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    sexta-feira, julho 06, 2007

    Sempre fui muito crítico comigo mesmo _é uma maldição. Mas tentar analisar algo que você fez é especialmente complicado não apenas pela proximidade (que impede uma visão mais ampla e isenta) e pelo envolvimento emocional com a obra, mas porque é difícil vê-la somente pelo que ela é; "o que ela poderia ter sido" (algo que poucos _ou ninguém_ podem saber) se torna muito importante, incontornável. Acho conveniente desconfiar da opinião dos artistas sobre suas próprias obras.

    Dias atrás, no Cinesesc, ocorreu a segunda exibição pública do "Das Faces e Sombras" (numa versão ainda não-definitiva), um dos dois (e o primeiro a ser realizado) projetos do Vebis premiados em São Bernardo. Minha participação se resumiu à montagem _recebi o material bruto sem ter lido uma sinopse ou pisado nos sets, totalmente às cegas. Tanto neste quanto no "Nas Duas Almas" (o outro vídeo), o processo foi o mesmo: o diretor me passou o roteiro e as decupagens das fitas, com indicações dos trechos que ele preferia (quanto a estas últimas, confesso que não me guiei exclusivamente por elas). Não havia claquete nem numeração de planos (totalmente diferente do meu modo de trabalhar, minuciosa e virginianamente organizado _não lembro se já comentei aqui, mas a diferença de tempo entre a minutagem do roteiro de "A Volta do Regresso" e o primeiro corte do filme foi de apenas 5 segundos, o que inclusive me surpreendeu); eu tinha de assistir às fitas de olho no roteiro (no qual cenas foram descartadas e outras não existiam), literalmente montando aquele filme na minha cabeça, tentando dar um sentido àquelas imagens e sons. Como o roteiro não foi muito seguido nos dois filmes (o improviso em ambos foi gigantesco, tanto do elenco como do diretor, que fez o que pôde com a dificuldade inerente à profissão), achei o processo bastante caótico e imprevisível _o que dificulta ainda mais minha reflexão a respeito desta experiência.

    A luz no fim do túnel foi providenciada pelos atores. Neste vídeo em questão, considero especialmente importante a participação da Ana Paula Grande, que interpreta a Madalena (personagem concebida para ser a vilã do filme, cujo machismo e misoginia, inegáveis, inicialmente me assustaram _muito diferente do "Nas Duas Almas", muito mais sensível e emocionado, embora contenha a violência física ausente no outro), seguida do Marcelo Nascimento, que interpreta Maurício. Tentei, ao mesmo tempo, selecionar os melhores momentos de todos os atores e costurar a cena dentro de uma estrutura dramática; por causa disto, alguns cortes (especialmente os feitos em meio a planos muito parecidos, que o Vebis chama de "godardianos" e que também funcionam como tentativa de resumir a ação, descartando trechos irrelevantes) me deixam especialmente incomodado, mas creio que o "mal menor" foi escolhido.

    Também sigo com a impressão de que algumas cenas estão mais longas do que deveriam, e senti que o curta/média de 21 minutos cansou parte do público. E também me incomodam um pouco partes da finalização de imagem (cores e brilhos estranhos _mas não sei se concordo com a sugestão de Carlos Reichenbach: adotar um preto-e-branco a la Jarmusch) e de som (sinto que muito se perdeu com a dublagem, perceptível, de algumas cenas). Mas é claro que o balanço é positivo, pela experiência e, claro, pela remuneração (acho feio quem acha bonito trabalhar de graça, com exceção óbvia do voluntariado); agradeço ao Vebis por ter me honrado com o convite, a confiança e a amizade (e gostaria muito que ele viabilizasse seu "Warriors" do ABC).

    Um parênteses irritante: para quem foi ao Cinesesc e ouviu o discurso introdutório do Vebis (e também para quem não esteve lá, já que a confusão parece ser mais comum do que eu pensava), preciso fazer uma correção: meu curta-metragem "A Volta do Regresso" (que o nosso amigo fã de "Star Wars" chamou de "O Retorno do Regresso" _fico muito feliz quando riem do título, minha reação foi a mesma quando li o nome da música num encarte de CD) NÃO É nem nunca foi uma "homenagem à pornochanchada" (embora eu goste do gênero), como foi dito na sessão. Creio que a confusão se estabelece por que parte significativa do elenco (Carlo Mossy, Ênio Gonçalves e Kate Hansen) atuou em pornochanchadas (mas não apenas nelas), mas trata-se de um filme contemporâneo (se é que se pode chamar assim algo escrito em 2003, início do governo Lula).

    ***

    Outra experiência que merece registro: vi, pela primeira vez (e também em exibição pública), um documentário para o qual dei entrevista (perdi as contas de quantas dei nos últimos 10 anos, mas foi a primeira para um filme); já sabia que não ia gostar (de mim na tela, não do filme), mas fiquei chocado por não me reconhecer. Há mais de um ano e meio, dei 1h30min de entrevista, e os obviamente poucos minutos que entraram geraram um retrato distorcido: algumas críticas que fiz aparecem desacompanhadas do outro lado (eu ataquei certas coisas justamente porque estava defendendo outras), o que deu a impressão de que eu estava simplesmente sendo maledicente; na época, talvez a depressão causada pelos rumos que a pré-produção de "A Volta do Regresso" estava tomando tenha colaborado para aumentar a falsa impressão; e, para piorar, fui filmado em contra-plongée... Observou-se também que, por eu ter sido o primeiro entrevistado do filme e, principalmente, ter sido o único que foi filmado em sua casa, estes fatores teriam colaborado para tais distorções (não sei a respeito disto, mas é possível). Este comentário não tem nada a ver com o propósito do filme, mas com meu choque ao ver um desconhecido com meu rosto e minha voz passando uma imagem bastante errônea a meu respeito _algo que terei de digerir; não sei o que vou pensar quando rever o filme.

    ***

    A confecção do ranking do primeiro semestre de 2007 para a "Liga dos Blogues Cinematográficos", composto dos 10 melhores e dos 5 piores, revelou um quadro deprimente por um lado e positivo por outro: não vi sequer 15 lançamentos cinematográficos neste ano (além de não ter conseguido preencher a lista, alguns dos filmes citados foram vistos no ano passado ou em DVD _ou seja, as idas para o cinema estão escassas). Se por um lado obviamente é chato não acompanhar os lançamentos nos cinemas, por outro o meu nível de exigência aumentou a ponto de eu não mais ir a uma sala por mero impulso (lembrando que me recuso a ir às cabines sem obrigação profissional, levo a sério este tipo de coisa). Creio que meu tempo está sendo melhor empregado.

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    En passant, vamos lá: o enredo incrivelmente boboca de "Lonesome" (que o diretor húngaro Pál Fejös filmou em Coney Island, em 1928, assinando como Paul Fejos) dava para um curta de 10 min., e não os seus 63 min.; mas a construção imagética (abusando das fusões) é tão fantástica que o filme acaba sendo ótimo. Chama a atenção também a obsessão pelos parques de diversões (que aparecem em vários outros filmes do período). Inventividade com a câmera (deve ter sido sensacional vê-lo no cinema, à época) também é a marca de "La Glace À Trois Faces" (1927), do Jean Epstein, imediatamente anterior a seu mais conhecido "A Queda da Casa de Usher". Desafiador para quem ainda não está muito acostumado com peripécias com o tempo da narrativa (também é interessante, neste sentido, "La Signora de Tutti", que Öphuls filmou na Itália em 1934: há flashbacks dentro de flashbacks...). A beleza das imagens, aliada a seu registro documental altamente poético, também é o destaque em "Entuziazm: Simfoniya Donbassa" (1931), de Vertov (a cena em que a igreja é destruída é uma pérola), mas o filme derrapa ao não romper muito os limites com a propaganda política.

    Sternberg parece ter agarrado o espírito dos filmes sonoros de cara: seu "Thunderbolt" (1929), estrelado por George Bancroft e Fay Wray (de "King Kong") é impressionante pela qualidade da interpretação dos atores face à recente presença dos microfones. Não sei se posso dizer o mesmo de Victor Fleming; seu "Bombshell" (1933), estrelado por Jean Harlow, traz uma falação infernal, irritante, dando a esta comédia de uma piada só (ótima, ao final) um clima histérico, estridente e um tanto vulgar (talvez "mérito" de sua protagonista, à época com 22 aninhos). Quanto a Ozu, que tem "Filho Único" (1936 _foi só neste ano que a Shochiku instalou seu sistema de gravação de som) como seu primeiro filme com som sincronizado, a novidade aparentemente não causa grandes alterações em sua obra, que continua sendo universal, agridoce e devastadora.

    ***

    Já falei e repeti que prefiro as comédias não-musicais do Lubitsch e que não vou mesmo com a cara do Chevalier (feio, mau cantor, sem muita graça); tanto em "One Hour with You" (aqui tendo George Cukor como assistente) quanto "The Merry Widow" (bastante diferente e muito pior do que o filme que Ströheim, baseado na mesma opereta, fez 9 anos antes) me parecem filmes menores, nos quais obviamente há bons momentos. Muito da graça vem da safadeza (se tivesse nudez, seria uma pornochanchada) característica do diretor. Surpresa mesmo é "Broken Lullaby" (1932), o único melodrama dele que vi: adaptação teatral também conhecida por "The Man I Killed" e estrelada por Lionel Barrymore, está na categoria de filmes pacifistas, na linha do "All Quiet on the Western Front"; um tanto exagerado, mas muito bonito (especialmente no final, que justifica o título). É interessante ver o berlinense Lubitsch abordando as terríveis feridas da Primeira Guerra _e, de certa forma, prevendo um novo conflito, antes mesmo da chegada de Hitler ao poder.

    Voltando aos musicais: dizem que "Show Boat" (1936) era o filme de que James Whale mais se orgulhava, apesar de ser mais conhecido pelas fitas de terror. Mas, com exceção da seqüência de "Ol' Man River", não vi nada muito memorável (certamente bem envelhecido; há pelo menos outras duas adaptações deste espetáculo da Broadway, ainda não as vi). E, mesmo após ter visto "The Gay Divorcee" (1934), considerados por muitos o melhor filme (é o segundo) estrelado por Fred Astaire e Ginger Rogers, com números clássicos como "Night and Day" e "The Continental", sigo com a máxima: troco todos os filmes que o Astaire fez por "Cantando na Chuva" ou "Duas Garotas Românticas"; Gene Kelly é simplesmente insuperável.

    Fechando este capítulo: "Rock'n'Roll High School" (1979), filme de Allan Arkush (que há mais de 20 anos se dedica à TV _atualmente é diretor da série "Heroes") com argumento de Joe Dante e produção de Roger Corman, foi uma surpresa muito agradável (porque eu, fã dos Ramones desde criança _ninguém me tira a alegria de tê-los visto ao vivo quando adolescente e de tê-los entrevistado_, sempre achei que fosse um mero trash). Ao final, a ocupação que os estudantes realizam na escola, deixando a diretora e a polícia negociando a retirada do lado de fora, parece até reportagem sobre a reitoria da USP... O filme também me lembrou da rádio que fundei no meu colégio (chamava-se "Cérbero"), aos 15 anos, e a inaugurei justamente com Ramones: lembro claramente da mesma cena, os alunos dançando rock no pátio... Claro que não sinto saudades.

    ***

    Caiu na minha mão (empréstimo de uma amiga, repórter de "O Globo") a caixa com 5 dos 6 filmes da série "A Pantera Cor-de-Rosa" (difícil entender o critério da seleção, já que a picaretagem lançada dois anos após a morte de Sellers, surpreendente apenas por trazer nudez feminina, está lá). Há uma grande distância entre os filmes dos anos 60 e dos 70: primeiramente, Clouseau era bem mais contido (inclusive no sotaque e nos disfarces). Dentre todos, meus preferidos são "A Shot in the Dark" (o único que não traz nenhuma referência à Pantera _o personagem animado, não o diamante do filme original) e "The Pink Panther Strikes Again" (sátira a James Bond que se segura mesmo tendo 20 minutos cortados); em ambos, ouso dizer que Herbert Lom, como Dreyfus, rouba todas as cenas em que aparece, ofuscando inclusive Sellers. A trilha de Mancini faz muita diferença. Alguns episódios da série de animação de Friz Freleng lembram dos anos 80, quando o SBT os exibia como tapa-buraco na programação, enquanto a novela das 20h da Globo não acabava, mas também lembram que gênio da animação é mesmo o Tex Avery _isn't it?

    Falando em gênio, só poderia ter saído coisa boa quando Sam Peckinpah e Steve McQueen resolveram brincar de Raoul Walsh e Humphrey Bogart e fazer o seu "High Sierra", batizado como "The Getaway" (1972). O filme surpreende não apenas pela doçura do diretor (quem presta atenção somente na violência está perdendo muita coisa _inclusive a presença maciça de crianças), mas por, especialmente no início, abusar dos flashbacks e flash-forwards _a seqüência inicial, na prisão, é simplesmente brilhante. A trilha sonora do Quincy Jones (o roteiro é do Walter Hill, Lucien Ballard e Roger Spottiswoode também estão na jogada etc.) é ótma.

    Chegando à atualidade, dois filmes razoáveis e duas tranqueiras: "A Day without a Mexican" é uma porcaria sem tamanho: raso, malfeito (aquela câmera na mão de um portador de Parkinson), ingênuo de dar dó e de um mau gosto terrível. "Stranger than Fiction" é outra mancha no currículo do Marc Forster; o roteirista simplesmente não se aprofunda em nenhum personagem, e tudo é muito explicadinho, verbalizadinho, mal filmado (e foto e direção de arte são feias) e com efeitos visuais bobocas. A melhor coisa, de longe, é a participação praticamente não-aproveitada da comediante Kristin Chenoweth, como Darlene Sunshine, apresentadora de um programa de literatura que nunca lê os livros dos escritores que entrevista (só dá para ver nos extras do DVD).

    Do outro lado, "A Scanner Darkly" não figura entre os melhores do Linklater: é uma comédia de humor negro que funciona melhor justamente quando é uma comédia de humor negro... O elenco está soberbo (as cenas que reúnem Keanu Reeves, Robert Downey Jr. e Woody Harrelson são fáceis as melhores), mas realmente não entendo muito o motivo da rotoscopia. Outra pequena decepção foi "Conceição: Autor Bom É Autor Morto", filme coletivo de alunos da UFF cujo trailer era extremamente animador. Entretando, o resultado não surpreende: pedaços de argumentos e idéias para filmes são unidos e misturados, quebrando as convenções do real e da ficção (é sensato agradecerem a meu querido Pirandello). O filme é hilário em seus melhores momentos e tem mulher pelada, mas não me entusiasmou a ponto de uma revisão... Antes da sessão passou um curta também da UFF, "Jonas e a Baleia": apesar de não ser hermético ou não-narrativo, é gélido, arranca de si mesmo toda emoção e acaba chateando; me fez lembrar daquela famosa entrevista do "Cahiers..." em que Orson Welles desanca o Antonioni... Mas a fotografia é muito bonita (sem sacanagem).

    ***

    Eu tinha dois pés atrás em relação a "Plantão Médico" (não gosto de hospitais e achei que o tema daria vazão a um novelão), mas, estimulado por "House" (da qual gostei menos, em comparação com esta _apesar de ter lido todo o Sherlock Holmes do Conan Doyle quando garoto), conferi as três primeiras temporadas (dentre as quais a primeira se sobressai). O piloto é impressionante a ponto de Spielberg, após tê-lo visto, ter se arrependido de não tornar em um longa a idéia do Crichton: a vida das personagens fica em segundo plano (eventualmente, no decorrer da série, é preciso um equilíbrio _até porque a repetição não demora a surgir) para termos um retrato aparentemente bastante acurado da profissão (nos EUA, claro). Neste caso, achei que algo se perde ao ser vista em DVD, sem os intervalos de tempo naturais da grade americana: a proximidade entre os episódios deixa mais claras as estratégias para dar longevidade à série (que existe até hoje, sem os protagonistas originais), como a aparição e sumiço (que, com o tempo, também se torna repetitivo) de personagens (com vários atores que se tornariam mais famosos depois, como Lucy Liu e Kirsten Dunst _tem até o Ewan McGregor num episódio atípico). A trilha sonora é ótima, e há um personagem extremamente forte e rico, o dr. Peter Benton do Eriq La Salle (mas sou suspeito para falar, achei-o bem parecido comigo).

    P.S. Já ia me esquecendo: parece que está rolando em tudo quanto é blog uma corrente em que alguém faz uma lista de 5 livros e indica 5 pessoas para publicar as suas listas; fui indicado para fazer a minha por Marcelo Carrard e Alê Marucci. Farei, em parte, jus à minha fama (?) de quebrador de correntes não passando a bola para ninguém; mas, apesar de detestar elaborar listas de qualquer tipo (inclusive de supermercado), não vou deixar os amigos sem resposta. Segue a pequena lista de 5 títulos, escolhida de uma perspectiva puramente emotiva (ou seja, envolve mais impacto do que qualquer outra coisa) e em ordem cronológica de leitura, deixando de fora autores que admiro imensamente:

    A Bíblia Sagrada
    Reinações de Narizinho
    Crime e Castigo
    Na Colônia Penal (e outras obras de Kafka)
    Em Busca do Tempo Perdido

    P. P. S. Falando em listas, confiram as de filmes brasileiros no site da revista Paisà e a de filmes "made in USA" no blog de Filipe Furtado.

    sexta-feira, março 23, 2007

    Queria muito ver "Marie Antoinette" (mesmo que agora um monte de gente esteja falando bem, depois que o filme só levou paulada), mas o desgraçado não estreou perto de casa, o calor ainda está alto e a preguiça e outros compromissos venceram; vocês gostaram?

    Teria sido bom ver aquele contexto retratado por uma estrangeira contemporânea, após ter visto outros filmes históricos da França neste último mês, como o "Orphans of the Storm" (1921), do Griffith (que explicita em letreiros sua posição política, soltando os cachorros na então recente Revolução Russa, e traz algumas cenas impressionantes, como uma orgia dos aristocratas e os festejos do povo com a queda da monarquia; também há um clássico exercício de suspense baseado na montagem paralela, que ainda funciona), e o "Napoleón" (1927), do Abel Gance (quatro horas que passam voando, apesar de o ritmo cair quando chegamos ao romance com Joséphine. Vários momentos lembram certas experiências russas do período, como a metáfora da águia e a montagem rápida, feita pelo próprio Gance, que vai além e impressiona ao usar três câmeras para compor quadros grandiosos, criando o formato retangular _dizem também que ele chegou a filmar em cores e em 3-D, mas não teria usado estes trechos para não distrair demais o público. Talvez o maior filme da França? Há quem diga que é "Les Enfants du Paradis", outros vão de "Acossado"...). Agora, revolucionário mesmo é "Zéro de Conduite", do Jean Vigo, repleto deste espírito ao mostrar a reação de alguns garotos bagunceiros às autoridades escolares com o apoio de efeitos como câmera lenta, animação, stop-motion etc., homenageando Chaplin e inspirando Truffaut.

    Ainda na França, conferi duas parcerias entre Jean Renoir e o sempre genial Michel Simon, notável e inesquecível em suas caracterizações: "A Cadela" (1931) e "Boudu Salvo das Águas" (1932). O primeiro é uma lúcida obra-prima, introduzida pela clássica cena com os fantoches, que abre o caminho para a história, a mais antiga do mundo, narrada com brilhantismo raro (se o equipamento fosse mais ágil, que movimentos ainda mais ousados Renoir não teria realizado?); o segundo tem um belo final e alguns ótimos momentos, mas quem segura as pontas é mesmo Simon (também produtor; o grande Jacques Becker é assistente de direção e faz uma ponta). Completando o passeio pela terra de Astérix, "Jeux Interdits", de 1952 (um neorealista de René Clement, concentrado num microcosmo: fantasias infantis num ambiente rural), e o recente e bem-sucedido documentário "Ser e Ter", superficial, lento e que às vezes passa a impressão de ser covarde.

    ***

    Andei visitando outros diretores, europeus em sua maioria (e a eles voltarei mais vezes). Um deles é o meu amigo Ernst Lubitsch, que apareceu no texto passado e volta com "Monte Carlo", de 1930 (mais um musical altamente escapista, mas não tão bom quanto "The Love Parade", do ano anterior), e duas obras-primas (nas quais felizmente abandona os musicais), "Ladrão de Alcova", de 1932, e "Sócios no Amor", de 1933, na qual o diretor exibe sua marca registrada: encadeamento perfeito de cenas curtas, sutis e que respeitam a inteligência do espectador (o que costuma ser raridade), sem privá-lo das gargalhadas.

    Outro mestre da época é o Rouben Mamoulian, em dois projetos excelentes e bem distintos. Um deles é o "Love Me Tonight" (1932), no qual ele rouba de Lubitsch a dupla Maurice Chevalier e Jeanette MacDonald e investe na comédia romântica musical; como Renoir em "A Cadela", passa por cima do enredo mais do que batido (nobre se apaixona por plebeu) e cria momentos clássicos, como a seqüência inicial, na qual Paris acorda com o som dos trabalhadores. Decupagem e montagem são irrepreensíveis, e as piadas não perderam o viço (gargalhei várias vezes). O grande problema mesmo é Chevalier, que não tem 10% do carisma de um Gene Kelly e não tem muita química com MacDonald _que não faz feio, mas que neste filme tem a cena roubada pela coadjuvante Myrna Loy, muito mais bonita e divertida. O outro, do ano anterior, é "Dr. Jekyll and Mr. Hyde", a melhor adaptação de "O Médico e o Monstro" que já vi. Mamoo mais uma vez nos dá um filme impressionante e tecnicamente perfeito (o que o faz parecer bem à frente de seu tempo). As seqüências subjetivas geraram filhos famosos (impossível não lembrar do início do "Halloween", do Carpenter, e do trecho imediatamente pós-transformação de "O Professor Aloprado", do Lewis), as transformações de Jekyll em Hyde e vice-versa são de cair o queixo (as feitas com filtros parecem mágica), e Fredric March está perfeito em ambas as caracterizações; já Miriam Hopkins (que, aos 60 anos, trabalharia com Russ Meyer, que não era bobo) está absolutamente deliciosa e dá ao filme uma carga gigantesca, quase inacreditável, de erotismo (uma tragédia que sua cena de nudez tenha sido cortada).

    ***

    Quem também bateu ponto por aqui foi King Vidor, com "Hallelujah!" (1929), seu primeiro sonoro; traz aqueles probleminhas típicos da época, como interpretações bem acima do tom e má sincronia de som (que não foi captado diretamente, mas dublado após a filmagem), mas nada que o comprometa. Até porque é surpreendente: o que parece ser uma espécie de musical (quem dera a trilha sonora fosse lançada) retratando os agricultores de algodão (o elenco é 100% negro, o que acarreta alguns estereótipos também típicos da época, quando o racismo era mais tolerado, mas nada que chegue a ser escandaloso) vai ganhando ares de drama, depois parece que, fazendo jus ao título, se tornará um filme religioso (embora carregado de erotismo, apesar de não trazer cenas de sexo ou nudez), para virar uma tragédia e comentário moral, até fechar o ciclo. Em "The Champ" (obviamente fantasticotilhões de vezes melhor do que a xaroposa refilmagem do Zeffirelli _o Vebis cunhou muito adequadamente o termo "zefirelismo" em seu texto sobre "Rocky Balboa"), de 1931, os pontos fortes são o carisma de Jackie Cooper (o Perry White da série "Superman") e Wallace Beery, mas é a câmera (enquadramentos e movimentação) que rouba o show.

    Outro amigão da vizinhança é Yasujiro Ozu, que vem quietinho (ele só faria seu primeiro filme sonoro em 1936) com três obras: a primeira, "A Esposa da Noite" (1930), impressiona por parecer, a princípio, um filme de gângster, no melhor estilo "The Public Enemy"; mas não demora a se tornar um melodrama familiar, mais característico do diretor. Quatro atores (com destaque absoluto para Emiko Yagumo, que infelizmente teve carreira curta no cinema, menos de dez anos) em um cenário divinamente explorado por Ozu, mestre em decupagem e mise-en-scène. Os travellings são sempre perfeitos. Aproveitei para rever (e gostar ainda mais) de "Meninos de Tóquio" (título ruim; a tradução literal seria algo como "Eu Nasci, Mas..."), que já seria um grande filme se fosse apenas uma obra sobre a infância; ao tornar-se um drama familiar envolvendo os pais, segue atemporal e universal, mas amplia seu escopo _ poderia ser cruel, mas Ozu-san também era conciliador. Também vi "Dekigokoro" (não há título em português, seria algo como "ilusão passageira"), de 1933, que também investe no drama familiar causado pelo conflito de gerações (e de ambições entre pais e filhos), mas chega às beiras do dramalhão, o que eu nunca tinha visto nos filmes do diretor.

    ***

    E não posso me esquecer de Fritz Lang, que compareceu com "M", de 1931 (no qual ele e Peter Lorre estão perfeitos, talvez em seus auges _Hitchcock, aprendiz de Lang, dizia que seu filme preferido era "A Morte Cansada", mas não há muita dúvida de que este também exerceu seu impacto sobre o britânico... de quem vi "Blackmail", seu primeiro sonoro, muito interessante especialmente pelas experiências técnicas de imagem e som, embora a atuação germânica de Anny Ondra também seja inesquecível), e "Das Testament des Dr. Mabuse", de 1933 (brilhante em vários momentos, mas um tanto arrastado em outros; melhora quando explora Rudolf Klein-Rogge, que interpreta a personagem-título, mas o cerne do filme é exatamente este, como a influência do mal (e em Mabuse cola-se perfeitamente o rótulo de "terrorista", na acepção mais abrangente do termo) pode contaminar... E não era o que estava acontecendo na Alemanha, com a ascensão dos nazistas ao poder?

    E já que falamos em nazistas, vamos dar uma olhada em "Salon Kitty", estrelado por Helmut Berger e Ingrid Thulin em 1976, na qual Tinto Brass confronta Eros e Tânatos, mostrando o sexo militarizado, usado como arma de guerra. Diferentemente de certos filmes rotulados de "nazixploitation" (como o horroroso "Ilsa, She-Wolf of the SS"), Brass não pretendeu fazer um mero filme erótico disfarçado de denúncia de atrocidades; vai bem mais fundo no horror não só daquele período, mas da psiquê humana, sem medo de mostrar imagens fortes. E pode-se não gostar do diretor, mas é inegável que ele tem estilo.

    Voltando de novo no tempo, faltou falar de Josef von Sternberg, que me mostrou dois de seus filmes com Dietrich: "Marrocos", de 1930, e "Desonrada", de 1931. O primeiro encena um triângulo amoroso no continente africano, mais de dez anos antes de "Casablanca" _muito menos tenso, até porque a personagem de Adolphe Menjou é um tremendo de um corno-manso, deixando barato a Marlene (mais uma vez fazendo um papel recorrente em sua carreira, a de cantora de cabaré _com direito a beijo lésbico) para Gary Cooper (fazendo o papel de legionário francês anos antes de "Beau Geste"), que nunca mais teria aceitadou um convite do Sternberg. O segundo é muito melhor, uma história de espionagem (no mesmo ano em que Garbo encarnava Mata Hari no filme homônimo) ambientada na Áustria da Primeira Guerra Mundial, onde Dietrich, mais linda do que nunca, interpreta a espiã X-27 e toca piano, muito piano... Tecnicamente, é perfeito: fotografia (que se aproveita bastante de efeitos como fusões) e mise-en-scène são deslumbrantes (a cena no Carnaval é linda), nem parece que é do início do período sonoro. Meu Sternberg preferido até o momento. E falando em fusões, poucos as usaram tão bem quanto Victor Sjöström em "Vento e Areia"...

    ***

    Mas vamos parar um pouco com este domínio dos diretores e falar um pouco de um ator: ninguém menos que Boris Karloff. Mais conhecido como Frank, o homem com nome de vodca era considerado extremamente charmoso por todos, mas nas telas acabou marcado ou por monstrengos sem falas (além do mais famoso, temos também o mordomo mocorongo de "A Casa Sinistra", outro de James Whale) ou por personagens até que interessantes, mas um tanto unidimensionais, como o vilão de "O Gato Preto", do Ulmer (o primeiro dos vários filmes no qual Karloff encontra Lugosi), o gângster de "Scarface", do Hawks, ou o fanático religioso de "The Lost Patrol", do Ford. E aí fica a dúvida: foi um bom ator mal-aproveitado ou um mau ator muitíssimo bem-aproveitado? Minha tendência é balançar em direção à segunda alternativa.

    ***

    Mas vamos falar de um assunto leve e agradável, como matança: por um lado, a barra pesa em "Você Também Pode Dar um Presunto Legal", média feito entre 1970 e 1973 (mas exibido somente a partir do ano passado) pelo documentarista Sérgio Muniz sobre o surgimento e a ascensão do Esquadrão da Morte e da tortura encampada pelo Sérgio Fleury; obviamente ele não tratou de entrevistar nenhuma autoridade (iria para o pau-de-arara rapidinho), mas filmou publicações jornalísticas e publicitárias da época (estas são o cúmulo do espírito de porco brazuca, fazendo gracinhas com a violência para vender aparelhos de TV e água sanitária), montagem de duas peças de teatro e outros atores (entre eles Abrahão Farc, Renato Consorte _ambos convidados para atuar em "A Volta do Regresso", mas o papel acabou ficando para o Ênio Gonçalves_, Othon Bastos e Gianfrancesco Guarnieri) interpretando figuras da época. A trilha é ótima (embora óbvia), bem irônica.

    Tortura e sangue também vemos em "King of Kings", belíssima adaptação do Novo Testamento dirigida por Nicholas Ray, mesmo que prejudicada pelas piores características das superproduções "históricas" (não que a exatidão da reconstituição seja uma necessidade) do período, como o excesso de assepsia e de artificialidade. Há cenas lindas (como o sermão da montanha e Jesus curando um cego), a narração (escrita por Ray Bradbury e lida por Orson Welles _foi a primeira vez que vi este filme, antigo campeão da "Sessão da Tarde" na época das Páscoas da minha infância, com som original e janela correta) funciona, e a trilha sonora de Miklós Rózsa é ótima (embora também restrita às convenções do gênero). Mas, apesar de todos os recursos (como a estonteante fotografia em 70mm) e talentos empregados, fica a anos-luz de distância do filme de Pasolini, feito meses depois.

    Temos também a primeira temporada da série "Dexter", exibida nos EUA no ano passado (aqui, sabe-se lá quando): adaptação literária (não muito fiel, segundo li por aí) ambientada em Miami (o que a deixa bem menos dark do que poderia ser _há sol de montão, praia e muita música caribenha, o que confere bastante humor a tudo) que, apesar da premissa um tanto diferente (um legista da polícia na verdade é um serial killer que mata apenas outros assassinos que escaparam da lei), a série começa como mais um mero show policial; mas melhora bastante ao se aprofundar no passado de seu protagonista (há algumas grandes surpresas, e a maior delas fica bem para o finalzinho), interpretado pelo ótimo Michael C. Hall (o papa-defunto gay de "Six Feer Under"), acompanhado de Jennifer Carpenter (mais conhecida como Emily Rose, aquela do exorcismo). Destaque para a abertura, na qual as atividades mais corriqueiras do dia-a-dia, como fazer a barba, passar fio-dental, vestir-se e fazer o café-da-manhã tornam-se carregadas de morbidez (mesmo assim, a série poderia ter um clima bem mais pesado, de pesadelo).

    E como citei pesadelo, vamos aproveitar para meter o pau numa porcaria safada que tive o desprazer de ver neste mês, o tal "Me and You and Everyone We Know", da Miranda July. É pior do que uma bobagem pretensiosa, porque sequer consegue chegar neste nível: adequadamente classificado como "lixo indie", este filme parece não ter a menor vergonha de atingir cúmulos de ridículo (como a cena com o peixinho dourado), o que não seria necessariamente ruim, se fosse uma comédia (aliás, dei muitas risadas durante o filme, pena que não era seu objetivo arrancá-las). Para piorar, a trilha sonora é abominável, mas o que preocupa mesmo é a sensação de que a diretora deveria urgentemente procurar um psicólogo, porque ela parece ser alguém com a alma aleijada... Pelo menos o garotinho Brandon Ratcliff está OK. Já "A Lula e a Baleia", produção do Wes Anderson dirigida por seu roteirista em "...Steve Zissou", não é uma droga, mas também não passa muito de sub-Woody Allen (ou seja, sub-sub-Bergman). Deixa-se assistir sem sofrimento, mas passa muito pouca personalidade (dá a impressão de que o roteiro foi filmado com uma tremenda preguiça). O elenco está muito bem, o final é óbvio e bem fraquinho.

    ***

    Chegou até aqui? Cansou? Então vamos encerrar, por hora: revi os dois primeiros episódios de "Star Wars" (quero dizer, o I e o II, mais recentes), e não entendo muito a implicância com esta nova trilogia que "inicia" a saga. Os filmes não só "rimam" com seus antecessores, como ganham muito visualmente. A grande importância destes dois filmes foi o investimento no cinema digital (a transição do Mestre Yoda fantoche para o totalmente animado foi um grande avanço, assim como o chatíssimo Jar Jar Binks). Lucas será lembrado como pioneiro pelas próximas gerações, não tem jeito.

    P. S. OK, só mais uma coisinha. Eu esqueci no mês passado e quase ia me esquecendo de novo de comentar a imperdível mostra do Anish Kapoor no CCBB de São Paulo: ouvindo a Lucrécia Martel dar uma palestra no mês passado, ela insistiu muito na questão do som em seus filmes, concentrando muito na vibração dos tímpanos a sensação física que o cinema proporciona, e, curiosamente, deixou (pelo menos naquele dia) a imagem em segundo plano; pois as obras do Kapoor são visualmente sensacionais justamente por gerarem uma concretitude do olhar como manifestação física. O reflexo do que captamos na retina se espalha por todo o corpo, coisa que as crianças sabem experimentar muito bem, mas que quando crescemos acabamos nos dessensibilizando; ali, me senti como numa Casa Maluca de um parque de diversões, e foi impossível não lembrar do final de "A Dama de Shanghai". Quem não for ver é mulher do Bento 16!

    P. P. S. Era também para eu falar do Proust (inspiração para uma peça de teatro que comecei a escrever), mas acho que fica para outra vez...

    Na platéia