A gruta é mais extensa do que a gruta

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    sábado, setembro 20, 2008


    Milhem Cortaz e Vanessa Prieto em "Nas Duas Almas"

    Não posso deixar de comentar mais duas experiências recentes de exibição de trabalhos em que estou envolvido. O primeiro foi na Sessão do Comodoro passada, quando o segundo curta-metragem dirigido pelo Vebis que montei teve sua segunda exibição pública _mas agora na versão finalizada, mais curta (mas não tanto quanto eu gostaria _típico de montador). Eu tenho um nível extremo de autocrítica e é muito difícil eu gostar muito de algo que tenha feito, mas confesso que, apesar de alguma ou outra coisa no vídeo me incomodar (a não ser quando o incômodo é proposital, como na cena das meninas _ela realmente foi pensada pelo Vebis para ser irritante, e a montagem picotada foi feita para gerar este efeito), confesso que me emocionei com a cena no bar, na qual o Milhem Cortaz (excelente _e como disseram dois mestres, Carlos Reichenbach e Inácio Araújo, que muito nos honraram com suas visões, é a primeira vez em que ele aparece glamourizado, como herói romântico, e funciona) conclui que "amar deixa a gente velho" _talvez a grande fala do filme. Também fiquei muito feliz com os vários elogios à minha cena preferida, a da briga no carro, justamente a que mais desafios me apresentou na montagem. Parabéns ao Vebis, e espero que essa nossa parceria renda outros frutos _já temos projetos em vista, vamos nessa.

    (Update: Leandro Caraça também escreveu sobre "Nas Duas Almas". Perdôo ele ter errado meu nome por ele ter pedido aplausos para minha montagem, hehehe.)


    Gustavo Engracia com a camiseta que cita Humberto Mauro

    A outra foi a exibição de "A Volta do Regresso" no 6º Curta Santos, numa sala clássica da cidade, o Roxy Gonzaga _que também seguiu a onda e se tornou um multiplex. A maioria das projeções do filme tem apresentado problemas diversos _desta vez, o que me incomodou foi o estado da cópia, já bastante deteriorada. O filme agradou e recebi muitos elogios durante o debate, mas eu gostei bem menos dele. Faz dez meses que ele foi finalizado e, com a poeira baixando, fica mais claro para mim que eu gosto bastante do elenco e da trilha sonora, acho o roteiro bom (embora eu quisesse ter feito melhor e não tenha conseguido, está infinitamente acima da média do que se faz para curtas) e todo o resto deixa a desejar (talvez eu esteja sendo um tanto cruel, mas é o que sinto no momento). Mas também sinto um certo orgulho ao não conseguir negar que, apesar de todos os seus problemas, este filme realmente cumpre o papel que eu queria que ele cumprisse: o de ir na contramão de tudo que é considerado aceitável, de "bom gosto", "correto", "na moda". Enfim, ele se nega a perpetuar os dogmas do stablishment e a manter o status quo deste nicho _que, como tudo, apresenta uma série de vícios revoltantes, que induzem ao conformismo e ao pensamento único, duas pragas que atacam a arte. Mesmo assim, nos deram um prêmio, o de Melhor Som (o que é curioso, pois o som da cópia, toda arranhada, estava péssimo, com mais chiado do que vinil velho); achei estranho não existir o prêmio para roteiro, que certamente mereceríamos (o que não quer dizer que levaríamos, muito pelo contrário). Também fiquei feliz com a merecida premiação do colega Milton do Prado pela montagem do filme "Odeon" _aliás, ele também deveria ter ganhado este prêmio em Brasília, mas a atuação do júri ali foi simplesmente vergonhosa.


    ***
    Vi menos filmes do que de costume no último mês, a falta de tempo anda apertando cada vez mais. Ainda assim, vou avançando devagar e sempre nessa constante luta pela formação de repertório, infelizmente desacompanhada de uma reflexão mais aprofundada, novamente por falta de tempo. Dentre as várias belezas que vi no período, talvez a que mais tenha me impressionado é "The Savage Innocents", de Nicholas Ray, visto pela primeira vez em sua janela original. O filme se equilibra entre o didatismo para tornar palatável ao civilizado a selvageria e o registro da natureza no que ela tem de bela e terrível, sem grandes arroubos moralizantes _vemos imagens que podem ou podiam ser tabu (justamente um dos temas do filme), como um urso sendo arpoado (que abre o filme) ou a nudez da atriz francesa (sim, parisiense) Yoko Tani (que, segundo o Imdb, trabalhou no primeiro filme de Juan Bajon!). Findo este primeiro ato, temos cenas maravilhosas, como as que mostram os choques de cultura entre os esquimós idealizados do filme (em grande comunhão com a natureza, com direito a narração explicando o ciclo alimentar) com o homem branco, claramente criticado ("suas leis se tornaram maiores do que eles" é uma das frases ditas no filme) _e um final previsível e sublime. Um dos primeiros papéis de Peter O'Toole, que pediu para ter seu nome retirado dos créditos, por ter sido dublado por outro ator. Outro filme que vai fundo na crueza é "Nobi" (aqui, se não me engano, é "Fogo na Planície"), de Kon Ichikawa (que trabalhou por mais de 70 anos e viveu quase 100 _morreu em fevereiro deste ano). É impressionante não apenas por retratar a miséria da guerra (a Segunda Guerra Mundial, no front das Filipinas) ou por ser belissimamente realizado: o que me chamou a atenção foi o retrato nada heróico dos japoneses _muito diferente do registrado recentemente por Clint Eastwood em seu "Cartas de Iwo Jima" (cujo DVD está aqui em casa, sei lá quando vou revê-lo). Aqui, o que importa é sobreviver a qualquer custo: as personagens não se furtam de matar, pilhar cadáveres e partir para o canibalismo. Eiji Funakoshi (que tem um semblante bastante ocidental) está absolutamente fantástico como o malfadado Tamura; a transformação física pela qual ele passa durante o filme é impressionante. E como já fomos para o Japão, vamos emendar direto com "Akibiyori", antepenúltimo filme de Ozu. Assim como "Bom Dia" era uma variação de "Meninos de Tóquio", "Dia de Outono" está obviamente relacionado a "Pai e Filha", feito 11 anos antes (até mesmo a tradução dos títulos para o inglês ressalta o parentesco: se o primeiro era "Late Spring", este é "Late Autumn"). Naquele, Setsuko Hara era a filha que não queria casar para não deixar o pai sozinho; desta vez, ela é a mãe cuja filha (Yôko Tsukasa) reluta em abandonar, apesar de estar na idade de casar. O estilo único e brilhante do diretor volta a se manifestar com clareza, em um de seus filmes mais simples (no qual o conflito se apresenta bem cedo); a maneira como ele dá vida a espaços vazios, que servem de transição de tempo e espaço, é única.

    Como, na cronologia que estou seguindo (da qual me desvio algumas vezes, como fiz também neste mês, ao ver dois curtas de Man Ray, "Emak-Bakia", de 1926, e "Les Mystères du Château de Dé", de 1929, sempre muito divertidos _também vi o "Orphée" do Cocteau, de1950, para finalizar a trilogia), estou no início dos anos 1960, a França está bombando. Os maiores destaques foram "Les Bonnes Femmes" (1960), de Chabrol, e "Cléo de 5 à 7" (1962), de Varda. O primeiro, um breve acompanhamento da vida de algumas garotas que trabalham em uma loja, é grandemente dedicado a registrar a boçalidade das pessoas, em algumas cenas longas (como a da piscina), outras desconcertantes de tão ridículas (a do restaurante), outras mais irônicas (a do zoológico). Há um personagem misterioso com o qual Chabrol vai do macabro ao bizarro. Há também alguns momentos simplesmente bonitos (mas com uma atmosfera kitsch), mas nada supera a beleza das atrizes, em especial de Bernadette Lafont (lançada por Truffaut em "Les Mistons" e na ativa até hoje, mais de 150 trabalhos depois), Stéphane Audran (mulher do diretor) e Clotilde Joano (ironicamente, a que morreu jovem). O segundo é famoso por mostrar a história em tempo real (na verdade, das 17h às 18h30 _mas com momentos em que a montagem brinca com o tempo, inclusive com uma série de planos que servem como um pequeno flashback) de uma cantora que aguarda um resultado de um exame médico que pode comprovar uma grave doença. O filme abrange uma gama variada de emoções, do desespero ao humor (com um ponto alto na seqüência que homenageia os filmes mudos), passando pelo romance, pelo erotismo, pelo elogio à arte e o comentário político _e, claro, dando um bom espaço às chansons. Corinne Marchand está absolutamente maravilhosa como a protagonista, e Jean-Luc Godard aparece numa ponta como ator (há muitas outras participações especiais). Godard (além de Chabrol e Demy, mas a estes não reconheci) também aparece em "Paris Nous Appartient", de Rivette, que arma uma trama razoavelmente complexa (que envolve, basicamente, arte, política e romance), mas não a "mastiga" nem a desenvolve de maneira convencional _o que não enfraquece necessariamente o filme, mas pode afastar quem se apega mais ao enredo do que às personagens. O menos memorável dentre estes contemporâneos é "Tirez sur le Pianiste", de Truffaut, que é rápido a ponto de ser vertiginoso, confuso e entediante (apesar de curto), mas tremendamente irônico, bem-feito e cheio de mulheres bonitas (com destaque para Michèle Mercier). Algumas cenas impagáveis tornaram-se clássicas, como aquela em que Boby Lapointe canta "Framboise" (uma canção sobre um nobre tema).

    Ainda fora da língua inglesa, parei para ver, com certa tristeza, o último filme de Fritz Lang, "Die 1000 Augen des Dr. Mabuse": apesar de dar sinais de ser antiquado, é um avanço em relação a seu díptico indiano. Em ritmo muito rápido, traz uma série de clichês de filmes de espionagem (da qual Lang é mesmo pioneiro) e, novamente, um mestre do crime com uma trama maligna (cortesia do falecido Dr. Mabuse _mas é uma pena que Rudolf Klein-Rogge também já estivesse morto). E novamente voltei à Índia, para mais um filme de Satyajit Ray, "Devi": a vida de uma família se transforma após um homem sonhar que sua nora é a reencarnação da deusa Kali. Sharmila Tagore, linda, encarna divinamente a personagem. Ray registra imagens e sons (a música parece ser muito importante na cultura indiana) com invulgar beleza, é um desses grandes estetas do cinema.

    De volta aos EUA, o grande destaque mesmo é "The Hustler, o penúltimo e mais conhecido dos dez filmes que Robert Rossen dirigiu. É incrivelmente "cool" quando Paul Newman está em evidência (e sua personagem faz o que faz melhor ou pelo menos fala sobre o assunto) e fica mais pesado e desequilibrado quando Piper Laurie ganha mais destaque. Longo e desigual, ainda assim é um belo filme, com boas montagem e trilha sonora e um elenco espetacular: George C. Scott e Jackie Gleason arrebentam _a curiosidade é Jake LaMotta, o "Touro Indomável", fazendo uma ponta como bartender. Quanto a "Imitation of Life", eu queria antes ter visto a versão anterior, de Stahl, mas na falta desta fui de Sirk (seu último filme nos EUA). Embora não seja seu melhor, novamente é um poderoso melodrama focado em personagens femininas _os homens quase sempre aparecem como meros acessórios, o que não chega a incomodar, já que o oposto acontece bastante em filmes "de macho". Além do óbvio tema da maternidade, estão também colocados aqui a questão da carreira (no caso da personagem de Lana Turner) e do racismo (com uma bela atuação de Juanita Moore). Sandra Dee e Susan Kohner (outro destaque; pena que não teve longa carreira) completam o elenco principal.

    Quem também pintou de novo por aqui foi John Ford, com "The Horse Soldiers" e "Sergeant Rutledge", ambos enfocando mais uma vez o exército norte-americano no final do século XIX. O primeiro retrata ao mesmo tempo uma missão ousada do exército do Norte na Guerra de Secessão, uma discórdia entre um coronel durão (John Wayne, claro) e um médico (William Holden) e os naturais problemas causados pela presença de uma mulher (sulista) em meio à tropa. O segundo, mais cruel e político, mistura o western de cavalaria (com direito a matança de índios apaches) e o drama de tribunal, acrescido da discussão racial: Woody Strode é o sargento acusado de estupro e assassinato, e Jeffrey Hunter (o Jesus de "Reis dos Reis") é o seu defensor na corte marcial. A música e o senso de humor um tanto machista voltam a dar as caras.E também fui de Cukor, com "Let's Make Love", o penúltimo filme completo de Marilyn Monroe. O início dá a entender que vem por aí uma grande comédia, mas as coisas esfriam muito quando Yves Montand assume o papel principal. Marilyn, ótima em seu registro habitual, é a co-estrela, mas aparece bem menos do que ele e faz muita falta (parece que houve uma briga do Arthur Miller para aumentar o papel dela _não foi o suficiente). O enredo é uma bobagem completa e só vale para que vejamos alguns números musicais _mais uma vez, ambientados no teatro_ e tenhamos algumas participações especiais de estrelas como Milton Berle, Bing Crosby e Gene Kelly, interpretando a si mesmos. Mesmo assim, temos um momento antológico: a primeira cena de Marilyn, "My Heart Belongs to Daddy". E, finalmente, visto na mesma Sessão do Comodoro que apresentou o "Nas Duas Almas", "The Thief", o segundo filme de Russel Rouse, que trabalhou mais como roteirista. A proposta dele aqui é fazer um filme completamente desprovido de diálogos _ou seja, é diferente do que fazer simplesmente um filme "mudo". Inspirando-se em Fritz Lang e Hitchcock para filmar uma história de espionagem estrelada por Ray Milland (que está a cara do Gary Cooper), acaba cometendo alguns pecados, como o de ter de apelar para atuações exageradas (ou seja, voltando mesmo no tempo) e de ser um tanto desgastante _o final meio besta, mas talvez típico de uma produção já em plena paranóia da Guerra Fria, também joga um balde de água... fria. Vale destacar a belíssima Rita Gam, em seu primeiro filme, e a maravilhosa trilha sonora de Herschel Burke Gilbert.

    As séries da vez são a segunda temporada de "That '70s Show" (na qual os grandes desenvolvimentos são a perda da virgindade de Eric e Donna e o rompimento de Jackie e Kelso) e a terceira de "Prison Break", a mais curta, por causa da greve dos roteiristas. Não é de surpreender que seja a pior (até porque o plano de fuga _que já não é mais o original_ é obviamente muito menos complexo do que o primeiro). A verdade é que a série já esgotou seu potencial, e fica difícil se reinventar. O curioso é que a prisão panamenha onde a temporada se passa foi claramente inspirada no Carandiru.

    terça-feira, julho 01, 2008

    Voltando ao Rio, mais de dois anos depois, duas coisas me chamam a atenção (além de o frio, o trânsito e a quantidade de gente parecendo formiguinha andando pra lá e pra cá serem equivalentes aos de São Paulo). Uma delas é a quantidade gigantesca de outdoors (em especial, de evangélicos _levei até um susto quando li um "Esta cidade pertence a Jesus!"); voltei a me dar conta do impacto da Lei Cidade Limpa (pena que o Kassab não é igualmente corajoso quando se trata de enfrentar o trânsito _essa restrição aos caminhões é ridícula; aliás, o país todo está vivendo uma escalada de leis restritivas entrando em vigor, até quando ou aonde isto vai?). Mas o que mais me interessou mesmo (algo que eu nunca tinha observado antes) foram as particularidades das pichações cariocas. Diferentemente das paulistanas, que parecem querer se destacar, como um anúncio, as cariocas têm um perfil um tanto obssessivo-compulsivo: pequeninas, são repetidas ad nauseum, tentando preencher o espaço. E as letras também são muito diferentes: em São Paulo popularizou-se um estilo mais duro, pontiagudo, agressivo; no Rio, as assinaturas (que lembram mesmo assinaturas, dessas que se costumava fazer em cheques, também à beira da extinção) são mais graciosas, curvas, leves. É muito engraçado que as diferenças, tão discutidas, entre as duas cidades, também aflorem nesses detalhes. Claro, algumas coisas nunca mudam na capital fluminense _em especial, cariocas brigando na rua aos gritos e começando todas as frases, por mais curtas que sejam, com "olha só" (exemplo: "Olha só: vai se foder!").


    ***
    Antes de me reencontrar, após mais de dois anos da filmagem de "A Volta do Regresso", com Carlo Mossy, aproveitei para ver dois dos muitos filmes em que ele atuou, dos quais conhecia apenas alguns trechos. "A Penúltima Donzela" (1969), um dos três dirigidos por Fernando Amaral (segundo o Mossy, ele morreu ainda nos anos 70, o que eu não sabia) e produzido por Roberto Farias e Paulo Porto, é uma pérola da crônica de costumes, retratando o conflito de gerações no Rio de Janeiro no final dos anos 60: estão lá a resistência à ditadura (bem sutilmente), a revolução sexual (hilária a cena na praia em que um conquistador tenta passar uma conversa numa caipira de Minas citando um texto no qual a Simone de Beauvoir criticaria o casamento, e a moça responde: "Mas ela não é casada com o Sartre?"), o moralismo da família e da igreja católica etc., num mosaico leve, jovem, bem-humorado e com sofisticação acima da média (em alguns momentos soa até pretensioso). Adriana Prieto e Mossy têm uma química tão grande (eles trabalharam também no raro "Soninha Toda Pura", que o próprio Mossy não vê há mais de 30 anos) que o filme esfria quando Paulo Porto entra. Merece uma revisão e um texto mais detalhado _algum dia, talvez. O outro filme visitado é "O Seqüestro" (1981), adaptação de livro de José Louzeiro que apresenta uma teoria inusitada sobre o famoso caso Carlinhos. Assim como o belo tema de Paulo Sérgio Valle e Marcos Valle, o elenco (Jorge Dória, Milton Moraes, Carlo Mossy, Helena Ramos, Adriano Reys e Otávio Augusto) é ótimo, mas o Victor di Mello me parece um diretor bem canhestro e pouco ousado. Ainda assim, o filme guarda uma cena ótima, bastante tensa e que quebra as expectativas, no final. Mas não é um grande exemplar do cinema policial brasileiro (a curiosidade é a dedicatória a Serpico).

    ***

    Com exceção do "B", de todos os países da tal sigla BRIC, o que eu mais vi retratado no cinema deve ser a Índia _em clássicos como "O Rio Sagrado", "Narciso Negro" e muitos outros até o recente "Viagem a Darjeeling" (este ainda não vi, mas certamente deve ser influenciado pelos antecessores), todos dirigidos por ocidentais. Mas é curioso que eu não me lembre de ter visto algum filme da produção local (Bollywood nunca me chamou a atenção) até chegar a Satyajit Ray. As duas primeiras partes da "Trilogia de Apu" (a terceira eu verei em breve), "Pather Panchali" e "Aparajito" (se não estou errado, os títulos foram traduzidos como "A Canção do Pequeno Caminho" e "O Invencível", respectivamente) me mostraram, pela primeira vez, uma noção da pobreza que havia (e certamente ainda há) naquele país (com o qual o Brasil tem muito em comum, pelo menos neste aspecto). Eu prefiro o primeiro, datado de 1955, mas é interessante notar que o segundo, apesar de conter talvez mais tragédias, é menos deprimente, porque o protagonista passa a tomar as rédeas de sua vida. Em ambos, planos e cenas de muita beleza e simplicidade (destaco a da chuva no primeiro e a dos vaga-lumes, no segundo). Nem mesmo o "India: Matri Bhumi", do Rossellini, tinha me mostrado tão bem o país.

    De volta ao Ocidente, mas ainda com Ray (Nicholas), finalmente consegui ver "Bigger than Life" (1956) _uma sessão interrompida por um problema de som impediu que eu o tivesse visto por inteiro. A semi-revisão desta produção de James Mason estrelada pelo próprio foi decepcionante, embora o filme, que parece convencional na superfície, reflita bem a sociedade norte-americana da época (além de bastante irônico). E me agradou menos ainda o drama de guerra "Bitter Victory", apesar de Richard Burton estar excelente. A sublime trilha sonora de Maurice Leroux engrandece imensamente cenas que, sustentadas apenas pelas imagens, teriam impacto muito menor. O último filme do diretor visto no péríodo foi "Party Girl", no qual a recém-falecida Cyd Charisse não deixa de dançar (otimamente, como de costume, embora os números não sejam tão criativos quanto em outros filmes _mas creio que esta nem era a intenção). Trata-se de um "conto de fadas sujo", esta esta mistura de romance com filme de gângsters. Robert Taylor, mais de 20 anos depois de ser o ótimo galã em "A Dama das Camélias", faz um bom protagonista digno, e Lee J. Cobb, o "bom" vilão de sempre.

    A guerra também foi retratada em várias outras obras do período que passaram à minha frente. Uma delas é "Men in War" (1957), de Anthony Mann, que se passa na recentíssima Guerra da Coréia e é estrelada por Robert Ryan (ótimo, como de costume) e um irreconhecível (velho e gordo) Aldo Ray. Não é nenhum Fuller (o tom é um pouco melodramático demais, chegando a lembrar "Soldado Ryan" aqui e ali), mas tem um início e um final especialmente fortes. Também tem "war" no título a adaptação de King Vidor para "Guerra e Paz", que, apesar de se deixar ver numa boa, é obviamente muito pálido em comparação ao grande romance de Tolstói (embora eu prefira "Ana Karênina"). Falando em Fuller, olha ele aí: "Run of the Arrow", um de seus filmes de que mais gostei (bem, a maioria das obras dele entra nesta categoria) é outro que mereceria um artigo mais substancioso, se eu tivesse tempo (ou seja, se fosse pago para fazê-lo). A Guerra de Secessão deixou um trauma tão grande no protagonista interpretado por Rod Steiger que ele, descendente de irlandeses, praticamente muda de pátria. O filme está repleto de símbolos (mas sem um pingo de frescura), e a ação impactante e de qualidade, típica do diretor, está lá. Tive a clara impressão de que este filme deve bastante a John Ford e a Delmer Daves, e que Peckinpah e, bem, Kevin Costner devem muito a ele. E, antes de fazer a ligação direta com os westerns, vale citar, neste parágrafo dedicado a guerras, "Um Condenado à Morte Escapou", no qual Bresson se vale da mesma prisão em que André Devigny esteve e das mesmas cordas e ganchos usadas na fuga real para, como diz uma inscrição no início, contar uma história sem ornamentos _com exceção da música de Mozart, que confere mais beleza e pretensão à obra.

    Seguindo com Fuller, "Forty Guns" traz algumas idéias já usadas antes em westerns (uma mulher _Barbara Stanwyck_ liderando um bando de foras-da-lei, o trio de irmãos), mas também cria algumas cenas originais e inesquecíveis (como a do tufão e a característica cena de violência do diretor, quando a baderna explode na cidadezinha _um dos momentos de destaque de John Ericson, como Brockie Drummond). As canções (e as fusões) são ótimas. O já citado Anthony Mann contribui com "The Tin Star", outro de seus grandes exemplares do gênero _desta vez, sem James Stewart, mas com Henry Fonda, Anthony Perkins, Lee Van Cleef, John McIntire e Neville Brand. Curioso que este filme é tão bem-construído que acabou ficando mais "certinho" do que o necessário, além de bastante previsível _mas não deixa de ser ótimo por causa disso. Outro que já foi citado, Delmer Daves, traz "3:10 to Yuma", um western mais cerebral do que a média, que consegue não forçar muito a barra ao contar uma incomum história de heroísmo. Van Heflin, um ator muito criticado, está bem como protagonista, e Glenn Ford arrasa como um antagonista "cool", inteligente e simpático _não à toa, o título brasileiro é "Galante e Sanguinário". Henry Jones, Richard Jaeckel e Felicia Farr também se destacam como o bêbado da cidade, o fiel capanga do vilão e o interesse romântico do mesmo (o remake de James Mangold, do ano passado, tem sido bastante elogiado). Fechando este parágrafo, talvez o melhor deles (o páreo é bem duro), "Seven Men from Now", de Budd Boetticher. A canção que o abre diz o que precisamos saber: sete homens têm um destino, o de morrer pelos crimes que cometeram, hohoho. Randolph Scott e Lee Marvin (este em um grande momento, com um personagem fantástico) chutam bundas. Tecnicamente, o filme é perfeito _com destaque para o figurino pouco naturalista. Uma aula de concisão em apenas 78 minutos (especialmente no primeiro e no último duelos a bala), não mostra o que não precisamos ver.

    Ainda nesta linha de concisão, uma outra pequena obra-prima: "Murder by Contract", de Irving Lerner. Curto, simples e sofisticadíssimo _caso de cenas fantásticas em si mesmas (o primeiro ato daria um excelente curta-metragem) belissimamente encadeadas. A personagem de Vince Edwards é incrível. A trilha sonora é excelente. Feito em sete dias, com baixo orçamento, é um desses milagres que acontecem de vez em quando. Mas "While the City Sleeps", de um de meus diretores favoritos (Fritz Lang), não me pegou de jeito e provavelmente precisa ser revisto: após um início empolgante, quebra as expectativas de ser um suspense concentrado e tenso (afinal, ele já tinha feito "M" e não precisava se repetir) e se espalha por vários personagens envolvidos na caça a um serial killer de mulheres _mas, em vez de policiais, são jornalistas. À primeira vista, achei que a complexidade das relações e dos conflitos mina um pouco a força do filme, que parece não ter muito foco. Outra relativa decepção vinda de um mestre é "The Wrong Man", o único filme que Hitchcock fez após a Segunda Guerra que eu ainda não tinha visto. É uma obra estranha, porque, por um lado, concentra várias obsessões temáticas do diretor (o inocente falsamente acusado, o medo da polícia, o cristianismo), mas também adota um estilo muito diverso para retratá-las: é um filme lento, pesado, praticamente kafkiano, e o fato de ser baseado em uma história real (com uma inédita introdução com a voz do diretor) prejudicou razoavelmente a construção de um "filme de Hitchcock". Saem a diversão, as peripécias, o romance, o senso de humor, um certo glamour e mesmo o suspense, e ficam somente a tensão e o clima sombrio de um mundo ruim desabando sobre todos. Certamente é seu filme mais naturalista, daí a falta de espetáculo _que quase vira falta de personalidade. Mais desconcertante é "Ascensor para o Cadafalso", o primeiro filme de ficção de Louis Malle: começa como um romance, depois se torna um thriller de ação e desemboca numa "tragédia de erros". E não tem um ar pretensioso, o que é ótimo. Divertido, pungente e belo _e tem Jeanne Moreau, mas quem rouba a cena mesmo é a estreante Yori Bertin. E, finalmente, um filmaço de Alexander Mackendrick, "Sweet Smell of Success". Um roteiro fenomenal e complexo de Ernest Lehman e Clifford Odets, com diálogos praticamente perfeitos e duas personagens inesquecíveis (além de vários coadjuvantes _com destaque absoluto para Barbara Nichols, a vendedora de cigarros), interpretadas com brilho por Tony Curtis (canalha, desses que vendem a mãe sem remorso) e Burt Lancaster (assustador: parece que ele vai quebrar o seu pescoço com um olhar), como o assessor de imprensa e o colunista de celebridades (uma pragra que infelizmente existe há muito tempo) que tentam separar um jovem casal. Chico Hamilton e seu quinteto fazem uma bela participação.

    Partindo para um tema mais leve (sem trocadilho), revi, com a mesma fascinação de quando o conheci numa das antigas madrugadas da Globo, "O Incrível Homem Que Encolheu". A revisão confirma que se trata de um filme especial. Já seria ótimo se fosse apenas pela originalidade da história, pelo carisma das personagens principais (em especial das belas April Kent e Randy Stuart) e pela gigantesca (sem trocadilho, de novo) qualidade dos efeitos visuais. Mas os minutos finais, com aquele monólogo surpreendente e maravilhoso, de fazer chorar e perder o fôlego, carimbaram esta obra de Jack Arnold para sempre como uma pequena obra-prima da ficção científica. Vale até reproduzir aqui as palavras finais (quem ainda não viu, não leia): "So close - the infinitesimal and the infinite. But suddenly, I knew they were really the two ends of the same concept. The unbelievably small and the unbelievably vast eventually meet - like the closing of a gigantic circle. I looked up, as if somehow I would grasp the heavens. The universe, worlds beyond number, God's silver tapestry spread across the night. And in that moment, I knew the answer to the riddle of the infinite. I had thought in terms of man's own limited dimension. I had presumed upon nature. That existence begins and ends in man's conception, not nature's. And I felt my body dwindling, melting, becoming nothing. My fears melted away. And in their place came acceptance. All this vast majesty of creation, it had to mean something. And then I meant something, too. Yes, smaller than the smallest, I meant something, too. To God, there is no zero. I still exist!"

    Assim como este texto: faltou registrar um famoso episódio feito por Orson Welles para a TV, "The Fountain of Youth" (curioso que acabei de jogar mais um episódio da hilária série "Sam & Max" na qual a mesma aparece). É uma fascinante mistura de narração e imagens estáticas (anos antes de "La Jetée") com o drama mais tradicional (mas com a cenografia despojada da televisão). O enredo, bem previsível, é menos interessante (e mais tradicional) do que a forma, mas é pena que a TV de hoje é ainda muito mais arcaica do que esta obra de 50 anos atrás. Mas como desta vez não vou falar mais de série televisivas (estou terminando a segunda temporada de "Roma" aos poucos), lembro de três comédias: a menos importante é "Silk Stockings", refilmagem musical de Ninotchka. É curioso que Mamoulian (em seu último filme _é também o último musical de Astaire em mais de dez anos), nascido na Rússia, tenha feito este filme em pleno auge da paranóia da Guerra Fria. Não chega aos pés da versão de Lubitsch (na verdade, sequer podemos chamar este filme de comédia _mesmo Peter Lorre não é muito eficiente no gênero; a participação dele em "The Patsy", de Jerry Lewis, também é fraca), mas se torna grande cinema justamente quando registra Fred Astaire e, principalmente, Cyd Charisse (e eu ter visto este filme logo após sua morte foi mera coincidência) fazendo o que faziam melhor: beleza. Palavra que era fundamental para Chaplin, mas que em seu penúltimo filme como diretor e o último em que atua como protagonista, está mais para cronista do que para poeta (a beleza se concentra mais em Dawn Addams). "A King in Nova York" é bastante autobiográfico e (mais) um manifesto político _Chaplin, significativamente, coloca seu discurso humanista e democrático na boca de seu filho Michael. O mundo girou, a Lusitana rodou, e as liberdades individuais na "terra dos bravos e lar dos homens livres" voltam a ser colocadas em segundo plano por medo de (mais) um inimigo. Há também algo da velha comédia física (uma apresentação teatral revive o pastelão e parece homenagear Stan & Ollie), mas os destaques são os ataques à indústria cultural da época: a música, o cinema, a televisão. Chaplin, à beira dos 70 anos, ainda em forma. Mas um grande cronista foi Frank Tashlin, que, em "Will Success Spoil Rock Hunter?" volta a trabalhar com Jayne Mansfield, embora aqui ela esteja em um papel bem mais caricatural do que em "The Girl Can't Help It" (que, no momento, eu prefiro). Os momentos mais engraçados são os irônicos (a destacar as propagandas nos créditos iniciais e o interlúdio para os "fãs da TV"), já que Tony Randall é muito limitado como comediante (mas Mansfield é ótima e compensa) _há também uma participação tão inacreditável e sem-vergonha de Groucho Marx (à época, uma personalidade televisiva) que a princípio eu pensei que fosse um sósia dele!

    E, antes do único filme visto nos cinemas em um tempo (algo que anda quase impossível), aquela parada obrigatória no Japão me trouxe o filme de estréia de Masumura, "Kuchizuke" (cujo título nos EUA é "Kisses"). Curiosamente, ele me lembrou um pouco de "Il Sorpasso", feito alguns anos depois por Dino Risi, que também morreu há pouco, por mostrar a vida jovem no Japão contemporâneo, o que não é muito visto em filmes clássicos do período (Ozu, por exemplo, se fixou mais nos extremos, crianças e idosos, e seus jovens parecem um tanto tradicionalistas). A diferença é que, aqui, um casal se forma, e a maneira como se encontram e o principal dos muitos conflitos que têm de resolver são originais e ricos, com um final satisfatório, bonito e óbvio. Hitomi Nozoe, belíssima, não teve carreira longa no cinema, embora tenha participado de 30 filmes. E, finalmente, "A Questão Humana", de Nicolas Klotz, foi uma decepção: uma história que parecia bem mais interessante acaba tomando um rumo banal, talvez tão banal quando o mal ou a covardia. A princípio, parece quase um musical (a trilha sonora é excelente), mas ele vai se silenciando...

    quarta-feira, fevereiro 06, 2008

    Eram quase meia-noite, num domingo de janeiro, e o soldado observava minha conversa com a senhora, divorciada e septuagenária (não perguntei sua idade; olhei disfarçadamente um xerox plastificado do seu RG, que o rapaz segurava junto a uma ficha), obviamente abalada pelo desastre. Ela estava mais preocupada em xingar os ex-inquilinos, que, após meses sem pagar o aluguel, deixando uma dívida de uns R$ 50 mil e obrigando-a a ordenar o corte de eletricidade e de água, fugiram, deixando o imóvel imundo e com 14 cães e 3 gatos abandonados. Fico interessado pela história dos animais, pergunto uma série de detalhes (mas não tantos quanto gostaria, nunca há tempo), enquanto percebo a impaciência do jovem aspirante a autoridade, que precisava terminar o boletim de ocorrência. Deixo ele fazer uma ou duas perguntas protocolares (afinal, era eu o forasteiro, ali no DP) e, para sua irritação contida, tomo de volta, com voz mansa, o controle da conversa. A velhinha me conta que adotou a gata ("Teve cria esses dias, a coisa mais linda") e deixou os outros dois bichanos no imóvel abandonado, os quais ela ia alimentar duas vezes por dia (os cães foram levados pela prefeitura). Foi aí que, obviamente constrangida, ela finalmente assumiu sua culpa na história (para nossa surpresa): ao levar o jantar dos gatos, esqueceu, acesa, uma pequena vela. O soldado sorriu levemente, satisfeito por eu ter feito o seu trabalho. Minutos antes, no local do incêndio ("um fogão", segundo uma vizinha espevitada, aparentemente feliz por estar na rua em vez de estar vendo o "Fantástico"), o capitão dos bombeiros havia me dito: "Deu PT". Findo um mistério, restou outro: e os gatinhos?

    ***

    Como de costume, estou totalmente por fora do Oscar (quando eu digo que gente que gosta de cinema não precisa gostar necessariamente do Oscar, todo mundo me olha como se eu fosse um E.T.). Dentre os indicados na categoria principal (só sei quais são os indicados porque o Milton do Prado me mandou um e-mail com convocatória para um divertido bolão, do qual infelizmente sou obrigado a declinar), assisti (graças a uma folga numa segunda-feira, após três semanas ininterruptas de trabalho) apenas a "No Country for Old Men", que a princípio soou como uma tentativa de voltar a um cinema da época em que a história se passa (fim dos anos 70), mas esta impressão acabou se enfraquecendo (mesmo que algumas elipses me lembrem de Peckinpah). Gosto muito dos maneirismos dos Irmãos Coen (adoro "Raising Arizona" e "The Ladykillers", por exemplo _e uma das cenas que mais me marcaram em seus filmes está em "The Great Lebowski"), mas a falta de boa parte deles aqui não é um defeito. Não lembro se o Bardem foi indicado como coadjuvante, por seu Anton "Sugar" Chigurh, e não vi o filme do Paul Haggis pelo qual Tommy Lee Jones (cujo Ed Tom Bell é o protagonista, e não o Llewelyn Moss do Josh Brolin, como muitos andam pensando) foi indicado. Belo filme, mas ainda não chegou ao nível de "Barton Fink".

    De resto, os filmes mais recentes (daqui a pouco trato de algumas velharias, apelidadas de "clássicos", que não interessam a ninguém) que vi foram "Last Days" (fascinante e irritante ao mesmo tempo), "Casino Royale" (bom porque não parece um filme de James Bond _o que é uma faca de dois gumes: por exemplo, a falta de sexo é um revés; é também o filme no qual a Eva Green está mais bonita) e "Happy Feet" (decepcionante, mas ainda melhor do que "Moulin Rouge"). Também passou pelas minhas retinas tão fatigadas as três primeiras temporadas de "Battlestar Galactica", boa série de ficção científica (gênero que não é muito minha praia, especialmente quando se passa num "futuro distante" ou algo que o valha) que consegue fazer referências as mais diversas (de filmes de guerra a novelas, obviamente passando por "Star Trek" e "Star Wars" e até "Indiana Jones") e sair razoavelmente incólume. Meus episódios preferidos são os poucos em que a história deixa de ser seguida, e vemos algo mais localizado dentro de um universo construído até que cuidadosamente. A assinatura da produtora é um pequeno show à parte.

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    Até que gosto do termo "obra-prima doente" (se não me engano, cunhado pelo Truffaut ao falar de "Marnie"). Gosto muito quando filmes me deixam com uma espécie de pulga atrás da orelha, porque me parecem muito bons, mas de uma maneira tão imperfeita que transborda humanidade. Neste período, tive a felicidade de trombar com alguns desses filmes. Dois são de Nicholas Ray: o principal é "On Dangerous Ground", razoavelmente incomum (e não por usar câmera na mão em algumas cenas, o que na época era muito raro); é especialmente interessante como, num filme tão curto (80 minutos), o enredo principal demora a chegar, porque passamos um bom tempo conhecendo o protagonista interpretado por Robert Ryan _os coadjuvantes Ida Lupino (que dirigiu o filme por vários dias em que Ray esteve doente) e Ward Bond só aparecerão bem depois. As cenas finais são fortes e amarram muito bem o filme (mesmo não sendo o final que Ray queria). A trilha sonora de Bernard Herrmann (cuja melodia me lembra um pouco a de "O Dia em Que a Terra Parou", embora os arranjos sejam bem diferentes) é outro destaque. E "The Lusty Men", mesmo sendo bem mais convencional, é um belíssimo drama no mundo dos rodeios estrelado por Robert Mitchum, Susan Hayward e Arthur Kennedy _mas quem rouba a cena é Arthur Hunnicutt (de "Broken Arrow").

    Outro filme impressionante e que vem crescendo na minha memória é "Angel Face", de Otto Preminger, produção de Howard Hughes com Robert Mitchum e Jean Simmons. É mais complexo do que parece a princípio, chega a ser bastante romântico (mas de uma maneira distorcida e moderna _só os modelos dos carros dão a impressão de que o filme é antigo). E é quase milagroso como uma mesma ação é repetida de maneira praticamente idêntica, sem que ela perca sua capacidade de chocar. O final é de tirar o fôlego. E o que dizer de "O Rio Sagrado", de Jean Renoir? Muito polêmico, longe de ser uma unanimidade, me deu a impressão de ser um filme único, apesar de muitas falhas (talvez a maior delas a falta de naturalidade do elenco). Tem um conceito muito bem definido, no entanto é bastante diversificado. A fotografia é belíssima (dizem que o trabalho no laboratório durou 5 meses), e há momentos claramente documentais; em outros, alguns dos mais fortes, simplesmente contemplamos: plantas, pipas no céu, uma bailarina. Foi o último filme de Thomas E. Breen (o Captain John) e de Radha, e o único da feiosa Patricia Walters (a protagonista chatinha) e do produtor Kenneth McEldowney. Satyajit Ray foi assistente. "The day ends, the end begins."

    Outro filme com rio no nome é "O Rio da Aventura" ("The Big Sky", no original), de Howard Hawks, que, a exemplo de vários outros do diretor, parece uma espécie de "auto-remake" _neste caso, da obra-prima "Rio Vermelho". Novamente, Arthur Hunnicutt, abençoado com os melhores diálogos, ofusca a todos, e a beleza de Elizabeth Threatt (infelizmente em seu único filme) é inesquecível. O sutil conflito final é muito bom (e ficamos esperando o filme acabar, e ele não acaba _é bem longo e prolixo, quase pretensioso, embora muito bem-humorado). Ainda nos EUA (e falando em prolixo), fiquei bastante decepcionado com "A Place in the Sun", do qual sempre ouvi falar muito. Curioso é saber que se trata de remake de um filme de Sternberg _que quase foi dirigido por ninguém menos que Eisenstein_, o qual não vi, mas aparentemente é bem diferente deste. A versão de Stevens, feita em 1949, mas lançada apenas dois anos depois, não é original, não trabalha bem com a emoção e não chega a um final satisfatório. Mas tem pelo menos uma cena antológica: a do balcão onde Montgomery Clift e Elizabeth Taylor trocam declarações de amor e se beijam sutilmente _o fato de a câmera não mostrar direito o beijo dá força à cena. E ficou bem claro onde Janete Clair se inspirou para escrever "Selva de Pedra". Ainda entre as decepções à primeira vista, um western de Andre de Toth com Randolph Scott e e um número musical de Tennessee Ernie Ford, "Man in the Saddle", e um morno filme de Anthony Mann, "The Tall Target".

    Na Itália, a obra-prima do pacote: "Europa '51" figura como, até o momento, meu preferido do Rossellini com Ingrid Bergman (brilhante _nem Giulietta Masina a ofusca). Um melodrama poderoso e de forte cunho social (e ético), de influência monumental. Longe de ser tão bom é "Umberto D.", de De Sica, atacando de velhinho doente, tema popular até hoje. Com os dois principais atores (e o cãozinho Flike também), Carlo Battisti e Maria-Pia Casilio, iniciantes (mas muito bons), é um filme muito desigual, cuja fama, creio, se deve principalmente ao final. Muitíssimo melhor é seu antecessor, "Miracolo a Milano", um delírio alegre que foge totalmente do neorealismo, embarca na fantasia (teria influenciado Fellini de alguma forma?) e carrega uma mistura de sentimentalismo, ingenuidade e graça que lembra bastante algo de Chaplin (impressão reforçada pela atuação de Francesco Golisano, o Geppa, que morreu jovem e atuou apenas em meia dúzia de filmes _destaque também para a Brunella Bovo e para a aparição da belíssima bailarina argentina Alba Arnova). O início, com muito poucas falas, me pareceu bem sofisticado; a música é inesquecível. E passei ainda por De Sica (sempre eficientíssimo como galã) como ator em "Madame de...", penúltimo filme de Öphuls (cuja fase americana, hoje, me agrada mais _neste aqui, a câmera me parece menos rigorosa do que de costume), que parece muito mais antigo. Charles Boyer, Danielle Darrieux (viva e trabalhando, aos 90 anos) e De Sica formam o triângulo amoroso nesta história que gira em torno de um par de brincos e da falta de pronúncia do sobrenome da protagonista.Adoro duelos, desde pequeno.

    Para encerrar, aquela passadinha básica no Japão: a fama de "ocidentalizado" de Kurosawa talvez se deva a filmes como "Viver", que, simplificando temerariamente, parece inspirado pelos filmes mais famosos de Frank Capra. Longo, demora a engrenar; mas, após o ponto de virada da trama, a sucessão de sutis flashbacks e flashforwards é ótima. A morbidez como valorização da vida. É o filme de estréia de Miki Odagiri e um dos mais de 200 feitos pelo Takashi Shimura, colaborador constante de Kurosawa. Outro japa visitado foi Kenji Mizoguchi, com "Oharu - A Vida de uma Cortesã", óbvia adaptação de um romance clássico, gerando um melodrama idem. Também me lembra algo de grandes produções americanas, como "...E o Vento Levou" (não pelo orçamento, é claro). A atriz principal, Kinuyo Tanaka, foi a primeira a diretora japonesa (ou seja, o machismo...).

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    De Nelson Ascher, em artigo chamado "Perguntar Não Ofende", publicado na Ilustrada de 11 de fevereiro: "Há filmes que, de tão descaradamente manipuladores e demagógicos, tão mecânicos e transparentes na sua má-fé, levam o espectador atento a se sentir a um tempo vítima e cúmplice de uma trapaça. Foi esse o caso de 'Sociedade dos Poetas Mortos', a que assisti em 1990. Para agravar meu mal-estar, tão logo os créditos começaram a aparecer na tela, boa parte da platéia aplaudiu de pé aquela abominação. Soube logo que essa reação se tornara demasiado freqüente e, quando meu comentário foi publicado, passei a receber cartas que por pouco não me ameaçavam de morte. Como ninguém, ao que parece, desejava que seu suspeito vínculo emocional com o filme fosse questionado, descrever-lhe o mecanismo soava para muitos como ofensa pessoal."

    Acho que eu tinha 12 ou 13 anos quando vi "Sociedade dos Poetas Mortos". Fiquei tremendamente ofendido; abomino filmes que tentam me fazer de idiota.

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    Dos 325 filmes elegíveis para o Alfred 2007, eu assisti a 27 (alguns deles, em 2006). Até que não está tão mal...

    terça-feira, outubro 09, 2007

    Conteúdo: "Comédia é, em essência, uma arte raivosa e anti-social." A frase do Robert McKee (interpretado pelo Brian Cox em "Adaptação") me parece um tanto generalizante e radical, mas não incorreta. Parece se encaixar especialmente a "A Volta do Regresso", um filme quase que totalmente calcado na ironia _talvez a ponto de soar terrivelmente desagradável a alguns (estou louco de curiosidade para ver as reações de mais gente, especialmente as negativas; até o momento, parece que quem desgosta mais do filme sou eu, mas sei que isto vai mudar).

    Forma: "PERGUNTA - Você rodou o filme com câmera digital, em lugar de película. Até que ponto isso foi libertador para você?

    LYNCH - A palavra 'livre', se você a escrevesse com L maiúsculo, a fizesse tão alta quanto o Empire State Building e a sublinhasse muito _foi tão libertador assim. É tão belo, e de tantas maneiras diferentes. Depois dessa experiência, eu nunca mais poderei voltar a filmar em película."

    Talvez a película ainda seja, no momento (mas não por muito tempo), o melhor suporte para a exibição de filmes; mas para captação de imagens, não creio _ou seja, fecho com o David Lynch (não me lembro de onde peguei a entrevista, normalmente dou o link, sorry), apesar de ainda não ter visto seu "Inland Empire", que vai passar na Mostra e estrear logo depois. Ter feito "A Volta do Regresso" em 16mm deixou o projeto muito engessado e caro: deixei de fazer mais takes, negando pedidos do elenco, por falta de grana para comprar mais latas, e, também por contingências financeiras, não pude fazer uma truca sequer _os créditos tiveram que ser em cartela, e não sobre imagem, como eu queria (e este é apenas um dos exemplos). Não penso mais em filmar em película, e mesmo o transfer eu espero que esteja com seus dias contados.

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    Estava esperando ver "Tropa de Elite" para atualizar este site. Vi o filme ontem, na promoção de aniversário de 14 anos do Espaço Unibanco (lembro de quando o lugar era Espaço Banco Nacional de Cinema, antes de o mesmo quebrar), justamente em projeção digital; durante o filme em si, não dá para perceber muita diferença na qualidade de imagem _a parte mais estressante foi durante as propagandas.

    Mas vamos ao filme, que deu o que falar por motivos exteriores ao mesmo: ele só virou esta sensação por causa da pirataria (nunca saberemos do impacto da mesma sobre a bilheteria, mas parece que o resultado não será dos piores _provavelmente porque os públicos são mesmo diferentes: talvez a pirataria só alcance a quem não tem acesso ao cinema por questões de localidade e alto preço) e por causa do debate em torno da segurança pública (que o próprio diretor encampa) e da violência _bobagens, bobagens (leiam o grande texto de Carlos Reichenbach chamado "Apontamentos para uma Polêmica Anunciada" aqui). Não é prerrogativa de um diretor de cinema debater o assunto, mas sim a de fazer bons filmes; também é ridículo alguém reclamar do filme porque ele simula atos de tortura e violência com resultados fatais: cinema também é Eros e Thanatos, kiss-kiss-bang-bang, seria desonesto e covarde um filme deste gênero não mostrar alguns litros de tinta vermelha (por sinal, o filme é pudico, nada de putaria saudável nos bailes funk nem na boate de strip).

    O bafafá todo (que inclui piadas com o Capitão Nascimento, como bonequinho que fala "senta o dedo nessa porra!" e frases atribuídas anteriormente ao Chuck Norris _coisa parecida aconteceu com o Zé Pequeno do infinitamente superior "Cidade de Deus") me deixou na expectativa de ver um filmaço, talvez outro marco histórico em nosso cinema recente; infelizmente, "Tropa de Elite" sequer se classifica como um bom filme policial (gênero no qual temos uma bela tradição, os filmes precisam apenas ser recuperados _alguém dizer que este é "o melhor filme nacional que já vi" é atestado do descaso com nossa cinematografia). É prejudicado especialmente pela debilidade das situações dramáticas e pela falta de complexidade de conflitos das personagens; o final, péssimo e pífio, sublinha que nenhuma delas chegou aos limites que poderia ter chegado; o roteiro não tem fôlego, foi pouco ambicioso _prejudicam também as "cabecices" como citação de psicólogo e aulinha sobre Foucault, além de um excesso de didatismo "para inglês ver".

    Mas o famoso e fenomenal Capitão Nascimento é um caso à parte: chamado a torto e a direito de "herói" (até o Luciano Huck clamou por ele quando teve seu Rolex levado por uma dupla de assaltantes numa moto), me pareceu mais um fracote, louco para deixar de subir o morro e ficar trocando fralda de nenê, que só vira "macho" mesmo na hora de rodar a bainana e gritar "quem manda aqui sou eu" com a espoca recém-mamãe em seu apê de classe média. Sei que a comparação é covardia, mas na hora lembrei das personagens de James Cagney em "White Heat", de Charles Bronson em "Machine Gun Kelly" e de Warren Oates em "Bring Me the Head of Alfredo García", que eram "bad motherfuckers", mas tinham seus tocantes momentos de fragilidade; em "Tropa de Elite", o máximo que o Capitão Nascimento de Wagner Moura (que não está mal, a culpa é do roteiro) faz é dar uma travadinha durante uma escalada com a esposa, todo playboyzudo. Em suma: dada a qualidade do material de origem e dos nomes envolvidos no projeto, eu estava esperando bem mais. Mas, para não dizer que só falei dos espinhos, o filme passa rápido e tem senso de humor.

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    Vamos continuar falando de filmes policiais? Na minha quase terminada "peregrinação" (como diz religiosamente o Ailton) pelos anos 40, o gênero aparece bastante, com variações. Um deles, "The Naked City", deu origem a uma série televisiva muito famosa; o diferencial é que a estrela é a cidade de Nova York: a narração da introdução já avisa que, diferentemente do padrão, o filme foi todo feito em locações _e funciona muito bem como documento da vida na metrópole (por outro lado, nenhuma personagem é explorada mais profundamente, embora o típico irlandês Barry Fitzgerald se destaque). Há muitas cenas sem som direto e com narração, o que causa certa estranheza. A seqüência final, o epílogo do filme, é excelente, mostrando o que unia aquele punhado de pessoas que acompanhamos durante 95 minutos, numa cidade de 8 milhões de habitantes. Do mesmo diretor, Jules Dassin (americano, apesar do nome e de ter ficado mais famoso após ir para a Europa, onde trabalhou principalmente na França e na Grécia), com roteiro de Richard Brooks, "Brute Force" é um filme de cadeia (de certa forma precursor do muito superior "Le Trou", do grande Jacques Becker) estrelado por Burt Lancaster e um marcante Hume Cronyn como o policial sádico, com uma estrutura bem interessante, mas hoje bastante envelhecido. A música de Miklós Rózsa é excelente, mas não muito bem usada. Também meio envelhecido (lembrando que um filme não é necessariamente velho porque foi feito há 60 anos) é "Kiss of Death", escrito por Ben Hecht e Charles Lederer e dirigido por Henry Hathaway, cujo destaque é a estréia de Richard Widmark num papel inesquecível, o do psicopata Tommy Udo, que comete um dos assassinatos mais horrorosos e revoltantes que já vi no cinema (retratado com uma sutileza arrebatadora _aqui, substantivo e adjetivo combinam). Uma pena que uma cena de estupro e outra de suicído foram cortadas pela censura.

    No capítulo dedicado a "amores em meio a rajadas de balas", que inspirariam filmes como "Bonnie and Clyde" e "Boxcar Bertha", temos "The Big Steal", de Don Siegel, marcando o reencontro de Robert Mitchum e Jane Greer. O roteiro é um fiapo (justamente o que impede que o filme alcance o nível de um "Out of the Past"); o destaque mesmo está na ação, brilhante e empolgantemente conduzida pelo diretor e encenada pelo elenco. De resto, o título engana _não se trata de um "filme de assalto", mas de perseguição. "Deadly Is the Female", também conhecido como "Gun Crazy", é dirigido por um diretor de quem gosto especialmente, Joseph H. Lewis, mas deixou um pouco a desejar; já tinha visto alguns trechos muito famosos (como o assalto ao banco sem que a câmera saia do carro _o início também é sensacional), o que colaborou com a pequena decepção. E ainda temos "They Live By Night", a estréia de Nicholas Ray como diretor, com um romance bem mais doce do que o do filme do Lewis; não é nenhum "In a Lonely Place", mas também é muito bonito; Cathy O'Donnell está excelente (curioso: a dupla de assassinos de "Festim Diabólico" estrela estes dois filmes: Farley Granger neste e John Dall no de Lewis).

    E já que falamos no Hitch, dois de seus filmes traíram minhas expectativas: por causa do tema (os relativos à moral e à fé me são caros, pela magnitude do conflito), eu achava que "I Confess" seria um grande filme, ainda mais por ser estrelado por Montgomery Clift; não é desprovido de interesse, e talvez o diretor tenha exagerado quando disse que "não deveria ter sido feito" a Truffaut, mas é um filme pouco marcante. De "Stage Fright" eu gostei muito, contrariando o diretor (que via como um de seus problemas a fraqueza dos vilões); a recém-falecida Jane Wyman está ótima (embora o diretor tenha reclamado bastante dela _mas Hitch vivia reclamando de seus elencos), mas é claro que Dietrich (a quem também vi em "The Devil Is a Woman", do Sternberg _mas eu prefiro "Desonrada", que também traz cenas em bailes de Carnaval) rouba todas as cenas em que aparece. E vi um filme de Robert Siodmak que poderia ter sido dirigido por Hitchcock: "Phantom Lady", um filme "Z", baratíssimo, sem atores conhecidos (só reconheci Aurora Miranda e Elisha Cook Jr., excelente como um baterista de jazz mulherengo), deu numa obra-prima, com uma premissa apaixonante. Valeu também por me apresentar a Ella Raines, linda e excelente; infelizmente, sua carreira não decolou. De quebra, revi "Monsieur Verdoux", que pode parecer atípico por vários motivos, mas que me soa bastante coerente com a obra sonora de Chaplin _Welles reclamava que só ganhou o crédito pela idéia (não fica claro se ele escreveu um tratamento do roteiro ou não) após o filme ter sido um fracasso de bilheteria e crítica.

    ***

    Ainda nos anos 40, passei por outra grande comédia de Lubitsch, "To Be or Not To Be": feito no ápice da Segunda Guerra, o diretor (berlinense, que já havia encarado as conseqüências da Primeira Guerra no melodrama "Broken Lullaby", de 1932) ridiculariza Hitler e o nazismo (dois anos depois de Chaplin), numa história que se desenrola em Varsóvia; é impressionante como ele consegue arrancar risadas de uma situação tão tensa _mas, à primeira vista, me pareceu um de seus filmes com menor carga erótica, apesar de Carole Lombard (morta num acidente de avião antes de o filme ser lançado _ou seja, foi o seu último) estar muito bonita (Jack Benny é o responsável por grande parte da comicidade). Do outro lado, ouvi o título do filme ser dito por Olivier em "Hamlet", seu segundo filme como diretor (o primeiro não-americano a ganhar o Oscar de melhor filme). Compreensivelmente, fica refém do texto (embora seja uma versão reduzida, de "apenas" 2h30, e com mudanças sutis para deixá-lo mais moderninho), embora a mise-en-scène (com a câmera em constante movimento e cortes disfarçados, criando uma bela fluidez temporal _bastante condizente com o texto de Shakespeare, aliás; não é à toa que, em "A Volta do Regresso", um dos poucos planos com movimento de câmera ocorre justamente quando Carlo Mossy encarna um híbrido de Rei Lear, Rei Momo e Scarlett O'Hara) contenha muita coisa interessante. Gosto muito da música e da Jean Simmons, adolescente, como Ofélia.

    Outra comédia interessante é "Adam's Rib", de George Cukor: mezzo comédia romântica mezzo drama de tribunal, baseia-se na idéia da igualdade entre os sexos (chamá-lo de feminista me parece inexato), tema que não envelheceu nem um pouco, embora a sociedade tenha mudado bastante nestas últimas décadas. O casal protagonista, Spencer Tracy e Katherine Hepburn, é fabuloso (especialmente nos improvisos cômicos do filme caseiro dentro do filme); o texto é esperto e há uma canção de Cole Porter como cereja do bolo. E há um plano impressionante, longuíssimo, com câmera fixa, totalmente segurado pelo diálogo e por Hepburn e Judy Holliday (que veio do teatro, fez pouco cinema e morreu jovem, de câncer de mama). Cole Porter, em companhia do diretor Vincente Minnelli e do co-coreógrafo e "leading man" Gene Kelly, não está em seus melhores dias em "The Pirate", romance musical ambientado no Caribe. As atenções vão todas para Judy Garland _mesmo ótima, não impediu que o filme tenha sido um fracasso de bilheteria. A montagem é bem estranha, e os cenários têm aquela cara de estúdio... E em "Diário de uma Camareira" de 1964, Burgess Meredith (o Pingüim da série do Batman e o treinador Mickey dos três primeiros "Rocky" _Cesar Romero, o Coringa, está no filme de Sternberg com Dietrich que comentei acima) produz, assina o roteiro e atua sob a direção de Jean Renoir, que adapta uma peça francesa que deu num dos meus filmes preferidos de Luís Buñuel, quase 20 a nos depois. Estrelada por uma Paulette Godard loira (bem diferente do que nos filmes de Chaplin), o filme do francês trabalhando nos EUA é muito mais leve e convencional do que o do espanhol na França.

    No período, também dei atenção a três trabalhos dos fabulosos arqueiros Michael Powell e Emeric Pressburger: "The Red Shoes"cai na revisão, mas ainda emociona ao final e impressiona com a seqüência do balé (quase 20 minutos que demoraram 6 semanas para serem produzidos); a paixão pela arte é sempre um tema que fala comigo. "I Know Where I'm Going!" é o primeiro filme delwa totalmente em preto-e-branco que vejo _curiosamente, dizem que o diretor de fotografia fez o filme inteiro (em estúdio, onde o protagonista de Roger Livesey, substituindo James Mason, filmou o tempo todo, mesmo com grande parte do filme se passando em locações na Escócia) sem usar um fotômetro. A história é tremendamente previsível; o diferencial mesmo é o senso de humor e de liberdade que são característicos de alguns filmes da dupla ("The Red Shoes" parece exceção); há inventividade e criatividade de sobra, como distribuição de vários elementos teoricamente inconciliáveis num mesmo plano, derrubando o naturalismo. E em "The Life and Death of Colonel Blimp", a escocesa Deborah Kerr, em começo de carreira, interpreta três personagens diferentes num épico em cores com quase três horas de duração; mas a estrela é, novamente, Roger Livesey (grande ator, mas que aparentemente só pegava os papéis porque a primeira opção _neste caso, Laurence Olivier_ não podia ou não queria fazê-los), em impressionantes caracterizações (acompanhamos seu personagem por mais de 40 anos). É um filme de esforço de guerra _mas que irritou Churchill, porque a personagem de Anton Wallbrook é um militar alemão simpático; o político teria impedido Olivier de estrelá-lo e tentado banir o filme_, mas ele transcende este aspecto (como fazem outros clássicos do período, como "Os 47 Ronin"). E assim como em "I Know Where I'm Going!", a dupla de cockers spaniels de Powell faz uma ponta... E já que o assunto é guerra, vale encaixar "Sands of Iwo Jima", que eu estava enrolando para ver desde o início do ano, quando os filmes de Clint Eastwood foram lançados; feito no calor dos acontecimentos pelo veterano Allan Dwan (diretor de quase 400 filmes) e estrelado por John Wayne, com a participação do sobrevivente trio de soldados que hasteou a famosa bandeira (que também aparece no filme, emprestada pelo exército _lembra Ford usando as locomotivas reais e histórias em "The Iron Horse"), é obviamente uma patriotada bastante romantizada _inclusive com direito a parzinho romântico (não na guerra, é claro); perde muito por justamente não investir em cenas de combate.

    E, como já é praxe, não poderia deixar de lado os dramas familiares de meu amigo Yasujiro Ozu: fui resgatar "Conto das Folhas Flutuantes", de 1934 (mudo, portanto), que aborda a paternidade, o orgulho e a premente necessidade de ganhar a vida numa sociedade com papéis sociais extremamente definidos _por exemplo, ser ator não é considerado uma atividade "digna". Os enquadramentos são magistrais, mas achei um filme meio frio, comparado a outros do diretor. Já num filme de 1948 que não tem título em português (a tradução seria algo como "Uma Fêmea de Ave ao Vento"), o diferencial (negativo, creio) é a menor sutileza no clímax (que contém a cena mais violenta que vi em seus filmes); curiosamente, o conflito, ditado pela moral, pela política e pela economia (mais uma vez, o diretor fala do universal por meio do particular, praticamente sem ação em externas), é exposto de maneira imensamente sutil. Bom, mas aquém do seu melhor.

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    Misturando a linha do tempo: de 1921, vi "A Carroça Fantasma", de Sjöstrom, um conto moral e sobrenatural (bem à moda da época) que lembra bastante o clássico de Dickens sobre o velho Scrooge, que inspirou o Tio Patinhas. Engraçado que uma das mais famosas cenas da carreira do Kubrick, Nicholson arrebentando uma porta a machadadas para chegar à mulher e ao filho, foi praticamente copiada deste filme, como uma óbvia homenagem. Pulando para os anos 60, outra adaptação literária (que Kubrick filmaria 6 anos depois), mas quase irreconhecível: em "Vinyl", Andy Warhol adapta "Laranja Mecânica" quase que em um plano só, em enquadramentos bem esdrúxulos; o enredo é resumido a quase nada; a trilha sonora é ótima, mas o filme dá um sono...

    Anos 70: curioso que uma sessão do Videobrasil, festival de "arte eletrônica", seja composta justamente de três filmes feitos e projetados (muito mal, com som e foco sofríveis, no superestimado Cinesesc) em 16mm... O primeiro, "Water Wrackets" (1975), é uma picaretagem da grossa: imagens de rios e lagos sob uma narração sobre eventos num futuro distante. O segundo, "Dear Phone" (1977), é o melhor, por ter, pelo menos, senso de humor. O terceiro, "A Walk Through H: The Reincarnation of an Ornithologist (1978)", segue caminho parecido, mas mostra 92 pinturas de Greenaway ("mapas") e imagens de pássaros. Completando a sessão, antes vi, no Sesc Paulista, uma exposição com 92 malas de seu personagem Tulse Luper _esta fixação de Greenaway com o 92 é por ele se tratar do número atômico do urânio, compreensível que o diretor tenha tal preocupação devido à sua geração. Acho que não dou muita sorte com Greenaway, não vi seus filmes mais elogiados...

    Menos chato foi conferir "Macumba Sexual", um dos 13 (!!!) filmes que Jesus Franco (assinando como Jess Franco) fez em 1983. É um interessante exercício de mistura de sonho e realidade, com apenas um fiapo de história: Franco prefere criar climas com a trilha sonora, as paisagens do deserto (e algumas construções arquitetônicas bem interessantes e exóticas) e com os corpos nus do elenco _com Lina Romay (também assistente de direção, sob pseudônimo, e mulher do diretor) à frente (e de costas e de tudo quanto é lado). Há um plano fabuloso: vemos na areia dois objetos que parecem lápides; de repente, uma mão gigantesca invade a tela e as pega (na verdade, eram pequenas estatuetas!).

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    De volta a este estranho ano de 2007: "Cartola: Música para os Olhos" é um bom documentário (de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda _este último esteve na sessão para debate e foi muito simpático) não apenas sobre o querido sambista, mas sobre o século XX. Vasto e rico material de arquivo garante sim informações mais do que suficientes para a biografia _a forma não briga com o conteúdo, diferentemente do que muita gente disse. E a primeira metade de "The Simpsons Movie", de David Silverman, é excelente; a segunda cai bastante, mas não deixa de ser boa. Os Simpsons ainda não envelheceram totalmente, mas não causam o frisson de antes justamente porque eles mudaram muita coisa e abriram espaço para as séries animadas politicamente incorretas, como "Beavis and Butt-Head", "South Park" e "Family Guy", entre outras. Mas não deixa de ser admirável a série estar no ar há quase 20 anos.

    Deste ano também é a série "The Tudors", que acabou de estrear aqui na TV a cabo: o que impressiona mais não é a razoável riqueza da reconstituição de época (historicamente, com certeza há muitos furos, mas estão lá Henrique VIII, Thomas Morus, Catarina de Aragão, Ana Bolena e outras figuras manjadas), mas o alto nível de erotismo (muito, mas muito sexo mesmo, para os padrões televisivos _e "Roma", que estou vendo no momento, é ainda mais ousada). Um episódio em especial, o da peste, me deu mais sustos do que todos os filmes de terror que vi nos últimos dez anos; era impressionante, um atrás do outro, mal dava para recuperar o fôlego e acalmar os batimentos cardíacos. Já a outra série vista neste ínterim, "Taken" (aparentemente produzida por Steven Spielberg como aquecimento para "Guerra dos Mundos" _Dakota Fanning está lá), sobre três gerações de três famílias (é meio confuso, mesmo) envolvidas com extraterrestres. É bem a cara do Spielba _bem, do pior dele: musiquinha vagabunda criando um climinha, câmeras rodando à toa em torno das personagens, textos boboquinhas na voz de uma criança, um chororô da mulherada... Fica mais divertido a partir do segundo episódio, mas a conclusão é meio broxante.

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    É claro que estou esquecendo muita coisa, mas pelo menos quero registrar aqui os meus parabéns pelo primeiro aniversário da Zingu!, que traz uma entrevista com o inigualável Sady Baby (também recomendo o belíssimo texto de Andrea Ormond, embora a edição toda mereça ser lida), e de recomendar o disco "Carnival Nights", do Black Barn Music, projeto do talentoso André ZP. Outra coisa: fantástico o debate ocorrido na Cinética a respeito de um curta-metragem brasileiro e recente; seria maravilhoso se iniciativas como esta (um grupo de críticos debatendo com um cineasta) se repetissem com mais freqüência. Eu adoraria que "A Volta do Regresso" ou qualquer outro meu passasse pelo mesmo escrutínio.

    sexta-feira, março 23, 2007

    Queria muito ver "Marie Antoinette" (mesmo que agora um monte de gente esteja falando bem, depois que o filme só levou paulada), mas o desgraçado não estreou perto de casa, o calor ainda está alto e a preguiça e outros compromissos venceram; vocês gostaram?

    Teria sido bom ver aquele contexto retratado por uma estrangeira contemporânea, após ter visto outros filmes históricos da França neste último mês, como o "Orphans of the Storm" (1921), do Griffith (que explicita em letreiros sua posição política, soltando os cachorros na então recente Revolução Russa, e traz algumas cenas impressionantes, como uma orgia dos aristocratas e os festejos do povo com a queda da monarquia; também há um clássico exercício de suspense baseado na montagem paralela, que ainda funciona), e o "Napoleón" (1927), do Abel Gance (quatro horas que passam voando, apesar de o ritmo cair quando chegamos ao romance com Joséphine. Vários momentos lembram certas experiências russas do período, como a metáfora da águia e a montagem rápida, feita pelo próprio Gance, que vai além e impressiona ao usar três câmeras para compor quadros grandiosos, criando o formato retangular _dizem também que ele chegou a filmar em cores e em 3-D, mas não teria usado estes trechos para não distrair demais o público. Talvez o maior filme da França? Há quem diga que é "Les Enfants du Paradis", outros vão de "Acossado"...). Agora, revolucionário mesmo é "Zéro de Conduite", do Jean Vigo, repleto deste espírito ao mostrar a reação de alguns garotos bagunceiros às autoridades escolares com o apoio de efeitos como câmera lenta, animação, stop-motion etc., homenageando Chaplin e inspirando Truffaut.

    Ainda na França, conferi duas parcerias entre Jean Renoir e o sempre genial Michel Simon, notável e inesquecível em suas caracterizações: "A Cadela" (1931) e "Boudu Salvo das Águas" (1932). O primeiro é uma lúcida obra-prima, introduzida pela clássica cena com os fantoches, que abre o caminho para a história, a mais antiga do mundo, narrada com brilhantismo raro (se o equipamento fosse mais ágil, que movimentos ainda mais ousados Renoir não teria realizado?); o segundo tem um belo final e alguns ótimos momentos, mas quem segura as pontas é mesmo Simon (também produtor; o grande Jacques Becker é assistente de direção e faz uma ponta). Completando o passeio pela terra de Astérix, "Jeux Interdits", de 1952 (um neorealista de René Clement, concentrado num microcosmo: fantasias infantis num ambiente rural), e o recente e bem-sucedido documentário "Ser e Ter", superficial, lento e que às vezes passa a impressão de ser covarde.

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    Andei visitando outros diretores, europeus em sua maioria (e a eles voltarei mais vezes). Um deles é o meu amigo Ernst Lubitsch, que apareceu no texto passado e volta com "Monte Carlo", de 1930 (mais um musical altamente escapista, mas não tão bom quanto "The Love Parade", do ano anterior), e duas obras-primas (nas quais felizmente abandona os musicais), "Ladrão de Alcova", de 1932, e "Sócios no Amor", de 1933, na qual o diretor exibe sua marca registrada: encadeamento perfeito de cenas curtas, sutis e que respeitam a inteligência do espectador (o que costuma ser raridade), sem privá-lo das gargalhadas.

    Outro mestre da época é o Rouben Mamoulian, em dois projetos excelentes e bem distintos. Um deles é o "Love Me Tonight" (1932), no qual ele rouba de Lubitsch a dupla Maurice Chevalier e Jeanette MacDonald e investe na comédia romântica musical; como Renoir em "A Cadela", passa por cima do enredo mais do que batido (nobre se apaixona por plebeu) e cria momentos clássicos, como a seqüência inicial, na qual Paris acorda com o som dos trabalhadores. Decupagem e montagem são irrepreensíveis, e as piadas não perderam o viço (gargalhei várias vezes). O grande problema mesmo é Chevalier, que não tem 10% do carisma de um Gene Kelly e não tem muita química com MacDonald _que não faz feio, mas que neste filme tem a cena roubada pela coadjuvante Myrna Loy, muito mais bonita e divertida. O outro, do ano anterior, é "Dr. Jekyll and Mr. Hyde", a melhor adaptação de "O Médico e o Monstro" que já vi. Mamoo mais uma vez nos dá um filme impressionante e tecnicamente perfeito (o que o faz parecer bem à frente de seu tempo). As seqüências subjetivas geraram filhos famosos (impossível não lembrar do início do "Halloween", do Carpenter, e do trecho imediatamente pós-transformação de "O Professor Aloprado", do Lewis), as transformações de Jekyll em Hyde e vice-versa são de cair o queixo (as feitas com filtros parecem mágica), e Fredric March está perfeito em ambas as caracterizações; já Miriam Hopkins (que, aos 60 anos, trabalharia com Russ Meyer, que não era bobo) está absolutamente deliciosa e dá ao filme uma carga gigantesca, quase inacreditável, de erotismo (uma tragédia que sua cena de nudez tenha sido cortada).

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    Quem também bateu ponto por aqui foi King Vidor, com "Hallelujah!" (1929), seu primeiro sonoro; traz aqueles probleminhas típicos da época, como interpretações bem acima do tom e má sincronia de som (que não foi captado diretamente, mas dublado após a filmagem), mas nada que o comprometa. Até porque é surpreendente: o que parece ser uma espécie de musical (quem dera a trilha sonora fosse lançada) retratando os agricultores de algodão (o elenco é 100% negro, o que acarreta alguns estereótipos também típicos da época, quando o racismo era mais tolerado, mas nada que chegue a ser escandaloso) vai ganhando ares de drama, depois parece que, fazendo jus ao título, se tornará um filme religioso (embora carregado de erotismo, apesar de não trazer cenas de sexo ou nudez), para virar uma tragédia e comentário moral, até fechar o ciclo. Em "The Champ" (obviamente fantasticotilhões de vezes melhor do que a xaroposa refilmagem do Zeffirelli _o Vebis cunhou muito adequadamente o termo "zefirelismo" em seu texto sobre "Rocky Balboa"), de 1931, os pontos fortes são o carisma de Jackie Cooper (o Perry White da série "Superman") e Wallace Beery, mas é a câmera (enquadramentos e movimentação) que rouba o show.

    Outro amigão da vizinhança é Yasujiro Ozu, que vem quietinho (ele só faria seu primeiro filme sonoro em 1936) com três obras: a primeira, "A Esposa da Noite" (1930), impressiona por parecer, a princípio, um filme de gângster, no melhor estilo "The Public Enemy"; mas não demora a se tornar um melodrama familiar, mais característico do diretor. Quatro atores (com destaque absoluto para Emiko Yagumo, que infelizmente teve carreira curta no cinema, menos de dez anos) em um cenário divinamente explorado por Ozu, mestre em decupagem e mise-en-scène. Os travellings são sempre perfeitos. Aproveitei para rever (e gostar ainda mais) de "Meninos de Tóquio" (título ruim; a tradução literal seria algo como "Eu Nasci, Mas..."), que já seria um grande filme se fosse apenas uma obra sobre a infância; ao tornar-se um drama familiar envolvendo os pais, segue atemporal e universal, mas amplia seu escopo _ poderia ser cruel, mas Ozu-san também era conciliador. Também vi "Dekigokoro" (não há título em português, seria algo como "ilusão passageira"), de 1933, que também investe no drama familiar causado pelo conflito de gerações (e de ambições entre pais e filhos), mas chega às beiras do dramalhão, o que eu nunca tinha visto nos filmes do diretor.

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    E não posso me esquecer de Fritz Lang, que compareceu com "M", de 1931 (no qual ele e Peter Lorre estão perfeitos, talvez em seus auges _Hitchcock, aprendiz de Lang, dizia que seu filme preferido era "A Morte Cansada", mas não há muita dúvida de que este também exerceu seu impacto sobre o britânico... de quem vi "Blackmail", seu primeiro sonoro, muito interessante especialmente pelas experiências técnicas de imagem e som, embora a atuação germânica de Anny Ondra também seja inesquecível), e "Das Testament des Dr. Mabuse", de 1933 (brilhante em vários momentos, mas um tanto arrastado em outros; melhora quando explora Rudolf Klein-Rogge, que interpreta a personagem-título, mas o cerne do filme é exatamente este, como a influência do mal (e em Mabuse cola-se perfeitamente o rótulo de "terrorista", na acepção mais abrangente do termo) pode contaminar... E não era o que estava acontecendo na Alemanha, com a ascensão dos nazistas ao poder?

    E já que falamos em nazistas, vamos dar uma olhada em "Salon Kitty", estrelado por Helmut Berger e Ingrid Thulin em 1976, na qual Tinto Brass confronta Eros e Tânatos, mostrando o sexo militarizado, usado como arma de guerra. Diferentemente de certos filmes rotulados de "nazixploitation" (como o horroroso "Ilsa, She-Wolf of the SS"), Brass não pretendeu fazer um mero filme erótico disfarçado de denúncia de atrocidades; vai bem mais fundo no horror não só daquele período, mas da psiquê humana, sem medo de mostrar imagens fortes. E pode-se não gostar do diretor, mas é inegável que ele tem estilo.

    Voltando de novo no tempo, faltou falar de Josef von Sternberg, que me mostrou dois de seus filmes com Dietrich: "Marrocos", de 1930, e "Desonrada", de 1931. O primeiro encena um triângulo amoroso no continente africano, mais de dez anos antes de "Casablanca" _muito menos tenso, até porque a personagem de Adolphe Menjou é um tremendo de um corno-manso, deixando barato a Marlene (mais uma vez fazendo um papel recorrente em sua carreira, a de cantora de cabaré _com direito a beijo lésbico) para Gary Cooper (fazendo o papel de legionário francês anos antes de "Beau Geste"), que nunca mais teria aceitadou um convite do Sternberg. O segundo é muito melhor, uma história de espionagem (no mesmo ano em que Garbo encarnava Mata Hari no filme homônimo) ambientada na Áustria da Primeira Guerra Mundial, onde Dietrich, mais linda do que nunca, interpreta a espiã X-27 e toca piano, muito piano... Tecnicamente, é perfeito: fotografia (que se aproveita bastante de efeitos como fusões) e mise-en-scène são deslumbrantes (a cena no Carnaval é linda), nem parece que é do início do período sonoro. Meu Sternberg preferido até o momento. E falando em fusões, poucos as usaram tão bem quanto Victor Sjöström em "Vento e Areia"...

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    Mas vamos parar um pouco com este domínio dos diretores e falar um pouco de um ator: ninguém menos que Boris Karloff. Mais conhecido como Frank, o homem com nome de vodca era considerado extremamente charmoso por todos, mas nas telas acabou marcado ou por monstrengos sem falas (além do mais famoso, temos também o mordomo mocorongo de "A Casa Sinistra", outro de James Whale) ou por personagens até que interessantes, mas um tanto unidimensionais, como o vilão de "O Gato Preto", do Ulmer (o primeiro dos vários filmes no qual Karloff encontra Lugosi), o gângster de "Scarface", do Hawks, ou o fanático religioso de "The Lost Patrol", do Ford. E aí fica a dúvida: foi um bom ator mal-aproveitado ou um mau ator muitíssimo bem-aproveitado? Minha tendência é balançar em direção à segunda alternativa.

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    Mas vamos falar de um assunto leve e agradável, como matança: por um lado, a barra pesa em "Você Também Pode Dar um Presunto Legal", média feito entre 1970 e 1973 (mas exibido somente a partir do ano passado) pelo documentarista Sérgio Muniz sobre o surgimento e a ascensão do Esquadrão da Morte e da tortura encampada pelo Sérgio Fleury; obviamente ele não tratou de entrevistar nenhuma autoridade (iria para o pau-de-arara rapidinho), mas filmou publicações jornalísticas e publicitárias da época (estas são o cúmulo do espírito de porco brazuca, fazendo gracinhas com a violência para vender aparelhos de TV e água sanitária), montagem de duas peças de teatro e outros atores (entre eles Abrahão Farc, Renato Consorte _ambos convidados para atuar em "A Volta do Regresso", mas o papel acabou ficando para o Ênio Gonçalves_, Othon Bastos e Gianfrancesco Guarnieri) interpretando figuras da época. A trilha é ótima (embora óbvia), bem irônica.

    Tortura e sangue também vemos em "King of Kings", belíssima adaptação do Novo Testamento dirigida por Nicholas Ray, mesmo que prejudicada pelas piores características das superproduções "históricas" (não que a exatidão da reconstituição seja uma necessidade) do período, como o excesso de assepsia e de artificialidade. Há cenas lindas (como o sermão da montanha e Jesus curando um cego), a narração (escrita por Ray Bradbury e lida por Orson Welles _foi a primeira vez que vi este filme, antigo campeão da "Sessão da Tarde" na época das Páscoas da minha infância, com som original e janela correta) funciona, e a trilha sonora de Miklós Rózsa é ótima (embora também restrita às convenções do gênero). Mas, apesar de todos os recursos (como a estonteante fotografia em 70mm) e talentos empregados, fica a anos-luz de distância do filme de Pasolini, feito meses depois.

    Temos também a primeira temporada da série "Dexter", exibida nos EUA no ano passado (aqui, sabe-se lá quando): adaptação literária (não muito fiel, segundo li por aí) ambientada em Miami (o que a deixa bem menos dark do que poderia ser _há sol de montão, praia e muita música caribenha, o que confere bastante humor a tudo) que, apesar da premissa um tanto diferente (um legista da polícia na verdade é um serial killer que mata apenas outros assassinos que escaparam da lei), a série começa como mais um mero show policial; mas melhora bastante ao se aprofundar no passado de seu protagonista (há algumas grandes surpresas, e a maior delas fica bem para o finalzinho), interpretado pelo ótimo Michael C. Hall (o papa-defunto gay de "Six Feer Under"), acompanhado de Jennifer Carpenter (mais conhecida como Emily Rose, aquela do exorcismo). Destaque para a abertura, na qual as atividades mais corriqueiras do dia-a-dia, como fazer a barba, passar fio-dental, vestir-se e fazer o café-da-manhã tornam-se carregadas de morbidez (mesmo assim, a série poderia ter um clima bem mais pesado, de pesadelo).

    E como citei pesadelo, vamos aproveitar para meter o pau numa porcaria safada que tive o desprazer de ver neste mês, o tal "Me and You and Everyone We Know", da Miranda July. É pior do que uma bobagem pretensiosa, porque sequer consegue chegar neste nível: adequadamente classificado como "lixo indie", este filme parece não ter a menor vergonha de atingir cúmulos de ridículo (como a cena com o peixinho dourado), o que não seria necessariamente ruim, se fosse uma comédia (aliás, dei muitas risadas durante o filme, pena que não era seu objetivo arrancá-las). Para piorar, a trilha sonora é abominável, mas o que preocupa mesmo é a sensação de que a diretora deveria urgentemente procurar um psicólogo, porque ela parece ser alguém com a alma aleijada... Pelo menos o garotinho Brandon Ratcliff está OK. Já "A Lula e a Baleia", produção do Wes Anderson dirigida por seu roteirista em "...Steve Zissou", não é uma droga, mas também não passa muito de sub-Woody Allen (ou seja, sub-sub-Bergman). Deixa-se assistir sem sofrimento, mas passa muito pouca personalidade (dá a impressão de que o roteiro foi filmado com uma tremenda preguiça). O elenco está muito bem, o final é óbvio e bem fraquinho.

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    Chegou até aqui? Cansou? Então vamos encerrar, por hora: revi os dois primeiros episódios de "Star Wars" (quero dizer, o I e o II, mais recentes), e não entendo muito a implicância com esta nova trilogia que "inicia" a saga. Os filmes não só "rimam" com seus antecessores, como ganham muito visualmente. A grande importância destes dois filmes foi o investimento no cinema digital (a transição do Mestre Yoda fantoche para o totalmente animado foi um grande avanço, assim como o chatíssimo Jar Jar Binks). Lucas será lembrado como pioneiro pelas próximas gerações, não tem jeito.

    P. S. OK, só mais uma coisinha. Eu esqueci no mês passado e quase ia me esquecendo de novo de comentar a imperdível mostra do Anish Kapoor no CCBB de São Paulo: ouvindo a Lucrécia Martel dar uma palestra no mês passado, ela insistiu muito na questão do som em seus filmes, concentrando muito na vibração dos tímpanos a sensação física que o cinema proporciona, e, curiosamente, deixou (pelo menos naquele dia) a imagem em segundo plano; pois as obras do Kapoor são visualmente sensacionais justamente por gerarem uma concretitude do olhar como manifestação física. O reflexo do que captamos na retina se espalha por todo o corpo, coisa que as crianças sabem experimentar muito bem, mas que quando crescemos acabamos nos dessensibilizando; ali, me senti como numa Casa Maluca de um parque de diversões, e foi impossível não lembrar do final de "A Dama de Shanghai". Quem não for ver é mulher do Bento 16!

    P. P. S. Era também para eu falar do Proust (inspiração para uma peça de teatro que comecei a escrever), mas acho que fica para outra vez...

    Na platéia