A gruta é mais extensa do que a gruta

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    quarta-feira, fevereiro 06, 2008

    Eram quase meia-noite, num domingo de janeiro, e o soldado observava minha conversa com a senhora, divorciada e septuagenária (não perguntei sua idade; olhei disfarçadamente um xerox plastificado do seu RG, que o rapaz segurava junto a uma ficha), obviamente abalada pelo desastre. Ela estava mais preocupada em xingar os ex-inquilinos, que, após meses sem pagar o aluguel, deixando uma dívida de uns R$ 50 mil e obrigando-a a ordenar o corte de eletricidade e de água, fugiram, deixando o imóvel imundo e com 14 cães e 3 gatos abandonados. Fico interessado pela história dos animais, pergunto uma série de detalhes (mas não tantos quanto gostaria, nunca há tempo), enquanto percebo a impaciência do jovem aspirante a autoridade, que precisava terminar o boletim de ocorrência. Deixo ele fazer uma ou duas perguntas protocolares (afinal, era eu o forasteiro, ali no DP) e, para sua irritação contida, tomo de volta, com voz mansa, o controle da conversa. A velhinha me conta que adotou a gata ("Teve cria esses dias, a coisa mais linda") e deixou os outros dois bichanos no imóvel abandonado, os quais ela ia alimentar duas vezes por dia (os cães foram levados pela prefeitura). Foi aí que, obviamente constrangida, ela finalmente assumiu sua culpa na história (para nossa surpresa): ao levar o jantar dos gatos, esqueceu, acesa, uma pequena vela. O soldado sorriu levemente, satisfeito por eu ter feito o seu trabalho. Minutos antes, no local do incêndio ("um fogão", segundo uma vizinha espevitada, aparentemente feliz por estar na rua em vez de estar vendo o "Fantástico"), o capitão dos bombeiros havia me dito: "Deu PT". Findo um mistério, restou outro: e os gatinhos?

    ***

    Como de costume, estou totalmente por fora do Oscar (quando eu digo que gente que gosta de cinema não precisa gostar necessariamente do Oscar, todo mundo me olha como se eu fosse um E.T.). Dentre os indicados na categoria principal (só sei quais são os indicados porque o Milton do Prado me mandou um e-mail com convocatória para um divertido bolão, do qual infelizmente sou obrigado a declinar), assisti (graças a uma folga numa segunda-feira, após três semanas ininterruptas de trabalho) apenas a "No Country for Old Men", que a princípio soou como uma tentativa de voltar a um cinema da época em que a história se passa (fim dos anos 70), mas esta impressão acabou se enfraquecendo (mesmo que algumas elipses me lembrem de Peckinpah). Gosto muito dos maneirismos dos Irmãos Coen (adoro "Raising Arizona" e "The Ladykillers", por exemplo _e uma das cenas que mais me marcaram em seus filmes está em "The Great Lebowski"), mas a falta de boa parte deles aqui não é um defeito. Não lembro se o Bardem foi indicado como coadjuvante, por seu Anton "Sugar" Chigurh, e não vi o filme do Paul Haggis pelo qual Tommy Lee Jones (cujo Ed Tom Bell é o protagonista, e não o Llewelyn Moss do Josh Brolin, como muitos andam pensando) foi indicado. Belo filme, mas ainda não chegou ao nível de "Barton Fink".

    De resto, os filmes mais recentes (daqui a pouco trato de algumas velharias, apelidadas de "clássicos", que não interessam a ninguém) que vi foram "Last Days" (fascinante e irritante ao mesmo tempo), "Casino Royale" (bom porque não parece um filme de James Bond _o que é uma faca de dois gumes: por exemplo, a falta de sexo é um revés; é também o filme no qual a Eva Green está mais bonita) e "Happy Feet" (decepcionante, mas ainda melhor do que "Moulin Rouge"). Também passou pelas minhas retinas tão fatigadas as três primeiras temporadas de "Battlestar Galactica", boa série de ficção científica (gênero que não é muito minha praia, especialmente quando se passa num "futuro distante" ou algo que o valha) que consegue fazer referências as mais diversas (de filmes de guerra a novelas, obviamente passando por "Star Trek" e "Star Wars" e até "Indiana Jones") e sair razoavelmente incólume. Meus episódios preferidos são os poucos em que a história deixa de ser seguida, e vemos algo mais localizado dentro de um universo construído até que cuidadosamente. A assinatura da produtora é um pequeno show à parte.

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    Até que gosto do termo "obra-prima doente" (se não me engano, cunhado pelo Truffaut ao falar de "Marnie"). Gosto muito quando filmes me deixam com uma espécie de pulga atrás da orelha, porque me parecem muito bons, mas de uma maneira tão imperfeita que transborda humanidade. Neste período, tive a felicidade de trombar com alguns desses filmes. Dois são de Nicholas Ray: o principal é "On Dangerous Ground", razoavelmente incomum (e não por usar câmera na mão em algumas cenas, o que na época era muito raro); é especialmente interessante como, num filme tão curto (80 minutos), o enredo principal demora a chegar, porque passamos um bom tempo conhecendo o protagonista interpretado por Robert Ryan _os coadjuvantes Ida Lupino (que dirigiu o filme por vários dias em que Ray esteve doente) e Ward Bond só aparecerão bem depois. As cenas finais são fortes e amarram muito bem o filme (mesmo não sendo o final que Ray queria). A trilha sonora de Bernard Herrmann (cuja melodia me lembra um pouco a de "O Dia em Que a Terra Parou", embora os arranjos sejam bem diferentes) é outro destaque. E "The Lusty Men", mesmo sendo bem mais convencional, é um belíssimo drama no mundo dos rodeios estrelado por Robert Mitchum, Susan Hayward e Arthur Kennedy _mas quem rouba a cena é Arthur Hunnicutt (de "Broken Arrow").

    Outro filme impressionante e que vem crescendo na minha memória é "Angel Face", de Otto Preminger, produção de Howard Hughes com Robert Mitchum e Jean Simmons. É mais complexo do que parece a princípio, chega a ser bastante romântico (mas de uma maneira distorcida e moderna _só os modelos dos carros dão a impressão de que o filme é antigo). E é quase milagroso como uma mesma ação é repetida de maneira praticamente idêntica, sem que ela perca sua capacidade de chocar. O final é de tirar o fôlego. E o que dizer de "O Rio Sagrado", de Jean Renoir? Muito polêmico, longe de ser uma unanimidade, me deu a impressão de ser um filme único, apesar de muitas falhas (talvez a maior delas a falta de naturalidade do elenco). Tem um conceito muito bem definido, no entanto é bastante diversificado. A fotografia é belíssima (dizem que o trabalho no laboratório durou 5 meses), e há momentos claramente documentais; em outros, alguns dos mais fortes, simplesmente contemplamos: plantas, pipas no céu, uma bailarina. Foi o último filme de Thomas E. Breen (o Captain John) e de Radha, e o único da feiosa Patricia Walters (a protagonista chatinha) e do produtor Kenneth McEldowney. Satyajit Ray foi assistente. "The day ends, the end begins."

    Outro filme com rio no nome é "O Rio da Aventura" ("The Big Sky", no original), de Howard Hawks, que, a exemplo de vários outros do diretor, parece uma espécie de "auto-remake" _neste caso, da obra-prima "Rio Vermelho". Novamente, Arthur Hunnicutt, abençoado com os melhores diálogos, ofusca a todos, e a beleza de Elizabeth Threatt (infelizmente em seu único filme) é inesquecível. O sutil conflito final é muito bom (e ficamos esperando o filme acabar, e ele não acaba _é bem longo e prolixo, quase pretensioso, embora muito bem-humorado). Ainda nos EUA (e falando em prolixo), fiquei bastante decepcionado com "A Place in the Sun", do qual sempre ouvi falar muito. Curioso é saber que se trata de remake de um filme de Sternberg _que quase foi dirigido por ninguém menos que Eisenstein_, o qual não vi, mas aparentemente é bem diferente deste. A versão de Stevens, feita em 1949, mas lançada apenas dois anos depois, não é original, não trabalha bem com a emoção e não chega a um final satisfatório. Mas tem pelo menos uma cena antológica: a do balcão onde Montgomery Clift e Elizabeth Taylor trocam declarações de amor e se beijam sutilmente _o fato de a câmera não mostrar direito o beijo dá força à cena. E ficou bem claro onde Janete Clair se inspirou para escrever "Selva de Pedra". Ainda entre as decepções à primeira vista, um western de Andre de Toth com Randolph Scott e e um número musical de Tennessee Ernie Ford, "Man in the Saddle", e um morno filme de Anthony Mann, "The Tall Target".

    Na Itália, a obra-prima do pacote: "Europa '51" figura como, até o momento, meu preferido do Rossellini com Ingrid Bergman (brilhante _nem Giulietta Masina a ofusca). Um melodrama poderoso e de forte cunho social (e ético), de influência monumental. Longe de ser tão bom é "Umberto D.", de De Sica, atacando de velhinho doente, tema popular até hoje. Com os dois principais atores (e o cãozinho Flike também), Carlo Battisti e Maria-Pia Casilio, iniciantes (mas muito bons), é um filme muito desigual, cuja fama, creio, se deve principalmente ao final. Muitíssimo melhor é seu antecessor, "Miracolo a Milano", um delírio alegre que foge totalmente do neorealismo, embarca na fantasia (teria influenciado Fellini de alguma forma?) e carrega uma mistura de sentimentalismo, ingenuidade e graça que lembra bastante algo de Chaplin (impressão reforçada pela atuação de Francesco Golisano, o Geppa, que morreu jovem e atuou apenas em meia dúzia de filmes _destaque também para a Brunella Bovo e para a aparição da belíssima bailarina argentina Alba Arnova). O início, com muito poucas falas, me pareceu bem sofisticado; a música é inesquecível. E passei ainda por De Sica (sempre eficientíssimo como galã) como ator em "Madame de...", penúltimo filme de Öphuls (cuja fase americana, hoje, me agrada mais _neste aqui, a câmera me parece menos rigorosa do que de costume), que parece muito mais antigo. Charles Boyer, Danielle Darrieux (viva e trabalhando, aos 90 anos) e De Sica formam o triângulo amoroso nesta história que gira em torno de um par de brincos e da falta de pronúncia do sobrenome da protagonista.Adoro duelos, desde pequeno.

    Para encerrar, aquela passadinha básica no Japão: a fama de "ocidentalizado" de Kurosawa talvez se deva a filmes como "Viver", que, simplificando temerariamente, parece inspirado pelos filmes mais famosos de Frank Capra. Longo, demora a engrenar; mas, após o ponto de virada da trama, a sucessão de sutis flashbacks e flashforwards é ótima. A morbidez como valorização da vida. É o filme de estréia de Miki Odagiri e um dos mais de 200 feitos pelo Takashi Shimura, colaborador constante de Kurosawa. Outro japa visitado foi Kenji Mizoguchi, com "Oharu - A Vida de uma Cortesã", óbvia adaptação de um romance clássico, gerando um melodrama idem. Também me lembra algo de grandes produções americanas, como "...E o Vento Levou" (não pelo orçamento, é claro). A atriz principal, Kinuyo Tanaka, foi a primeira a diretora japonesa (ou seja, o machismo...).

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    De Nelson Ascher, em artigo chamado "Perguntar Não Ofende", publicado na Ilustrada de 11 de fevereiro: "Há filmes que, de tão descaradamente manipuladores e demagógicos, tão mecânicos e transparentes na sua má-fé, levam o espectador atento a se sentir a um tempo vítima e cúmplice de uma trapaça. Foi esse o caso de 'Sociedade dos Poetas Mortos', a que assisti em 1990. Para agravar meu mal-estar, tão logo os créditos começaram a aparecer na tela, boa parte da platéia aplaudiu de pé aquela abominação. Soube logo que essa reação se tornara demasiado freqüente e, quando meu comentário foi publicado, passei a receber cartas que por pouco não me ameaçavam de morte. Como ninguém, ao que parece, desejava que seu suspeito vínculo emocional com o filme fosse questionado, descrever-lhe o mecanismo soava para muitos como ofensa pessoal."

    Acho que eu tinha 12 ou 13 anos quando vi "Sociedade dos Poetas Mortos". Fiquei tremendamente ofendido; abomino filmes que tentam me fazer de idiota.

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    Dos 325 filmes elegíveis para o Alfred 2007, eu assisti a 27 (alguns deles, em 2006). Até que não está tão mal...

    terça-feira, outubro 09, 2007

    Conteúdo: "Comédia é, em essência, uma arte raivosa e anti-social." A frase do Robert McKee (interpretado pelo Brian Cox em "Adaptação") me parece um tanto generalizante e radical, mas não incorreta. Parece se encaixar especialmente a "A Volta do Regresso", um filme quase que totalmente calcado na ironia _talvez a ponto de soar terrivelmente desagradável a alguns (estou louco de curiosidade para ver as reações de mais gente, especialmente as negativas; até o momento, parece que quem desgosta mais do filme sou eu, mas sei que isto vai mudar).

    Forma: "PERGUNTA - Você rodou o filme com câmera digital, em lugar de película. Até que ponto isso foi libertador para você?

    LYNCH - A palavra 'livre', se você a escrevesse com L maiúsculo, a fizesse tão alta quanto o Empire State Building e a sublinhasse muito _foi tão libertador assim. É tão belo, e de tantas maneiras diferentes. Depois dessa experiência, eu nunca mais poderei voltar a filmar em película."

    Talvez a película ainda seja, no momento (mas não por muito tempo), o melhor suporte para a exibição de filmes; mas para captação de imagens, não creio _ou seja, fecho com o David Lynch (não me lembro de onde peguei a entrevista, normalmente dou o link, sorry), apesar de ainda não ter visto seu "Inland Empire", que vai passar na Mostra e estrear logo depois. Ter feito "A Volta do Regresso" em 16mm deixou o projeto muito engessado e caro: deixei de fazer mais takes, negando pedidos do elenco, por falta de grana para comprar mais latas, e, também por contingências financeiras, não pude fazer uma truca sequer _os créditos tiveram que ser em cartela, e não sobre imagem, como eu queria (e este é apenas um dos exemplos). Não penso mais em filmar em película, e mesmo o transfer eu espero que esteja com seus dias contados.

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    Estava esperando ver "Tropa de Elite" para atualizar este site. Vi o filme ontem, na promoção de aniversário de 14 anos do Espaço Unibanco (lembro de quando o lugar era Espaço Banco Nacional de Cinema, antes de o mesmo quebrar), justamente em projeção digital; durante o filme em si, não dá para perceber muita diferença na qualidade de imagem _a parte mais estressante foi durante as propagandas.

    Mas vamos ao filme, que deu o que falar por motivos exteriores ao mesmo: ele só virou esta sensação por causa da pirataria (nunca saberemos do impacto da mesma sobre a bilheteria, mas parece que o resultado não será dos piores _provavelmente porque os públicos são mesmo diferentes: talvez a pirataria só alcance a quem não tem acesso ao cinema por questões de localidade e alto preço) e por causa do debate em torno da segurança pública (que o próprio diretor encampa) e da violência _bobagens, bobagens (leiam o grande texto de Carlos Reichenbach chamado "Apontamentos para uma Polêmica Anunciada" aqui). Não é prerrogativa de um diretor de cinema debater o assunto, mas sim a de fazer bons filmes; também é ridículo alguém reclamar do filme porque ele simula atos de tortura e violência com resultados fatais: cinema também é Eros e Thanatos, kiss-kiss-bang-bang, seria desonesto e covarde um filme deste gênero não mostrar alguns litros de tinta vermelha (por sinal, o filme é pudico, nada de putaria saudável nos bailes funk nem na boate de strip).

    O bafafá todo (que inclui piadas com o Capitão Nascimento, como bonequinho que fala "senta o dedo nessa porra!" e frases atribuídas anteriormente ao Chuck Norris _coisa parecida aconteceu com o Zé Pequeno do infinitamente superior "Cidade de Deus") me deixou na expectativa de ver um filmaço, talvez outro marco histórico em nosso cinema recente; infelizmente, "Tropa de Elite" sequer se classifica como um bom filme policial (gênero no qual temos uma bela tradição, os filmes precisam apenas ser recuperados _alguém dizer que este é "o melhor filme nacional que já vi" é atestado do descaso com nossa cinematografia). É prejudicado especialmente pela debilidade das situações dramáticas e pela falta de complexidade de conflitos das personagens; o final, péssimo e pífio, sublinha que nenhuma delas chegou aos limites que poderia ter chegado; o roteiro não tem fôlego, foi pouco ambicioso _prejudicam também as "cabecices" como citação de psicólogo e aulinha sobre Foucault, além de um excesso de didatismo "para inglês ver".

    Mas o famoso e fenomenal Capitão Nascimento é um caso à parte: chamado a torto e a direito de "herói" (até o Luciano Huck clamou por ele quando teve seu Rolex levado por uma dupla de assaltantes numa moto), me pareceu mais um fracote, louco para deixar de subir o morro e ficar trocando fralda de nenê, que só vira "macho" mesmo na hora de rodar a bainana e gritar "quem manda aqui sou eu" com a espoca recém-mamãe em seu apê de classe média. Sei que a comparação é covardia, mas na hora lembrei das personagens de James Cagney em "White Heat", de Charles Bronson em "Machine Gun Kelly" e de Warren Oates em "Bring Me the Head of Alfredo García", que eram "bad motherfuckers", mas tinham seus tocantes momentos de fragilidade; em "Tropa de Elite", o máximo que o Capitão Nascimento de Wagner Moura (que não está mal, a culpa é do roteiro) faz é dar uma travadinha durante uma escalada com a esposa, todo playboyzudo. Em suma: dada a qualidade do material de origem e dos nomes envolvidos no projeto, eu estava esperando bem mais. Mas, para não dizer que só falei dos espinhos, o filme passa rápido e tem senso de humor.

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    Vamos continuar falando de filmes policiais? Na minha quase terminada "peregrinação" (como diz religiosamente o Ailton) pelos anos 40, o gênero aparece bastante, com variações. Um deles, "The Naked City", deu origem a uma série televisiva muito famosa; o diferencial é que a estrela é a cidade de Nova York: a narração da introdução já avisa que, diferentemente do padrão, o filme foi todo feito em locações _e funciona muito bem como documento da vida na metrópole (por outro lado, nenhuma personagem é explorada mais profundamente, embora o típico irlandês Barry Fitzgerald se destaque). Há muitas cenas sem som direto e com narração, o que causa certa estranheza. A seqüência final, o epílogo do filme, é excelente, mostrando o que unia aquele punhado de pessoas que acompanhamos durante 95 minutos, numa cidade de 8 milhões de habitantes. Do mesmo diretor, Jules Dassin (americano, apesar do nome e de ter ficado mais famoso após ir para a Europa, onde trabalhou principalmente na França e na Grécia), com roteiro de Richard Brooks, "Brute Force" é um filme de cadeia (de certa forma precursor do muito superior "Le Trou", do grande Jacques Becker) estrelado por Burt Lancaster e um marcante Hume Cronyn como o policial sádico, com uma estrutura bem interessante, mas hoje bastante envelhecido. A música de Miklós Rózsa é excelente, mas não muito bem usada. Também meio envelhecido (lembrando que um filme não é necessariamente velho porque foi feito há 60 anos) é "Kiss of Death", escrito por Ben Hecht e Charles Lederer e dirigido por Henry Hathaway, cujo destaque é a estréia de Richard Widmark num papel inesquecível, o do psicopata Tommy Udo, que comete um dos assassinatos mais horrorosos e revoltantes que já vi no cinema (retratado com uma sutileza arrebatadora _aqui, substantivo e adjetivo combinam). Uma pena que uma cena de estupro e outra de suicído foram cortadas pela censura.

    No capítulo dedicado a "amores em meio a rajadas de balas", que inspirariam filmes como "Bonnie and Clyde" e "Boxcar Bertha", temos "The Big Steal", de Don Siegel, marcando o reencontro de Robert Mitchum e Jane Greer. O roteiro é um fiapo (justamente o que impede que o filme alcance o nível de um "Out of the Past"); o destaque mesmo está na ação, brilhante e empolgantemente conduzida pelo diretor e encenada pelo elenco. De resto, o título engana _não se trata de um "filme de assalto", mas de perseguição. "Deadly Is the Female", também conhecido como "Gun Crazy", é dirigido por um diretor de quem gosto especialmente, Joseph H. Lewis, mas deixou um pouco a desejar; já tinha visto alguns trechos muito famosos (como o assalto ao banco sem que a câmera saia do carro _o início também é sensacional), o que colaborou com a pequena decepção. E ainda temos "They Live By Night", a estréia de Nicholas Ray como diretor, com um romance bem mais doce do que o do filme do Lewis; não é nenhum "In a Lonely Place", mas também é muito bonito; Cathy O'Donnell está excelente (curioso: a dupla de assassinos de "Festim Diabólico" estrela estes dois filmes: Farley Granger neste e John Dall no de Lewis).

    E já que falamos no Hitch, dois de seus filmes traíram minhas expectativas: por causa do tema (os relativos à moral e à fé me são caros, pela magnitude do conflito), eu achava que "I Confess" seria um grande filme, ainda mais por ser estrelado por Montgomery Clift; não é desprovido de interesse, e talvez o diretor tenha exagerado quando disse que "não deveria ter sido feito" a Truffaut, mas é um filme pouco marcante. De "Stage Fright" eu gostei muito, contrariando o diretor (que via como um de seus problemas a fraqueza dos vilões); a recém-falecida Jane Wyman está ótima (embora o diretor tenha reclamado bastante dela _mas Hitch vivia reclamando de seus elencos), mas é claro que Dietrich (a quem também vi em "The Devil Is a Woman", do Sternberg _mas eu prefiro "Desonrada", que também traz cenas em bailes de Carnaval) rouba todas as cenas em que aparece. E vi um filme de Robert Siodmak que poderia ter sido dirigido por Hitchcock: "Phantom Lady", um filme "Z", baratíssimo, sem atores conhecidos (só reconheci Aurora Miranda e Elisha Cook Jr., excelente como um baterista de jazz mulherengo), deu numa obra-prima, com uma premissa apaixonante. Valeu também por me apresentar a Ella Raines, linda e excelente; infelizmente, sua carreira não decolou. De quebra, revi "Monsieur Verdoux", que pode parecer atípico por vários motivos, mas que me soa bastante coerente com a obra sonora de Chaplin _Welles reclamava que só ganhou o crédito pela idéia (não fica claro se ele escreveu um tratamento do roteiro ou não) após o filme ter sido um fracasso de bilheteria e crítica.

    ***

    Ainda nos anos 40, passei por outra grande comédia de Lubitsch, "To Be or Not To Be": feito no ápice da Segunda Guerra, o diretor (berlinense, que já havia encarado as conseqüências da Primeira Guerra no melodrama "Broken Lullaby", de 1932) ridiculariza Hitler e o nazismo (dois anos depois de Chaplin), numa história que se desenrola em Varsóvia; é impressionante como ele consegue arrancar risadas de uma situação tão tensa _mas, à primeira vista, me pareceu um de seus filmes com menor carga erótica, apesar de Carole Lombard (morta num acidente de avião antes de o filme ser lançado _ou seja, foi o seu último) estar muito bonita (Jack Benny é o responsável por grande parte da comicidade). Do outro lado, ouvi o título do filme ser dito por Olivier em "Hamlet", seu segundo filme como diretor (o primeiro não-americano a ganhar o Oscar de melhor filme). Compreensivelmente, fica refém do texto (embora seja uma versão reduzida, de "apenas" 2h30, e com mudanças sutis para deixá-lo mais moderninho), embora a mise-en-scène (com a câmera em constante movimento e cortes disfarçados, criando uma bela fluidez temporal _bastante condizente com o texto de Shakespeare, aliás; não é à toa que, em "A Volta do Regresso", um dos poucos planos com movimento de câmera ocorre justamente quando Carlo Mossy encarna um híbrido de Rei Lear, Rei Momo e Scarlett O'Hara) contenha muita coisa interessante. Gosto muito da música e da Jean Simmons, adolescente, como Ofélia.

    Outra comédia interessante é "Adam's Rib", de George Cukor: mezzo comédia romântica mezzo drama de tribunal, baseia-se na idéia da igualdade entre os sexos (chamá-lo de feminista me parece inexato), tema que não envelheceu nem um pouco, embora a sociedade tenha mudado bastante nestas últimas décadas. O casal protagonista, Spencer Tracy e Katherine Hepburn, é fabuloso (especialmente nos improvisos cômicos do filme caseiro dentro do filme); o texto é esperto e há uma canção de Cole Porter como cereja do bolo. E há um plano impressionante, longuíssimo, com câmera fixa, totalmente segurado pelo diálogo e por Hepburn e Judy Holliday (que veio do teatro, fez pouco cinema e morreu jovem, de câncer de mama). Cole Porter, em companhia do diretor Vincente Minnelli e do co-coreógrafo e "leading man" Gene Kelly, não está em seus melhores dias em "The Pirate", romance musical ambientado no Caribe. As atenções vão todas para Judy Garland _mesmo ótima, não impediu que o filme tenha sido um fracasso de bilheteria. A montagem é bem estranha, e os cenários têm aquela cara de estúdio... E em "Diário de uma Camareira" de 1964, Burgess Meredith (o Pingüim da série do Batman e o treinador Mickey dos três primeiros "Rocky" _Cesar Romero, o Coringa, está no filme de Sternberg com Dietrich que comentei acima) produz, assina o roteiro e atua sob a direção de Jean Renoir, que adapta uma peça francesa que deu num dos meus filmes preferidos de Luís Buñuel, quase 20 a nos depois. Estrelada por uma Paulette Godard loira (bem diferente do que nos filmes de Chaplin), o filme do francês trabalhando nos EUA é muito mais leve e convencional do que o do espanhol na França.

    No período, também dei atenção a três trabalhos dos fabulosos arqueiros Michael Powell e Emeric Pressburger: "The Red Shoes"cai na revisão, mas ainda emociona ao final e impressiona com a seqüência do balé (quase 20 minutos que demoraram 6 semanas para serem produzidos); a paixão pela arte é sempre um tema que fala comigo. "I Know Where I'm Going!" é o primeiro filme delwa totalmente em preto-e-branco que vejo _curiosamente, dizem que o diretor de fotografia fez o filme inteiro (em estúdio, onde o protagonista de Roger Livesey, substituindo James Mason, filmou o tempo todo, mesmo com grande parte do filme se passando em locações na Escócia) sem usar um fotômetro. A história é tremendamente previsível; o diferencial mesmo é o senso de humor e de liberdade que são característicos de alguns filmes da dupla ("The Red Shoes" parece exceção); há inventividade e criatividade de sobra, como distribuição de vários elementos teoricamente inconciliáveis num mesmo plano, derrubando o naturalismo. E em "The Life and Death of Colonel Blimp", a escocesa Deborah Kerr, em começo de carreira, interpreta três personagens diferentes num épico em cores com quase três horas de duração; mas a estrela é, novamente, Roger Livesey (grande ator, mas que aparentemente só pegava os papéis porque a primeira opção _neste caso, Laurence Olivier_ não podia ou não queria fazê-los), em impressionantes caracterizações (acompanhamos seu personagem por mais de 40 anos). É um filme de esforço de guerra _mas que irritou Churchill, porque a personagem de Anton Wallbrook é um militar alemão simpático; o político teria impedido Olivier de estrelá-lo e tentado banir o filme_, mas ele transcende este aspecto (como fazem outros clássicos do período, como "Os 47 Ronin"). E assim como em "I Know Where I'm Going!", a dupla de cockers spaniels de Powell faz uma ponta... E já que o assunto é guerra, vale encaixar "Sands of Iwo Jima", que eu estava enrolando para ver desde o início do ano, quando os filmes de Clint Eastwood foram lançados; feito no calor dos acontecimentos pelo veterano Allan Dwan (diretor de quase 400 filmes) e estrelado por John Wayne, com a participação do sobrevivente trio de soldados que hasteou a famosa bandeira (que também aparece no filme, emprestada pelo exército _lembra Ford usando as locomotivas reais e histórias em "The Iron Horse"), é obviamente uma patriotada bastante romantizada _inclusive com direito a parzinho romântico (não na guerra, é claro); perde muito por justamente não investir em cenas de combate.

    E, como já é praxe, não poderia deixar de lado os dramas familiares de meu amigo Yasujiro Ozu: fui resgatar "Conto das Folhas Flutuantes", de 1934 (mudo, portanto), que aborda a paternidade, o orgulho e a premente necessidade de ganhar a vida numa sociedade com papéis sociais extremamente definidos _por exemplo, ser ator não é considerado uma atividade "digna". Os enquadramentos são magistrais, mas achei um filme meio frio, comparado a outros do diretor. Já num filme de 1948 que não tem título em português (a tradução seria algo como "Uma Fêmea de Ave ao Vento"), o diferencial (negativo, creio) é a menor sutileza no clímax (que contém a cena mais violenta que vi em seus filmes); curiosamente, o conflito, ditado pela moral, pela política e pela economia (mais uma vez, o diretor fala do universal por meio do particular, praticamente sem ação em externas), é exposto de maneira imensamente sutil. Bom, mas aquém do seu melhor.

    ***

    Misturando a linha do tempo: de 1921, vi "A Carroça Fantasma", de Sjöstrom, um conto moral e sobrenatural (bem à moda da época) que lembra bastante o clássico de Dickens sobre o velho Scrooge, que inspirou o Tio Patinhas. Engraçado que uma das mais famosas cenas da carreira do Kubrick, Nicholson arrebentando uma porta a machadadas para chegar à mulher e ao filho, foi praticamente copiada deste filme, como uma óbvia homenagem. Pulando para os anos 60, outra adaptação literária (que Kubrick filmaria 6 anos depois), mas quase irreconhecível: em "Vinyl", Andy Warhol adapta "Laranja Mecânica" quase que em um plano só, em enquadramentos bem esdrúxulos; o enredo é resumido a quase nada; a trilha sonora é ótima, mas o filme dá um sono...

    Anos 70: curioso que uma sessão do Videobrasil, festival de "arte eletrônica", seja composta justamente de três filmes feitos e projetados (muito mal, com som e foco sofríveis, no superestimado Cinesesc) em 16mm... O primeiro, "Water Wrackets" (1975), é uma picaretagem da grossa: imagens de rios e lagos sob uma narração sobre eventos num futuro distante. O segundo, "Dear Phone" (1977), é o melhor, por ter, pelo menos, senso de humor. O terceiro, "A Walk Through H: The Reincarnation of an Ornithologist (1978)", segue caminho parecido, mas mostra 92 pinturas de Greenaway ("mapas") e imagens de pássaros. Completando a sessão, antes vi, no Sesc Paulista, uma exposição com 92 malas de seu personagem Tulse Luper _esta fixação de Greenaway com o 92 é por ele se tratar do número atômico do urânio, compreensível que o diretor tenha tal preocupação devido à sua geração. Acho que não dou muita sorte com Greenaway, não vi seus filmes mais elogiados...

    Menos chato foi conferir "Macumba Sexual", um dos 13 (!!!) filmes que Jesus Franco (assinando como Jess Franco) fez em 1983. É um interessante exercício de mistura de sonho e realidade, com apenas um fiapo de história: Franco prefere criar climas com a trilha sonora, as paisagens do deserto (e algumas construções arquitetônicas bem interessantes e exóticas) e com os corpos nus do elenco _com Lina Romay (também assistente de direção, sob pseudônimo, e mulher do diretor) à frente (e de costas e de tudo quanto é lado). Há um plano fabuloso: vemos na areia dois objetos que parecem lápides; de repente, uma mão gigantesca invade a tela e as pega (na verdade, eram pequenas estatuetas!).

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    De volta a este estranho ano de 2007: "Cartola: Música para os Olhos" é um bom documentário (de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda _este último esteve na sessão para debate e foi muito simpático) não apenas sobre o querido sambista, mas sobre o século XX. Vasto e rico material de arquivo garante sim informações mais do que suficientes para a biografia _a forma não briga com o conteúdo, diferentemente do que muita gente disse. E a primeira metade de "The Simpsons Movie", de David Silverman, é excelente; a segunda cai bastante, mas não deixa de ser boa. Os Simpsons ainda não envelheceram totalmente, mas não causam o frisson de antes justamente porque eles mudaram muita coisa e abriram espaço para as séries animadas politicamente incorretas, como "Beavis and Butt-Head", "South Park" e "Family Guy", entre outras. Mas não deixa de ser admirável a série estar no ar há quase 20 anos.

    Deste ano também é a série "The Tudors", que acabou de estrear aqui na TV a cabo: o que impressiona mais não é a razoável riqueza da reconstituição de época (historicamente, com certeza há muitos furos, mas estão lá Henrique VIII, Thomas Morus, Catarina de Aragão, Ana Bolena e outras figuras manjadas), mas o alto nível de erotismo (muito, mas muito sexo mesmo, para os padrões televisivos _e "Roma", que estou vendo no momento, é ainda mais ousada). Um episódio em especial, o da peste, me deu mais sustos do que todos os filmes de terror que vi nos últimos dez anos; era impressionante, um atrás do outro, mal dava para recuperar o fôlego e acalmar os batimentos cardíacos. Já a outra série vista neste ínterim, "Taken" (aparentemente produzida por Steven Spielberg como aquecimento para "Guerra dos Mundos" _Dakota Fanning está lá), sobre três gerações de três famílias (é meio confuso, mesmo) envolvidas com extraterrestres. É bem a cara do Spielba _bem, do pior dele: musiquinha vagabunda criando um climinha, câmeras rodando à toa em torno das personagens, textos boboquinhas na voz de uma criança, um chororô da mulherada... Fica mais divertido a partir do segundo episódio, mas a conclusão é meio broxante.

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    É claro que estou esquecendo muita coisa, mas pelo menos quero registrar aqui os meus parabéns pelo primeiro aniversário da Zingu!, que traz uma entrevista com o inigualável Sady Baby (também recomendo o belíssimo texto de Andrea Ormond, embora a edição toda mereça ser lida), e de recomendar o disco "Carnival Nights", do Black Barn Music, projeto do talentoso André ZP. Outra coisa: fantástico o debate ocorrido na Cinética a respeito de um curta-metragem brasileiro e recente; seria maravilhoso se iniciativas como esta (um grupo de críticos debatendo com um cineasta) se repetissem com mais freqüência. Eu adoraria que "A Volta do Regresso" ou qualquer outro meu passasse pelo mesmo escrutínio.

    terça-feira, junho 19, 2007

    Muito a dizer (?), em pouco tempo (que me foge cada vez mais, assim como os caraminguás): finalmente ficou pronta a trilha sonora de "A Volta do Regresso", disponível aqui para download. Quem a assina é Vinicius Calvitti, músico cinéfilo, fã de Carpenter e Argento, Morricone e John Williams. Foi o Vinicius que me achou no Orkut (quando fiz por lá, ano passado, chamadas para testes de elenco para o personagem principal) e se ofereceu para trabalhar no filme _ou seja, caiu do céu.

    E ocorreu um caso de mal que veio para o bem: meu projeto previa trilha sonora original para apenas duas seqüências, mas, devido à impossibilidade de negociar com as editoras de música (o que me impediu de usar a canção que batiza o filme), toda a trilha ficou para o Vinicius, que, a partir de algumas orientações e referências dadas por mim (marchinha carnavalesca, jazz de barzinho, música natalina de elevador, orquestra no limite do brega e até toques de celular monofônico), na terceira tentativa (as primeiras, rejeitadas, também estão lá como faixas-bônus) acertou o tema que serve de base para toda a trilha (e suas variações, tão sutis quanto detalhadas, parecem obras totalmente novas).

    Para os créditos finais, baixou o Olavo Bilac em mim, e escrevi uma letra parnasiana, em tercetos de duas redondilhas menores e um decassílabo, encaixou direitinho; a idéia era que um coral de crianças a gravasse, de forma desafinada/desanimada, como na versão para "Career Opportunities" que o Clash fez para o "Sandinista!". Apesar de ter descolado um estúdio bom e camarada, não tive paciência para fazer esta produção sozinho, e a trilha ficou sem a letra. Pode ser ouvida independentemente numa boa, mas é em conjunção com as imagens que ela se torna ainda melhor, uma contribuição gigantesca para o filme.

    Um dos próximos trabalhos do Vinicius (que já tem um portfolio respeitável) será o longa "Porto dos Mortos", do Davi de Oliveira Pinheiro, cujo trailer já pode ser visto aqui. A amostra é impressionante: bela fotografia, bom ritmo, direção de arte idem; acho que o resultado promete (só não entendi os nomes em inglês das personagens, mas é óbvio que o virginiano aqui ia implicar com algum detalhe).

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    Ainda na vizinhança e no campo do terror, eu estava devendo para o colega André ZP uma revisão de seu curta "Sozinho", que eu tinha visto, numa Sessão do Comodoro, com um mau humor dos diabos (muito por causa do estresse gerado pelo meu próprio filme). Contribuiu a curiosidade de rever a Vanessa Prieto, após ter montado "Nas Duas Almas", onde ela contracena com o Milhem Cortaz. Gostei muito mais do curta agora, embora eu ainda tenha a impressão de que ele é longo.

    O problema é que, para mim, o filme gira em torno da ótima cena da mutilação (tenho vontade de perguntar para a Vanessa se ela não se divertiu muito com aquilo), catártica, com maquiagem caprichada, muito bem-feita mesmo. O resto me parece fora de proporção: mesmo a cena da pedolatria, que deveria gerar maior interesse, parece se arrastar (a boa trilha do Hurtmold não ajuda muito). E, bancando o virginiano de novo, implico com certos planos que me parecem desnecessários, que me desligavam do filme e me obrigavam a perguntar "por que uma mão dando o CD para a outra? Por que precisa aparecer o número do prédio?". Mas a experiência é muito boa.

    Mas tive uma boa supresa ao encontrar "Crônicas de um Zumbi Adolescente", que é anterior, mais longo (28 minutos que passaram mais rápido do que os 13 minutos de "Sozinho") e que o André já me disse gostar menos. Achei que o uso de atores amadores, em interpretações não-naturalistas (com diálogos idem, numa prosódia particular _e não estou falando do sotaque interiorano, que também tenho), associado às referências televisivas norte-americanas (o diretor cita Romero e os Simpsons, mas eu vi mais Tim Burton e "Papai Sabe Tudo", além das comédias adolescentes dos anos 80), gerou um grande nível de ironia. É muito divertido.

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    Duas gigantescas surpresas que contrariaram o sábio ditado "de onde menos se espera é que não vem nada de bom mesmo": a primeira é "Zodíaco", de David Fincher, o Finchinha, que finalmente faz seu primeiro filme realmente digno de respeito. O segredo foi deixar de lado as firulinhas com câmera, iluminação e direção de arte e se concentrar numa recriação de época exemplar em ritmo compacto (duas horas e meia que passam voando), com boa trilha sonora e ótimo elenco (Mark Ruffalo para o Oscar!). As cenas em que o suspense aparece são bônus _nem precisava...

    A segunda é "Baixio das Bestas", do Claudio Assis. De "Amarelo Manga" tinha gostado bem pouco (com exceção da personagem do padre) e só fui ver este após ler os textos elogiosos de Carlos Reichenbach e Inácio Araújo. Pelo que tenho lido, o filme tem mais detratores do que admiradores _o que não é exatamente de espantar. Só que eu não consegui ver em "Baixio das Bestas" um mero "filme-denúncia", misógino, sádico e feito somente com a intenção de chocar; pelo contrário, vi ali um filme amplo, complexo, sensível e sério, desprovido de polêmicas fáceis e com um elenco fabuloso. E é plasticamente belíssimo ao enfocar a miséria, mas não me parece entrar no quadro da "cosmética da fome". O maior problema é a personagem do Matheus N., que parece servir quase que exclusivamente para verbalizar parte do discurso do diretor. E tem muito homem pelado _nem precisava...

    O último filme recente que vi é o bastante comentado "Borat". A hilaridade do filme de Larry Charles baseado na criação de Sacha Baron Cohen reside no mal-estar provocado pelas presepadas do protagonista: sendo machista ou nojento, expõe o ridículo alheio por meio de estratégias que me lembram bastante o Michael Moore. Em suma, achei divertido, dei minhas risadas (creio que ri mais da risada de quem me acompanhava do que do filme em si), mas não sei se gostei, algo ali me incomodou (seriam, de novo, os homens pelados?).

    E "A Pedra do Reino", alguém mais acompanhou (há anos eu não acompanhava uma minissérie na TV, até porque elas andam escassas _mininovela não é minissérie, certo?)? Não vi "Hoje É Dia de Maria" e não ligo se não deu audiência: gostei bastante desta nova produção _em especial, dos dois primeiros capítulos, menos lineares. Irhandir Santos (de "Baixio das Bestas") está excelente como Quaderna; entretando, a recente montagem teatral de Antunes Filho dá de mil a zero (o livro, ainda não li _Arriando Suassunga é muito antipático, embora bom comediante), as canções fazem falta.

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    É possível retratar uma monstruosidade sem ódio? Jean Renoir, um dos europeus que fizeram filmes antinazistas em Hollywood, mostra que sim em "This Land Is Mine" (1943), digno da estirpe de grandes obras morais _me lembrou bastante o "De Crápula a Herói" do Rossellini. Charles Laughton encarna um personagem complexo e impressionante, mas quem me conquistou mesmo foi Maureen O'Hara.

    Outro filme singular de 1943 é "The Seventh Victim" (título que não tem nada a ver com a história), filme de estréia de Mark Robson, montador dos filmes de Jacques Tourner citados no texto passado (todos produções do Val Lewton para a RKO), na direção, é um estranhíssimo drama que, em certas partes, lembra "Psicose", e em outras, "O Bebê de Rosemary". As coisas vão se encaixando muito lentamente (após a metade do filme, você ainda se pergunta, afinal de contas, sobre o que ele é), e só nas três últimas cenas (a última delas, chocante) temos um fecho para todas as personagens. Além de ser muito complexo e incomum (em certos momentos, até meio ridículo), é repleto de enquadramentos peculiares; a panorâmica é um movimento de câmera muito usado, que explora bem os cenários e as ações das personagens, com profundidade de campo que sempre traz informações interessantes. Muito curioso mesmo.

    Mais uma obra-prima do mesmo ano: "Dia de Ira", do Dreyer. Complexo e típico de seu diretor, lembra tanto "A Paixão de Joana D'Arc" como "A Palavra"; traz suspense, romance, retrato histórico, crítica social etc. Parece previsível durante boa parte do tempo, mas introduz tanto a possibilidade do sobrenatural quanto renega o obscurantismo e abraça a psicologia.

    Fechando 1943, revejo "Meshes of the Afternoon", o primeiro filme da Maya Deren que vi (e até hoje meu preferido), há alguns anos: na época, foi uma experiência impactante porque, semanas antes, eu tinha feito um vídeo muito, mas muito parecido (inspirado por um poema de Jorge de Lima, era mudo, em preto-e-branco, estrelado por uma moça de cabelos encaracolados que engolia uma chave e se relacionava com muitas plantas, com um espelho e um telefone _que ficava dentro de um bidê_ e se multiplicava em outras mulheres _tinha também um cavalo, um relógio, um padre que virava mulher, um atropelamento, um vestido de noiva, uma floresta, algas marinhas saindo de armários e uma calcinha branca dentro de um vidro de remédio, mas estes não aparecem neste "Meshes...". Ainda bem, se não iam pensar que eu sou um plagiário).

    Pulando dois anos para a frente, finalmente vejo "Brief Encounter" ("Desencanto"), do David Lean. Apesar de esperar um filme bem mais transformador, é muito concentrado e muito bonito (especialmente no final); a interligação do flashback com o presente é ótima, e a câmera tem força retirada da sutileza. Do mesmo ano, "The Bells of St. Mary's" extrai muito de sua força de Ingrid Bergman. Ela está brilhante: linda (embora sequer vejamos seus cabelos _ela está com hábito de freira o filme todo), engraçada, tocante (sem excesso de chororô) _a cena em que ensina um menino a lutar boxe é antológica.

    Fechando o ano em que a guerra acabou, "Scarlet Street", um dentre os filmes de Fritz Lang estrelado por Edward G. Robinson, Joan Bennett (ótima, roubando todas as cenas em que aparece) e Dan Duryea, é também uma adaptação da mesma peça que Jean Renoir filmou, dando origem a "A Cadela". Eu prefiro a versão de Renoir, mas a de Lang está longe de ser desprezível: enquanto Michel Simon conferia a seu pergonagem uma aura patética, Robinson é muito mais trágico, o que permeia todo o filme e torna o seu final muito mais atormentador. Há uma cena maravilhosa que lembra muito um dos momentos mais marcantes de "Lolita", do Kubrick.

    E em 1946, saiu "Duel in the Sun", o primeiro King Vidor em cores que vejo (bem, é mais um filme do Selznick do que do Vidor, assim como "...E o Vento Levou" não é apenas do Fleming) . Mais longo do que necessário, começa mal e causa estranheza (não por a protagonista de um gênero tipicamente "de macho" ser mulher, mas porque a mesma a princípio é fraca demais), mas depois melhora muito _em grande parte, graças a seu exagero folhetinesco (a certo ponto parece uma espécie de pré-"Irmãos Coragem"). O elenco é estelar: Jennifer Jones, Lillian Gish, Lionel Barrymore, Joseph Cotten e Gregory Peck (em um de seus raros papéis como vilão). Extravagante, era para ter sido o novo "...E o Vento Levou" de Selznick, mas, apesar de não ter sido um fracasso (e de não ser ruim), não alcançou o mesmo status.

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    Retrocedo no tempo de volta aos anos 1920 para pescar um Ströheim que tinha deixado para trás: "The Merry Widow" (1925), feito logo após "Greed", é o último filme dele pela MGM (que seria refilmado nove anos depois por Lubitsch _devo conferir em breve). Volta ao mundo da nobreza européia, onde dois príncipes (um deles a encarnação do vilão de bigode e monóculo) se envolvem com uma dançarina (a bela Mae Murray, em um de seus últimos filmes). Há muito de romance folhetinesco (é adaptação de uma famosa opereta), mas há também erotismo (eufemismo para safadeza, meu caro Watson). A produção, cara, gerou algumas cenas ótimas, como a que sela o destino do vilão (há outra, de duelo, que lembra muito "Barry Lyndon").

    Ainda nos EUA, conferi "The Covered Wagon" (1923), western muito interessante do James Cruze (diretor de um "Gangs of New York" com argumento de Samuel Fuller _será que é bom?): tem lá o romancinho típico, a estereotipia das personagens (o herói galã é o único homem barbeado do filme) fala alto, o discurso hoje politicamente incorreto de que "a civilização conquistou os selvagens" idem, mas boa parte do filme é centrada na ação, o que dá a ele um quê de documental: vemos a caravana enfrentando as mais diversas situações, como festas, funerais, caçadas a búfalos, nevascas, ataques de índios, travessia de rios etc. Lembra o "Wagon Master", que John Ford faria quase 30 anos depois.

    Falando em documentário, chega a ser emocionante ver "Moana" (1926), o filme (um "Nanook" na Polinésia) de Robert Flaherty que gerou o rótulo que caracteriza o gênero até hoje (dado por John Grierson numa resenha de jornal, há mais de 80 anos). O que costuma me fascinar em Flaherty é o apuro de seus enquadramentos (neste ponto, por hora acho "O Homem de Aran" imbatível) e sua habilidade de retratar um universo alienígena: um garoto trepando num coqueiro ou um rapaz sendo tatuado se transformam em cenas impactantes.

    Também causa grande impacto "Dura Lex", o filme mais famoso do Kuleshov. É muito incomum: em pleno período revolucionário na União Soviética, é uma adaptação humanista de uma obra de Jack London, ambientada nos EUA! E ainda traz de lambugem uma atuação emocionante, perfeita e inovadora de Aleksandra Khokhlova (que teve carreira curtíssima no cinema, se aposentou das telas 50 anos antes de morrer, uma pena). Obra-prima, inesquecível.

    Outra curiosidade é "L'Inhumaine", de Marcel l'Herbier. Um dos filmes mais modernistas (não vou dizer futurista, porque o rótulo nunca me agradou) que vi é este romance exagerado entre um cientista e uma famosa cantora: a direção de arte, com grande presença do alto contraste e cenários artificiais lembra um pouco o "Caligari", mas a maciça presença da tecnologia adianta "Metropolis" (há também grande agilidade na montagem e uso magistral da montagem paralela _um pouco de Griffith, outro tanto de Eisenstein?).

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    Semana que vem acontece a primeira exibição pública de um documentário sobre cinema no qual sou um dos principais entrevistados (quem já viu me disse que eu acabei praticamente ditando a linha narrativa do filme). Vai ser muito, muito esquisito mesmo ver minha imagem na tela grande (detesto aparecer, embora goste de ser registrado), acho que vou detestar (até porque estava muito deprimido no dia da entrevista, há quase dois anos _justamente porque a pré-produção de "A Volta do Regresso" estava uma droga). Se sobreviver, no próximo texto conto como foi _assim como a exibição dos filmes do Vebis na Sessão do Comodoro, se a mesma rolar.

    sexta-feira, março 23, 2007

    Queria muito ver "Marie Antoinette" (mesmo que agora um monte de gente esteja falando bem, depois que o filme só levou paulada), mas o desgraçado não estreou perto de casa, o calor ainda está alto e a preguiça e outros compromissos venceram; vocês gostaram?

    Teria sido bom ver aquele contexto retratado por uma estrangeira contemporânea, após ter visto outros filmes históricos da França neste último mês, como o "Orphans of the Storm" (1921), do Griffith (que explicita em letreiros sua posição política, soltando os cachorros na então recente Revolução Russa, e traz algumas cenas impressionantes, como uma orgia dos aristocratas e os festejos do povo com a queda da monarquia; também há um clássico exercício de suspense baseado na montagem paralela, que ainda funciona), e o "Napoleón" (1927), do Abel Gance (quatro horas que passam voando, apesar de o ritmo cair quando chegamos ao romance com Joséphine. Vários momentos lembram certas experiências russas do período, como a metáfora da águia e a montagem rápida, feita pelo próprio Gance, que vai além e impressiona ao usar três câmeras para compor quadros grandiosos, criando o formato retangular _dizem também que ele chegou a filmar em cores e em 3-D, mas não teria usado estes trechos para não distrair demais o público. Talvez o maior filme da França? Há quem diga que é "Les Enfants du Paradis", outros vão de "Acossado"...). Agora, revolucionário mesmo é "Zéro de Conduite", do Jean Vigo, repleto deste espírito ao mostrar a reação de alguns garotos bagunceiros às autoridades escolares com o apoio de efeitos como câmera lenta, animação, stop-motion etc., homenageando Chaplin e inspirando Truffaut.

    Ainda na França, conferi duas parcerias entre Jean Renoir e o sempre genial Michel Simon, notável e inesquecível em suas caracterizações: "A Cadela" (1931) e "Boudu Salvo das Águas" (1932). O primeiro é uma lúcida obra-prima, introduzida pela clássica cena com os fantoches, que abre o caminho para a história, a mais antiga do mundo, narrada com brilhantismo raro (se o equipamento fosse mais ágil, que movimentos ainda mais ousados Renoir não teria realizado?); o segundo tem um belo final e alguns ótimos momentos, mas quem segura as pontas é mesmo Simon (também produtor; o grande Jacques Becker é assistente de direção e faz uma ponta). Completando o passeio pela terra de Astérix, "Jeux Interdits", de 1952 (um neorealista de René Clement, concentrado num microcosmo: fantasias infantis num ambiente rural), e o recente e bem-sucedido documentário "Ser e Ter", superficial, lento e que às vezes passa a impressão de ser covarde.

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    Andei visitando outros diretores, europeus em sua maioria (e a eles voltarei mais vezes). Um deles é o meu amigo Ernst Lubitsch, que apareceu no texto passado e volta com "Monte Carlo", de 1930 (mais um musical altamente escapista, mas não tão bom quanto "The Love Parade", do ano anterior), e duas obras-primas (nas quais felizmente abandona os musicais), "Ladrão de Alcova", de 1932, e "Sócios no Amor", de 1933, na qual o diretor exibe sua marca registrada: encadeamento perfeito de cenas curtas, sutis e que respeitam a inteligência do espectador (o que costuma ser raridade), sem privá-lo das gargalhadas.

    Outro mestre da época é o Rouben Mamoulian, em dois projetos excelentes e bem distintos. Um deles é o "Love Me Tonight" (1932), no qual ele rouba de Lubitsch a dupla Maurice Chevalier e Jeanette MacDonald e investe na comédia romântica musical; como Renoir em "A Cadela", passa por cima do enredo mais do que batido (nobre se apaixona por plebeu) e cria momentos clássicos, como a seqüência inicial, na qual Paris acorda com o som dos trabalhadores. Decupagem e montagem são irrepreensíveis, e as piadas não perderam o viço (gargalhei várias vezes). O grande problema mesmo é Chevalier, que não tem 10% do carisma de um Gene Kelly e não tem muita química com MacDonald _que não faz feio, mas que neste filme tem a cena roubada pela coadjuvante Myrna Loy, muito mais bonita e divertida. O outro, do ano anterior, é "Dr. Jekyll and Mr. Hyde", a melhor adaptação de "O Médico e o Monstro" que já vi. Mamoo mais uma vez nos dá um filme impressionante e tecnicamente perfeito (o que o faz parecer bem à frente de seu tempo). As seqüências subjetivas geraram filhos famosos (impossível não lembrar do início do "Halloween", do Carpenter, e do trecho imediatamente pós-transformação de "O Professor Aloprado", do Lewis), as transformações de Jekyll em Hyde e vice-versa são de cair o queixo (as feitas com filtros parecem mágica), e Fredric March está perfeito em ambas as caracterizações; já Miriam Hopkins (que, aos 60 anos, trabalharia com Russ Meyer, que não era bobo) está absolutamente deliciosa e dá ao filme uma carga gigantesca, quase inacreditável, de erotismo (uma tragédia que sua cena de nudez tenha sido cortada).

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    Quem também bateu ponto por aqui foi King Vidor, com "Hallelujah!" (1929), seu primeiro sonoro; traz aqueles probleminhas típicos da época, como interpretações bem acima do tom e má sincronia de som (que não foi captado diretamente, mas dublado após a filmagem), mas nada que o comprometa. Até porque é surpreendente: o que parece ser uma espécie de musical (quem dera a trilha sonora fosse lançada) retratando os agricultores de algodão (o elenco é 100% negro, o que acarreta alguns estereótipos também típicos da época, quando o racismo era mais tolerado, mas nada que chegue a ser escandaloso) vai ganhando ares de drama, depois parece que, fazendo jus ao título, se tornará um filme religioso (embora carregado de erotismo, apesar de não trazer cenas de sexo ou nudez), para virar uma tragédia e comentário moral, até fechar o ciclo. Em "The Champ" (obviamente fantasticotilhões de vezes melhor do que a xaroposa refilmagem do Zeffirelli _o Vebis cunhou muito adequadamente o termo "zefirelismo" em seu texto sobre "Rocky Balboa"), de 1931, os pontos fortes são o carisma de Jackie Cooper (o Perry White da série "Superman") e Wallace Beery, mas é a câmera (enquadramentos e movimentação) que rouba o show.

    Outro amigão da vizinhança é Yasujiro Ozu, que vem quietinho (ele só faria seu primeiro filme sonoro em 1936) com três obras: a primeira, "A Esposa da Noite" (1930), impressiona por parecer, a princípio, um filme de gângster, no melhor estilo "The Public Enemy"; mas não demora a se tornar um melodrama familiar, mais característico do diretor. Quatro atores (com destaque absoluto para Emiko Yagumo, que infelizmente teve carreira curta no cinema, menos de dez anos) em um cenário divinamente explorado por Ozu, mestre em decupagem e mise-en-scène. Os travellings são sempre perfeitos. Aproveitei para rever (e gostar ainda mais) de "Meninos de Tóquio" (título ruim; a tradução literal seria algo como "Eu Nasci, Mas..."), que já seria um grande filme se fosse apenas uma obra sobre a infância; ao tornar-se um drama familiar envolvendo os pais, segue atemporal e universal, mas amplia seu escopo _ poderia ser cruel, mas Ozu-san também era conciliador. Também vi "Dekigokoro" (não há título em português, seria algo como "ilusão passageira"), de 1933, que também investe no drama familiar causado pelo conflito de gerações (e de ambições entre pais e filhos), mas chega às beiras do dramalhão, o que eu nunca tinha visto nos filmes do diretor.

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    E não posso me esquecer de Fritz Lang, que compareceu com "M", de 1931 (no qual ele e Peter Lorre estão perfeitos, talvez em seus auges _Hitchcock, aprendiz de Lang, dizia que seu filme preferido era "A Morte Cansada", mas não há muita dúvida de que este também exerceu seu impacto sobre o britânico... de quem vi "Blackmail", seu primeiro sonoro, muito interessante especialmente pelas experiências técnicas de imagem e som, embora a atuação germânica de Anny Ondra também seja inesquecível), e "Das Testament des Dr. Mabuse", de 1933 (brilhante em vários momentos, mas um tanto arrastado em outros; melhora quando explora Rudolf Klein-Rogge, que interpreta a personagem-título, mas o cerne do filme é exatamente este, como a influência do mal (e em Mabuse cola-se perfeitamente o rótulo de "terrorista", na acepção mais abrangente do termo) pode contaminar... E não era o que estava acontecendo na Alemanha, com a ascensão dos nazistas ao poder?

    E já que falamos em nazistas, vamos dar uma olhada em "Salon Kitty", estrelado por Helmut Berger e Ingrid Thulin em 1976, na qual Tinto Brass confronta Eros e Tânatos, mostrando o sexo militarizado, usado como arma de guerra. Diferentemente de certos filmes rotulados de "nazixploitation" (como o horroroso "Ilsa, She-Wolf of the SS"), Brass não pretendeu fazer um mero filme erótico disfarçado de denúncia de atrocidades; vai bem mais fundo no horror não só daquele período, mas da psiquê humana, sem medo de mostrar imagens fortes. E pode-se não gostar do diretor, mas é inegável que ele tem estilo.

    Voltando de novo no tempo, faltou falar de Josef von Sternberg, que me mostrou dois de seus filmes com Dietrich: "Marrocos", de 1930, e "Desonrada", de 1931. O primeiro encena um triângulo amoroso no continente africano, mais de dez anos antes de "Casablanca" _muito menos tenso, até porque a personagem de Adolphe Menjou é um tremendo de um corno-manso, deixando barato a Marlene (mais uma vez fazendo um papel recorrente em sua carreira, a de cantora de cabaré _com direito a beijo lésbico) para Gary Cooper (fazendo o papel de legionário francês anos antes de "Beau Geste"), que nunca mais teria aceitadou um convite do Sternberg. O segundo é muito melhor, uma história de espionagem (no mesmo ano em que Garbo encarnava Mata Hari no filme homônimo) ambientada na Áustria da Primeira Guerra Mundial, onde Dietrich, mais linda do que nunca, interpreta a espiã X-27 e toca piano, muito piano... Tecnicamente, é perfeito: fotografia (que se aproveita bastante de efeitos como fusões) e mise-en-scène são deslumbrantes (a cena no Carnaval é linda), nem parece que é do início do período sonoro. Meu Sternberg preferido até o momento. E falando em fusões, poucos as usaram tão bem quanto Victor Sjöström em "Vento e Areia"...

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    Mas vamos parar um pouco com este domínio dos diretores e falar um pouco de um ator: ninguém menos que Boris Karloff. Mais conhecido como Frank, o homem com nome de vodca era considerado extremamente charmoso por todos, mas nas telas acabou marcado ou por monstrengos sem falas (além do mais famoso, temos também o mordomo mocorongo de "A Casa Sinistra", outro de James Whale) ou por personagens até que interessantes, mas um tanto unidimensionais, como o vilão de "O Gato Preto", do Ulmer (o primeiro dos vários filmes no qual Karloff encontra Lugosi), o gângster de "Scarface", do Hawks, ou o fanático religioso de "The Lost Patrol", do Ford. E aí fica a dúvida: foi um bom ator mal-aproveitado ou um mau ator muitíssimo bem-aproveitado? Minha tendência é balançar em direção à segunda alternativa.

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    Mas vamos falar de um assunto leve e agradável, como matança: por um lado, a barra pesa em "Você Também Pode Dar um Presunto Legal", média feito entre 1970 e 1973 (mas exibido somente a partir do ano passado) pelo documentarista Sérgio Muniz sobre o surgimento e a ascensão do Esquadrão da Morte e da tortura encampada pelo Sérgio Fleury; obviamente ele não tratou de entrevistar nenhuma autoridade (iria para o pau-de-arara rapidinho), mas filmou publicações jornalísticas e publicitárias da época (estas são o cúmulo do espírito de porco brazuca, fazendo gracinhas com a violência para vender aparelhos de TV e água sanitária), montagem de duas peças de teatro e outros atores (entre eles Abrahão Farc, Renato Consorte _ambos convidados para atuar em "A Volta do Regresso", mas o papel acabou ficando para o Ênio Gonçalves_, Othon Bastos e Gianfrancesco Guarnieri) interpretando figuras da época. A trilha é ótima (embora óbvia), bem irônica.

    Tortura e sangue também vemos em "King of Kings", belíssima adaptação do Novo Testamento dirigida por Nicholas Ray, mesmo que prejudicada pelas piores características das superproduções "históricas" (não que a exatidão da reconstituição seja uma necessidade) do período, como o excesso de assepsia e de artificialidade. Há cenas lindas (como o sermão da montanha e Jesus curando um cego), a narração (escrita por Ray Bradbury e lida por Orson Welles _foi a primeira vez que vi este filme, antigo campeão da "Sessão da Tarde" na época das Páscoas da minha infância, com som original e janela correta) funciona, e a trilha sonora de Miklós Rózsa é ótima (embora também restrita às convenções do gênero). Mas, apesar de todos os recursos (como a estonteante fotografia em 70mm) e talentos empregados, fica a anos-luz de distância do filme de Pasolini, feito meses depois.

    Temos também a primeira temporada da série "Dexter", exibida nos EUA no ano passado (aqui, sabe-se lá quando): adaptação literária (não muito fiel, segundo li por aí) ambientada em Miami (o que a deixa bem menos dark do que poderia ser _há sol de montão, praia e muita música caribenha, o que confere bastante humor a tudo) que, apesar da premissa um tanto diferente (um legista da polícia na verdade é um serial killer que mata apenas outros assassinos que escaparam da lei), a série começa como mais um mero show policial; mas melhora bastante ao se aprofundar no passado de seu protagonista (há algumas grandes surpresas, e a maior delas fica bem para o finalzinho), interpretado pelo ótimo Michael C. Hall (o papa-defunto gay de "Six Feer Under"), acompanhado de Jennifer Carpenter (mais conhecida como Emily Rose, aquela do exorcismo). Destaque para a abertura, na qual as atividades mais corriqueiras do dia-a-dia, como fazer a barba, passar fio-dental, vestir-se e fazer o café-da-manhã tornam-se carregadas de morbidez (mesmo assim, a série poderia ter um clima bem mais pesado, de pesadelo).

    E como citei pesadelo, vamos aproveitar para meter o pau numa porcaria safada que tive o desprazer de ver neste mês, o tal "Me and You and Everyone We Know", da Miranda July. É pior do que uma bobagem pretensiosa, porque sequer consegue chegar neste nível: adequadamente classificado como "lixo indie", este filme parece não ter a menor vergonha de atingir cúmulos de ridículo (como a cena com o peixinho dourado), o que não seria necessariamente ruim, se fosse uma comédia (aliás, dei muitas risadas durante o filme, pena que não era seu objetivo arrancá-las). Para piorar, a trilha sonora é abominável, mas o que preocupa mesmo é a sensação de que a diretora deveria urgentemente procurar um psicólogo, porque ela parece ser alguém com a alma aleijada... Pelo menos o garotinho Brandon Ratcliff está OK. Já "A Lula e a Baleia", produção do Wes Anderson dirigida por seu roteirista em "...Steve Zissou", não é uma droga, mas também não passa muito de sub-Woody Allen (ou seja, sub-sub-Bergman). Deixa-se assistir sem sofrimento, mas passa muito pouca personalidade (dá a impressão de que o roteiro foi filmado com uma tremenda preguiça). O elenco está muito bem, o final é óbvio e bem fraquinho.

    ***

    Chegou até aqui? Cansou? Então vamos encerrar, por hora: revi os dois primeiros episódios de "Star Wars" (quero dizer, o I e o II, mais recentes), e não entendo muito a implicância com esta nova trilogia que "inicia" a saga. Os filmes não só "rimam" com seus antecessores, como ganham muito visualmente. A grande importância destes dois filmes foi o investimento no cinema digital (a transição do Mestre Yoda fantoche para o totalmente animado foi um grande avanço, assim como o chatíssimo Jar Jar Binks). Lucas será lembrado como pioneiro pelas próximas gerações, não tem jeito.

    P. S. OK, só mais uma coisinha. Eu esqueci no mês passado e quase ia me esquecendo de novo de comentar a imperdível mostra do Anish Kapoor no CCBB de São Paulo: ouvindo a Lucrécia Martel dar uma palestra no mês passado, ela insistiu muito na questão do som em seus filmes, concentrando muito na vibração dos tímpanos a sensação física que o cinema proporciona, e, curiosamente, deixou (pelo menos naquele dia) a imagem em segundo plano; pois as obras do Kapoor são visualmente sensacionais justamente por gerarem uma concretitude do olhar como manifestação física. O reflexo do que captamos na retina se espalha por todo o corpo, coisa que as crianças sabem experimentar muito bem, mas que quando crescemos acabamos nos dessensibilizando; ali, me senti como numa Casa Maluca de um parque de diversões, e foi impossível não lembrar do final de "A Dama de Shanghai". Quem não for ver é mulher do Bento 16!

    P. P. S. Era também para eu falar do Proust (inspiração para uma peça de teatro que comecei a escrever), mas acho que fica para outra vez...

    Na platéia