nova York

    Cocococococoró, cocococococoró. O galo tem saudade da galinha carijó.

    Então “Gangues de Nova York” foi esnobado pela tal da academia, certo? Daniel Day-Lewis era o favorito para o Oscar de melhor ator e perdeu para a zebra Adrien Brody, de “O Pianista”. Dez indicações, nenhum prêmio. Martin Scorcese foi focalizado pelas câmeras do evento várias vezes, sempre com um certo ar de “o-que-é-que-eu-tô-fazendo-aqui?”.

    Quer saber? Eu acho legal. Scorcese não precisa do reconhecimento da academia de Hollywood. Ele já entrou para a história faz tempo. Nem acredito que se incomode por não ter papado uma batelada de estatuetas. O culto que existe em torno dele (já fizeram até música sobre seus filmes) tem mais valia.

    E só mesmo Scorcese (que faz uma figuração sem falas, como um aristocrata à mesa de jantar) poderia dirigir um filme (de três horas de duração, mas que passam rapidinho) intitulado “Gangs of New York”. É a cara dele. E o legal é que não se trata de mais um filme de máfia... opa, não mesmo?

    Senta, que lá vem a história: em meados do século XIX (1846, para ser mais exato), um grupo (ou melhor, uma matilha de gangues) que se denomina “nativistas” (os “verdadeiros americanos”, que “deram o seu sangue por esta terra”, como diz Bill "The Butcher" Cutting, a personagem de Day-Lewis, líder desta facção) trava uma guerra contra os imigrantes irlandeses, liderados por Liam Neeson, um religioso. A tal guerra é no melhor estilo tribal (remete, de certa forma, a “Coração Valente”) e possui uma espécie de “código de honra”: a batalha é discutida com antecedência entre ambas as partes, as armas são escolhidas, horário e local são marcados, e a luta pára assim que o líder de um dos lados cair.

    Bem, não vou estragar a história (até porque a maioria já deve ter visto o filme) se eu disser que o grupo do Pastor Vallon perde a batalha, porque é aí que se delineia a saga de Amsterdam Vallon, o personagem de Leonardo Di Caprio, que dedicará sua vida a vingar a morte de seu pai. Neste ínterim (durante o governo Lincoln, época da Guerra de Secessão, início da década de 60), ele acaba trabalhando para o próprio Bill The Butcher, caindo em suas graças _o que é bastante interessante parta a história, pois tira um pouco do caráter “heróico” da personagem. E, para apimentar um pouco mais o “plot”, Amsterdam se envolve com Jenny Everdeane (Cameron Diaz, não muito glamourosa), punguista, puta e ex-amante de do açougueiro.

    Apesar de ser uma puta história (com os tradicionais mocinho/mocinha/bandido _sim, Scorcese não foge muito do padrão), o que interessa mesmo em “Gangues de Nova York” é o seu pano de fundo, que lhe dá o caráter de “épico de formação de um povo” (“A América nasceu nas ruas”, diz uma das frases de promoção do filme), uma tradição do cinema norte-americano, iniciado por D. W. Griffith e seu “Nascimento de uma Nação”, de 1915. E o mais legal do filme (à parte a esplendorosa atuação de Day-Lewis _outro destaque é Brendan Gleeson, ex-professor que se tornou ator há menos de 15 anos, tendo participado de “Braveheart” e de filmes de Jim Sheridan, John Boorman, Danny Boyle, John Woo e Steven Spielberg, entre outros, aqui no papel de Monk) é seu contexto político, mostrando o dilema da conscrição (alistamento militar obrigatório para quem não pudesse pagar a monstruosa, para a época, quantia de US$ 300) e, mais do que isso, como a guerra pelo domínio das Cinco Pontas é ridícula perto da guerra que está rachando o país. Ah, falando em guerra...

    Nota: 8/10

    P.S. Achei absolutamente do caráleo o Eminem ter levado o Oscar de melhor canção _e chutado os traseiros gordos do U2, que concorria com a chatinha “The Hands that Built America”, tema deste filme. E o cara ainda não foi à cerimônia, hahaha...

    terça-feira, março 25, 2003

    Adaptação

    Você sabe o que é ter um amor, meu senhor? Ter loucura por uma mulher?

    Então vamos deixar de frescura, pois o tempo urge, e falar logo de “Adaptação”, segundo longa-metragem de Spike Jonze, cineasta revelado por seus videoclipes (entre eles o sensacional “Sabotage”, dos Beastie Boys _que, ao ser preterido num VMA por “Everybody Hurts”, do REM, gerou um protesto engraçadíssimo de MCA, que subiu ao palco disfarçado de Nathaniel Hornblower e deixou Michael Stipe embasbacado. Lembra?).

    Bom, “Adaptação” dá de mil a zero em “Quero Ser John Malkovich” _filme que tem pressupostos excelentes (como o da marionete humana e da experiência de ser outra pessoa, mas não apenas isso), mas que, talvez por querer expressar idéias demais, acaba se perdendo. “Adaptação” também dá uma caída no final, mas nem é por acaso _a ironia de Jonze e do roteirista Charlie Kaufman não deixa ponto sem nó.

    O protagonista do filme é justamente seu roteirista, Charlie Kaufman _o mesmo de “Being John Malkovich”. No início, vemos Nicolas Cage (sobrinho de F. F. Coppola), no papel de Kaufman, no set do filme anterior de Jonze (genro de F. F. Coppola), o que já é um barato. Ou seja, Cage interpreta um personagem real, que tem um trabalho real: adaptar um livro real (“The Orchid Thief”), escrito por uma jornalista real (Susan Orlean, aqui interpretada pela Meryl Streep), sobre um outro personagem real, John Laroche (papel que deu, merecidamente, o Oscar de coadjuvante para Chris Cooper _para quem não reconheceu, é o vizinho-nazista-bicha-pai-do-maconheiro-esquisito de “Beleza Americana”).

    Para complicar tudo (e deixar tudo muito mais interessante), Kaufman inventou Donald, um irmão gêmeo fictício (que é tornado “real” ao assinar _e ser indicado ao Oscar de melhor roteiro adaptado, perdido para “O Pianista”_ também o roteiro do filme “Adaptation”). Donald é a peça chave da crítica à indústria cinematográfica, que abusa de clichês para uma identificação rápida e indolor com o espectador, em vez de desafiá-lo com a sensação instigante (aqui a palavra é pertinente) de estranhamento que ambos os filmes de Jonze/Kaufman provocam. Isso já bastaria para eles terem o nosso respeito.

    Mas há mais. A história do ladrão de orquídeas também é fascinante. Laroche, uma figuraça, une-se a alguns índios seminole para coletar orquídeas raras (e valiosas) de um pântano na Flórida _porque os índios podem explorar o pântano sem serem incomodados pela lei. Adiciona-se a isso a história de Susan Orlean e de seu envolvimento com o vigarista banguela e carismático. E também o drama de Charlie Kaufman, neurótico ao extremo, tendo de adaptar o livro, cada vez mais enfurnado em um beco sem saída. E a desenvoltura de Donald Kaufman, que, admirador do irmão, resolve bancar o roteirista, o que proporciona os momentos mais engraçados do filme. Ah, mas há mais... Agora é com você.

    Nota: 8,5/10

    P. S. Ia dedicar um texto ao belga “Rosetta”, dos irmãos Dardenne, que ganhou a Palma de Ouro em 1999 (assim como o prêmio de melhor atriz para Emilie Dequenne, que interpreta o papel título), mas, como o filme me decepcionou, vai apenas este P. S. Realizado sob os ditames do dinamarquês Dogma 95 (idéia interessante, faltaram bons filmes), mostra uma das personagens femininas mais desgraçadas da história do cinema, talvez comparável apenas à Macabéa que Marcélia Cartaxo encarnou na adaptação de Suzana Amaral para “A Hora da Estrela”, derradeiro romance de Clarice Lispector (dizem que “Mouchette”, de Robert Bresson, segue a mesma linha _aproveitem a mostra gratuita no Centro Cultural São Paulo para tirarem a prova). O início é bastante cansativo, depois a história engrena e ganha qualidade. Ainda assim, achei pouco para uma Palma de Ouro... De qualquer forma, fico devendo uma análise mais detalhada. Se alguém viu e quiser discutir...

    terça-feira, março 18, 2003

    Rocky – Um Lutador / Rocky II – A Revanche

    Eu te darei o céu, meu bem. E o meu amor, também.

    Falando em amor, o boxe é uma coisa linda, né? Meio sem querer, acabei vendo a luta do Popó (por que será que o simpático Acelino Freitas tem esse apelido? Homenagem ao idoso personagem do Chico Anysio?), no sábado passado, e é aquela coisa sublime: dois homens (de origem humilde, claro) se espancando até um deles não mais se agüentar em pé... Tá, pelo menos é melhor do que futebol, porque dura menos.

    Ah, mas tem mais: o boxe rendeu obras-primas do cinema, hooray! “Touro Indomável” é, talvez, a maior de todas, mas também temos o maravilhoso “Punhos de Campeão”, do grande Robert Wise, “Requiem for a Heavyweight”, de Ralph Nelson (que traz não apenas o Anthony Quinn no papel principal, com direito a orelhinha de couve-flor e tudo, mas também o Cassius Clay, que mais tarde se chamaria Muhammad Ali e seria vivido no cinema pelo rapper de meia tigela Will Smith), o chorosíssimo “O Campeão” (quem nunca o viu numa “Sessão da Tarde”?), enfim, quaquilhões deles. Mas por que será que o boxe é um esporte tão cinematográfico? Talvez pela síntese dramática da coisa toda? Ou por mostrar homens musculosos sem camisa? Eeeeeca!

    Bom, deixemos as elucubrações para os comentários (a parte deste site que realmente importa) e vamos partir logo para o caso de Rocky Balboa, o Garanhão Italiano (é mais legal em inglês, “The Italian Stallion”), o Pata do Sul (ou seja, canhoto), o Olho do Tigre, o Cunhado do Paulie, enfim, o personagem boxeador que mais angariou bilheteria para o cinema e que fez a fama e a fortuna do canastríssimo Sylvester Stallone.

    Antes de mais nada, façamos justiça ao velho Sly: mesmo que tenha figurado em uma série de filmes ridículos, o cara merece um tiquinho do nosso respeito por ter criado “Rocky”. Sim, o homem que encarnou o Rambo (atenção: o primeiro da série, “First Blood”, é muito legal; os outros dois, um no Vietnã e outro no Afeganistão _onde o Taleban é ajudado a se livrar dos russos, veja só a ironia_, lixo), o Cobra, o Falcão e o Tango (ou seria o Cash?) não apenas protagonizou (brilhantemente) o filme, mas escreveu o roteiro e coreografou as cenas de luta. Aliás, o filme é bem um projeto familiar: seu irmão, Frank, compôs algumas das músicas da trilha e fez uma ponta, como um dos cantores de rua; o pai de Stallone também participa da produção; e até o cachorro, Butkus, era um Stallone...

    O primeiro da série, lançado em 1976 é, sem exagero, um filmaço. Muita gente torce o nariz para o filme por ele ter batido o também clássico “Taxi Driver” (também de Scorcese. Aliás, será que este foi um dos motivos de ele ter feito “Raging Bull”?) no Oscar, mas isso não passa de, sejamos francos, uma tremenda babaquice. Os EUA estavam comemorando o bicentenário de sua independência em 1976, e é lógico que os membros da comunidade de Hollywood não premiariam um filme que mostra o lado mais podre e decadente da sociedade norte-americana. Eles escolheram uma história que traduz o tal do “american dream”, a idéia da “land of opportunity”: um boxeador obscuro do subúrbio da Filadélfia tem a oportunidade de enfrentar o campeão dos pesos pesados e se tornar rico e famoso.

    E o grande lance do filme é justamente se concentrar no lado humano de seus personagens. Ao contrário da maioria dos “blockbusters” que o Stallone estrelou, “Rocky” traz uma série de personagens fantásticos, com profundidade psicológica. A começar pelo próprio Balboa, um trintão fracassado que, no início do filme, ganha míseros US$ 40 após ser esbagaçado por um colega. Quando não está lutando, está trabalhando como cobrador para o agiota Gazzo (isso me lembrou o excelente filme “Fingers”, de James Toback, com Harvey Keitel, assistam), paquerando a tímida garota da loja de animais (Adrian, que tem de agüentar Paulie, o irmão chave-de-cadeia) e cuidando de seus bichos de estimação. Para completar, ainda temos Mickey (Burgess Meredith, o Pingüim do antológico seriado humorístico/psicodélico “Batman” _aquele com Adam West e Burt Ward), o treinador com quem Rocky tem uma relação de amor/ódio, e Apollo, o Doutrinador _que é “poser”, mas não exatamente um vilão.

    Aí está outro indicador da grandeza do filme: não há antagonismo bobo (assim como não há ênfase na violência das lutas _“Touro Indomável” é muito mais sensacionalista neste sentido. Por sinal, a luta final entre Rocky e Apollo é surpreendentemente curta). Não há grandes heróis ou vilões. Rocky, por exemplo, não é nada glamouroso: não é inteligente ou charmoso, tampouco é um exemplo de retidão de caráter (afinal, trabalha para um mafioso). Mesmo assim, demonstra ter alguma sensibilidade ao aconselhar a jovem Marie, de apenas 12 anos, a não ser o que ele chama de “vadia”; a menina, surpreendentemente (ou não), manda ele “ir se ferrar”.

    Somem a tudo isto uma trilha sonora inesquecível (“gonna try haaaaard”) e uma direção (de John G. Avildsen, que dirigiria também o horrendo “Rocky V” e a irregular trilogia “The Karate Kid” _aquela do seu Miyagi) simples e segura, sem malabarismos cretinos de câmera. Trata-se de um filme clássico no bom sentido, sem vulgaridades e sem “cabecices”. Em uma palavra: emocionante.

    Sua continuação, dirigida pelo próprio Sly e lançada em 1979, é pior do que o original porque descamba para o dramalhão (com a abacaxesca história da Adrian entrando em coma e tal, argh) e porque o personagem perde muito em psicologia, já que ele não mais precisa ser “apresentado” ao espectador, justamente o que faz muito da graça de “Rocky – Um Lutador”.

    E há certas redundâncias, certos “déjà vus” que tornam o filme mais descartável: Rocky começa mal, mas depois vai treinando com afinco, até ficar em forma (depois de ser muito provocado pelo fanfarrão Apollo, mas sem revidar, sempre com humildade). E aparece, de novo, a cena dele subindo as escadas em direção ao principal museu da cidade, com a mesma trilha, só que, agora, seguido por um montão de crianças gritando “Rocky” (no primeiro ele estava sozinho). E, depois de passar o primeiro filme espancando carcaças de bois num frigorífico, o novo treinamento esdrúxulo do Rocko é perseguir galinhas. E, mais uma vez, finda a última luta, volta a cena que havia emocionado tanta gente no primeiro filme, mas que, ao ser repetida no segundo, virou clichê e motivo de chacota: Adrian falando “eu te amo!”, e Rocky com cara toda arrebentada. E, além de toda a apelação com a história do coma da Adrian, há também uma presença excessiva de igrejas, padres e rezas, ou seja, Stallone deu uma boa forçada de mão. Ufa, chega de frases começadas com “E”...

    Ah, uma última curiosidade: em mais de uma cena, Stallone usa uma faixa vermelha na cabeça, acessório que ficaria muito mais ligado a Rambo...

    Rocky - Um Lutador: 9/10
    Rocky II - A Revanche: 7/10

    P. S. “Mas que mundo é este, onde um adolescente moribundo não pode ganhar um boquete de uma celebridade?”

    P. P. S. Falando em putaria, mais uma listinha...

    quarta-feira, março 12, 2003

    Femme Fatale / Um Tiro na Noite

    "I’m a bad girl, Nicolas. Real bad. Rotten to the core."

    Fala sério. Não dá vontade de casar na hora? The things she does to pleeeeeease...

    É, Brian de Palma. Voyeurismo, violência e loiras. O cara tem estilo e sabe disso. Sabe colocar sua assinatura num filme. Bastam poucos minutos, e você sabe que está assistindo a um De Palma. Sabe que é sub-Hitchcock, ou seja, não dá para ser totalmente ruim.

    “Femme Fatale” é um De Palma típico. Desde o início, as marcas do veterano diretor estão ali: a tela dividida verticalmente em duas, a narrativa cinematográfica exemplar, a trilha sonora onipresente, ação. Do começo ao fim, o filme não pára.

    O enredo: durante uma operação para roubar um sutiã de diamantes que vale 10 milhões de doletas, a mulher fatal do título sacaneia os “amigos” e foge com o butim. Coincidências mil farão com que ela se envolva com o embaixador dos EUA na França (Peter Coyote, um cara massa, aqui subaproveitado) e um paparazzo (Antonio Banderas, marido de uma ex-loira de De Palma, encarnando o voyeur por excelência _não parece um pouco o ator claustrofóbico de “Dublê de Corpo”?).

    Junte a isso duas mulheres extremamente parecidas (praticamente gêmeas _opa, alguém aí lembrou de “Irmãs Diabólicas”?), sonhos (tema mais a ver com Lynch do que com De Palma) e um roteiro bem encadeado, apesar de inverossímil (meu irmão Danilo achou o final uma merda), e temos um filme não exatamente brilhante, mas extremamente hábil. É pouco para De Palma, mas está de bom tamanho, considerando a média hollywoodiana. Ah, e tem a Rebecca Romijn-Stamos... o que é aquilo?

    Mas um De Palma muito melhor é “Um Tiro na Noite” (“Blow Out”, 1981), o último grande filme que John Travolta estrelou antes de embarcar no ostracismo que durou até “Pulp Fiction”. E o filme é bom justamente porque é Hichcock esculpido em Carrara: quanto mais De Palma se aproxima do mestre, melhor.

    O filme já começa evocando “Psicose”, com uma cena de assassinato num chuveiro. Mas “Blow Out” faz referência mesmo a “Janela Indiscreta”: basta trocar a profissão do protagonista, um fotógrafo, pela de sonoplasta. Sai a visão, entra a audição _ou seja, em vez de um voyeur, trata-se de um écouter.

    O trabalho de Travolta é sonorizar filmes. Em uma bela noite de primavera, ele vai a um parque gravar alguns sons e... dããã, adivinha o que acontece? Ele acaba gravando um assassinato _justamente o do governador do Estado, que seria o provável novo presidente dos EUA. Depois de salvar a mocinha (Nancy Allen, ex-mulher do diretor, que também trabalhou em “Carrie” e em “Vestida para Matar” entre outros _e que, após se divorciar, só arranjou papel decente na série "Robocop"), que estava no mesmo carro que a vítima, o danado vai investigar a história, e aí...

    O filme transpira a perícia narrativa de De Palma, que abusa das internas em estúdio, da iluminação artificial e da fusão de imagens, deixando tudo em foco, criando planos maravilhosos. Travolta e Allen estão ótimos, e ainda temos John Lithgow (a estrela do fraco “Síndrome de Caim”), que, quando não faz papel cômico, é um psicopata.

    Novamente, há certas inverosimilhanças, mas o que seria do cinema sem elas? Até parece que a vida faz algum sentido...

    Femme Fatale: 7,5/10
    Um Tiro na Noite: 8,5/10

    P. S. Já que falamos em De Palma, quero aproveitar para indicar não um filme, mas uma trilha sonora: a de “Carrie”, de 1976. Composta por Pino Donaggio (o mesmo de “Um Tiro na Noite” e outros _também trabalhou com Joe Dante, que fez "Piranha" e "Gremlins"), traz, além do maravilhoso “score” instrumental, duas canções incríveis (belamente entoadas pela desconhecida Katie Irving) que retratam o tema principal da obra: o terror que é ser uma adolescente “esquisita” num mundo onde o que importam são os malditos preconceitos. Mas não é só isso... Abaixo, as letras, dignas da melancolia de um Morrisey, que dão o recado melhor do que eu.

    I Never Dreamed Someone Like You Could Love Someone Like Me

    Could it be that the lady is me in the photograph?
    I'm afraid 'cause it feels too good and I want it too bad
    It's just not true, couldn't ask for anymore than you, because you look at me
    As though I'm beautiful, could it be that you want me?
    I never dreamed someone like you could want someone like me

    I'm not sure, but the more that it's real, the more it's right
    Ooh, what a night, it's as though we've been lovers all of our lives
    There must be God! Could it be that He's heard me at last? Because you look at me
    As though I'm beautiful, could it be that lady is me?
    I never dreamed someone like you could want someone like me

    All the pain and the pleasure's the same, it goes so fast
    I'm the girl with the strawberry halo in the photograph
    So, come on, let's dance, let me have it while I have a chance
    ‘Cause there's another world where there are other girls, but tonight there's only me
    I never dreamed someone like you could love someone like me

    Born to Have It All

    Young girls, some are born to dance, born to take a chance
    Others sleep at home and they dance alone, no one even knows

    But you, you were born to touch, born to want too much
    Let the bodies fall, you were born to have it all, born to have it all

    And if you could cry, it would only be for more
    Born to be the girl in the mirror, and the others want to be her
    If a girl could wish, it would only be to be a girl like this
    Oh, but she has it all, and, for all they know, that is all there is

    Young girls, some are born to dance, born to take a chance
    Others sleep at home and they sleep alone... No one even knows

    quinta-feira, março 06, 2003

    O Chamado

    "Beijo na boca é coisa do passado. A onda, agora, é namorar pelado." Esta foi uma pequena amostra das sublimes e edificantes cançonetas que aprendi durante o Carnaval que passou.

    Falando nisso, o terror é interessantíssimo. Claro que não estou falando do Osama bin Laden, e sim do terror como forma de entretenimento. Quem nunca ouviu uma história de horror contada por aquele tio caipira que se encontrou com um fantasma numa noite escura e tal?

    Mas o terror no cinema é um caso especial. Mesmo a literatura ou a música ou as histórias em quadrinhos que pretendem ser assustadoras não são capazes de causar a tensão que um filme de terror proporciona. É algo desagradável e fascinante, ao mesmo tempo. Não é à toa que, quando a gente é criança, ficamos hipnotizados por esses filmes, mesmo sabendo que teremos pesadelos à noite...

    Entretanto (sim, eu disse “entretanto”), assim como o gênero gerou obras-primas (e o “Nosferatu” de Murnau talvez seja o exemplo máximo), muita porcaria tem sido feita, especialmente em Hollywood, que sacou há um bom tempo que o terror adolescente carrega uma porção de idiotas para as salas de cinema.

    É por isso que eu não ia assistir a “O Chamado”. Aconteceu que eu estava voltando de uma entrevista de emprego lá na PQP e perdi a hora para ver “Deus É Brasileiro” (que comentaremos em breve). E como já haviam me dito coisas boas sobre o filme...

    Pra começo de conversa: “The Ring” é uma refilmagem de uma produção japonesa de 1998, chamada "Ringu"... e é também homônimo de um dos primeiros filmes de Hitchcock (na verdade, o sexto), lançado em 1927, quando o diretor britânico, obviamente, ainda dirigia filmes mudos _por sinal, interessantíssimos, procurem nas locadoras. Depois, tem a tal da Naomi Watts, que já entrou para a história por ser a loira do maravilhoso “Cidade dos Sonhos” (o título escroto que deram para “Mulholland Dr.”). Mas o que realmente interessa: até que o filme é legalzinho.

    “O Chamado” não tem nada de “terrir”, como escreveu um crítico da Bolha. Também não tem o apelo adolescente da série “Pânico” ou de “Eu Sei o Que Vocês Fizeram...”. Mas é claro que ele traz alguns clichês, como mostrar uma morte logo de início, preparando o espectador para a ameaça iminente, além de trazer uma (ou mais de uma) criança sinistra em um dos papéis principais (e é lógico que a protagonista estará na mira da ameaça e será ajudada por uma espécie de “sidekick” _no caso, o ex-marido).

    A história é a seguinte: existe uma fita de vídeo (sim, ainda o velho VHS de “Videodrome”). Quem assiste à bagaça, que traz umas imagens aparentemente desconexas, morre após exatamente sete dias. É uma bela premissa.

    Mas o legal mesmo em “O Chamado” é que se trata de uma história que só o cinema pode contar. E o filme, repleto de imagens muito bem cuidadas, carrega uma ironia muito boa: teoricamente, você também deveria morrer, sete dias após tê-lo visto. É a única parte que não se fecha...

    Em suma: nada mal para um cara que antes havia feito “O Ratinho Encrenqueiro” e “A Mexicana” (notaram o padrão?)... Só que eu ainda prefiro “O Bebê de Rosemary”.

    Nota: 7/10

    P. P. S. Celly Campelo, o “broto legal”, foi de uma importância extraordinária para o pop brasileiro. Batam os sapatinhos por ela.

    sexta-feira, fevereiro 28, 2003

    O Grande Ditador

    Ai, a bruxa vem aí. E não vem sozinha, vem na base do saci.

    Traduzindo: minha carne é de Carnaval. Meu coração é igual.

    Mas, como o tempo urge durante os cinco melhores dias do ano (especialmente quando se está na melhor cidade do mundo), nada de elucubrações esdrúxulas sobre temas impertinentes; vamos direto ao que interessa (?).

    A Segunda Guerra Mundial ocorreu justamente na época em que o cinema era, ao lado do rádio (e, em menor escala, dos gibis), o grande instrumento da indústria de comunicação e de entretenimento. Obviamente, a produção cinematográfica foi bastante afetada nesta época, em especial na Europa, onde o bicho estava pegando (Paul Virilio escreveu um ensaio bastante conhecido sobre o assunto, fica a dica para quem quiser detalhes).

    Chaplin, um dos principais nomes da sétima arte em vários sentidos (sua contribuição é artística, comercial, de formação etc. _enfim, um beatle do cinema), não ficou indiferente. Seu Vagabundo (aqui chamado de Carlitos _nunca entendi o “s” no final da nossa tradução para “Charlie”_, assim como na França ele é Charlot, por exemplo) era, entre muitas outras coisas, um personagem político: se “O Garoto”, “O Circo”, “A Corrida do Ouro” e “Luzes da Cidade”, para citar apenas os mais famosos, não são claros exemplos de denúncia social por meio de uma obra de arte, então quero ser um mico de circo mordido por macacos que comem shorts.

    Então estamos no final da década de 30, os EUA ainda estão se recuperando da ressaca causada por 1929 (“New Deal”, Roosevelt e tal), Hitler põe as manguinhas de fora e anexa a Áustria à Alemanha e Chaplin, se quiser continuar no ramo dos filmes (do qual fazia parte há mais de 25 anos _na época do lançamento de “O Grande Ditador”, o velho Charlie já tinha passado dos 50), precisa dar o braço a torcer e fazer, oh, um filme falado.

    Após “Tempos Modernos” (na minha opinião, sua obra-prima e melhor filme de todos os tempos, assim como “Funhouse”, dos Stooges, é, indiscutivelmente, o melhor disco de rock já feito), talvez o exemplo mais clássico de transição (bastante tardia) do cinema mudo para o sonoro, não havia escapatória: o Vagabundo precisaria falar. Ah, mas Chaplin sempre disse que o Vagabundo não poderia falar... Então, a solução (que ele também adotaria em “Monsieur Verdoux” e em “Luzes da Ribalta”) foi criar versões do Vagabundo que não eram exatamente o Vagabundo...

    No filme, Chaplin se divide entre dois personagens: o Barbeiro Judeu (veterano da Primeira Guerra, ferido em “combate” após salvar a vida de um figurão) e Adenoid Hynkel, o ambicioso e furibundo chanceler da Tomania. Hynkel, claro, é uma paródia de Hitler (que era uma paródia infeliz do Vagabundo?), assim como seu aliado “ma non troppo”, Benzino Napaloni (o bambambã de Bacteria), é uma alusão a Mussolini (mas, ah, não só: Napaloni é também uma sátira à típica fanfarronice norte-americana, observem). Claro que se trata de esforço de guerra (embora sem escrotice): ridicularizar para desmoralizar. A comédia é uma arma poderosa, o riso tem valor: chute a bunda de seu inimigo e prive-o de sua dignidade.

    E, apesar de todas as rupturas que “O Grande Ditador” representa na carreira do artista, Chaplin ainda está bastante preso ao estilo que o consagrou: os grandes momentos do filme são “gags” puramente visuais, altamente apoiadas em sua admirável habilidade física, como o manejo do canhão, a dança com a mulher de Napaloni, as brigas com as milícias no gueto, os discursos de Hynkel (dos quais não entendemos patavina), a cena com a moeda no pudim e o famosíssimo balé com o globo terrestre (um dos momentos de maior poesia na história das “imagens em movimento”).

    A exceção espetacular, que justifica o uso do som e que dá outro golpe no chanceler nazista (já que os discursos “dele” são desprovidos de sentido), é o famoso “Último Discurso”, como acabou sendo chamado por aqui (e reproduzido em um sem fim de camisetas, guardanapos, calendários, cartões... e websites). Ainda pertinente, traduz em palavras, pela primeira vez, todo o humanismo que Chaplin transpirava intensamente em cada filme. Ali estão o apreço pela democracia, a defesa da sensibilidade, o questionamento do progresso impensado (“Não sois máquinas! Homens é que sois! Vai descendo na boquinha da garrafa!” _OK, esta última frase é só para ver se vocês ainda estão prestando atenção), enfim, a mensagem que acabou sendo confundida com comunismo e que o fez ser expulso dos EUA (uma ingratidão, injustiça estúpida contra um dos pilares de Hollywood). Ergue os olhos...

    Nota: 10/10

    P. S. Cerca de dez dias depois de ter visto este filme em companhia da querida Vanessa, fui até à bela Sala Cinemateca (conhecem? Muitos filmes importantes a um ingresso baratíssimo) ver "The Idle Class" e "The Kid". As cópias eram em 16mm e sem som, o que tirou a emoção e deixou as obras incompletas. Ainda assim, valeu muito a pena rever estas obras.

    A segunda, um clássico, dispensa (na verdade, não, mas abusemos do clichê) comentários; a primeira, um curta, novamente traz Chaplin se dividindo entre um personagem pobre (o Vagabundo, claro) e um ricaço. Este último protagoniza uma das cenas que resume o gênio de Chaplin e que exemplifica o encanto exclusivo do cinema mudo: Chaplin, de costas para nós, pega nas mãos o retrato de uma mulher; após colocá-lo de volta na mesa, começa a sacudir os ombros, como se chorasse compulsivamente a perda da amada. Mas, ao virar-se para nós, vemos que ele está preparando um drinque numa coqueteleira. Da tragédia à comédia em frações de segundo.

    domingo, fevereiro 23, 2003

    Os Cafajestes / Navalha na Carne

    Mamãe, quando eu crescer, eu vou comer a Madonna.

    Mas Jece Valadão (cujo nome verdadeiro é, ui, Gecy) é o cara, não? Ator, diretor, produtor e bon vivant. É um nome importante do nosso cinema, um exemplo a ser seguido _tá, não precisa virar evangélico depois de velho e dizer cretinices como "gay é um apanhado do diabo"...

    OK, falando sério, se a obra do cafa-mor do Brasil tivesse se limitado apenas às atuações nestes dois filmes que intitulam este texto e à do fantástico “Boca de Ouro”, de Nelson Pereira dos Santos, já valeria sua entrada na história (isso me lembrou aquela HQ do Laerte e do Angeli, que saiu na saudosa “Chiclete com Banana”, na qual a Gal Costa faz papel de astróloga).

    Então o Canal Brasil resolveu inventar, no meio de janeiro, a “Semana Cinema Novo”. Dentre os filmes exibidos, escolhi rever “Os Cafajestes” (1962), estréia de Ruy Guerra no longa-metragem, se não estou vergonhosamente errado. Um filme famoso pela cena em que a Norma Bengell (aquela atriz que, dizem, comprou um apê de R$ 1 milhão com dinheiro desviado do orçamento do seu filme “O Guarani” e que, para piorar, ganhou beijo na boca do então presidente Itamar, eca) fica pelada na praia.

    Sem rodeios: o filme de Guerra bebe descaradamente da então nascente Nouvelle Vague francesa. Valadão, dirigindo um carrão e usando óculos escuros, é igualzinho a Belmondo em “Acossado”. Bengell, andando pela cidade, é Deneuve em “Repulsa ao Sexo” (tá, este foi feito depois...). Daniel Filho (em seu papel mais conhecido como ator), com a máquina fotográfica a tiracolo, parece... não, não parece, não. Mas o final do filme, ah, este lembra demais “Os Incompreendidos”...

    O enredo mostra dois amigos chegados numa anfetamina que, para descolar um tutu (como diziam na época), resolvem fotografar (à força) uma ex-amante e a filha de um magnata, para depois chantageá-lo. Tem mais, mas isso você vai ver quando assistir ao filme.

    A fotografia é linda, não-naturalista, e quase tudo se passa na praia _há poucas informações urbanas, e é evidenciada uma relação bastante tradicional no cinema brasileiro, a do homem com o oceano. Também há, como bônus, a música (pouco aproveitada) de Luiz Bonfá (em outra cena, toca “Dindi”, de Jobim, no rádio, o que ajuda a associar o filme à bossa nova), e a personagem Vilma (intertrepada por Lucy de Carvalho), que é muito mais gostosa do que a Leda de Bengell... É, trata-se de um filme em tanto difícil para quem não curte uma vanguarda. Mas é bom.

    Outro filme bonzaço estrelado (e, neste caso, também produzido) pelo cafa-Jece é “Navalha na Carne” (1969), baseado na peça de Plínio Marcos (a quem eu visitei numa quitinete do Copan, numa nublada tarde de setembro, em 1995, poucas horas antes de eu ir entrevistar o José “Zé do Caixão” Mojica Marins. Ele recebeu a mim e a umas amigas muito mal, mandou a gente tomar no cu e tudo, mas acabamos batendo um papo legal, ele contou várias histórias engraçadíssimas. Qualquer dia conto mais pra vocês, em algum bar da vida). Vi o filme também no Canal Brasil, em 19 de fevereiro.

    Dirigido por Braz Chediak, que também adaptaria Nelson Rodrigues, traz no elenco dois outros atores maravilhosos: o grande e subaproveitado Emiliano Queiroz (que, aqui, também é co-roteirista) e a incrível Glauce Rocha. Não é fraco, não.

    A parte “cinematográfica”, digamos, é o início (um tanto longo) do filme: vemos cenas do cotidiano dos três personagens principais, sem o som de suas falas, mas ouvindo seus passos e outros ruídos. Depois, a parte mais “teatral”, em apenas um cenário (o quarto do cafetão Vado, personagem encarnado por Valadão), onde toda a história se desenrola, em planos longos.

    E a história é a seguinte: ao chegar de um dia duro (bota duro nisso) de trabalho (ou seja, dar para o Carlos Kroeber, aquele gordão alemão que fez o papel do milionário escroto em “Bonitinha, Mas Ordinária, outro filme do Chediak), a prostituta Neusa Sueli leva a maior bifa do seu cafifa. O cara está puto porque a puta não deixou nenhum dinheiro para ele comprar maconha, forçando-o a ficar em casa coçando o saco o dia inteiro. Depois de apanhar, ela conta que deixou o dinheiro no criado-mudo, o que os faz suspeitar de Veludo, rapaz alegre que trabalha e mora na pensão em que vivem. Tem mais, mas...

    Algumas coisas que estes filmes têm em comum, além da presença de Valadão: ambos são extremamente politicamente incorretos, o que me deixa um tanto chateado, não com os filmes, mas com a tremenda caretice do mundo atual. Hoje em dia é bem mais difícil ver filmes que vão tão fundo na crueldade dos homens (“O Invasor”, “Cidade de Deus” e “Madame Satã”, por exemplo, não chegam nem perto, e olha que em nenhum dos dois filmes abordados neste texto contêm cenas de morte).

    Outro aspecto marcante é a presença da... cafajestagem, do machismo deslavado. Em “Navalha na Carne”, a coisa é ainda pior do que em “Os Cafajestes”. Vado abusa de Neusa Sueli não apenas fisicamente (e não se trata apenas das porradas, mas também da falta de esporradas), mas psicologicamente: ele deixa bem claro que está com ela apenas pela grana e que a acha velha, feia, chata, burra etc. E Glauce Rocha consegue assustar bem mais do que a menina de “O Exorcista” na cena final, usando apenas sua expressão facial. Impressionante.

    Os Cafajestes: 9/10
    Navalha na Carne: 9/10

    P. S. Vi, semana passada, “O Americano Tranqüilo”, filme que deu mais uma indicação ao Oscar para Michael Caine. O filme é quadradíssimo, meia-boca, portanto não vai ganhar um texto só para si. E olha que o filme prometia, pois, além de Caine, traz outro ator de respeito, Brendan Fraser (versatilíssimo, está em filmes “de arte” como “Deuses e Monstros”, em leves comédias como “Bedazzled” e em besteiras como “George of the Jungle”). O cenário, a Saigon de 1952, é o que há de mais interessante, ao lado da extrema beleza da estreante Do Thi Hai Yen, que interpreta Phuong. Além de uma história que mistura política e romance, temos um retrato um tanto diferente do Vietnã que costumamos ver nos filmes americanos: quem está em guerra com os comunistas vietnamitas são os colonialistas franceses, que perderão a guerra, o que dará início à intervenção ianque no país. O resto é história...

    P. P. S. Crianças, aprendam como se faz. Divirtam-se. E durmam com os anjinhos.

    sábado, fevereiro 15, 2003

    Os Palhaços / A Estrada da Vida

    Aaaaah, eu até queria ir ao show do Bryan Ferry, mas a minha atual e desesperadora situação desempregatícia não permite nem uma cervejinha... Ninguém aí está sabendo de um trampo jornalístico/literário/audiovisual? Nem consultoria de RH está funcionando...

    Pelo menos o meu atual bico de tradutor acabou de me trazer uma boa notícia: terei a honra e o prazer de verter para o português a obra-prima do fantástico escritor britânico Warren Ellis (que tem blog), a série “Transmetropolitan”, que está sendo publicada no Brasil pela editora Brainstore.

    “Transmet”, como é apelidada, conta a história de Spider Jerusalem, um jornalista/escritor que vive nos EUA, em um futuro distante, mas que, na verdade, se refere à nossa época. Não é apenas uma obra de ficção científica, mas também um libelo político de primeira qualidade _durante boa parte da saga, o anti-herói, “jornalista fora-da-lei”, cobre as eleições presidenciais norte-americanas. Entre os fãs de "Transmet" estão o cineasta Darren Aronofsky e o ator Patrick Stewart, que, dizem, queria interpretar Jerusalem no cinema. Não se atreva a perder.

    Falando nisso, a terceira parte de “Filho do Homem”, a melhor história que Garth Ennis já escreveu para o personagem John Constantine, está nas lojas. “Hellblazer” é diversão garantida. Tá, sei que pega mal ficar fazendo propaganda, mas é que o negócio é legal mesmo. Se fosse uma merda, eu não recomendaria.

    Mas vamos falar um pouco daquele rapaz que inspirou o nome da banda preferida do Rodney. Talvez o mais paparicado dos diretores italianos, Federico Fellini anda em alta nas salas de São Paulo. “Amarcord”, filme que evoca sua Rimini dos tempos da infância, está em cartaz, e os dois filmes cujos títulos você já leu acima também deram o ar de sua graça na capital paulista.

    “I Clowns” foi visto por mim e pela maionésica Vanessa no dia 14 de janeiro, na sala 2 do DirecTV. O tema do filme, feito originalmente para a TV, é, obviamente, o circo, esta instituição cuja decadência o Fellinão já constatava há mais de trinta anos.

    Bem na época em que fomos vê-lo, foi anunciado o fechamento do Circo Garcia, um dos mais tradicionais do Brasil. Quando eu era criança pequena lá em Votupa, no terreno onde hoje há um supermercado, em frente à antiga rodoviária (sim, tudo mudou), sempre um circo revezava com um parque de diversões, coisas que não existem mais _assim como a maioria das salas de cinema.

    Lembro de ter ido ao Circo Vostok, ao Orfei, ao Circo Espacial (na época em que o Marcos Frota fazia o papel de um trapezista numa novela das sete _foi a primeira “celebridade” que vi ao vivo, argh) e, o que mais me entusiasmou, um circo da Lécio Pneus que trouxe os Trapalhões (menos o Renato Aragão) à cidade. Assim como eu vi os Ramones ao vivo quando eu tinha 17 anos, eu vi Dedé, Mussum e Zacarias quando tinha uns 9. Esses tesouros ninguém tira de mim, uh-yeah.

    Na TV, também pululavam os palhaços: no “Bambalalão” apareciam o Tic-Tac e o Picolino. Alguns anos depois, era a vez dos chatíssimos Atchim e Espirro. Antes deles, Carequinha e Arrelia fizeram história. Sem falar nos já citados Trapalhões, espécie de palhaços sem máscara que só começaram a ser levados um pouco mais a sério (no bom sentido) após Carlos Drummond de Andrade se declarar fã. Acho que dá pra botar o Chaves e sua trupe nessa roda, também...

    Mas o texto já ficou gigante e eu nem falei do filme ainda: “Os Palhaços” já traz Fellini cristalizado, com seu estilo (“não-convencional”, nas palavras da Van, que nunca havia visto um filme do diretor) plenamente desenvolvido: uma beleza plástica arrebatadora (ui), cores em profusão, figuras esdrúxulas (e aí os diferentes tipos de palhaços, com suas indumentárias absurdas, caem como uma luva) a granel... Enfim, uma festa, enfeitada pela presença um tanto forçada, mas nem por isso desprezível, da ex-musa Anita Ekberg (já viram “Hollywood or Bust”, com Martin e Lewis? No Brasil chamou-se “Ou Vai ou Racha”... Vejam, vejam).

    O legal é que o filme não é deprimente, não apela para sentimentalismo barato nem explora o clichê do “lado triste do palhaço”... É estranho que uma pérola como esta seja encarada pela “crítica especializada” como um “Fellini menor”... Tsc, tsc.

    Já “La Strada”, considerada pela mesma “crítica especializada” como a primeira obra-prima do diretor, também aborda o mundo do circo, mas de um jeito bem diferente. O clássico, de 1954, visto por nós no dia 30 de janeiro, no mofado Cinearte, contrapõe duas figuras marcantes: o bruto, violento, egoísta, chauvinista e covarde Zampanò (Anthony Quinn, um gigante) e a pobre ingênua, melancólica e um tanto abilolada Gelsomina (Giulietta Masina, a esposa do diretor). Esta é uma das mais famosas personagens do universo felliniano (você sabe que um artista é bom quando seu nome vira adjetivo?) e também é, provavelmente, a mais acabada versão feminina do Vagabundo de Charles Chaplin. Troque a bengalinha de Carlitos por um trompete e voila: temos Gelsomina.

    O filme é um dramalhão (a música de Nino Rota, compositor do famoso tema de “O Poderoso Chefão”, evidencia isso), e seu final, triste e devastador. Apesar de um filme extraordinário e antológico, “A Estrada da Vida” ainda é Fellini em estado embrionário, aquém do nível que alcançaria em produções futuras. Tá, um monte de gente vai discordar de mim, vão me xingar (?) de Paulo Francis de novo e tal... Deixa estar, vou lá tentar o número da corrente.

    Os Palhaços: 9/10
    A Estrada da Vida: 8,5/10

    P. S. Quem achou “Limite” uma chatice deve passar longe de “Arca Russa”. O filme é belíssimo. Um espetáculo.

    P. P. S. Dolly (o clone mais famoso do mundo, depois do Murilo Benício) morreu. Antes ela do que eu...

    terça-feira, fevereiro 11, 2003

    Let It Be

    O corpo é um organismo delicado. Quando estiver com febre, preste bastante atenção: algo está muito errado dentro de você. É ruim. Mas é bom.

    E febre me lembra os Beatles.

    Andou circulando por estes dias a notícia de que uma nova versão de "Let It Be" (trilha sonora do quarto e último longa protagonizado pelo grupo) será lançada este ano. A diferença é pouca: em três músicas ("Across the Universe", de Lennon, "I Me Mine", de Harrison, e "The Long and Winding Road", de McCartney), se não estou enganado, os arranjos de coro e orquestra adicionados pelo produtor e talvez homicida Phil Spector (é importante lembrar que o disco foi gravado no início de 69, antes do derradeiro "Abbey Road", mas só foi lançado cerca de um ano e meio depois, quando a banda já havia se separado e McCartney e Ringo já haviam lançado seus discos solo), colocados à revelia do grupo, serão retirados. Em outras palavras: ouviremos as músicas tal qual estão no filme.

    Mas não assisti a "Let It Be" por causa desta notícia. Estava eu, simplesmente, naquela delícia de cidade ardente que é Votuporanga, ainda no ano da desgraça de 2002, curtindo (na pele) férias involuntárias. Depois de ir, também involuntariamente, a um baile funk promovido por uma rádio local (tinha uma banda mato-grossense com dois sanfoneiros e tal), eu precisava limpar os ouvidos, e peguei a fita emprestada de um amigo, professor de história e beatlemaníaco desde a mais tenra idade, baby.

    Uma das coisas mais legais a respeito de "Let It Be" é a seguinte: não se trata de um documentário ortodoxo, desses em que os personagens ficam dando depoimentos, intercalados por cenas que meramente ilustram o texto em off. Naaada disso, Babalu. O filme simplesmente mostra os Beatles ensaiando em Abbey Road e em um outro estúdio (de cinema), com uns enquadramentos esquisitos. Ninguém explica nada. O que ajuda a explicar muita coisa.

    "Let It Be", que, a princípio, se chamaria "Get Back", é, basicamente, um projeto de Paul McCartney, que, àquela altura, era o indiscutível líder do grupo _um dos motivos da separação é o fato de ele insistir para que seu sogro fosse o novo empresário da banda, o que cristalizaria ainda mais sua posição de "superior"...

    Paul é o único que demonstra estar cônscio da presença das câmeras. É o único que interage com elas, esforçando-se para aparecer bem na fita. Não é à toa que ele se destaca, assim como suas canções (em especial, "Let It Be", "The Long and Winding Road" e "Get Back", esta última tocada duas vezes). George, que não queria fazer o filme, só leva bronca do Macca, e John Lennon está simplesmente defecando e dançando valsa com a Yoko Ono, que deve ser a melhor mulher do mundo em todos os tempos. O Ringo? Ah, ele tá lá e tal...

    Por não ser um documentário explicitamente didático, dá para assistir várias vezes, sem se cansar, como se estivéssemos apreciando um show. Além das canções que saíram no "Let It Be", também aparecem algumas de "Abbey Road" e uns rocks antigos, como "Besame Mucho", "Rip It Up", "Shake, Rattle and Roll" e a fantástica "You Really Got a Hold on Me", tudo em climão de ensaio, inclusive com troca de instrumentos (Ringo e George tocam piano, Lennon vai para a bateria, Paul pega o violão, George manda ver no baixo etc.).

    No final, temos a íntegra do famoso e inusitado show no teto do estúdio. Os fabs conseguiram tocar meia dúzia de canções, antes que a polícia subisse até lá e os ameaçasse de prisão _Paul ironiza a respeito durante a última execução de "Get Back", completada com um gracejo de John. Não é um show antológico apenas por ser a última apresentação pública da maior banda de rock e fábrica de dinheiro da indústria fonográfica da história, mas porque é um concerto excelente, com os Beatles no auge da forma (já ouvi mais de um rockstar declarar que aprendeu a tocar guitarra observando o George neste filme). Sim, os Beatles se separaram no melhor momento criativo de suas carreiras. Por um lado é triste, mas, pelo outro, é a melhor coisa que poderia ter acontecido. Basta olhar para os Rolling Stones...

    Nota: 8/10

    P.S. Falando nos cabeludos e tal, li, recentemente, pelo menos dois textos (um na Salon e outro no no.mínimo) que afirmam o que sempre foi muito óbvio: Paul McCartney era o melhor músico/compositor/performer na banda. Duh, redescobriram a América.

    Meu preferido (todo fã dos Beatles tem o seu) é e sempre será o George, mas é preciso reconhecer que o grupo não seria nada se não fosse o velho Macca, seu baixo Rickenbaker, sua voz mutante, suas canções mezzo singelas, mezzo vanguardistas e sua carinha de baby Johnson. Lennon também era um gênio e tinha uma personalidade explosiva, o que lhe garantia maior atenção da mídia (muitíssimo ironicamente, acabou transformado em uma espécie de Cristo moderno, após seu assassinato) e tal, mas seu talento não tinha a abrangência do seu parceiro mais jovem. It's true, it's true.

    P. P. S. Vi hoje "Adaptação", segundo filme do Spike Jonze. Beeem melhor do que "Quero Ser John Malkovich", mas, a exemplo deste, também se perde um pouco no final. Falaremos mais no futuro, aguardem. E assistam.

    P. P. P. S. Coyotes, olhem para a Lua e uivem para José Lewgoy, que poderia ter sido um Anthony Quinn, não tivesse nascido aqui no cafezal. Depois, aplaudam.

    segunda-feira, fevereiro 03, 2003

    O Pai do Povo

    Apesar de eu escrever umas sandices sobre cinema neste minifúndio improdutivo e de ter escrito muitas outras sobre música em uns jornais e revistas aí, a minha especialidade mesmo é literatura, manja?

    E, dentre as leituras que mais me dão prazerrr, por sua complexidade e capacidade de gerar fascínio intelectual, emotivo e, por que não?, erótico, estão os rótulos de shampoo (dá licença, “xampu” é feia demais). “Modo de usar: Aplique nos cabelos molhados, massageando até formar espuma. Enxágüe. Repita a operação, se preferir.” Uau. Delírio. Cadê o Nobel? O Jabuti?

    O problema é que, por causa dos malditos rótulos da frente, mais padronizados do que textos jornalísticos medíocres, eu vivo comprando condicionador (que não uso. Se pelo menos desse pra beber...) por engano. E os textos dos rótulos de condicionador não têm o mesmo charme. Ora, bolas.

    Mas, então. De graça, até injeção no olho, certo?

    Não, leitores (ó o toque machadiano aqui, ó), os condicionadores não vêm de graça. Cinema em São Paulo, sim. “É só entrar”, disse a bilheteira do Cinesesc, uma das salas mais charmosas da capital imunda, durante um dos dias da mostra Únicos Pecados, que, no final de 2002, exibiu filmes de diretores com apenas um longa no currículo.

    Calhou que a inflamada Vanessa e eu acabamos indo à sala justamente quando estava passando “O Pai do Povo”, curiosidade desimportante dirigida em meados dos anos 70 por Jô Soares, humorista que apareceu no cinema ainda nos anos 50 (participou de uma chanchada de Carlos Manga, a famosa “O Homem do Sputnik”, que tentou fazer de Norma Bengell a Brigitte Bardot brazuca) e, à época de sua aventura na direção de um longa, participava de programas humorísticos da rede Globo, sendo o mais lembrado deles “Satiricon” (lembra o nome de um filme de Fellini), uma espécie de precursor do “TV Pirata”.

    Eu me lembro de quando era criança e assistia ao “Viva o Gordo”, programa que Jô protagonizava às segundas-feiras (quinta-feira era o dia de “Chico Anysio Show”, e o resto da semana exibia séries estrangeiras e outros programas, sob alcunhas como “Terça Nobre” e “Sexta Super”. Ai, meu reumatismo). Até que eu gostava _especialmente do figuraça Paulo Silvino. Mas, hoje, quando o Jô reprisa trechos desse programa no quadro “No Fundo da Caneca”, a gente vê o quanto o gordo era sem graça.

    Em “O Pai do Povo”, é como disse a Van: “ele fez o papel de quem ele gostaria de ser”. Tal papel é o do “magnífico” Contreras, o todo-poderoso de uma ilhota chamada Silvestria, que, pasmem, tem a forma do rosto de Jô Soares... Ah, há estátuas do personagem espalhadas por toda a parte, durante todo o filme. Ego? Ora, o que é isso...

    E Jô é um péssimo ator. O que ele se limita a fazer durante todo o filme é dar risadas canalhas e ostentar o “V” da vitória com os dedos de sua mão direita _a outra segura o indefectível charuto.

    O ponto de partida até que não é mau (e me lembra “O Dorminhoco”, filme meia-boca que o Woody Allen havia feito pouco antes): depois da explosão simultânea de três bombas atômicas, todos os homens do mundo se tornam estéreis, menos um silvestrense, que trabalhava num encanamento de chumbo. Sendo o único homem fértil do mundo, o humilde indivíduo torna-se peça-chave para o futuro da raça humana. E Contreras, esperto, transforma-o no “pai do povo”, cobrando US$ 500 milhões de cada país que quiser enviar uma mulher para ser fecundada pelo feioso.

    Em suma: é uma pornochanchada típica da época, com direito a peitos (ainda sem silicone) e humoristas de meia-tigela, como o Agildo Ribeiro (cadê o Costinha?). Tá, há momentos engraçados, mas outros são simplesmente vexaminosos... ou seja, sintetiza bem o nosso cinema em meados dos anos 70. Agora, com licença. Vou lá lavar a minha juba...

    Nota: 5,5/10

    P. S. Em contrapartida ao artigo do Sabadin, vá de Matt Groening e sua cáustica "Life in Hell". Desculpem, não lembro onde vi isto...

    Na platéia