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    sábado, agosto 08, 2009

    Cof, cof

    Tinha planejado alguma bobagem sobre filmes não narrativos (Norman McLaren, Stan Brakhage, Michael Snow, essas coisas), mas vai ficar para uma outra vez _se não acabo não atualizando mais este site. Em vez disso, é bom selecionar e frisar o que de bom foi pra cabeça.

    O destaque absoluto é "Incompreso" (aqui rebatizado com o bobo título "Quando o Amor É Cruel"). Não sei se o filme de Comencini (o segundo dele que vi, até onde me lembro) foi um grande sucesso, mas como vi outros parecidos (mas não comparáveis), suponho que sim. E é impressionante como um filme sobre temas tão pesados pode ser tão leve, divertido, engraçado e envolvente _era muito fácil ser deprimente, mas esta armadilha é evitada em grande parte graças às atuações perfeitas das crianças, Stefano Colagrande e Simone Giannozzi, que nunca mais trabalharam no cinema. Ao mesmo tempo, também consegue a proeza de ser emocionante sem apelar para sentimentalismos (pelo contrário, a cena final traz os atores contidos a um
    ponto que parece impossível). Um remake com Gene Hackman foi feito nos EUA no início dos anos 80; dizem que é parecido com o original, mas difícil acreditar que seja tão bom quanto. Alguém viu? Também extasiante foi a revisão de "O Padre e a Moça", um filme muito especial e com uma carga erótica altíssima, da qual eu não me lembrava. Que acidente feliz! E por coincidência, em seu blog novo, o Francis publicou quadros de uma das sequências mais famosas.Outra revisão foi o "Persona" do Bergman (que vi pela primeira vez no Banco Real da Paulista, tomando vinho), que, apesar de datadíssimo (mas isto nem é defeito: marcou época), ainda fascina, em especial nos seus primeiros minutos.

    Em uma Mostra de alguns anos atrás, gostei bastante do "Offscreen", de Christoffer Boe. Mas vendo "David Holzman's Diary", feito quase 40 anos antes, o filme do dinamarquês ficou pequeno. A reflexão sobre a relação entre vida e registro audiovisual (martelada recentemente em filmes como o "Diário dos Mortos") já aparece bem madura no filme de estreia de Jim McBride. Falando nele, que carreira estranha a do rapaz: dirigiu pornochanchada, fez um remake de "Acossado", cinebiografias de Jerry Lee Lewis e Meat Loaf (!), participou do filme do Cakoff e dirigiu episódios de séries como "Além da Imaginação" (versão anos 80), "Anos Incríveis" e "Six Feet Under"... E cabe avançarmos até 2000 para citar "Camera", de David Cronenberg, cuja marca autoral é evidente em frases como "When you record the moment, you record the death of the moment", bem ditas por Leslie Carlson. É um tanto óbvio no final, quando ocorre a "sacadinha" típica de muitos curtas, mas antes disso não faltam bons momentos. O diretor disse que teve a ideia de fazer este filme inspirado em um sonho de sua infância: ele havia entrado criança em um cinema e, enquanto o filme passava, ele envelhecia rapidamente... Voltando a 1967. "Privilege" (do Peter Watkins de "The War Game"), já começa com uma mistura Beatlemania com desfile de imperador romano (ou de führer). A metralhadora giratória do diretor não perdoa Igreja (os monges a la Beatles cantando "Onward Christian Soldiers" são uma pérola da sátira), a publicidade, o showbiz, os políticos, a multidão que não gosta de pensar. Infelizmente e como de hábito, tudo continua muito atual. O ator principal é Paul Jones, que cantava na banda do Manfred Mann.

    1966 é o ano de três outros destaques. "The Naked Prey", talvez o filme mais famoso de Cornel Wilde como diretor (se não foi a referência máxima para "Apocalypto", então se trata de uma grande coincidência), traz um enredo mínimo e praticamente nada de diálogos; mas é impossível desgrudar os olhos da tela face o retorno do homem a seus instintos mais primitivos de sobrevivência, cercado do ambiente mais hostil que possa existir. É à flor da pele e ao mesmo tempo profundo. Também voltei a "Django". O filme mais famoso de Corbucci (que eu tinha visto quando criança na "Sessão das Dez" do SBT, depois do Silvio Santos) reprocessa uma série de clichês que por sua vez também foram reprocessados por uma porção de gente (por exemplo, o corte da orelha me lembra "Cães de Aluguel"). A mistureba vai de racismo a la KKK a revolução mexicana, de mulheres lutando na lama a um protagonista que vai de super-homem invencível a assassino sádico e a farrapo estropiado (mas ainda invencível), de sequências aventureiras com música animada a brigas em saloon (por sinal, também vi uma briga em saloon no delirante, musical e colorido "Tokyo Drifter", de Seijun Suzuki), sem falar na fantástica apresentação da personagem durante os créditos iniciais, sob uma canção que remete a Elvis _tudo sem vergonha de copiar aquele filme de Leone que copiava Kurosawa. Enfim, tem seu lado de grande "picaretagem", mas também é um triunfo e um filme extremamente divertido. E também conheci um "Operazione Paura" ("Kill Baby Kill" nos EUA), no qual Bava volta à forma com uma história de terror sobrenatural no início do século XX. Típico Bava, ou seja, é ótimo, com fotografia belíssima, movimentação de câmera sublime e uma série de ideias que também foram copiadas depois (inclusive não me surpreenderia se o Kubrick tivesse se inspirado neste filme para alguns momentos de "O Iluminado").

    A curiosidade foi "Meet the Feebles", de 1989, que Peter jackson fez em 16mm (ou seja, é "fullscreen" mesmo) entre "Bad Taste" e "Fome Animal" (ainda não vistos). É "Os Muppets" para adultos: o sapo é viciado em drogas e tem traumas do Vietnã; a hipopótama não consegue parar de comer, deprimida porque seu amante, a lontra, o trai com uma gata; a mosca é um repórter da imprensa marrom que se alimenta de merda; o elefante não quer assumir o filho que teve com uma galinha; o coelho teme ter contraído uma doença venérea fatal; o porco-espinho apaixona-se por uma cadela; e por aí vai. Os bonecos sangram, vomitam, têm mortes "gore" e tal. Divertido para quem gosta de nojeira. Mas suponho que é preciso ainda mais estômago para o novo filme do Heitor Dhalia...

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    O blog é, tem sido e deve ser sobre cinema, mas o assunto é tão relevante e tão comentado (embora o que tenho mais lido são impropérios proferidos pelos mais afetados) que é impossível não dizer algumas palavras sobre a lei do Vampeta (apelido mais condizente com nosso atual governador) que proíbe o fumo em locais fechados de SP. Por definição, odeio proibições. Sou a favor da liberdade com responsabilidade. O problema é que como falta esta última, a outra acaba sofrendo também. Fumantes estão reclamando do autoritarismo da coisa toda, entre muitos outros problemas. É verdade, concordo. Sou a favor do direito de fumar, mesmo não sendo fumante e, pior, sendo alérgico. Mas fumar em local fechado frequentado por não fumantes também é um ato grotescamente autoritário. O fumo passivo é uma realidade comprovada cientificamente, e vai ser um alívio gigantesco não ter mais de conviver com ele. Agora, o que me incomoda mesmo na questão do cigarro é que ele acaba com o sex appeal de qualquer mulher. É de uma tristeza mortal ver uma mulher bonita fumando. Lembram do desespero do protagonista de "Anything Else" ao se tocar de que tinha se apaixonado por uma fumante? E não me venham com Lauren Bacall ou similares...

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    Se eu já não recomendo a visita a este sítio pobre, desleixado, raramente atualizado e de interesse nulo, recomendo menos ainda que me sigam no Twitter, o qual uso para propósitos muito específicos e que não dizem exatamente respeito a outrem (exemplos acima, no "widget" tosco que é oferecido para o Blogger; o outro widget, o dos que acompanham este blog, foi movido para o pé da página, junto com o link do feed). Mais recomendável, e mesmo assim somente para pouquíssimos (já que gosto sempre é algo particular demais e assumo que o meu pode ter muito de duvidoso), é a minha página no Blip.fm, que tem me servido muito bem como um substituto à Last.fm, depois que sua rádio infelizmente se tornou um serviço pago (sem que por isso ele fosse melhorado). Curiosamente, está bem menos esculhambada do que se poderia esperar de alguém como eu. Abaixo, um exemplo do que tem rolado por lá:



    Minha impressão inicial sobre o Twitter é que ele pode valer a pena se você selecionar muito bem quem você acompanha; no meu caso, como não tenho o menor interesse na vida alheia (não por um site público na internet, pelo menos; com amigos e sobre coisas importantes não é assim que se fala), ninguém deve se melindrar se eu deixar de ser seu "seguidor" (a conotação religiosa do termo é asquerosa). Mais interessante é quem dispõe links legais ou mesmo os fakes com conteúdo inteligente ou engraçado (é o caso do Millôr Fernandes, infelizmente "RT" por tudo quanto é zé mané, ou do já clássico Vitor Fasano). O insuportável é que se fala DEMAIS de futebol.

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    Voltemos a Blaise Cendrars, que nos lembra que não é de hoje que a globalização ajuda o ser humano a ser ainda mais boçal:

    "Estávamos, (Wally) Westmore e eu, de pé sob um pórtico publicitário, protegidos da chuva que caía a cântaros, mas totalmente respingados. (...) Como seu carro continuava a não chegar, eu, pensando em diverti-lo, comecei a lhe contar que estivera no Brasil na época do lançamento de 'Loura e Sedutora' (filme de Frank Capra com Jean Harlow, de 1931) e que o filme fizera tamanho sucesso no Rio de Janeiro que, em menos de uma semana, todas as belas mulatas e as negras indolentes que saíam no fim da tarde para passear na avenida ou desfrutar a brisa à beira-mar, na praia do Flamengo, haviam descolorido o cabelo e todas se maquiavam de cor-de-rosa.

    _ Foi muito engraçado! _ concluí. Mas aquilo também era inquietante, porque todas tinham o ar de não passar do avesso delas mesmas, como os personagens que entrevemos na transparência, ao examinar um negativo a olho nu. Imagine esse cortejo de negras louras à luz do crepúsculo, vistas em sua silhueta, com a mancha clara do rosto maquiado e os cabelos mortos, mas brilhantes! Parecia um desfile de assombrações."

    P.S. A frase de hoje é do já linkado Inácio Araújo: "Quem não gosta de uma boa sessão da tarde não sabe o que é cinema."


    terça-feira, agosto 21, 2007

    Pronto. Agora que acabou o preparo de projeto para o Prêmio Estímulo (um longa que sofri para encurtar, foi o jeito), dá para voltar a rascunhar por aqui.

    Os últimos dias também foram dedicados a mixar o som e montar o copião de "A Volta do Regresso". Acho que realmente só vou entender melhor meus sentimentos em relação a este filme depois das primeiras exibições públicas; muita coisa me deixa insatisfeito (claro que estou falando das funções desempenhadas por mim), mas me peguei sorrindo algumas vezes, enquanto o via e revia, durante a mixagem. Engraçado que as duas pessoas que acompanharam o processo riam sempre num mesmo ponto do filme (um plano com Ênio Gonçalves), do qual não me lembro de alguém ter rido antes... Comédia é algo bem misterioso, as reações dos espectadores sempre me surpreendem _percebo também que fico mais feliz com as simples risadas do que com as demonstrações de que o filme teve seu complexo subtexto compreendido (é um filme muito pouco pretensioso, mas que contém uma overdose de informação) ou foi analisado de forma bem-sucedida.

    Ele também me veio à mente ao ler este texto de Filipe Furtado para a "Paisà", em especial quando ele fala em "cinema engasgado"; isto porque eu mesmo, numa tentativa de definir "A Volta do Regresso", saí com "cinema sufocado" (outra coisa que fica evidente é como o fato de ter trabalhado em película engessou o filme, porque não pude filmar todos os planos que queria nem repetir muitos takes e muito menos fazer qualquer trucagem, por causa dos custos; película ainda é imbatível como suporte de exibição, mas nunca mais quero usá-la na gravação). Parecem conceitos semelhantes, mas os filmes são muito diferentes (aliás, meu texto passado deve ter dado a entender que gostei menos de "Conceição - Autor Bom É Autor Morto" do que ocorreu na realidade; apesar de as referências citadas em outro artigo terem todas mais de 30 anos, o filme do quinteto não me parece velho _também não é novo; as inúmeras possibilidades de montagem são atraentes, porque há muitos filmes (alguns bem melhores que outros) ali dentro _tanto que gostei muito mais do trailer, o que geralmente parece ser coisa de quem desprezou o filme, o que está longe de ser o caso). Há algo de muito interessante nesta idéia de filme-rascunho, não-definitivo _mas, como a Ana salienta, ele também fica muito restrito a quem já estudou cinema.

    ***

    Mais de uma pessoa pediu para eu escrever alguma besteirinha sobre o Bergman. Vou tentar. Lá embaixo.

    Antes, eu quero citar mais comédias, como "As Três Faces de Eva", de Preston Sturges (que fazia aniversário no mesmo dia que eu). Não é meu preferido dele, mas há momentos inesquecíveis, como o pai da personagem de Henry Fonda desesperado para ser servido (parece uma criança grande) e o próprio Fonda tendo três ternos arruinados numa mesma seqüência. Comédia que não tem pudor de ser engraçada é uma delícia, pena que geralmente não são muito valorizadas.

    Bastante diferente é "Jour de Fête" _se não me engano, o primeiro longa de Jacques Tati; minha relação com os filmes deste parece um pouco com a que tenho com os de Antonioni (sobre quem não me pediram para escrever, se não me falha a memória; curiosamente, vi "Eros" poucos dias antes de ele morrer): de admiração, respeito e reconhecimento, mas de modo mais frio e intelectual. Tati é singular (dotado de um estilo reconhecido a quilômetros), rigoroso e brilhante (dirigiu menos de dez filmes e é lembrado praticamente por todos), mas obras como "O Professor Aloprado", do Jerry Lewis (que voltei a rever e é praticamente perfeito, com exceção da montagem que não me desce muito bem; por sinal, a diferença gritante de caracterização entre Julius Kelp e Buddy Love dá um banho naquela que a inspirou, a de Spencer Tracy como Jekyll/Hyde no remake da obra-prima do Mamoulian feito pelo Victor Fleming poucos anos depois _revi também "The Bellboy", estréia de Lewis na direção, o que o levou a inventar o video-assist; curiosamente, zapeando pela TV, caí num trecho daquele filme em que o Tim Roth é um mensageiro, e o Tarantino estava justamente falando sobre "The Bellboy", dizendo que, quando Lewis morresse, todo mundo ia dizer que ele era um gênio _há alguns anos, o "Fantástico" fez um auê sobre os problemas de saúde dele, querendo prever sua morte, e quebraram a cara. E finda aqui este enorme parêntese) me entusiasmam muito mais, epidermicamente. E "Jour de Fête" perde para "L'École des Facteurs", curta que tem trechos reaproveitados no longa.

    ***

    Uma pena que a eleição dos melhores filmes dos anos 50 para a Liga dos B. C. ocorra justamente agora, quando estou prestes a começar a passear pela mesma _minhas listas costumam caducar rapidamente, mas esta não vai durar nem um mês... Enquanto isto, na década anterior, foi inevitável passar por alguns exemplares do que se convencionou chamar de noir: "The Big Sleep", do Hawks (divertidíssimo e muito menos complicado do que eu pensava, embora o ritmo seja alucinante _e Martha Vickers, linda e morta precocemente sem ter feito muita coisa de destaque, rouba as cenas de Bacall), "Out of the Past", do Tourneur (bem diferente dos outros filmes dele que vi, com Jane Greer como uma das femme fatales mais perversas da história e Kirk Douglas em seu segundo filme) e "The Killers", do alemão Robert Siodmak (adaptação de Hemingway cuja seqüencia inicial é primorosa em termos de suspense e de narrativa cinematográfica, lembrando demais "Marcas da Violência" do Cronenberg _pena que depois se torne mais cansativo), além de uma dobradinha de Abraham Polonsky, famosa vítima do mccarthismo, estrelada pelo também estigmatizado John Garfield: "Body and Soul" traz seu primeiro roteiro filmado (por Robert Rossen), e "Force of Evil" é sua estréia como diretor. Ambos são histórias morais sobre o capital: o primeiro no mundo do boxe, o segundo, do direito como acessório ao crime. Este último é especialmente interessante (a influência sobre "O Poderoso Chefão" é gritante), e Beatrice Pearson, no seu primeiro e penúltimo trabalho no cinema (dedicou-se ao teatro), está maravilhosa, belíssima.

    "Mildred Pierce", do Curtiz, e "Leave Her to Heaven", do Stahl, se são noirs (o último é em Technicolor), são atípicos; o último até que começa docemente, mas o terror chega em meio a uma natureza exuberante fotografada de modo idem. Exuberante também é "A Matter of Life and Death", obra-prima de Powell e Pressburger: tive a impressão de que durava três horas, não por ser ruim, mas por ser tão épico e grandioso (começando com a Terra vista do espaço _mais de dez anos antes de Gagarin, ela era verde!)... Os efeitos visuais são maravilhosos, a alternância entre o preto-e-branco e o Technicolor funciona belissimamente, e o senso de humor transborda inteligência. É uma delícia de filme, uma história contada de uma forma que só o cinema poderia fazer _só não sei porque Kim Hunter filmava tanto: não a acho bonita, e suas atuações não costumam me impressionar _também a vi em "When Strangers Marry", de William Castle _Robert Mitchum era outro que estava com força total; além deste e do filme do Tourneur, também o vi em "Pursued", western do Raoul Walsh).

    Singulares também são "Odd Man Out", do Carol Reed, com James Mason no papel que ele dizia ser seu favorito, um famoso terrorista norte-irlandês (claro que o catolicismo permeia a história, e o final folhetinesco é poderoso), "Portrait of Jennie" (de outro alemão, William Dieterle), com Joseph Cotten (cujo personagem se parece um pouco comigo no que diz sentido à dedicação à arte) e Jennifer Jones (de "Duelo ao Sol") num romance (uma espécie de precursor de "Em Algum Lugar do Passado" e "Ghost") com um prólogo estranhíssimo (com um discurso sobre fé e quetais _lembra um pouco os filmes do Zé do Caixão, quando ele pergunta "o que é a morte?") e uma curiosa mistura de trechos em cores e em preto-e-branco (sendo que duas seqüências climáticas são naquele "preto-e-branco tingido" que se usava no período silencioso), e "Dreams That Money Can Buy", de Hans Richter, que até parece um roteiro de Charlie Kaufman filmado por David Lynch: homem (simplesmente chamado "Joe") descobre que tem o poder de vender sonhos para as pessoas; ao atender alguns clientes, temos uma série de sete esquetes, inspiradas por artistas de vanguarda, como Man Ray, Alexander Calder, Marcel Duchamp, Max Ernst, Fernand Leger e John Cage. O resultado é irregular e um tanto cansativo, mas pelo menos um deles, chamado de "A Garota do Coração Pré-Fabricado" (estrelado por manequins animados com uma canção sensacional), é excelente.

    Também voltei a John Ford, com "The Fugitive", adaptação de um grande romance de Graham Greene, "O Poder e a Glória"; o filme se parece muito mais com os melodramas de Emilio Fernandez (que é produtor associado e faz uma ponta), e não é à toa que a turma deste (Armendáriz, Dolores del Rio e Gabriel Figueiroa como fotógrafo) está toda lá; para contrabalançar, dois clássicos atores de Ford, Henry Fonda e Ward Bond. Há momentos belíssimos (como a primeira entrada de Fonda numa igreja), mas não o considerei um dos melhores do diretor _de quem também vi "Bucking Broadway", de 1917, estrelado por Harry Carey, o precursor de John Wayne (claro que não é da estirpe de "The Iron Horse", mas não é nada ruim e vale como documento histórico). Ainda no western, revi "Yellow Sky" (tinha visto na Cultura há anos), do Wellman.

    E não posso deixar de registrar outra revisão, a de "Begone Dull Care", clássico hipnotizante e divertido do escocês/canadense Norman McLaren, com trilha de Oscar Peterson Trio. Ainda fora dos EUA, vi pela primeira vez uma ficção do Clouzot (de quem só conhecia o filme sobre Picasso), "Quais des Orfrèves", que não me parece merecer a fama de "Hitchcock francês" (há quem diga o mesmo do Chabrol); começa prometendo muito (chega a lembrar o "Luci dei Varietà" de Fellini e Lattuada, mas é melhor), mas justamente quando aparece a trama de assassinato, o filme cai bastante (embora alguns detalhes, como o filho mestiço do policial e os sentimentos contraditórios da amiga do casal protagonista _interpretada por Simone Renant, belíssima_ permaneçam sendo muito interessantes). No Japão, passei por dois Mizoguchi, "Conto dos Crisântemos Tardios" (este é de 1939) e "Utamaro..."; o primeiro é um melodrama longo e folhetinesco; o segundo, melhor, incrivelmente transita entre a pornochanchada e a tragédia shakespeareana; no centro de tudo, a necessidade de criar aliada à paixão pelo sexo oposto (de novo, eu me reconheço). E quem não foi à Sessão do Comodoro ver "Rito de Amor e de Morte", único filme de Yukio Mishima estrelado pelo próprio, não sabe o que perdeu...

    Um epílogo: ter visto "Germania Anno Zero", do meu amigo Rossellini, me levou a rever "O Pianista", do Polanski; tinha gostado deste último no cinema, mas a revisão me mostrou um filme bem fraco, repleto de diálogos explicativos, personagens estereotipadas e vontade de imitar o Spielberg (sem chegar lá)... Em alguns momentos, Polanski se esforça para criar uns enquadramentos bonitos (com os atores dispostos no quadro à Orson Welles), mas são momentos raros; entretanto, a imagem de Varsóvia destruída ainda é forte. Do polonês estuprador também revi "The Fearless Vampire Killers", também fraquíssimo e sem graça; compensa pela fotografia, direção de arte, trilha do Komeda e por Jack MacGowran, Fiona Lewis, Sharon Tate (e os generosos decotes destas duas).

    ***

    Chegando à atualidade: vi em DVD "Estamira" (longo, monótono e redundante, prejudicado por uma trilha sonora excruciante e um preto-e-branco "cosmética-do-lixo"), "Amor em Cinco Tempos" (frio, distante, com mania de esvaziar o drama), "A Criança" (nem inovador nem rigoroso nem impressionante nem belo nem ousado. Para um brasileiro como eu, é até ridículo o retrato dos criminosos belgas: as ruas, as moradias _mesmo o albergue para desabrigados e a prisão, que tem máquina de café e tudo_, tudo é muito limpinho e pouco perigoso).

    Nos EUA, fui de "300" (no qual destaca-se a beleza plástica de alguns planos bem específicos _o que mostra o destino do rei Leônidas é praticamente uma pintura; o ritmo é péssimo, prejudicado por mau uso de câmera lenta que estraga as cenas de ação; não sei porque reclamaram tanto do Gerard Butler, achei que ele está bom como protagonista _em especial, quando seu Leônidas demonstra senso de humor; Rodrigo Santoro está muito bem como Xerxes, mas poderiam ter chamado a Ru Paul para o papel), "O Grande Truque" (meio previsível e caretão; Bowie está bem como Tesla) e "The Fountain". Este, primeiro que vejo do Aronofsky, foi chamado por muita gente de "pior filme já feito"; talvez o aviso tenha me levado a não chegar a tal ponto: o roteiro é realmente confuso, direção, fotografia (com a maldita mania de travellings em subjetivas de gente parada) e montagem são pouco econômicas/inteligentes, direção de arte brega (embora seja interessante a idéia de fazer fotomontagens com imagens microscópicas, não geradas por computador), e a trilha sonora é chata. Cheguei a dar gargalhadas com as primeiras imagens de "orientalismo de butique" (um cara parecido com um monge fazendo tai chi entre as estrelas?). A grande qualidade mesmo é o elenco _em especial, Rachel Weisz, grande atriz que aparentemente teve o mau gosto de se casar com o diretor. Mas há uma carga de emoção sincera neste filme, infelizmente ofuscada pela pretensão da coisa toda (imagino que teria sido pior se a versão original, duas vezes mais cara e estrelada por Brad Pitt _que brigou com o diretor e se demitiu, causando a interrupção da produção_ e Cate Blanchett, tivesse rolado). Ah, também vi "The Prairie Home Companion", réquiem bem adequado do Altman (não é o melhor dele; aquela câmera que não pára irrita...). Falando em réquiem... não, o Bergman fica mais pra baixo.

    ***

    Vai chegando o fim do ano, e de repente os festivais começam a bombar (as estatais deixam pra gastar mais nesta época?): bati ponto no festival latino (prejudicado imensamente pela friaca maldita que flagelou São Paulo), onde vi dois belos filmes: "Etnocidio, Notas sobre el Mezquital" (1977), do homenageado Paul Leduc (com imagens impressionantes, como a dos operários descendo dos prédios ou saindo da mina; trinta anos depois, vemos as conseqüências das injustiças apontadas ali), e "El Castillo de la Pureza", de Arturo Ripstein, que, além do excelente enredo, traz o primeiro papel importante da Diana Bracho (filha do Julio Bracho, prolífico diretor), deliciosamente pelada aos 18 aninhos. A tranqueira do festival foi justamente o filme de abertura, "As Leis de Família", do Daniel Burman (outro que faz aniversário no mesmo dia que eu), presente na sessão e muito simpático; muitos críticos elogiaram, mas me parece coisa de gente deslumbrada com a Argentina: o protagonista é um dos menos empáticos que já vi, esvazia todos os conflitos e, apesar de bastante coisa acontecer, dá a impressão de que nada aconteceu.

    Fui também ao segundo festival de hip hop (não tinha ouvido falar do primeiro), mas infelizmente não vi nada que merecesse destaque. No festival de cinema silencioso, infelizmente perdi a sessão de "Caligari" com a Patife Band, mas vi o alemão "A Flor do Pântano" (1913), drama competente de Viggo Larsen, com acompanhamento ao vivo _nesta sessão conheci a nova e bela sala da Cinemateca, espaço que finalmente começa a se revitalizar (infelizmente, continua sendo de difícil acesso). No Olido, que andava paradão, fui ver a palestra da Sheila Schvarzman sobre Umberto Mauro no festival dedicado ao mesmo, e de quebra vi o belo "Um Apólogo" (1939), que antes de adaptar a famosa fábula de Machado de Assis, traz um minidocumentário sobre o escritor (basicamente, a voz de Roquete Pinto sobre imagens externas do Rio ou meramente ilustrativas do texto, como exemplares de obras do escritor ou sua estátua no prédio da ABL). A coisa melhora muito quando entramos na ficção em si: em poucos minutos, Mauro cria com beleza um mundo particular, no qual agulha, linha e alfinete se transformam em atores e encenam o texto, num cenário que representa convincentemente o interior de uma caixinha de costura.

    E também está ocorrendo o festival de curtas, que me parece melhor do que nos anos anteriores: até o momento, o destaque é "Psicose de Valter", de Eduardo Kishimoto (um belo plano-seqüência na Augusta guiado por um diálogo do pornógrafo/professor de filosofia num quarto de puteiro que termina num boteco/sinuca com uma aula sobre Kant e um zarolho entoando "Cavalgada" belissimamente; de chorar de tão bom, deu até inveja positiva); o londrinense "Satori Uso", hypado por aí, não me agradou tanto (é rigoroso enquanto imagem, mas derrapa ao não definir com precisão o que são haikais _bem, é "chatice" de virginiano). E a sessão dedicada ao gigantesco Osamu Tezuka é imperdível: traz filmes (duas produções curtas dos anos 80 e um média de 1966) muito diferentes dos mangás ou dos animes de Tezuka para a TV _e também diferentes entre si! "Filme Quebrado" usa de ironia e metalinguagem, num traço e temáticas no estilo norte-americano (lembra Tex Avery); "Saltar" é simplesmente uma pequena obra-prima, merecia status de clássico; e "Quadros de uma Exposição" é justamente uma adaptação da peça de Mussorgsky, uma aglomeração brilhante e bem-humorada de vários estilos extremamante diversos em uma crítica à contemporaneidade (dos Beatles ao Vietnã, passando pelas cirurgias plásticas, a censura, a TV) transbordante de ironia. Atualmente estou lendo a série "Adolf", publicada aqui pela Conrad em cinco livros; recomendo.

    ***

    Chegamos às séries: vi a segunda temporada de "24 Horas", que diferentemente da (muito superior) primeira, que desde o primeiro episódio te deixava fisgado, só começa a ficar emocionante a partir de seu segundo terço. A suspensão de descrença que me perdoe, mas causa estranheza as personagens passarem pelas 24 horas sem demonstrar muito cansaço ou mesmo fome _o que talvez cause menos tensão. Outro problemão foi o final: diferentemente da primeira, não "fecha" _até aí, tudo bem; o problema é que, vendo as cenas cortadas nos extras do DVD, eles eliminaram justamente o melhor e mais impressionante gancho, sem deixar claro o destino de uma personagem capital (e, de quebra, perderam um plano final primoroso). De resto, Jack Bauer continua bad motherfucker (e assassina e tortura sem dó, o espírito "Guantánamo" permeia toda a série), e a Elisha Cuthbert, uma delícia. A grande surpresa é a personagem George Mason (interpretada por Xander Berkeley, na vida real marido da Sarah Clarke, que faz a Nina Myers), sempre mostrada sob um viés negativo, que se consagra como grande herói, no clímax (bastante antecipado) deste ciclo. Tirando isto, o roteiro, coalhado de conflitos em velocidade alta e constante, até que funciona, apesar do final meio broxante.

    Vi também a primeira temporada de "The Practice", que deu origem à elogiada "Boston Legal" (que ainda não vi _mas não tem como ser ruim, se traz o William Shatner num papel cômico, e ainda por cima, como advogado). É boazinha; o destaque mesmo é Lara Flynn Boyle (a trilha sonora dos créditos também é ótima).

    ***

    A primeira vez que vi um filme do Bergman foi num lugar bizarro: o banco Real da Paulista! Era uma mostra de clássicos europeus (passou também "O Anjo Exterminador" e outros, que não pude acompanhar _eu era estudante paupérrimo e morava em São Bernardo, fui à sessão depois do trampo como estagiário num lugar onde quem mandava hoje é ministro _foi ali que dei a idéia de o então nascente "Sou da Paz" se dedicar ao desarmamento, mas esta é uma outra história), e o escolhido do sueco foi "Persona", que vi bebendo um vinho que, pra variar, me causou uma baita dor de estômago. Nunca revi o filme, mas as imagens daquele prólogo me encantam até hoje, assim como a repetição daquele plano/contraplano, as confissões eróticas das "mulheres que pecam" (segundo o título brasileiro babaca) e a beleza da Liv Ullman. Outro impacto foi causado anos depois, por aquele vermelho de "Gritos e Sussurros", quando reestreou nos cinemas, e por uma seqüência específica de "Morangos Silvestres", a do sonho fúnebre e meio kafkiano de Sjöstrom. "A Fonte da Donzela" e "Cenas de um Casamento" (recomendado a mim por Hector Babenco, mas esta também é uma outra história) também são outros preferidos, no momento (de seus aproximadamente 60 filmes, vi cerca de uma dúzia, muito pouco). Já "O Sétimo Selo", considerado por muitos seu melhor, sempre me deixou um pouquinho decepcionado. Não deixo de reconhecer a qualidade de seu trabalho, mas a verdade é que ele não chega nem perto de entrar no meu panteão particular de ídolos. Então talvez valha a pena citar alguém que o tinha em bem mais alta conta: segue trecho de texto de Woody Allen publicado no "New York Times":

    "I’ve said it before to people who have a romanticized view of the artist and hold creation sacred: In the end, your art doesn’t save you. (...) I have joked about art being the intellectual’s Catholicism, that is, a wishful belief in an afterlife. Better than to live on in the hearts and minds of the public is to live on in one’s apartment, is how I put it. And certainly Bergman’s movies will live on and will be viewed at museums and on TV and sold on DVDs, but knowing him, this was meager compensation, and I am sure he would have been only too glad to barter each one of his films for an additional year of life. (...) I learned from his example to try to turn out the best work I’m capable of at that given moment, never giving in to the foolish world of hits and flops or succumbing to playing the glitzy role of the film director, but making a movie and moving on to the next one. Bergman made about 60 films in his lifetime, I have made 38. At least if I can’t rise to his quality maybe I can approach his quantity."

    P. S. Eu sempre carrego um livro de bolso comigo, antídoto para qualquer espera ou tempo perdido em condução; o problema é que estes livros são lidos apenas nestes momentos, ou seja, a leitura é em pílulas, e às vezes demoro meses para terminar um volume. Quando Kurt Vonnegut morreu, eu estava justamente lendo "Matadouro 5" (cuja adaptação cinematográfica eu comecei a ver no Telecine, mas desisti por motivo ignorado); a tradução é absolutamente lamentável, mas deu para entrever que ali está uma obra-prima.

    Na platéia