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    terça-feira, outubro 09, 2007

    Conteúdo: "Comédia é, em essência, uma arte raivosa e anti-social." A frase do Robert McKee (interpretado pelo Brian Cox em "Adaptação") me parece um tanto generalizante e radical, mas não incorreta. Parece se encaixar especialmente a "A Volta do Regresso", um filme quase que totalmente calcado na ironia _talvez a ponto de soar terrivelmente desagradável a alguns (estou louco de curiosidade para ver as reações de mais gente, especialmente as negativas; até o momento, parece que quem desgosta mais do filme sou eu, mas sei que isto vai mudar).

    Forma: "PERGUNTA - Você rodou o filme com câmera digital, em lugar de película. Até que ponto isso foi libertador para você?

    LYNCH - A palavra 'livre', se você a escrevesse com L maiúsculo, a fizesse tão alta quanto o Empire State Building e a sublinhasse muito _foi tão libertador assim. É tão belo, e de tantas maneiras diferentes. Depois dessa experiência, eu nunca mais poderei voltar a filmar em película."

    Talvez a película ainda seja, no momento (mas não por muito tempo), o melhor suporte para a exibição de filmes; mas para captação de imagens, não creio _ou seja, fecho com o David Lynch (não me lembro de onde peguei a entrevista, normalmente dou o link, sorry), apesar de ainda não ter visto seu "Inland Empire", que vai passar na Mostra e estrear logo depois. Ter feito "A Volta do Regresso" em 16mm deixou o projeto muito engessado e caro: deixei de fazer mais takes, negando pedidos do elenco, por falta de grana para comprar mais latas, e, também por contingências financeiras, não pude fazer uma truca sequer _os créditos tiveram que ser em cartela, e não sobre imagem, como eu queria (e este é apenas um dos exemplos). Não penso mais em filmar em película, e mesmo o transfer eu espero que esteja com seus dias contados.

    ***

    Estava esperando ver "Tropa de Elite" para atualizar este site. Vi o filme ontem, na promoção de aniversário de 14 anos do Espaço Unibanco (lembro de quando o lugar era Espaço Banco Nacional de Cinema, antes de o mesmo quebrar), justamente em projeção digital; durante o filme em si, não dá para perceber muita diferença na qualidade de imagem _a parte mais estressante foi durante as propagandas.

    Mas vamos ao filme, que deu o que falar por motivos exteriores ao mesmo: ele só virou esta sensação por causa da pirataria (nunca saberemos do impacto da mesma sobre a bilheteria, mas parece que o resultado não será dos piores _provavelmente porque os públicos são mesmo diferentes: talvez a pirataria só alcance a quem não tem acesso ao cinema por questões de localidade e alto preço) e por causa do debate em torno da segurança pública (que o próprio diretor encampa) e da violência _bobagens, bobagens (leiam o grande texto de Carlos Reichenbach chamado "Apontamentos para uma Polêmica Anunciada" aqui). Não é prerrogativa de um diretor de cinema debater o assunto, mas sim a de fazer bons filmes; também é ridículo alguém reclamar do filme porque ele simula atos de tortura e violência com resultados fatais: cinema também é Eros e Thanatos, kiss-kiss-bang-bang, seria desonesto e covarde um filme deste gênero não mostrar alguns litros de tinta vermelha (por sinal, o filme é pudico, nada de putaria saudável nos bailes funk nem na boate de strip).

    O bafafá todo (que inclui piadas com o Capitão Nascimento, como bonequinho que fala "senta o dedo nessa porra!" e frases atribuídas anteriormente ao Chuck Norris _coisa parecida aconteceu com o Zé Pequeno do infinitamente superior "Cidade de Deus") me deixou na expectativa de ver um filmaço, talvez outro marco histórico em nosso cinema recente; infelizmente, "Tropa de Elite" sequer se classifica como um bom filme policial (gênero no qual temos uma bela tradição, os filmes precisam apenas ser recuperados _alguém dizer que este é "o melhor filme nacional que já vi" é atestado do descaso com nossa cinematografia). É prejudicado especialmente pela debilidade das situações dramáticas e pela falta de complexidade de conflitos das personagens; o final, péssimo e pífio, sublinha que nenhuma delas chegou aos limites que poderia ter chegado; o roteiro não tem fôlego, foi pouco ambicioso _prejudicam também as "cabecices" como citação de psicólogo e aulinha sobre Foucault, além de um excesso de didatismo "para inglês ver".

    Mas o famoso e fenomenal Capitão Nascimento é um caso à parte: chamado a torto e a direito de "herói" (até o Luciano Huck clamou por ele quando teve seu Rolex levado por uma dupla de assaltantes numa moto), me pareceu mais um fracote, louco para deixar de subir o morro e ficar trocando fralda de nenê, que só vira "macho" mesmo na hora de rodar a bainana e gritar "quem manda aqui sou eu" com a espoca recém-mamãe em seu apê de classe média. Sei que a comparação é covardia, mas na hora lembrei das personagens de James Cagney em "White Heat", de Charles Bronson em "Machine Gun Kelly" e de Warren Oates em "Bring Me the Head of Alfredo García", que eram "bad motherfuckers", mas tinham seus tocantes momentos de fragilidade; em "Tropa de Elite", o máximo que o Capitão Nascimento de Wagner Moura (que não está mal, a culpa é do roteiro) faz é dar uma travadinha durante uma escalada com a esposa, todo playboyzudo. Em suma: dada a qualidade do material de origem e dos nomes envolvidos no projeto, eu estava esperando bem mais. Mas, para não dizer que só falei dos espinhos, o filme passa rápido e tem senso de humor.

    ***

    Vamos continuar falando de filmes policiais? Na minha quase terminada "peregrinação" (como diz religiosamente o Ailton) pelos anos 40, o gênero aparece bastante, com variações. Um deles, "The Naked City", deu origem a uma série televisiva muito famosa; o diferencial é que a estrela é a cidade de Nova York: a narração da introdução já avisa que, diferentemente do padrão, o filme foi todo feito em locações _e funciona muito bem como documento da vida na metrópole (por outro lado, nenhuma personagem é explorada mais profundamente, embora o típico irlandês Barry Fitzgerald se destaque). Há muitas cenas sem som direto e com narração, o que causa certa estranheza. A seqüência final, o epílogo do filme, é excelente, mostrando o que unia aquele punhado de pessoas que acompanhamos durante 95 minutos, numa cidade de 8 milhões de habitantes. Do mesmo diretor, Jules Dassin (americano, apesar do nome e de ter ficado mais famoso após ir para a Europa, onde trabalhou principalmente na França e na Grécia), com roteiro de Richard Brooks, "Brute Force" é um filme de cadeia (de certa forma precursor do muito superior "Le Trou", do grande Jacques Becker) estrelado por Burt Lancaster e um marcante Hume Cronyn como o policial sádico, com uma estrutura bem interessante, mas hoje bastante envelhecido. A música de Miklós Rózsa é excelente, mas não muito bem usada. Também meio envelhecido (lembrando que um filme não é necessariamente velho porque foi feito há 60 anos) é "Kiss of Death", escrito por Ben Hecht e Charles Lederer e dirigido por Henry Hathaway, cujo destaque é a estréia de Richard Widmark num papel inesquecível, o do psicopata Tommy Udo, que comete um dos assassinatos mais horrorosos e revoltantes que já vi no cinema (retratado com uma sutileza arrebatadora _aqui, substantivo e adjetivo combinam). Uma pena que uma cena de estupro e outra de suicído foram cortadas pela censura.

    No capítulo dedicado a "amores em meio a rajadas de balas", que inspirariam filmes como "Bonnie and Clyde" e "Boxcar Bertha", temos "The Big Steal", de Don Siegel, marcando o reencontro de Robert Mitchum e Jane Greer. O roteiro é um fiapo (justamente o que impede que o filme alcance o nível de um "Out of the Past"); o destaque mesmo está na ação, brilhante e empolgantemente conduzida pelo diretor e encenada pelo elenco. De resto, o título engana _não se trata de um "filme de assalto", mas de perseguição. "Deadly Is the Female", também conhecido como "Gun Crazy", é dirigido por um diretor de quem gosto especialmente, Joseph H. Lewis, mas deixou um pouco a desejar; já tinha visto alguns trechos muito famosos (como o assalto ao banco sem que a câmera saia do carro _o início também é sensacional), o que colaborou com a pequena decepção. E ainda temos "They Live By Night", a estréia de Nicholas Ray como diretor, com um romance bem mais doce do que o do filme do Lewis; não é nenhum "In a Lonely Place", mas também é muito bonito; Cathy O'Donnell está excelente (curioso: a dupla de assassinos de "Festim Diabólico" estrela estes dois filmes: Farley Granger neste e John Dall no de Lewis).

    E já que falamos no Hitch, dois de seus filmes traíram minhas expectativas: por causa do tema (os relativos à moral e à fé me são caros, pela magnitude do conflito), eu achava que "I Confess" seria um grande filme, ainda mais por ser estrelado por Montgomery Clift; não é desprovido de interesse, e talvez o diretor tenha exagerado quando disse que "não deveria ter sido feito" a Truffaut, mas é um filme pouco marcante. De "Stage Fright" eu gostei muito, contrariando o diretor (que via como um de seus problemas a fraqueza dos vilões); a recém-falecida Jane Wyman está ótima (embora o diretor tenha reclamado bastante dela _mas Hitch vivia reclamando de seus elencos), mas é claro que Dietrich (a quem também vi em "The Devil Is a Woman", do Sternberg _mas eu prefiro "Desonrada", que também traz cenas em bailes de Carnaval) rouba todas as cenas em que aparece. E vi um filme de Robert Siodmak que poderia ter sido dirigido por Hitchcock: "Phantom Lady", um filme "Z", baratíssimo, sem atores conhecidos (só reconheci Aurora Miranda e Elisha Cook Jr., excelente como um baterista de jazz mulherengo), deu numa obra-prima, com uma premissa apaixonante. Valeu também por me apresentar a Ella Raines, linda e excelente; infelizmente, sua carreira não decolou. De quebra, revi "Monsieur Verdoux", que pode parecer atípico por vários motivos, mas que me soa bastante coerente com a obra sonora de Chaplin _Welles reclamava que só ganhou o crédito pela idéia (não fica claro se ele escreveu um tratamento do roteiro ou não) após o filme ter sido um fracasso de bilheteria e crítica.

    ***

    Ainda nos anos 40, passei por outra grande comédia de Lubitsch, "To Be or Not To Be": feito no ápice da Segunda Guerra, o diretor (berlinense, que já havia encarado as conseqüências da Primeira Guerra no melodrama "Broken Lullaby", de 1932) ridiculariza Hitler e o nazismo (dois anos depois de Chaplin), numa história que se desenrola em Varsóvia; é impressionante como ele consegue arrancar risadas de uma situação tão tensa _mas, à primeira vista, me pareceu um de seus filmes com menor carga erótica, apesar de Carole Lombard (morta num acidente de avião antes de o filme ser lançado _ou seja, foi o seu último) estar muito bonita (Jack Benny é o responsável por grande parte da comicidade). Do outro lado, ouvi o título do filme ser dito por Olivier em "Hamlet", seu segundo filme como diretor (o primeiro não-americano a ganhar o Oscar de melhor filme). Compreensivelmente, fica refém do texto (embora seja uma versão reduzida, de "apenas" 2h30, e com mudanças sutis para deixá-lo mais moderninho), embora a mise-en-scène (com a câmera em constante movimento e cortes disfarçados, criando uma bela fluidez temporal _bastante condizente com o texto de Shakespeare, aliás; não é à toa que, em "A Volta do Regresso", um dos poucos planos com movimento de câmera ocorre justamente quando Carlo Mossy encarna um híbrido de Rei Lear, Rei Momo e Scarlett O'Hara) contenha muita coisa interessante. Gosto muito da música e da Jean Simmons, adolescente, como Ofélia.

    Outra comédia interessante é "Adam's Rib", de George Cukor: mezzo comédia romântica mezzo drama de tribunal, baseia-se na idéia da igualdade entre os sexos (chamá-lo de feminista me parece inexato), tema que não envelheceu nem um pouco, embora a sociedade tenha mudado bastante nestas últimas décadas. O casal protagonista, Spencer Tracy e Katherine Hepburn, é fabuloso (especialmente nos improvisos cômicos do filme caseiro dentro do filme); o texto é esperto e há uma canção de Cole Porter como cereja do bolo. E há um plano impressionante, longuíssimo, com câmera fixa, totalmente segurado pelo diálogo e por Hepburn e Judy Holliday (que veio do teatro, fez pouco cinema e morreu jovem, de câncer de mama). Cole Porter, em companhia do diretor Vincente Minnelli e do co-coreógrafo e "leading man" Gene Kelly, não está em seus melhores dias em "The Pirate", romance musical ambientado no Caribe. As atenções vão todas para Judy Garland _mesmo ótima, não impediu que o filme tenha sido um fracasso de bilheteria. A montagem é bem estranha, e os cenários têm aquela cara de estúdio... E em "Diário de uma Camareira" de 1964, Burgess Meredith (o Pingüim da série do Batman e o treinador Mickey dos três primeiros "Rocky" _Cesar Romero, o Coringa, está no filme de Sternberg com Dietrich que comentei acima) produz, assina o roteiro e atua sob a direção de Jean Renoir, que adapta uma peça francesa que deu num dos meus filmes preferidos de Luís Buñuel, quase 20 a nos depois. Estrelada por uma Paulette Godard loira (bem diferente do que nos filmes de Chaplin), o filme do francês trabalhando nos EUA é muito mais leve e convencional do que o do espanhol na França.

    No período, também dei atenção a três trabalhos dos fabulosos arqueiros Michael Powell e Emeric Pressburger: "The Red Shoes"cai na revisão, mas ainda emociona ao final e impressiona com a seqüência do balé (quase 20 minutos que demoraram 6 semanas para serem produzidos); a paixão pela arte é sempre um tema que fala comigo. "I Know Where I'm Going!" é o primeiro filme delwa totalmente em preto-e-branco que vejo _curiosamente, dizem que o diretor de fotografia fez o filme inteiro (em estúdio, onde o protagonista de Roger Livesey, substituindo James Mason, filmou o tempo todo, mesmo com grande parte do filme se passando em locações na Escócia) sem usar um fotômetro. A história é tremendamente previsível; o diferencial mesmo é o senso de humor e de liberdade que são característicos de alguns filmes da dupla ("The Red Shoes" parece exceção); há inventividade e criatividade de sobra, como distribuição de vários elementos teoricamente inconciliáveis num mesmo plano, derrubando o naturalismo. E em "The Life and Death of Colonel Blimp", a escocesa Deborah Kerr, em começo de carreira, interpreta três personagens diferentes num épico em cores com quase três horas de duração; mas a estrela é, novamente, Roger Livesey (grande ator, mas que aparentemente só pegava os papéis porque a primeira opção _neste caso, Laurence Olivier_ não podia ou não queria fazê-los), em impressionantes caracterizações (acompanhamos seu personagem por mais de 40 anos). É um filme de esforço de guerra _mas que irritou Churchill, porque a personagem de Anton Wallbrook é um militar alemão simpático; o político teria impedido Olivier de estrelá-lo e tentado banir o filme_, mas ele transcende este aspecto (como fazem outros clássicos do período, como "Os 47 Ronin"). E assim como em "I Know Where I'm Going!", a dupla de cockers spaniels de Powell faz uma ponta... E já que o assunto é guerra, vale encaixar "Sands of Iwo Jima", que eu estava enrolando para ver desde o início do ano, quando os filmes de Clint Eastwood foram lançados; feito no calor dos acontecimentos pelo veterano Allan Dwan (diretor de quase 400 filmes) e estrelado por John Wayne, com a participação do sobrevivente trio de soldados que hasteou a famosa bandeira (que também aparece no filme, emprestada pelo exército _lembra Ford usando as locomotivas reais e histórias em "The Iron Horse"), é obviamente uma patriotada bastante romantizada _inclusive com direito a parzinho romântico (não na guerra, é claro); perde muito por justamente não investir em cenas de combate.

    E, como já é praxe, não poderia deixar de lado os dramas familiares de meu amigo Yasujiro Ozu: fui resgatar "Conto das Folhas Flutuantes", de 1934 (mudo, portanto), que aborda a paternidade, o orgulho e a premente necessidade de ganhar a vida numa sociedade com papéis sociais extremamente definidos _por exemplo, ser ator não é considerado uma atividade "digna". Os enquadramentos são magistrais, mas achei um filme meio frio, comparado a outros do diretor. Já num filme de 1948 que não tem título em português (a tradução seria algo como "Uma Fêmea de Ave ao Vento"), o diferencial (negativo, creio) é a menor sutileza no clímax (que contém a cena mais violenta que vi em seus filmes); curiosamente, o conflito, ditado pela moral, pela política e pela economia (mais uma vez, o diretor fala do universal por meio do particular, praticamente sem ação em externas), é exposto de maneira imensamente sutil. Bom, mas aquém do seu melhor.

    ***

    Misturando a linha do tempo: de 1921, vi "A Carroça Fantasma", de Sjöstrom, um conto moral e sobrenatural (bem à moda da época) que lembra bastante o clássico de Dickens sobre o velho Scrooge, que inspirou o Tio Patinhas. Engraçado que uma das mais famosas cenas da carreira do Kubrick, Nicholson arrebentando uma porta a machadadas para chegar à mulher e ao filho, foi praticamente copiada deste filme, como uma óbvia homenagem. Pulando para os anos 60, outra adaptação literária (que Kubrick filmaria 6 anos depois), mas quase irreconhecível: em "Vinyl", Andy Warhol adapta "Laranja Mecânica" quase que em um plano só, em enquadramentos bem esdrúxulos; o enredo é resumido a quase nada; a trilha sonora é ótima, mas o filme dá um sono...

    Anos 70: curioso que uma sessão do Videobrasil, festival de "arte eletrônica", seja composta justamente de três filmes feitos e projetados (muito mal, com som e foco sofríveis, no superestimado Cinesesc) em 16mm... O primeiro, "Water Wrackets" (1975), é uma picaretagem da grossa: imagens de rios e lagos sob uma narração sobre eventos num futuro distante. O segundo, "Dear Phone" (1977), é o melhor, por ter, pelo menos, senso de humor. O terceiro, "A Walk Through H: The Reincarnation of an Ornithologist (1978)", segue caminho parecido, mas mostra 92 pinturas de Greenaway ("mapas") e imagens de pássaros. Completando a sessão, antes vi, no Sesc Paulista, uma exposição com 92 malas de seu personagem Tulse Luper _esta fixação de Greenaway com o 92 é por ele se tratar do número atômico do urânio, compreensível que o diretor tenha tal preocupação devido à sua geração. Acho que não dou muita sorte com Greenaway, não vi seus filmes mais elogiados...

    Menos chato foi conferir "Macumba Sexual", um dos 13 (!!!) filmes que Jesus Franco (assinando como Jess Franco) fez em 1983. É um interessante exercício de mistura de sonho e realidade, com apenas um fiapo de história: Franco prefere criar climas com a trilha sonora, as paisagens do deserto (e algumas construções arquitetônicas bem interessantes e exóticas) e com os corpos nus do elenco _com Lina Romay (também assistente de direção, sob pseudônimo, e mulher do diretor) à frente (e de costas e de tudo quanto é lado). Há um plano fabuloso: vemos na areia dois objetos que parecem lápides; de repente, uma mão gigantesca invade a tela e as pega (na verdade, eram pequenas estatuetas!).

    ***

    De volta a este estranho ano de 2007: "Cartola: Música para os Olhos" é um bom documentário (de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda _este último esteve na sessão para debate e foi muito simpático) não apenas sobre o querido sambista, mas sobre o século XX. Vasto e rico material de arquivo garante sim informações mais do que suficientes para a biografia _a forma não briga com o conteúdo, diferentemente do que muita gente disse. E a primeira metade de "The Simpsons Movie", de David Silverman, é excelente; a segunda cai bastante, mas não deixa de ser boa. Os Simpsons ainda não envelheceram totalmente, mas não causam o frisson de antes justamente porque eles mudaram muita coisa e abriram espaço para as séries animadas politicamente incorretas, como "Beavis and Butt-Head", "South Park" e "Family Guy", entre outras. Mas não deixa de ser admirável a série estar no ar há quase 20 anos.

    Deste ano também é a série "The Tudors", que acabou de estrear aqui na TV a cabo: o que impressiona mais não é a razoável riqueza da reconstituição de época (historicamente, com certeza há muitos furos, mas estão lá Henrique VIII, Thomas Morus, Catarina de Aragão, Ana Bolena e outras figuras manjadas), mas o alto nível de erotismo (muito, mas muito sexo mesmo, para os padrões televisivos _e "Roma", que estou vendo no momento, é ainda mais ousada). Um episódio em especial, o da peste, me deu mais sustos do que todos os filmes de terror que vi nos últimos dez anos; era impressionante, um atrás do outro, mal dava para recuperar o fôlego e acalmar os batimentos cardíacos. Já a outra série vista neste ínterim, "Taken" (aparentemente produzida por Steven Spielberg como aquecimento para "Guerra dos Mundos" _Dakota Fanning está lá), sobre três gerações de três famílias (é meio confuso, mesmo) envolvidas com extraterrestres. É bem a cara do Spielba _bem, do pior dele: musiquinha vagabunda criando um climinha, câmeras rodando à toa em torno das personagens, textos boboquinhas na voz de uma criança, um chororô da mulherada... Fica mais divertido a partir do segundo episódio, mas a conclusão é meio broxante.

    ***

    É claro que estou esquecendo muita coisa, mas pelo menos quero registrar aqui os meus parabéns pelo primeiro aniversário da Zingu!, que traz uma entrevista com o inigualável Sady Baby (também recomendo o belíssimo texto de Andrea Ormond, embora a edição toda mereça ser lida), e de recomendar o disco "Carnival Nights", do Black Barn Music, projeto do talentoso André ZP. Outra coisa: fantástico o debate ocorrido na Cinética a respeito de um curta-metragem brasileiro e recente; seria maravilhoso se iniciativas como esta (um grupo de críticos debatendo com um cineasta) se repetissem com mais freqüência. Eu adoraria que "A Volta do Regresso" ou qualquer outro meu passasse pelo mesmo escrutínio.

    sexta-feira, julho 06, 2007

    Sempre fui muito crítico comigo mesmo _é uma maldição. Mas tentar analisar algo que você fez é especialmente complicado não apenas pela proximidade (que impede uma visão mais ampla e isenta) e pelo envolvimento emocional com a obra, mas porque é difícil vê-la somente pelo que ela é; "o que ela poderia ter sido" (algo que poucos _ou ninguém_ podem saber) se torna muito importante, incontornável. Acho conveniente desconfiar da opinião dos artistas sobre suas próprias obras.

    Dias atrás, no Cinesesc, ocorreu a segunda exibição pública do "Das Faces e Sombras" (numa versão ainda não-definitiva), um dos dois (e o primeiro a ser realizado) projetos do Vebis premiados em São Bernardo. Minha participação se resumiu à montagem _recebi o material bruto sem ter lido uma sinopse ou pisado nos sets, totalmente às cegas. Tanto neste quanto no "Nas Duas Almas" (o outro vídeo), o processo foi o mesmo: o diretor me passou o roteiro e as decupagens das fitas, com indicações dos trechos que ele preferia (quanto a estas últimas, confesso que não me guiei exclusivamente por elas). Não havia claquete nem numeração de planos (totalmente diferente do meu modo de trabalhar, minuciosa e virginianamente organizado _não lembro se já comentei aqui, mas a diferença de tempo entre a minutagem do roteiro de "A Volta do Regresso" e o primeiro corte do filme foi de apenas 5 segundos, o que inclusive me surpreendeu); eu tinha de assistir às fitas de olho no roteiro (no qual cenas foram descartadas e outras não existiam), literalmente montando aquele filme na minha cabeça, tentando dar um sentido àquelas imagens e sons. Como o roteiro não foi muito seguido nos dois filmes (o improviso em ambos foi gigantesco, tanto do elenco como do diretor, que fez o que pôde com a dificuldade inerente à profissão), achei o processo bastante caótico e imprevisível _o que dificulta ainda mais minha reflexão a respeito desta experiência.

    A luz no fim do túnel foi providenciada pelos atores. Neste vídeo em questão, considero especialmente importante a participação da Ana Paula Grande, que interpreta a Madalena (personagem concebida para ser a vilã do filme, cujo machismo e misoginia, inegáveis, inicialmente me assustaram _muito diferente do "Nas Duas Almas", muito mais sensível e emocionado, embora contenha a violência física ausente no outro), seguida do Marcelo Nascimento, que interpreta Maurício. Tentei, ao mesmo tempo, selecionar os melhores momentos de todos os atores e costurar a cena dentro de uma estrutura dramática; por causa disto, alguns cortes (especialmente os feitos em meio a planos muito parecidos, que o Vebis chama de "godardianos" e que também funcionam como tentativa de resumir a ação, descartando trechos irrelevantes) me deixam especialmente incomodado, mas creio que o "mal menor" foi escolhido.

    Também sigo com a impressão de que algumas cenas estão mais longas do que deveriam, e senti que o curta/média de 21 minutos cansou parte do público. E também me incomodam um pouco partes da finalização de imagem (cores e brilhos estranhos _mas não sei se concordo com a sugestão de Carlos Reichenbach: adotar um preto-e-branco a la Jarmusch) e de som (sinto que muito se perdeu com a dublagem, perceptível, de algumas cenas). Mas é claro que o balanço é positivo, pela experiência e, claro, pela remuneração (acho feio quem acha bonito trabalhar de graça, com exceção óbvia do voluntariado); agradeço ao Vebis por ter me honrado com o convite, a confiança e a amizade (e gostaria muito que ele viabilizasse seu "Warriors" do ABC).

    Um parênteses irritante: para quem foi ao Cinesesc e ouviu o discurso introdutório do Vebis (e também para quem não esteve lá, já que a confusão parece ser mais comum do que eu pensava), preciso fazer uma correção: meu curta-metragem "A Volta do Regresso" (que o nosso amigo fã de "Star Wars" chamou de "O Retorno do Regresso" _fico muito feliz quando riem do título, minha reação foi a mesma quando li o nome da música num encarte de CD) NÃO É nem nunca foi uma "homenagem à pornochanchada" (embora eu goste do gênero), como foi dito na sessão. Creio que a confusão se estabelece por que parte significativa do elenco (Carlo Mossy, Ênio Gonçalves e Kate Hansen) atuou em pornochanchadas (mas não apenas nelas), mas trata-se de um filme contemporâneo (se é que se pode chamar assim algo escrito em 2003, início do governo Lula).

    ***

    Outra experiência que merece registro: vi, pela primeira vez (e também em exibição pública), um documentário para o qual dei entrevista (perdi as contas de quantas dei nos últimos 10 anos, mas foi a primeira para um filme); já sabia que não ia gostar (de mim na tela, não do filme), mas fiquei chocado por não me reconhecer. Há mais de um ano e meio, dei 1h30min de entrevista, e os obviamente poucos minutos que entraram geraram um retrato distorcido: algumas críticas que fiz aparecem desacompanhadas do outro lado (eu ataquei certas coisas justamente porque estava defendendo outras), o que deu a impressão de que eu estava simplesmente sendo maledicente; na época, talvez a depressão causada pelos rumos que a pré-produção de "A Volta do Regresso" estava tomando tenha colaborado para aumentar a falsa impressão; e, para piorar, fui filmado em contra-plongée... Observou-se também que, por eu ter sido o primeiro entrevistado do filme e, principalmente, ter sido o único que foi filmado em sua casa, estes fatores teriam colaborado para tais distorções (não sei a respeito disto, mas é possível). Este comentário não tem nada a ver com o propósito do filme, mas com meu choque ao ver um desconhecido com meu rosto e minha voz passando uma imagem bastante errônea a meu respeito _algo que terei de digerir; não sei o que vou pensar quando rever o filme.

    ***

    A confecção do ranking do primeiro semestre de 2007 para a "Liga dos Blogues Cinematográficos", composto dos 10 melhores e dos 5 piores, revelou um quadro deprimente por um lado e positivo por outro: não vi sequer 15 lançamentos cinematográficos neste ano (além de não ter conseguido preencher a lista, alguns dos filmes citados foram vistos no ano passado ou em DVD _ou seja, as idas para o cinema estão escassas). Se por um lado obviamente é chato não acompanhar os lançamentos nos cinemas, por outro o meu nível de exigência aumentou a ponto de eu não mais ir a uma sala por mero impulso (lembrando que me recuso a ir às cabines sem obrigação profissional, levo a sério este tipo de coisa). Creio que meu tempo está sendo melhor empregado.

    ***

    En passant, vamos lá: o enredo incrivelmente boboca de "Lonesome" (que o diretor húngaro Pál Fejös filmou em Coney Island, em 1928, assinando como Paul Fejos) dava para um curta de 10 min., e não os seus 63 min.; mas a construção imagética (abusando das fusões) é tão fantástica que o filme acaba sendo ótimo. Chama a atenção também a obsessão pelos parques de diversões (que aparecem em vários outros filmes do período). Inventividade com a câmera (deve ter sido sensacional vê-lo no cinema, à época) também é a marca de "La Glace À Trois Faces" (1927), do Jean Epstein, imediatamente anterior a seu mais conhecido "A Queda da Casa de Usher". Desafiador para quem ainda não está muito acostumado com peripécias com o tempo da narrativa (também é interessante, neste sentido, "La Signora de Tutti", que Öphuls filmou na Itália em 1934: há flashbacks dentro de flashbacks...). A beleza das imagens, aliada a seu registro documental altamente poético, também é o destaque em "Entuziazm: Simfoniya Donbassa" (1931), de Vertov (a cena em que a igreja é destruída é uma pérola), mas o filme derrapa ao não romper muito os limites com a propaganda política.

    Sternberg parece ter agarrado o espírito dos filmes sonoros de cara: seu "Thunderbolt" (1929), estrelado por George Bancroft e Fay Wray (de "King Kong") é impressionante pela qualidade da interpretação dos atores face à recente presença dos microfones. Não sei se posso dizer o mesmo de Victor Fleming; seu "Bombshell" (1933), estrelado por Jean Harlow, traz uma falação infernal, irritante, dando a esta comédia de uma piada só (ótima, ao final) um clima histérico, estridente e um tanto vulgar (talvez "mérito" de sua protagonista, à época com 22 aninhos). Quanto a Ozu, que tem "Filho Único" (1936 _foi só neste ano que a Shochiku instalou seu sistema de gravação de som) como seu primeiro filme com som sincronizado, a novidade aparentemente não causa grandes alterações em sua obra, que continua sendo universal, agridoce e devastadora.

    ***

    Já falei e repeti que prefiro as comédias não-musicais do Lubitsch e que não vou mesmo com a cara do Chevalier (feio, mau cantor, sem muita graça); tanto em "One Hour with You" (aqui tendo George Cukor como assistente) quanto "The Merry Widow" (bastante diferente e muito pior do que o filme que Ströheim, baseado na mesma opereta, fez 9 anos antes) me parecem filmes menores, nos quais obviamente há bons momentos. Muito da graça vem da safadeza (se tivesse nudez, seria uma pornochanchada) característica do diretor. Surpresa mesmo é "Broken Lullaby" (1932), o único melodrama dele que vi: adaptação teatral também conhecida por "The Man I Killed" e estrelada por Lionel Barrymore, está na categoria de filmes pacifistas, na linha do "All Quiet on the Western Front"; um tanto exagerado, mas muito bonito (especialmente no final, que justifica o título). É interessante ver o berlinense Lubitsch abordando as terríveis feridas da Primeira Guerra _e, de certa forma, prevendo um novo conflito, antes mesmo da chegada de Hitler ao poder.

    Voltando aos musicais: dizem que "Show Boat" (1936) era o filme de que James Whale mais se orgulhava, apesar de ser mais conhecido pelas fitas de terror. Mas, com exceção da seqüência de "Ol' Man River", não vi nada muito memorável (certamente bem envelhecido; há pelo menos outras duas adaptações deste espetáculo da Broadway, ainda não as vi). E, mesmo após ter visto "The Gay Divorcee" (1934), considerados por muitos o melhor filme (é o segundo) estrelado por Fred Astaire e Ginger Rogers, com números clássicos como "Night and Day" e "The Continental", sigo com a máxima: troco todos os filmes que o Astaire fez por "Cantando na Chuva" ou "Duas Garotas Românticas"; Gene Kelly é simplesmente insuperável.

    Fechando este capítulo: "Rock'n'Roll High School" (1979), filme de Allan Arkush (que há mais de 20 anos se dedica à TV _atualmente é diretor da série "Heroes") com argumento de Joe Dante e produção de Roger Corman, foi uma surpresa muito agradável (porque eu, fã dos Ramones desde criança _ninguém me tira a alegria de tê-los visto ao vivo quando adolescente e de tê-los entrevistado_, sempre achei que fosse um mero trash). Ao final, a ocupação que os estudantes realizam na escola, deixando a diretora e a polícia negociando a retirada do lado de fora, parece até reportagem sobre a reitoria da USP... O filme também me lembrou da rádio que fundei no meu colégio (chamava-se "Cérbero"), aos 15 anos, e a inaugurei justamente com Ramones: lembro claramente da mesma cena, os alunos dançando rock no pátio... Claro que não sinto saudades.

    ***

    Caiu na minha mão (empréstimo de uma amiga, repórter de "O Globo") a caixa com 5 dos 6 filmes da série "A Pantera Cor-de-Rosa" (difícil entender o critério da seleção, já que a picaretagem lançada dois anos após a morte de Sellers, surpreendente apenas por trazer nudez feminina, está lá). Há uma grande distância entre os filmes dos anos 60 e dos 70: primeiramente, Clouseau era bem mais contido (inclusive no sotaque e nos disfarces). Dentre todos, meus preferidos são "A Shot in the Dark" (o único que não traz nenhuma referência à Pantera _o personagem animado, não o diamante do filme original) e "The Pink Panther Strikes Again" (sátira a James Bond que se segura mesmo tendo 20 minutos cortados); em ambos, ouso dizer que Herbert Lom, como Dreyfus, rouba todas as cenas em que aparece, ofuscando inclusive Sellers. A trilha de Mancini faz muita diferença. Alguns episódios da série de animação de Friz Freleng lembram dos anos 80, quando o SBT os exibia como tapa-buraco na programação, enquanto a novela das 20h da Globo não acabava, mas também lembram que gênio da animação é mesmo o Tex Avery _isn't it?

    Falando em gênio, só poderia ter saído coisa boa quando Sam Peckinpah e Steve McQueen resolveram brincar de Raoul Walsh e Humphrey Bogart e fazer o seu "High Sierra", batizado como "The Getaway" (1972). O filme surpreende não apenas pela doçura do diretor (quem presta atenção somente na violência está perdendo muita coisa _inclusive a presença maciça de crianças), mas por, especialmente no início, abusar dos flashbacks e flash-forwards _a seqüência inicial, na prisão, é simplesmente brilhante. A trilha sonora do Quincy Jones (o roteiro é do Walter Hill, Lucien Ballard e Roger Spottiswoode também estão na jogada etc.) é ótma.

    Chegando à atualidade, dois filmes razoáveis e duas tranqueiras: "A Day without a Mexican" é uma porcaria sem tamanho: raso, malfeito (aquela câmera na mão de um portador de Parkinson), ingênuo de dar dó e de um mau gosto terrível. "Stranger than Fiction" é outra mancha no currículo do Marc Forster; o roteirista simplesmente não se aprofunda em nenhum personagem, e tudo é muito explicadinho, verbalizadinho, mal filmado (e foto e direção de arte são feias) e com efeitos visuais bobocas. A melhor coisa, de longe, é a participação praticamente não-aproveitada da comediante Kristin Chenoweth, como Darlene Sunshine, apresentadora de um programa de literatura que nunca lê os livros dos escritores que entrevista (só dá para ver nos extras do DVD).

    Do outro lado, "A Scanner Darkly" não figura entre os melhores do Linklater: é uma comédia de humor negro que funciona melhor justamente quando é uma comédia de humor negro... O elenco está soberbo (as cenas que reúnem Keanu Reeves, Robert Downey Jr. e Woody Harrelson são fáceis as melhores), mas realmente não entendo muito o motivo da rotoscopia. Outra pequena decepção foi "Conceição: Autor Bom É Autor Morto", filme coletivo de alunos da UFF cujo trailer era extremamente animador. Entretando, o resultado não surpreende: pedaços de argumentos e idéias para filmes são unidos e misturados, quebrando as convenções do real e da ficção (é sensato agradecerem a meu querido Pirandello). O filme é hilário em seus melhores momentos e tem mulher pelada, mas não me entusiasmou a ponto de uma revisão... Antes da sessão passou um curta também da UFF, "Jonas e a Baleia": apesar de não ser hermético ou não-narrativo, é gélido, arranca de si mesmo toda emoção e acaba chateando; me fez lembrar daquela famosa entrevista do "Cahiers..." em que Orson Welles desanca o Antonioni... Mas a fotografia é muito bonita (sem sacanagem).

    ***

    Eu tinha dois pés atrás em relação a "Plantão Médico" (não gosto de hospitais e achei que o tema daria vazão a um novelão), mas, estimulado por "House" (da qual gostei menos, em comparação com esta _apesar de ter lido todo o Sherlock Holmes do Conan Doyle quando garoto), conferi as três primeiras temporadas (dentre as quais a primeira se sobressai). O piloto é impressionante a ponto de Spielberg, após tê-lo visto, ter se arrependido de não tornar em um longa a idéia do Crichton: a vida das personagens fica em segundo plano (eventualmente, no decorrer da série, é preciso um equilíbrio _até porque a repetição não demora a surgir) para termos um retrato aparentemente bastante acurado da profissão (nos EUA, claro). Neste caso, achei que algo se perde ao ser vista em DVD, sem os intervalos de tempo naturais da grade americana: a proximidade entre os episódios deixa mais claras as estratégias para dar longevidade à série (que existe até hoje, sem os protagonistas originais), como a aparição e sumiço (que, com o tempo, também se torna repetitivo) de personagens (com vários atores que se tornariam mais famosos depois, como Lucy Liu e Kirsten Dunst _tem até o Ewan McGregor num episódio atípico). A trilha sonora é ótima, e há um personagem extremamente forte e rico, o dr. Peter Benton do Eriq La Salle (mas sou suspeito para falar, achei-o bem parecido comigo).

    P.S. Já ia me esquecendo: parece que está rolando em tudo quanto é blog uma corrente em que alguém faz uma lista de 5 livros e indica 5 pessoas para publicar as suas listas; fui indicado para fazer a minha por Marcelo Carrard e Alê Marucci. Farei, em parte, jus à minha fama (?) de quebrador de correntes não passando a bola para ninguém; mas, apesar de detestar elaborar listas de qualquer tipo (inclusive de supermercado), não vou deixar os amigos sem resposta. Segue a pequena lista de 5 títulos, escolhida de uma perspectiva puramente emotiva (ou seja, envolve mais impacto do que qualquer outra coisa) e em ordem cronológica de leitura, deixando de fora autores que admiro imensamente:

    A Bíblia Sagrada
    Reinações de Narizinho
    Crime e Castigo
    Na Colônia Penal (e outras obras de Kafka)
    Em Busca do Tempo Perdido

    P. P. S. Falando em listas, confiram as de filmes brasileiros no site da revista Paisà e a de filmes "made in USA" no blog de Filipe Furtado.

    sexta-feira, março 23, 2007

    Queria muito ver "Marie Antoinette" (mesmo que agora um monte de gente esteja falando bem, depois que o filme só levou paulada), mas o desgraçado não estreou perto de casa, o calor ainda está alto e a preguiça e outros compromissos venceram; vocês gostaram?

    Teria sido bom ver aquele contexto retratado por uma estrangeira contemporânea, após ter visto outros filmes históricos da França neste último mês, como o "Orphans of the Storm" (1921), do Griffith (que explicita em letreiros sua posição política, soltando os cachorros na então recente Revolução Russa, e traz algumas cenas impressionantes, como uma orgia dos aristocratas e os festejos do povo com a queda da monarquia; também há um clássico exercício de suspense baseado na montagem paralela, que ainda funciona), e o "Napoleón" (1927), do Abel Gance (quatro horas que passam voando, apesar de o ritmo cair quando chegamos ao romance com Joséphine. Vários momentos lembram certas experiências russas do período, como a metáfora da águia e a montagem rápida, feita pelo próprio Gance, que vai além e impressiona ao usar três câmeras para compor quadros grandiosos, criando o formato retangular _dizem também que ele chegou a filmar em cores e em 3-D, mas não teria usado estes trechos para não distrair demais o público. Talvez o maior filme da França? Há quem diga que é "Les Enfants du Paradis", outros vão de "Acossado"...). Agora, revolucionário mesmo é "Zéro de Conduite", do Jean Vigo, repleto deste espírito ao mostrar a reação de alguns garotos bagunceiros às autoridades escolares com o apoio de efeitos como câmera lenta, animação, stop-motion etc., homenageando Chaplin e inspirando Truffaut.

    Ainda na França, conferi duas parcerias entre Jean Renoir e o sempre genial Michel Simon, notável e inesquecível em suas caracterizações: "A Cadela" (1931) e "Boudu Salvo das Águas" (1932). O primeiro é uma lúcida obra-prima, introduzida pela clássica cena com os fantoches, que abre o caminho para a história, a mais antiga do mundo, narrada com brilhantismo raro (se o equipamento fosse mais ágil, que movimentos ainda mais ousados Renoir não teria realizado?); o segundo tem um belo final e alguns ótimos momentos, mas quem segura as pontas é mesmo Simon (também produtor; o grande Jacques Becker é assistente de direção e faz uma ponta). Completando o passeio pela terra de Astérix, "Jeux Interdits", de 1952 (um neorealista de René Clement, concentrado num microcosmo: fantasias infantis num ambiente rural), e o recente e bem-sucedido documentário "Ser e Ter", superficial, lento e que às vezes passa a impressão de ser covarde.

    ***

    Andei visitando outros diretores, europeus em sua maioria (e a eles voltarei mais vezes). Um deles é o meu amigo Ernst Lubitsch, que apareceu no texto passado e volta com "Monte Carlo", de 1930 (mais um musical altamente escapista, mas não tão bom quanto "The Love Parade", do ano anterior), e duas obras-primas (nas quais felizmente abandona os musicais), "Ladrão de Alcova", de 1932, e "Sócios no Amor", de 1933, na qual o diretor exibe sua marca registrada: encadeamento perfeito de cenas curtas, sutis e que respeitam a inteligência do espectador (o que costuma ser raridade), sem privá-lo das gargalhadas.

    Outro mestre da época é o Rouben Mamoulian, em dois projetos excelentes e bem distintos. Um deles é o "Love Me Tonight" (1932), no qual ele rouba de Lubitsch a dupla Maurice Chevalier e Jeanette MacDonald e investe na comédia romântica musical; como Renoir em "A Cadela", passa por cima do enredo mais do que batido (nobre se apaixona por plebeu) e cria momentos clássicos, como a seqüência inicial, na qual Paris acorda com o som dos trabalhadores. Decupagem e montagem são irrepreensíveis, e as piadas não perderam o viço (gargalhei várias vezes). O grande problema mesmo é Chevalier, que não tem 10% do carisma de um Gene Kelly e não tem muita química com MacDonald _que não faz feio, mas que neste filme tem a cena roubada pela coadjuvante Myrna Loy, muito mais bonita e divertida. O outro, do ano anterior, é "Dr. Jekyll and Mr. Hyde", a melhor adaptação de "O Médico e o Monstro" que já vi. Mamoo mais uma vez nos dá um filme impressionante e tecnicamente perfeito (o que o faz parecer bem à frente de seu tempo). As seqüências subjetivas geraram filhos famosos (impossível não lembrar do início do "Halloween", do Carpenter, e do trecho imediatamente pós-transformação de "O Professor Aloprado", do Lewis), as transformações de Jekyll em Hyde e vice-versa são de cair o queixo (as feitas com filtros parecem mágica), e Fredric March está perfeito em ambas as caracterizações; já Miriam Hopkins (que, aos 60 anos, trabalharia com Russ Meyer, que não era bobo) está absolutamente deliciosa e dá ao filme uma carga gigantesca, quase inacreditável, de erotismo (uma tragédia que sua cena de nudez tenha sido cortada).

    ***

    Quem também bateu ponto por aqui foi King Vidor, com "Hallelujah!" (1929), seu primeiro sonoro; traz aqueles probleminhas típicos da época, como interpretações bem acima do tom e má sincronia de som (que não foi captado diretamente, mas dublado após a filmagem), mas nada que o comprometa. Até porque é surpreendente: o que parece ser uma espécie de musical (quem dera a trilha sonora fosse lançada) retratando os agricultores de algodão (o elenco é 100% negro, o que acarreta alguns estereótipos também típicos da época, quando o racismo era mais tolerado, mas nada que chegue a ser escandaloso) vai ganhando ares de drama, depois parece que, fazendo jus ao título, se tornará um filme religioso (embora carregado de erotismo, apesar de não trazer cenas de sexo ou nudez), para virar uma tragédia e comentário moral, até fechar o ciclo. Em "The Champ" (obviamente fantasticotilhões de vezes melhor do que a xaroposa refilmagem do Zeffirelli _o Vebis cunhou muito adequadamente o termo "zefirelismo" em seu texto sobre "Rocky Balboa"), de 1931, os pontos fortes são o carisma de Jackie Cooper (o Perry White da série "Superman") e Wallace Beery, mas é a câmera (enquadramentos e movimentação) que rouba o show.

    Outro amigão da vizinhança é Yasujiro Ozu, que vem quietinho (ele só faria seu primeiro filme sonoro em 1936) com três obras: a primeira, "A Esposa da Noite" (1930), impressiona por parecer, a princípio, um filme de gângster, no melhor estilo "The Public Enemy"; mas não demora a se tornar um melodrama familiar, mais característico do diretor. Quatro atores (com destaque absoluto para Emiko Yagumo, que infelizmente teve carreira curta no cinema, menos de dez anos) em um cenário divinamente explorado por Ozu, mestre em decupagem e mise-en-scène. Os travellings são sempre perfeitos. Aproveitei para rever (e gostar ainda mais) de "Meninos de Tóquio" (título ruim; a tradução literal seria algo como "Eu Nasci, Mas..."), que já seria um grande filme se fosse apenas uma obra sobre a infância; ao tornar-se um drama familiar envolvendo os pais, segue atemporal e universal, mas amplia seu escopo _ poderia ser cruel, mas Ozu-san também era conciliador. Também vi "Dekigokoro" (não há título em português, seria algo como "ilusão passageira"), de 1933, que também investe no drama familiar causado pelo conflito de gerações (e de ambições entre pais e filhos), mas chega às beiras do dramalhão, o que eu nunca tinha visto nos filmes do diretor.

    ***

    E não posso me esquecer de Fritz Lang, que compareceu com "M", de 1931 (no qual ele e Peter Lorre estão perfeitos, talvez em seus auges _Hitchcock, aprendiz de Lang, dizia que seu filme preferido era "A Morte Cansada", mas não há muita dúvida de que este também exerceu seu impacto sobre o britânico... de quem vi "Blackmail", seu primeiro sonoro, muito interessante especialmente pelas experiências técnicas de imagem e som, embora a atuação germânica de Anny Ondra também seja inesquecível), e "Das Testament des Dr. Mabuse", de 1933 (brilhante em vários momentos, mas um tanto arrastado em outros; melhora quando explora Rudolf Klein-Rogge, que interpreta a personagem-título, mas o cerne do filme é exatamente este, como a influência do mal (e em Mabuse cola-se perfeitamente o rótulo de "terrorista", na acepção mais abrangente do termo) pode contaminar... E não era o que estava acontecendo na Alemanha, com a ascensão dos nazistas ao poder?

    E já que falamos em nazistas, vamos dar uma olhada em "Salon Kitty", estrelado por Helmut Berger e Ingrid Thulin em 1976, na qual Tinto Brass confronta Eros e Tânatos, mostrando o sexo militarizado, usado como arma de guerra. Diferentemente de certos filmes rotulados de "nazixploitation" (como o horroroso "Ilsa, She-Wolf of the SS"), Brass não pretendeu fazer um mero filme erótico disfarçado de denúncia de atrocidades; vai bem mais fundo no horror não só daquele período, mas da psiquê humana, sem medo de mostrar imagens fortes. E pode-se não gostar do diretor, mas é inegável que ele tem estilo.

    Voltando de novo no tempo, faltou falar de Josef von Sternberg, que me mostrou dois de seus filmes com Dietrich: "Marrocos", de 1930, e "Desonrada", de 1931. O primeiro encena um triângulo amoroso no continente africano, mais de dez anos antes de "Casablanca" _muito menos tenso, até porque a personagem de Adolphe Menjou é um tremendo de um corno-manso, deixando barato a Marlene (mais uma vez fazendo um papel recorrente em sua carreira, a de cantora de cabaré _com direito a beijo lésbico) para Gary Cooper (fazendo o papel de legionário francês anos antes de "Beau Geste"), que nunca mais teria aceitadou um convite do Sternberg. O segundo é muito melhor, uma história de espionagem (no mesmo ano em que Garbo encarnava Mata Hari no filme homônimo) ambientada na Áustria da Primeira Guerra Mundial, onde Dietrich, mais linda do que nunca, interpreta a espiã X-27 e toca piano, muito piano... Tecnicamente, é perfeito: fotografia (que se aproveita bastante de efeitos como fusões) e mise-en-scène são deslumbrantes (a cena no Carnaval é linda), nem parece que é do início do período sonoro. Meu Sternberg preferido até o momento. E falando em fusões, poucos as usaram tão bem quanto Victor Sjöström em "Vento e Areia"...

    ***

    Mas vamos parar um pouco com este domínio dos diretores e falar um pouco de um ator: ninguém menos que Boris Karloff. Mais conhecido como Frank, o homem com nome de vodca era considerado extremamente charmoso por todos, mas nas telas acabou marcado ou por monstrengos sem falas (além do mais famoso, temos também o mordomo mocorongo de "A Casa Sinistra", outro de James Whale) ou por personagens até que interessantes, mas um tanto unidimensionais, como o vilão de "O Gato Preto", do Ulmer (o primeiro dos vários filmes no qual Karloff encontra Lugosi), o gângster de "Scarface", do Hawks, ou o fanático religioso de "The Lost Patrol", do Ford. E aí fica a dúvida: foi um bom ator mal-aproveitado ou um mau ator muitíssimo bem-aproveitado? Minha tendência é balançar em direção à segunda alternativa.

    ***

    Mas vamos falar de um assunto leve e agradável, como matança: por um lado, a barra pesa em "Você Também Pode Dar um Presunto Legal", média feito entre 1970 e 1973 (mas exibido somente a partir do ano passado) pelo documentarista Sérgio Muniz sobre o surgimento e a ascensão do Esquadrão da Morte e da tortura encampada pelo Sérgio Fleury; obviamente ele não tratou de entrevistar nenhuma autoridade (iria para o pau-de-arara rapidinho), mas filmou publicações jornalísticas e publicitárias da época (estas são o cúmulo do espírito de porco brazuca, fazendo gracinhas com a violência para vender aparelhos de TV e água sanitária), montagem de duas peças de teatro e outros atores (entre eles Abrahão Farc, Renato Consorte _ambos convidados para atuar em "A Volta do Regresso", mas o papel acabou ficando para o Ênio Gonçalves_, Othon Bastos e Gianfrancesco Guarnieri) interpretando figuras da época. A trilha é ótima (embora óbvia), bem irônica.

    Tortura e sangue também vemos em "King of Kings", belíssima adaptação do Novo Testamento dirigida por Nicholas Ray, mesmo que prejudicada pelas piores características das superproduções "históricas" (não que a exatidão da reconstituição seja uma necessidade) do período, como o excesso de assepsia e de artificialidade. Há cenas lindas (como o sermão da montanha e Jesus curando um cego), a narração (escrita por Ray Bradbury e lida por Orson Welles _foi a primeira vez que vi este filme, antigo campeão da "Sessão da Tarde" na época das Páscoas da minha infância, com som original e janela correta) funciona, e a trilha sonora de Miklós Rózsa é ótima (embora também restrita às convenções do gênero). Mas, apesar de todos os recursos (como a estonteante fotografia em 70mm) e talentos empregados, fica a anos-luz de distância do filme de Pasolini, feito meses depois.

    Temos também a primeira temporada da série "Dexter", exibida nos EUA no ano passado (aqui, sabe-se lá quando): adaptação literária (não muito fiel, segundo li por aí) ambientada em Miami (o que a deixa bem menos dark do que poderia ser _há sol de montão, praia e muita música caribenha, o que confere bastante humor a tudo) que, apesar da premissa um tanto diferente (um legista da polícia na verdade é um serial killer que mata apenas outros assassinos que escaparam da lei), a série começa como mais um mero show policial; mas melhora bastante ao se aprofundar no passado de seu protagonista (há algumas grandes surpresas, e a maior delas fica bem para o finalzinho), interpretado pelo ótimo Michael C. Hall (o papa-defunto gay de "Six Feer Under"), acompanhado de Jennifer Carpenter (mais conhecida como Emily Rose, aquela do exorcismo). Destaque para a abertura, na qual as atividades mais corriqueiras do dia-a-dia, como fazer a barba, passar fio-dental, vestir-se e fazer o café-da-manhã tornam-se carregadas de morbidez (mesmo assim, a série poderia ter um clima bem mais pesado, de pesadelo).

    E como citei pesadelo, vamos aproveitar para meter o pau numa porcaria safada que tive o desprazer de ver neste mês, o tal "Me and You and Everyone We Know", da Miranda July. É pior do que uma bobagem pretensiosa, porque sequer consegue chegar neste nível: adequadamente classificado como "lixo indie", este filme parece não ter a menor vergonha de atingir cúmulos de ridículo (como a cena com o peixinho dourado), o que não seria necessariamente ruim, se fosse uma comédia (aliás, dei muitas risadas durante o filme, pena que não era seu objetivo arrancá-las). Para piorar, a trilha sonora é abominável, mas o que preocupa mesmo é a sensação de que a diretora deveria urgentemente procurar um psicólogo, porque ela parece ser alguém com a alma aleijada... Pelo menos o garotinho Brandon Ratcliff está OK. Já "A Lula e a Baleia", produção do Wes Anderson dirigida por seu roteirista em "...Steve Zissou", não é uma droga, mas também não passa muito de sub-Woody Allen (ou seja, sub-sub-Bergman). Deixa-se assistir sem sofrimento, mas passa muito pouca personalidade (dá a impressão de que o roteiro foi filmado com uma tremenda preguiça). O elenco está muito bem, o final é óbvio e bem fraquinho.

    ***

    Chegou até aqui? Cansou? Então vamos encerrar, por hora: revi os dois primeiros episódios de "Star Wars" (quero dizer, o I e o II, mais recentes), e não entendo muito a implicância com esta nova trilogia que "inicia" a saga. Os filmes não só "rimam" com seus antecessores, como ganham muito visualmente. A grande importância destes dois filmes foi o investimento no cinema digital (a transição do Mestre Yoda fantoche para o totalmente animado foi um grande avanço, assim como o chatíssimo Jar Jar Binks). Lucas será lembrado como pioneiro pelas próximas gerações, não tem jeito.

    P. S. OK, só mais uma coisinha. Eu esqueci no mês passado e quase ia me esquecendo de novo de comentar a imperdível mostra do Anish Kapoor no CCBB de São Paulo: ouvindo a Lucrécia Martel dar uma palestra no mês passado, ela insistiu muito na questão do som em seus filmes, concentrando muito na vibração dos tímpanos a sensação física que o cinema proporciona, e, curiosamente, deixou (pelo menos naquele dia) a imagem em segundo plano; pois as obras do Kapoor são visualmente sensacionais justamente por gerarem uma concretitude do olhar como manifestação física. O reflexo do que captamos na retina se espalha por todo o corpo, coisa que as crianças sabem experimentar muito bem, mas que quando crescemos acabamos nos dessensibilizando; ali, me senti como numa Casa Maluca de um parque de diversões, e foi impossível não lembrar do final de "A Dama de Shanghai". Quem não for ver é mulher do Bento 16!

    P. P. S. Era também para eu falar do Proust (inspiração para uma peça de teatro que comecei a escrever), mas acho que fica para outra vez...

    quinta-feira, fevereiro 22, 2007

    Acabou o nosso Carnaval, não se ouvem cantar canções, e estou com um medão deste Novo Blogoogle, para o qual mudei arrastado, mas vamos lá: este mês estou tendo o grande privilégio de trabalhar na montagem de um (o cassavetiano "De Faces e Sombras") dos dois curtas, premiados pela prefeitura de minha ex-cidade São Bernardo do Campo, escritos e dirigidos pelo meu amigo "abc-mex" Vebis, El Cabrón de la Película. Não é a primeira vez que monto obras de outrem (é minha segunda atividade preferida em relação ao cinema, após roteiro), mas é a primeira vez que pego um filme para montar no qual eu não estive no set, desempenhando também alguma função ligada à direção; achei bem interessante receber um material bruto desconhecido e, baseado exclusivamente no roteiro, dar a ele a forma de um filme, montando-o do jeito que prefiro, privilegiando os atores (sempre busco aquele take em que eles fizeram algo diferente de todos os outros) e deixando detalhes como continuidade em segundo plano. Estou curtindo bastante, é um grande alívio não ser o diretor nessas horas...

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    O primeiro plano de "Rocky" (1976) é uma figura de Cristo, mas o tema não retorna de maneira explícita no resto do filme (mas volta com força na sua primeira de cinco continuações); as questões relativas à democracia capitalista, à livre iniciativa e ao "sonho americano" na "terra da oportunidade" são citadas (mas não com tanto discurso como no novo "Rocky Balboa"), mas também não são centrais; e mesmo essa história de "underdog", do homem que vem de baixo e, contra tudo e contra todos, vence, também não chega perto de definir o projeto se comparado ao romance entre o boxeador e capanga de mafioso e a moça encalhada que trabalha na loja de animais de estimação. Tudo brilha mais quando Rocky insiste e regateia para que sua garota possa patinar num rinque fechado, mesmo sem ele se atrever a fazê-lo; ou quando, na volta para casa, ele diz a ela algo como "Somos um par perfeito: eu sou idiota, e você, tímida"; ou quando ele finalmente consegue "desnudá-la" (ou seja, tira seu chapéu e óculos) e lhe dá um beijo apaixonadíssimo no chão de casa, não importanto se ela está gripada e ele passará uma semana de cama (e a pior dor de garganta de minha vida foi quando justamente insisti em beijar furiosamente uma moça gripada, na minha adolescência); mas, com exceção de uma brilhante cena entre Sylvester Stallone e Burgess Meredith na qual o primeiro entra no banheiro para não ter de falar mais com o segundo, nada se compara ao momento em que, após a mais importante luta de sua vida, o protagonista vê (mesmo com olhos arrebentados de tanta porrada) novamente sua amada, e, naquele momento, tudo o que importa é saber onde está o seu chapéu, que caiu quando ela atravessou uma multidão ensandecida para ir a seu encontro. Porque Rocky, não importa onde nem como, só têm olhos para sua Adrian.

    Trinta anos depois, como fazer um "Rocky" sem Adrian? Já havíamos perdido Mickey e Apollo, o Doutrinador (adoro essas traduções inventivas), e Adrian já havia entrado em coma (todos momentos traumáticos na série), mas como ficar sem o seu maior estímulo? A melancolia toma conta do projeto porque o tempo se torna sua questão central: Rocky tem 60 anos, ou seja, tem mais passado do que futuro; mas não só: ele é apegado ao passado, onde foi mais feliz do que é hoje, como dono de um pequeno restaurante na mesma velha e pobre vizinhança (da qual se foram os negros e entraram os latinos), e deixa isto bem claro ao fazer, acompanhado de seu cunhado Paulie, um passeio anual pelos pontos que o marcaram, como a velha academia do Mickey, a velha casa onde beijou Adrian pela primeira vez, o lugar onde o rinque de patinação, hoje demolido, ficava; tudo o que já era pobre está deteriorado, quase arruinado; tanto os edifícios como as pessoas. O futuro estaria na próxima geração, no filho de Rocky, que caiu na engrenagem capitalista que gira sem muito sentido, e no filho da pequena Marie (interpretada agora por outra atriz), aquela garota que mandava Rocky ir se ferrar após ouvir um sermão sobre não ficar na rua com os tranqueiras para não pegar fama de "vadia"; mas estes não são (ou o filme não consegue nos fazer acreditar que eles sejam) tão animadores assim, e a impressão que fica é a de que os bons tempos não voltam mais. Mas não é que o Rocky sobe de novo aquelas escadas sob a brilhante trilha sonora de Bill Conti? Foi meu primeiro e único "Rocky" no cinema, foi impossível não me arrepiar.

    ***

    Adrian é uma heroína romântica meio que às avessas, porque não se enquadra exatamente no arquétipo do patinho feio; e, apesar de mostrar alguma força (especialmente quando abandona seu irmão pentelho e vai morar com Rocky), também não é daquelas que movem mundos e fundos por seu amor; ou seja, não é "namoradinha da América", como uma Mary Pickford ou mesmo uma Clara Bow em "It" ou mesmo em "Wings", muito menos uma sedutora espevitada como a Jean Harlow de "Hell's Angels" _para ficar em outro drama de guerra centrado nos ares que valem a pena especialmente pelas fantásticas e arriscadas cenas de batalha (se bem que, no caso do Wellman, o filme inteiro vale a pena; o de Hughes certamente teria saído melhor se a malfadada idéia de refilmá-lo com som tivesse sido descartada _ o mesmo problema se aplica a "All Quiet on the Western Front", de Lewis Milestone).

    Gloria Swanson, gigantesca nos anos 20 quando era justamente uma típica "namoradinha", mas que só entrou mesmo para a história graças a uma tacada de mestre de Billy Wilder, foi pega justamente pela perna junto com seu colega Erich von Ströheim, que juntos naufragaram em "Queen Kelly", romance que deveria ter 5 horas de duração, mas acabou sendo restaurado com 1h40min. O engraçado é que, vendo os filmes silenciosos do diretor, sempre tenho a impressão de que o som lhe faria bem, porque sempre se centrou muito nos diálogos e não tem a mesma inventividade visual de um Murnau, um Lang ou um Hitchcock (de quem em breve verei "Chantagem e Confissão", para conferir justamente como ele fez esta fundamental transição)... Já Lubitsch não parece ter se afetado muito: seu "The Love Parade" (também de 1929, como o filme de Swanson/Ströheim _ambos também lidam com um romance que se passa na nobreza européia, com uma rainha na parada) já cai com tudo no musical, se aproveitando do famoso cantor Maurice Chavelier, com gags inspiradíssimas e inspiradoras, como o coro dos cachorros e a dança circense dos serviçais. Quem soube se adaptar aos novos tempos se deu melhor _até porque nem todos eram Chaplin.

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    "Flags of Our Fathers" e "Letters from Iwo Jima" são muito diferentes (embora se complementem em parte), inclusive no modo de lidar com o tempo; no primeiro, o futuro de seus protagonistas é encenado, porque Clint acompanhou mais de perto a biografia dos seus compatriotas (e faz questão de nos mostrar, ao final, as fotos dos verdadeiros homens que inspiraram aquela história, resumida em uma imagem forte que não existe em seu filme-irmão _até porque a História costuma ser contada do ponto de vista dos vencedores); no segundo, que explora território estrangeiro, o eixo se inverte, e ficamos preponderantemente com os flashbacks _o que é compreensível, já que a maioria daqueles homens não terão futuro e, se o tiverem, não serão como heróis; porque não apenas foram derrotados, mas ousaram sobreviver.

    A reconstituição de época dos filmes de Eastwood traz o capricho habitual da produção de Spielberg, já calejado com "Saving Private Ryan" e "Band of Brothers"; mas quem me impressionou nesses últimos dias foi John Ford (a quem "Flags of Our Fathers" tem sido apontado como espécie de tributo), lá em 1924, com "The Iron Horse", uma de suas muitas obras-primas e o primeiro de seus silenciosos que vejo. Para retratar a construção da ferrovia transcontinental que impulsionou a conquista do Oeste norte-americano, Ford usa as locomotivas originais que inauguraram o encontro das duas pontas da ferrovia, numa cena que carrega uma metáfora poderosíssima (o encontro dos trilhos é também o encontro das vidas). Multifacetado, característica do diretor, o filme também funciona maravilhosamente bem como comédia, filme de ação, romance, épico; e tudo é muito, mas muito afetuoso.

    "Apocalypto", por mais que imbuído do espírito religioso e familiar que fazem parte do universo de Mel Gibson (e justamente nestes momentos o filme perde muita força, especialmente porque sublinhado por uma péssima trilha sonora), acaba se tornando divertido o suficiente por investir na ação, até que bastante convencional; não traz nenhuma, mas nenhuma surpresa mesmo (o final é incrivelmente previsível), mas que tem pleno sucesso ao gerar tensão e nos deixar na beira da cadeira. Mas o injustamente esquecido "Arsenal" (1928), de Aleksandr Dovzhenko, vai por um caminho diverso, investindo numa sucessão emocionante (com uma montagem extremamente poética) de imagens belíssimas, num conjunto que não é comprometido pela mensagem ideológica. Obra-prima monumental.

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    Citei o Alfred (Hitchcock, claro) lá em cima, mas faltou falar de duas revisões: a primeira é de "Saboteur" (1942), filme bem idiossincrático do diretor, que mais uma vez explora o tema do "homem errado", com planos muito característicos, como closes em revólveres que saem da escuridão, além de desfecho dramático em um monumento conhecidíssimo e muito senso de humor. Mas o que há de especial aqui, nesta produção realizada em tempos de guerra, é a afirmação da ética (que vem justamente dos excluídos, como deficientes físicos, "freaks" de circo e subempregados _os vilões são justamente pessoas "de família", distintos membros da sociedade, todos brilhantemente caracterizados e interpretados), admiravelmente colocada acima da própria lei! Aqui temos também uma seqüência que é um primor de tensão, justamente porque os heróis estão, ao mesmo tempo, presos e em relativa liberdade (mas a prisão não se limita às paredes, mas às barreiras entre cada pessoa), em um baile de luxo.

    O outro é "The Trouble with Harry" (1955), que da primeira vez, visto na TV, com janela errada, cores esmaecidas e dublagem, não me agradou; agora, numa boa edição em DVD, me deparo com um roteiro inteligentíssimo (os diálogos são hilários, embora o humor seja sutil e fino, que mais arranca sorrisos de cumplicidade do que gargalhadas), com uma fotografia deslumbrante (talvez a mais bonita dentre todos os filmes do diretor) a cargo de Robert Burks (enquadramento, composição, cores, cada plano é uma pintura) e com uma trilha incrivelmente eficiente de Bernard Herrmann (em sua primeira colaboração com Hitch). John Forsythe lembra muito Bogart, e Shirley MacLaine, em sua estréia nos cinema aos 20 aninhos, está adorável. Muito da graça do filme reside justamente no fato de que a morte, aqui, não está tão ligada ao medo, que é um dos ponto-chave de "Peeping Tom", que forma uma linha bem interessante com "Janela Indiscreta", "Blow-Up", "Blow Out" etc.

    E para matar o assunto, terminei de ver "Six Feet Under", seriado de Alan Ball (roteirista de "Beleza Americana") que elevou muito o padrão da dramaturgia televisiva nos EUA (graças, em parte, à disposição da HBO em liberar nudez, sexo, palavrões e imagens violentas, ou seja, não poupar seu espectador dos fatos da vida). Este show é uma celebração da vida, o que fica mais claro ao chegar a seu final, evitando aquela ilusão programada para crianças (e adultos bobocas viciados em Prozac) de "...e viveram todos felizes para sempre", para dizer e mostrar o que todo mundo está careca de saber, mas nem sempre aceita: todo mundo morre. Ainda chegamos lá!

    Na platéia