A gruta é mais extensa do que a gruta

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    domingo, dezembro 29, 2002

    Edifício Master

    Votuporanga tem um céu... inacreditável. Os paulistanos não sabem o que estão perdendo.

    Mas... então. Fim de ano é sempre a mesma coisa (a não ser que você esteja trabalhando em jornal diário): desligamento quase total. Nada de jornal, internet, telefone, TV etc. Só comida abundante, família, viagens. E etc.

    Daí que, ao voltar das festividades natalinas (neste ano, mais uma vez em Ribeirão Preto, casa dos meus primos Baw e “Superférias” Kbça _encontrei o Kiko Zambianchi no shopping, mas que coisa), fico chocado ao ler, na Discoteca Básica, que Joe Strummer morreu.

    Simplesmente não há palavras para descrever a importância desse cara na minha formação. Logo agora que ele estava voltando com tudo, com uma banda batizada com o exato nome do meu antigo bloco de Carnaval (Mescaleros), ele morre de ataque cardíaco aos 50 anos...

    R. I. P. Joe.

    Mas o legado do cara está em sua obra, e a vida continua. Falando em vida e obra, Eduardo Coutinho está entrando para a história como o maior documentarista do país. Veterano (entre muitas outras coisas, trabalhou anos no “Globo Repórter”, na época em que o programa ainda era feito em película), ficou muito tempo sem filmar, mesmo tendo emplacado uma obra-prima, “Cabra Marcado para Morrer”, considerado, em pesquisa recente, o melhor filme-documentário feito no Brasil.

    Coutinho (tive o prazer de ouvi-lo pessoalmente em mais de uma ocasião, nas quais pude testemunhar seu senso de humor e de ética) criou um método próprio de documentário: em vez daquele formato clássico de narração em off ilustrada por imagens e pontuada por entrevistas, ele ouve e retrata personagens, que são dispostos no filme um de cada vez, sem divisão temática. É, grosso modo, “cinema de gente”.

    E gente é a matéria-prima também de “Edifício Master”, seu filme mais recente, que assisti no dia 20 de novembro passado, com a presença do diretor. Mas também dizem que Coutinho pratica um “cinema de ouvido”, já que as vozes de seus personagens é que dão o tom de suas obras. O próprio documentarista classificou seu filme como “polifônico”... Uma obra que ouve as razões de seus personagens, mesmo quando não lhes dá razão. E que não traz outra trilha sonora que não a providenciada pelos seus protagonistas. E a música é justamente responsável por alguns dos momentos mais pungentes do filme...

    O Master é um edifício que fica em Copacabana, bairro do Rio em que morei por curtos 11 dias, durante a cobertura do Rock in Rio para a Ilustrada e o Folhateen, em janeiro de 2001. A minha amiga Viva já disse que é o bairro mais democrático do Rio de Janeiro... Mas, no filme, não vemos cenas externas (nem mesmo a fachada do prédio), apenas algumas janelas...

    São centenas de pequenos “apertamentos”, que foram visitados (e filmados) pela equipe de pesquisa de Coutinho, que só entra em contato com os personagens quando vai filmar para valer. Em cada um deles, um pequenino pedaço da vida de cada um, seja da menina sociofóbica que pinta e faz poesia; do senhor que conheceu o velho Francis Albert e canta, do jeito dele, “My Way”; o que chora ao lembrar que o chefe deixou ele faltar ao serviço para ir ao enterro da mãe; da jovem prostituta que gastou seu primeiro michê no McDonalds e que diz precisar acreditar em mentiras; da velhinha alegre e namoradeira que lembra de um asssalto; das irmãs “titias”, sendo que uma delas pinta “coisas impossíveis”; de um casal que briga, mas permanece junto, e de outro que se conheceu por um anúncio; e de tantos outros.

    “Edifício Master” mudou a vida das pessoas que retrata? Coutinho afirma que não. E a nossa? Pague (o ingresso) pra ver. Até 2003.

    Nota: 8,5/10

    sábado, dezembro 21, 2002

    Paraíso

    Aaaahhh... Nada como mudar de ares, né não?

    Pois, então. Eis que eis-me aqui de volta ao rincão votuporanguense, num calor de matar, com direito a Papai Noel invadindo minha casa e a velha árvore de Natal de plástico branco e bolas laranjas. Certas coisas continuam as mesmas desde os anos 70. Paraíso, não?

    A propósito: tem alguém aí? Jura? De qualquer jeito, ficam aqui meus votos de feliz Natal etc.

    Bom, prometi comentar aqui um inesperado evento: este site recebeu uma espécie de prêmio vindo de outro site, o Prato do Dia. Basicamente, o link para este recanto fica exposto lá por algumas semanas... Pelo menos não rola aquele golpe de o premiado ser obrigado a colocar um selinho com o link para o site “premiador”... pois o único selinho que eu colaria aqui de bom grado seria o sensacional Prêmio Blog Award Mamãe Achou o Máximo. E olha que nem esse eu coloco, para não bagunçar com o leiaute “clean” do CCE.

    Vamos deixar bem claro que não estou ironizando coisa nenhuma. Acho muito legal alguém se dar ao trabalho de indicar este site para outrem, assim como acho legal quando alguém põe um link para cá em seu site. “Linkar” é legal. “Linke” você também.

    Mas o engraçado da história é que o Prato do Dia não apenas indica os sites (que supostamente seriam blogs, mas, como eu já expliquei no FAQ, isto aqui não é um blog, apesar de ser hospedado pelo Blogger), mas comenta e dá notas para os mesmos _exatamente o que faço aqui com filmes. Crítica de sites é algo um tanto estranho, mas já que existem críticos de cinema, de literatura, de artes plásticas... por que não? Não me incomoda nem um pouquinho.

    Só que alguns critérios de avaliação me pareceram bem errôneos, para não dizer absurdos. Vá lá, opiniões diferem, graças a Lúcifer (falando nele, vocês estão comprando todos os meses a revista “Sandman Apresenta: Lúcifer”, não?). Mas vamos ver o que eles escreveram sobre os pontos negativos deste site: “Posts longos, chegam a ser cansativos. Pra piorar, não possui ilustrações e não dá respiro na leitura. Imagens e maior espaçamento entre os posts seria uma boa.”

    Bem, para começar, os textos não são longos. Não são, simplesmente. Até poderiam ser (e este talvez seja, por causa deste comentário “off topic”), mas eu realmente me preocupo com o tempo alheio, além de não pretender fechar questões nos meus textos, já que os mesmos servem, justamente, de estímulo para discussões mais aprofundadas, que ocorrem no espaço mais nobre deste logradouro, o sistema de comentários... Agora, dizer que os textos “chegam a ser cansativos”... bem, quem escreveu isto ou está fora de forma ou estava com preguiça ou anda precisando de óculos ou tinha acabado de disputar um triatlo.

    Também não entendi a história do “não dá respiro na leitura”. ????? E o pedido por “maior espaçamento” também é estranho. Ora, o site é atualizado semanalmente... Não está espaçado o suficiente?

    Mas absurdo mesmo é criticar o site por não possuir ilustrações (embora ele possua uma, feita pela pipocante Vanessa, que, por sinal, também foi premiada pelo Prato do Dia). Se fosse um site sobre fotografia ou artes gráficas, vá lá, mas trata-se de um site sobre cinema, que são fotos em movimento. E colocar trechos de vídeo pesaria muito.

    Em oito meses de CCE, foi a primeira vez que alguém levantou estas questões, por isso não as abordei no FAQ, mas vamos deixar bem claro: este site orgulha-se de ser baseado na linguagem escrita. Letrinhas, queremos letrinhas. Fotos? Ilustrações? Não, obrigado. Nossas imagens estão nas nossas cabeças, e isso basta. Até porque eu sou contra a padronização das idéias. Merci beaucoup, bon appetit.

    Agora vamos ao que interessa: “Paraíso” chamou a atenção, sobretudo, por ter roteiro do falecido cineasta polonês Krzysztof Kieslowski, responsável pela série “O Decálogo” e da tal “Trilogia das Cores”, entre outros belos filmes. A direção ficou por conta do alemão Tom Tykwer, o mesmo de “Corra, Lola, Corra” que, por sinal, ainda não vi (parece que os “indies” gostam, então temo que seja tão falsamente bom quanto “Clube da Luta”). E quem estrela é a eficiente Cate Blanchett e o “irmão-da-Phoebe-que-adora-derreter-coisas” Giovanni Ribisi _ambos já tinham atuado juntos no mediano “O Dom da Premonição”, de Sam “Spider-Man” Raimi.

    A história é simples (e bem narrada): professora inglesa residente na Itália deseja vingar o marido, assassinado por um traficante. Acaba presa, e um jovem policial se apaixona por ela. Daí...

    Olha, direto ao ponto: o melhor de tudo são as locações, deslumbrantes. Belíssimas tomadas panorâmicas feitas na Itália e na Alemanha _uma das interpretações possíveis é de que estas paisagens exuberantes façam referência ao paraíso, mas, blablablá. E quase não há trilha sonora, mas ela nem faz falta... E, coisa feia, o microfonão “boom” aparece em cena vááárias vezes... Erro primário, nos faz até pensar que poderia ter sido proposital, mas creio que não.

    Bom, agora nos aguardam o “Purgatório” e o “Inferno”. Falando em inferno, vocês estão lendo mesmo o “Lúcifer”? Olha lá, hein? Deus castiga.

    Nota: 7,5/10

    segunda-feira, dezembro 16, 2002

    Dívida de Sangue

    Época de férias (ou não, para quem trabalha em jornal diário, por exemplo), dá aquela preguiça, todo mundo desencanando... Mas vamos em frente, tentando não deixar a peteca cair, como diziam nos antigos programas infantis.

    Só que as férias trazem, geralmente, um pequeno problema para quem gosta de cinema: é a época de lançamentos dos chamados “filmes de verão”, os “blockbusters” (antigamente chamados de “arrasa-quarteirão”, mas o português é uma língua que evolui num mundo bobalizado, sacumé) _em especial, filmes para o público infantil (sem falar nos famigerados filmes natalinos), que abarrotam quase todas as salas, em versões dubladas... Bom para a molecada, mas ainda bem que passa rápido.

    A consciência de que a temporada de filmes-tranqueira estava prestes a começar veio a mim quando fui, ansioso, assistir ao filme mais recente do gigantesco Clint Eastwood, um dos maiores nomes do cinema norte-americano. Antes, porém, a titubeante Vanessa e eu tivemos de encarar, num domingo, 17 de novembro, no shopping Tatuapé (com uma decoração natalina muito legal, by Mauricio de Sousa), alguns dos trailers mais imbecis da história, como o do novo lançamento do Jackie Chan (nunca vi um filme com ele... parece simpático, longe do estereótipo “durão” dos filmes de ação), “The Tuxedo” _uma inacreditável história na qual qualquer um pode virar um agente secreto, desde que vista um “supersmoking... Mas o pior nem foi isso, e sim um outro filme debilóide de ação, nos moldes de “Triplo X” (alguém viu? É uma merda mesmo?), no qual o heroizinho marombeiro de araque DESVIA UM PROJÉTIL DE BAZUCA COM UMA BANDEJA DE INOX. Então, tá... Pelo menos faz mais sentido do que traduzirmos um termo corrente no inglês, "tuxedo", por uma palavra do mesmo idioma, "smoking".

    Mas é por isso e muito mais que, em termos de filme de ação, vale a pena banhar os olhos com Clint Eastwood, que, setentão, continua em forma, dando um banho nesses galãzinhos metidos a valentões. Preciso discorrer aqui sobre a importância desse cara, sobre as obras-primas que ele estrelou e as que dirigiu? Não, não preciso.

    Vamos falar de “Bloodwork”, então.

    Como o título evidencia (a tradução literal seria “Exame de Sangue”, mas a versão brasileira nem ficou tão ruim), o sangue é o símbolo central da obra. Clint interpreta um agente do FBI que tem um ataque cardíaco ao perseguir um misterioso “serial killer”, apelidado pela imprensa (que dá grande destaque ao protagonista, que, por sinal, detesta essa frescura de celebridade e, pensem a respeito, vive em um barco) de “assassino dos códigos”, por causa de suas mensagens cifradas deixadas nas cenas dos crimes.

    Aposentado por motivos médicos (quem cuida de Clint é Anjelica Huston), o velho policial sente-se na obrigação de voltar à ação após descobrir que o coração que recebeu em um transplante veio de uma vítima de assassinato: uma mulher mexicana.

    Não me agradam muito análises de filmes que ficam desdobrando todas as metáforas das obras, mas “Dívida de Sangue” é extremamente rico em significados. Claro que pode ser assistido numa boa como um mero policial, mas se você parar para pensar em todas as camadas de sentidos da película... tudo fica bem melhor.

    Então temos aí não só uma questão política (a conturbada relação entre EUA e México, também evidenciada pelo personagem Arrango, um detetive que inveja a fama de Clint e que, a certo ponto, diz: “você pode ter o coração de uma mexicana, mas nunca será um de nós”), mas também a questão dos holofotes da fama, além da esperta trama policial (que contém outros aspectos muito interessantes, mas que não vou abordar aqui, para evitar estragar as surpresas do enredo).

    Siiimmm, os “clichês-Clint” estão lá, e é isso que, ao mesmo tempo, enfraquece e dá certa graça ao filme _aquela sensação de que Eastwood continua o mesmo, o que pode decepcionar alguns e alegrar outros... Mas o roteiro, baseado em livro de Michael Connely, é muitíssimo bem-feito, e a direção de Clint é competentíssima, sem aqueles malabarismos de câmera imbecis nem aquela cenografia e fotografia desprezíveis desses diretores metidos a bestas que andam infestando o cinema e deslumbrando os bem-aventurados pobres de espírito.

    Ah: destaque para Jeff Daniels, um ator muito legal que poderia ser melhor aproveitado nos EUA. O personagem dele é uma figura, assim como o protagonista. Falando nele... Go ahead, Clint!

    Nota: 8/10

    P. S. Alguém colocou na internet uma reportagem que fiz há quase três anos, quando era repórter de ciência da Folha e colaborava com o caderno “Mais!”. O engraçado é que eu consegui enfiar cinema no meio de uma matéria sobre... grilos.

    terça-feira, dezembro 10, 2002

    Doze Homens e uma Sentença

    Não sei se é o fim do ano, mas está dando uma preguiiiça de escrever... Pelo menos eu afastei (temporariamente) a idéia de matar este site, o que esteve muito perto de acontecer.

    Mas já que o mau e novo CCE foi, até segunda ordem, absolvido, vamos falar de um outro julgamento, ops, de um filme, dirigido pelo importantíssimo Sidney Lumet, que já assinou mais de quarenta obras, entre elas clássicos como “Um Dia de Cão” (dá para esquecer Pacino gritando “Attica! Attica!”?) e “Rede de Intrigas”.

    “Twelve Angry Men”, lançado em 1957, é justamente a estréia de Lumet na direção. O filme, um projeto de seu protagonista, o fantástico Henry Fonda (aqui ele exerce, pela única vez em sua vida, o papel de produtor), foi baseado em um especial para a TV exibido três anos antes _e que foi refeito em 1997 por William Friedkin, eterno diretor de “O Exorcista”, estrelado por Jack Lemmon e George C. Scott.

    Como a TV, naquela época, era praticamente ao vivo, uma espécie de rádio com imagens, fica bastante óbvio o porquê de o filme ser tão teatral: quase toda a história se passa em um cenário, em tempo real. Há apenas uma externa, a cena final, na qual ficamos ficamos sabendo o nome do protagonista.

    O enredo pode ser resumido em poucas palavras: um jovem porto-riquenho é acusado de matar o pai a facadas. Na primeira cena do filme, vemos o garoto, com cara de assustado, no tribunal. O juiz pede para o júri se reunir em uma sala e definir o veredicto. A decisão, seja qual for, precisa ser unânime, e o júri deve permanecer isolado na sala até que esta unanimidade seja atingida.

    Os doze jurados se reúnem e, ao votarem pela primeira vez, o placar dá 11 a 1: apenas a personagem de Henry Fonda, com cara de santinho fumante e vestindo terno branco, tem dúvidas sobre a culpa do rapaz. Os outros membros do júri (composto de homens das mais variadas procedências: há o velhinho, o relojoeiro imigrante, o publicitário, o corretor da bolsa, o xenófobo, o-fã-de-esportes-que-está-desesperado-porque-vai-perder-o-jogo-de-beisebol, o humilde, o durão que brigou com o filho _bela interpretação de Lee J. Cobb_, o de óculos, o “chefe”, o quietinho...) estão com pressa, morrendo de calor, querem ir embora, mas precisam fazer o Fondão (que, pasmem, formou-se em jornalismo, além de ser pai do Peter e da Jane) mudar de idéia. Só que...

    O roteiro, de Reginald Rose (um dos mais importantes roteiristas de TV dos EUA, que fez de “Além da Imaginação” a “Fuga de Sobibor”), é muito bem encadeado. Toda a força do filme está nos diálogos, as imagens de destaque são poucas. Trata-se de uma grande discussão de temas morais, na qual as idiossincrasias de cada personagem são muitíssimo bem exploradas.

    Muito mais do que um mero filme de tribunal (vocês já viram “Anatomia de um Crime”, do Otto Preminger, com o James Stewart e o Ben Gazzara? Nãããooo???), “Doze Homens e uma Sentença” é uma obra-prima da tolerância. É de estranhar que o filme, apesar de aclamado pela crítica na época e hoje reconhecido como clássico, tenha sido um fracasso desastroso nas bilheterias norte-americanas? É Fonda...

    Nota: 9/10

    quarta-feira, dezembro 04, 2002

    O Casamento Grego

    A crise tá braba, não?

    Pois justo no momento em que estou tendo de arcar com despesas mensais de cerca de R$ 2.000, os frilas para a Folha e a Abril, que praticamente me sustentavam, minguaram. Agora me vejo em meio à pior crise financeira de toda a minha existência, obrigado a me dedicar menos aos estudos (minha prioridade no momento) e a voltar a trabalhar em tempo integral, para conseguir pagar as contas e ajudar a família.

    Então está, novamente, aberta a temporada de caça ao emprego. Se algum dos leitores deste humilde rincão internético souber de uma vaga, em São Paulo, para um jornalista/roteirista/tradutor/revisor/etc. com duas faculdades no currículo, mais pós-graduação nos EUA (University of California, Berkeley), oito anos de experiência em empresas de grande porte (as supracitadas e outras mais, como o “Diário de Pernambuco”), sério, responsável, competente, esforçado, honesto e completamente apaixonado pelo trabalho, é comigo mesmo, uh yeah.

    Agora que já preenchi a minha cota de humilhação pública, vamos falar de “My Big Fat Greek Wedding”, um “fenônimo”, como dizia um afoito torcedor do Ronaldinho que encheu o saco de tanto aparecer no “Globo Esporte” na época da Copa.

    O filme saiu da cabeça da atriz Nia Vardalos, que montou o texto como peça, antes de receber a proposta de transformá-la em filme... de Tom Hanks. É, como se não bastasse o Forrest Náugrafo ganhar uns US$ 20 milhões por filme, o “cara mais legal em Hollywood” ainda enche a burra de dinheiro ao produzir um dos filmes mais lucrativos da história _sim, “O Casamento Grego” custou cerca de US$ 5 milhões e já faturou mais de US$ 200 milhões, uma margem de lucro ainda maior do que a do brilhante “A Bruxa de Blair”... A própria Nia Vardalos diz ter ganho apenas US$ 70 mil para protagonizar o filme... Coidilôco.

    Entonces, “O Casamento Grego” é o que se chama de “comedinha simpática”. Dá pra dar muita risada, especialmente se você é felizardo o suficiente para se identificar com a imensa família da protagonista (que lembra demais a minha, embora os meus costumem beber um pouco mais e fazer ainda mais barulho, ao entoar músicas bem mais bregas).

    As gags surgem basicamente das idiossincrasias dos familiares da moça, especialmente do pai (Michael Constantine), uma figuraça que tem mania de usar windex (limpa-vidros) como bálsamo para todos os males e ficar dizendo que todas as palavras existentes têm raiz grega. Também se destacam a prima vagaba, o irmão “bronco, mas sensível” (se é que isso faz algum sentido), e a pequena família do noivo de Toula Portokalos, já que o choque cultural é outro importante ingrediente do grude todo.

    Talvez contribuam para a popularidade do filme (mas não para a sua qualidade) os momentos sentimentalóides-clichê, que fazem de “O Casamento Grego”, no final das contas, uma obra totalmente tradicional e nem um pouco revolucionária _a não ser pela sua lucratividade... Daí os homens de marketing se tocam de que, em tempos de tensão por causa de guerra e de crise econômica, o povo quer mais é ver comedinhas românticas no cinema, e não películas ácidas como “O Articulador”...

    Mais uma coisa: Nia Vardalos é bonita. Bem bonita mesmo (como dizem os irredutíveis gauleses no álbum “Asterix e Cleópatra” _o qual não vi em filme, recém-lançado_, “que nariz, que nariz!”). Isso pode não ser óbvio, já que ela é enfeiada durante boa parte do filme, representando o velho arquétipo do patinho feio que já vimos em milhões de obras, de belezas como “Sabrina” a bombas como “Love Potion Number 9”...

    Também é necessário dizer que só vi este filme por causa da convincente Vanessa, no Arteplex da Frei Caneca, em 10 de novembro, após um almoção gostoso e barato, mas não tao apetitoso quanto os carneiros assados na frente da casa da família Portokalos. Dracmas para todos. Opa!

    Nota: 6,5/10

    sábado, novembro 30, 2002

    Fale com Ela

    Almodóvar mudou muito. Assim como a Espanha.

    Quando lembro de “Matador”, “A Lei do Desejo”, “Ata-me”, “De Salto Alto”, “Kika” etc., estão ali, de maneira bastante explícita, o “underground”, as drogas, o sexo, o crime, em uma Espanha ultracatólica (e, portanto, homofóbica, machista e intolerante em diversos aspectos _o divórcio, como no Brasil, era ilegal, por exemplo) que, após passar por quase quarenta anos de ditadura, encabeçada pelo “generalíssimo” Franco, lentamente foi encontrando espaço para respirar. E Almodóvar respirou fundo.

    Com “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”, as coisas começaram a mudar. O diretor mergulha um pouco mais fundo no melodrama, mas ainda há ali uma certa histeria, que provavelmente afastou um público avesso à provocação.

    Tema semelhante aparece em “A Flor do Meu Segredo” (o filme dele que menos gosto), ao mesmo tempo em que “Carne Trêmula” retrocede um pouco ao Almodóvar mais, digamos, “mundo cão”.

    Mundo cão que aparece também em “Tudo Sobre Minha Mãe”, ainda o meu preferido. Mas ali, o submundo do homossexualismo, representado em grande parte pelo travesti Agrado (grande interpretação de Antonia San Juan), perde bastante espaço para o melodrama, para a novelona mexicana que permeia todo o enredo. Almodóvar, talentoso como poucos, consegue manter o equilíbrio e passa uma absurda verossimilhança à história.

    “Fale com Ela” (seu 14º filme), apesar de menos impressionante, dá alguns passos adiante. Não vemos, explicitamente, o mundo das drogas, das ditas “perversões” sexuais, da violência (a não ser da violência contra os touros) etc. O “submundo”, desta vez, é ainda mais profundo, aterrador e misterioso: é o coma. E quem entra em coma são as mulheres, tradicionais protagonistas dos filmes do espanhol _não por acaso, são elas que aparecem no pôster do filme.

    O enredo: Benigno (Javier Cámara), um rapaz tímido que vive a cuidar da mãe doente, encanta-se por Alicia (Leonor Watling), uma menina que faz aulas de dança em frente à sua casa. Quando ela entra em coma, ele se apresenta como enfermeiro, e passa a cuidar dela com dedicação ímpar. Marco (Darío Grandinetti) é um escritor/jornalista que se envolve com Lydia (Rosario Flores _existe nome mais espanhol do que este?), uma famosa toureira (uma estocada no machismo), que também entra em coma após levar uma chifrada (de um touro, não do Marco). Alguém aí lembrou dos Silvas?

    Bom, as personagens femininas principais do filme estão paralisadas e em silêncio. Isso fez muita gente afirmar que Almodóvar desta vez resolveu focalizar mais o universo masculino, mas não sei se posso concordar com isso. Mesmo que os homens assumam quase toda a ação na obra, é justamente em função das mulheres que a história se desenrola. “O cérebro das mulheres é um mistério. Ainda mais neste estado”, diz Benigno a Marco, tentando fazer com que o seu novo amigo tenha uma relação melhor com sua namorada enferma.

    Ainda falando nas atrizes do filme, vale a pena ressaltar a participação especial de Geraldine Chaplin (a filha do homem) e de Elena Anaya (Ángela, primeira paixão de Marco) e Paz Vega (a “mulher gigante” do curta em preto-e-branco que surge no meio da obra), que encheram os nossos olhos em “Lucía e o Sexo”.

    Mas “Hable con Ella” é também um filme sobre a música _e, especialmente, a dança. Começa com uma coreografia de Pina Bausch, passa pelas lições de dança de Alicia, pelos passos de Lydia na arena de touros e pelo ritual de Benigno ao banhar Alicia. E além.

    A música, como já se falou muito, é também brasileira: em uma das cenas mais belas da obra, Lydia toureia ao som de Elis Regina interpretando Tom Jobim (que é citado por Marco em outra cena). Em outra, bem mais forçada, em tom de homenagem, de carinho mesmo, Caetano Veloso reinterpreta a tristonha “Cucurrucucú Paloma”.

    Enfim, se Almodóvar está mais “maduro” ou “contido”, é ainda cedo para afirmar. Mas o homem, além de filmar bem para cassete e de escrever romances fantásticos (não distorçam minhas palavras), consegue, fora de Hollywood (Oscar? E ele lá precisa disso?), lotar uma sala de cinema do bananal às 18h de uma quarta-feira...

    Nota: 9/10

    domingo, novembro 24, 2002

    48 Horas

    Há algumas semanas tive o prazer de conhecer o Museu do Cinema do sr. Antonio Vituzzo, dono de um acervo incrível de aparelhos cinematográficos. E, entre eles, uma pequena preciosidade: uma câmera que pertenceu ao diretor carioca Alberto Cavalcanti (1897-1982).

    E eis que, pouco tempo depois, o nome de Cavalcanti reaparece, ao ganhar uma retrospectiva na 26ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo _incluindo filmes feitos no Brasil, nos estúdios da Vera Cruz (eita, São Bernardo do Campo), como “Simão, o Caolho” (1952).

    Só que... a maioria de vocês provavelmente nunca tinha ouvido falar em Alberto Cavalcanti, certo?

    Infelizmente, não é de estranhar. Um dos cineastas brasileiros com mais prestígio no exterior _há quem diga que ele é mais conhecido do que Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos ou Anselmo Duarte... experimente fazer uma pesquisinha no Google ou similares, para tirar a prova_, em especial na Europa (mais particularmente no Reino Unido e na França, onde trabalhou por muitos anos), Cavalcanti é pouco lembrado por aqui. É uma pena. E uma injustiça.

    Mas vamos deixar de choradeira e falar desta belezura que é “Went the Day Well?”, batizado nos EUA de “48 Hours” (não, não é aquele com Eddie Murphy e Nick Nolte), de onde saiu o título nacional. Para começo de conversa: o filme foi feito na Inglaterra. Em 1942.

    Bom, estamos mais do que calvos de saber que aquela simpatia do Adolfinho Hitler e seu garboso amiguinho Benito Mussolininho estavam delicadamente tocando o terror por lá na época. E que o senhorito Winston Churchillzinho veio com aquele papo de sangue, suor e lágrimas e blablablá (como estamos em guerra novamente, sempre é bom lembrarmos de como a sociedade se comporta nesse caso _e sobre como os governantes, sejam “do mal” ou “do bem”, como se isso existisse, a manipulam).

    Bueno, então é óbvio que “48 Horas” é um filme do esforço de guerra inglês, ou seja, propaganda. E que foi feito numa época de precariedade de recursos. E etc., porque eu nem precisava dar este contexto todo, já que nosso crânio comporta numerosas células que dão conta do recado.

    Enfim: o filme conta a história de um vilarejo chamado Bramley. Em 1942, um pequeno exército alemão infiltra-se na cidade, disfarçado de britânico (é um tanto estranho que alemães consigam se passar tão bem por ingleses, mas façamos vista grossa, porque a situação da época era mais grossa ainda). Eventualmente, acabam sendo descobertos, e aí começa o “caflito”, como dizia o velho Didi Mocó Sonrisel Colesterol Novalgino Mufungo.

    O enredo nem interessa tanto, serve mais para dar um exemplo de coragem em tempos de adversidade... e filmes mais definitivos sobre a Segunda Guerra foram e têm sido feitos (de “O Grande Ditador” à série “Band of Brothers"). Interessante mesmo é observar o talento narrativo de nosso conterrâneo... Basicamente, o cara sabia filmar. Agora, só falta você assistir.

    Nota: 8,5/10

    terça-feira, novembro 19, 2002

    Madame Satã

    Para quem mora em São Paulo, Madame Satã é o nome de uma casa noturna que foi badalada nos anos 80 e que foi reinaugurada há algum tempo... Mas para quem mora no bairro carioca da Lapa, Madame Satã era “um viado bravo, que batia até em polícia e que ficou preso na Ilha Grande” (segundo um dos transeuntes do bairro, entrevistados pela produção do “making of” do recém-lançado longa de Karim Aïnouz)...

    O personagem já havia sido retratado (de maneira enviesada) em “Rainha Diaba” (1974), de Antonio Carlos Fontoura, com Milton Golçalves e Stepan Nercessian _embora o diretor deste tenha dito que não havia se inspirado em João Francisco dos Santos, o Satã (ainda vivo na época), a associação parece evidente.

    Assisti ao longa de estréia de Aïnouz (arquiteto que viveu um bom tempo em Nova York) no dia 1º de novembro, pouco depois de ele ser exibido na “Mostra”, mas ainda antes de sua estréia comercial propriamente dita. Após o filme, o diretor contou que demorou sete anos para realizar o projeto... Da idéia até a finalização do longa, ele angariou prêmios, investidores internacionais e contou com uma forcinha de Walter Salles (Aïnouz é um dos roteiristas de “Abril Despedaçado”).

    Tratar de uma figura tão mítica quanto o Satã não é fácil. Aïnouz declarou que mudou bastante o roteiro no decorrer do projeto, e o protagonista, o jovem baiano Lázaro Ramos, declarou que desistiu de tentar compreender o personagem... A solução foi elaborar uma pequena biografia abordando o período em que João Francisco dos Santos busca seu sonho de ser uma estrela de cabaré, mas acaba sofrendo os preconceitos mil de praxe (por ser preto, pobre e bicha) e vai parar no xilindró. Ou seja, os supostos acontecimentos que levaram João Francisco a se tornar Madame Satã _por sinal, título vindo de um musical de 1930, dirigido por Cecil B. DeMille...

    Totalmente filmado em locações, “Madame Satã” espia por trás da cortina a boemia da Lapa carioca dos anos 30. As músicas da época (em especial a clássica “Se Você Jurar”, de 1931, composta por Francisco Alves, Ismael Silva e Nilton Bastos, e interpretada por Mário Reis _personagem enfocado por Júlio Bressane no bom “O Mandarim”), as roupas, a malandragem, a capoeira Angola (as cenas de luta são muito bem feitas)... um pouco de tudo está lá. Assim como o homoerotismo masculino, que, a certo ponto, causou frisson na platéia, devido à sucessão de cenas de pegação...

    A fotografia do badalado Walter Carvalho é bem contrastada, e os planos são bastante fechados, concentrando-se nos corpos dos personagens. Mas, apesar do apuro visual, o grande trunfo do filme é a interpretação brilhante de Lázaro Ramos, bem apoiado por coadjuvantes de respeito, como Marcélia Cartaxo, Renata Sorrah, o subestimado Emiliano Queiroz e o destaque Flávio Bauraqui, como Tabu.

    Taí, mais um exemplo do novo cinema brasileiro: barato, eficiente, um tanto incômodo... Só falta vender bastante ingresso.

    Nota: 8/10

    P.S. Leiam. E que se instale a polêmica.

    quarta-feira, novembro 13, 2002

    A Teia de Chocolate

    Iurrú.

    A edição número dois de “Hellblazer” já está disponível nas melhores bancas e lojas especializadas do país (e também aqui). Quem já conhece o velho John Constantine sabe que a coisa é boa.

    Falando em coisa boa, “A Teia de Chocolate” é um belo de um belo filme. A teatral Vanessa não gostou e ficou com sono _talvez por se tratar de um thriller que não eleva a tensão a picos, que não tenta nos manipular pela emoção. É um filme frio, narrado à moda antiga, com sobriedade.

    O diretor, Claude Chabrol, é veteraníssimo. Um dos principais representantes da “nouvelle vague” (Truffaut, Godard, Rohmer, “Cahiers du Cinéma”, blablablá), com mais de quarenta filmes no currículo, já foi chamado, não sem certa razão, de “o Hitchcock francês”.

    Adaptado de um romance, “Merci pour le Chocolat” enfoca a família de André, um famoso pianista (chegado em soníferos _rohypnol, a “droga do estupro”_ e, aparentemente, num Grecin 2000), casado com uma executiva de uma fábrica de chocolates, Mika (a ótima Isabelle Huppert, que protagonizou a versão de Chabrol para “Madame Bovary” e que apareceu embagulhada em “8 Femmes”). Mika era a melhor amiga da primeira mulher de André, Lisbeth (mãe de Guillaume), que morreu em um acidente de carro _após “dormir” no volante.

    Paralelamente, somos postos em contato com a história de Jeanne (a bela Anna Mouglalis), uma jovem estudante de piano que descobre um curioso fato: ao nascer, teria sido trocada por Guillaume no hospital. A troca teria sido desfeita após a confusão.

    Encasquetada com a revelação, Jeanne faz uma visita a André, e a empatia entre os dois é evidente. Ele a convida para estudar com ela, o que provoca ciúmes em Guillaume... e em Mika.

    A partir daí, o clima da obra evoca o suspense de “O Bebê de Rosemary”, por exemplo. A verdade vai sendo descascada aos poucos, no ritmo lento e preciso do filme, embalado por uma trilha sonora deliciosa _não por acaso, trata-se do “Funeral”, de Liszt...

    Nota: 8,5/10

    P. S. Falando em "Cahiers du Cinéma", este site mostra as listas dos dez melhores filmes do ano segundo a famosa publicação. Começa em 1951 (ano em que André Bazin co-fundou a revista) e vai até 2001, ano em que o vencedor foi "Mullholland Dr." _mas há janelas, pois em alguns anos a lista não foi montada... Para quem tiver preguiça de clicar no link, aqui vão algumas observações a respeito das listas:

    _Não há nenhum filme brasileiro (era de se esperar?)
    _Em 1951, “A Malvada” (Mankiewicz) bateu “Crepúsculo dos Deuses” (Wilder)
    _Em 1955, “Viagem à Itália” (Rosselini) bateu “Janela Indiscreta” (Hitchcock), que, por sua vez, bateu “A Estrada da Vida” (Fellini)
    _Em 1957, “Um Rei em Nova York” (Chaplin) bateu “Noites de Cabíria” (Fellini) e “O Homem Errado” (Hitchcock)
    _Em 1958, “A Marca da Maldade” (Welles) bateu “O Sétimo Selo” (Bergman) e “Meu Tio” (Tati)
    _Em 1959, “Hiroshima Meu Amor” (Resnais) bateu “Rio Bravo” (Hawks), “Morangos Silvestres” (Bergman) e “Um Corpo Que Cai” (Hitchcock)
    _Em 1960, “Psicose” (Hitchcock) ficou em nono
    _Em 1963, “O Professor Aloprado” (Lewis) bateu “8 1/2” (Fellini), mas perdeu para “O Anjo Exterminador” (Buñuel), que perdeu para “Os Pássaros” (Hitchcock)
    _Em 1967, “Persona – Quando Duas Mulheres Pecam” (Bergman) bateu “A Bela da Tarde” (Buñuel)
    _Em 1981, “Touro Indomável” (Scorcese) ficou em oitavo
    _Em 1984, “E La Nave Va” (Fellini) bateu “Paris, Texas” (Wenders), que bateu “Era uma Vez na América” (Leone)
    _Em 1985, “O Ano do Dragão” (Cimino) bateu “Ran” (Kurosawa)
    _Em 1988, “Bird” (Eastwood) bateu “A Última Tentação de Cristo” (Scorcese)
    _Em 1989, “Faça a Coisa Certa” (Spike Lee) ganhou de todo mundo
    _Em 1990, “Os Bons Companheiros” (Scorcese) bateu “Sonhos” (Kurosawa)
    _Em 1991, “Barton Fink” (Coen) bateu “O Poderoso Chefão 3” (Coppola), que bateu “Edward Mãos-de-Tesoura” (Burton), que bateu “Rapsódia em Agosto” (Kurosawa)
    _Em 1992, o campeão foi “Os Imperdoáveis” (Eastwood), e “Maridos e Esposas” (Allen) ficou em quarto
    _Em 1993, dobradinha de Eastwood com “Um Mundo Perfeito”, que bateu Oliveira, Rohmer, Resnais, Landis, Ferrara, Godard...
    _Em 1994, “Caro Diário” (Moretti) bateu “O Pagamento Final” (De Palma) e “Madame Butterfly” (Cronenberg)
    _Em 1995, “As Pontes de Madison” (Eastwood) bateu “A Flor do Meu Segredo” (Almodóvar) e “Ed Wood” (Burton)
    _Em 1996, “Crash – Estranhos Prazeres” (Cronenberg) foi o campeão, batendo “Cassino” (Scorcese), “Dead Man” (Jarmusch) e “Missão: Impossível” (De Palma)
    _Em 1997 deu “Hana-Bi” (Kitano) na cabeça, com “A Estrada Perdida” (Lynch) em terceiro e “Pânico” (Craven) e “A Outra Face” (Woo) empatados em nono
    _Em 1998, “Velvet Goldmine” (Todd Haynes) ganhou de “Olhos de Serpente” (De Palma), e “Jackie Brown” (Tarantino) empatou em décimo com “Titanic” (Cameron)
    _Em 1999 deu “De Olhos Bem Fechados” (Kubrick), batendo “eXistenZ” (Cronenberg), “A História Real” (Lynch) e “Ghost Dog” (Jarmusch)
    _Na eleição dos melhores dos 90, mudou tudo: deu “O Pagamento Final” (a lista é dominada pelos americanos, e Clint Eastwood aparece com dois filmes)
    _Em 2000, “Missão: Marte” (De Palma) bateu “As Virgens Suicidas” (Sofia Coppola) e “Cowboys do Espaço” (Eastwood)
    _Jerry Lewis aparece em vários anos com filmes semi-desconhecidos, mostrando sua maior popularidade entre os críticos europeus do que entre os de seu próprio país (Woody Allen sofre do mesmo mal)...
    _Clint Eastwood é foda. Vocês não vão perder "Dívida de Sangue", vão?

    quinta-feira, novembro 07, 2002

    Rio Vermelho

    A novidade chata da semana (bem, apenas uma delas, na verdade) é o fim do programa “Garagem”, que eu escutava fielmente desde agosto de 1999 na Brasil 2000. Inclusive, tive o prazer de apresentar uma edição do programa ao lado do Paulão (Paulo César Martin, que foi meu editor no Folhateen), em janeiro de 2001, na ressaca do Rock in Rio _eu não dormia há mais de 24 horas por causa da cobertura do festival, estava sendo transferido de volta para a Ilustrada, prestes a começar a coluna “Rádio”, e o Paulão estava abalado pelo fim do “Notícias Populares”. Mesmo assim, foi divertidíssimo: entrevistamos os Vibrators (você nunca ouviu "Automatic Lover"?), remanescentes da cena punk-77 inglesa, tomamos cervejas e tiramos fotos (que eu até colocaria aqui... mas não), além de termos tocados músicas de alguns dos meus discos, entre eles um do 101ers (Joe Strummer antes do Clash) e a obra-prima do Who, o “The Who Sell Out”...

    Coincidentemente, encontrei o Paulão na terça passada (também conhecida como "anteontem"), um dia após a transmissão do último “Garagem”, e ele me disse que já fizeram uma reunião na 89, e que talvez o programa volte em breve... Bom, enquanto o programa (repetitivo? Vá lá, mas divertido assim mesmo) não voltar, eu não escuto mais rádio.

    Bueno, agora vamos falar de... faroeste. Gênero importantíssimo não apenas para o cinema, mas para as histórias em quadrinhos, para a literatura, para a televisão, enfim, para uma boa fatia da arte e da indústria do entretenimento no século XX.

    Ora, quem aí, nascido no século XX, nunca viu uma revistinha do “Tex” (ou “Ken Parker”, “Tenente Blueberry” etc.)? Quem aí nunca viu pelo menos um trecho de um episódio de “Bonanza”, “Maverick” ou “Laramie”, entre muitos outros? Quem nunca brincou de forte apache (e não ouviu falar dos comanches, dos sioux, dos navajos, dos cheyennes, dos moicanos, dos cherokees etc.)? E olha que nem citei o Bob Nelson... opa.

    Quando o cinema surgiu, no final do século XIX, a “conquista” (nem vamos entrar aqui na discussão histórica de como os EUA compraram territórios, como o do Alasca, e roubaram outros do México) do Oeste norte-americano era um fato recente. Histórias envolvendo personagens como Buffalo Bill, Wild Bill Hicock e Billy The Kid (mas como tinha Bill naquela época, hein?), por exemplo, estavam na boca do povo, e não era de surpreender que o cinema viesse a contar histórias de cowboy. Daí surgiram estrelas como Tom Mix, entre outros (um filme interessante sobre este nicho do cinema é a comédia “Three Amigos”, com Steve Martin, Chevy Chase e Martin Short, que acabou inspirando Los Três Amigos de Angeli, Glauco e Laerte)...

    Depois vieram os longas mais clássicos (são demais para serem citados), como “No Tempo das Diligências”, de John Ford... Mais para a frente, surgiria também o tal do “western spaghetti”, do qual o exemplo mais popular talvez seja “The Good, The Bad and the Ugly”, do Sergio Leone (diretor do primoroso "Era uma Vez na América", com Robert De Niro e James Woods), estrelado por Clint Eastwood e com trilha sonora clááássica de Ennio Morricone.

    E o velho bang-bang (este rótulo é sensacional), quem diria, chegou até aos anos 90, com “Os Imperdoáveis” (o velho Clint, de novo) e “Rápida e Mortal” (estrelado por Sharon Stone, Gene Hackman, Leonardo DiCaprio e Russell Crowe, dirigido Sam Raimi, de “Evil Dead” e “Homem-Aranha”)...

    Mas o que me motivou a escrever toda essa baboseira foi “Rio Vermelho”, um filme de 1948, dirigido por um dos maiores nomes do estilo nos EUA, Howard Hawks (que também faria “El Dorado”, entre outros), e estrelado pelo maior caubói do cinema, John “Nazi” (ei, quem disse isso foi o MDC) Wayne, e por um dos meus atores preferidos dos anos 40, Montgomery Clift (amigão da Elisabeth Taylor e gay enrustido, tipo Rock Hudson). Vi este filme no Telecine Classic, às 7h50 de uma terça-feira de outubro, quando tinha acabado de voltar de Votupa, num ônibus pinga-pinga...

    O que me chama a atenção neste filme é o fato de haver pouquíssima violência, e a tensão que o permeia é... bom, não vou falar para não estragar a surpresa. “Rio Vermelho” é, sim, um faroeste tradicionalzão em vários aspectos, mas brinca com o gênero ao nos pregar certas peças, além de apresentar situações bastante bem-humoradas, como a do velhinho que perde as dentaduras num jogo de poker com um índio, e precisa pedi-las emprestado toda vez que for comer...

    A história é a seguinte: John Wayne é um caubói que perde a mulher quando a caravana onde ela estava (ele tinha seguido em frente para checar o terreno) foi atacada por índios malvados (sim, os índios eram sempre os malvados, desde que o Kevin Costner não estivesse no filme). Amargurado, o velho rancheiro segue em frente e adentra o Texas, onde vai grilar um bocado de terra de um chefão chicano. Filho da puta como ele só, a personagem de Wayne enriquecerá matando gente e roubando gado dos seus vizinhos, sempre bancando o durão. Não sem antes fazer pelo menos uma boa ação: ele adota um garoto que também perdeu a família e que, crescido, torna-se, oh, quem diria, o Montgomery Clift.

    Depois de rico, dono de um dos maiores ranchos do Texas, com quase 10.000 cabeças de gado, o seu Wayne fica cansado de toda aquela pasmaceira da vida no sertão e resolve partir em uma missão maluca e suicida: planeja viajar milhares de quilômetros para vender todo o seu imenso rebanho em outro Estado, tendo de enfrentar as intempéries do tempo, os estouros da boiada, a falta de suprimentos (e de mulher, que puxa), as gangues de ladrões etc.

    Mas como o caubói machão é um tremendo de um tirano cabeça-dura, vai acabar criando encrenca com seus empregados e terá de enfrentar um motim... liderado pelo próprio Monty Clift, a quem ele ama como se fosse seu filho. Mas, como o cara é “muito macho”, isso não o impedirá de meter uma bala em seu bucho e deixá-lo servir de alimento aos abutres... se ele tiver esta chance.

    É a partir daí que se instala a tensão, baseada em um velho arquétipo: duas pessoas que se amam tornam-se inimigos mortais (já vimos isso em “Ben-Hur” e em centenas de outros filmes). Só que... ah, não vou contar mais, não. Vai atrás do filme, vai.

    Nota: 9/10

    segunda-feira, novembro 04, 2002

    Fora de Controle

    Este é mais um daqueles filmes que você vai ver porque não há nada melhor para ser visto. Produção hollywoodianazinha típica, que pega dois atores “hypados” e os coloca em conflito (dá para fazer uma lista enorme com filmes americanos desse tipo).

    E que ator é melhor de briga do que o velho “Bad Motherfucker” Sammy? Também dá para fazer outra lista enorme ligando o sr. L. Jackson a outros protagonistas da moda, brigando para salvar o mundo ou alguns reféns ou a própria pele etc.

    Desta vez a perrenga é com o tal do Ben Affleck, um nome ainda relativamente novo em Hollywood, que galgou seu lugar ao sol após escrever, em conjunto com o merengue de jiló Matt Damon, o roteiro (futuramente oscarizado) de “Gênio Indomável”, um filmeco razoável. Depois, o cara encarou uma série de “blockbusters”, como “Armageddon”, “Pearl Harbor” e “A Soma de Todos os Medos”.

    Zzzzzzz... Ãhn... Oi!

    Mas este “Fora de Controle” (“Changing Lanes”), assistido no cinemark do shopping Tatuapé com a boa de prato Vanessa, se concentra mais nos dilemas morais do que na ação propriamente dita. A história até que é simples: Sammy é um pai de família alcoólatra e de perfil violento, que luta para ficar perto dos filhos (já que sua ex-mulher planeja mudar-se de Nova York para Portland, ou seja, do outro lado do continente). Mas, ao se dirigir para o tribunal, onde mostrará que irá comprar uma casa para os meninos, é atingido pelo carro de Mal Affleck, um advogado que trabalha para seu futuro sogro (o diretor/ator Sydney Pollack, mais uma vez no papel de rico canalha).

    Por causa da batida, Sammy Leroy, que é abandonado na via expressa por Affleck, chega atrasado à corte e perde a chance de manter sua família unida. E, como shit happens, ele se apodera de um importante documento que Affleck deixou cair na confusão após a batida. E, furibundo, para não dizer putaço, Sammy irá se vingar... o que mexe também com os brios de Affleck, que revidará... e aí a briguinha segue pelo filme todo.

    Até que a idéia não é tão ruim, mas o filme (a estréia nos EUA do diretor inglês Roger Michell, o mesmo do bom “Um Lugar Chamado Notting Hill”) deixou a desejar e frustrou minhas (não muito grandes) expectativas. É como diz Affleck para um padre, a certo ponto: “O mundo é sujo, como uma privada”. Este filme não chega a tanto, até porque você se esquece dele rapidinho...

    Nota: 6/10

    quarta-feira, outubro 30, 2002

    Rocha Que Voa


    Eu havia visto Eryk Rocha falar na série de debates “Estética x Cosmética da Fome”, mas não me impressionei muito. Basicamente, ele veio com o discurso da necessidade de experimentalismo na arte, disse que o cinema nacional não deve ficar apenas no eixo RJ-SP e outras idéias não necessariamente novas.

    Mesmo assim, estava curioso para ver seu filme “Rocha Que Voa”, que enfoca a passagem de seu pai, o eternamente polêmico cineasta Glauber Rocha, por Cuba, país visto à época como exemplo de liberdade e de democracia (!) a ser seguido por toda a América Latina, de acordo com os ideais da intelectualidade de esquerda, dita, nunca entendi exatamente por quê, “progressista”.

    E o filme é guiado, em grande parte, por entrevistas que Glauber deu para rádios da ilha de Fidel Castro, nas quais ele fala um portunhol muito do vagabundo. O discurso que Glauber esparramava era repetitivo e lotado dos clichês do marxismo. Palavras como “burguês”, “dialética” e “revolução” são marteladas incontáveis vezes. O cineasta-personagem glorifica Che e, segundo depoimentos, considerava os cubanos o único “povo latino-americano forte e feliz”.

    Política (tema capital na vida e no trabalho de Glauber) à parte, o filme pode interessar não apenas aos aficionados pelo artista, mas também àqueles que se seduzem com a ilha próxima a Miami. Paisagens (algumas muito belas) e anônimos desfilam pela tela, misturando-se a cenas dos filmes do retratado e de seus pares cubanos, enquanto a voz de Glauber ou os depoimentos, seja de representantes do povo cubano ou de cineastas do local, sendo o mais célebre deles o veteraníssimo Tomás Gutierrez Alea ("Morango e Chocolate", lembra?), invadem nossos ouvidos.

    A forma (plástica, pelo menos) mais tradicional de documentário é quebrada aí, já que as imagens são tratadas de maneira extremamente heterogênea, os enquadramentos não necessariamente revelam o rosto do depoente, que, na maior parte do tempo, fala em off, como Glauber.

    O problema é que o filme acaba por ser um tanto dispersivo justamente porque exibe informação em excesso, dando a impressão de que poderia ser um pouco mais curto. Talvez por isso um dos destaques da obra seja justamente a parte onde Tereza (“Teca”, para Glauber), namorada cubana do diretor de “Der Leone Have Sept Cabeças”, dá o seu depoimento e mostra poemas que Glauber fez para ela, dando ao documentário um pouco de leveza.

    Falando em leveza, como me sinto bem naquele anexo do Espaço Unibanco! Imagino que muita gente não goste das salas (a de número quatro, onde eu vi o filme em 2 de outubro com a engambelante Vanessa, era a única que eu ainda não conhecia) por causa do tamanho reduzido das telas, mas aquela casinha, aquele quintalzinho bonito destoa tanto da São Paulo imunda e violenta que aturamos... e o ingresso saiu apenas por R$ 3!!!

    Nota 7/10

    sexta-feira, outubro 25, 2002

    O Articulador

    Vejam só: pelo que andei lendo por aí, este “People I Know” (nome original desta película _ainda podemos falar “película”, não?) só deve estrear lá nos EUA em 2003. O quê? Quer dizer que nós assistimos a um filme norte-americano antes dos ianques?

    É algo para pensar, não? Já que, nesta obra, a cidade de Nova York é criticada de maneira desenfreada, porém honesta. A intolerância quanto aos estrangeiros, acirrada ainda mais após o 9/11 (lá é ao contrário, lembra?), é mostrada sem filtros. Será que vai fazer algum sucesso por lá? Vai receber alguma indicação da Academia? Duvideodó.

    Em “O Articulador” (visto nas dependências do Arteplex da Frei Caneca no dia 29 de setembro passado, com a colecionadora de bichinhos Vanessa), vemos o velho Alfredo Pacino (o nome dele é Alfredo, sabia? Xará daquele mordomo do comercial de papel higiênico...) mais uma vez interpretando um cara no bico do corvo (uma atuação muito superior à que ele apresentou em “Insônia”).

    Ele é Eli, um advogado formado em Harvard (judeu, gay e usuário de drogas), mas que trabalha como relações-públicas. Eli divide-se entre puxar o saco de gente famosa e da imprensa (maltratando bastante seu assistente no processo) e tentar realizar eventos para a caridade, aliviando sua consciência pesada.

    Somos testemunhas do cotidiano um tanto insano de Eli, que recebe uma missãozinha ingrata: Cary Launer, uma grande estrela de Hollywood (interpretada pelo sumido Ryan O’Neal, aquele de “Love Story” _ele também já filmou com Stanley Kubrick, Blake Edwards e Peter Bogdanovich, entre outros) que pretende se eleger para o Senado, pede que ele vá tirar uma “starlet” (Téa Leoni) da cadeia e a coloque em um avião, para evitar um escândalo sexual. Mas a moçoila estava metida em outras encrencas das grossas e...

    Bom, é aqui que o filme fica interessantíssimo e dá uma amostra singular de invulgaridade: em vez de descambar para um simples “thriller”, “People I Know” firma-se como um drama, e dos bons. Generoso, o filme todo gira em torno da (bem boa, como já disse) interpretação de Al Pacino (que ainda contracena com Kim Basinger, resistindo em Hollywood, apesar da idade _ela já vai fazer 50 no ano que vem!!!).

    Resumindo: o filme não é sensacional (embora seja sensacional a tomada final, quando a câmera vira de cabeça para baixo ao enfocar o “skyline” da “Big Apple”), mas é digníssimo. Traz um grande protagonista, bons coadjuvantes e um pedaço de uma reflexão necessária sobre o mundo no limiar do século XXI. Mas os EUA nem quiseram ver antes de nós...

    Nota: 8,5/10

    segunda-feira, outubro 21, 2002

    Eraserhead

    Opa.

    Por um acaso eu já falei pra vocês sobre as revistas “Hellblazer” (a.k.a. John Constantine) e “Sandman Apresenta: Lúcifer”? Já? Tão tá. Agora vamos voltar a falar sobre David Lynch.

    Taí um cara que merece as polêmicas que levanta (nada a ver com aquela história do modelo que disse que estava no próximo filme e tal, e acabou enganando até amigo meu). Sua produção é irregular, sim. Não somente em termos de qualidade, mas também em temas, tratamentos etc.

    Só, que, gostando-se ou não, ah, a gente tem de admitir que o homem tem personalidade. E esta é a característica primordial de um artista _e não digo “artista” com aquela perspectiva aveadada que muita gente metida a sabichona adota. Estamos falando sem frescura, baby.

    Em seu primeiro longa, este um tanto raro “Eraserhead” (1976), Lynch já demonstrava todo o seu universo pleno de esquisitices, que apareceria mais desenvolvido em “A Estrada Perdida”, “Cidade dos Sonhos” e outros.

    O filme é kafkiano (ui). Aos poucos (bem aos poucos) somos introduzidos à vida de um cara com um penteado louco (nada a ver com os anos 70, ponto para Lynch), que, logo mais saberemos, se chama Henry e trabalha em uma fábrica.

    Henry mora em um edifício assustador. Sabemos que ele tem uma vizinha muito gostosa e possivelmente safada. Mas Henry tem uma namorada. E ele vai jantar na casa dela, onde conheceremos sua adorável família _a seqüência do jantar é capaz de revirar até os estômagos do David Cronenberg, de todo o elenco do La Fura Dels Baus e até o da mulher do Amaral.

    Ah, a namorada de Henry está grávida. O rebento do casal é quase tão biíto quanto o bebê de Rosemary. E como chora, o desgraçadinho. Ai, ai.

    E ainda teremos de ser apresentados à simpaticíssima Lady in the Radiator (a seqüência toda é um germe do anão de “Twin Peaks” e do Clube Silêncio de “Mullholland Dr.”) e suas bochechaças dignas do Fofão. E ela canta aquela musiquinha “In Heaven”, que foi regravada mais de uma década depois pelos Pixies... Yeah.

    Difícil de entender, não? E olha que a cópia que eu vi estava em péssimo estado... e era sem legendas.

    Ah, e sabe o título, que significa “Cabeça de Apagador”? Faz sentido.

    Nota: 7,5/10

    quarta-feira, outubro 16, 2002

    Sinais

    Antes de tudo, a propaganda: já estão nas bancas e livrarias especializadas as duas revistas mensais de histórias em quadrinhos cuja tradução é deste que vos escreve (é um bico que estou fazendo nas horas vagas, já que os trabalhos como jornalista, infelizmente, andam cada vez mais escassos...).

    Uma delas chama-se “Hellblazer” e traz as desventuras de John Constantine, um anti-herói inglês que mexe com ocultismo _basicamente, ele tenta prorrogar ao máximo sua ida para o inferno. O personagem, cujas feições foram baseadas nas do Sting, foi criado em meados dos anos 80 por Alan Moore, Steve Bissette e John Totleben, como coadjuvante do Monstro do Pântano, mas sua canalhice fez tanto sucesso que ganhou revista própria, que, impressionante, dura há mais de quinze anos... E, tremei, um fime está a caminho, embora diretor e protagonista (Nicolas Cage e Keanu Reeves foram sondados, mas, segundo Alan Moore, quem deveria pegar o papel teria de ser o Sting mesmo) não estejam definidos... A novela pode ser acompanhada aqui.

    A outra é “Sandman Apresenta: Lúcifer” e, como o nome indica, aborda o diabão em pessoa, o Anjo Caído, blablablá (mais detalhes na “Bíblia”). Baseada na famosa série escrita pelo Neil Gaiman (qualquer dia eu publico aqui a íntegra da entrevista que fiz com ele para a Ilustrada e conto como foi o meu encontro com o criador de “Sandman”... que, por sinal, tem um blog há uns dois anos...), a revista traz duas histórias por edição, uma do Lúcifer e outra estrelada por outros personagens daquele universo onírico.

    Quem curte HQ (e não se incomoda com blasfêmias, palavrões, sexo, violência, drogas, desvirtuamento dos valores morais e éticos e outras coisas que adultos saudáveis apreciam) pode conferir sem medo, é bem legal, qualidade garantida.

    Outra coisa: vocês assistiram ontem ao primeiro episódio de “Cidade dos Homens”, na Globo? Muito bom, hein? E aquela hora em que o Acerola (Douglas Silva, que fez o Dadinho em “Cidade de Deus”) explica as guerras napoleônicas com o dialeto da favela? E quando os atores começam a relatar eventos verdadeiros da violência nos morros cariocas? E quando falaram que “playboy só vem pro morro pra comprar droga, filmar ou fazer reportagem”? E quando comparam os condomínios cheios de grades e câmeras com a favela...? Até sexta tem mais...

    Mas agora vamos falar desta meleca que é “Sinais”, visto em 25 de setembro passado (aniversário do meu irmão caçula), num frio que destoa desta quentura votuporanguense e que me obrigava a usar minhas sensacionais pantufas-gorila, na companhia da extraterrestre Vanessa, no shopping Higienópolis.

    Em seu melhor filme, "Corpo Fechado", M. Night Shyamalan (cineasta de origem indiana que ficou bastante conhecido após dirigir o razoável "O Sexto Sentido") parte de uma premissa muito legal: a de que os super-heróis dos gibis realmente poderiam existir entre nós, reles humanos xexelentos.

    Já em seu filme seguinte, este tal de "Sinais", o desgramado procurou outro tema que pregasse todo mundo na cadeira: as tais das formas geométricas gigantescas que livros como "Eram os Deuses Astronautas?" (que pelo menos inspiraram o Jorge Ben a compor a delirante "Errare Humanum Est") popularizaram...

    O trailer e a estratégia de marketing bem que prometiam, só que o puto do Shyamalan põe tudo a perder, graças a seu maldito moralismo cristão (dias antes eu havia visto “Olhos Abertos”, filme anterior a “O Sexto Sentido”, no Telecine, onde as características subspielbergianas do cara ficam ainda mais evidentes).

    "Sinais" não é tão ruim como "Se7en", longe disso, mas também vai ofender sua inteligência. É o tal do filme meia-boca disfarçado de filme bom. Shyamalan invoca Hitchcock no letreiro de abertura (a melhor parte da obra, sem brincadeira) e na trilha sonora a la Herrmann, deixa que o medo seja sugerido, e não mostrado, enfim, escolhe o caminho do suspense, e não o do mero "thriller" ao estilo Michael Jackson... só que, mesmo assim, a coisa desanda.

    O resultado não poderia ter sido mais decepcionante. Ao contrário de "Unbreakable", "Sinais" tem um final extremamente previsível (por que o cinema made in USA parece estar viciado em finais broxantes?). As únicas atuações de destaque (Shyamalan volta a dar uma de coadjuvante, desta vez com várias falas) são as das crianças (de novo? Que diretor pedófilo!), o irmão mais novo do Macaulay Culkin e a menininha que tem neura de água (imagina se ela morasse na imundície paulistana, como bem notou o sensato Flea). A dupla Mel Gibson e Joaquin Phoenix não apresenta nada de especial, apenas o fato de os dois serem suficientemente parecidos fisicamente para passarem por irmãos. E chega, por hora. Depois de uma dessas, começo a perder a minha fé...

    Nota: 5/10

    Na platéia