A gruta é mais extensa do que a gruta

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    quinta-feira, março 18, 2010

    É uma brasa, mora?


    Como adiantei no texto anterior, realmente fui à Cinémathèque Française ver "Eraserhead", em 35mm, na confortável sala Georges Franju, poucas horas após ter chegado a Paris, no dia 31 de janeiro. Estava um frio desgraçado e eram 22h de um domingo, mas mesmo assim a sessão esteve lotada. Antes, tinha planejado conhecer o museu do local (que, entre outras preciosidades, abriga a cabeça da mãe de Norman Bates), mas ele fechava uma hora antes do que eu tinha lido e não dava tempo para uma boa visita, apesar de a loiracinha do caixa ter tentado me convencer do contrário. Em vez disso, fui conhecer a livraria (onde vi uma edição muito completa sobre o cinema brasileiro, dessas que não temos por aqui) e jantar deliciosamente em um restaurante italiano perto da estação Bercy (ali, graças a um mapa, dei informações a uma italiana que não falava francês e estava quase chorando), onde tomei o melhor (poderia dizer o primeiro) sorvete de chocolate da minha vida (sim, fazia 0°C e eu tomei sorvete). A visita ao banheiro da CF teve seu toque divertido pelos palavrões escritos na porta, todos dirigidos ao Toubiana. Antes da sessão, mais protesto: um funcionário velhinho passou um abaixo-assinado reclamando de terceirizações pagas com dinheiro público _pra gente ver que essas coisas não ocorrem apenas por aqui. A sessão em si foi ótima, muito divertida. Os parisienses não conheciam o primeiro longa do David Lynch e deram muitas risadas. O próprio Lynch diz que ninguém jamais adivinhou sobre o que é o filme e acho isso de pouca importância: é hilário, é bonito, é grotesco e tem um excelente John Nance, além da participação poderosíssima da Judith Roberts, perfeita na explosão contida de erotismo.

    E esta foi minha única sessão de cinema em Paris, embora oferta não faltasse, nas dezenas de salas perto de onde eu morava, com direito a ingresso com quase 50% de desconto se comprados em pacotes de cinco. Os lançamentos locais não eram muito atraentes: em sua maioria comédias infantiloides, um policial produzido pelo Luc Besson e estrelado pelo John Travolta e até um filme de zumbis. Os internacionais não tinham datas tão diferentes das de São Paulo. E mesmo os lotados cinemas da Rue Champolion, ali ao lado da Sorbonne (indicação do Milton do Prado), que homenageavam Rohmer, atraíram-me menos que o prazer de simplesmente caminhar por aquela cidade gloriosa, um museu ao céu aberto, quase sempre belo.


    Mas durante essas três semanas, um grande cartaz no UGC Rotonde, no Boulevard du Montparnasse onde morei, anunciava para depois de minha partida o novo filme de Martin Scorsese, "Shutter Island", que vi há pouco. Apesar do clima noir, a história não me parece ter vindo do universo mais pessoal do diretor. O enredo, paralelo ao de um grande clássico do cinema que é melhor não citar para evitar estragar a surpresa de quem ainda não viu, não anima muito, mas sim a possibilidade (pequena, mas não ínfima) de negar o que o filme expõe com ênfase no final _um cara sentado atrás de mim no cinema ironizou ao final, dizendo que o filme deveria ter meia hora a mais para explicar melhor o que aconteceu. É o Scorsese de que menos gostei em muitos anos.

    ***

    O filme da hora é (ou já era) "Guerra ao Terror", daquele mulherão que não faz filme de mulherzinha. Ainda não vi, mesmo com o DVD dando sopa desde o ano passado. Também não vi (nem faço grande questão, mas vai acabar acontecendo) o filme do Campanella que levou um Oscar e que tem sido elogiado, embora minhas gônadas cinematográficas (parodiando uma personagem de HQ cuja revista eu traduzia há alguns anos) me digam que deve ser bem meia-boca (e não por ser argentino, claro).

    Mas vi outro filme indicado ao Oscar de língua estrangeira (se não me engano), "La Teta Asustada", da peruana Claudia Llosa. Vendo-o, dá para entender um pouco o que um gringo quer dizer quando reclama que há filmes brasileiros que são "brasileiros demais"; para apreciar este trabalho, é preciso entender de Peru, porque o que interessa aqui é a crítica política, já que a história de uma espécie deMacabéa de origem indígena não tem força suficiente para gerar um grande filme. A mania de querer ser "poético" gera alguns planos constrangedores e retira muito da visceralidade desta história, embora não elimine de todo seus aspectos grotescos. Llosa já havia revelado Magaly Solier em seu filme anterior, "Madeinusa" (que é elogiado, mas que me dá medo de ver, considerando este aqui); a atriz é o grande destaque e parece ter muito mais potencial de fazer carreira internacional do que uma Catalina Sandino Moreno, por exemplo.


    E não me lembro se "Persepolis" chegou a disputar o Oscar do ano passado. De qualquer forma, não merecia o prêmio. A animação para o livro de Marjane Satrapi é muito bonita, o elenco é só tem gente boa (tanto na versão francesa como na inglesa _nesta tem até o Iggy Pop), mas não passa muito disso em comparação com a obra original. A HQ é resumida demais, muita coisa interessante é cortada, e o filme falha em passar a mesma emoção: em vez de um tom desesperado, ficou mais melancólico, mais suavizado, menos adulto... e menos engraçado também, quando se considera a melhor parte do livro, a infância da protagonista.

    No avião de volta para o Brasil, tentei ver "Tetro", mas de cara ficou óbvio que um filme com uma fotografia tão bonita não merecia aquela telinha ridícula. O jeito foi encarar duas comédias que a meu ver perderiam menos. A primeira foi "Whatever Works", mais um filme altamente idiossincrático de Allen (aparentemente um roteiro escrito nos anos 70 que foi engavetado por causa da morte de Zero Mostel), que não traz nenhum tipo de surpresa para quem conhece a obra do diretor. A exceção é a agressividade de seu protagonista, que apesar de ser claramente a voz de Woody, não poderia ser interpretado pelo próprio; daí parece ter vindo acalhar a escolha de Larry David para o papel. Mas mais feliz ainda é Evan Rachel Wood. A princípio me lembrou "Anything Else", mas depois ele se desmembra por outras questões (abordadas em outras obras do diretor, o que me faz pensar senão seria mais interessante se Allen fizesse menos e melhores filmes ou pelo menos continuasse a deixar seu ambiente mais familiar de Nova York para criar trabalhos diferenciados, como "Vicky Cristina Barcelona").


    O segundo filme do longo voo foi "Funny People", de Apatow, que, comparado a seus anteriores, é o que mais passa uma proximidade com sua vida e seu ambiente (um detalhe importante é que ele e Adam Sandler já moraram juntos). O filme começa bem, com um tom muito deprimente, mas depois que a grande nuvem negra passa, o que sobra é uma comédia romântica/"bromance" meio deslocada e vulgar _todos os filmes do diretor são longos, mas este é o que mais sofre com sua duração. Claro que há momentos hilários/brilhantes (James Taylor gritando "Fuck Facebook!" em um show do Myspace e Seth Rogen dizendo para Ray Romano "I thought that everybody loved you" são dois deles) e outros emocionantes (ajudados pelo fato de serem embalados pelos Beatles, em especial quando Sandler canta "Real Love". Curioso que as personagens principais se chamem George and Ira (impossível não lembrar dos Gershwin).

    A visão de uma cinebiografia de Luís XVI na TV francesa me fez tirar o atraso e ver o criticado "Marie Antoinette", da Coppolinha . É bastante animador a princípio (e mesmo sua longa duração não chega a cansar), com seu posicionamento de filme relativamente "jovem" (a diretora muitas vezes consegue fugir do peso do "filme histórico" especialmente pelo uso da trilha sonora pós-punk/new wave e, nos créditos iniciais, de uma tipografia também da época de sua infância). E é admirável como a concentração em Versalhes (local que queria muito visitar, mas que me foi desaconselhado no inverno, pelo comprometimento do majestoso jardim) transmite a alienação da rainha e do povo. É quase de arrepiar a saudação que ela faz ao mesmo quando ele finalmente aparece, que antecipa o oferecimento da monarca à guilhotina. Mas ainda ficou a impressão de que o filme infelizmente ousa menos que podia.

    Mais livre, leve e solto (mas não tanto quanto eu pensava, baseado nos comentários alheios) é "Aquele Querido Mês de Agosto", que fascina ao investir numa série de associações que vão sendo feitas de maneira bem suave, ou a partir de objetos, como o machado (um holandês vivendo em Portugal conta uma história envolvendo um machado e corta um bolo de aniversário a machadadas; depois um curta mostra um ator matando a mãe a machadadas; vemos a senhora que atuou neste curta assistindo ao mesmo na estreia, depois ela reaparece desejando boa sorte à equipe de filmagem do longa e por aí vai) ou o fogo (ouvimos alguém pedindo a música "Sonho de Menino" no rádio e isso nos leva a ver um menino desenhando, o desenho é o de um carro de bombeiros, corta para um carro de bombeiros de verdade, depois ficamos sabendo que Sónia Bandeira, escolhida para interpretar muito bem o papel feminino principal na parte ficcional do filme, trabalha na prevenção de incêndios e finalmente temos no enredo um incêndio de grandes proporções), entre muitas outras. As músicas, "bregas", "populares", "de baile" ou seja lá que classificação meio elitista elas acabem ganhando, são grudentas e divertidas (creio que mais para nós, por causa do sotaque português). Gosto menos da maioria das aparições da equipe do filme; as exceções são a hilária cena do jogo de malha e de um plano no qual dois integrantes usam suas sombras no fim de tarde para criar dois "olhos") e de outras mais didáticas, que explicitam demais o processo (como, por exemplo, a de dois atores amadores que discutem as agruras do novo ofício e a dos créditos finais). Mas sem dúvida o filme fez por merecer sua fama internacional. Para onde vai o Miguel Gomes? E de onde ele veio?

    Quanto ao "Sherlock Holmes" do século XXI, a personagem não é tão diferente assim do descrito nos livros de Sir Arthur Conan Doyle, que eu devorei aos 12 anos. O Watson (brigão, aventureiro, com resquícios de seus tempos de militar), também não. A diferença é em relação às costumeiras adaptações, que criaram um estereótipo do maior detetive do mundo e de seu amigo, comumente tratado como um distinto tiozinho gordo que só ficava observando e se impressionando com o detetive). Há também uma coisa meio meio Batman e Robin rolando entre os dois e um certo ciúme exagerado de Holmes ao ver o colega de quarto se preparando para deixá-lo porque vai se casar. Mas minhas implicâncias são muito mais com a forma que com o conteúdo: Guy Ritchie imprime ao roteiro espertinho esse ritmo típico das produções de Joel Silver, o que não ajuda o filme a se diferenciar. Outro pecado é a falta de timing para o humor, pouco sutil. Por sinal, pouco depois vi "The Private Life of Sherlock Holmes" (1970), no qual Billy Wilder e seu costumeiro parceiro de roteiro, I. A. L. Diamond não só amarraram um bom caso para Holmes e Watson como discutem a interessante questão da suposta misoginia da personagem, inclusive considerando a homossexualidade. Robert Stephens se sai muito bem como Holmes, mas o Watson de Colin Blakely (num papel onde Jack Lemmon cairia muito bem) se presta demais a uma comicidade exagerada, na qual, aliás, podemos ver justamente o toque autoral do diretor _ mas que bate de frente com a de Arthur Conan Doyle. Da maneira como saiu (era para ser um filme bem mais longo e foi meio que abortado pelo estúdio), ainda impressiona por ter uma meia hora inicial que à primeira vista serviria apenas como introdução das personagens, já que o caso em si só começa após uns 25% do total do filme, mas as sementes plantadas alisão recuperadas com a engenhosidade de costume.

    Na linha "mockumentary" que anda em voga neste início de milênio (talvez uma necessidade do espectador de cinema de achar que está vendo algo "real"? Que chato, isso) está "Paranormal Activity", do israelense Oren Peli. A tática presente em vários clássicos de terror, inclusive no muito superior "A Bruxa de Blair", de não mostrar o "monstro", mas sim o resultado de suas ações, associado ao naturalismo da câmera amadora, funciona, cria tensão e expectativa; há um balanço entre a noite, quando fica subentendido que o bicho vai pegar, e o alívio do dia, quando rola um clima mais relaxado e até bem humorado. Mas me parece um filme para ver exclusivamente no cinema, apesar de captado em vídeo e de o final, sugerido pelo Spielberg, ser muito pior que o original. Também vi o sul-africano "Distrito 9", sobre o qual não há muito a declarar, além da relativa originalidade da ideia.


    Meu primeiro encontro com "Antichrist", de Lars von Trier (estranhamente dedicado a Andrei Tarkovsky, embora lembre bem mais David Lynch em vários planos e Buñuel em poucos outros) foi decepcionante, embora não se trate de um filme descartável. A fotografia, que lembra publicidade, incomoda bastante. Os dois atores estão excelentes, em uma obra na qual o enredo tem pouco peso. E me espantou um monte de gente defender que o filme é misógino: é exatamente o oposto (a posição contra a misoginia é clara, inclusive verbalizada). As telas com os créditos e os capítulos são muito bonitas.

    Mas a bomba do período foi "The Curious Case of Benjamin Button", que eu tinha curiosidade (sem trocadilho) de ver por causa da sinopse e por ser o primeiro filme do Finchinha após o surpreendente "Zodiac" (que parece mesmo um desvio na sua carreira quase que totalmente horrenda _ possível exceção para "The Game", que eu precisava rever). Aparentemente o conto original de Fitzgerald (escritor que, como romancista, nunca me entusiasmou) é muito bem humorado, mas foi reduzido a um chororô ridículo, repleto de mensagens supostamente edificantes (pretensas "lições de vida"), de uma maneira quase tão idiota como a realizada por Peter Weir no abominável "Sociedade dos Poetas Mortos". É também uma espécie de sub-sub-"Forrest Gump" com quase três horas de duração. De uma breguice indescritível (toda vez que aparecia um beija-flor me dava vontade de queimar minhas retinas com cigarros), quase do nível de "Amélie Poulain". Para não dizer que é uma desgraça completa, vale a pena pelas cenas em que Cate Blanchett dança (ou aparenta dançar), algumas poucas com Tilda Swinton (não a que ela aparece na TV) e as de Taraji P. Henson, como a mãe adotiva do chatinho protagonista. Mas é uma sessão de tortura, embora não provoque a revolta de um "Se7en".

    Completando um pouco do texto anterior, mais um texto, da Marina Silva, para ajudar a gostar um pouco mais de "Avatar. E, aproveitando o ensejo, um link para quem quer achar discos na internet.

    ***

    Como esta entrada já ficou grande, passemos bem rápido pelos clássicos, deixando muita coisa vista no período de fora. Do supracitado Tarkovski, vi "A Infância de Ivan", seu primeiro longa (cuja cópia me foi emprestada pelo Vebis, que está ganhando de mim no quesito desatualização de blog), que não é ruim, mas está longe dos seus melhores: carrega ainda imaturidade e até certa falta de personalidade (que não parece afetar "O Rolo Compressor e o Violinista", o curta anterior). Ajuda muito ter como ator principal um garoto talentoso como Nikolay Burlyaev (que retornaria em outro papel inesquecível em "Andrei Rublev").

    "Hunger", de 1966, do dinamarquês Henning Carlsen, baseia-se na ótima atuação de Per Oscarsson como o escritor maltrapilho, esfomeado, doente (não é à toa que podemos ver com destaque em um plano o retrato de Dostoievski) e, principalmente, excêntrico, que passa os dias tentando receber o dinheiro de um artigo e perseguindo a bela Gunnel Lindblom, também excelente. É deprimente, irritante e finalmente frustrante _mas não é por isso que vai deixar de ser bom. O enredo lembrou um pouco o romance "Os Ratos", de Dyonelio Machado, igualmente desesperador na sua busca por algo tão pouco importante e no entanto vital.

    E "The Crazies" (1973), cujo DVD duplo eu trouxe de Paris para dar de presente ao também supracitado Vebis, é considerado por George A. Romero como seu filme de terror a la Peckinpah. Apesar de não lidar com o sobrenatural, vai bem na linha de seus filmes de zumbi, com pessoas infectadas por um vírus criado pelo exército como arma bacteriológica em quarentena em uma pequena cidade. É o típico discurso americano contra o Estado, num clima de grande paranoia que aponta para o holocausto nuclear. A cara de anos 70 e o pouco dinheiro não atrapalham (Romero é mestre em fazer ótimos filmes com pouca grana), mas o péssimo elenco, sim. As exceções ficam por conta das duas atrizes principais, Lane Carroll (que teria encerrado carreira aqui, com uma personagem tocante) e a gatinha Lynn Lowry (de "Shivers"), que exemplifica como as fêmeas de Romero podem enlouquecer com doçura. Há uma cena muito impactante: enquanto soldados e loucos furiosos se matam na base dos fuzis, uma jovem mulher varre a grama do campo de batalha. Isso me lembrou do quanto a gente se torna insensível ao ver matança em filmes (insensível em relação à violência nos filmes e não na vida real, bem entendido). Outro momento muito forte é quando a enfermeira dá, de uma maneira muito sutil, inesperada e triste, uma notícia muito importante a seu amado...

    ***

    A descoberta de uma nova ferramenta de buscas na internet me fez achar mais um texto acadêmico que cita o meu trabalho em jornal. O interessante do texto é lembrar esse momento revolucionário da indústria fonográfica que foi a popularização do mp3, que eu cobri em uma coluna semanal na Ilustrada em 2000. Peço licença para reproduzir um parágrafo do ensaio "Jornalismo Cultural em Tempos de Cultura Líquida", de Thiago Soares:

    "Já presenciei, na prática do maior jornal em circulação do país, a Folha de S. Paulo, um exemplo de desintermediação no terreno do jornalismo cultural. Detalho: na ocasião, antes do lançamento do álbum 'Music', da cantora Madonna, em 29 de setembro de 2000, o caderno Ilustrada, editoria de cultura da Folha de S. Paulo, subverteu o agendamento pautado pela indústria fonográfica, no caso a gravadora Maverick, subsidiária da gigante Warner. Tradicionalmente, a reportagem, a crítica ou a resenha sobre o CD de Madonna deveriam ser publicadas no momento em que o trabalho chegasse às lojas brasileiras. Só que, como num dos casos mais iniciais do compartilhamento de arquivos musicais por meio da internet, o CD 'Music' vazou em plataformas musicais e o público pôde ter acesso ao trabalho fonográfico de Madonna antes que o álbum 'físico' chegasse às lojas. O jornalista Marcelo Valletta, da Ilustrada, não aguardou para dar a reportagem sobre o álbum somente quando a Warner enviasse o CD para ser devidamente resenhado. No dia 24 de agosto de 2000, um mês e cinco dias antes do lançamento oficial do trabalho, o título da capa da Ilustrada foi: 'Madonna Grátis', divulgando que, antes mesmo que chegasse às lojas, o álbum já poderia ser encontrado para download na internet. O curioso é que o texto não era somente de caráter informativo, trazia, também, crítica, detalhes das faixas etc., escrito por jornalistas com veias de articulismo (como a especialista em moda Erika Palomino e o crítico Pedro Alexandre Sanches). Ou seja, estávamos diante de uma crítica de um produto 'líquido', disponível on-line, virtual, que habitaria as prateleiras das lojas somente um mês depois."

    ***

    O dia 12 de março passado começou para mim com uma notícia chocante e horrenda, a do assassinato do artista Glauco Vilas Boas e de seu filho Raoni. Palavras não chegam perto de serem suficientes para descrever a importância que o trabalho genial do Glauco teve na minha formação (e não só por historicamente ter desafiado a censura e publicado na Ilustrada as primeiras "genitálias desnudas"). É como Monteiro Lobato, Dostoievski, Kafka, sem exagero. Como contei no Twitter, aprendi a desenhar o Geraldão quando moleque e decorei muita lousa com ele. Ficava praticamente igual ao do Glauco (aliás, ainda fica). A capa do meu caderno de Educação Artística da 6ª série, por exemplo, era um Geraldão surfando na tábua de passar roupa que eu desenhei. Eu tinha 11 anos e já tinha deixado a "violenta" Turma da Mônica para trás. Para dar uma ideia do impacto que essa geração da Circo Editorial teve sobre a molecada dos anos 80, um grande amigo de pré-adolescência que infelizmente não vejo há alguns anos me escreveu para lembrar da época em que, com o mixo dinheirinho da mesada em épocas de hiperinflação, nos revezávamos para comprar as revistas (sempre às escondidas dos pais, por causa do conteúdo sexual _não que eles fossem ligar muito, mas a gente não queria que eles soubessem assim mesmo) e depois emprestávamos um para o outro. Só mesmo um cara como esse para reunir amigos depois da morte... Valeu, Glauco!

    quarta-feira, janeiro 07, 2009

    Ando tão ocupado que mal me dou conta da época do ano em que estamos _só quando a TV, que só fica ligada aqui ao meu lado no trabalho, me mostra coisas como Big Brother ou Globeleza eu me dou conta de que estamos em janeiro. E não é que o "ano da crise" (da qual espero escapar minimamente _so far so good... so what?) começou com notícia boa? Fui contatado pelo Canal Brasil, que tem interesse em "A Volta do Regresso" (um contrato de até 24 exibições em três anos). Como já passou mais de um ano desde a estreia no Festival de Brasília, está na hora de o danado passar na TV (a TV Câmara é outra que se interessou, mas ainda não o liberei), antes de finalmente chegar à internet, onde de fato poderá ser visto por um número maior de pessoas, embora em péssimas condições. O filme é antiquíssimo na minha memória, mas ainda não me afastei dele o suficiente para formar um juízo que me permita uma visão mais clara dos meus (os dos outros são mais fáceis de apontar) erros _para isto eu conto com a opinião dos colegas que porventura cruzarem com ele (a do Vebis não vale, porque ele gosta muito mais do filme do que eu).

    ***

    Obama assumiu (não nesse sentido que vocês estão pensando) e o mundo quer que esse pedaço de história chamado de "Era Bush" fique para trás logo. Pelo menos dois filmes recentes bateram forte nessa e em outras teclas: um é "Diário dos Mortos", no qual Romero volta muito mais pessimista do que no emocionante e esperançoso "Terra dos Mortos" a ponto de fazer uma ponte com o seu primeiro longa de zumbis. Algumas das ideias que o diretor martela é a de que o excesso de informação na era da internet é, no mínimo, uma faca de dois gumes (se bem me lembro, uma das falas é algo como "400 blogs, 400 mentiras") e de que a tecnologia abundante e barata provoca uma febre pelo registro ("se não acontece em frente às câmeras, não aconteceu", diz a protagonista mais de uma vez), além da capacidade para a maldade, a estupidez e o egoísmo desenfreado naturais ao ser humano. O curioso é que essa ideia de exibir um filme dentro de um filme (tirada do grande "A Bruxa de Blair") desta vez escancarou o artificialismo da representação, em vez de mascará-la _não que o filme seja ruim por causa disso; é mais um testemunho importante sobre o mundo em que vivemos, e Romero se firma ainda mais como um dos artistas mais engajados do nosso tempo. O outro é "Children of Men", de Alfonso Cuarón: um "retrato do presente no futuro" (como "Laranja Mecânica" ou "Os 12 Macacos") muito detalhado, centrando bastante na obscuridade que assola a humanidade neste momento (entre as mazelas, o fanatismo religioso, guerras movidas por ódio e intolerância, o sentimento de fim das utopias, etc.). Com ironia, traz algumas cenas soberbas, como a inacreditável fuga em um carro que se recusa a pegar. O grande uso de efeitos visuais é discreto e cria outras cenas memoráveis, como a do ataque ao carro (que dá um belo susto) e a do parto. Cuarón conseguiu erigir um universo simbólico bastante rico; deve envelhecer logo (certamente muito mais do que o filme de Romero) e se tornar documento.

    Bem pior é o "United 93" do Paul Greengrass, que reconstrói, em tempo real e usando várias pessoas interpretando a si mesmas, parte dos eventos daquela maldita manhã de 11/09/01. Por um lado, acertadamente faz um filme despretensioso e sem apelações; por outro, não diz muito a que veio, a não ser prestar tributo àquelas pessoas que perderam a vida na tragédia _o que ajuda a não colar a este filme a pecha de meramente oportunista. E o feriado natalino serviu também para ver a trilogia dedicada a Jason Bourne, personagem criada pelo escritor Robert Ludlum (quem leu diz que essas adaptações são bem distantes dos originais) que já havia sido encarnada nos anos 80 pelo Richard Chamberlain. O primeiro filme, o único que havia visto (e no qual Julia Stiles, em um papel pequeno, chuta a bunda de Franka Potente), é disparado o melhor, e o segundo, o pior (extremamente derivativo); o terceiro traz as cenas de ação mais intensas. E o que dizer do infantil "Transformers"? Além do colírio Megan Fox, só dá mesmo para destacar John Turturro, a quem muito provavelmente o diretor Michael Bay não conseguiu controlar: sua total falta de seriedade no papel é muito adequada, parefe que o ator está se divertindo muito com toda aquela bobajada.

    Finalmente vi "The Darjeeling Limited", outro belo filme de Wes Anderson, embora não seja o seu melhor. Mais uma vez temos relações familiares extremamente bem construídas em um roteiro idem. Mas se os planos em câmera lenta com clássicos do rock não cansam nunca, seus movimentos de câmera estão já bastante repetitivos. Como parece que o próximo filme dele será uma animação, espero que seja uma bem-vinda mudança. E "Senhores do Crime", embora não tão bom quanto "A History of Violence", traz outra fantástica atuação de Viggo Mortensen, em que um outro novamente habita a personagem. Cronenberg, ao contrário de uma possível maioria de diretores "respeitados", escolhe sempre mostrar o que o "bom tom" recomendaria esconder _é desagradável, mas sua assinatura é fortíssima _e ele parece saber que, como suas personagens, alguém tem de fazer o trabalho sujo.

    E "I'm Not There" deixa bem óbvio que foi inspirado por "No Direction Home", do qual várias cenas (por suas vez extraídas de filmes de D. A. Pennebaker e outros) documentais são reconstruídas por Cate Blanchett (numa atuação não tão boa quanto eu esperava) e Christian Bale (surpreendentemente bem). Muito mais interessantes são as partes em que a fantasia tem mais espaço, mas ainda apoiando-se em personagens reais, como Woody Guthrie, Arthur Rimbaud (outra atuação de destaque, de Ben Whishaw) e Billy the Kid. Há algo de "metido a besta" no projeto que o prejudica em certos momentos (além de sua pouca concisão), mas ao final, assim como o filme de Scorsese, passa uma sensação de amor pela obra do artista homenageado. E já que falamos no baixinho, impressiona em "Shine a Light" a captação de som do show dos Rolling Stones: como o som do instrumento de quem está em quadro tem sempre maior volume do que o resto da banda, funciona para delinear bem "quem faz o quê". A impressão que tive é de que é o show em que eles tocam melhor (sendo que a maior justiça é feita à guitarra de Ronnie Wood, que diz em entrevista que é melhor do que o Keef), de todos os que vi, mas creio que grande parte disso se deva a essa qualidade sonora. O show é bastante típico dos Stones, com aquelas cinco músicas que eles sempre tocam, a pausa para Richards cantar duas outras (normalmente um ponto morno do show, aqui tornou-se ponto alto), antes de Jagger voltar para "Sympathy...", um blues antigo desenterrado (com um excelente Buddy Guy) e curiosidades do vasto repertório (Hã? "She Was Hot"?). Diferentemente do esperado, Christina Aguillera mandou bem, enquanto Jack White foi constrangedor _assim como Scorsese, que desta vez não fez um trabalho tão bom interpretando a si mesmo.

    E já que estamos nos EUA de hoje, vamos desovar logo as séries vistas também no feriado: a segunda temporada de "Heroes", mesmo com apenas 11 episódios por causa da greve de roteiristas, gira em falso e dá óbvios sinais de desgaste. A estratégia para manter a qualidade da primeira leva infelizmente é a do repeteco: e dá-lhe outro futuro sombrio a ser evitado, mais pinturas que mostram esse possível futuro, etc. Nem todas as personagens progridem, indicando que o ciclo delas na série já acabou, ou seja, é preciso saber a hora de parar. Outra caixa vista é a da recente sitcom "The Big Bang Theory", cuja graça em grande parte está em reconhecer a nerdice dos personagens como algo muitíssimo comum na atualidade. E a versão americana da tão falada "The Office" finalmente passou em minha frente: é um humor baseado quase que somente no constrangimento (o protagonista de Steve Carell é detestável), o que a torna ao mesmo tempo engraçada e desagradável, embora esses primeiros seis episódios já mostram com clareza pelo menos uma subtrama folhetinesca. A câmera é absolutamente nojenta, porque há um documentário sendo feito sobre o tal escritório, o que cria uma camada de hipocrisia nas personagens que também serve de apoio para o humor.

    ***

    Demorou para chegarmos às velharias que não interessam a quase ninguém (embora os filmes do "especial terror", mais em baixo, devam ter seus fãs). Depois de muito tempo volto a um dos meus ídolos, Buñuel, com "Simão do Deserto", projeto que sofreu com falta de dinheiro e teve de ser reduzido. É o terceiro e último filme do diretor com Silvia Pinal (sexy como o Diabo), com um Claudio Brook (de "O Castelo da Pureza") excelente, assim como a música da cena final (sempre forte, praxe do diretor), com o grupo Los Sinners. Outro dos melhores filmes desse intervalo foi o tcheco "Sedmikrásky" (parece que a tradução do texto é "Margaridas"), de Vera Chytilová, ao mesmo tempo extremamente divertido e sério (e lindo, repleto de efeitos visuais impressionantes). As atrizes Ivana Karbanová e Jitka Cerhová (que aparentemente não tiveram longas carreiras no cinema) estão em estado de graça. Parece uma obra que só poderia surgir numa sociedade repressiva.

    "Flor Pálida", de Masahiro Shinoda, que, apesar de contemporâneo, num mundo que já corria a caminho da globalização, ainda nos surpreende com uma cultura alienígena: eu mesmo não entendi quase nada do estranho jogo de cartas (muito menos o motivo de os crupiês terem de ficar repetindo as orientações numa fascinante ladainha). Já o drama do casal protagonista é bastante compreensível e tocante. Há cenas antológicas, entre elas a do pesadelo e a do assassinato ao som de uma belíssima ária. Ainda no Japão, "Mulher Inseto" acompanha a vida de uma personagem do seu nascimento à meia-idade, da infância pobre na roça à queda e ascensão e novamente queda na prostituição, na qual será ironicamente seguida por sua filha. Imamura (ex-assistente de Ozu) faz uso constante de frames congelados sobre os quais dispõe pensamentos das personagens, que servem de guia à narrativa acelerada. É cruel justamente por ser tão naturalista e tão afastado do melodrama. E "Le Mystère Koumiko" seria uma espécie de preparação para o "Sans Soleil"? Neste média, Marker parte das Olimpíadas de Tóquio, em 1964, para chegar a uma jovem chinesa que mora no Japão desde os 10 anos e estuda numa escola franco-japonesa. A partir de entrevistas com Koumiko, o diretor dá vazão a algumas de suas famosas obsessões, como o Japão e os gatos _e não se furta a encarar aspectos menos glamourosos da sociedade japonesa, como o sadismo.

    Vendo "La Baie des Anges", estava estranhando este filme de Demy pela falta de uma forte personagem feminina, até que finalmente Jeanne Moreau entra em cena, quase irreconhecível com o cabelo platinado _parecendo mais velha, mais feia, mais sofrida e mais vagabunda. É dela a personagem que o filme circunda, embora não seja a protagonista, e é dela a grande cena, na qual explica porque o jogo é sua religião e porque ao adentrar um cassino ela sente a mesma emoção que em uma igreja. O final, forçado e inesperado, não combina com o diretor _mas os marinheiros ainda estão aqui. O tema de Michel Legrand é fantástico. Mas em "La Noire de...", média-metragem do senegalês Ousmane Sembene, traz como protagonista uma personagem que encarna uma etnia, uma nacionalidade, um sexo e uma posição social. E "What Ever Happened to Baby Jane?" (talvez o segundo melhor Aldrich, atrás apenas de "Kiss Me Deadly"?) é bem perturbador, com o duelo de duas grandes atrizes, ambas já caminhando para os 60 anos de idade. Talvez seja injusto dizer que Bette Davis saiu ganhando, pois sua personagem é a mais interessante e a que conduz a ação (além dela e de Joan Crawford, há outra atriz brilhante, a pequena Gina Gillespie, infelizmente em um de seus últimos trabalhos). É um primor de suspense e de tensão, antecipando quase sempre o que vai acontecer a seguir _o que não deixa de ser uma espécie de sadismo. Uma atriz mirim também se destaca em "A High Wind in Jamaica", penúltimo filme de Alexander Mackendrick: é Deborah Baxter, então com 11 anos, que, apesar deste papel inesquecível, não teve grande carreira como atriz. O filme é uma invulgar história de piratas (representados por ótimos Anthony Quinn e James Coburn) com crianças (uma delas é o escritor Martin Amis!) e um enredo bastante cruel. Há um quê de antiquado e uma trilha sonora exagerada, mas também uma grande fala de Quinn: "Você deve ser culpado de alguma coisa...".

    E antes de encarar o terror, mais dois exemplos de filmes que hoje soam típicos dos anos 60: em "Charade", Stanley Donen deixa a seara musical e faz uma intrigante e sem-vergonha mistura de thriller com comédia romântica que idealmente defenestra toda verossimilhança (a princípio parece bastante destrambelhada mas ao final o roteiro é adoravelmente bem amarrado). Apesar da diferença de idade, Cary Grant e Audrey Hepburn (belíssima, usando uns figurinos maravilhosos _fica fácil de entender porque ela foi votada no Reino Unido como a mais bela do cinema, deixando a Angelina Jolie em segundo) fazem um ótimo casal _os momentos graciosos não faltam, como a careta que Grant faz quando a verdadeira identidade de sua personagem é revelada. Walther Matthau, James Coburn, George Kennedy e Jacques Marin são os coadjuvantes. Mas o filme é mais famoso mesmo pelo inesquecível tema musical de Henry Mancini. E se em "No Direction Home" a rápida e caricata aparição dos Beatles pode até parecer ofensiva, "Help!" nos ajuda a lembrar que os Fab Four da fase terninho eram mesmo quatro cabeludos esquisitos que saíam pulando por aí murmurando interjeições. O filme é uma pérola do humor inglês, satirizando 007 com cenários (o que é aquele apartamento deles, com uma porta de cada cor para cada um e um quarto cavado no chão para Lennon?), locações (dos Alpes para as Bahamas), enredo e diálogos nonsense. Várias gags são fantásticas, como a do gongo em miniatura e a do tigre que fica manso quando se assobia a Nona de Beethoven. Mas é bem pior do que "A Hard Day's Night".

    E ainda um rubi: "9 Dney Odnogo Goda", de Mikhail Romm, cujo título em português desconheço (aparentemente a tradução seria algo como "Nove Dias em um Ano"). É ótimo, com um protagonista muito especial: um físico nuclear que faz uma importante descoberta mas paga um preço alto por ela, ao mesmo tempo em que vemos um triângulo amoroso se desenrolar. Além disso, o ambiente e a época em que se passa dão à obra dimensão maior: fomos tão aculturados pela visão norte-americana da Guerra Fria que é quase um choque vermos uma representação da vida russa no período (se verdadeira ou não são outros quinhentos rublos) com as pessoas trabalhando, se divertindo, casando, visitando a família, etc. Por um acaso os EUA da época admitiram tal retrado da vida no "Império do Mal" em seu cinema? Já imaginaram um mundo com 3 bilhões de Gusevs, negros, amarelos, brancos?

    E já vou logo dizendo que acho uma bobagem tremenda essa ideia papagaiada displicentemente por aí de que "sugerir é melhor do que mostrar". É claro que depende, gafanhoto. Em "The Haunting" ("Desafio ao Além" por aqui), que Robert Wise fez entre "Dois na Gangorra" e "A Noviça Rebelde", a estratégia oposta à de Cronenberg funcionou. Este filme de "mansão mal-assombrada" (com um início sensacional), apesar de não ser nenhuma maravilha, consegue criar uma dubiedade verossímil. Julie Harris é uma protagonista fraquíssima e é eclipsada pela mais bela e interessante Claire Bloom. "Paranoiac", o primeiro filme que Freddie Francis dirigiu para a Hammer (sem ser um típico exemplar da companhia), deixa maiores sutilezas de lado e traz uma história rocambolesca e exagerada, mas eficaz _muito provavelmente foi inspirado por "Psicose". A imensa presença de Oliver Reed é o natural destaque. E não sei de dá para chamar "Incubus" (que, eu não sabia, já tinha passado numa saudosa Sessão do Comodoro) de um filme de terror: um dos pouquíssimos dirigidos pelo roteirista e produtor Leslie Stevens, é mais conhecido por ser talvez o único filme norte-americano falado em esperanto. A temática é bastante cristã: demônios lutam para conseguir a alma de um homem justo e religioso. A estrela é William Shatner, mas quem se destaca são Allyson Ames (mulher do diretor) e dois atores que se suicidaram no ano seguinte ao lançamento (mas não juntos), a bela Ann Atmar e Milos Milos (que, além de ser a personagem-título, tem um nomes mais legais da história). É um dos primeiros filmes que o grande Conrad Hall fotografou, mas aqui ele ainda não apresenta um trabalho de mestre.

    Mas a obra-prima desse gênero vista por aqui é "I Tre Volti della Paura", que em inglês ganhou o picareta título "Black Sabbath": Bava demonstra mais uma vez que, além de um mestre da luz, também o é no quesito movimento de câmera (como Öphuls, Fuller, Ozu, Tarkovsky, Oliveira e outros pouquíssimos). E também um mestre do suspense: as três histórias deste filme são extremamente previsíveis, mas nem por isso deixam de ser envolventes e fascinantes. E aquele epílogo lindo e alegre, com Karloff celebrando a fantasia do cinema... Longe de ser tão bom é "X", aqui chamado de "O Homem dos Olhos de Raio-X" (que virou música de, argh, Lenine), mais um clássico de Corman, estrelado por um ótimo Ray Milland. Começa muito bem, mas descamba a partir do início da desgraça do protagonista. O final, embora dificilmente pudesse ser outro (a não ser pela famosa história, desmentida pelo diretor, de que havia uma fala a mais, ótima, terrível e infelizmente não filmada) é extremamente abrupto. Os efeitos visuais, assim como no filme da Chytilová, são ótimos. E a tranqueira da vez é "Blood Feast", o famoso precursor do "gore": digamos que eu gosto de "bons filmes ruins", como o "Glen or Glenda?" de Ed Wood. Mas este aqui, assim como o "Mondo Trasho" de John Waters, tem o defeito mortal de não ser divertido (embora haja uma ou duas falas engraçadas). Não dá para comentar as atuações porque simplesmente não há atores no filme; enquadramentos, cortes, diálogos, ritmo, tudo é horrível. Salvam-se mesmo a trilha sonora, de autoria do fotógrafo e diretor Herschell Gordon Lewis, e a maquiagem.

    E só para constar, caso alguém queira comentar algo, os outros filmes vistos no período: "O Dólar Furado", western spaghetti com Giuliano Gemma (assinando como Montgomery Wood) de Giorgio Ferroni; "Inauguration of the Pleasure Dome", de Kenneth Anger, com participação especial da Anaïs Nin; "The Miracle Worker", o segundo filme do Arthur Penn, com Anne Bancroft e Patty Duke; "Made in U.S.A.", um Godard menor, embora típico (curiosamente, é o primeiro filme a ter uma música dos Rolling Stones na trilha sonora _uma moça volta e meia aparece cantando "As Tears Go By", e só depois fiquei sabendo que se tratava de Marianne Faithfull); "Vaghe Stelle dell'Orsa...", um Visconti pequeno após o monumental "O Leopardo" com uma Claudia Cardinale que não precisa ficar nua para ser sexy; "When We Were Kings", famoso documentário de Leon Gast sobre a "Rumble in the Jungle", no qual nos identificamos bem mais com o futuro homem da grelha elétrica, e não por pena; e "The Bridge", documentário não tão famoso sobre aquela ponte que um dia já foi enquadrada pela minha janela e que, isso eu não sabia, é o local de onde mais gente se suicida no mundo (como fui muito feliz no meu período por lá... ainda estou aqui).

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    Trecho da entrevista de Felipe Bragança com Miguel Gomes (diretor do elogiado "Aquele Querido Mês de Agosto") publicado na Cinética:

    "Eu e o montador chamávamos a roteirista para a montagem e, ao invés, chamávamos o montador para a reescrita do roteiro. Tentávamos arranjar uma série de rimas entre tudo. Montagem e roteiro já não eram fases distintas."

    Nunca achei que montagem e roteiro fossem fases distintas (pelo menos em "A Volta do Regresso" não foram). Este é um dos poucos filmes unânimes que tenho vontade de ver (estou só aguardando que um santo fale muito mal para essa vontade se multiplicar por mil).

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    Há alguns dias, tive de apurar (sucursal do Rio não conseguia e os repórteres que normalmente teriam de fazer isso viajavam) a morte do crítico Antonio Moniz Vianna. Consegui o contato da família graças ao Evaldo Mocarzel (a quem agradeço). Não havia muito espaço para o texto, mas demos conta do recado. Dois dias depois, a Folha acorda e também publica a notícia... num flagrante exemplar de jornalismo "copy-and-paste"! Na minha época não era assim...

    No texto que vem: "Emoções Sexuais de um Jegue" e outros filmes.

    Na platéia