A gruta é mais extensa do que a gruta

    follow me on Twitter
    Mostrando postagens com marcador David Lynch. Mostrar todas as postagens
    Mostrando postagens com marcador David Lynch. Mostrar todas as postagens

    quinta-feira, março 18, 2010

    É uma brasa, mora?


    Como adiantei no texto anterior, realmente fui à Cinémathèque Française ver "Eraserhead", em 35mm, na confortável sala Georges Franju, poucas horas após ter chegado a Paris, no dia 31 de janeiro. Estava um frio desgraçado e eram 22h de um domingo, mas mesmo assim a sessão esteve lotada. Antes, tinha planejado conhecer o museu do local (que, entre outras preciosidades, abriga a cabeça da mãe de Norman Bates), mas ele fechava uma hora antes do que eu tinha lido e não dava tempo para uma boa visita, apesar de a loiracinha do caixa ter tentado me convencer do contrário. Em vez disso, fui conhecer a livraria (onde vi uma edição muito completa sobre o cinema brasileiro, dessas que não temos por aqui) e jantar deliciosamente em um restaurante italiano perto da estação Bercy (ali, graças a um mapa, dei informações a uma italiana que não falava francês e estava quase chorando), onde tomei o melhor (poderia dizer o primeiro) sorvete de chocolate da minha vida (sim, fazia 0°C e eu tomei sorvete). A visita ao banheiro da CF teve seu toque divertido pelos palavrões escritos na porta, todos dirigidos ao Toubiana. Antes da sessão, mais protesto: um funcionário velhinho passou um abaixo-assinado reclamando de terceirizações pagas com dinheiro público _pra gente ver que essas coisas não ocorrem apenas por aqui. A sessão em si foi ótima, muito divertida. Os parisienses não conheciam o primeiro longa do David Lynch e deram muitas risadas. O próprio Lynch diz que ninguém jamais adivinhou sobre o que é o filme e acho isso de pouca importância: é hilário, é bonito, é grotesco e tem um excelente John Nance, além da participação poderosíssima da Judith Roberts, perfeita na explosão contida de erotismo.

    E esta foi minha única sessão de cinema em Paris, embora oferta não faltasse, nas dezenas de salas perto de onde eu morava, com direito a ingresso com quase 50% de desconto se comprados em pacotes de cinco. Os lançamentos locais não eram muito atraentes: em sua maioria comédias infantiloides, um policial produzido pelo Luc Besson e estrelado pelo John Travolta e até um filme de zumbis. Os internacionais não tinham datas tão diferentes das de São Paulo. E mesmo os lotados cinemas da Rue Champolion, ali ao lado da Sorbonne (indicação do Milton do Prado), que homenageavam Rohmer, atraíram-me menos que o prazer de simplesmente caminhar por aquela cidade gloriosa, um museu ao céu aberto, quase sempre belo.


    Mas durante essas três semanas, um grande cartaz no UGC Rotonde, no Boulevard du Montparnasse onde morei, anunciava para depois de minha partida o novo filme de Martin Scorsese, "Shutter Island", que vi há pouco. Apesar do clima noir, a história não me parece ter vindo do universo mais pessoal do diretor. O enredo, paralelo ao de um grande clássico do cinema que é melhor não citar para evitar estragar a surpresa de quem ainda não viu, não anima muito, mas sim a possibilidade (pequena, mas não ínfima) de negar o que o filme expõe com ênfase no final _um cara sentado atrás de mim no cinema ironizou ao final, dizendo que o filme deveria ter meia hora a mais para explicar melhor o que aconteceu. É o Scorsese de que menos gostei em muitos anos.

    ***

    O filme da hora é (ou já era) "Guerra ao Terror", daquele mulherão que não faz filme de mulherzinha. Ainda não vi, mesmo com o DVD dando sopa desde o ano passado. Também não vi (nem faço grande questão, mas vai acabar acontecendo) o filme do Campanella que levou um Oscar e que tem sido elogiado, embora minhas gônadas cinematográficas (parodiando uma personagem de HQ cuja revista eu traduzia há alguns anos) me digam que deve ser bem meia-boca (e não por ser argentino, claro).

    Mas vi outro filme indicado ao Oscar de língua estrangeira (se não me engano), "La Teta Asustada", da peruana Claudia Llosa. Vendo-o, dá para entender um pouco o que um gringo quer dizer quando reclama que há filmes brasileiros que são "brasileiros demais"; para apreciar este trabalho, é preciso entender de Peru, porque o que interessa aqui é a crítica política, já que a história de uma espécie deMacabéa de origem indígena não tem força suficiente para gerar um grande filme. A mania de querer ser "poético" gera alguns planos constrangedores e retira muito da visceralidade desta história, embora não elimine de todo seus aspectos grotescos. Llosa já havia revelado Magaly Solier em seu filme anterior, "Madeinusa" (que é elogiado, mas que me dá medo de ver, considerando este aqui); a atriz é o grande destaque e parece ter muito mais potencial de fazer carreira internacional do que uma Catalina Sandino Moreno, por exemplo.


    E não me lembro se "Persepolis" chegou a disputar o Oscar do ano passado. De qualquer forma, não merecia o prêmio. A animação para o livro de Marjane Satrapi é muito bonita, o elenco é só tem gente boa (tanto na versão francesa como na inglesa _nesta tem até o Iggy Pop), mas não passa muito disso em comparação com a obra original. A HQ é resumida demais, muita coisa interessante é cortada, e o filme falha em passar a mesma emoção: em vez de um tom desesperado, ficou mais melancólico, mais suavizado, menos adulto... e menos engraçado também, quando se considera a melhor parte do livro, a infância da protagonista.

    No avião de volta para o Brasil, tentei ver "Tetro", mas de cara ficou óbvio que um filme com uma fotografia tão bonita não merecia aquela telinha ridícula. O jeito foi encarar duas comédias que a meu ver perderiam menos. A primeira foi "Whatever Works", mais um filme altamente idiossincrático de Allen (aparentemente um roteiro escrito nos anos 70 que foi engavetado por causa da morte de Zero Mostel), que não traz nenhum tipo de surpresa para quem conhece a obra do diretor. A exceção é a agressividade de seu protagonista, que apesar de ser claramente a voz de Woody, não poderia ser interpretado pelo próprio; daí parece ter vindo acalhar a escolha de Larry David para o papel. Mas mais feliz ainda é Evan Rachel Wood. A princípio me lembrou "Anything Else", mas depois ele se desmembra por outras questões (abordadas em outras obras do diretor, o que me faz pensar senão seria mais interessante se Allen fizesse menos e melhores filmes ou pelo menos continuasse a deixar seu ambiente mais familiar de Nova York para criar trabalhos diferenciados, como "Vicky Cristina Barcelona").


    O segundo filme do longo voo foi "Funny People", de Apatow, que, comparado a seus anteriores, é o que mais passa uma proximidade com sua vida e seu ambiente (um detalhe importante é que ele e Adam Sandler já moraram juntos). O filme começa bem, com um tom muito deprimente, mas depois que a grande nuvem negra passa, o que sobra é uma comédia romântica/"bromance" meio deslocada e vulgar _todos os filmes do diretor são longos, mas este é o que mais sofre com sua duração. Claro que há momentos hilários/brilhantes (James Taylor gritando "Fuck Facebook!" em um show do Myspace e Seth Rogen dizendo para Ray Romano "I thought that everybody loved you" são dois deles) e outros emocionantes (ajudados pelo fato de serem embalados pelos Beatles, em especial quando Sandler canta "Real Love". Curioso que as personagens principais se chamem George and Ira (impossível não lembrar dos Gershwin).

    A visão de uma cinebiografia de Luís XVI na TV francesa me fez tirar o atraso e ver o criticado "Marie Antoinette", da Coppolinha . É bastante animador a princípio (e mesmo sua longa duração não chega a cansar), com seu posicionamento de filme relativamente "jovem" (a diretora muitas vezes consegue fugir do peso do "filme histórico" especialmente pelo uso da trilha sonora pós-punk/new wave e, nos créditos iniciais, de uma tipografia também da época de sua infância). E é admirável como a concentração em Versalhes (local que queria muito visitar, mas que me foi desaconselhado no inverno, pelo comprometimento do majestoso jardim) transmite a alienação da rainha e do povo. É quase de arrepiar a saudação que ela faz ao mesmo quando ele finalmente aparece, que antecipa o oferecimento da monarca à guilhotina. Mas ainda ficou a impressão de que o filme infelizmente ousa menos que podia.

    Mais livre, leve e solto (mas não tanto quanto eu pensava, baseado nos comentários alheios) é "Aquele Querido Mês de Agosto", que fascina ao investir numa série de associações que vão sendo feitas de maneira bem suave, ou a partir de objetos, como o machado (um holandês vivendo em Portugal conta uma história envolvendo um machado e corta um bolo de aniversário a machadadas; depois um curta mostra um ator matando a mãe a machadadas; vemos a senhora que atuou neste curta assistindo ao mesmo na estreia, depois ela reaparece desejando boa sorte à equipe de filmagem do longa e por aí vai) ou o fogo (ouvimos alguém pedindo a música "Sonho de Menino" no rádio e isso nos leva a ver um menino desenhando, o desenho é o de um carro de bombeiros, corta para um carro de bombeiros de verdade, depois ficamos sabendo que Sónia Bandeira, escolhida para interpretar muito bem o papel feminino principal na parte ficcional do filme, trabalha na prevenção de incêndios e finalmente temos no enredo um incêndio de grandes proporções), entre muitas outras. As músicas, "bregas", "populares", "de baile" ou seja lá que classificação meio elitista elas acabem ganhando, são grudentas e divertidas (creio que mais para nós, por causa do sotaque português). Gosto menos da maioria das aparições da equipe do filme; as exceções são a hilária cena do jogo de malha e de um plano no qual dois integrantes usam suas sombras no fim de tarde para criar dois "olhos") e de outras mais didáticas, que explicitam demais o processo (como, por exemplo, a de dois atores amadores que discutem as agruras do novo ofício e a dos créditos finais). Mas sem dúvida o filme fez por merecer sua fama internacional. Para onde vai o Miguel Gomes? E de onde ele veio?

    Quanto ao "Sherlock Holmes" do século XXI, a personagem não é tão diferente assim do descrito nos livros de Sir Arthur Conan Doyle, que eu devorei aos 12 anos. O Watson (brigão, aventureiro, com resquícios de seus tempos de militar), também não. A diferença é em relação às costumeiras adaptações, que criaram um estereótipo do maior detetive do mundo e de seu amigo, comumente tratado como um distinto tiozinho gordo que só ficava observando e se impressionando com o detetive). Há também uma coisa meio meio Batman e Robin rolando entre os dois e um certo ciúme exagerado de Holmes ao ver o colega de quarto se preparando para deixá-lo porque vai se casar. Mas minhas implicâncias são muito mais com a forma que com o conteúdo: Guy Ritchie imprime ao roteiro espertinho esse ritmo típico das produções de Joel Silver, o que não ajuda o filme a se diferenciar. Outro pecado é a falta de timing para o humor, pouco sutil. Por sinal, pouco depois vi "The Private Life of Sherlock Holmes" (1970), no qual Billy Wilder e seu costumeiro parceiro de roteiro, I. A. L. Diamond não só amarraram um bom caso para Holmes e Watson como discutem a interessante questão da suposta misoginia da personagem, inclusive considerando a homossexualidade. Robert Stephens se sai muito bem como Holmes, mas o Watson de Colin Blakely (num papel onde Jack Lemmon cairia muito bem) se presta demais a uma comicidade exagerada, na qual, aliás, podemos ver justamente o toque autoral do diretor _ mas que bate de frente com a de Arthur Conan Doyle. Da maneira como saiu (era para ser um filme bem mais longo e foi meio que abortado pelo estúdio), ainda impressiona por ter uma meia hora inicial que à primeira vista serviria apenas como introdução das personagens, já que o caso em si só começa após uns 25% do total do filme, mas as sementes plantadas alisão recuperadas com a engenhosidade de costume.

    Na linha "mockumentary" que anda em voga neste início de milênio (talvez uma necessidade do espectador de cinema de achar que está vendo algo "real"? Que chato, isso) está "Paranormal Activity", do israelense Oren Peli. A tática presente em vários clássicos de terror, inclusive no muito superior "A Bruxa de Blair", de não mostrar o "monstro", mas sim o resultado de suas ações, associado ao naturalismo da câmera amadora, funciona, cria tensão e expectativa; há um balanço entre a noite, quando fica subentendido que o bicho vai pegar, e o alívio do dia, quando rola um clima mais relaxado e até bem humorado. Mas me parece um filme para ver exclusivamente no cinema, apesar de captado em vídeo e de o final, sugerido pelo Spielberg, ser muito pior que o original. Também vi o sul-africano "Distrito 9", sobre o qual não há muito a declarar, além da relativa originalidade da ideia.


    Meu primeiro encontro com "Antichrist", de Lars von Trier (estranhamente dedicado a Andrei Tarkovsky, embora lembre bem mais David Lynch em vários planos e Buñuel em poucos outros) foi decepcionante, embora não se trate de um filme descartável. A fotografia, que lembra publicidade, incomoda bastante. Os dois atores estão excelentes, em uma obra na qual o enredo tem pouco peso. E me espantou um monte de gente defender que o filme é misógino: é exatamente o oposto (a posição contra a misoginia é clara, inclusive verbalizada). As telas com os créditos e os capítulos são muito bonitas.

    Mas a bomba do período foi "The Curious Case of Benjamin Button", que eu tinha curiosidade (sem trocadilho) de ver por causa da sinopse e por ser o primeiro filme do Finchinha após o surpreendente "Zodiac" (que parece mesmo um desvio na sua carreira quase que totalmente horrenda _ possível exceção para "The Game", que eu precisava rever). Aparentemente o conto original de Fitzgerald (escritor que, como romancista, nunca me entusiasmou) é muito bem humorado, mas foi reduzido a um chororô ridículo, repleto de mensagens supostamente edificantes (pretensas "lições de vida"), de uma maneira quase tão idiota como a realizada por Peter Weir no abominável "Sociedade dos Poetas Mortos". É também uma espécie de sub-sub-"Forrest Gump" com quase três horas de duração. De uma breguice indescritível (toda vez que aparecia um beija-flor me dava vontade de queimar minhas retinas com cigarros), quase do nível de "Amélie Poulain". Para não dizer que é uma desgraça completa, vale a pena pelas cenas em que Cate Blanchett dança (ou aparenta dançar), algumas poucas com Tilda Swinton (não a que ela aparece na TV) e as de Taraji P. Henson, como a mãe adotiva do chatinho protagonista. Mas é uma sessão de tortura, embora não provoque a revolta de um "Se7en".

    Completando um pouco do texto anterior, mais um texto, da Marina Silva, para ajudar a gostar um pouco mais de "Avatar. E, aproveitando o ensejo, um link para quem quer achar discos na internet.

    ***

    Como esta entrada já ficou grande, passemos bem rápido pelos clássicos, deixando muita coisa vista no período de fora. Do supracitado Tarkovski, vi "A Infância de Ivan", seu primeiro longa (cuja cópia me foi emprestada pelo Vebis, que está ganhando de mim no quesito desatualização de blog), que não é ruim, mas está longe dos seus melhores: carrega ainda imaturidade e até certa falta de personalidade (que não parece afetar "O Rolo Compressor e o Violinista", o curta anterior). Ajuda muito ter como ator principal um garoto talentoso como Nikolay Burlyaev (que retornaria em outro papel inesquecível em "Andrei Rublev").

    "Hunger", de 1966, do dinamarquês Henning Carlsen, baseia-se na ótima atuação de Per Oscarsson como o escritor maltrapilho, esfomeado, doente (não é à toa que podemos ver com destaque em um plano o retrato de Dostoievski) e, principalmente, excêntrico, que passa os dias tentando receber o dinheiro de um artigo e perseguindo a bela Gunnel Lindblom, também excelente. É deprimente, irritante e finalmente frustrante _mas não é por isso que vai deixar de ser bom. O enredo lembrou um pouco o romance "Os Ratos", de Dyonelio Machado, igualmente desesperador na sua busca por algo tão pouco importante e no entanto vital.

    E "The Crazies" (1973), cujo DVD duplo eu trouxe de Paris para dar de presente ao também supracitado Vebis, é considerado por George A. Romero como seu filme de terror a la Peckinpah. Apesar de não lidar com o sobrenatural, vai bem na linha de seus filmes de zumbi, com pessoas infectadas por um vírus criado pelo exército como arma bacteriológica em quarentena em uma pequena cidade. É o típico discurso americano contra o Estado, num clima de grande paranoia que aponta para o holocausto nuclear. A cara de anos 70 e o pouco dinheiro não atrapalham (Romero é mestre em fazer ótimos filmes com pouca grana), mas o péssimo elenco, sim. As exceções ficam por conta das duas atrizes principais, Lane Carroll (que teria encerrado carreira aqui, com uma personagem tocante) e a gatinha Lynn Lowry (de "Shivers"), que exemplifica como as fêmeas de Romero podem enlouquecer com doçura. Há uma cena muito impactante: enquanto soldados e loucos furiosos se matam na base dos fuzis, uma jovem mulher varre a grama do campo de batalha. Isso me lembrou do quanto a gente se torna insensível ao ver matança em filmes (insensível em relação à violência nos filmes e não na vida real, bem entendido). Outro momento muito forte é quando a enfermeira dá, de uma maneira muito sutil, inesperada e triste, uma notícia muito importante a seu amado...

    ***

    A descoberta de uma nova ferramenta de buscas na internet me fez achar mais um texto acadêmico que cita o meu trabalho em jornal. O interessante do texto é lembrar esse momento revolucionário da indústria fonográfica que foi a popularização do mp3, que eu cobri em uma coluna semanal na Ilustrada em 2000. Peço licença para reproduzir um parágrafo do ensaio "Jornalismo Cultural em Tempos de Cultura Líquida", de Thiago Soares:

    "Já presenciei, na prática do maior jornal em circulação do país, a Folha de S. Paulo, um exemplo de desintermediação no terreno do jornalismo cultural. Detalho: na ocasião, antes do lançamento do álbum 'Music', da cantora Madonna, em 29 de setembro de 2000, o caderno Ilustrada, editoria de cultura da Folha de S. Paulo, subverteu o agendamento pautado pela indústria fonográfica, no caso a gravadora Maverick, subsidiária da gigante Warner. Tradicionalmente, a reportagem, a crítica ou a resenha sobre o CD de Madonna deveriam ser publicadas no momento em que o trabalho chegasse às lojas brasileiras. Só que, como num dos casos mais iniciais do compartilhamento de arquivos musicais por meio da internet, o CD 'Music' vazou em plataformas musicais e o público pôde ter acesso ao trabalho fonográfico de Madonna antes que o álbum 'físico' chegasse às lojas. O jornalista Marcelo Valletta, da Ilustrada, não aguardou para dar a reportagem sobre o álbum somente quando a Warner enviasse o CD para ser devidamente resenhado. No dia 24 de agosto de 2000, um mês e cinco dias antes do lançamento oficial do trabalho, o título da capa da Ilustrada foi: 'Madonna Grátis', divulgando que, antes mesmo que chegasse às lojas, o álbum já poderia ser encontrado para download na internet. O curioso é que o texto não era somente de caráter informativo, trazia, também, crítica, detalhes das faixas etc., escrito por jornalistas com veias de articulismo (como a especialista em moda Erika Palomino e o crítico Pedro Alexandre Sanches). Ou seja, estávamos diante de uma crítica de um produto 'líquido', disponível on-line, virtual, que habitaria as prateleiras das lojas somente um mês depois."

    ***

    O dia 12 de março passado começou para mim com uma notícia chocante e horrenda, a do assassinato do artista Glauco Vilas Boas e de seu filho Raoni. Palavras não chegam perto de serem suficientes para descrever a importância que o trabalho genial do Glauco teve na minha formação (e não só por historicamente ter desafiado a censura e publicado na Ilustrada as primeiras "genitálias desnudas"). É como Monteiro Lobato, Dostoievski, Kafka, sem exagero. Como contei no Twitter, aprendi a desenhar o Geraldão quando moleque e decorei muita lousa com ele. Ficava praticamente igual ao do Glauco (aliás, ainda fica). A capa do meu caderno de Educação Artística da 6ª série, por exemplo, era um Geraldão surfando na tábua de passar roupa que eu desenhei. Eu tinha 11 anos e já tinha deixado a "violenta" Turma da Mônica para trás. Para dar uma ideia do impacto que essa geração da Circo Editorial teve sobre a molecada dos anos 80, um grande amigo de pré-adolescência que infelizmente não vejo há alguns anos me escreveu para lembrar da época em que, com o mixo dinheirinho da mesada em épocas de hiperinflação, nos revezávamos para comprar as revistas (sempre às escondidas dos pais, por causa do conteúdo sexual _não que eles fossem ligar muito, mas a gente não queria que eles soubessem assim mesmo) e depois emprestávamos um para o outro. Só mesmo um cara como esse para reunir amigos depois da morte... Valeu, Glauco!

    sexta-feira, dezembro 28, 2007

    Começando pelo fim: feliz 2008!

    ***

    Michel Simões escreveu sobre "A Volta do Regresso" aqui. Agradeço imensamente a atenção e lamento que o filme tenha sido visto (entre muitas outras pessoas _a sessão lotou_, pelo grande Ênio Gonçalves, cuja brilhante presença no projeto muito me honra) em condições tão ruins, já que o som esteve quase inaudível, por culpa da sala. Foi muito estranho a curadoria da 21ª Mostra do Audiovisual Paulista ter colocado meu filme em uma sessão com vídeos; ficou claro que houve a opção de colocar as comédias numa mesma sessão, o que corrobora o preconceito sofrido pelo gênero. Mas o que queria comentar é a primeira impressão do Michel, que, a julgar por seu texto, enxergou o filme mais como um drama _o que é muito interessante, embora a minha abordagem tenha sido outra.

    ***

    Conversando justamente sobre estes preconceitos de gênero com Carlo Mossy, ao voltar do Festival de Brasília, ouvi dele casos inacreditáveis e revoltantes, que dão uma idéia da medida da ignorância, da maldade e da covardia de muita gente que faz parte desta coisa estranha, ridiculamente chamada de "meio artístico". Vendo um dos seis DVDs que o Mossy lançou recentemente, "Essa Gostosa Brincadeira a Dois", de 1974, fica mais acentuada a estranheza em relação à pouca valorização que se dá a este tipo de produção: o filme não se enquadra no rótulo pejorativo (mas assumido pelo Mossy numa boa) "pornochanchada", já que se trata de uma comédia romântica com toques de "The Graduate" (há, sim, nudez, a destacar as de Vera Fischer e Tereza Trautman). Também é muito bem produzido, com uma quantidade imensa de locações (no Rio e em Salvador), uma trilha sonora original caprichadíssima (completada por alguns sucessos do momento que hoje são clássicos do rock, como Deep Purple e Emerson, Lake and Palmer) um grande elenco, encabeçado pelo casal protagonista, Mossy (também produtor) e Dilma Lóes (também co-roteirista, ex-mulher do diretor Victor di Mello e com a mãe Lídia Mattos interpretando a mãe de sua personagem), ambos esbanjando carisma e energia num filme que irradia juventude (naquele contexto, um tanto de hippismo) e alto astral (tem até participação especial do Chacrinha _curiosamente citado em "A Volta do Regresso"), mas que também apresenta um surpreendente contraponto socioeconômico. A equipe técnica também traz algumas feras, como José Rosa (que dividiu com o Barretão a fotografia de "Vidas Secas") e Raimundo Higino (montador de vários filmes dos Trapalhões, do Antonio Calmon, do Neville etc., incluindo "Dona Flor e seus Dois Maridos"). E, mesmo assim, tudo parece bastante descompromissado (o filme é despretensiosíssimo), dá a impressão de que a equipe mais se divertiu do que trabalhou. De quebra, um final delirantemente lindo e incrivelmente romântico.

    ***

    Lynch é lógico, embora algumas peças dos quebra-cabeças que nos oferece sejam difíceis de encaixar (ou talvez nem todas se encaixem). "Inland Empire" não traz exatamente surpresas, a não ser a da maior duração (algo que ele sempre quis fazer, mas teria invariavelmente dado de cara com a resistência dos produtores), que permite um mergulho mais longo no devaneio que surge após um início bastante linear. Senti que o estilo dele começa a cansar, embora várias seqüências sejam fascinantes (mas mesmo algumas das melhores, como a que toca "The Locomotion", têm cheiro de déjà vu), e os diálogos, ótimos. Gostei e me decepcionei ao mesmo tempo; curiosamente, tenho pouca vontade de revê-lo, no momento. Laura Dern é a atriz do ano?

    Após ter visto quase toda a série da TV, finalmente vejo "Antônia, o Filme". Bem decepcionante, embora o quarteto protagonista (ou nem tanto, já que as personagens de Negra Li e Leilah Moreno tenham muito mais destaque, e principalmente Quelinah mal aparece) transborde carisma. Há alguns pequenos momentos mágicos que valem o filme, invariavelmente ligados à música: as apresentações das heroínas, Sandra de Sá cantando um hino evangélico, Thaíde tocando "Na Sombra de uma Árvore", de Hyldon, para Negra Li, em frente a um carrinho de cachorro-quente. É alguma coisa, mas ainda é pouco. A parte técnica é sofrível (som e fotografia são desastrosos), assim como algumas atuações de coadjuvantes. O projeto todo é muito simpático, mas ficou melhor no formato televisivo, mais curto e com roteiros e direção superiores.

    Outros filmes da década atual que vi no período: em "Smokin' Aces", Joe Carnahan, (mais conhecido por um filme não muito memorável chamado "Narc" _ele também vai adaptar "Jazz Branco", do Ellroy, além de fazer um remake de "Bunny Lake Is Missing", do Preminger) resolveu brincar de Guy Ritchie e fazer um filme repleto de personagens (algumas muito estranhas, como os Irmãos Tremor e o garotinho invocado que fica de pau duro quando ameaça estranhos com golpes de caratê), numa trama em que muita coisa dá para adivinhar, mas um segredinho fica para última hora. O filme é razoável (com alguns momentos muito bons, entre eles a cena em que Jeremy Piven, ótimo, coloca as lentes de contato), e a surpresa mais agradável que ele nos guarda é a boa atuação da Alicia Keys (muito mais biscoituda do que em seus clipes). Já "Paprika", de Satoshi Kon, é outra decepção: após o belo auto de Natal "Tokyo Godfathers", ele vem com um anime infinitamente mais convencional e menos interessante. As referências a "Sonhos", do Kurosawa, são bem óbvias e compreensíveis. Mas uma bela supresa foi "Little Children", de Todd Field (mais conhecido como o pianista da suruba em "Eyes Wide Shut"): é mais um "drama de subúrbio norte-americano" (muito mais sério do que "Beleza Americana" ou "Desperate Housewives"). Embora bastante previsível, há momentos a destacar (como Jennifer Connelly reparando na breguice do esmalte das unhas dos pés de Kate Winslet). A narração, este artifício tão criticado (como se "literatura no cinema" fosse uma pobreza _e o paralelo com "Madame Bovary" se sustenta, embora seja outra obviedade) funciona muito bem.

    E antes de partir para as velharias que aparentemente não geram muito interesse, encaixo aqui a primeira temporada da série "Californication", devidamente processada pelos Red Hot Chili Peppers: é mais convencional do que eu pensava (bem, é criação de um ex-roteirista e produtor de "Dawson's Creek"...), embora o protagonista seja divertido (e pouco crível _mas com umas falas ótimas). O tema musical da abertura é muito bom, e os melhores episódios são os que apresentam nudez feminina (por que será?) _inclusive o de uma atriz que era uma das crianças da série "The Nanny". Desconfio se a segunda temporada vai manter o pique, dado o final da primeira... E quando eu finalmente penso que o ótimo David Duchovny está livre da sombra de "Arquivo X" (série que não vi, por sinal), fico sabendo que ele volta a interpretar Fox Mulder num segundo longa...

    Para finalizar este trecho: também vi a quinta temporada dos Simpsons (1993-1994), em DVD. Como diz o Mr. Burns: "Excellent!". Uma temporada memorável, excepcional.

    ***

    Num período meio fraco de filmes (inclusive em quantidade, já que tenho chegado do trabalho de madrugada), o destaque foi mais um longa bem atípico de um diretor fascinante, Jacques Tourneur: "Stars in My Crown" é um western estrelado por Joel McCrea e Dean Stockwell (já com anos de carreira, embora ainda criança) que, hoje, pode soar um tanto datado, mas na época deve ter sido razoavelmente inovador, por deixar a apologia da violência de lado e investir num embate cordial entre a fé e a ciência. O final é um primor. Já "Broken Arrow", de Delmer Daves, com James Stewart, me pareceu uma espécie de precursor de "Dança com Lobos" _pelo menos no que tange a representação simpática dos Apaches.

    "The Sound of Fury", de Cy Endfield (um dos denunciados como comunistas em Hollywood, teve de se exilar na Inglaterra), também chamado de "Try and Get Me", foi inspirado numa história real (que também teria inspirado "Fury", do Fritz Lang). de baixo orçamento, impressiona mais por alternar formas mais antigas (sucessão de closes a la Eisenstein) e "modernas" (câmera na mão), com alguns momentos muito fortes (o início) e outros bastante melodramáticos (em grande parte devido a Frank Lovejoy, que vivia fazendo papel de PM e que não é exatamente um primor de sutileza). Lloyd Bridges é o psicopata da vez. E "The Day the Earth Stood Still", de Robert Wise, um delicioso clássico da Guerra Fria (com direito a jornalistas famosos interpretando a si mesmos), sedimentou toda a estética dos pulps de sci-fi no cinema, muito imitada (com referências até em filmes de outros gêneros, como o "Army of Darkness" do Raimi, que cita a frase "Klaatu barada nikto", e até uma capa de um disco de Ringo Starr, além da canção do Raul Seixas que me lembra o trânsito paulistano). As cenas com efeitos visuais funcionam muito bem, e a trilha sonora de Bernard Herrmann (com direito a dois theremins) é brilhante. Uma pena que Klaatu não pôde ser interpretado pelo Claude Rains (prefiro ele a Spencer Tracy, também considerado para o papel). E "Alice in Wonderland", que trouxe a era do ácido lisérgico mais cedo, nesta adaptação das obras de Lewis Carroll (que, curiosamente, nunca li). O filme é uma viagem, literalmente _não sei se me surpreendo por ter sido um fracasso de bilheteria, embora hoje seja um clássico. A cena das flores é a minha preferida (também gosto demais do Chapeleiro Louco e do Coelho Branco), e Alice é talvez a protagonista mais bonita da Disney.

    De resto, quero apenas citar rapidamente outros filmes, alguns bem melhores do que outros: "The Gunfighter", de Henry King, com Gregory Peck, usa brilhantemente a montagem paralela e o espaço para construir suspense e tensão em altos níveis, mas também tem seus momentos românticos e bem-humorados. "D.O.A.", de Rudolph Maté (que trabalhou como diretor de fotografia para Dreyer, Hitchcock, Welles etc.), com uma seqüência inicial ótima e uma premissa idem, a de um homem que foi assassinado, porém vive; pena que Edmond O'Brien esteja péssimo; quem rouba a cena mesmo é Neville Brand, praticamente em seu filme de estréia, como o psicopata Chester _e há uma cena muito boa com um grupo de jazz. "Where the Sidewalk Ends", escrito por Ben Hecht e dirigido por Otto Preminger, traz Dana Andrews e Gene Tierney (que haviam trabalhado sob a batuta do diretor no superior "Laura"), além de Karl Malden, um desses coadjuvantes que sempre chamam a atenção. Vi também "Dark City", o quarto dos quatro filmes que William Dieterle dirigiu em 1950 (bons tempos aqueles?), é um dos primeiros trabalhos de Charlton Heston, num filme que mistura os gêneros noir (Lizabeth Scott é quase um clone de Lauren Bacall), suspense (muito bom o anel que caracteriza o assassino) e o melodrama familiar, com um final bem estranho. "The Steel Helmet", de Samuel Fuller, tem orçamento baixíssimo, mas ótimas sacadas (como a mão da estátua de Buda segurando o saquinho de transfusão de sangue), além de um ótimo Richard Loo. "Lady in the Lake", de Robert Montgomery, realiza uma idéia que não era nova: a de fazer um filme quase todo com câmera subjetiva. O resultado é estranho, bem inferior ao que Delmer Daves atingiu em "Dark Passage". "The Set-Up", de Robert Wise, caiu na revisão: pareceu pobre, óbvio, sem grandes inovações, embora longe de desprezível. E "Criss Cross", de Robert Siodmak, revela-se uma decepção; a curiosidade-mor é uma aparição-relâmpago de Tony Curtis, em um de seus primeiros filmes.

    Na platéia