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    terça-feira, outubro 09, 2007

    Conteúdo: "Comédia é, em essência, uma arte raivosa e anti-social." A frase do Robert McKee (interpretado pelo Brian Cox em "Adaptação") me parece um tanto generalizante e radical, mas não incorreta. Parece se encaixar especialmente a "A Volta do Regresso", um filme quase que totalmente calcado na ironia _talvez a ponto de soar terrivelmente desagradável a alguns (estou louco de curiosidade para ver as reações de mais gente, especialmente as negativas; até o momento, parece que quem desgosta mais do filme sou eu, mas sei que isto vai mudar).

    Forma: "PERGUNTA - Você rodou o filme com câmera digital, em lugar de película. Até que ponto isso foi libertador para você?

    LYNCH - A palavra 'livre', se você a escrevesse com L maiúsculo, a fizesse tão alta quanto o Empire State Building e a sublinhasse muito _foi tão libertador assim. É tão belo, e de tantas maneiras diferentes. Depois dessa experiência, eu nunca mais poderei voltar a filmar em película."

    Talvez a película ainda seja, no momento (mas não por muito tempo), o melhor suporte para a exibição de filmes; mas para captação de imagens, não creio _ou seja, fecho com o David Lynch (não me lembro de onde peguei a entrevista, normalmente dou o link, sorry), apesar de ainda não ter visto seu "Inland Empire", que vai passar na Mostra e estrear logo depois. Ter feito "A Volta do Regresso" em 16mm deixou o projeto muito engessado e caro: deixei de fazer mais takes, negando pedidos do elenco, por falta de grana para comprar mais latas, e, também por contingências financeiras, não pude fazer uma truca sequer _os créditos tiveram que ser em cartela, e não sobre imagem, como eu queria (e este é apenas um dos exemplos). Não penso mais em filmar em película, e mesmo o transfer eu espero que esteja com seus dias contados.

    ***

    Estava esperando ver "Tropa de Elite" para atualizar este site. Vi o filme ontem, na promoção de aniversário de 14 anos do Espaço Unibanco (lembro de quando o lugar era Espaço Banco Nacional de Cinema, antes de o mesmo quebrar), justamente em projeção digital; durante o filme em si, não dá para perceber muita diferença na qualidade de imagem _a parte mais estressante foi durante as propagandas.

    Mas vamos ao filme, que deu o que falar por motivos exteriores ao mesmo: ele só virou esta sensação por causa da pirataria (nunca saberemos do impacto da mesma sobre a bilheteria, mas parece que o resultado não será dos piores _provavelmente porque os públicos são mesmo diferentes: talvez a pirataria só alcance a quem não tem acesso ao cinema por questões de localidade e alto preço) e por causa do debate em torno da segurança pública (que o próprio diretor encampa) e da violência _bobagens, bobagens (leiam o grande texto de Carlos Reichenbach chamado "Apontamentos para uma Polêmica Anunciada" aqui). Não é prerrogativa de um diretor de cinema debater o assunto, mas sim a de fazer bons filmes; também é ridículo alguém reclamar do filme porque ele simula atos de tortura e violência com resultados fatais: cinema também é Eros e Thanatos, kiss-kiss-bang-bang, seria desonesto e covarde um filme deste gênero não mostrar alguns litros de tinta vermelha (por sinal, o filme é pudico, nada de putaria saudável nos bailes funk nem na boate de strip).

    O bafafá todo (que inclui piadas com o Capitão Nascimento, como bonequinho que fala "senta o dedo nessa porra!" e frases atribuídas anteriormente ao Chuck Norris _coisa parecida aconteceu com o Zé Pequeno do infinitamente superior "Cidade de Deus") me deixou na expectativa de ver um filmaço, talvez outro marco histórico em nosso cinema recente; infelizmente, "Tropa de Elite" sequer se classifica como um bom filme policial (gênero no qual temos uma bela tradição, os filmes precisam apenas ser recuperados _alguém dizer que este é "o melhor filme nacional que já vi" é atestado do descaso com nossa cinematografia). É prejudicado especialmente pela debilidade das situações dramáticas e pela falta de complexidade de conflitos das personagens; o final, péssimo e pífio, sublinha que nenhuma delas chegou aos limites que poderia ter chegado; o roteiro não tem fôlego, foi pouco ambicioso _prejudicam também as "cabecices" como citação de psicólogo e aulinha sobre Foucault, além de um excesso de didatismo "para inglês ver".

    Mas o famoso e fenomenal Capitão Nascimento é um caso à parte: chamado a torto e a direito de "herói" (até o Luciano Huck clamou por ele quando teve seu Rolex levado por uma dupla de assaltantes numa moto), me pareceu mais um fracote, louco para deixar de subir o morro e ficar trocando fralda de nenê, que só vira "macho" mesmo na hora de rodar a bainana e gritar "quem manda aqui sou eu" com a espoca recém-mamãe em seu apê de classe média. Sei que a comparação é covardia, mas na hora lembrei das personagens de James Cagney em "White Heat", de Charles Bronson em "Machine Gun Kelly" e de Warren Oates em "Bring Me the Head of Alfredo García", que eram "bad motherfuckers", mas tinham seus tocantes momentos de fragilidade; em "Tropa de Elite", o máximo que o Capitão Nascimento de Wagner Moura (que não está mal, a culpa é do roteiro) faz é dar uma travadinha durante uma escalada com a esposa, todo playboyzudo. Em suma: dada a qualidade do material de origem e dos nomes envolvidos no projeto, eu estava esperando bem mais. Mas, para não dizer que só falei dos espinhos, o filme passa rápido e tem senso de humor.

    ***

    Vamos continuar falando de filmes policiais? Na minha quase terminada "peregrinação" (como diz religiosamente o Ailton) pelos anos 40, o gênero aparece bastante, com variações. Um deles, "The Naked City", deu origem a uma série televisiva muito famosa; o diferencial é que a estrela é a cidade de Nova York: a narração da introdução já avisa que, diferentemente do padrão, o filme foi todo feito em locações _e funciona muito bem como documento da vida na metrópole (por outro lado, nenhuma personagem é explorada mais profundamente, embora o típico irlandês Barry Fitzgerald se destaque). Há muitas cenas sem som direto e com narração, o que causa certa estranheza. A seqüência final, o epílogo do filme, é excelente, mostrando o que unia aquele punhado de pessoas que acompanhamos durante 95 minutos, numa cidade de 8 milhões de habitantes. Do mesmo diretor, Jules Dassin (americano, apesar do nome e de ter ficado mais famoso após ir para a Europa, onde trabalhou principalmente na França e na Grécia), com roteiro de Richard Brooks, "Brute Force" é um filme de cadeia (de certa forma precursor do muito superior "Le Trou", do grande Jacques Becker) estrelado por Burt Lancaster e um marcante Hume Cronyn como o policial sádico, com uma estrutura bem interessante, mas hoje bastante envelhecido. A música de Miklós Rózsa é excelente, mas não muito bem usada. Também meio envelhecido (lembrando que um filme não é necessariamente velho porque foi feito há 60 anos) é "Kiss of Death", escrito por Ben Hecht e Charles Lederer e dirigido por Henry Hathaway, cujo destaque é a estréia de Richard Widmark num papel inesquecível, o do psicopata Tommy Udo, que comete um dos assassinatos mais horrorosos e revoltantes que já vi no cinema (retratado com uma sutileza arrebatadora _aqui, substantivo e adjetivo combinam). Uma pena que uma cena de estupro e outra de suicído foram cortadas pela censura.

    No capítulo dedicado a "amores em meio a rajadas de balas", que inspirariam filmes como "Bonnie and Clyde" e "Boxcar Bertha", temos "The Big Steal", de Don Siegel, marcando o reencontro de Robert Mitchum e Jane Greer. O roteiro é um fiapo (justamente o que impede que o filme alcance o nível de um "Out of the Past"); o destaque mesmo está na ação, brilhante e empolgantemente conduzida pelo diretor e encenada pelo elenco. De resto, o título engana _não se trata de um "filme de assalto", mas de perseguição. "Deadly Is the Female", também conhecido como "Gun Crazy", é dirigido por um diretor de quem gosto especialmente, Joseph H. Lewis, mas deixou um pouco a desejar; já tinha visto alguns trechos muito famosos (como o assalto ao banco sem que a câmera saia do carro _o início também é sensacional), o que colaborou com a pequena decepção. E ainda temos "They Live By Night", a estréia de Nicholas Ray como diretor, com um romance bem mais doce do que o do filme do Lewis; não é nenhum "In a Lonely Place", mas também é muito bonito; Cathy O'Donnell está excelente (curioso: a dupla de assassinos de "Festim Diabólico" estrela estes dois filmes: Farley Granger neste e John Dall no de Lewis).

    E já que falamos no Hitch, dois de seus filmes traíram minhas expectativas: por causa do tema (os relativos à moral e à fé me são caros, pela magnitude do conflito), eu achava que "I Confess" seria um grande filme, ainda mais por ser estrelado por Montgomery Clift; não é desprovido de interesse, e talvez o diretor tenha exagerado quando disse que "não deveria ter sido feito" a Truffaut, mas é um filme pouco marcante. De "Stage Fright" eu gostei muito, contrariando o diretor (que via como um de seus problemas a fraqueza dos vilões); a recém-falecida Jane Wyman está ótima (embora o diretor tenha reclamado bastante dela _mas Hitch vivia reclamando de seus elencos), mas é claro que Dietrich (a quem também vi em "The Devil Is a Woman", do Sternberg _mas eu prefiro "Desonrada", que também traz cenas em bailes de Carnaval) rouba todas as cenas em que aparece. E vi um filme de Robert Siodmak que poderia ter sido dirigido por Hitchcock: "Phantom Lady", um filme "Z", baratíssimo, sem atores conhecidos (só reconheci Aurora Miranda e Elisha Cook Jr., excelente como um baterista de jazz mulherengo), deu numa obra-prima, com uma premissa apaixonante. Valeu também por me apresentar a Ella Raines, linda e excelente; infelizmente, sua carreira não decolou. De quebra, revi "Monsieur Verdoux", que pode parecer atípico por vários motivos, mas que me soa bastante coerente com a obra sonora de Chaplin _Welles reclamava que só ganhou o crédito pela idéia (não fica claro se ele escreveu um tratamento do roteiro ou não) após o filme ter sido um fracasso de bilheteria e crítica.

    ***

    Ainda nos anos 40, passei por outra grande comédia de Lubitsch, "To Be or Not To Be": feito no ápice da Segunda Guerra, o diretor (berlinense, que já havia encarado as conseqüências da Primeira Guerra no melodrama "Broken Lullaby", de 1932) ridiculariza Hitler e o nazismo (dois anos depois de Chaplin), numa história que se desenrola em Varsóvia; é impressionante como ele consegue arrancar risadas de uma situação tão tensa _mas, à primeira vista, me pareceu um de seus filmes com menor carga erótica, apesar de Carole Lombard (morta num acidente de avião antes de o filme ser lançado _ou seja, foi o seu último) estar muito bonita (Jack Benny é o responsável por grande parte da comicidade). Do outro lado, ouvi o título do filme ser dito por Olivier em "Hamlet", seu segundo filme como diretor (o primeiro não-americano a ganhar o Oscar de melhor filme). Compreensivelmente, fica refém do texto (embora seja uma versão reduzida, de "apenas" 2h30, e com mudanças sutis para deixá-lo mais moderninho), embora a mise-en-scène (com a câmera em constante movimento e cortes disfarçados, criando uma bela fluidez temporal _bastante condizente com o texto de Shakespeare, aliás; não é à toa que, em "A Volta do Regresso", um dos poucos planos com movimento de câmera ocorre justamente quando Carlo Mossy encarna um híbrido de Rei Lear, Rei Momo e Scarlett O'Hara) contenha muita coisa interessante. Gosto muito da música e da Jean Simmons, adolescente, como Ofélia.

    Outra comédia interessante é "Adam's Rib", de George Cukor: mezzo comédia romântica mezzo drama de tribunal, baseia-se na idéia da igualdade entre os sexos (chamá-lo de feminista me parece inexato), tema que não envelheceu nem um pouco, embora a sociedade tenha mudado bastante nestas últimas décadas. O casal protagonista, Spencer Tracy e Katherine Hepburn, é fabuloso (especialmente nos improvisos cômicos do filme caseiro dentro do filme); o texto é esperto e há uma canção de Cole Porter como cereja do bolo. E há um plano impressionante, longuíssimo, com câmera fixa, totalmente segurado pelo diálogo e por Hepburn e Judy Holliday (que veio do teatro, fez pouco cinema e morreu jovem, de câncer de mama). Cole Porter, em companhia do diretor Vincente Minnelli e do co-coreógrafo e "leading man" Gene Kelly, não está em seus melhores dias em "The Pirate", romance musical ambientado no Caribe. As atenções vão todas para Judy Garland _mesmo ótima, não impediu que o filme tenha sido um fracasso de bilheteria. A montagem é bem estranha, e os cenários têm aquela cara de estúdio... E em "Diário de uma Camareira" de 1964, Burgess Meredith (o Pingüim da série do Batman e o treinador Mickey dos três primeiros "Rocky" _Cesar Romero, o Coringa, está no filme de Sternberg com Dietrich que comentei acima) produz, assina o roteiro e atua sob a direção de Jean Renoir, que adapta uma peça francesa que deu num dos meus filmes preferidos de Luís Buñuel, quase 20 a nos depois. Estrelada por uma Paulette Godard loira (bem diferente do que nos filmes de Chaplin), o filme do francês trabalhando nos EUA é muito mais leve e convencional do que o do espanhol na França.

    No período, também dei atenção a três trabalhos dos fabulosos arqueiros Michael Powell e Emeric Pressburger: "The Red Shoes"cai na revisão, mas ainda emociona ao final e impressiona com a seqüência do balé (quase 20 minutos que demoraram 6 semanas para serem produzidos); a paixão pela arte é sempre um tema que fala comigo. "I Know Where I'm Going!" é o primeiro filme delwa totalmente em preto-e-branco que vejo _curiosamente, dizem que o diretor de fotografia fez o filme inteiro (em estúdio, onde o protagonista de Roger Livesey, substituindo James Mason, filmou o tempo todo, mesmo com grande parte do filme se passando em locações na Escócia) sem usar um fotômetro. A história é tremendamente previsível; o diferencial mesmo é o senso de humor e de liberdade que são característicos de alguns filmes da dupla ("The Red Shoes" parece exceção); há inventividade e criatividade de sobra, como distribuição de vários elementos teoricamente inconciliáveis num mesmo plano, derrubando o naturalismo. E em "The Life and Death of Colonel Blimp", a escocesa Deborah Kerr, em começo de carreira, interpreta três personagens diferentes num épico em cores com quase três horas de duração; mas a estrela é, novamente, Roger Livesey (grande ator, mas que aparentemente só pegava os papéis porque a primeira opção _neste caso, Laurence Olivier_ não podia ou não queria fazê-los), em impressionantes caracterizações (acompanhamos seu personagem por mais de 40 anos). É um filme de esforço de guerra _mas que irritou Churchill, porque a personagem de Anton Wallbrook é um militar alemão simpático; o político teria impedido Olivier de estrelá-lo e tentado banir o filme_, mas ele transcende este aspecto (como fazem outros clássicos do período, como "Os 47 Ronin"). E assim como em "I Know Where I'm Going!", a dupla de cockers spaniels de Powell faz uma ponta... E já que o assunto é guerra, vale encaixar "Sands of Iwo Jima", que eu estava enrolando para ver desde o início do ano, quando os filmes de Clint Eastwood foram lançados; feito no calor dos acontecimentos pelo veterano Allan Dwan (diretor de quase 400 filmes) e estrelado por John Wayne, com a participação do sobrevivente trio de soldados que hasteou a famosa bandeira (que também aparece no filme, emprestada pelo exército _lembra Ford usando as locomotivas reais e histórias em "The Iron Horse"), é obviamente uma patriotada bastante romantizada _inclusive com direito a parzinho romântico (não na guerra, é claro); perde muito por justamente não investir em cenas de combate.

    E, como já é praxe, não poderia deixar de lado os dramas familiares de meu amigo Yasujiro Ozu: fui resgatar "Conto das Folhas Flutuantes", de 1934 (mudo, portanto), que aborda a paternidade, o orgulho e a premente necessidade de ganhar a vida numa sociedade com papéis sociais extremamente definidos _por exemplo, ser ator não é considerado uma atividade "digna". Os enquadramentos são magistrais, mas achei um filme meio frio, comparado a outros do diretor. Já num filme de 1948 que não tem título em português (a tradução seria algo como "Uma Fêmea de Ave ao Vento"), o diferencial (negativo, creio) é a menor sutileza no clímax (que contém a cena mais violenta que vi em seus filmes); curiosamente, o conflito, ditado pela moral, pela política e pela economia (mais uma vez, o diretor fala do universal por meio do particular, praticamente sem ação em externas), é exposto de maneira imensamente sutil. Bom, mas aquém do seu melhor.

    ***

    Misturando a linha do tempo: de 1921, vi "A Carroça Fantasma", de Sjöstrom, um conto moral e sobrenatural (bem à moda da época) que lembra bastante o clássico de Dickens sobre o velho Scrooge, que inspirou o Tio Patinhas. Engraçado que uma das mais famosas cenas da carreira do Kubrick, Nicholson arrebentando uma porta a machadadas para chegar à mulher e ao filho, foi praticamente copiada deste filme, como uma óbvia homenagem. Pulando para os anos 60, outra adaptação literária (que Kubrick filmaria 6 anos depois), mas quase irreconhecível: em "Vinyl", Andy Warhol adapta "Laranja Mecânica" quase que em um plano só, em enquadramentos bem esdrúxulos; o enredo é resumido a quase nada; a trilha sonora é ótima, mas o filme dá um sono...

    Anos 70: curioso que uma sessão do Videobrasil, festival de "arte eletrônica", seja composta justamente de três filmes feitos e projetados (muito mal, com som e foco sofríveis, no superestimado Cinesesc) em 16mm... O primeiro, "Water Wrackets" (1975), é uma picaretagem da grossa: imagens de rios e lagos sob uma narração sobre eventos num futuro distante. O segundo, "Dear Phone" (1977), é o melhor, por ter, pelo menos, senso de humor. O terceiro, "A Walk Through H: The Reincarnation of an Ornithologist (1978)", segue caminho parecido, mas mostra 92 pinturas de Greenaway ("mapas") e imagens de pássaros. Completando a sessão, antes vi, no Sesc Paulista, uma exposição com 92 malas de seu personagem Tulse Luper _esta fixação de Greenaway com o 92 é por ele se tratar do número atômico do urânio, compreensível que o diretor tenha tal preocupação devido à sua geração. Acho que não dou muita sorte com Greenaway, não vi seus filmes mais elogiados...

    Menos chato foi conferir "Macumba Sexual", um dos 13 (!!!) filmes que Jesus Franco (assinando como Jess Franco) fez em 1983. É um interessante exercício de mistura de sonho e realidade, com apenas um fiapo de história: Franco prefere criar climas com a trilha sonora, as paisagens do deserto (e algumas construções arquitetônicas bem interessantes e exóticas) e com os corpos nus do elenco _com Lina Romay (também assistente de direção, sob pseudônimo, e mulher do diretor) à frente (e de costas e de tudo quanto é lado). Há um plano fabuloso: vemos na areia dois objetos que parecem lápides; de repente, uma mão gigantesca invade a tela e as pega (na verdade, eram pequenas estatuetas!).

    ***

    De volta a este estranho ano de 2007: "Cartola: Música para os Olhos" é um bom documentário (de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda _este último esteve na sessão para debate e foi muito simpático) não apenas sobre o querido sambista, mas sobre o século XX. Vasto e rico material de arquivo garante sim informações mais do que suficientes para a biografia _a forma não briga com o conteúdo, diferentemente do que muita gente disse. E a primeira metade de "The Simpsons Movie", de David Silverman, é excelente; a segunda cai bastante, mas não deixa de ser boa. Os Simpsons ainda não envelheceram totalmente, mas não causam o frisson de antes justamente porque eles mudaram muita coisa e abriram espaço para as séries animadas politicamente incorretas, como "Beavis and Butt-Head", "South Park" e "Family Guy", entre outras. Mas não deixa de ser admirável a série estar no ar há quase 20 anos.

    Deste ano também é a série "The Tudors", que acabou de estrear aqui na TV a cabo: o que impressiona mais não é a razoável riqueza da reconstituição de época (historicamente, com certeza há muitos furos, mas estão lá Henrique VIII, Thomas Morus, Catarina de Aragão, Ana Bolena e outras figuras manjadas), mas o alto nível de erotismo (muito, mas muito sexo mesmo, para os padrões televisivos _e "Roma", que estou vendo no momento, é ainda mais ousada). Um episódio em especial, o da peste, me deu mais sustos do que todos os filmes de terror que vi nos últimos dez anos; era impressionante, um atrás do outro, mal dava para recuperar o fôlego e acalmar os batimentos cardíacos. Já a outra série vista neste ínterim, "Taken" (aparentemente produzida por Steven Spielberg como aquecimento para "Guerra dos Mundos" _Dakota Fanning está lá), sobre três gerações de três famílias (é meio confuso, mesmo) envolvidas com extraterrestres. É bem a cara do Spielba _bem, do pior dele: musiquinha vagabunda criando um climinha, câmeras rodando à toa em torno das personagens, textos boboquinhas na voz de uma criança, um chororô da mulherada... Fica mais divertido a partir do segundo episódio, mas a conclusão é meio broxante.

    ***

    É claro que estou esquecendo muita coisa, mas pelo menos quero registrar aqui os meus parabéns pelo primeiro aniversário da Zingu!, que traz uma entrevista com o inigualável Sady Baby (também recomendo o belíssimo texto de Andrea Ormond, embora a edição toda mereça ser lida), e de recomendar o disco "Carnival Nights", do Black Barn Music, projeto do talentoso André ZP. Outra coisa: fantástico o debate ocorrido na Cinética a respeito de um curta-metragem brasileiro e recente; seria maravilhoso se iniciativas como esta (um grupo de críticos debatendo com um cineasta) se repetissem com mais freqüência. Eu adoraria que "A Volta do Regresso" ou qualquer outro meu passasse pelo mesmo escrutínio.

    terça-feira, agosto 21, 2007

    Pronto. Agora que acabou o preparo de projeto para o Prêmio Estímulo (um longa que sofri para encurtar, foi o jeito), dá para voltar a rascunhar por aqui.

    Os últimos dias também foram dedicados a mixar o som e montar o copião de "A Volta do Regresso". Acho que realmente só vou entender melhor meus sentimentos em relação a este filme depois das primeiras exibições públicas; muita coisa me deixa insatisfeito (claro que estou falando das funções desempenhadas por mim), mas me peguei sorrindo algumas vezes, enquanto o via e revia, durante a mixagem. Engraçado que as duas pessoas que acompanharam o processo riam sempre num mesmo ponto do filme (um plano com Ênio Gonçalves), do qual não me lembro de alguém ter rido antes... Comédia é algo bem misterioso, as reações dos espectadores sempre me surpreendem _percebo também que fico mais feliz com as simples risadas do que com as demonstrações de que o filme teve seu complexo subtexto compreendido (é um filme muito pouco pretensioso, mas que contém uma overdose de informação) ou foi analisado de forma bem-sucedida.

    Ele também me veio à mente ao ler este texto de Filipe Furtado para a "Paisà", em especial quando ele fala em "cinema engasgado"; isto porque eu mesmo, numa tentativa de definir "A Volta do Regresso", saí com "cinema sufocado" (outra coisa que fica evidente é como o fato de ter trabalhado em película engessou o filme, porque não pude filmar todos os planos que queria nem repetir muitos takes e muito menos fazer qualquer trucagem, por causa dos custos; película ainda é imbatível como suporte de exibição, mas nunca mais quero usá-la na gravação). Parecem conceitos semelhantes, mas os filmes são muito diferentes (aliás, meu texto passado deve ter dado a entender que gostei menos de "Conceição - Autor Bom É Autor Morto" do que ocorreu na realidade; apesar de as referências citadas em outro artigo terem todas mais de 30 anos, o filme do quinteto não me parece velho _também não é novo; as inúmeras possibilidades de montagem são atraentes, porque há muitos filmes (alguns bem melhores que outros) ali dentro _tanto que gostei muito mais do trailer, o que geralmente parece ser coisa de quem desprezou o filme, o que está longe de ser o caso). Há algo de muito interessante nesta idéia de filme-rascunho, não-definitivo _mas, como a Ana salienta, ele também fica muito restrito a quem já estudou cinema.

    ***

    Mais de uma pessoa pediu para eu escrever alguma besteirinha sobre o Bergman. Vou tentar. Lá embaixo.

    Antes, eu quero citar mais comédias, como "As Três Faces de Eva", de Preston Sturges (que fazia aniversário no mesmo dia que eu). Não é meu preferido dele, mas há momentos inesquecíveis, como o pai da personagem de Henry Fonda desesperado para ser servido (parece uma criança grande) e o próprio Fonda tendo três ternos arruinados numa mesma seqüência. Comédia que não tem pudor de ser engraçada é uma delícia, pena que geralmente não são muito valorizadas.

    Bastante diferente é "Jour de Fête" _se não me engano, o primeiro longa de Jacques Tati; minha relação com os filmes deste parece um pouco com a que tenho com os de Antonioni (sobre quem não me pediram para escrever, se não me falha a memória; curiosamente, vi "Eros" poucos dias antes de ele morrer): de admiração, respeito e reconhecimento, mas de modo mais frio e intelectual. Tati é singular (dotado de um estilo reconhecido a quilômetros), rigoroso e brilhante (dirigiu menos de dez filmes e é lembrado praticamente por todos), mas obras como "O Professor Aloprado", do Jerry Lewis (que voltei a rever e é praticamente perfeito, com exceção da montagem que não me desce muito bem; por sinal, a diferença gritante de caracterização entre Julius Kelp e Buddy Love dá um banho naquela que a inspirou, a de Spencer Tracy como Jekyll/Hyde no remake da obra-prima do Mamoulian feito pelo Victor Fleming poucos anos depois _revi também "The Bellboy", estréia de Lewis na direção, o que o levou a inventar o video-assist; curiosamente, zapeando pela TV, caí num trecho daquele filme em que o Tim Roth é um mensageiro, e o Tarantino estava justamente falando sobre "The Bellboy", dizendo que, quando Lewis morresse, todo mundo ia dizer que ele era um gênio _há alguns anos, o "Fantástico" fez um auê sobre os problemas de saúde dele, querendo prever sua morte, e quebraram a cara. E finda aqui este enorme parêntese) me entusiasmam muito mais, epidermicamente. E "Jour de Fête" perde para "L'École des Facteurs", curta que tem trechos reaproveitados no longa.

    ***

    Uma pena que a eleição dos melhores filmes dos anos 50 para a Liga dos B. C. ocorra justamente agora, quando estou prestes a começar a passear pela mesma _minhas listas costumam caducar rapidamente, mas esta não vai durar nem um mês... Enquanto isto, na década anterior, foi inevitável passar por alguns exemplares do que se convencionou chamar de noir: "The Big Sleep", do Hawks (divertidíssimo e muito menos complicado do que eu pensava, embora o ritmo seja alucinante _e Martha Vickers, linda e morta precocemente sem ter feito muita coisa de destaque, rouba as cenas de Bacall), "Out of the Past", do Tourneur (bem diferente dos outros filmes dele que vi, com Jane Greer como uma das femme fatales mais perversas da história e Kirk Douglas em seu segundo filme) e "The Killers", do alemão Robert Siodmak (adaptação de Hemingway cuja seqüencia inicial é primorosa em termos de suspense e de narrativa cinematográfica, lembrando demais "Marcas da Violência" do Cronenberg _pena que depois se torne mais cansativo), além de uma dobradinha de Abraham Polonsky, famosa vítima do mccarthismo, estrelada pelo também estigmatizado John Garfield: "Body and Soul" traz seu primeiro roteiro filmado (por Robert Rossen), e "Force of Evil" é sua estréia como diretor. Ambos são histórias morais sobre o capital: o primeiro no mundo do boxe, o segundo, do direito como acessório ao crime. Este último é especialmente interessante (a influência sobre "O Poderoso Chefão" é gritante), e Beatrice Pearson, no seu primeiro e penúltimo trabalho no cinema (dedicou-se ao teatro), está maravilhosa, belíssima.

    "Mildred Pierce", do Curtiz, e "Leave Her to Heaven", do Stahl, se são noirs (o último é em Technicolor), são atípicos; o último até que começa docemente, mas o terror chega em meio a uma natureza exuberante fotografada de modo idem. Exuberante também é "A Matter of Life and Death", obra-prima de Powell e Pressburger: tive a impressão de que durava três horas, não por ser ruim, mas por ser tão épico e grandioso (começando com a Terra vista do espaço _mais de dez anos antes de Gagarin, ela era verde!)... Os efeitos visuais são maravilhosos, a alternância entre o preto-e-branco e o Technicolor funciona belissimamente, e o senso de humor transborda inteligência. É uma delícia de filme, uma história contada de uma forma que só o cinema poderia fazer _só não sei porque Kim Hunter filmava tanto: não a acho bonita, e suas atuações não costumam me impressionar _também a vi em "When Strangers Marry", de William Castle _Robert Mitchum era outro que estava com força total; além deste e do filme do Tourneur, também o vi em "Pursued", western do Raoul Walsh).

    Singulares também são "Odd Man Out", do Carol Reed, com James Mason no papel que ele dizia ser seu favorito, um famoso terrorista norte-irlandês (claro que o catolicismo permeia a história, e o final folhetinesco é poderoso), "Portrait of Jennie" (de outro alemão, William Dieterle), com Joseph Cotten (cujo personagem se parece um pouco comigo no que diz sentido à dedicação à arte) e Jennifer Jones (de "Duelo ao Sol") num romance (uma espécie de precursor de "Em Algum Lugar do Passado" e "Ghost") com um prólogo estranhíssimo (com um discurso sobre fé e quetais _lembra um pouco os filmes do Zé do Caixão, quando ele pergunta "o que é a morte?") e uma curiosa mistura de trechos em cores e em preto-e-branco (sendo que duas seqüências climáticas são naquele "preto-e-branco tingido" que se usava no período silencioso), e "Dreams That Money Can Buy", de Hans Richter, que até parece um roteiro de Charlie Kaufman filmado por David Lynch: homem (simplesmente chamado "Joe") descobre que tem o poder de vender sonhos para as pessoas; ao atender alguns clientes, temos uma série de sete esquetes, inspiradas por artistas de vanguarda, como Man Ray, Alexander Calder, Marcel Duchamp, Max Ernst, Fernand Leger e John Cage. O resultado é irregular e um tanto cansativo, mas pelo menos um deles, chamado de "A Garota do Coração Pré-Fabricado" (estrelado por manequins animados com uma canção sensacional), é excelente.

    Também voltei a John Ford, com "The Fugitive", adaptação de um grande romance de Graham Greene, "O Poder e a Glória"; o filme se parece muito mais com os melodramas de Emilio Fernandez (que é produtor associado e faz uma ponta), e não é à toa que a turma deste (Armendáriz, Dolores del Rio e Gabriel Figueiroa como fotógrafo) está toda lá; para contrabalançar, dois clássicos atores de Ford, Henry Fonda e Ward Bond. Há momentos belíssimos (como a primeira entrada de Fonda numa igreja), mas não o considerei um dos melhores do diretor _de quem também vi "Bucking Broadway", de 1917, estrelado por Harry Carey, o precursor de John Wayne (claro que não é da estirpe de "The Iron Horse", mas não é nada ruim e vale como documento histórico). Ainda no western, revi "Yellow Sky" (tinha visto na Cultura há anos), do Wellman.

    E não posso deixar de registrar outra revisão, a de "Begone Dull Care", clássico hipnotizante e divertido do escocês/canadense Norman McLaren, com trilha de Oscar Peterson Trio. Ainda fora dos EUA, vi pela primeira vez uma ficção do Clouzot (de quem só conhecia o filme sobre Picasso), "Quais des Orfrèves", que não me parece merecer a fama de "Hitchcock francês" (há quem diga o mesmo do Chabrol); começa prometendo muito (chega a lembrar o "Luci dei Varietà" de Fellini e Lattuada, mas é melhor), mas justamente quando aparece a trama de assassinato, o filme cai bastante (embora alguns detalhes, como o filho mestiço do policial e os sentimentos contraditórios da amiga do casal protagonista _interpretada por Simone Renant, belíssima_ permaneçam sendo muito interessantes). No Japão, passei por dois Mizoguchi, "Conto dos Crisântemos Tardios" (este é de 1939) e "Utamaro..."; o primeiro é um melodrama longo e folhetinesco; o segundo, melhor, incrivelmente transita entre a pornochanchada e a tragédia shakespeareana; no centro de tudo, a necessidade de criar aliada à paixão pelo sexo oposto (de novo, eu me reconheço). E quem não foi à Sessão do Comodoro ver "Rito de Amor e de Morte", único filme de Yukio Mishima estrelado pelo próprio, não sabe o que perdeu...

    Um epílogo: ter visto "Germania Anno Zero", do meu amigo Rossellini, me levou a rever "O Pianista", do Polanski; tinha gostado deste último no cinema, mas a revisão me mostrou um filme bem fraco, repleto de diálogos explicativos, personagens estereotipadas e vontade de imitar o Spielberg (sem chegar lá)... Em alguns momentos, Polanski se esforça para criar uns enquadramentos bonitos (com os atores dispostos no quadro à Orson Welles), mas são momentos raros; entretanto, a imagem de Varsóvia destruída ainda é forte. Do polonês estuprador também revi "The Fearless Vampire Killers", também fraquíssimo e sem graça; compensa pela fotografia, direção de arte, trilha do Komeda e por Jack MacGowran, Fiona Lewis, Sharon Tate (e os generosos decotes destas duas).

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    Chegando à atualidade: vi em DVD "Estamira" (longo, monótono e redundante, prejudicado por uma trilha sonora excruciante e um preto-e-branco "cosmética-do-lixo"), "Amor em Cinco Tempos" (frio, distante, com mania de esvaziar o drama), "A Criança" (nem inovador nem rigoroso nem impressionante nem belo nem ousado. Para um brasileiro como eu, é até ridículo o retrato dos criminosos belgas: as ruas, as moradias _mesmo o albergue para desabrigados e a prisão, que tem máquina de café e tudo_, tudo é muito limpinho e pouco perigoso).

    Nos EUA, fui de "300" (no qual destaca-se a beleza plástica de alguns planos bem específicos _o que mostra o destino do rei Leônidas é praticamente uma pintura; o ritmo é péssimo, prejudicado por mau uso de câmera lenta que estraga as cenas de ação; não sei porque reclamaram tanto do Gerard Butler, achei que ele está bom como protagonista _em especial, quando seu Leônidas demonstra senso de humor; Rodrigo Santoro está muito bem como Xerxes, mas poderiam ter chamado a Ru Paul para o papel), "O Grande Truque" (meio previsível e caretão; Bowie está bem como Tesla) e "The Fountain". Este, primeiro que vejo do Aronofsky, foi chamado por muita gente de "pior filme já feito"; talvez o aviso tenha me levado a não chegar a tal ponto: o roteiro é realmente confuso, direção, fotografia (com a maldita mania de travellings em subjetivas de gente parada) e montagem são pouco econômicas/inteligentes, direção de arte brega (embora seja interessante a idéia de fazer fotomontagens com imagens microscópicas, não geradas por computador), e a trilha sonora é chata. Cheguei a dar gargalhadas com as primeiras imagens de "orientalismo de butique" (um cara parecido com um monge fazendo tai chi entre as estrelas?). A grande qualidade mesmo é o elenco _em especial, Rachel Weisz, grande atriz que aparentemente teve o mau gosto de se casar com o diretor. Mas há uma carga de emoção sincera neste filme, infelizmente ofuscada pela pretensão da coisa toda (imagino que teria sido pior se a versão original, duas vezes mais cara e estrelada por Brad Pitt _que brigou com o diretor e se demitiu, causando a interrupção da produção_ e Cate Blanchett, tivesse rolado). Ah, também vi "The Prairie Home Companion", réquiem bem adequado do Altman (não é o melhor dele; aquela câmera que não pára irrita...). Falando em réquiem... não, o Bergman fica mais pra baixo.

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    Vai chegando o fim do ano, e de repente os festivais começam a bombar (as estatais deixam pra gastar mais nesta época?): bati ponto no festival latino (prejudicado imensamente pela friaca maldita que flagelou São Paulo), onde vi dois belos filmes: "Etnocidio, Notas sobre el Mezquital" (1977), do homenageado Paul Leduc (com imagens impressionantes, como a dos operários descendo dos prédios ou saindo da mina; trinta anos depois, vemos as conseqüências das injustiças apontadas ali), e "El Castillo de la Pureza", de Arturo Ripstein, que, além do excelente enredo, traz o primeiro papel importante da Diana Bracho (filha do Julio Bracho, prolífico diretor), deliciosamente pelada aos 18 aninhos. A tranqueira do festival foi justamente o filme de abertura, "As Leis de Família", do Daniel Burman (outro que faz aniversário no mesmo dia que eu), presente na sessão e muito simpático; muitos críticos elogiaram, mas me parece coisa de gente deslumbrada com a Argentina: o protagonista é um dos menos empáticos que já vi, esvazia todos os conflitos e, apesar de bastante coisa acontecer, dá a impressão de que nada aconteceu.

    Fui também ao segundo festival de hip hop (não tinha ouvido falar do primeiro), mas infelizmente não vi nada que merecesse destaque. No festival de cinema silencioso, infelizmente perdi a sessão de "Caligari" com a Patife Band, mas vi o alemão "A Flor do Pântano" (1913), drama competente de Viggo Larsen, com acompanhamento ao vivo _nesta sessão conheci a nova e bela sala da Cinemateca, espaço que finalmente começa a se revitalizar (infelizmente, continua sendo de difícil acesso). No Olido, que andava paradão, fui ver a palestra da Sheila Schvarzman sobre Umberto Mauro no festival dedicado ao mesmo, e de quebra vi o belo "Um Apólogo" (1939), que antes de adaptar a famosa fábula de Machado de Assis, traz um minidocumentário sobre o escritor (basicamente, a voz de Roquete Pinto sobre imagens externas do Rio ou meramente ilustrativas do texto, como exemplares de obras do escritor ou sua estátua no prédio da ABL). A coisa melhora muito quando entramos na ficção em si: em poucos minutos, Mauro cria com beleza um mundo particular, no qual agulha, linha e alfinete se transformam em atores e encenam o texto, num cenário que representa convincentemente o interior de uma caixinha de costura.

    E também está ocorrendo o festival de curtas, que me parece melhor do que nos anos anteriores: até o momento, o destaque é "Psicose de Valter", de Eduardo Kishimoto (um belo plano-seqüência na Augusta guiado por um diálogo do pornógrafo/professor de filosofia num quarto de puteiro que termina num boteco/sinuca com uma aula sobre Kant e um zarolho entoando "Cavalgada" belissimamente; de chorar de tão bom, deu até inveja positiva); o londrinense "Satori Uso", hypado por aí, não me agradou tanto (é rigoroso enquanto imagem, mas derrapa ao não definir com precisão o que são haikais _bem, é "chatice" de virginiano). E a sessão dedicada ao gigantesco Osamu Tezuka é imperdível: traz filmes (duas produções curtas dos anos 80 e um média de 1966) muito diferentes dos mangás ou dos animes de Tezuka para a TV _e também diferentes entre si! "Filme Quebrado" usa de ironia e metalinguagem, num traço e temáticas no estilo norte-americano (lembra Tex Avery); "Saltar" é simplesmente uma pequena obra-prima, merecia status de clássico; e "Quadros de uma Exposição" é justamente uma adaptação da peça de Mussorgsky, uma aglomeração brilhante e bem-humorada de vários estilos extremamante diversos em uma crítica à contemporaneidade (dos Beatles ao Vietnã, passando pelas cirurgias plásticas, a censura, a TV) transbordante de ironia. Atualmente estou lendo a série "Adolf", publicada aqui pela Conrad em cinco livros; recomendo.

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    Chegamos às séries: vi a segunda temporada de "24 Horas", que diferentemente da (muito superior) primeira, que desde o primeiro episódio te deixava fisgado, só começa a ficar emocionante a partir de seu segundo terço. A suspensão de descrença que me perdoe, mas causa estranheza as personagens passarem pelas 24 horas sem demonstrar muito cansaço ou mesmo fome _o que talvez cause menos tensão. Outro problemão foi o final: diferentemente da primeira, não "fecha" _até aí, tudo bem; o problema é que, vendo as cenas cortadas nos extras do DVD, eles eliminaram justamente o melhor e mais impressionante gancho, sem deixar claro o destino de uma personagem capital (e, de quebra, perderam um plano final primoroso). De resto, Jack Bauer continua bad motherfucker (e assassina e tortura sem dó, o espírito "Guantánamo" permeia toda a série), e a Elisha Cuthbert, uma delícia. A grande surpresa é a personagem George Mason (interpretada por Xander Berkeley, na vida real marido da Sarah Clarke, que faz a Nina Myers), sempre mostrada sob um viés negativo, que se consagra como grande herói, no clímax (bastante antecipado) deste ciclo. Tirando isto, o roteiro, coalhado de conflitos em velocidade alta e constante, até que funciona, apesar do final meio broxante.

    Vi também a primeira temporada de "The Practice", que deu origem à elogiada "Boston Legal" (que ainda não vi _mas não tem como ser ruim, se traz o William Shatner num papel cômico, e ainda por cima, como advogado). É boazinha; o destaque mesmo é Lara Flynn Boyle (a trilha sonora dos créditos também é ótima).

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    A primeira vez que vi um filme do Bergman foi num lugar bizarro: o banco Real da Paulista! Era uma mostra de clássicos europeus (passou também "O Anjo Exterminador" e outros, que não pude acompanhar _eu era estudante paupérrimo e morava em São Bernardo, fui à sessão depois do trampo como estagiário num lugar onde quem mandava hoje é ministro _foi ali que dei a idéia de o então nascente "Sou da Paz" se dedicar ao desarmamento, mas esta é uma outra história), e o escolhido do sueco foi "Persona", que vi bebendo um vinho que, pra variar, me causou uma baita dor de estômago. Nunca revi o filme, mas as imagens daquele prólogo me encantam até hoje, assim como a repetição daquele plano/contraplano, as confissões eróticas das "mulheres que pecam" (segundo o título brasileiro babaca) e a beleza da Liv Ullman. Outro impacto foi causado anos depois, por aquele vermelho de "Gritos e Sussurros", quando reestreou nos cinemas, e por uma seqüência específica de "Morangos Silvestres", a do sonho fúnebre e meio kafkiano de Sjöstrom. "A Fonte da Donzela" e "Cenas de um Casamento" (recomendado a mim por Hector Babenco, mas esta também é uma outra história) também são outros preferidos, no momento (de seus aproximadamente 60 filmes, vi cerca de uma dúzia, muito pouco). Já "O Sétimo Selo", considerado por muitos seu melhor, sempre me deixou um pouquinho decepcionado. Não deixo de reconhecer a qualidade de seu trabalho, mas a verdade é que ele não chega nem perto de entrar no meu panteão particular de ídolos. Então talvez valha a pena citar alguém que o tinha em bem mais alta conta: segue trecho de texto de Woody Allen publicado no "New York Times":

    "I’ve said it before to people who have a romanticized view of the artist and hold creation sacred: In the end, your art doesn’t save you. (...) I have joked about art being the intellectual’s Catholicism, that is, a wishful belief in an afterlife. Better than to live on in the hearts and minds of the public is to live on in one’s apartment, is how I put it. And certainly Bergman’s movies will live on and will be viewed at museums and on TV and sold on DVDs, but knowing him, this was meager compensation, and I am sure he would have been only too glad to barter each one of his films for an additional year of life. (...) I learned from his example to try to turn out the best work I’m capable of at that given moment, never giving in to the foolish world of hits and flops or succumbing to playing the glitzy role of the film director, but making a movie and moving on to the next one. Bergman made about 60 films in his lifetime, I have made 38. At least if I can’t rise to his quality maybe I can approach his quantity."

    P. S. Eu sempre carrego um livro de bolso comigo, antídoto para qualquer espera ou tempo perdido em condução; o problema é que estes livros são lidos apenas nestes momentos, ou seja, a leitura é em pílulas, e às vezes demoro meses para terminar um volume. Quando Kurt Vonnegut morreu, eu estava justamente lendo "Matadouro 5" (cuja adaptação cinematográfica eu comecei a ver no Telecine, mas desisti por motivo ignorado); a tradução é absolutamente lamentável, mas deu para entrever que ali está uma obra-prima.

    Na platéia