A gruta é mais extensa do que a gruta

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    sexta-feira, janeiro 31, 2003

    Sangue de Pantera

    “Você precisa de um homem pra chamar de seu, mesmo que esse homem seja eu.”

    Caray, o Erasmo é massa.

    Mas você já percebeu que está passando uma enxurrada (eu não devia usar esta palavra em janeiro, mas...) de filmes antigos em São Paulo? Parece que os exibidores se tocaram de que existe público (não muito grande, mas existe) para os clássicos... E já vou avisando: os próximos cinco filmes a serem cuspidos aqui foram feitos há pelo menos 25 anos... Sessão nostalgia is on the house.

    Então, antes de a lanchonética Vanessa e eu comermos o famoso (e escandalosamente caro, como quase tudo em São Paulo) bauru do Ponto Chic, fomos à sala Lima Barreto do Centro Cultural São Paulo assistir, “de grátis”, a “Sangue de Pantera”, filme que inspirou “A Marca da Pantera” (batizado no exterior de “O Beijo da Pantera”, título muito mais legal), com a ex-totosa Nastassja Kinski, filha do malucão Klaus Kinski.

    Confesso que não entendo bem porque esse filme virou cult. Lançado em 1942 pela RKO, “Cat People” traz diretor (Jacques Tourneur) e elenco (encabeçado por Simone Simon, que filmaria com o grande Robert Wise) razoavelmente desconhecidos. Trata-se de uma produção barata, embora não escancaradamente “B”, e de apenas 73 minutos de duração, ou seja, é quase um média-metragem. Mas dá para entreter, o que nos fez esquecer da péssima qualidade da cópia, do cheiro de mofo da sala (lotada, é bom dizer) e do pouco espaço entre as cadeiras.

    A história até que é simples: um americano se envolve com uma imigrante sérvia. A certo ponto da história a mocinha revela que descende de uma tribo cujas mulheres, segundo a lenda, se transformariam em panteras para assassinar seus maridos. Em vez de viúvas-negras, panteras negras, saca? Pronto, praticamente contei o filme inteiro. Mal aí.

    É que o filme é tosco mesmo. Mas também é simples e consegue contar a história sem usar efeitos especiais, abusando da estética “noir” em voga na época. E há alguns momentos primorosos de tensão, como a cena na piscina (belíssima e soturna fotografia) e a da saudação sinistra no restaurante...

    À medida em que o filme avança, Simone Simon consegue tornar-se tão apavorante quanto uma Lorena Bobbitt... Brr!! Caras que acreditam na história da vagina dentada (outra forma “poética” de expressão do pavor que certos homens sentem _mas não assumem, pois são mariquinhas_ das mulheres) e que não seguem o ensinamento máximo de Marcelo Nova (“Enquanto eu tiver língua e dedo, mulher nenhuma me mete medo”) terão pesadelos...

    Nota: 6,5/10

    P. S. Eu vi o Recife, e ele começava no oceano Atlântico.

    P. P. S. A pedidos do dono do meu único blog-filho, visitem. Mas não só.

    P. P. P. S. O macaco tá certo? Vi no no mínimo

    P. P. P. P. S. Recomendação da semana: este artigo de Celso Sabadin. Et c’est fini.

    segunda-feira, janeiro 27, 2003

    A Noite Americana

    Todo homem, no fundo, quer uma mulher que seja, ao mesmo tempo, mãe e puta. Ou seja: todo homem, no fundo (ou nem tão no fundo assim), é um filho da puta com um baita (eu não quis repetir a palavra "puta") complexo de Édipo.

    Mas deixemos a filosofia de boteco de lado por apenas um instante e falemos de uma obra-prima da tal sétima arte, ui, ui.

    O cinema francês carregou (ainda carrega) uma certa pecha de “chato”, “pretensioso”, “intelectual” etc. Muito disso pode ser atribuído ao biquinho que a língua francesa nos obriga a fazer para falar “merci beaucoup” e que nos deixa com cara de esnobes patetas, mas às vezes tenho a impressão de que também podemos apontar, de modo inclemente, o fura-bolo de nossa mão direita para o impacto cultural da “Nouvelle Vague” nas cinematografias de diversos países (Brasil incluso). Mas essas palavras entre aspas que eu coloquei na primeira frase deste parágrafo frufru não combinam com François Truffaut, n’est-ce pas?

    Quem assistiu àquela maravilha que é “Os Incompreendidos” _vi este filme há anos, uma cópia sem legendas no velho MIS, com o meu amigo chileno Mauro Ramirez, a quem sou eternamente grato por ter me ensinado a técnica da tampinha para a adequada preservação de bolachas _pode achar que eu estou contando história. Bem, eu avisei. De um jeito meio heterodoxo, reconheço, mas avisei.

    “A Noite Americana” (que assisti no Frei Caneca com meus amigos Maurício, Aggeu e Guilherme _que encontramos lá por acaso), de 1972, é um desses formidáveis filmes que enfocam os bastidores do cinema _neste caso, ao mostrar uma equipe trabalhando sob a batuta de um diretor interpretado pelo... próprio diretor, ou seja, Truffaut. Já recomendei aqui “O Jogador”, “Crepúsculo dos Deuses” e “Cantando na Chuva”, entre outros. Adicione esta beleza à sua lista, faça-se o favor.

    A obra não apenas desmascara algumas das trucagens (com um certo didatismo, mas sem um pingo de chatice) do ato de filmar (como o uso de espuma no lugar de neve, entre outras delícias), mas também proporciona estupendas histórias que ocorrem no e fora do set, com personagens exemplares, como a velha atriz que já conheceu dias mais gloriosos (um aceno a “Sunset Boulevard”?), um famoso ex-galã que ainda mantém um certo charme, o atorzinho que leva a namorada para trabalhar no filme, a triz que se descobre grávida bem no decorrer do trabalho... Não é o caso de entrar em detalhes, até porque eu poderia escrever um livro apenas sobre este filme... Veja por si mesmo, eu insisto.

    Também não posso deixar de destacar a presença sublime de Jacqueline Bisset, no auge da beleza. Dona de uma face que deixa a de Ana Paula Arósio no chinelo, ela está deslumbrante _e Truffaut, condizente com o papel de “o homem que amava as mulheres”, filma-a com um carinho extremo, como se fosse Fellini retratando Anita Ekberg ou Chaplin enfocando Paulette Godard. Mesmo que o filme fosse um lixo, só as cenas iluminadas por Bisset já lhe valeriam um lugar reservado na posteridade... Ai, ai.

    Outro bônus divertido que o filme oferece é uma espécie de “Onde Está Wally?” cinematográfico, que poderíamos chamar de “Onde Estão as Homenagens aos Grandes Cineastas?”. Por exemplo, uma placa de rua com o nome de Jean Vigo, referências a Chaplin e Welles nos sonhos do diretor, Godard, Bresson, Lubistch, Hitchcock e outros em capas de livros e etc. etc. etc.

    Também há outros insights magníficos, como o diretor pensando “sempre que começo um filme, pretendo fazer o meu melhor; lá pela metade do projeto, penso apenas em conseguir terminá-lo” ou, após a morte de um grande ator, “uma era do cinema chega ao fim; em pouco tempo, as pessoas filmarão nas ruas e sem roteiro” ou, ao ler o jornal, “’O Poderoso Chefão’ está em todas as salas? Só este filme dá dinheiro?”... E a frase final, então? Sensacional, fecha (ou melhor, deixa bem aberta) a obra com chave de ouro.

    Em suma, “A Noite Americana” (descubra o porquê do título vendo o filme, ora) é um brilhante “crossover” da vida com o cinema. É lindo. E tem uma trilha sonora exemplar, apesar de presente em breves intervenções. E é dedicado a Lilian e Dorothy Gish, grandes pioneiras do cinema norte-americano e atrizes de obras de D. W. Griffith. E... espera aí, ainda não acabei...

    Nota: 9,5/10

    P. S. Falando naquele país onde se faz muito boquinho e onde Jerry Lewis era rei, recomendo a leitura deste artigo de um dos melhores jornalistas com quem já trabalhei, o graaande Alcino Leite Neto (que, como bônus, traz a lista dos melhores filmes de 2002, segundo o “Cahiers du Cinéma” e a “Les Inrockuptibles” _revistas francófonas dirigidas a públicos bem diferentes, mas que publicaram listas com vários nomes em comum). Será que Votuporanga um dia será assim? (Menos, Marcelo, menos...)

    quarta-feira, janeiro 22, 2003

    Ônibus 174

    “Isso aqui não é filme de ação, não. Vocês não esquentaram a chapa lá em Vigário, lá na Candelária? Eu tava . Eu fiquei na 26. Pergunta pra tia Yvone.”

    Essas são apenas algumas das frases que as TVs captaram da boca de Sandro do Nascimento, que ficou mais conhecido como “o assassino do ônibus”. No Dia dos Namorados do ano 2000, o rapaz, aos 23 anos (“a mesma idade do Guga”, disseram os jornais à época), assaltou um ônibus, foi cercado e fez reféns. Graças a uma ação desastrada das autoridades, acabou matando uma jovem professora, em frente às câmeras de TV. Preso, foi asfixiado e morreu no camburão. No final do ano passado, os policiais acusados de o terem liqüidado foram absolvidos.

    O final da história, todo mundo já sabia. Faltava luz na trajetória do criminoso, faltava mostrar por que o rapaz chegou àquele extremo, o que o levou a fazer o que fez. O documentário “Ônibus 174”, dirigido por José Padilha (visto por mim e pela serelepe Vanessa na sala _pequena, assim como a tela_ 3 do Cineclube DirecTV, no dia 9 de dezembro passado), tenta mostrar o que muita gente prefere não ver.

    O trabalho de pesquisa no filme foi excelente. Parentes, amigos, meninos de rua, policiais, vítimas, um assaltante (que explica as manhas da profissão), um ex-secretário de segurança pública (que insiste numa tese da “invisibilidade social”), a assistente social que tentou ajudá-lo (a tal da “tia Yvone”), a “mãe” que ele adotou e com a qual morou e até um ex-professor de capoeira (!!!) de Sandro são ouvidos.

    Ficamos sabendo do grande trauma da sua vida, o assassinato da mãe, que ele teria presenciado, aos seis anos. Seus amigos, que o apelidavam de “Mancha”, o descrevem como um cara tímido, que usava drogas _em especial, cola e cocaína. Era um dos meninos que sobreviveu à infame chacina da Candelária. Passou pela Febem e pela cadeia _um carcereiro da 26ª D. P. do Rio mostra as celas e descreve o lugar de modo certeiro com apenas uma palavra: medieval. Nunca havia matado ninguém.

    Não pretendo bancar o advogado. Apenas quero sublinhar que filmes como este são importantíssimos, por motivos óbvios (ironia: vi este filme um dia após assistir ao “Blame in on Lisa”, o famigerado _e excelente_ episódio em que os Simpsons visitam o Brasil). E, além de pertinente, o filme, de 2h15min de duração, te prende na cadeira _os estrangeiros, que não conheciam o fato, acompanham o documentário como se fosse um thriller. Mas o ingresso já valeria a pena apenas pelo maravilhoso passeio que a câmera faz de helicóptero sobre a Cidade Maravilhosa, revelando as características únicas da geografia da capital carioca...

    Nota: 8,5/10

    P. S. Apesar de eu me interessar bastante por cinema, eu simplesmente não consigo encarar as premiações como uma Copa do Mundo. E daí que “Cidade de Deus”não ganhou a bosta do Globo de Ouro (não, não é aquele programa da Globo no qual o Kadu Moliterno apresentava nomes ilustres como RPM e Kiko Zambianchi)? E daí que não vai ganhar a merda do Oscar (não, não é o nosso cestinha malufista)? Esses prêmios servem apenas a propósitos marqueteiros e só interessam a quem investiu no filme. O povo, esse não ganha nada. Como sempre.

    P.P. S. Coldplay é uma bosta. (Desculpem a mudança brusca de assunto, mas eu precisava dizer isso.)

    sexta-feira, janeiro 17, 2003

    O Filho da Noiva

    Em 2002, dois grandes amigos meus (um deles meu primo Leonardo, irmão gêmeo do... Leandro _é sério) contraíram o casamento. Em 2003, pelo menos mais dois (embora, provavelmente, o número será maior) seguirão a mesma trilha.

    E no dia 6 de janeiro passado, meus pais comemoraram 30 anos de casados. É, bodas de pérola. Impressionante.

    Falando em casamento, “O Filho da Noiva”, mais um exemplar do cinema argentino atual (que, apesar da crise, ganhou destaque de uns tempos pra cá), obviamente toca no assunto, como o título indica.

    O filme, bastante deprê a princípio, conta a história de um homem (Ricardo Darín, que também atuou em “Nove Rainhas”) cheio de problemas: é divorciado, sua relação com a ex-mulher não é das melhores, portanto ele não consegue ver sua filha o tanto quanto gostaria; o restaurante do qual é proprietário atravessa maus momentos; sua mãe, que sofre do terrível mal de Alzheimer, vive em um asilo; ele também enfrenta problemas de saúde e com um amigo de infância, com seu pai e com a namorada etc. etc. etc.

    Mas a coisa, dirigida por Juan José Campanella e que foi indicada ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2002, não é tão ruim quanto parece. Não vou comentar o enredo em profundidade (e nem explicar o título) para não estragar as surpresas; o que interessa é que o filme é bonito (em certos trechos, emocionante) e merece ser visto.

    Mais interessante ainda é como a questão da crise econômica no país está sendo enfocada por sua produção cinematográfica. Filmes, mesmo os de ficção, são importantes documentos de época, e “O Filho da Noiva” tem tudo para se tornar um pequeno clássico regional.

    Ah, um dos personagens comenta que não vê filmes argentinos... Não parece coisa do cinema nacional?

    Nota: 7,5/10

    P. S. Falando em datas especiais, hoje é o aniversário da praieira Vanessa (cujo site está de endereço novo, atualizem), que viu este filme comigo numa sala cheirando a mofo do Cinearte e que já me contou que ganhou uma baratona de plástico e uma espiga de milho de pelúcia que toca “Dorme Filhinho do Coração”. Parabéns, baybeh.

    sexta-feira, janeiro 10, 2003

    A Missão

    Li em algum lugar, não faz muito tempo, que certos títulos para videogame já estão faturando mais do que filmes. Não é de estranhar, porque os jogos eletrônicos nunca foram mera coisa de criança.

    Tenho jogado videogame há quase vinte anos, desde a época em que o padrão Atari se popularizou. Mas esses cartuchos antigos, por serem extremamente simples e de produção barata, muitos criados por apenas um programador (o que permitia produções bem politicamente incorretas, como os jogos pornográficos da Mystique _que sempre vinham em duas versões, uma para homens e outras para mulheres, cool), não tinham nada a ver com “arte”.

    Com o desenvolvimento de consoles mais potentes, os videogames começaram a ser levados mais a sério _e a ser comparados com o cinema. Gráficos deslumbrantes, roteiros bem-elaborados e produtores que se tornam praticamente estrelas (o caso mais exemplar é o de Hironobu Sakaguchi, criador da série “Final Fantasy”, que, não por acaso, virou filme) ajudam a sustentar a idéia.

    Não sei se já comentei aqui, mas meu pai é dono, há pouco mais de dez anos, de uma pequena locadora de videogames. Portanto, involuntariamente, acabei acompanhando de perto o desenvolvimento desses jogos. Nestas férias, conferi alguns títulos do bem-sucedido Playstation 2, outra bola dentro da Sony. Jogos como o “Grand Theft Auto” (tanto o “III” quanto o “Vice City” _hilária sátira ao seriado policial oitentista e canastrão “Miami Vice”), o décimo episódio de “Final Fantasy” e, principalmente, o “Metal Gear Solid 2” são quase-filmes, mas com um grande bônus: o grau de interatividade é tamanho que uma jogada nunca é igual à outra. É como se você, ao jogar, completasse o staff dos criadores do produto. É legal pra cacete. E a coisa vai crescer muito mais, porque, mesmo com a pirataria galopante, a seara dos games está dando muito dinheiro. E olha que nem falei de “Everquest”, “Neverwinter Nights”, “Counter Strike” comendo solto em LAN houses etc.

    Agora vamos sair do presente e voltar ao passado. Vi “A Missão” na época em que ele foi lançado, em 1986 _eu era criança, mas já adorava história. E o revi há pouco tempo, para realizar uma pesquisa antropológica cultural _nada a ver com o tal “do-in antropológico” do nosso ministro Gegê.

    O filme, dirigido pelo britânico Roland Joffé, com trilha de Enio Morricone e alguns prêmios no currículo, é riquíssimo. Como o nome indica, enfoca o trabalho de jesuítas na América Latina (mais especificamente, onde hoje é o Paraguai), na época do tratado de Madri (que redefiniu as fronteiras entre as colônias espanholas e a portuguesa, vão estudar, vão).

    Um filme que pouco lembra o padrão Hollywood de “sucesso”, “A Missão” marca talvez a última grande interpretação de Robert De Niro _o cara, de uns anos pra cá, está que nem o Marlon Brando e o Al Pacino: mal interpreta, só exibe seus tiques nos filmes. Ele é um violento caçador de índios que, após assassinar o irmão (Aidan Quinn, um galãzinho da época, lembram?) por causa de, é óbvio, mulé, é corroído pelo remorso e torna-se um jesuíta na missão (preciso explicar o que é missão, o que é jesuíta, o que foi a Contra-Reforma etc.? Não, né?) liderada por Jeremy Irons.

    Além de todo o fundo histórico que a obra proporciona, ela também trata de questões muito legais, como o processo de aculturamento dos guaranis (filmes que mostram o outro lado da moeda e que são legais _e nacionais_, “Como Era Gostoso o Meu Francês” e “Hans Staden”, por exemplo, são recomendáveis), a relação entre Igreja e Estado e o ponto central da coisa toda: o dilema entre a cruz e a espada. O filme envereda por trilhas muito interessantes (prestem atenção no personagem de Liam Neeson, no papel da música, no soldado que hesita em atirar em índios tornados cristãos etc. _acima de tudo, deslumbrem-se com a emocionante cena em que De Niro se redime), confira. Tchau, curumins.

    Nota: 8/10

    domingo, janeiro 05, 2003

    Full Frontal

    Um domingo de novembro, 23h30, linha azul do metrô paulistano. Num dos bancos paralelos à parede do vagão, duas meninas lindíssimas entrelaçam os dedos das mãos. Olham-se nos olhos. Sorriem. Uma delas apoia a cabeça no ombro da outra. Não demora muito, começam a se beijar. De língua.

    A cena é bela, mas as outras mulheres daquele canto do vagão olham torto. Os homens, bando de punheteiros, babam e sorriem com malícia, provavelmente pensando em comer as duas _como se isso fosse mesmo rolar, coitados.

    Meia dúzia de adolescentes, góticos e barulhentos, entram no vagão pela porta do meio. Depois de observarem as amantes, duas das meninas de preto deitam-se no chão e começam a se roçar, gemendo e gargalhando alto, claramente tirando um sarro do jovem casal. Mas as pombinhas não se incomodam com as freqüentadoras de túmulos; riem bastante, divertidas. E se beijam, apaixonadamente, de novo.

    Algumas horas antes, Rodrigo, 12 anos, pele escura, vendedor de balas que pega seis ônibus diferentes por dia para trabalhar e que apanha da mãe se a jornada não for boa, vai ao cinema pela primeira vez na vida. Amigos meus tinham conhecido o garoto no dia anterior. Ele gosta de cantar. E canta bem, até.

    O filme é o segundo exemplar da série “Harry Potter”, que havia acabado de estrear. O garoto se deslumbra com a sala do Arteplex, as cadeiras, a tela, o som, a pipoca e o McLanche Feliz que ganhou. Depois da sessão, abraçou a todos nós. E foi embora na chuva. Não sabíamos, mas nos encontraríamos de novo.

    Só que eu não fui ver “Harry Potter”. Era dublado, e eu não vejo filmes dublados nem na TV (só quando eu tiver um bebê), quanto mais no cinema. A opção era ver, então, “Full Frontal”, novo filme de Steven Soderbergh, diretor do interessante (mas afetado) “sexo, mentiras e videotape”, de “Erin Brockovich” e de “Traffic”, entre outros (o próximo projeto dele é a refilmagem de “Solaris”, do diretor russo Andrei Tarkovsky _que, por sua vez, baseou-se no romance de Stanislaw Lem).

    Após conquistar uma posição confortável em Hollywood, dirigindo astros de “blockbusters” como Michael Douglas e George Clooney, o Soder resolveu voltar ao esquema independente, criticando de maneira ferrenha o próprio meio que lhe deu fama e dinheiro.

    Só o fato de megaestrelas como Julia Roberts e Brad Pitt não terem as mordomias de praxe (os atores não tinham os tradicionais trailers, além de bancarem sua condução até as locações e seus figurinos e maquiagens e adereços etc.) já é um troço legal pra cacete. E o de fazer estes mesmos atores atuarem em um filme dentro de um filme (e é aí que a ironia não muito fina come solta _parece que ele quis ser bem explícito, didático até), também. A seqüência em que Pitt e o “ator-ainda-desconhecido” filmam dezenas de tomadas de uma cena medícocre é engraçadíssima.

    Para contrapor a “vida real” do glamour de porcelana falsificada do cinema hollywoodiano, Soder nos mostra as cenas do “filme” com a fotografia e cenografia padrão dos produtos da grande indústria (o que é aquela peruca da Julia Roberts?), além de todos os clichês idiotas e idiotizantes que atolam essas pataquadas. Já a maior parte da obra é em digital podrão mesmo, com uma imagem ainda mais granulada do que a de “O Invasor”.

    Em resumo: o filme é beeem legal (mais complexo do que parece; não tenho como me alongar a respeito aqui, assista e tire suas próprias conclusões), mas poderia ser bem melhor. É um filme mais de idéias do que de imagens _nesse quesito, perde até para o fenomenal “A Bruxa de Blair”. Também é um daqueles filmes que ou você ama ou odeia (o amigo que me acompanhava, por exemplo, odiou, achou “cabeça” e saiu no meio para comprar pipoca). Mas voltaremos a comentar essa história de “filme dentro do filme” talvez ainda neste mês, quando colocarei na roda uma obra-prima, que, de lambujem, traz uma das mulheres mais L.I.N.D.A.S. da história do cinema. Já sabem de qual filme estou falando? Até lá, feliz 2003.

    Nota: 7,5/10

    domingo, dezembro 29, 2002

    Edifício Master

    Votuporanga tem um céu... inacreditável. Os paulistanos não sabem o que estão perdendo.

    Mas... então. Fim de ano é sempre a mesma coisa (a não ser que você esteja trabalhando em jornal diário): desligamento quase total. Nada de jornal, internet, telefone, TV etc. Só comida abundante, família, viagens. E etc.

    Daí que, ao voltar das festividades natalinas (neste ano, mais uma vez em Ribeirão Preto, casa dos meus primos Baw e “Superférias” Kbça _encontrei o Kiko Zambianchi no shopping, mas que coisa), fico chocado ao ler, na Discoteca Básica, que Joe Strummer morreu.

    Simplesmente não há palavras para descrever a importância desse cara na minha formação. Logo agora que ele estava voltando com tudo, com uma banda batizada com o exato nome do meu antigo bloco de Carnaval (Mescaleros), ele morre de ataque cardíaco aos 50 anos...

    R. I. P. Joe.

    Mas o legado do cara está em sua obra, e a vida continua. Falando em vida e obra, Eduardo Coutinho está entrando para a história como o maior documentarista do país. Veterano (entre muitas outras coisas, trabalhou anos no “Globo Repórter”, na época em que o programa ainda era feito em película), ficou muito tempo sem filmar, mesmo tendo emplacado uma obra-prima, “Cabra Marcado para Morrer”, considerado, em pesquisa recente, o melhor filme-documentário feito no Brasil.

    Coutinho (tive o prazer de ouvi-lo pessoalmente em mais de uma ocasião, nas quais pude testemunhar seu senso de humor e de ética) criou um método próprio de documentário: em vez daquele formato clássico de narração em off ilustrada por imagens e pontuada por entrevistas, ele ouve e retrata personagens, que são dispostos no filme um de cada vez, sem divisão temática. É, grosso modo, “cinema de gente”.

    E gente é a matéria-prima também de “Edifício Master”, seu filme mais recente, que assisti no dia 20 de novembro passado, com a presença do diretor. Mas também dizem que Coutinho pratica um “cinema de ouvido”, já que as vozes de seus personagens é que dão o tom de suas obras. O próprio documentarista classificou seu filme como “polifônico”... Uma obra que ouve as razões de seus personagens, mesmo quando não lhes dá razão. E que não traz outra trilha sonora que não a providenciada pelos seus protagonistas. E a música é justamente responsável por alguns dos momentos mais pungentes do filme...

    O Master é um edifício que fica em Copacabana, bairro do Rio em que morei por curtos 11 dias, durante a cobertura do Rock in Rio para a Ilustrada e o Folhateen, em janeiro de 2001. A minha amiga Viva já disse que é o bairro mais democrático do Rio de Janeiro... Mas, no filme, não vemos cenas externas (nem mesmo a fachada do prédio), apenas algumas janelas...

    São centenas de pequenos “apertamentos”, que foram visitados (e filmados) pela equipe de pesquisa de Coutinho, que só entra em contato com os personagens quando vai filmar para valer. Em cada um deles, um pequenino pedaço da vida de cada um, seja da menina sociofóbica que pinta e faz poesia; do senhor que conheceu o velho Francis Albert e canta, do jeito dele, “My Way”; o que chora ao lembrar que o chefe deixou ele faltar ao serviço para ir ao enterro da mãe; da jovem prostituta que gastou seu primeiro michê no McDonalds e que diz precisar acreditar em mentiras; da velhinha alegre e namoradeira que lembra de um asssalto; das irmãs “titias”, sendo que uma delas pinta “coisas impossíveis”; de um casal que briga, mas permanece junto, e de outro que se conheceu por um anúncio; e de tantos outros.

    “Edifício Master” mudou a vida das pessoas que retrata? Coutinho afirma que não. E a nossa? Pague (o ingresso) pra ver. Até 2003.

    Nota: 8,5/10

    sábado, dezembro 21, 2002

    Paraíso

    Aaaahhh... Nada como mudar de ares, né não?

    Pois, então. Eis que eis-me aqui de volta ao rincão votuporanguense, num calor de matar, com direito a Papai Noel invadindo minha casa e a velha árvore de Natal de plástico branco e bolas laranjas. Certas coisas continuam as mesmas desde os anos 70. Paraíso, não?

    A propósito: tem alguém aí? Jura? De qualquer jeito, ficam aqui meus votos de feliz Natal etc.

    Bom, prometi comentar aqui um inesperado evento: este site recebeu uma espécie de prêmio vindo de outro site, o Prato do Dia. Basicamente, o link para este recanto fica exposto lá por algumas semanas... Pelo menos não rola aquele golpe de o premiado ser obrigado a colocar um selinho com o link para o site “premiador”... pois o único selinho que eu colaria aqui de bom grado seria o sensacional Prêmio Blog Award Mamãe Achou o Máximo. E olha que nem esse eu coloco, para não bagunçar com o leiaute “clean” do CCE.

    Vamos deixar bem claro que não estou ironizando coisa nenhuma. Acho muito legal alguém se dar ao trabalho de indicar este site para outrem, assim como acho legal quando alguém põe um link para cá em seu site. “Linkar” é legal. “Linke” você também.

    Mas o engraçado da história é que o Prato do Dia não apenas indica os sites (que supostamente seriam blogs, mas, como eu já expliquei no FAQ, isto aqui não é um blog, apesar de ser hospedado pelo Blogger), mas comenta e dá notas para os mesmos _exatamente o que faço aqui com filmes. Crítica de sites é algo um tanto estranho, mas já que existem críticos de cinema, de literatura, de artes plásticas... por que não? Não me incomoda nem um pouquinho.

    Só que alguns critérios de avaliação me pareceram bem errôneos, para não dizer absurdos. Vá lá, opiniões diferem, graças a Lúcifer (falando nele, vocês estão comprando todos os meses a revista “Sandman Apresenta: Lúcifer”, não?). Mas vamos ver o que eles escreveram sobre os pontos negativos deste site: “Posts longos, chegam a ser cansativos. Pra piorar, não possui ilustrações e não dá respiro na leitura. Imagens e maior espaçamento entre os posts seria uma boa.”

    Bem, para começar, os textos não são longos. Não são, simplesmente. Até poderiam ser (e este talvez seja, por causa deste comentário “off topic”), mas eu realmente me preocupo com o tempo alheio, além de não pretender fechar questões nos meus textos, já que os mesmos servem, justamente, de estímulo para discussões mais aprofundadas, que ocorrem no espaço mais nobre deste logradouro, o sistema de comentários... Agora, dizer que os textos “chegam a ser cansativos”... bem, quem escreveu isto ou está fora de forma ou estava com preguiça ou anda precisando de óculos ou tinha acabado de disputar um triatlo.

    Também não entendi a história do “não dá respiro na leitura”. ????? E o pedido por “maior espaçamento” também é estranho. Ora, o site é atualizado semanalmente... Não está espaçado o suficiente?

    Mas absurdo mesmo é criticar o site por não possuir ilustrações (embora ele possua uma, feita pela pipocante Vanessa, que, por sinal, também foi premiada pelo Prato do Dia). Se fosse um site sobre fotografia ou artes gráficas, vá lá, mas trata-se de um site sobre cinema, que são fotos em movimento. E colocar trechos de vídeo pesaria muito.

    Em oito meses de CCE, foi a primeira vez que alguém levantou estas questões, por isso não as abordei no FAQ, mas vamos deixar bem claro: este site orgulha-se de ser baseado na linguagem escrita. Letrinhas, queremos letrinhas. Fotos? Ilustrações? Não, obrigado. Nossas imagens estão nas nossas cabeças, e isso basta. Até porque eu sou contra a padronização das idéias. Merci beaucoup, bon appetit.

    Agora vamos ao que interessa: “Paraíso” chamou a atenção, sobretudo, por ter roteiro do falecido cineasta polonês Krzysztof Kieslowski, responsável pela série “O Decálogo” e da tal “Trilogia das Cores”, entre outros belos filmes. A direção ficou por conta do alemão Tom Tykwer, o mesmo de “Corra, Lola, Corra” que, por sinal, ainda não vi (parece que os “indies” gostam, então temo que seja tão falsamente bom quanto “Clube da Luta”). E quem estrela é a eficiente Cate Blanchett e o “irmão-da-Phoebe-que-adora-derreter-coisas” Giovanni Ribisi _ambos já tinham atuado juntos no mediano “O Dom da Premonição”, de Sam “Spider-Man” Raimi.

    A história é simples (e bem narrada): professora inglesa residente na Itália deseja vingar o marido, assassinado por um traficante. Acaba presa, e um jovem policial se apaixona por ela. Daí...

    Olha, direto ao ponto: o melhor de tudo são as locações, deslumbrantes. Belíssimas tomadas panorâmicas feitas na Itália e na Alemanha _uma das interpretações possíveis é de que estas paisagens exuberantes façam referência ao paraíso, mas, blablablá. E quase não há trilha sonora, mas ela nem faz falta... E, coisa feia, o microfonão “boom” aparece em cena vááárias vezes... Erro primário, nos faz até pensar que poderia ter sido proposital, mas creio que não.

    Bom, agora nos aguardam o “Purgatório” e o “Inferno”. Falando em inferno, vocês estão lendo mesmo o “Lúcifer”? Olha lá, hein? Deus castiga.

    Nota: 7,5/10

    segunda-feira, dezembro 16, 2002

    Dívida de Sangue

    Época de férias (ou não, para quem trabalha em jornal diário, por exemplo), dá aquela preguiça, todo mundo desencanando... Mas vamos em frente, tentando não deixar a peteca cair, como diziam nos antigos programas infantis.

    Só que as férias trazem, geralmente, um pequeno problema para quem gosta de cinema: é a época de lançamentos dos chamados “filmes de verão”, os “blockbusters” (antigamente chamados de “arrasa-quarteirão”, mas o português é uma língua que evolui num mundo bobalizado, sacumé) _em especial, filmes para o público infantil (sem falar nos famigerados filmes natalinos), que abarrotam quase todas as salas, em versões dubladas... Bom para a molecada, mas ainda bem que passa rápido.

    A consciência de que a temporada de filmes-tranqueira estava prestes a começar veio a mim quando fui, ansioso, assistir ao filme mais recente do gigantesco Clint Eastwood, um dos maiores nomes do cinema norte-americano. Antes, porém, a titubeante Vanessa e eu tivemos de encarar, num domingo, 17 de novembro, no shopping Tatuapé (com uma decoração natalina muito legal, by Mauricio de Sousa), alguns dos trailers mais imbecis da história, como o do novo lançamento do Jackie Chan (nunca vi um filme com ele... parece simpático, longe do estereótipo “durão” dos filmes de ação), “The Tuxedo” _uma inacreditável história na qual qualquer um pode virar um agente secreto, desde que vista um “supersmoking... Mas o pior nem foi isso, e sim um outro filme debilóide de ação, nos moldes de “Triplo X” (alguém viu? É uma merda mesmo?), no qual o heroizinho marombeiro de araque DESVIA UM PROJÉTIL DE BAZUCA COM UMA BANDEJA DE INOX. Então, tá... Pelo menos faz mais sentido do que traduzirmos um termo corrente no inglês, "tuxedo", por uma palavra do mesmo idioma, "smoking".

    Mas é por isso e muito mais que, em termos de filme de ação, vale a pena banhar os olhos com Clint Eastwood, que, setentão, continua em forma, dando um banho nesses galãzinhos metidos a valentões. Preciso discorrer aqui sobre a importância desse cara, sobre as obras-primas que ele estrelou e as que dirigiu? Não, não preciso.

    Vamos falar de “Bloodwork”, então.

    Como o título evidencia (a tradução literal seria “Exame de Sangue”, mas a versão brasileira nem ficou tão ruim), o sangue é o símbolo central da obra. Clint interpreta um agente do FBI que tem um ataque cardíaco ao perseguir um misterioso “serial killer”, apelidado pela imprensa (que dá grande destaque ao protagonista, que, por sinal, detesta essa frescura de celebridade e, pensem a respeito, vive em um barco) de “assassino dos códigos”, por causa de suas mensagens cifradas deixadas nas cenas dos crimes.

    Aposentado por motivos médicos (quem cuida de Clint é Anjelica Huston), o velho policial sente-se na obrigação de voltar à ação após descobrir que o coração que recebeu em um transplante veio de uma vítima de assassinato: uma mulher mexicana.

    Não me agradam muito análises de filmes que ficam desdobrando todas as metáforas das obras, mas “Dívida de Sangue” é extremamente rico em significados. Claro que pode ser assistido numa boa como um mero policial, mas se você parar para pensar em todas as camadas de sentidos da película... tudo fica bem melhor.

    Então temos aí não só uma questão política (a conturbada relação entre EUA e México, também evidenciada pelo personagem Arrango, um detetive que inveja a fama de Clint e que, a certo ponto, diz: “você pode ter o coração de uma mexicana, mas nunca será um de nós”), mas também a questão dos holofotes da fama, além da esperta trama policial (que contém outros aspectos muito interessantes, mas que não vou abordar aqui, para evitar estragar as surpresas do enredo).

    Siiimmm, os “clichês-Clint” estão lá, e é isso que, ao mesmo tempo, enfraquece e dá certa graça ao filme _aquela sensação de que Eastwood continua o mesmo, o que pode decepcionar alguns e alegrar outros... Mas o roteiro, baseado em livro de Michael Connely, é muitíssimo bem-feito, e a direção de Clint é competentíssima, sem aqueles malabarismos de câmera imbecis nem aquela cenografia e fotografia desprezíveis desses diretores metidos a bestas que andam infestando o cinema e deslumbrando os bem-aventurados pobres de espírito.

    Ah: destaque para Jeff Daniels, um ator muito legal que poderia ser melhor aproveitado nos EUA. O personagem dele é uma figura, assim como o protagonista. Falando nele... Go ahead, Clint!

    Nota: 8/10

    P. S. Alguém colocou na internet uma reportagem que fiz há quase três anos, quando era repórter de ciência da Folha e colaborava com o caderno “Mais!”. O engraçado é que eu consegui enfiar cinema no meio de uma matéria sobre... grilos.

    terça-feira, dezembro 10, 2002

    Doze Homens e uma Sentença

    Não sei se é o fim do ano, mas está dando uma preguiiiça de escrever... Pelo menos eu afastei (temporariamente) a idéia de matar este site, o que esteve muito perto de acontecer.

    Mas já que o mau e novo CCE foi, até segunda ordem, absolvido, vamos falar de um outro julgamento, ops, de um filme, dirigido pelo importantíssimo Sidney Lumet, que já assinou mais de quarenta obras, entre elas clássicos como “Um Dia de Cão” (dá para esquecer Pacino gritando “Attica! Attica!”?) e “Rede de Intrigas”.

    “Twelve Angry Men”, lançado em 1957, é justamente a estréia de Lumet na direção. O filme, um projeto de seu protagonista, o fantástico Henry Fonda (aqui ele exerce, pela única vez em sua vida, o papel de produtor), foi baseado em um especial para a TV exibido três anos antes _e que foi refeito em 1997 por William Friedkin, eterno diretor de “O Exorcista”, estrelado por Jack Lemmon e George C. Scott.

    Como a TV, naquela época, era praticamente ao vivo, uma espécie de rádio com imagens, fica bastante óbvio o porquê de o filme ser tão teatral: quase toda a história se passa em um cenário, em tempo real. Há apenas uma externa, a cena final, na qual ficamos ficamos sabendo o nome do protagonista.

    O enredo pode ser resumido em poucas palavras: um jovem porto-riquenho é acusado de matar o pai a facadas. Na primeira cena do filme, vemos o garoto, com cara de assustado, no tribunal. O juiz pede para o júri se reunir em uma sala e definir o veredicto. A decisão, seja qual for, precisa ser unânime, e o júri deve permanecer isolado na sala até que esta unanimidade seja atingida.

    Os doze jurados se reúnem e, ao votarem pela primeira vez, o placar dá 11 a 1: apenas a personagem de Henry Fonda, com cara de santinho fumante e vestindo terno branco, tem dúvidas sobre a culpa do rapaz. Os outros membros do júri (composto de homens das mais variadas procedências: há o velhinho, o relojoeiro imigrante, o publicitário, o corretor da bolsa, o xenófobo, o-fã-de-esportes-que-está-desesperado-porque-vai-perder-o-jogo-de-beisebol, o humilde, o durão que brigou com o filho _bela interpretação de Lee J. Cobb_, o de óculos, o “chefe”, o quietinho...) estão com pressa, morrendo de calor, querem ir embora, mas precisam fazer o Fondão (que, pasmem, formou-se em jornalismo, além de ser pai do Peter e da Jane) mudar de idéia. Só que...

    O roteiro, de Reginald Rose (um dos mais importantes roteiristas de TV dos EUA, que fez de “Além da Imaginação” a “Fuga de Sobibor”), é muito bem encadeado. Toda a força do filme está nos diálogos, as imagens de destaque são poucas. Trata-se de uma grande discussão de temas morais, na qual as idiossincrasias de cada personagem são muitíssimo bem exploradas.

    Muito mais do que um mero filme de tribunal (vocês já viram “Anatomia de um Crime”, do Otto Preminger, com o James Stewart e o Ben Gazzara? Nãããooo???), “Doze Homens e uma Sentença” é uma obra-prima da tolerância. É de estranhar que o filme, apesar de aclamado pela crítica na época e hoje reconhecido como clássico, tenha sido um fracasso desastroso nas bilheterias norte-americanas? É Fonda...

    Nota: 9/10

    quarta-feira, dezembro 04, 2002

    O Casamento Grego

    A crise tá braba, não?

    Pois justo no momento em que estou tendo de arcar com despesas mensais de cerca de R$ 2.000, os frilas para a Folha e a Abril, que praticamente me sustentavam, minguaram. Agora me vejo em meio à pior crise financeira de toda a minha existência, obrigado a me dedicar menos aos estudos (minha prioridade no momento) e a voltar a trabalhar em tempo integral, para conseguir pagar as contas e ajudar a família.

    Então está, novamente, aberta a temporada de caça ao emprego. Se algum dos leitores deste humilde rincão internético souber de uma vaga, em São Paulo, para um jornalista/roteirista/tradutor/revisor/etc. com duas faculdades no currículo, mais pós-graduação nos EUA (University of California, Berkeley), oito anos de experiência em empresas de grande porte (as supracitadas e outras mais, como o “Diário de Pernambuco”), sério, responsável, competente, esforçado, honesto e completamente apaixonado pelo trabalho, é comigo mesmo, uh yeah.

    Agora que já preenchi a minha cota de humilhação pública, vamos falar de “My Big Fat Greek Wedding”, um “fenônimo”, como dizia um afoito torcedor do Ronaldinho que encheu o saco de tanto aparecer no “Globo Esporte” na época da Copa.

    O filme saiu da cabeça da atriz Nia Vardalos, que montou o texto como peça, antes de receber a proposta de transformá-la em filme... de Tom Hanks. É, como se não bastasse o Forrest Náugrafo ganhar uns US$ 20 milhões por filme, o “cara mais legal em Hollywood” ainda enche a burra de dinheiro ao produzir um dos filmes mais lucrativos da história _sim, “O Casamento Grego” custou cerca de US$ 5 milhões e já faturou mais de US$ 200 milhões, uma margem de lucro ainda maior do que a do brilhante “A Bruxa de Blair”... A própria Nia Vardalos diz ter ganho apenas US$ 70 mil para protagonizar o filme... Coidilôco.

    Entonces, “O Casamento Grego” é o que se chama de “comedinha simpática”. Dá pra dar muita risada, especialmente se você é felizardo o suficiente para se identificar com a imensa família da protagonista (que lembra demais a minha, embora os meus costumem beber um pouco mais e fazer ainda mais barulho, ao entoar músicas bem mais bregas).

    As gags surgem basicamente das idiossincrasias dos familiares da moça, especialmente do pai (Michael Constantine), uma figuraça que tem mania de usar windex (limpa-vidros) como bálsamo para todos os males e ficar dizendo que todas as palavras existentes têm raiz grega. Também se destacam a prima vagaba, o irmão “bronco, mas sensível” (se é que isso faz algum sentido), e a pequena família do noivo de Toula Portokalos, já que o choque cultural é outro importante ingrediente do grude todo.

    Talvez contribuam para a popularidade do filme (mas não para a sua qualidade) os momentos sentimentalóides-clichê, que fazem de “O Casamento Grego”, no final das contas, uma obra totalmente tradicional e nem um pouco revolucionária _a não ser pela sua lucratividade... Daí os homens de marketing se tocam de que, em tempos de tensão por causa de guerra e de crise econômica, o povo quer mais é ver comedinhas românticas no cinema, e não películas ácidas como “O Articulador”...

    Mais uma coisa: Nia Vardalos é bonita. Bem bonita mesmo (como dizem os irredutíveis gauleses no álbum “Asterix e Cleópatra” _o qual não vi em filme, recém-lançado_, “que nariz, que nariz!”). Isso pode não ser óbvio, já que ela é enfeiada durante boa parte do filme, representando o velho arquétipo do patinho feio que já vimos em milhões de obras, de belezas como “Sabrina” a bombas como “Love Potion Number 9”...

    Também é necessário dizer que só vi este filme por causa da convincente Vanessa, no Arteplex da Frei Caneca, em 10 de novembro, após um almoção gostoso e barato, mas não tao apetitoso quanto os carneiros assados na frente da casa da família Portokalos. Dracmas para todos. Opa!

    Nota: 6,5/10

    sábado, novembro 30, 2002

    Fale com Ela

    Almodóvar mudou muito. Assim como a Espanha.

    Quando lembro de “Matador”, “A Lei do Desejo”, “Ata-me”, “De Salto Alto”, “Kika” etc., estão ali, de maneira bastante explícita, o “underground”, as drogas, o sexo, o crime, em uma Espanha ultracatólica (e, portanto, homofóbica, machista e intolerante em diversos aspectos _o divórcio, como no Brasil, era ilegal, por exemplo) que, após passar por quase quarenta anos de ditadura, encabeçada pelo “generalíssimo” Franco, lentamente foi encontrando espaço para respirar. E Almodóvar respirou fundo.

    Com “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”, as coisas começaram a mudar. O diretor mergulha um pouco mais fundo no melodrama, mas ainda há ali uma certa histeria, que provavelmente afastou um público avesso à provocação.

    Tema semelhante aparece em “A Flor do Meu Segredo” (o filme dele que menos gosto), ao mesmo tempo em que “Carne Trêmula” retrocede um pouco ao Almodóvar mais, digamos, “mundo cão”.

    Mundo cão que aparece também em “Tudo Sobre Minha Mãe”, ainda o meu preferido. Mas ali, o submundo do homossexualismo, representado em grande parte pelo travesti Agrado (grande interpretação de Antonia San Juan), perde bastante espaço para o melodrama, para a novelona mexicana que permeia todo o enredo. Almodóvar, talentoso como poucos, consegue manter o equilíbrio e passa uma absurda verossimilhança à história.

    “Fale com Ela” (seu 14º filme), apesar de menos impressionante, dá alguns passos adiante. Não vemos, explicitamente, o mundo das drogas, das ditas “perversões” sexuais, da violência (a não ser da violência contra os touros) etc. O “submundo”, desta vez, é ainda mais profundo, aterrador e misterioso: é o coma. E quem entra em coma são as mulheres, tradicionais protagonistas dos filmes do espanhol _não por acaso, são elas que aparecem no pôster do filme.

    O enredo: Benigno (Javier Cámara), um rapaz tímido que vive a cuidar da mãe doente, encanta-se por Alicia (Leonor Watling), uma menina que faz aulas de dança em frente à sua casa. Quando ela entra em coma, ele se apresenta como enfermeiro, e passa a cuidar dela com dedicação ímpar. Marco (Darío Grandinetti) é um escritor/jornalista que se envolve com Lydia (Rosario Flores _existe nome mais espanhol do que este?), uma famosa toureira (uma estocada no machismo), que também entra em coma após levar uma chifrada (de um touro, não do Marco). Alguém aí lembrou dos Silvas?

    Bom, as personagens femininas principais do filme estão paralisadas e em silêncio. Isso fez muita gente afirmar que Almodóvar desta vez resolveu focalizar mais o universo masculino, mas não sei se posso concordar com isso. Mesmo que os homens assumam quase toda a ação na obra, é justamente em função das mulheres que a história se desenrola. “O cérebro das mulheres é um mistério. Ainda mais neste estado”, diz Benigno a Marco, tentando fazer com que o seu novo amigo tenha uma relação melhor com sua namorada enferma.

    Ainda falando nas atrizes do filme, vale a pena ressaltar a participação especial de Geraldine Chaplin (a filha do homem) e de Elena Anaya (Ángela, primeira paixão de Marco) e Paz Vega (a “mulher gigante” do curta em preto-e-branco que surge no meio da obra), que encheram os nossos olhos em “Lucía e o Sexo”.

    Mas “Hable con Ella” é também um filme sobre a música _e, especialmente, a dança. Começa com uma coreografia de Pina Bausch, passa pelas lições de dança de Alicia, pelos passos de Lydia na arena de touros e pelo ritual de Benigno ao banhar Alicia. E além.

    A música, como já se falou muito, é também brasileira: em uma das cenas mais belas da obra, Lydia toureia ao som de Elis Regina interpretando Tom Jobim (que é citado por Marco em outra cena). Em outra, bem mais forçada, em tom de homenagem, de carinho mesmo, Caetano Veloso reinterpreta a tristonha “Cucurrucucú Paloma”.

    Enfim, se Almodóvar está mais “maduro” ou “contido”, é ainda cedo para afirmar. Mas o homem, além de filmar bem para cassete e de escrever romances fantásticos (não distorçam minhas palavras), consegue, fora de Hollywood (Oscar? E ele lá precisa disso?), lotar uma sala de cinema do bananal às 18h de uma quarta-feira...

    Nota: 9/10

    domingo, novembro 24, 2002

    48 Horas

    Há algumas semanas tive o prazer de conhecer o Museu do Cinema do sr. Antonio Vituzzo, dono de um acervo incrível de aparelhos cinematográficos. E, entre eles, uma pequena preciosidade: uma câmera que pertenceu ao diretor carioca Alberto Cavalcanti (1897-1982).

    E eis que, pouco tempo depois, o nome de Cavalcanti reaparece, ao ganhar uma retrospectiva na 26ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo _incluindo filmes feitos no Brasil, nos estúdios da Vera Cruz (eita, São Bernardo do Campo), como “Simão, o Caolho” (1952).

    Só que... a maioria de vocês provavelmente nunca tinha ouvido falar em Alberto Cavalcanti, certo?

    Infelizmente, não é de estranhar. Um dos cineastas brasileiros com mais prestígio no exterior _há quem diga que ele é mais conhecido do que Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos ou Anselmo Duarte... experimente fazer uma pesquisinha no Google ou similares, para tirar a prova_, em especial na Europa (mais particularmente no Reino Unido e na França, onde trabalhou por muitos anos), Cavalcanti é pouco lembrado por aqui. É uma pena. E uma injustiça.

    Mas vamos deixar de choradeira e falar desta belezura que é “Went the Day Well?”, batizado nos EUA de “48 Hours” (não, não é aquele com Eddie Murphy e Nick Nolte), de onde saiu o título nacional. Para começo de conversa: o filme foi feito na Inglaterra. Em 1942.

    Bom, estamos mais do que calvos de saber que aquela simpatia do Adolfinho Hitler e seu garboso amiguinho Benito Mussolininho estavam delicadamente tocando o terror por lá na época. E que o senhorito Winston Churchillzinho veio com aquele papo de sangue, suor e lágrimas e blablablá (como estamos em guerra novamente, sempre é bom lembrarmos de como a sociedade se comporta nesse caso _e sobre como os governantes, sejam “do mal” ou “do bem”, como se isso existisse, a manipulam).

    Bueno, então é óbvio que “48 Horas” é um filme do esforço de guerra inglês, ou seja, propaganda. E que foi feito numa época de precariedade de recursos. E etc., porque eu nem precisava dar este contexto todo, já que nosso crânio comporta numerosas células que dão conta do recado.

    Enfim: o filme conta a história de um vilarejo chamado Bramley. Em 1942, um pequeno exército alemão infiltra-se na cidade, disfarçado de britânico (é um tanto estranho que alemães consigam se passar tão bem por ingleses, mas façamos vista grossa, porque a situação da época era mais grossa ainda). Eventualmente, acabam sendo descobertos, e aí começa o “caflito”, como dizia o velho Didi Mocó Sonrisel Colesterol Novalgino Mufungo.

    O enredo nem interessa tanto, serve mais para dar um exemplo de coragem em tempos de adversidade... e filmes mais definitivos sobre a Segunda Guerra foram e têm sido feitos (de “O Grande Ditador” à série “Band of Brothers"). Interessante mesmo é observar o talento narrativo de nosso conterrâneo... Basicamente, o cara sabia filmar. Agora, só falta você assistir.

    Nota: 8,5/10

    terça-feira, novembro 19, 2002

    Madame Satã

    Para quem mora em São Paulo, Madame Satã é o nome de uma casa noturna que foi badalada nos anos 80 e que foi reinaugurada há algum tempo... Mas para quem mora no bairro carioca da Lapa, Madame Satã era “um viado bravo, que batia até em polícia e que ficou preso na Ilha Grande” (segundo um dos transeuntes do bairro, entrevistados pela produção do “making of” do recém-lançado longa de Karim Aïnouz)...

    O personagem já havia sido retratado (de maneira enviesada) em “Rainha Diaba” (1974), de Antonio Carlos Fontoura, com Milton Golçalves e Stepan Nercessian _embora o diretor deste tenha dito que não havia se inspirado em João Francisco dos Santos, o Satã (ainda vivo na época), a associação parece evidente.

    Assisti ao longa de estréia de Aïnouz (arquiteto que viveu um bom tempo em Nova York) no dia 1º de novembro, pouco depois de ele ser exibido na “Mostra”, mas ainda antes de sua estréia comercial propriamente dita. Após o filme, o diretor contou que demorou sete anos para realizar o projeto... Da idéia até a finalização do longa, ele angariou prêmios, investidores internacionais e contou com uma forcinha de Walter Salles (Aïnouz é um dos roteiristas de “Abril Despedaçado”).

    Tratar de uma figura tão mítica quanto o Satã não é fácil. Aïnouz declarou que mudou bastante o roteiro no decorrer do projeto, e o protagonista, o jovem baiano Lázaro Ramos, declarou que desistiu de tentar compreender o personagem... A solução foi elaborar uma pequena biografia abordando o período em que João Francisco dos Santos busca seu sonho de ser uma estrela de cabaré, mas acaba sofrendo os preconceitos mil de praxe (por ser preto, pobre e bicha) e vai parar no xilindró. Ou seja, os supostos acontecimentos que levaram João Francisco a se tornar Madame Satã _por sinal, título vindo de um musical de 1930, dirigido por Cecil B. DeMille...

    Totalmente filmado em locações, “Madame Satã” espia por trás da cortina a boemia da Lapa carioca dos anos 30. As músicas da época (em especial a clássica “Se Você Jurar”, de 1931, composta por Francisco Alves, Ismael Silva e Nilton Bastos, e interpretada por Mário Reis _personagem enfocado por Júlio Bressane no bom “O Mandarim”), as roupas, a malandragem, a capoeira Angola (as cenas de luta são muito bem feitas)... um pouco de tudo está lá. Assim como o homoerotismo masculino, que, a certo ponto, causou frisson na platéia, devido à sucessão de cenas de pegação...

    A fotografia do badalado Walter Carvalho é bem contrastada, e os planos são bastante fechados, concentrando-se nos corpos dos personagens. Mas, apesar do apuro visual, o grande trunfo do filme é a interpretação brilhante de Lázaro Ramos, bem apoiado por coadjuvantes de respeito, como Marcélia Cartaxo, Renata Sorrah, o subestimado Emiliano Queiroz e o destaque Flávio Bauraqui, como Tabu.

    Taí, mais um exemplo do novo cinema brasileiro: barato, eficiente, um tanto incômodo... Só falta vender bastante ingresso.

    Nota: 8/10

    P.S. Leiam. E que se instale a polêmica.

    quarta-feira, novembro 13, 2002

    A Teia de Chocolate

    Iurrú.

    A edição número dois de “Hellblazer” já está disponível nas melhores bancas e lojas especializadas do país (e também aqui). Quem já conhece o velho John Constantine sabe que a coisa é boa.

    Falando em coisa boa, “A Teia de Chocolate” é um belo de um belo filme. A teatral Vanessa não gostou e ficou com sono _talvez por se tratar de um thriller que não eleva a tensão a picos, que não tenta nos manipular pela emoção. É um filme frio, narrado à moda antiga, com sobriedade.

    O diretor, Claude Chabrol, é veteraníssimo. Um dos principais representantes da “nouvelle vague” (Truffaut, Godard, Rohmer, “Cahiers du Cinéma”, blablablá), com mais de quarenta filmes no currículo, já foi chamado, não sem certa razão, de “o Hitchcock francês”.

    Adaptado de um romance, “Merci pour le Chocolat” enfoca a família de André, um famoso pianista (chegado em soníferos _rohypnol, a “droga do estupro”_ e, aparentemente, num Grecin 2000), casado com uma executiva de uma fábrica de chocolates, Mika (a ótima Isabelle Huppert, que protagonizou a versão de Chabrol para “Madame Bovary” e que apareceu embagulhada em “8 Femmes”). Mika era a melhor amiga da primeira mulher de André, Lisbeth (mãe de Guillaume), que morreu em um acidente de carro _após “dormir” no volante.

    Paralelamente, somos postos em contato com a história de Jeanne (a bela Anna Mouglalis), uma jovem estudante de piano que descobre um curioso fato: ao nascer, teria sido trocada por Guillaume no hospital. A troca teria sido desfeita após a confusão.

    Encasquetada com a revelação, Jeanne faz uma visita a André, e a empatia entre os dois é evidente. Ele a convida para estudar com ela, o que provoca ciúmes em Guillaume... e em Mika.

    A partir daí, o clima da obra evoca o suspense de “O Bebê de Rosemary”, por exemplo. A verdade vai sendo descascada aos poucos, no ritmo lento e preciso do filme, embalado por uma trilha sonora deliciosa _não por acaso, trata-se do “Funeral”, de Liszt...

    Nota: 8,5/10

    P. S. Falando em "Cahiers du Cinéma", este site mostra as listas dos dez melhores filmes do ano segundo a famosa publicação. Começa em 1951 (ano em que André Bazin co-fundou a revista) e vai até 2001, ano em que o vencedor foi "Mullholland Dr." _mas há janelas, pois em alguns anos a lista não foi montada... Para quem tiver preguiça de clicar no link, aqui vão algumas observações a respeito das listas:

    _Não há nenhum filme brasileiro (era de se esperar?)
    _Em 1951, “A Malvada” (Mankiewicz) bateu “Crepúsculo dos Deuses” (Wilder)
    _Em 1955, “Viagem à Itália” (Rosselini) bateu “Janela Indiscreta” (Hitchcock), que, por sua vez, bateu “A Estrada da Vida” (Fellini)
    _Em 1957, “Um Rei em Nova York” (Chaplin) bateu “Noites de Cabíria” (Fellini) e “O Homem Errado” (Hitchcock)
    _Em 1958, “A Marca da Maldade” (Welles) bateu “O Sétimo Selo” (Bergman) e “Meu Tio” (Tati)
    _Em 1959, “Hiroshima Meu Amor” (Resnais) bateu “Rio Bravo” (Hawks), “Morangos Silvestres” (Bergman) e “Um Corpo Que Cai” (Hitchcock)
    _Em 1960, “Psicose” (Hitchcock) ficou em nono
    _Em 1963, “O Professor Aloprado” (Lewis) bateu “8 1/2” (Fellini), mas perdeu para “O Anjo Exterminador” (Buñuel), que perdeu para “Os Pássaros” (Hitchcock)
    _Em 1967, “Persona – Quando Duas Mulheres Pecam” (Bergman) bateu “A Bela da Tarde” (Buñuel)
    _Em 1981, “Touro Indomável” (Scorcese) ficou em oitavo
    _Em 1984, “E La Nave Va” (Fellini) bateu “Paris, Texas” (Wenders), que bateu “Era uma Vez na América” (Leone)
    _Em 1985, “O Ano do Dragão” (Cimino) bateu “Ran” (Kurosawa)
    _Em 1988, “Bird” (Eastwood) bateu “A Última Tentação de Cristo” (Scorcese)
    _Em 1989, “Faça a Coisa Certa” (Spike Lee) ganhou de todo mundo
    _Em 1990, “Os Bons Companheiros” (Scorcese) bateu “Sonhos” (Kurosawa)
    _Em 1991, “Barton Fink” (Coen) bateu “O Poderoso Chefão 3” (Coppola), que bateu “Edward Mãos-de-Tesoura” (Burton), que bateu “Rapsódia em Agosto” (Kurosawa)
    _Em 1992, o campeão foi “Os Imperdoáveis” (Eastwood), e “Maridos e Esposas” (Allen) ficou em quarto
    _Em 1993, dobradinha de Eastwood com “Um Mundo Perfeito”, que bateu Oliveira, Rohmer, Resnais, Landis, Ferrara, Godard...
    _Em 1994, “Caro Diário” (Moretti) bateu “O Pagamento Final” (De Palma) e “Madame Butterfly” (Cronenberg)
    _Em 1995, “As Pontes de Madison” (Eastwood) bateu “A Flor do Meu Segredo” (Almodóvar) e “Ed Wood” (Burton)
    _Em 1996, “Crash – Estranhos Prazeres” (Cronenberg) foi o campeão, batendo “Cassino” (Scorcese), “Dead Man” (Jarmusch) e “Missão: Impossível” (De Palma)
    _Em 1997 deu “Hana-Bi” (Kitano) na cabeça, com “A Estrada Perdida” (Lynch) em terceiro e “Pânico” (Craven) e “A Outra Face” (Woo) empatados em nono
    _Em 1998, “Velvet Goldmine” (Todd Haynes) ganhou de “Olhos de Serpente” (De Palma), e “Jackie Brown” (Tarantino) empatou em décimo com “Titanic” (Cameron)
    _Em 1999 deu “De Olhos Bem Fechados” (Kubrick), batendo “eXistenZ” (Cronenberg), “A História Real” (Lynch) e “Ghost Dog” (Jarmusch)
    _Na eleição dos melhores dos 90, mudou tudo: deu “O Pagamento Final” (a lista é dominada pelos americanos, e Clint Eastwood aparece com dois filmes)
    _Em 2000, “Missão: Marte” (De Palma) bateu “As Virgens Suicidas” (Sofia Coppola) e “Cowboys do Espaço” (Eastwood)
    _Jerry Lewis aparece em vários anos com filmes semi-desconhecidos, mostrando sua maior popularidade entre os críticos europeus do que entre os de seu próprio país (Woody Allen sofre do mesmo mal)...
    _Clint Eastwood é foda. Vocês não vão perder "Dívida de Sangue", vão?

    Na platéia