A gruta é mais extensa do que a gruta

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    quinta-feira, novembro 13, 2008

    Como havia avisado nos comentários do texto abaixo, "Nas Duas Almas" passou no Festival de Curtas do Rio. Segundo me diz o Vebis, gerou bastante discussão e elogios, o que me deixa muito feliz. Não sei se alguém mais escreveu sobre o filme, mas sempre fica essa vontade de discutir a obra, repensá-la, colocá-la em crise; o problema é que este estimulante diálogo é raríssimo... No caso de "A Volta do Regresso", um filme que dá muito pano para a manga, esse diálogo tem sido quase inexistente por puro azar: nos festivais mais importantes em que o filme entrou, não houve cobertura jornalística, e nos que houve e o filme era garantia de passar, eu não o inscrevi por motivos vários. Assim que eu tiver um tempo, vou colocar o DVD do filme para download no KaraGarga e quem quiser assistir e dar sua opinião finalmente terá a oportunidade.

    ***

    Diferentemente do habitual, vi vários filmes recentes nos últimos dias (mas não o novo 007, sobre o qual Luis Fernando Verissimo escreveu: "Tiveram o bom senso de manter o título do original, 'Quantum of Solace', no Brasil. Ninguém sabe o que quer dizer, mas é a melhor coisa do filme".). O melhor foi o divertidíssimo "Planet Terror", o ponto alto de Rodríguez. Diante desta homenagem aos filmes que cresci vendo nos anos 80, pergunto: qual será a memória afetiva das próximas gerações, as megaproduções em série como "O Senhor dos Anéis" e "Harry Potter"? Mas o filme é de grande ironia: o roteiro, bem escrito (mas com cenas descartáveis, como todas as com a personagem de Tarantino), tem ótimos diálogos e aproveita bem todos aqueles clichês _mesmo a "queima" da película e a falta de um rolo que encobre um grande segredo de um dos protagonistas funcionam muito bem. E ainda traz dois pitéus, Rose McGowan e a Fergie. A outra beleza recente é "Ratatouille", que, se não é o melhor de Brad Bird nem da Pixar (pelo menos "Toy Story" e "Finding Nemo" me agradaram mais, assim como o "The Iron Giant"), não deixa de ser excelente. Sempre tive muito interesse (inversamente ao meu conhecimento) pela gastronomia e lamento que os filmes sobre o assunto não tenham cheiro... E fiquei o tempo inteiro sabendo que eu conhecia o ator que fazia a voz do melhor personagem, o crítico Anton Ego, mas não conseguia nomear aquela voz _depois vi que é de Peter O'Toole, claro. É ele que diz as melhores palavras do roteiro, antológicas, que é preciso reproduzir: "In many ways, the work of a critic is easy. We risk very little yet enjoy a position over those who offer up their work and their selves to our judgment. We thrive on negative criticism, which is fun to write and to read. But the bitter truth we critics must face, is that in the grand scheme of things, the average piece of junk is more meaningful than our criticism designating it so. But there are times when a critic truly risks something, and that is in the discovery and defense of the new. The world is often unkind to new talent, new creations, the new needs friends. Last night, I experienced something new, an extraordinary meal from a singularly unexpected source. To say that both the meal and its maker have challenged my preconceptions about fine cooking is a gross understatement. They have rocked me to my core. In the past, I have made no secret of my disdain for Chef Gusteau's famous motto: 'anyone can cook'. But I realize, only now do I truly understand what he meant. Not everyone can become a great artist, but a great artist can come from anywhere."

    É bastante curioso que "American Ganster", de Ridley Scott (visto na versão não-censurada, de quase três horas _20 minutos a mais do que a que foi para os cinemas), não alcance, em nenhum momento, o status de "épico", como "O Poderoso Chefão" ou o "Scarface" de De Palma, para citar duas referências óbvias. Parece muito mais um simples filme policial, como "Operação França", mas sem ser inesquecível como este ou loucamente divertido como um blaxpoitation como "Coffy". Mesmo Denzel Washington e Russell Crowe, ambos muito bons, não são tão marcantes como Pacino e De Niro em "Fogo contra Fogo", por exemplo. Enfim, é um filme que tinha tudo para ser grande e inesquecível, mas que não passa de agradáveis três horas que voam _o que também não é exatamente pouco. O que será que ficou faltando? Muita coisa falta num dos piores filmes que vi nos últimos tempos, o muito falado "Little Miss Sunshine". Jonathan Dayton e Valerie Faris (que, eu não sabia, já são cinquentões) dirigiram uma série de clipes legais (de bandas como Red Hot Chili Peppers, REM e Smashing Pumpkins) mas naufragaram fragorosamente ao chegarem ao longa-metragem. Este deprimente e mal escrito filme é um lamentável e previsível amontoado de clichês e uma enorme perda de tempo _tem apenas duas cenas boas, uma com Abigail Breslin (que estreou em "Sinais", do Shyamalan) e Alan Arkin, que passa alguma emoção, e a apresentação da menina no concurso de misses, a única que me arrancou uma risada. É incrível que um elenco tão fantástico (onde Breslin acaba se sobressaindo, vejam só) tenha embarcado numa roubada dessas _o final é revoltante e inacreditável de tão péssimo. Se querem ver um filme de família disfuncional com personagens caricatos, fujam deste aqui e vão ver qualquer um do Wes Anderson.

    A série da vez foi a primeira temporada de "Mad Men", uma das mais comentadas do ano passado. A reconstituição de época é impressionante (assim como a de "American Gangster") e todo o resto é muito bem feito, mas a série também "decola"; seu grande prestígio, infelizmente, parece ser fruto do baixo nível da maioria da concorrência... ou estou errado, já que também estou longe de acompanhar tudo o que anda passando? O grande destaque e a grande revelação é Christina Hendricks, extremamente sexy como Joan Holloway, personagem secundária, mas que dá o tempero à série: suas cenas são sempre luminosas. É o que me fará ver a segunda temporada, já completa.

    ***

    E voltemos à época em que se passa "Mad Men", o comecinho dos anos 1960, que tem sido dominado por Itália, França e Japão (superioridade numérica do antigo Eixo, hmm). Voltei a encontrar um autor muito polêmico e irregular, mas do qual eu gosto muito (talvez também por ser polêmico e irregular?), Pier Paolo Pasolini. Vi, separado dos outros episódios que compõem "Ro.Go.Pa.G.", "La Ricotta", tido por alguns como seu melhor trabalho. Não concordo (fico com a obra-prima "O Evangelho Segundo S. Mateus", seguida de "Teorema", que certamente têm muito em comum com este média). Inspirado na paixão de Cristo (que o diretor diz considerar a mais bela história), traz planos coloridos que são verdadeiras pinturas, além do empolgante twist de Carlo Rustichelli e de Orson Welles, discreto (sente-se a falta de sua voz, já que ele foi dublado em italiano _apesar de a leitura labial indicar que ele disse o texto italiano). Na entrevista dada por seu personagem ele critica os italianos, elogia o marxismo e diz que Fellini "dança", enquanto lê "Mamma Roma" (ao fundo, toca uma versão do twist tema de "O Eclipse", de Antonioni). Apesar do tema, o filme é despretensioso, leve e bem-humorado. E vi também "Mamma Roma", seu segundo filme, que já traz várias das características vistas em suas obras futuras, como os planos frontais durante diálogos mais ou menos a la Ozu, muitos atores amadores (como as duas moças que namoram o filho da protagonista Anna Magnani _esta, em um de seus últimos filmes_, Silvana Corsini e Luisa Loiano) e um final extremamente poderoso e impactante, muitas notas acima do resto do filme. É bem mais cru que "Noites de Cabíria" _e é difícil dizer qual dos dois é melhor, embora eu costume balançar mais para o lado de Pasolini.

    Ainda na Itália, outra beleza é "La Frusta e Il Corpo", um dos filmes que Mario Bava assinou como John M. Old. É mais uma prova do extremo talento dele como diretor de fotografia: só mesmo um pintor para criar uma concepção não-naturalista em cores integrada à narrativa, sem parecer que está meramente se exibindo (isso vale também para a movimentação de câmera). A história, simplíssima, é contada lenta (mesmo o filme sendo curto) e silenciosamente (apesar da belíssima trilha sonora _de quem? Do grande Carlo Rustichelli, sob o pseudônimo de Jim Murphy). Christopher Lee (quando ainda era galã) e a bela e vampiresca Daliah Lavi estão ótimos. E vendo "I Fidanzati", fico mais convencido de que Ermanno Olmi é um injustiçado: por que ele não é tão comentado quanto Antonioni ou Scola (para citar dois italianos que não figuram entre os meus preferidos)? Este é mais um exemplo de que seu cinema é (ou foi, ainda não conheço sua obra mais recente) sofisticado e moderno. Já segue uma tendência bastante apreciada atualmente, a do fiapo de história sustentada por um distanciamento das personagens e pouquíssimos diálogos _particularmente, este estilo não me deixa me aproximar muito do filme, o que considero um defeito; muitos consideram uma qualidade, e é bom que seja assim. Então há profusão de elipses e flashbacks entremeados de retratos do ambiente e de seus habitantes. Mas abundam momentos belíssimos _a trilha sonora de Gianni Ferrio ajuda, assim como o carisma do casal protagonista, Carlo Cabrini (em seu primeiro e penúltimo filme) e Anna Canzi (também estreante de carreira curta).

    Já citei o danado do Antonioni duas vezes neste texto e vou ter de voltar a ele: juro de pés e mãos juntas que tenho a maior boa vontade do mundo com o diretor, mas ele não colabora. Vendo "Deserto Vermelho", sou imediatamente conquistado pela bela seqüência dos créditos iniciais, com imagens desfocadas e música eletrônica, além dos nomes de Monica Vitti e Richard Harris; o problema é que o filme não demorou muito para me perder _e perdeu mesmo, porque ocorreu algo raríssimo: caí no sono antes de sua metade (e era bem cedo, horas antes do meu horário normal de sono). No dia seguinte, voltei à carga e tentei desesperadamente me ligar ao sofrimento da personagem de Vitti e à beleza da fotografia... em vão (pelo menos consegui ficar acordado, embora também tenha tido um pesado ataque de sono). Detesto dizer que algo é "chato" porque a palavra, do jeito que é comumente empregada, indica que o problema é do espectador e não da obra; mas ela se aplica perfeitamente a "Deserto Vermelho" porque o filme é "flat", sem altos nem baixos, como a linha que indica que o coração de uma pessoa já não bate. Eu tentei, Antonioni, mas você me decepcionou de novo. Em sua homenagem, um spoiler: após anos longe dos quadrinhos, vai aí a primeira tirinha que fiz com o Stripgenerator, que é limitadíssimo, mas quebra o galho (eu prefiro desenhar, mas atualmente não tenho material adequado):

    Il Deserto Rosso

    Na França, o destaque é Jean-Luc Godard, com três filmes: "Les Carabiniers", "Bande à Part" e "Une Femme Mariée: Suite de Fragments d'Un Film Tourné en 1964". O primeiro é bastante irônico, divertido e até didático e despretensioso. O músico Patrice Moullet, que como ator assinava Albert Juross, está hilário, e Geneviève Galéa chama a atenção pela grande beleza (o que não é de surpreender, sabendo-se que é a mãe de Emmanuelle Béart). "Bande à Part", uma adaptação literária, é talvez seu filme mais bem-humorado (além das famosas cenas do Louvre e a da dança, temos uma narração bastante irônica do diretor, muitas brincadeiras com montagem, som e decupagem e claras declarações de amor ao cinema americano mais popular) e, dos que vi, o que mais se assemelha a "Acossado". É também o filme em que Anna Karina aparece menos glamourizada: está menos bonita, mas mais jovial. E há a bela música de Michel Legrand. "Une Femme Mariée", meu preferido entre os três, soa bastante moderno na forma e na temática feminista. Macha Méril, belíssima, é a jovem casada que encontra o amante, questiona-se sobre as diferenças entre amor e sexo, vê-se no meio de uma conjuntura que, fazendo das mulheres o alvo primordial do consumismo, as obriga a se adaptar a uma série de padrões um tanto esdrúxulos (o que não mudou até hoje). Suponho que Godard já estivesse brigado com Truffaut, pois há algumas claras citações a "La Peau Douce" (uma revista com uma reportagem sobre o filme é mostrada, assim como há uma espécie de reprise de uma homenagem a Jean Cocteau), um filme já tão longe de qualquer cinema supostamente "de vanguarda" que aparenta ter pouquíssima ou nenhuma relação com o que foi chamado de Nouvelle Vague. Jean Desailly, morto em julho passado, carrega o filme. Dois detalhes me chamaram a atenção: o apartamento do diretor é usado como locação, e aqui aparece o plano em que Françoise Dorléac coloca a bandeja de café da manhã na soleira do porta e vem um gato cheirar os recipientes _o making of dele nós vemos em "A Noite Americana", quase dez anos depois. Completam este parágrafo que não toma banho mas usa perfume "Muriel ou Le Temps d'un Retour", de Alain Resnais (com uma montagem elíptica e frenética a ponto de me fazer lembrar de, oh, Russ Meyer), e "Le Feu Follet" ("O Fogo Fátuo" seria um título mais bonito e mais chamativo do que "30 Anos Esta Noite"), mais um exemplo do ecletismo de Louis Malle (o que me faz perguntar se este diretor tem um estilo).

    Na terra do sashimi de salmão, meu preferido foi "Nikutai no Mon", chamado por aqui de "Portal da Carne", que pode até ser visto como um precursor dos exploitation dos anos 70, por causa das cenas de tortura de mulheres nuas, mas é muito mais um filme político: passado no imediato pós-Guerra, com o Japão humilhado e ocupado por soldados americanos e protagonizado por mulheres que tiveram suas famílias destruídas e foram obrigadas a trabalhar como prostitutas, inicia e acaba com a imagem da bandeira dos EUA, sob palavras longe de gentis. Outro ponto interessante é o de que, apesar de um drama sociopolítico, o filme foge do naturalismo: não só tem aquela "cara de estúdio" (que está longe de ser uma coisa necessariamente ruim) como estiliza bastante as personagens por meio do figurino (cada prostituta tem sua cor e só se veste com ela durante todo o filme _o que facilita a identificá-las, por sinal). É também o filme de estréia de Yumiko Nogawa, na ativa até hoje (assim como o diretor, Seijun Suzuki). Em "Akai Satsui" (aqui, "Segredo de uma Esposa"), até onde me lembro o primeiro longa de Shohei Imamura que vejo, o drama familiar abandona a doçura de um Ozu para incluir violência e sexo, pratos típicos do erotismo japonês. Mas o filme está longe de ser um "exploitation" ou algo do tipo: é muito sério, complexo e bonito _mas também um tanto extenuante. No fundo, também soa como um filme feminista. E "Yukinojo Henge", de Kon Ichikawa, é bem menos impressionante que "Fogo na Planície". Mesmo assim, é bastante incomum: a encenação também foge do naturalismo (assim como os atores, cujas falas traduzem a história para o espectador sem sutileza), o enredo é exposto aos trancos e barrancos (as rupturas de tempo entre as cenas são grandes), e a fotografia é exuberante (lembra o "Gate of Hell" do Kinugasa, que dirigiu a versão original deste aqui em 1935 _o curioso é que Ichikawa usa o mesmo ator, o excelente Kazuo Hasegawa, que também estrela o "Gate of Hell" e que aqui interpreta dois personagens; este é seu penúltimo filme). Ayako Wakao está linda, e o Eiji Funakoshi de "Fogo..." também tem papel de destaque. É uma obra que se destaca mais por alguns momentos muito fortes do que pelo seu conjunto, que chega a ser dispersivo.

    Ainda na Europa, a Polônia trouxe "Nóz w Wodzie". É "A Faca na Água", primeiro longa de Polanski, escrito em parceria com Jerzy Skolimowski. Sem contar uma história complexa, arranha o comportamento de dois homens face a uma bela jovem (Jolanta Umecka, em seu primeiro filme, cuja carreira não se estendeu muito), mas introduzindo situações-limite. O diretor faria filmes bem mais empolgantes (embora por vezes entregasse bombas como "Fearless Vampire Killers". Melhor é o soviético "Tini Zabutykh Predkiv", que em inglês ganhou o título de "Shadows of Our Forgotten Ancestors". O clássico de Sergei Parajanov experimenta com cores, lentes, efeitos visuais, posições de câmera, velocidades, que contam uma deprimente história nos cafundós dos Cárpatos. É um cinema brincalhão, de celebração, mais divertido de fazer (a não ser por aquela neve toda) do que de ver. E no país de Hussein Obama, o Clinton "bronzeado" (segundo o "caimano"), fui do conjunto formado pelas cinco partes de "Dog Star Man": estava mesmo com vontade de ver um filme não-narrativo, e esta série de Stan Brakhage veio bem a calhar. É bom ser desafiado de vez em quando, embora o impacto não seja dos maiores.

    ***

    Uma das minhas muitas leituras atuais é uma biografia do Joe Strummer, "Redemption Song", de Chris Salewicz. A leitura me fez voltar a ouvir Clash (fico besta ao lembrar que já era fã da banda aos 11, 12 anos _como é que uma criança é capaz de tamanho bom gosto?) e derivados (101ers, Big Audio Dynamite, Havana 3 A.M., Latino Rockabilly War, The Mescaleros, Carbon/Silicon e até Ellen Foley e The Good, The Bad & The Queen, mas nada que chegue perto do original em seu auge _ou seja, "Sandinista!") obsessivamente. Como ter trabalhado com cobertura de shows e da indústria fonográfica acabou me afastando dessa área (basicamente, o que era curtição virou trabalho e perdeu a graça) e o universo é gigantesco, mesmo com ajuda de Last.fm e quetais não sei se atualmente há alguma banda comparável em produção e em qualidade (foram oito vinis em 5 anos, sendo que apenas um punhado de faixas não eram muito boas _estou desconsiderando o "Cut the Crap", é claro), o que é muito deprimente. O mundo bem que precisava. Update: está sendo lançado outro disco ao vivo deles, com o famoso show de abertura pra o Who no Shea Stadium, em 1982. Iupi!

    Falando em livro, vai aí um trecho bem interessante do "Conversas com Woody Allen: seus Filmes, o Cinema e a Filmagem", recém-lançado pela editora onde trabalha meu ex-colega de Ilustrada Cassiano Elek Machado (a pergunta foi feita há menos de quatro anos):

    "Eric Lax - Faça uma avaliação de sua carreira até hoje.

    Woody Allen - Minha sensação objetiva é que não atingi nada significativo artisticamente. Não digo isso com tristeza, apenas descrevo o que sinto como verdade. Sinto que não dei nenhuma real contribuição ao cinema. Em comparação com contemporâneos como o Scorsese, o Coppola ou o Spielberg, realmente não influenciei ninguém de forma significativa. Quer dizer, muitos dos meus contemporâneos influenciaram jovens diretores. O Stanley Kubrick é um exemplo primordial. Eu não sou nenhum tipo de influência. Por isso é que sempre me pareceu estranho que prestassem tanta atenção em mim ao longo dos anos. Nunca tive um grande público, nunca fiz muito dinheiro, nunca tratei de temas controvertidos nem prestei atenção nenhuma na moda. Os meus filmes não estimularam a opinião do país em temas sociais, políticos ou intelectuais. São filmes modestos, feitos com orçamentos modestos, que produzem lucros extremamente modestos e não abalam de forma alguma o mundo do show business. Não tem jovens diretores correndo para me imitar e fazer filmes do jeito que eu faço. Nunca tive domínio técnico suficiente ou suficiente profundidade de idéias para fazer ninguém pensar. Sou apenas um piadista de Brooklyn/Broadway que teve muita sorte. E eu não sou uma pessoa modesta demais. Quando sou bom, sei apreciar a mim mesmo. Não sou triste, nem confessadamente masoquista a esse respeito, mas sou inteligente o bastante para saber que explorei ao máximo meus dotes limitados, ganhei um bom dinheiro em comparação com o meu pai e, o mais importante, de longe preservei minha saúde. Quando eu era menino, sempre corria para o cinema em busca de um escape - às vezes doze ou catorze filmes por semana. E, adulto, consegui viver a minha vida de forma um tanto autocomplacente. Consigo fazer os filmes que quero, e então, durante um ano, posso viver naquele mundo irreal de mulheres bonitas e homens interessantes, situações dramáticas, figurinos, cenários e realidade manipulada. Sem falar em toda a maravilhosa música e em todos os lugares aonde me levou. [Ri] Ah, e às vezes eu consigo sair com uma das atrizes. O que poderia ser melhor? Escapei para uma vida no cinema do outro lado da câmera, mais que para o lado da platéia. É irônico eu fazer filmes escapistas, mas não é o público que escapa - sou eu."

    No texto que vem: "Um Dia, um Gato" e outros filmes.

    sábado, outubro 11, 2008

    Falei do chilique de Luiz Carlos Barreto a respeito dos festivais nos comentários do texto abaixo e não consigo deixar de comentar agora o "manifesto anti-nudez no cinema" (ou uma grande cena de ciúme em público?) de Pedro Cardoso. Entre as muitas posições discutíveis no texto dele, há exageros ("pornografia que percebo presente na quase totalidade da produção audiovisual mundial, e na brasileira especialmente") e limitações ("a dramaturgia, que é arte de contar histórias, busca oferecer ao público um pensamento, e não uma sensação"), além de acusações (que podem até ter fundamento, mas não servem para generalizar) e ofensas. Entre estas, a de que "diretores e roteiristas" sofrem de "voyeurismo" e "desfunção (sic) sexual" e "impingem cenas macabras" aos atores (mas os atores não lêem os roteiros antes? Não se discutem estes pontos com o diretor? Que vitimização do ator é essa?). Aliado a tudo isso, declarações estapafúrdias ("Quem quer a nudez do outro, é porque tem problemas com a sua própria"). Curiosamente, ao final ele toca em um ponto mais interessante e pertinente, a atuação das pessoas que ele chama de "amestradores de atores". Também concordo quando ele fala que os atores devem fazer apenas o que querem, dentro de seu ofício (é claro que nenhum ator deve ser vítima de assédio ou qualquer outro tipo de covardia, assim como nenhum profissional deve sofrer abusos no ambiente de trabalho _e olha que já vi muita gente sofrendo...). E não me oponho de forma alguma a ele ter exposto o que pensa e sente. O que temo é que tais palavras possam exercer sobre o audiovisual brasileiro e o seu público uma influência nefasta, que o infantilize e o "encareteie" ainda mais. Porque é este o grande câncer que carcome a arte atualmente (não é à toa que várias pessoas ficaram perturbadas com a carta de uma leitora do Guia da Folha na qual ela reclamava de ter visto o trailer do novo filme do Mojica). Aliás, recomendo a leitura dos parágrafos 2, 3 e 4 deste texto de Andrea Ormond e também o início do seu texto anterior, no qual ela cunha o perfeito neologismo "sociochanchada"." Update: dois dias depois de eu ter escrito este texto, a Ilustrada publicou matéria de capa sobre a polêmica. Inácio Araújo escreveu um belo texto, do qual peço licença para reproduzir o parágrafo final: "Toda essa história é tão cheia de elementos estranhos, incompreensíveis, truncados, entreditos, que parece uma ficção mal alinhavada, sombriamente retrógrada, destinada a funcionar como lance de marketing, a serviço não se sabe do que ou de quem." Update 2: Laerte, excelente como sempre, publicou um "anti-cartum" que aparentemente faz menção à polêmica.

    Enfim, eu não vejo nada de mais na nudez (sou simpático ao naturismo e acho bonitos os corpos _e não precisa necessariamente ser de gente "jovem e sarada") e mesmo na pornografia (que, sim, tem algo de muito triste _mas também não sou contra a tristeza), que já foi defendida por grandes artistas. Mas se alguns atores, que realmente ficam numa situação de grande vulnerabilidade e exposição quando trabalham (mas os roteiristas e diretores também ficam, embora não tenham seus corpos registrados), não se sentem à vontade com a nudez, bastaria recusar papéis que a exijam, não? Cardoso acusa diretores e roteiristas de "voyeurismo" _mas o que há de mal no voyeurismo? Todo espectador de cinema não é um voyeur?

    Como diretor, eu nunca gostaria de colocar nenhum ator ou atriz numa situação constrangedora ou que venha gerar arrependimento no futuro; mas também acho que o ator ou a atriz deva ter a capacidade de se despir (sem trocadilho) de seus pudores na hora em que for interpretar (e vocês já imaginaram "Falsa Loura" sem a nudez de Rosanne Mulholland ou "O Céu de Suely" sem a nudez de Hermila Guedes ou "A Dama do Lotação" sem a nudez de Sônia Braga ou "Rio Babilônia" sem a nudez do travesti na cena com o Jardel Filho, entre muitos outros exemplos? Pode haver algo gratuito, constrangedor e pornográfico em muitos filmes, mas não em exemplos como esses, e não acredito que todos devam pagar pelos pecados de poucos); e caso ele/ela (de novo, sem trocadilho) não seja capaz, caso seja limitado(a) neste aspecto, que não aceite o papel. Mas que não se inicie uma campanha nefasta pela pudicícia (não em seu belo sentido de "honra feminina") ainda maior do nosso cinema (ou do gosto do público médio _ou de 'classe média"?), que anda massacrado pelo "bom gosto" burguês (odeio esta palavra, mas aqui ela cabe direitinho), pelo politicamente correto e pela incapacidade da "geração Prozac" de lidar com a vida. Um pouquinho mais de maturidade, por favor! E, principalmente, um pouquinho menos de frescura! (E imaginem aqui um "porra!" dito de boca cheia pelo Pereio.)

    ***

    Depois desse intróito, parece até adequado começar por "Como Consolar Viúvas", pornochanchada (na recente entrevista que Carlo Mossy deu a Jô Soares, este _que também dirigiu uma, "O Pai do Povo"_ brincou que a pornochanchada não tinha nada de... chanchada) que José Mojica Marins assinou como J. Avelar em 1976. A assinatura sob pseudônimo dá a entender que ele não tinha muito orgulho da fita, e realmente ela está muitíssimo aquém de seus clássicos. Mesmo assim, dá para ver, em alguns momentos (nos planos que abordam o sobrenatural, com direito a distorções de imagem), a marca do autor. Outra comédia que tem a ver com sexo (o Pedro Cardoso provavelmente morderia os cotovelos do Selton Mello de tanta raiva ao saber do projeto de website dos heróis do filme) é "Ligeiramente Grávidos", o segundo longa de Judd Apatow (o anterior foi "O Virgem de 40 Anos"), produtor e roteirista de cinema e TV que deu uma força para gente do nível de Jim Carrey e Ben Stiller _ou seja, é um nome central na comédia norte-americana há pelo menos uns 15 anos. E é impressionante a evolução neste filme, que é muito engraçado, mas também muito sutil, cheio de emoção, com personagens de carne e osso e uma trilha sonora cheia de canções famosas. O filme tem 2h15, ou seja, é bem pouco conciso (como o anterior), mas não é nem um pouco cansativo. Seth Rogen, Katherine Heigl, Paul Rudd e todos os amigos do protagonista (batizados com os nomes dos atores) estão ótimos. A cena em que o protagonista chama "Doze É Demais" (ou seria sua seqüência?) de um "filme doente", porque faz piada com uma grande responsabilidade, resume tudo.

    Mas vamos voltar para nossa linha do tempo, que está no início dos "revolucionários" anos 1960. À época ainda pipocavam obras que continuavam a seguir a linha dos filmes de gângsters que desembocaram no noir: é o caso de "Underworld U.S.A.", de Samuel Fuller, e de "The Rise and Fall of Legs Diamond", de Budd Boetticher. O primeiro, chamado por aqui de "A Lei dos Marginais", é uma história bastante simples de crime e vingança. O destaque é mesmo a crueza habitual de Fuller ao retratar a covardia e a violência: homens brutais não pensam duas vezes em ferir e matar _de preferência, mulheres e crianças primeiro. O segundo volta à Lei Seca e acaba parecendo uma homenagem a títulos como "Public Enemy", "Scarface" e, indo bem mais atrás no tempo, ao pioneiro "The Great Train Robbery", de Edwin S.Porter. Curiosamente, um texto no Imdb associa a interpretação de Ray Danton (que não me chamou muito a atenção, a não ser pelo fato de ele ser parecido com o David Schwimmer, o Ross de "Friends" _ele encerrou a carreira como diretor de TV, em séries como "O Incrível Hulk", "Mike Hammer" e "Magnum") ao padrão que logo seria adotado por Sean Connery como James Bond. É um dos primeiros filmes de Warren Oates, mas quem chama a atenção mesmo é Elaine Stewart, que parece até a encarnação da Jessica Rabbit, de tão gostosa _mas que não aparece pelada, para alívio de muitos atores.

    Outros filmes me lembraram as notícias da atualidade no país do Tio Sam. Foi curioso ver "Advise & Consent" (1962), de Preminger, em um momento em que o legislativo norte-americano está em evidência, devido à quebradeira dos bancos e esse aprova-não-aprova de uma lambança para consertar outra maior. Mas o filme, chamado por aqui de "Tempestade sobre Washington", é a adaptação de um romance que por sua vez se inspirou em uma série de personalidades políticas dos EUA em anos bastante turbulentos (e quais não são?) de Guerra Fria e mccarthismo. E o que a princípio parece apenas um filme que mostra algumas intrigas ao redor da nomeação de um secretário de Estado acaba adentrando por caminhos inesperados e bastante ousados. É estranho que Henry Fonda abra os créditos, já que ele praticamente faz uma ponta; do grande elenco (que tem Walter Pidgeon, Gene Tierney, Franchot Tone e até o crédito para a voz de Frank Sinatra), quem se destaca são Burgess Meredith e, especialmente, Charles Laughton, incrível _foi seu último filme, infelizmente; ele morreu em dezembro daquele ano. E "The Intruder" (1962), um impressionante filme de Roger Corman, considerado por muitos o seu melhor (não é de estranhar que tenha sido um dos seus poucos fracassos de bilheteria), entra de sola na "América profunda" para futucar a questão do racismo _não só muita gente está duvidando da eleição de Obama, à frente nas pesquisas, como já surgiram piadinhas mil a respeito do tempo de sobrevida dele caso adentre a Casa Branca (sem trocadilho); já o comparam tanto a Kennedy... Mas, no filme, William Shatner está absolutamente fantástico como o incitador do preconceito em uma pequena cidade sulista _é um dos vilões mais sórdidos, covardes e desprezíveis já filmados. A câmera é bastante ousada.

    E diante da sensacional história das boates de Buenos Aires que estavam sorteando próteses de silicone para suas freqüentadoras (por meio da qual fiquei sabendo que, lá, estas nobilíssimas partes do corpo feminino se chamam "lolas") me vem a lembrança de "Lola", o primeiro longa de Demy, dedicado a Max Öphuls (realmente, a câmera dança para lá e para cá, mas sem o mesmo rigor do homenageado). Anouk Aimée está exageradíssima, mas não tenho certeza se a culpa é dela ou se a sua personagem o exigia. O filme é todo luminoso (poucas vezes vi tanto branco, tanta luz estourando e tantos personagens na contra-luz como aqui), e o final agridoce em uma história sem vilões tem, ao mesmo tempo, um quê de crueldade e outro de alegria. Também da França veio uma grande e inesperada decepção: "Jules et Jim". O filme todo é, diferentemente do que eu esperava de Truffaut, muito gélido e distante de seus personagens: a primeira metade é frenética demais (dá a impressão de que o romance do qual o filme foi adaptado era tão ruim que ele correu com a história), e a segunda é morosa e repetitiva, sempre sem muita emoção. O melhor momento, de longe, é Moreau cantando "Le Tourbillion". Muito pouco para um filme tão comentado. Melhor é "Il Posto", de Ermanno Olmi, que mostra o percurso de um jovem que termina o ensino médio e, por necessidades familiares, tem de arranjar um emprego em Milão. Sua entrada no mundo corporativo, essa armadilha que até hoje captura muita gente (e não sai barato ser livre), é retratada com distância e sobriedade. Apesar de algum senso de humor, o filme é bastante deprimente _como tinha de ser. O destaque é a bela Loredana Detto, em seu único filme _ela acabou casando com o diretor, que deve tê-la guardado só para ele; vai que ele tinha medo de que ela acabasse trabalhando num filme do Ivan Cardoso ou do Selton Mello...

    Muitíssimo diferente de "Jules et Jim" nessa questão da emoção é "Too Late Blues", o segundo longa de Cassavetes (um filme "hollywoodiano", de estúdio, feito do outro lado do país _ou seja, uma porção de experiências novas para seu diretor. Impressionante a intensidade das personagens (o que certamente mina o naturalismo do filme _mas quem liga para o naturalismo no cinema? Para o naturismo, sabemos que o Pedro Cardoso liga) de Bobby Darin, Stella Stevens (que é incapaz de ficar feia, mesmo com o cabelo molhado ou a maquiagem borrada _além disso, é provavelmente sua melhor atuação), Everett Chambers (em seu único filme como ator _trabalhou principalmente como produtor) e até mesmo Cliff Carnell (que parece um Lee Marvin grandalhão e, assim como Seymour Cassel, trabalhava também na equipe de fotografia "da pesada"). E no Reino Unido temos outro filme de grande impacto: "The Innocents", de Jack Clayton.Considerada a melhor adaptação de "The Turn of the Screw", de Henry James (tenho o livro há mais de dez anos e só após ter visto este filme fiquei com vontade de lê-lo), é impressionante como a tensão é construída lentamente, até nos levar a um dos finais mais terríveis e desconcertantes. A fotografia de Freddie Francis em scope é primorosa, e Deborah Kerr está memorável _mas quem rouba a cena são as crianças, Pamela Franklin (em seu primeiro filme, de uma carreira que durou uns 20 anos _resolveu se aposentar) e Martin Stephens (em um de seus últimos trabalhos _ acabou se tornando arquiteto).

    Outro trabalho impactante é "Khaneh Siah Ast" (que pode ser traduzido como "A Casa É Preta"), único filme da poeta iraniana Forugh Farrokhzad, que morreu poucos anos depois, em um acidente, ainda jovem). É um documentário de 20 minutos sobre uma casa de leprosos, ou seja, não é difícil imaginar que as imagens sejam impressionantes (lembrou-me como Pasolini foi feliz em retratar o leproso em sua obra-prima, "O Evangelho Segundo São Mateus"). A montagem, também da diretora, é incrível. E finalmente chegamos à obra-prima do período: "Madre Joana dos Anjos", talvez o filme mais conhecido de Jerzy Kawalerowicz (morto em dezembro do ano passado). É uma história de possessão demoníaca na Polônia do século XVII _mas não se trata de um filme de terror, embora alguém possa até dizer que é uma espécie de precursor de "O Exorcista" (é inspirado numa história real, que Ken Russell também adaptaria em seu "The Devils", de 1971, que ainda não vi). A belíssima fotografia em preto-e-branco e a simplicidade dos cenários remetem ao anterior "A Paixão de Joana D'Arc" e ao posterior "Andrei Rublev", além dos filmes de Bergman; a decupagem, os enquadramentos e a montagem são próximos da perfeição, e o casal de protagonistas, Mieczyslaw Voit (fantasticamente "duplicado" em uma cena, sem que seus duplos ocupem o mesmo plano _trocam-se subjetivas) e Lucyna Winnicka (a mulher do diretor, belíssima _e a exemplo de Ingrid Bergman em "The Bells of St. Mary's", sequer mostra os cabelos), está brilhante em todos os planos. Certas cenas com as freiras endiabradas lembram uma espécie de musical distorcido. Entusiasmado por este trabalho, fui atrás do filme imediatamente anterior do diretor, "Pociag" (que ganhou em inglês o título "Night Train"), por ter lido que seria o seu melhor. Não é. É um "thriller de trem", mas a história da busca pelo assassino fica em segundo plano, já que mostrar as personagens é mais importante para o diretor. O resultado é um filme que fica um tanto em cima do muro, perdendo a oportunidade de ir até os limites _com exceção da cena de captura do assassino, que é ótima.

    E a série da vez foi a segunda temporada de "The Tudors", protagonizada por Henrique VIII (boa atuação de Jonathan Rhys Meyers). Esta é o inverso da anterior: se a primeira mostrava a ascensão de Ana Bolena, esta enfoca sua queda (com uma dignidade admirável). E com ela fecha-se um ciclo (embora uma terceira temporada esteja prevista para o ano que vem, que seria a última com Meyers). Como era de esperar, o clima fica mais pesado, há menos humor e muito menos sexo; a primeira metade é cansativa, porque o objetivo do protagonista é fixo, e sua obsessão torna-se difícil de suportar. Mas temos no esmero da produção e em um grande elenco de apoio (destaques para Natalie Dormer, Henry Cavill, Jeremy Northam e para a participação especial de Peter O'Toole, como o papa Paulo III) os grandes trunfos desta série _que, no entanto, fica distante de outra grande série de época, "Roma". Seria muito bom se a série, após a saída de Meyers, mantivesse a qualidade e enfocasse os reinados de "Bloody" Mary e Elisabeth _de preferência, com mais "pornografia", por que não?

    P. S.: Foi só eu ler o discurso do Pedro Cardoso para eu ter uma idéia para um curta erótico, inspirado em uma foto e em duas pinturas.

    P. P. S: Começou a Mostra! (...) E daí?

    sábado, setembro 20, 2008


    Milhem Cortaz e Vanessa Prieto em "Nas Duas Almas"

    Não posso deixar de comentar mais duas experiências recentes de exibição de trabalhos em que estou envolvido. O primeiro foi na Sessão do Comodoro passada, quando o segundo curta-metragem dirigido pelo Vebis que montei teve sua segunda exibição pública _mas agora na versão finalizada, mais curta (mas não tanto quanto eu gostaria _típico de montador). Eu tenho um nível extremo de autocrítica e é muito difícil eu gostar muito de algo que tenha feito, mas confesso que, apesar de alguma ou outra coisa no vídeo me incomodar (a não ser quando o incômodo é proposital, como na cena das meninas _ela realmente foi pensada pelo Vebis para ser irritante, e a montagem picotada foi feita para gerar este efeito), confesso que me emocionei com a cena no bar, na qual o Milhem Cortaz (excelente _e como disseram dois mestres, Carlos Reichenbach e Inácio Araújo, que muito nos honraram com suas visões, é a primeira vez em que ele aparece glamourizado, como herói romântico, e funciona) conclui que "amar deixa a gente velho" _talvez a grande fala do filme. Também fiquei muito feliz com os vários elogios à minha cena preferida, a da briga no carro, justamente a que mais desafios me apresentou na montagem. Parabéns ao Vebis, e espero que essa nossa parceria renda outros frutos _já temos projetos em vista, vamos nessa.

    (Update: Leandro Caraça também escreveu sobre "Nas Duas Almas". Perdôo ele ter errado meu nome por ele ter pedido aplausos para minha montagem, hehehe.)


    Gustavo Engracia com a camiseta que cita Humberto Mauro

    A outra foi a exibição de "A Volta do Regresso" no 6º Curta Santos, numa sala clássica da cidade, o Roxy Gonzaga _que também seguiu a onda e se tornou um multiplex. A maioria das projeções do filme tem apresentado problemas diversos _desta vez, o que me incomodou foi o estado da cópia, já bastante deteriorada. O filme agradou e recebi muitos elogios durante o debate, mas eu gostei bem menos dele. Faz dez meses que ele foi finalizado e, com a poeira baixando, fica mais claro para mim que eu gosto bastante do elenco e da trilha sonora, acho o roteiro bom (embora eu quisesse ter feito melhor e não tenha conseguido, está infinitamente acima da média do que se faz para curtas) e todo o resto deixa a desejar (talvez eu esteja sendo um tanto cruel, mas é o que sinto no momento). Mas também sinto um certo orgulho ao não conseguir negar que, apesar de todos os seus problemas, este filme realmente cumpre o papel que eu queria que ele cumprisse: o de ir na contramão de tudo que é considerado aceitável, de "bom gosto", "correto", "na moda". Enfim, ele se nega a perpetuar os dogmas do stablishment e a manter o status quo deste nicho _que, como tudo, apresenta uma série de vícios revoltantes, que induzem ao conformismo e ao pensamento único, duas pragas que atacam a arte. Mesmo assim, nos deram um prêmio, o de Melhor Som (o que é curioso, pois o som da cópia, toda arranhada, estava péssimo, com mais chiado do que vinil velho); achei estranho não existir o prêmio para roteiro, que certamente mereceríamos (o que não quer dizer que levaríamos, muito pelo contrário). Também fiquei feliz com a merecida premiação do colega Milton do Prado pela montagem do filme "Odeon" _aliás, ele também deveria ter ganhado este prêmio em Brasília, mas a atuação do júri ali foi simplesmente vergonhosa.


    ***
    Vi menos filmes do que de costume no último mês, a falta de tempo anda apertando cada vez mais. Ainda assim, vou avançando devagar e sempre nessa constante luta pela formação de repertório, infelizmente desacompanhada de uma reflexão mais aprofundada, novamente por falta de tempo. Dentre as várias belezas que vi no período, talvez a que mais tenha me impressionado é "The Savage Innocents", de Nicholas Ray, visto pela primeira vez em sua janela original. O filme se equilibra entre o didatismo para tornar palatável ao civilizado a selvageria e o registro da natureza no que ela tem de bela e terrível, sem grandes arroubos moralizantes _vemos imagens que podem ou podiam ser tabu (justamente um dos temas do filme), como um urso sendo arpoado (que abre o filme) ou a nudez da atriz francesa (sim, parisiense) Yoko Tani (que, segundo o Imdb, trabalhou no primeiro filme de Juan Bajon!). Findo este primeiro ato, temos cenas maravilhosas, como as que mostram os choques de cultura entre os esquimós idealizados do filme (em grande comunhão com a natureza, com direito a narração explicando o ciclo alimentar) com o homem branco, claramente criticado ("suas leis se tornaram maiores do que eles" é uma das frases ditas no filme) _e um final previsível e sublime. Um dos primeiros papéis de Peter O'Toole, que pediu para ter seu nome retirado dos créditos, por ter sido dublado por outro ator. Outro filme que vai fundo na crueza é "Nobi" (aqui, se não me engano, é "Fogo na Planície"), de Kon Ichikawa (que trabalhou por mais de 70 anos e viveu quase 100 _morreu em fevereiro deste ano). É impressionante não apenas por retratar a miséria da guerra (a Segunda Guerra Mundial, no front das Filipinas) ou por ser belissimamente realizado: o que me chamou a atenção foi o retrato nada heróico dos japoneses _muito diferente do registrado recentemente por Clint Eastwood em seu "Cartas de Iwo Jima" (cujo DVD está aqui em casa, sei lá quando vou revê-lo). Aqui, o que importa é sobreviver a qualquer custo: as personagens não se furtam de matar, pilhar cadáveres e partir para o canibalismo. Eiji Funakoshi (que tem um semblante bastante ocidental) está absolutamente fantástico como o malfadado Tamura; a transformação física pela qual ele passa durante o filme é impressionante. E como já fomos para o Japão, vamos emendar direto com "Akibiyori", antepenúltimo filme de Ozu. Assim como "Bom Dia" era uma variação de "Meninos de Tóquio", "Dia de Outono" está obviamente relacionado a "Pai e Filha", feito 11 anos antes (até mesmo a tradução dos títulos para o inglês ressalta o parentesco: se o primeiro era "Late Spring", este é "Late Autumn"). Naquele, Setsuko Hara era a filha que não queria casar para não deixar o pai sozinho; desta vez, ela é a mãe cuja filha (Yôko Tsukasa) reluta em abandonar, apesar de estar na idade de casar. O estilo único e brilhante do diretor volta a se manifestar com clareza, em um de seus filmes mais simples (no qual o conflito se apresenta bem cedo); a maneira como ele dá vida a espaços vazios, que servem de transição de tempo e espaço, é única.

    Como, na cronologia que estou seguindo (da qual me desvio algumas vezes, como fiz também neste mês, ao ver dois curtas de Man Ray, "Emak-Bakia", de 1926, e "Les Mystères du Château de Dé", de 1929, sempre muito divertidos _também vi o "Orphée" do Cocteau, de1950, para finalizar a trilogia), estou no início dos anos 1960, a França está bombando. Os maiores destaques foram "Les Bonnes Femmes" (1960), de Chabrol, e "Cléo de 5 à 7" (1962), de Varda. O primeiro, um breve acompanhamento da vida de algumas garotas que trabalham em uma loja, é grandemente dedicado a registrar a boçalidade das pessoas, em algumas cenas longas (como a da piscina), outras desconcertantes de tão ridículas (a do restaurante), outras mais irônicas (a do zoológico). Há um personagem misterioso com o qual Chabrol vai do macabro ao bizarro. Há também alguns momentos simplesmente bonitos (mas com uma atmosfera kitsch), mas nada supera a beleza das atrizes, em especial de Bernadette Lafont (lançada por Truffaut em "Les Mistons" e na ativa até hoje, mais de 150 trabalhos depois), Stéphane Audran (mulher do diretor) e Clotilde Joano (ironicamente, a que morreu jovem). O segundo é famoso por mostrar a história em tempo real (na verdade, das 17h às 18h30 _mas com momentos em que a montagem brinca com o tempo, inclusive com uma série de planos que servem como um pequeno flashback) de uma cantora que aguarda um resultado de um exame médico que pode comprovar uma grave doença. O filme abrange uma gama variada de emoções, do desespero ao humor (com um ponto alto na seqüência que homenageia os filmes mudos), passando pelo romance, pelo erotismo, pelo elogio à arte e o comentário político _e, claro, dando um bom espaço às chansons. Corinne Marchand está absolutamente maravilhosa como a protagonista, e Jean-Luc Godard aparece numa ponta como ator (há muitas outras participações especiais). Godard (além de Chabrol e Demy, mas a estes não reconheci) também aparece em "Paris Nous Appartient", de Rivette, que arma uma trama razoavelmente complexa (que envolve, basicamente, arte, política e romance), mas não a "mastiga" nem a desenvolve de maneira convencional _o que não enfraquece necessariamente o filme, mas pode afastar quem se apega mais ao enredo do que às personagens. O menos memorável dentre estes contemporâneos é "Tirez sur le Pianiste", de Truffaut, que é rápido a ponto de ser vertiginoso, confuso e entediante (apesar de curto), mas tremendamente irônico, bem-feito e cheio de mulheres bonitas (com destaque para Michèle Mercier). Algumas cenas impagáveis tornaram-se clássicas, como aquela em que Boby Lapointe canta "Framboise" (uma canção sobre um nobre tema).

    Ainda fora da língua inglesa, parei para ver, com certa tristeza, o último filme de Fritz Lang, "Die 1000 Augen des Dr. Mabuse": apesar de dar sinais de ser antiquado, é um avanço em relação a seu díptico indiano. Em ritmo muito rápido, traz uma série de clichês de filmes de espionagem (da qual Lang é mesmo pioneiro) e, novamente, um mestre do crime com uma trama maligna (cortesia do falecido Dr. Mabuse _mas é uma pena que Rudolf Klein-Rogge também já estivesse morto). E novamente voltei à Índia, para mais um filme de Satyajit Ray, "Devi": a vida de uma família se transforma após um homem sonhar que sua nora é a reencarnação da deusa Kali. Sharmila Tagore, linda, encarna divinamente a personagem. Ray registra imagens e sons (a música parece ser muito importante na cultura indiana) com invulgar beleza, é um desses grandes estetas do cinema.

    De volta aos EUA, o grande destaque mesmo é "The Hustler, o penúltimo e mais conhecido dos dez filmes que Robert Rossen dirigiu. É incrivelmente "cool" quando Paul Newman está em evidência (e sua personagem faz o que faz melhor ou pelo menos fala sobre o assunto) e fica mais pesado e desequilibrado quando Piper Laurie ganha mais destaque. Longo e desigual, ainda assim é um belo filme, com boas montagem e trilha sonora e um elenco espetacular: George C. Scott e Jackie Gleason arrebentam _a curiosidade é Jake LaMotta, o "Touro Indomável", fazendo uma ponta como bartender. Quanto a "Imitation of Life", eu queria antes ter visto a versão anterior, de Stahl, mas na falta desta fui de Sirk (seu último filme nos EUA). Embora não seja seu melhor, novamente é um poderoso melodrama focado em personagens femininas _os homens quase sempre aparecem como meros acessórios, o que não chega a incomodar, já que o oposto acontece bastante em filmes "de macho". Além do óbvio tema da maternidade, estão também colocados aqui a questão da carreira (no caso da personagem de Lana Turner) e do racismo (com uma bela atuação de Juanita Moore). Sandra Dee e Susan Kohner (outro destaque; pena que não teve longa carreira) completam o elenco principal.

    Quem também pintou de novo por aqui foi John Ford, com "The Horse Soldiers" e "Sergeant Rutledge", ambos enfocando mais uma vez o exército norte-americano no final do século XIX. O primeiro retrata ao mesmo tempo uma missão ousada do exército do Norte na Guerra de Secessão, uma discórdia entre um coronel durão (John Wayne, claro) e um médico (William Holden) e os naturais problemas causados pela presença de uma mulher (sulista) em meio à tropa. O segundo, mais cruel e político, mistura o western de cavalaria (com direito a matança de índios apaches) e o drama de tribunal, acrescido da discussão racial: Woody Strode é o sargento acusado de estupro e assassinato, e Jeffrey Hunter (o Jesus de "Reis dos Reis") é o seu defensor na corte marcial. A música e o senso de humor um tanto machista voltam a dar as caras.E também fui de Cukor, com "Let's Make Love", o penúltimo filme completo de Marilyn Monroe. O início dá a entender que vem por aí uma grande comédia, mas as coisas esfriam muito quando Yves Montand assume o papel principal. Marilyn, ótima em seu registro habitual, é a co-estrela, mas aparece bem menos do que ele e faz muita falta (parece que houve uma briga do Arthur Miller para aumentar o papel dela _não foi o suficiente). O enredo é uma bobagem completa e só vale para que vejamos alguns números musicais _mais uma vez, ambientados no teatro_ e tenhamos algumas participações especiais de estrelas como Milton Berle, Bing Crosby e Gene Kelly, interpretando a si mesmos. Mesmo assim, temos um momento antológico: a primeira cena de Marilyn, "My Heart Belongs to Daddy". E, finalmente, visto na mesma Sessão do Comodoro que apresentou o "Nas Duas Almas", "The Thief", o segundo filme de Russel Rouse, que trabalhou mais como roteirista. A proposta dele aqui é fazer um filme completamente desprovido de diálogos _ou seja, é diferente do que fazer simplesmente um filme "mudo". Inspirando-se em Fritz Lang e Hitchcock para filmar uma história de espionagem estrelada por Ray Milland (que está a cara do Gary Cooper), acaba cometendo alguns pecados, como o de ter de apelar para atuações exageradas (ou seja, voltando mesmo no tempo) e de ser um tanto desgastante _o final meio besta, mas talvez típico de uma produção já em plena paranóia da Guerra Fria, também joga um balde de água... fria. Vale destacar a belíssima Rita Gam, em seu primeiro filme, e a maravilhosa trilha sonora de Herschel Burke Gilbert.

    As séries da vez são a segunda temporada de "That '70s Show" (na qual os grandes desenvolvimentos são a perda da virgindade de Eric e Donna e o rompimento de Jackie e Kelso) e a terceira de "Prison Break", a mais curta, por causa da greve dos roteiristas. Não é de surpreender que seja a pior (até porque o plano de fuga _que já não é mais o original_ é obviamente muito menos complexo do que o primeiro). A verdade é que a série já esgotou seu potencial, e fica difícil se reinventar. O curioso é que a prisão panamenha onde a temporada se passa foi claramente inspirada no Carandiru.

    Na platéia