A gruta é mais extensa do que a gruta

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    Quinta-feira, Dezembro 16, 2010

    Tenso

    Não sei se foi o relativamente longo período que fiquei longe de uma sala de cinema, de seu poder de envolver com imagem e som, mas fazia um tempo que um filme não mexia tanto comigo fisicamente: durante as mais de duas horas de "Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora é Outro", fiquei "na beirada da cadeira", em estado de tensão permamente (como tinha acontecido quando vi um filme muito diferente, "Apocalypto"). Ponto para o José Padilha, esse cineasta tão peculiar (que não se diz artista e aposta numa visão cientificista do mundo, com filmes que parecem defender teses), e sua turma (com Bráulio Mantovani no roteiro e Daniel Rezende na montagem, consagrados com "Cidade de Deus" _ Lula Carvalho havia sido primeiro assistente de câmera de César Charlone; a trilha sonora de Pedro Bromfman também tem mérito), que acabam de bater o tão propalado recorde de público de "Dona Flor e Seus Dois Maridos" e talvez passem da inédita marca de 11 milhões de espectadores.

    Duas proezas ajudam a explicar o desempenho notável: conseguiram coibir a pirataria, que, se por um lado deve ter causado grande prejuízo aos produtores com a obra antecessora, possibilitou que o filme de 2007 se tornasse um evento a ponto de motivar uma sequência; mas o que interessa mesmo é que se trata de um filme muito melhor que o anterior. Também me pareceu muito diferente em alguns aspectos.

    O Capitão Nascimento (agora tenente-coronel, mas a patente nova "não pegou") continua não sendo exatamente um herói. Se no primeiro filme ele aparecia como um covarde (no fundo, quem estava "pedindo para sair" do Bope era ele) e um neurótico, agora ele passa quase todo o filme alquebrado (sempre curvado e com olheiras, aparentando cansaço e desencanto permanentes _ou seja, virou adulto, provavelmente motivado pela paternidade). Ele também evolui do Nascimento do filme anterior (o que critica em sua narração o "intelectual de esquerda maconheiro", discurso que gera delírio na plateia que, especifica o filme, acha que "bandido bom é bandido morto") para alguém que de repente tem como ideia fixa "foder o sistema" (digno de letra do nosso vasto cancioneiro punk rock). Em suma, revela-se um grande ingênuo, um personagem quixotesco.

    O interessante é que Padilha e Mantovani decidiram recorrer ao suspense, o que não ocorria no filme anterior. Com os personagens sem saber o que o espectador sabe, apesar de Nascimento ser o narrador, já coloca o filme em outro nível. Outro aspecto muito bem sucedido do filme é que Nascimento ganha um nêmesis que não apenas é seu oposto, mas o substitui em seu papel familiar (como bem observou a Ana, o Fraga de Irandhir Santos começa o filme com forte sotaque nordestino, que se suaviza após ele entrar para a política).

    Também me chamou a atenção duas frases de um dos vilões mais revoltantes (o mais engraçado é André Mattos, dando uma de Datena _ sei lá quem é o equivalente no Rio), o miliciano Rocha, que fazem ligação com uma das cenas mais famosas de "Cidade de Deus", quando Dadinho vira Zé Pequeno: "Quem foi que disse que o comando é teu?" e "Quem foi que disse que a comunidade é tua?" Ninguém perguntou isso pro Mantovani?

    Somado a tudo isso, temos esse resumo e essa simplificação de uma questão muito complexa, mas atacada com fervor didático e enfático ("A PM do Rio tem que acabar!", fala Nascimento em um dos muitos momentos em que se coloca como representante das vontades muitas vezes furiosas do "povo" _ como a propalada manifestação da plateia de Paulínia, onde o filme estreou, no momento em que um político é espancado de modo não muito diferente da surra que Gene Hackman deu em Richard Harris em "Unforgiven" _na sessão que vi, houve silêncio): da imprensa a Brasília, passando pelo governador do Rio (um ator meio parecido com Sérgio Cabral _ ou com o presidente da Ancine, segundo outra fonte), ele parece não exatamente esgotar a questão, mas dar um grito de revolta, embora também pareça saber que essa indignação no fundo é pueril.

    ***

    Acabamos de acabar a versão mais curta (com 2min30s) de "Rarefactum", documentário que tive a honra de montar e fazer o desenho de som. Parece que ficou lindo, mas sou suspeito para falar. Eu estava mesmo precisando participar de um novo filme _ e agora continuo a precisar de outros. Que venham.

    ***

    E um feliz Natal para todos. Nos vemos por aqui, por ali, por acolá e por aí, neste resto de 2010 _ e, se por um acaso a morte ou o fim da civilização como a conhecemos não chegarem antes, em 2011.

    3 balas na tela:

    Marcelo V. disse...

    Já dá para ver o teaser de "Rarefactum": http://www.youtube.com/watch?v=e0xlkcC6RTQ

    Anônimo disse...

    Blz Marcelo?
    vi um comentario seu no overmundo, sobre direitos autorais. Estou produzindo um filme e estou com mesmo problema com relacao a trilha. Se puder,
    me escreva abdalla_marcos@yahoo.com.br
    Abraços
    Marcos

    Marcelo V. disse...

    Marcos, eu recomendo que você faça o que eu fiz: associe-se a um compositor para fazer a trilha sonora original.

    Na platéia