Dívida de Sangue
Época de férias (ou não, para quem trabalha em jornal diário, por exemplo), dá aquela preguiça, todo mundo desencanando... Mas vamos em frente, tentando não deixar a peteca cair, como diziam nos antigos programas infantis.Só que as férias trazem, geralmente, um pequeno problema para quem gosta de cinema: é a época de lançamentos dos chamados “filmes de verão”, os “blockbusters” (antigamente chamados de “arrasa-quarteirão”, mas o português é uma língua que evolui num mundo bobalizado, sacumé) _em especial, filmes para o público infantil (sem falar nos famigerados filmes natalinos), que abarrotam quase todas as salas, em versões dubladas... Bom para a molecada, mas ainda bem que passa rápido.
A consciência de que a temporada de filmes-tranqueira estava prestes a começar veio a mim quando fui, ansioso, assistir ao filme mais recente do gigantesco Clint Eastwood, um dos maiores nomes do cinema norte-americano. Antes, porém, a titubeante Vanessa e eu tivemos de encarar, num domingo, 17 de novembro, no shopping Tatuapé (com uma decoração natalina muito legal, by Mauricio de Sousa), alguns dos trailers mais imbecis da história, como o do novo lançamento do Jackie Chan (nunca vi um filme com ele... parece simpático, longe do estereótipo “durão” dos filmes de ação), “The Tuxedo” _uma inacreditável história na qual qualquer um pode virar um agente secreto, desde que vista um “supersmoking... Mas o pior nem foi isso, e sim um outro filme debilóide de ação, nos moldes de “Triplo X” (alguém viu? É uma merda mesmo?), no qual o heroizinho marombeiro de araque DESVIA UM PROJÉTIL DE BAZUCA COM UMA BANDEJA DE INOX. Então, tá... Pelo menos faz mais sentido do que traduzirmos um termo corrente no inglês, "tuxedo", por uma palavra do mesmo idioma, "smoking".
Mas é por isso e muito mais que, em termos de filme de ação, vale a pena banhar os olhos com Clint Eastwood, que, setentão, continua em forma, dando um banho nesses galãzinhos metidos a valentões. Preciso discorrer aqui sobre a importância desse cara, sobre as obras-primas que ele estrelou e as que dirigiu? Não, não preciso.
Vamos falar de “Bloodwork”, então.
Como o título evidencia (a tradução literal seria “Exame de Sangue”, mas a versão brasileira nem ficou tão ruim), o sangue é o símbolo central da obra. Clint interpreta um agente do FBI que tem um ataque cardíaco ao perseguir um misterioso “serial killer”, apelidado pela imprensa (que dá grande destaque ao protagonista, que, por sinal, detesta essa frescura de celebridade e, pensem a respeito, vive em um barco) de “assassino dos códigos”, por causa de suas mensagens cifradas deixadas nas cenas dos crimes.
Aposentado por motivos médicos (quem cuida de Clint é Anjelica Huston), o velho policial sente-se na obrigação de voltar à ação após descobrir que o coração que recebeu em um transplante veio de uma vítima de assassinato: uma mulher mexicana.
Não me agradam muito análises de filmes que ficam desdobrando todas as metáforas das obras, mas “Dívida de Sangue” é extremamente rico em significados. Claro que pode ser assistido numa boa como um mero policial, mas se você parar para pensar em todas as camadas de sentidos da película... tudo fica bem melhor.
Então temos aí não só uma questão política (a conturbada relação entre EUA e México, também evidenciada pelo personagem Arrango, um detetive que inveja a fama de Clint e que, a certo ponto, diz: “você pode ter o coração de uma mexicana, mas nunca será um de nós”), mas também a questão dos holofotes da fama, além da esperta trama policial (que contém outros aspectos muito interessantes, mas que não vou abordar aqui, para evitar estragar as surpresas do enredo).
Siiimmm, os “clichês-Clint” estão lá, e é isso que, ao mesmo tempo, enfraquece e dá certa graça ao filme _aquela sensação de que Eastwood continua o mesmo, o que pode decepcionar alguns e alegrar outros... Mas o roteiro, baseado em livro de Michael Connely, é muitíssimo bem-feito, e a direção de Clint é competentíssima, sem aqueles malabarismos de câmera imbecis nem aquela cenografia e fotografia desprezíveis desses diretores metidos a bestas que andam infestando o cinema e deslumbrando os bem-aventurados pobres de espírito.
Ah: destaque para Jeff Daniels, um ator muito legal que poderia ser melhor aproveitado nos EUA. O personagem dele é uma figura, assim como o protagonista. Falando nele... Go ahead, Clint!
Nota: 8/10
P. S. Alguém colocou na internet uma reportagem que fiz há quase três anos, quando era repórter de ciência da Folha e colaborava com o caderno “Mais!”. O engraçado é que eu consegui enfiar cinema no meio de uma matéria sobre... grilos.