O Mágico de Oz / Labirinto, a Magia do Tempo / Veludo Azul
Há um mundo bem melhor, todo feito pra você. É um mundo pequenino, que a ternura fez.Direto ao assunto: e daí que o filme de Victor Fleming (de “...E o Vento Levou”) que eternizou a Judy Garland tenha uma história super básica, e que a gente perceba perfeitamente os fundos pintados do estúdio ou que vejamos claramente o fiozinho que sustenta o rabo do Leão Covarde? Passados 65 anos, “O Mágico de Oz”, que eu vi pela primeira vez na “Sessão da Tarde” (quando a programação, apesar de passar filmes fracos, volta e meia despejava na molecada clássicos como este, além de Chaplin, Jerry Lewis, o “Robin Hood” com Errol Flynn, “O Pássaro Azul” com Shirley Temple etc.) ainda é uma diversão de primeira para pais e filhos.
E não é só a música, realmente maravilhosa (as letras das canções que versam sobre a morte da Bruxa Má do Oeste, os objetos de desejo de cada um dos companheiros de Dorothy e a clássica “we’re off to see the Wizard, the wonderful Wizard of Oz” são riquíssimas em rimas e em aliterações), que faz deste filme um espetáculo: as caracterizações das personagens são perfeitas, da bruxa aos (ótimos) Munchkins, passando pelo Totó. Outros destaques vão para as atuações de Ray Bolger como o Espantalho (por sua habilidade como dançarino), Bert Lahr como o Leão Covarde (por seu talento para a comédia) e para Margaret Hamilton como a Bruxa Má do Leste (pelo physique du rôle). Ah, e aquele lance da sincronicidade entre o filme e “Dark Side of the Moon”, do Pink Floyd, é bacaninha.
“Labyrinth”, de 1986, eu vi no cinema e não fiquei muito impressionado (lembro de ter gostado mais de “O Cristal Encantado”, do mesmo diretor). Hoje, ao revê-lo, não me surpreende tanto o fato de ele ter se tornado um clássico infantil contemporâneo, já que ele reúne uma série de grandes nomes: George Lucas assina a produção executiva; Terry Jones, do Monty Python, encabeça o roteiro; Jim Henson, o diretor, deveria dispensar apresentações, pois é um dos maiores idealizadores de produções infantis para TV e cinema (o cara só criou “Vila Sésamo” e os Muppets...); ainda temos Jennifer Connelly (responsável pelo desenvolvimento precoce da sexualidade em muitos meninos), que já era boa atriz, no papel principal, e David Bowie contribuindo com boas canções para a trilha. Há cenas que valem a pena, como o delírio da protagonista durante a canção “As the World Fall Down” e todas aquelas na qual a hilariante personagem Sir Didymus aparece. Difícil de engolir, só a peruca que o Bowie roubou da Tina Turner e a tentativa de realização de um “Labirinto” brasileiro, que se acabou se chamando “Super Xuxa contra o Baixo Astral”.
“Blue Velvet” (1986), do nosso velho amigo David Lynch, está longe de ser um filme para crianças, mas existe nele (como existem em alguns outros filmes do diretor) algo de histórias para a infância. Por exemplo, a obsessão de Lynch com “portas” que levam a outros mundos, como ocorre nos filmes supracitados, nos livros de Carroll com Alice e em outros do próprio Lynch. Aqui, a tal passagem é representada por uma orelha humana (coberta de formigas, num plano que lembra bastante o da mão em “Um Cão Andaluz”, o clássico filme surrealista), encontrada por Jeffrey (Kyle MacLachlan, cria de Lynch), um decente jovem que larga a escola para cuidar do pai doente.
Jeffrey, sem dúvida, combina com o ambiente de Lumberton, uma cidadezinha interiorana dos EUA que, como o nome indica, vive do comércio de madeira (o locutor da rádio é engraçadíssimo _sim, Lynch tem um baita senso de humor). Ao som da canção de Bobby Vinton que intitula o filme (aliás, todo o design de som é primoroso), vemos cercas brancas e flores, crianças atravessando a rua para ir à escola, um simpático bombeiro acompanhado de um cachorro nos acena em câmera lenta (tamanho bucolismo pede para ser perturbado). Também combina com ela a personagem de Laura Dern (então com 18 anos), a encarnação da inocência. Não só ela se chama Sandy, como é loirinha, usa vestidos comportados e namora o jogador de futebol americano do colégio _exatamente como a personagem de Olívia Newton-John em “Grease”.
Mas a inocência de ambos será conspurcada quando Jeffrey, investigando a tal da orelha, se envolve com Dorothy Vallens, a “blue lady” (“O Anjo Azul”?). A terceira (e mais conhecida) personagem de Isabella Rossellini no cinema não apenas se chama Dorothy, mas canta “Blue Velvet” como uma caricatura da interpretação de Judy Garland para “Over the Rainbow”, além de usar sapatos cor de rubi, praticamente idênticos aos da adolescente do Kansas. Só que esta Dorothy, sempre maquiada como uma boneca estilhaçada, arrasta Jeffrey para um mundo de perversão, faz com que ele “coloque sua doença” dentro dela, o que fará o jovem chorar e se perguntar o porquê de tanta desgraça neste estranho mundo em que vivemos.
A culpa de tudo seria de Frank Booth, um homem “doente e muito perigoso” no dizer de Jeffrey. Frank (Dennis Hopper, recém-liberado de uma clínica de desintoxicação, praticamente recomeçando sua carreira), seqüestrador, estuprador, assassino, corruptor e traficante, coloca as palavras fuck, fucking e fucker em todas as frases que diz, mas se emociona quando ouve Dorothy cantando com voz de veludo ou vê seu amigo Ben, o “suave” (brilhante caracterização de Dean Stockwell), dublando Roy Orbison. Na verdade, a culpa é toda de Lynch (originalmente um pintor), que tem esta mania de fazer obras que podem ser vistas muitas vezes, sem se tornarem desinteressantes. É claro que isto não impediu o filme (que teria quatro horas de duração, mas, por exigência de Dino de Laurentiis, teve de ser cortado pela metade) de ser muito mal recebido... o que não é uma grande surpresa, dado o estranho mundo em que vivemos.
P. S. Quer brincar de dirigir um estúdio em Hollywood? Tó.