A gruta é mais extensa do que a gruta

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    quinta-feira, março 18, 2010

    É uma brasa, mora?


    Como adiantei no texto anterior, realmente fui à Cinémathèque Française ver "Eraserhead", em 35mm, na confortável sala Georges Franju, poucas horas após ter chegado a Paris, no dia 31 de janeiro. Estava um frio desgraçado e eram 22h de um domingo, mas mesmo assim a sessão esteve lotada. Antes, tinha planejado conhecer o museu do local (que, entre outras preciosidades, abriga a cabeça da mãe de Norman Bates), mas ele fechava uma hora antes do que eu tinha lido e não dava tempo para uma boa visita, apesar de a loiracinha do caixa ter tentado me convencer do contrário. Em vez disso, fui conhecer a livraria (onde vi uma edição muito completa sobre o cinema brasileiro, dessas que não temos por aqui) e jantar deliciosamente em um restaurante italiano perto da estação Bercy (ali, graças a um mapa, dei informações a uma italiana que não falava francês e estava quase chorando), onde tomei o melhor (poderia dizer o primeiro) sorvete de chocolate da minha vida (sim, fazia 0°C e eu tomei sorvete). A visita ao banheiro da CF teve seu toque divertido pelos palavrões escritos na porta, todos dirigidos ao Toubiana. Antes da sessão, mais protesto: um funcionário velhinho passou um abaixo-assinado reclamando de terceirizações pagas com dinheiro público _pra gente ver que essas coisas não ocorrem apenas por aqui. A sessão em si foi ótima, muito divertida. Os parisienses não conheciam o primeiro longa do David Lynch e deram muitas risadas. O próprio Lynch diz que ninguém jamais adivinhou sobre o que é o filme e acho isso de pouca importância: é hilário, é bonito, é grotesco e tem um excelente John Nance, além da participação poderosíssima da Judith Roberts, perfeita na explosão contida de erotismo.

    E esta foi minha única sessão de cinema em Paris, embora oferta não faltasse, nas dezenas de salas perto de onde eu morava, com direito a ingresso com quase 50% de desconto se comprados em pacotes de cinco. Os lançamentos locais não eram muito atraentes: em sua maioria comédias infantiloides, um policial produzido pelo Luc Besson e estrelado pelo John Travolta e até um filme de zumbis. Os internacionais não tinham datas tão diferentes das de São Paulo. E mesmo os lotados cinemas da Rue Champolion, ali ao lado da Sorbonne (indicação do Milton do Prado), que homenageavam Rohmer, atraíram-me menos que o prazer de simplesmente caminhar por aquela cidade gloriosa, um museu ao céu aberto, quase sempre belo.


    Mas durante essas três semanas, um grande cartaz no UGC Rotonde, no Boulevard du Montparnasse onde morei, anunciava para depois de minha partida o novo filme de Martin Scorsese, "Shutter Island", que vi há pouco. Apesar do clima noir, a história não me parece ter vindo do universo mais pessoal do diretor. O enredo, paralelo ao de um grande clássico do cinema que é melhor não citar para evitar estragar a surpresa de quem ainda não viu, não anima muito, mas sim a possibilidade (pequena, mas não ínfima) de negar o que o filme expõe com ênfase no final _um cara sentado atrás de mim no cinema ironizou ao final, dizendo que o filme deveria ter meia hora a mais para explicar melhor o que aconteceu. É o Scorsese de que menos gostei em muitos anos.

    ***

    O filme da hora é (ou já era) "Guerra ao Terror", daquele mulherão que não faz filme de mulherzinha. Ainda não vi, mesmo com o DVD dando sopa desde o ano passado. Também não vi (nem faço grande questão, mas vai acabar acontecendo) o filme do Campanella que levou um Oscar e que tem sido elogiado, embora minhas gônadas cinematográficas (parodiando uma personagem de HQ cuja revista eu traduzia há alguns anos) me digam que deve ser bem meia-boca (e não por ser argentino, claro).

    Mas vi outro filme indicado ao Oscar de língua estrangeira (se não me engano), "La Teta Asustada", da peruana Claudia Llosa. Vendo-o, dá para entender um pouco o que um gringo quer dizer quando reclama que há filmes brasileiros que são "brasileiros demais"; para apreciar este trabalho, é preciso entender de Peru, porque o que interessa aqui é a crítica política, já que a história de uma espécie deMacabéa de origem indígena não tem força suficiente para gerar um grande filme. A mania de querer ser "poético" gera alguns planos constrangedores e retira muito da visceralidade desta história, embora não elimine de todo seus aspectos grotescos. Llosa já havia revelado Magaly Solier em seu filme anterior, "Madeinusa" (que é elogiado, mas que me dá medo de ver, considerando este aqui); a atriz é o grande destaque e parece ter muito mais potencial de fazer carreira internacional do que uma Catalina Sandino Moreno, por exemplo.


    E não me lembro se "Persepolis" chegou a disputar o Oscar do ano passado. De qualquer forma, não merecia o prêmio. A animação para o livro de Marjane Satrapi é muito bonita, o elenco é só tem gente boa (tanto na versão francesa como na inglesa _nesta tem até o Iggy Pop), mas não passa muito disso em comparação com a obra original. A HQ é resumida demais, muita coisa interessante é cortada, e o filme falha em passar a mesma emoção: em vez de um tom desesperado, ficou mais melancólico, mais suavizado, menos adulto... e menos engraçado também, quando se considera a melhor parte do livro, a infância da protagonista.

    No avião de volta para o Brasil, tentei ver "Tetro", mas de cara ficou óbvio que um filme com uma fotografia tão bonita não merecia aquela telinha ridícula. O jeito foi encarar duas comédias que a meu ver perderiam menos. A primeira foi "Whatever Works", mais um filme altamente idiossincrático de Allen (aparentemente um roteiro escrito nos anos 70 que foi engavetado por causa da morte de Zero Mostel), que não traz nenhum tipo de surpresa para quem conhece a obra do diretor. A exceção é a agressividade de seu protagonista, que apesar de ser claramente a voz de Woody, não poderia ser interpretado pelo próprio; daí parece ter vindo acalhar a escolha de Larry David para o papel. Mas mais feliz ainda é Evan Rachel Wood. A princípio me lembrou "Anything Else", mas depois ele se desmembra por outras questões (abordadas em outras obras do diretor, o que me faz pensar senão seria mais interessante se Allen fizesse menos e melhores filmes ou pelo menos continuasse a deixar seu ambiente mais familiar de Nova York para criar trabalhos diferenciados, como "Vicky Cristina Barcelona").


    O segundo filme do longo voo foi "Funny People", de Apatow, que, comparado a seus anteriores, é o que mais passa uma proximidade com sua vida e seu ambiente (um detalhe importante é que ele e Adam Sandler já moraram juntos). O filme começa bem, com um tom muito deprimente, mas depois que a grande nuvem negra passa, o que sobra é uma comédia romântica/"bromance" meio deslocada e vulgar _todos os filmes do diretor são longos, mas este é o que mais sofre com sua duração. Claro que há momentos hilários/brilhantes (James Taylor gritando "Fuck Facebook!" em um show do Myspace e Seth Rogen dizendo para Ray Romano "I thought that everybody loved you" são dois deles) e outros emocionantes (ajudados pelo fato de serem embalados pelos Beatles, em especial quando Sandler canta "Real Love". Curioso que as personagens principais se chamem George and Ira (impossível não lembrar dos Gershwin).

    A visão de uma cinebiografia de Luís XVI na TV francesa me fez tirar o atraso e ver o criticado "Marie Antoinette", da Coppolinha . É bastante animador a princípio (e mesmo sua longa duração não chega a cansar), com seu posicionamento de filme relativamente "jovem" (a diretora muitas vezes consegue fugir do peso do "filme histórico" especialmente pelo uso da trilha sonora pós-punk/new wave e, nos créditos iniciais, de uma tipografia também da época de sua infância). E é admirável como a concentração em Versalhes (local que queria muito visitar, mas que me foi desaconselhado no inverno, pelo comprometimento do majestoso jardim) transmite a alienação da rainha e do povo. É quase de arrepiar a saudação que ela faz ao mesmo quando ele finalmente aparece, que antecipa o oferecimento da monarca à guilhotina. Mas ainda ficou a impressão de que o filme infelizmente ousa menos que podia.

    Mais livre, leve e solto (mas não tanto quanto eu pensava, baseado nos comentários alheios) é "Aquele Querido Mês de Agosto", que fascina ao investir numa série de associações que vão sendo feitas de maneira bem suave, ou a partir de objetos, como o machado (um holandês vivendo em Portugal conta uma história envolvendo um machado e corta um bolo de aniversário a machadadas; depois um curta mostra um ator matando a mãe a machadadas; vemos a senhora que atuou neste curta assistindo ao mesmo na estreia, depois ela reaparece desejando boa sorte à equipe de filmagem do longa e por aí vai) ou o fogo (ouvimos alguém pedindo a música "Sonho de Menino" no rádio e isso nos leva a ver um menino desenhando, o desenho é o de um carro de bombeiros, corta para um carro de bombeiros de verdade, depois ficamos sabendo que Sónia Bandeira, escolhida para interpretar muito bem o papel feminino principal na parte ficcional do filme, trabalha na prevenção de incêndios e finalmente temos no enredo um incêndio de grandes proporções), entre muitas outras. As músicas, "bregas", "populares", "de baile" ou seja lá que classificação meio elitista elas acabem ganhando, são grudentas e divertidas (creio que mais para nós, por causa do sotaque português). Gosto menos da maioria das aparições da equipe do filme; as exceções são a hilária cena do jogo de malha e de um plano no qual dois integrantes usam suas sombras no fim de tarde para criar dois "olhos") e de outras mais didáticas, que explicitam demais o processo (como, por exemplo, a de dois atores amadores que discutem as agruras do novo ofício e a dos créditos finais). Mas sem dúvida o filme fez por merecer sua fama internacional. Para onde vai o Miguel Gomes? E de onde ele veio?

    Quanto ao "Sherlock Holmes" do século XXI, a personagem não é tão diferente assim do descrito nos livros de Sir Arthur Conan Doyle, que eu devorei aos 12 anos. O Watson (brigão, aventureiro, com resquícios de seus tempos de militar), também não. A diferença é em relação às costumeiras adaptações, que criaram um estereótipo do maior detetive do mundo e de seu amigo, comumente tratado como um distinto tiozinho gordo que só ficava observando e se impressionando com o detetive). Há também uma coisa meio meio Batman e Robin rolando entre os dois e um certo ciúme exagerado de Holmes ao ver o colega de quarto se preparando para deixá-lo porque vai se casar. Mas minhas implicâncias são muito mais com a forma que com o conteúdo: Guy Ritchie imprime ao roteiro espertinho esse ritmo típico das produções de Joel Silver, o que não ajuda o filme a se diferenciar. Outro pecado é a falta de timing para o humor, pouco sutil. Por sinal, pouco depois vi "The Private Life of Sherlock Holmes" (1970), no qual Billy Wilder e seu costumeiro parceiro de roteiro, I. A. L. Diamond não só amarraram um bom caso para Holmes e Watson como discutem a interessante questão da suposta misoginia da personagem, inclusive considerando a homossexualidade. Robert Stephens se sai muito bem como Holmes, mas o Watson de Colin Blakely (num papel onde Jack Lemmon cairia muito bem) se presta demais a uma comicidade exagerada, na qual, aliás, podemos ver justamente o toque autoral do diretor _ mas que bate de frente com a de Arthur Conan Doyle. Da maneira como saiu (era para ser um filme bem mais longo e foi meio que abortado pelo estúdio), ainda impressiona por ter uma meia hora inicial que à primeira vista serviria apenas como introdução das personagens, já que o caso em si só começa após uns 25% do total do filme, mas as sementes plantadas alisão recuperadas com a engenhosidade de costume.

    Na linha "mockumentary" que anda em voga neste início de milênio (talvez uma necessidade do espectador de cinema de achar que está vendo algo "real"? Que chato, isso) está "Paranormal Activity", do israelense Oren Peli. A tática presente em vários clássicos de terror, inclusive no muito superior "A Bruxa de Blair", de não mostrar o "monstro", mas sim o resultado de suas ações, associado ao naturalismo da câmera amadora, funciona, cria tensão e expectativa; há um balanço entre a noite, quando fica subentendido que o bicho vai pegar, e o alívio do dia, quando rola um clima mais relaxado e até bem humorado. Mas me parece um filme para ver exclusivamente no cinema, apesar de captado em vídeo e de o final, sugerido pelo Spielberg, ser muito pior que o original. Também vi o sul-africano "Distrito 9", sobre o qual não há muito a declarar, além da relativa originalidade da ideia.


    Meu primeiro encontro com "Antichrist", de Lars von Trier (estranhamente dedicado a Andrei Tarkovsky, embora lembre bem mais David Lynch em vários planos e Buñuel em poucos outros) foi decepcionante, embora não se trate de um filme descartável. A fotografia, que lembra publicidade, incomoda bastante. Os dois atores estão excelentes, em uma obra na qual o enredo tem pouco peso. E me espantou um monte de gente defender que o filme é misógino: é exatamente o oposto (a posição contra a misoginia é clara, inclusive verbalizada). As telas com os créditos e os capítulos são muito bonitas.

    Mas a bomba do período foi "The Curious Case of Benjamin Button", que eu tinha curiosidade (sem trocadilho) de ver por causa da sinopse e por ser o primeiro filme do Finchinha após o surpreendente "Zodiac" (que parece mesmo um desvio na sua carreira quase que totalmente horrenda _ possível exceção para "The Game", que eu precisava rever). Aparentemente o conto original de Fitzgerald (escritor que, como romancista, nunca me entusiasmou) é muito bem humorado, mas foi reduzido a um chororô ridículo, repleto de mensagens supostamente edificantes (pretensas "lições de vida"), de uma maneira quase tão idiota como a realizada por Peter Weir no abominável "Sociedade dos Poetas Mortos". É também uma espécie de sub-sub-"Forrest Gump" com quase três horas de duração. De uma breguice indescritível (toda vez que aparecia um beija-flor me dava vontade de queimar minhas retinas com cigarros), quase do nível de "Amélie Poulain". Para não dizer que é uma desgraça completa, vale a pena pelas cenas em que Cate Blanchett dança (ou aparenta dançar), algumas poucas com Tilda Swinton (não a que ela aparece na TV) e as de Taraji P. Henson, como a mãe adotiva do chatinho protagonista. Mas é uma sessão de tortura, embora não provoque a revolta de um "Se7en".

    Completando um pouco do texto anterior, mais um texto, da Marina Silva, para ajudar a gostar um pouco mais de "Avatar. E, aproveitando o ensejo, um link para quem quer achar discos na internet.

    ***

    Como esta entrada já ficou grande, passemos bem rápido pelos clássicos, deixando muita coisa vista no período de fora. Do supracitado Tarkovski, vi "A Infância de Ivan", seu primeiro longa (cuja cópia me foi emprestada pelo Vebis, que está ganhando de mim no quesito desatualização de blog), que não é ruim, mas está longe dos seus melhores: carrega ainda imaturidade e até certa falta de personalidade (que não parece afetar "O Rolo Compressor e o Violinista", o curta anterior). Ajuda muito ter como ator principal um garoto talentoso como Nikolay Burlyaev (que retornaria em outro papel inesquecível em "Andrei Rublev").

    "Hunger", de 1966, do dinamarquês Henning Carlsen, baseia-se na ótima atuação de Per Oscarsson como o escritor maltrapilho, esfomeado, doente (não é à toa que podemos ver com destaque em um plano o retrato de Dostoievski) e, principalmente, excêntrico, que passa os dias tentando receber o dinheiro de um artigo e perseguindo a bela Gunnel Lindblom, também excelente. É deprimente, irritante e finalmente frustrante _mas não é por isso que vai deixar de ser bom. O enredo lembrou um pouco o romance "Os Ratos", de Dyonelio Machado, igualmente desesperador na sua busca por algo tão pouco importante e no entanto vital.

    E "The Crazies" (1973), cujo DVD duplo eu trouxe de Paris para dar de presente ao também supracitado Vebis, é considerado por George A. Romero como seu filme de terror a la Peckinpah. Apesar de não lidar com o sobrenatural, vai bem na linha de seus filmes de zumbi, com pessoas infectadas por um vírus criado pelo exército como arma bacteriológica em quarentena em uma pequena cidade. É o típico discurso americano contra o Estado, num clima de grande paranoia que aponta para o holocausto nuclear. A cara de anos 70 e o pouco dinheiro não atrapalham (Romero é mestre em fazer ótimos filmes com pouca grana), mas o péssimo elenco, sim. As exceções ficam por conta das duas atrizes principais, Lane Carroll (que teria encerrado carreira aqui, com uma personagem tocante) e a gatinha Lynn Lowry (de "Shivers"), que exemplifica como as fêmeas de Romero podem enlouquecer com doçura. Há uma cena muito impactante: enquanto soldados e loucos furiosos se matam na base dos fuzis, uma jovem mulher varre a grama do campo de batalha. Isso me lembrou do quanto a gente se torna insensível ao ver matança em filmes (insensível em relação à violência nos filmes e não na vida real, bem entendido). Outro momento muito forte é quando a enfermeira dá, de uma maneira muito sutil, inesperada e triste, uma notícia muito importante a seu amado...

    ***

    A descoberta de uma nova ferramenta de buscas na internet me fez achar mais um texto acadêmico que cita o meu trabalho em jornal. O interessante do texto é lembrar esse momento revolucionário da indústria fonográfica que foi a popularização do mp3, que eu cobri em uma coluna semanal na Ilustrada em 2000. Peço licença para reproduzir um parágrafo do ensaio "Jornalismo Cultural em Tempos de Cultura Líquida", de Thiago Soares:

    "Já presenciei, na prática do maior jornal em circulação do país, a Folha de S. Paulo, um exemplo de desintermediação no terreno do jornalismo cultural. Detalho: na ocasião, antes do lançamento do álbum 'Music', da cantora Madonna, em 29 de setembro de 2000, o caderno Ilustrada, editoria de cultura da Folha de S. Paulo, subverteu o agendamento pautado pela indústria fonográfica, no caso a gravadora Maverick, subsidiária da gigante Warner. Tradicionalmente, a reportagem, a crítica ou a resenha sobre o CD de Madonna deveriam ser publicadas no momento em que o trabalho chegasse às lojas brasileiras. Só que, como num dos casos mais iniciais do compartilhamento de arquivos musicais por meio da internet, o CD 'Music' vazou em plataformas musicais e o público pôde ter acesso ao trabalho fonográfico de Madonna antes que o álbum 'físico' chegasse às lojas. O jornalista Marcelo Valletta, da Ilustrada, não aguardou para dar a reportagem sobre o álbum somente quando a Warner enviasse o CD para ser devidamente resenhado. No dia 24 de agosto de 2000, um mês e cinco dias antes do lançamento oficial do trabalho, o título da capa da Ilustrada foi: 'Madonna Grátis', divulgando que, antes mesmo que chegasse às lojas, o álbum já poderia ser encontrado para download na internet. O curioso é que o texto não era somente de caráter informativo, trazia, também, crítica, detalhes das faixas etc., escrito por jornalistas com veias de articulismo (como a especialista em moda Erika Palomino e o crítico Pedro Alexandre Sanches). Ou seja, estávamos diante de uma crítica de um produto 'líquido', disponível on-line, virtual, que habitaria as prateleiras das lojas somente um mês depois."

    ***

    O dia 12 de março passado começou para mim com uma notícia chocante e horrenda, a do assassinato do artista Glauco Vilas Boas e de seu filho Raoni. Palavras não chegam perto de serem suficientes para descrever a importância que o trabalho genial do Glauco teve na minha formação (e não só por historicamente ter desafiado a censura e publicado na Ilustrada as primeiras "genitálias desnudas"). É como Monteiro Lobato, Dostoievski, Kafka, sem exagero. Como contei no Twitter, aprendi a desenhar o Geraldão quando moleque e decorei muita lousa com ele. Ficava praticamente igual ao do Glauco (aliás, ainda fica). A capa do meu caderno de Educação Artística da 6ª série, por exemplo, era um Geraldão surfando na tábua de passar roupa que eu desenhei. Eu tinha 11 anos e já tinha deixado a "violenta" Turma da Mônica para trás. Para dar uma ideia do impacto que essa geração da Circo Editorial teve sobre a molecada dos anos 80, um grande amigo de pré-adolescência que infelizmente não vejo há alguns anos me escreveu para lembrar da época em que, com o mixo dinheirinho da mesada em épocas de hiperinflação, nos revezávamos para comprar as revistas (sempre às escondidas dos pais, por causa do conteúdo sexual _não que eles fossem ligar muito, mas a gente não queria que eles soubessem assim mesmo) e depois emprestávamos um para o outro. Só mesmo um cara como esse para reunir amigos depois da morte... Valeu, Glauco!

    quinta-feira, junho 04, 2009

    Quando Hitchcock não era mestre

    Aproveitei uma rara folga e visita aos meus pais no interior para finalmente estrear a caixa de DVDs com quase todos os filmes da fase inicial inglesa do nosso amigo Alfred que ganhei do meu irmão. Deu para ver quatro filmes mudos que eu ainda não conhecia e também para ter mais claro que demorou anos e anos para o cineasta se tornar o propalado "mestre do suspense" _se ele tivesse nascido na época em que morreu, talvez nunca tivesse chegado a lugar algum. Esses seus filmes silenciosos compõem um conjunto de romances sem nada de muito especial, dentro daquele contexto de produção industrial da era dos estúdios _do qual o diretor nunca saiu.

    "Champagne" é uma comédia romântica bastante agradável, ingênua e previsível. É o mais bem-humorado desses filmes As graças se destacam, como o anel que não serve direito e vai parar em um dedão, as marcas de farinha num casaco após um abraço e a reentrada da protagonista (Betty Balfour, não muito bonita, mas muito expressiva) numa festa no estilo meio "A Moreninha"... O Ailton, que faz peregrinação pela fase inglesa do Hitch, não gostou muito e preferiu "The Farmer's Wife", adaptação de um texto teatral que nada mais é do que outra comédia romântica _e com muito pouco a ver com a obra madura do inglês. O enredo é imensamente raso e previsível (ainda mais do que em "Champagne" _sendo que aqui o capricho com a fotografia é bem menor), como se fosse a versão miniatura de uma novela. Os bons momentos se devem em especial à qualidade dos raros diálogos, com piadas que funcionam. Mas o filme é uma bobagenzinha esquecível,não se destaca entre outros filmes da época.

    "Easy Virtue" é outra adaptação teatral (desta vez de Noel Coward) e também uma história de amor, mas desta vez o humor fica de fora. Dos três filmes de 1928 do diretor, é o que mais se encaixaria com seus filmes posteriores, porque pelo menos há um assassinato e cenas em tribunais. Mas não demora muito a se tornar um drama, mais uma vez protagonizado por uma mulher, que vai ficando cada vez mais triste até desaguar num final de certa forma implacável. Mas é também pouco memorável _tanto que, em seu famoso livro de entrevistas, François Truffaut confessa que não o viu. E Monsieur Hitchcock sempre fez questão de reclamar da última fala do filme, que é bem melodramática.

    E "The Manxman", aqui chamado de "O Ilhéu", fecha o ciclo (dos filmes mudos dele que ainda existem, faltam apenas "The Pleasure Garden" e "Downhill", que não estão na caixa de DVDs). Mais uma vez, temos uma história de amor simples e de resolução não muito surpreendente. O conflito é bem folhetinesco, um triângulo amoroso envolvendo dois grandes amigos (um deles é Carl Brisson, o One Round Jack de "The Ring") e uma bela loira (a "polaquinha" Anny Ondra, de "Blackmail"). Apesar de tudo, o filme é bonito e vale a pena. Mas quem é fã de Hitchcock em sua fase áurea não vai necessariamente se interessar por estes filmes.

    Coincidentemente, fui convidado para escrever alguma bobagem sobre "The 39 Steps", no momento meu filme preferido do diretor nesta fase inglesa (alguns expressaram preferência por "The Lady Vanishes", que não é tão bom), no contexto do ranking dos anos 1930 da Liga. Cinco dos meus escolhidos entraram no top 20 e outros cinco de 21 a 50.

    ***

    Falando em comédias românticas, que delícia é "Kiss Me Stupid", que Billy Wilder e seu parceiro de roteiro, I. A. L. Diamond, criaram também a partir de uma peça de teatro. É uma grande comédia de erros (que demora um pouco para engrenar, mas depois vai de vento em popa), extremamente sexual, cheia de trocadilhos ("If it weren't for Venetian blinds, it'd be curtains for us" é um dos muitos exemplos), ironias e frases de duplo sentido antológicas (o que me faz lembrar de "O Esporte Favorito dos Homens"). E também funciona, à moda de Frank Tashlin, como ótima crônica do seu tempo (a exemplo de seu "Crepúsculo dos Deuses", Wilder volta a ser inclemente com o mundo do show business e faz com Dean Martin algo muito parecido com o que ele tinha feito com Gloria Swanson), inclusive com umas três ou quatro piadas em cima dos Beatles. O elenco é excelente, com Dean Martin interpretando sua persona fílmica, Kim Novak em uma de suas melhores performances (sexy, engraçada e tocante ao mesmo tempo), Felicia Farr, bastante adequada em um papel originalmente escrito para Marilyn Monroe (que talvez ficasse melhor no papel de Polly The Pistol) e Ray Walston como o protagonista, que se sai bem num tremendo desafio, o de substituir o ator original, Peter Sellers, que teve de sair do projeto após um dos seus vários ataques cardíacos.

    E longe de ser tão bom, mas também gostoso de assistir, é "Sex and the Single Girl" _que me lembre, o único filme de Richard Quine que vi até o momento. A princípio parece que vai ser uma pouco memorável comédia romântica de erros sessentista, mas o filme cresce e traz vários momentos engraçados (além de uma longa e antológica sequência, a da perseguição na rodovia _com direito a contramão e pretzels). O elenco de primeira aproveita para relaxar e criar ótimos momentos, como Henry Fonda reconhecendo mulheres pelas pernas e Lauren Bacall alternando extremos como megera e mulher amorosa. Tony Curtis (quase numa espécie de versão cômica e romântica de sua personagem em "A Embriaguez do Sucesso") e Natalie Wood fazem várias referências engraçadas a Jack Lemmon, com quem trabalhariam poucos meses depois em "The Great Race".

    Mas a obra-prima vista desde o texto passado é mesmo "La Religieuse", de Rivette. Enquanto a Nouvelle Vague tinha seus anos de ouro, ele não filmava: levou seis anos até lançar o sucessor de "Paris Nous Appartient", adaptando um romance de Diderot que ele já havia levado ao teatro. Estrelado por Anna Karina, é rigoroso e sóbrio, de planos abertos e emoção contida. E cresce muito em um de seus últimos atos (com a participação marcante da sueca Liselotte Pulver), quando se torna provavelmente o mais belo "filme gay" já feito. Coroado com um final belo e impactante, mesmo sendo previsível.

    ***

    A esta altura, "Gran Torino" foi comentado à exaustão, então só vou citar duas ou três coisas: assim como "Million Dollar Baby" (que me parece superior), é bastante católico. São abordados temas como confissão, morte, racismo e armas, nada que dê para aprofundar sem "spoilers". Mas vale a pena citar a que provavelmente é a cena cômica do ano e que não vi comentada em nenhum outro texto: o velho vizinho ranzinza vai tentar ensinar seu pupilo descendente de asiáticos a "falar como um homem", levando-o a um barbeiro boca suja (John Carroll Lynch, ótimo). É o tipo de coisa que quem é pai ou é filho sabe reconhecer como muito especial.

    Sempre que eu vejo um filme adaptado de um livro que já li, é quase inevitável que me decepcione (e entendo que isso aconteça com quem leu o roteiro de "A Volta do Regresso" _um filme teimoso que deve passar de novo em São Paulo e no Rio, antes de estrear na TV_, embora também entenda que isso aconteça com quem também não o leu). No caso de "Entre les Murs", isso acontece, mas de uma forma distinta: o grande problema nem é do Cantet, mas do Bégaudeau, que não escreveu um romance e sim um roteiro (o livro é só rubrica e diálogos, bem chatinho; pede para ser filmado porque não é boa literatura, não é um texto admirável). Ah, e a tradução brasileira é nojenta (o que não é novidade; as editoras pagam uma merreca pornográfica e quem é suficientemente bom para o serviço normalmente trabalha com coisa melhor, então os parcos leitores neste pasto têm de se virar com essas versões revoltantes, estupidamente literais, como as dublagens de TV). O livro, embora obviamente resumido, é seguido bem de perto; dessa forma, como não há ousadia na adaptação, o filme cai no meu conceito. Mas pelo menos dá para destacar uma das últimas cenas, que alguns podem considerar talvez a mais óbvia e menos sutil do filme, como geradora de alguma emoção mais concentrada, ao mesmo tempo que faz um questionamento premente e aparentemente infrutífero.

    Já o piorzinho entre os filmes recentes que vi é "[Rec]", de Jaume Balagueró e Paco Plaza, que aparentemente fez sucesso suficiente para ser refilmado nos Estados Unidos (estrelado pela "Emily Rose" e irmã magrela do "Dexter", aparentemente fazendo carreira de "scream queen") e também deve ter agradado uma boa parte dos fãs de filmes de terror, mas comigo não funcionou. É tremendamente derivativo, mas sem chegar aos pés de qualquer filme do Romero ou de "A Bruxa de Blair" (para citar as obras-primas) ou mesmo do "Extermínio" do Danny Boyle (do qual não gostei) ou de "O Silêncio dos Inocentes" (dá para ver que ele chupa uma série de sucessos anteriores). O filme termina quando estava começando a ficar interessante (vem uma sequência por aí, mas não estou otimista), o que ajuda a deixá-lo ainda mais decepcionante. E também peca pela imensa falta de ritmo, o tédio se instala várias vezes... Para falar a verdade, a melhor parte mesmo do filme são seus primeiros dez minutos, quando há alguma graça (praticamente sustentada pela boa atriz Manuela Velasco).

    ***

    Falta-me tempo para escrever e, creio, falta saco a muita gente para ler os textos longos para o "padrão Twitter" que saem aqui (não que eu me importe, vejam bem). Então vou apenas citar o que andei vendo (filmes e séries de TV) recentemente e que deixei de comentar. Quem se interessar pode trocar ideias no nobre espaço para comentários: "Operazione Paura", "Terrore nello Spazio", "Sei Donne per l'Assassino" e "La Ragazza Che Sapeva Troppo", de Mario Bava; "Texas, Addio", de Ferdinando Baldi; "7 Women", de John Ford; "The Knack ...and How to Get It", de Richard Lester; "Bad Girls Go to Hell", de Doris Wishman; "Baby the Rain Must Fall", de Robert Mulligan; "Hatari!", de Howard Hawks, "Damages" (segunda temporada); "Putney Swope", de Robert Downey Sr., "The Velvet Underground and Nico", de Andy Warhol; "House M.D." (temporadas 4 e 5), "The Thin Red Line", de Andrew Marton; "The Wire" (primeira temporada); "Homicidal", de William Castle; "Lilith", de Robert Rossen; "X-Men Origins: Wolverine", de Gavin Hood; "The Mindscape of Alan Moore", de ??? (não anotei e não vou checar); "The Office" (temporadas 2 e 3); "Kiseichuu: kiraa pusshii", de Takao Nakano; "The Damned", de Joseph Losey; "Toute la Mémoire du Monde", de Alain Resnais, e "Les Statues Meurent Aussi", de Resnais e Chris Marker; "Nightmare", de Freddie Francis; "Rififí en la Ciudad" e "Gritos en la Noche", de Jesus Franco; "Dexter" (temporada 3); "För att inte tala om alla dessa kvinnor", de Ingmar Bergman; "Rabbits", de David Lynch.

    P.S. Internet é ferramenta. Não entro em sites da moda a não ser que descubra uma serventia para eles. Acabei de descobrir uma serventia para o Twitter (ou seja, defini o que dá para escrever em 140 toques) e acabei de entrar lá. É aqui.

    P.P.S. Mudaram a câmera de lugar, ufa. Alívio imenso de não mais aparecer na TV. Tristeza dos meus pais, que assistiam para matar a saudade.

    P.P.P.S. Assim como os textos no Estranho Encontro, vale a pena ler esta entrevista da Andrea Ormond feita pelo Marcelo Miranda.

    P.P.P.P.S. Se eu não me esquecer, nos próximos textos gostaria de citar alguns trechos do livro "Hollywood - A Meca do Cinema", de Blaise Cendrars. Ia começar pelo trabalho nos estúdios, mas esta notícia me fez escolher este outro:

    "Nunca tomo notas em viagem. Não quero cumular o espírito com uma multidão de detalhes contraditorios. Quero poder relatar somente o essencial das coisas vistas.

    Um repórter não é um simples caçador de imagens, deve saber captar as visões do espírito.

    Se seu olho deve ser tão rápido quanto a objetiva do fotógrafo, seu papel não é registrar passivamente as coisas. O espírito do autor deve reagir com agilidade, com seu temperamento de escritor, seu coração de homem.

    É nesse sentido, mas somente nesse sentido, que uma reportagem pode ser um documento sensacional, sem se perder em exageros.

    Nada é tão comovente para um jornalista que acaba de partir incógnito para o exterior quanto relatar esse mergulho numa atualidade viva, palpitante e recalcitrante, mas de significação geral, e que é o único testemunho real que podemos dar da vida do universo, esse desconhecido. É por isso que os jornais existem e são publicados a cada 24 horas.

    Não se trata de ser objetivo. É preciso tomar partido. Sem introduzir algo de seu, o jornalista jamais conseguirá transmitir essa vida atual, que é também uma visão do espírito.

    Por isso, quanto mais verdadeiro é um artigo, mais tem de parecer imaginário. De tanto se colar às coisas, o jornalista está fadado a influenciá-las, e não a decalcá-las. E é também por isso que a escrita não é uma mentira nem um sonho, mas a realidade, e talvez tudo o que jamais poderemos conhecer do real."

    P.P.P.P.P.S.

    R.I.P. Fritz

    Na platéia