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    sábado, abril 05, 2008

    Tanta coisa a fazer e tão pouco tempo (e o Buster Keaton chamava os anos 1920 de "época da ganância e da velocidade"...), que eu até me esqueci de dizer, no post passado, que "A Volta do Regresso" ia fazer (e agora já fez) a sua estréia internacional em Los Angeles. O desafio agora é conseguir fazer alguma bobagem a tempo para o aniversário do blog, que é em alguns dias. Mas, para fazer bobagem, sempre se dá um jeito.

    ***

    Dando uma olhada por cima nos filmes que vi nas últimas semanas, a imensa maioria concentrada no início dos anos 1950, a figura que se destaca é ninguém menos que Marilyn Monroe. Por mais rodeada de preconceitos que seja, é inegável a presença marcante desta mulher em uma porção de filmes excelentes. As começar por duas comédias de Howard Hawks: "Monkey Business" e "Gentlemen Prefer Blondes". No primeiro, ela apenas faz o que se espera dela _mas com uma eficiência tremenda; é também interessante como não se faz mais comédias como esta, mas o filme não perdeu a graça com as décadas. No segundo, estréia do diretor no nusical (embora ele nem tenha dirigido o número mais famoso, "Diamonds Are a Girl's Best Friend"), ela segue no estereótipo da loira burra, mas com muito mais ironia: está brilhante, com "magnetismo animal" e tudo. E Jane Russell, longe de ser tão bonita, está ótima _mas, curiosamente, o momento em que ela brilha mais é justamente quando imita Marilyn.

    Marilyn, entoando belas canções, também é o principal motivo para assistir a "River of No Return", filme bastante simples de Otto Preminger (que ele fez como obrigação, sem muito interesse, experimentando a novidade CinemaScope _embora o diretor tenha dito que preferia o Panavision), com um final extremamente previsível _até porque dificilmente poderia ser de outra forma; é um belo roteiro, que me faz perguntar se "Marcas da Violência" não se inspirou nele de alguma forma. Bem mais discreta, séria e muito menos glamourosa ou estereotipada é como ela surge em "Clash by Night", peça de Clifford Odets que Fritz Lang adapta _mas o romance não parece ser o território do alemão de monóculo (King Vidor também não está em seus melhores dias retratando um triângulo amoroso em "RubyGentry"). De Lang, o destaque mesmo foi o policial "The Big Heat", filmaço que já começa com um homem dando um tiro na fuça e termina com um muito antecipado pega-pra-capar entre Glenn Ford e Lee Marvin! E ainda temos Gloria Grahame num papel inesquecível, além de participações pequenas mas marcantes de Jocelyn Brando (a bela irmã mais velha do Marlon, em um de seus primeiros papéis), Dorothy Green (em seu filme de estréia) e Alexander Scourby. E também voltei a "Rancho Notorious", western amargo que evita qualquer tipo de final feliz (afinal, é uma história de "ódio, assassinato e vingança", como insiste em dizer a canção que narra o filme _e nos conta o final, sem mostrá-lo) e traz um elenco fantástico (um Jack Elam bem jovem, um Mel Ferrer em início de carreira, George Reeves _que ficaria imortalizado com o Super-Homem_ esbanjando carisma e Arthur Kennedy, de "The Lusty Men", como protagonista). Mas é claro que as atenções são atraídas sempre para Marlene Dietrich _que tem em comum com a Marilyn este magnetismo raro: sempre que está em quadro, fica impossível olhar para outra coisa.

    Aliás, os westerns também estão em grande fase, nesta época. Uma das boas surpresas que tive foi "Silver Lode", de Allan Dwan: curto, seco, ritmado e criativo, com um protagonista enrascado, um vilão desprezível (cortesia de Dan Duryea), uma ótima coadjuvante feminina (Dolores Moran, em seu último filme), uma bela trilha sonora e uma câmera esperta, além de boas cenas de ação. E fica mais interessante ainda quando se faz um paralelo deste filme com o mccarthismo, que corria à solta na época _não por acaso, o nome do vilão neste filme é McCarty. Muito menos convencional, mas também excelente, é "Track of the Cat", produção de John Wayne em que William A. Wellman adapta mais um romance de Walter Van Tilburg Clark (o mesmo autor de "The Ox-Bow Incident"), mostrando um belo domínio do CinemaScope. A princípio parece que o filme será uma espécie de "Moby Dick", mas logo se torna algo muito mais impressionante: um drama familiar muitíssimo bem construído, com destaque para a atuação de Beulah Bondi.

    Anthony Mann, em "The Naked Spur", nos traz um filme sustentado num grande elenco de quatro atores e uma atriz: Robert Ryan rouba o show como o vilão, e Millard Mitchell, em seu penúltimo filme, também está excepcional. É um curto filme de ação sem muitas pausas, o que não quer dizer que o drama não esteja bem desenhado. Mas o filme se engrandece mesmo no final cheio de moral. Mais antiquado, mas também excelente, é John Ford em "The Sun Shines Bright", no qual ele retorna ao Juiz Priest (agora com Charles Winninger no papel que foi de Will Rogers no filme de 1934, do qual gostei menos), entrelaçando três contos de Irvin S. Cobb; novamente a mistura de humor, sentimentalismo e patriotismo, mas sem babaquice. Em "The Stranger Wore a Gun", Andre de Toth novamente vai de Randolph Scott e de 3-D (e dá-lhe personagens atirando coisas em nossa direção); o roteiro é meio confuso, e a ação também não é das melhores, mas o elenco é bom: além de Lee Marvin e Ernest Borgnine, ambos em início de carreira, temos um ótimo Alfonso Bedoya como caricatura de mexicano.

    E que decepção foi o tão falado "Shane" (que aqui recebeu o estúpido título "Os Brutos Também Amam")! Só consegui me entusiasmar nos últimos dez minutos _mas me parece que este filme sempre foi carregado pelo seu ótimo final (embora a cena da morte de Elisha Cook Jr. também não seja de se jogar fora). A princípio Alan Ladd parece limpinho demais para o papel, mas ao final fica difícil imaginar Montgomery Clift em seu lugar, como era o plano original. A participação de Jack Palance é pequena, mas marcante; Jean Arthur, em seu último filme, não está bem, mas aparenta bem menos que os seus mais de 50 anos, à época; o garoto, Brandon de Wilde, entrou para a história com este papel _ele morreria num acidente de carro aos 30 anos. E na contramão da tragicidade do gênero, FrankTashlin nos traz Bob Hope e Jane Russell numa muito boa mistura de comédia e erotismo em "Son of Paleface", seqüência de "O Valente Treme-Treme" _é também um dos últimos filmes do megacaubói Roy Rogers e de seu cavalo Trigger (que tem página no Imdb, com quase 90 filmes no currículo). As canções também são boas.

    Falando em canções, o musical também está com tudo. A Metro nos deu um bom musical inspirado em "A Megera Domada" em "Kiss Me Kate", dirigido por George Sidney e estrelado por um elenco fabuloso: Kathryn Grayson, Howard Keel e, em especial, Ann Miller (Bob Fosse faz um papel pequeno). O problema é o desequilíbrio entre as cenas musicais, fantásticas (e o fato de as canções serem de Cole Porter _que, curiosamente, é interpretado por um ator no filme_ não é um detalhe), e o resto, bem fraco. Novamente, percebe-se que foi feito em 3-D, porque os atores passam o tempo todo jogando coisas em direção à câmera. Muito melhor, embora com canções menos marcantes, é "The Band Wagon", filme bastante irônico e inteligente de Vincente Minnelli: com um fiapo de roteiro, ele dá um jeito de fazer o que realmente interessa, os números musicais; é difícil destacar um, mas o dos trigêmeos é simples e sensacional (outro momento forte é o passeio pelo parque, no qual Astaire e Cyd Charisse apenas dançam, sem diálogos _e que João Moreira Salles destaca em "Santiago"). O elenco está excelente, com destaque para a Nanette Fabray, um poço de carisma. E a cena da primeira aparição de Charisse, dançando balé, é dessas belezas que merecem ser eternizadas em filme. Aqui no Brasil, foi chamado, sei lá o porquê, de "A Roda da Fortuna" (título mais adequado para o "Rancho Notorius").

    Na seara do drama (embora este primeiro também seja um musical), o grande destaque foi "A Star Is Born", remake do filme de William A. Wellman de 1937: é o primeiro filme colorido de George Cukor (também sua primeira experiência com o musical), cujas três horas passam voando; os trechos restaurados com stills de cenas que se perderam nem parecem um remendo. A produção toda é de um capricho exemplar, as cenas musicais são excelentes (embora eu não seja um grande fã da Judy Garland como cantora). O enredo, ótimo, caminha sem sobressaltos e é irrepreensivelmente apresentado, mas James Mason está longe de seus melhores dias; vários atores recusaram o papel, inicialmente oferecido a Bogart, que aparece no muito inferior "The Barefoot Contessa". Neste, não consigo gostar das numerosas e longas cenas com narração e sem som direto, ainda mais prejudicadas por uns travellings irritantes; o filme melhora quando o drama domina, e ainda mais quando há montagem: de longe, a melhor cena está bem no início, quando não vemos a Maria Vargas de Ava Gardner dançando. Bogart fica estranho em cores, e Valentina Cortese não está tão bonita quanto em "Thieves' Highway". Dizem que a protagonista foi inspirada em Rita Hayworth (convidada para o papel), mas é engraçado como a história da estrela de cinema que se torna parte da nobreza européia acabou sendo desempenhada na vida real por Grace Kelly. Voltando a Cukor, "The Marrying Kind" é um belo e impressionante filme: a princípio é muito estranho, com longos flashbacks sem som (a não ser a narração _mas aqui funciona, diferentemente do filme de Joseph L. Mankiewicz), mas não demora a agarrar a atenção, seja pelo crescente aumento da seriedade do filme como pela mise-en-scène fantástica (a seqüência do sonho do protagonista é antológica). Aldo Ray (em seu primeiro papel de destaque) e Judy Holliday (outra atriz que trabalhou pouco e morreu cedo) estão excelentes. As crianças, Christopher Olsen (que interpretaria o filho do casal protagonista em "O Homem Que Sabia Demais") e Susan Hallaran, também estão ótimas.

    Partindo para produções menores em tamanho, mas não necessariamente em qualidade: "The Narrow Margin" é um eficientíssimo "suspense de trem", de baixíssimo orçamento e feito em menos de duas semanas por Richard Fleischer; belo noir, que dá de dez a zero em "The Tall Target", do Anthony Mann. Charles McGraw não deixa de ser caricato como o tira durão (não que isto seja exatamente ruim), e Marie Windsor rouba o filme, bancando a mulher-de-malandro-chave-de-cadeia. Outra pérola esquecida é "Park Row", no qual Samuel Fuller, nos papéis de produtor, diretor e roteirista, aborda um tema que ele conhecia bem e que me diz bastante respeito, o jornalismo. O filme é bastante ingênuo em vários momentos, e os eventos se conectam de uma maneira bem pouco naturalista, mas isto pouco importa: é obviamente um projeto apaixonado, com uma câmera ágil e selvagem _Fuller filmava cenas de violência física como poucos. O destaque é Mary Welch, no primeiro de seus poucos filmes _casada com David White (o Larry, de "A Feiticeira"), morreu jovem, por complicações no parto.

    Também direto ao ponto é onde vai Ida Lupino, que dirige e escreve "The Hitch-Hiker", um thriller simples: um assassino em fuga pede carona a dois pescadores e os seqüestra, obrigando-os a ajudá-lo a fugir, sempre sob a ameaça da morte. Curto e baratíssimo, mas não chega aos pés de outras produções B, como algumas dirigidas por Jacques Tourneur ou Joseph H. Lewis. Um pouco melhor é "99 River Street", noir de Phil Karlson estrelado por John Payne no típico papel de durão _mas, em vez de uma história de detetive, sua personagem é um boxeador (as cenas de luta no princípio parecem ter influenciado Scorsese em "Raging Bull") derrotado que dirige um táxi e tem de se acertar com sua mulher (que também não é exatamente uma mulher fatal).

    Em "Anatahan", seu penúltimo filme (que ele escreve, produz, dirige e ainda faz a narração), Sternberg vai ao Japão, adaptando um livro que contava a história real de um grupo de marinheiros que, no final da Segunda Guerra, naufraga em uma ilha, onde encontram apenas um casal _obviamente, a disputa pela mulher e a degeneração da civilização em violência são caminhos óbvios. A narração (que traduz para o inglês as falas dos atores japoneses) dá um clima de documentário a esta produção pouco luxuosa, ainda mais porque Sternberg não assume arbitrariamente um ponto de vista, mas tenta ser fiel aos fatos conhecidos e deixa bem claro quando os fatos não são claros _é bastante curioso. Curioso também é "House of Wax", sucesso gigantesco que acabou transformando o refinado galã Vincent Price em uma estrela de horror: divertidíssimo e com uma premissa excelente, peca pelo roteiro fraco. Charles Bronson (ainda usando o sobrenome Buchinsky), em começo de carreira, interpreta um surdo-mudo.

    Indo de vez para o Japão, parada quase obrigatória, vamos ao segundo filme que eu vejo do prolífico Teinosuke Kinugasa, diretor de mais de 100 filmes. Eu achei que "Jigokumon" (o título em inglês é "Gate of Hell", se não me engano) seria um épico de guerra, mas é um melodrama sobre um samurai que se apaixona por uma mulher casada. Chamam a atenção o colorido do filme, a música e a beleza exótica de Machiko Kyô, que também magnetiza a tela em "Ugetsu Monogatari", de Mizoguchi, chamado por aqui de "Contos da Lua Vaga": é de se destacar a crueza com que a crueldade bestial em tempos de guerra (apenas oito anos após a humilhante derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial) é mostrada: presenciamos assassinatos, roubos, estupros e todo tipo de selvageria, permeada pela ganância, luxúria e covardia. Mas não é meu preferido do diretor. E voltamos a mais um drama familiar de Yasujiro Ozu: "Tôkyô Monogatari" volta a abordar o conflito de gerações, a passagem do tempo, a morte, com o elenco que já conhecemos: Chishu Ryu, Setsuko Hara, Kuniko Miyake etc. Achei que seria a obra-prima dele, mas ainda fico com "Meninos de Tóquio", aparentemente imbatível. Alguém filma interiores melhor do que Ozu?

    ***

    Para encerrar, duas temporadas de séries vistas no período: a segunda de "Dexter" é imensamente inferior à primeira, que é excelente (mal deu para notar que uma das crianças é interpretada por um ator diferente). Vamos ver o que a próxima temporada nos aguarda, porque houve muitas mudanças, embora um gancho bem mal-ajambrado tenha sido colocado. Mas é impressionante mesmo como caiu a qualidade dos roteiros. E a primeira temporada de "Damages", mais um thriller no estilo "nada-é-o-que-parece" do que um drama de advocacia estrelado por uma sempre boa Glenn Close (com Ted Danson como vilão), termina pior do que começa _como a vida, por sinal. Valeu, já volto.

    terça-feira, outubro 09, 2007

    Conteúdo: "Comédia é, em essência, uma arte raivosa e anti-social." A frase do Robert McKee (interpretado pelo Brian Cox em "Adaptação") me parece um tanto generalizante e radical, mas não incorreta. Parece se encaixar especialmente a "A Volta do Regresso", um filme quase que totalmente calcado na ironia _talvez a ponto de soar terrivelmente desagradável a alguns (estou louco de curiosidade para ver as reações de mais gente, especialmente as negativas; até o momento, parece que quem desgosta mais do filme sou eu, mas sei que isto vai mudar).

    Forma: "PERGUNTA - Você rodou o filme com câmera digital, em lugar de película. Até que ponto isso foi libertador para você?

    LYNCH - A palavra 'livre', se você a escrevesse com L maiúsculo, a fizesse tão alta quanto o Empire State Building e a sublinhasse muito _foi tão libertador assim. É tão belo, e de tantas maneiras diferentes. Depois dessa experiência, eu nunca mais poderei voltar a filmar em película."

    Talvez a película ainda seja, no momento (mas não por muito tempo), o melhor suporte para a exibição de filmes; mas para captação de imagens, não creio _ou seja, fecho com o David Lynch (não me lembro de onde peguei a entrevista, normalmente dou o link, sorry), apesar de ainda não ter visto seu "Inland Empire", que vai passar na Mostra e estrear logo depois. Ter feito "A Volta do Regresso" em 16mm deixou o projeto muito engessado e caro: deixei de fazer mais takes, negando pedidos do elenco, por falta de grana para comprar mais latas, e, também por contingências financeiras, não pude fazer uma truca sequer _os créditos tiveram que ser em cartela, e não sobre imagem, como eu queria (e este é apenas um dos exemplos). Não penso mais em filmar em película, e mesmo o transfer eu espero que esteja com seus dias contados.

    ***

    Estava esperando ver "Tropa de Elite" para atualizar este site. Vi o filme ontem, na promoção de aniversário de 14 anos do Espaço Unibanco (lembro de quando o lugar era Espaço Banco Nacional de Cinema, antes de o mesmo quebrar), justamente em projeção digital; durante o filme em si, não dá para perceber muita diferença na qualidade de imagem _a parte mais estressante foi durante as propagandas.

    Mas vamos ao filme, que deu o que falar por motivos exteriores ao mesmo: ele só virou esta sensação por causa da pirataria (nunca saberemos do impacto da mesma sobre a bilheteria, mas parece que o resultado não será dos piores _provavelmente porque os públicos são mesmo diferentes: talvez a pirataria só alcance a quem não tem acesso ao cinema por questões de localidade e alto preço) e por causa do debate em torno da segurança pública (que o próprio diretor encampa) e da violência _bobagens, bobagens (leiam o grande texto de Carlos Reichenbach chamado "Apontamentos para uma Polêmica Anunciada" aqui). Não é prerrogativa de um diretor de cinema debater o assunto, mas sim a de fazer bons filmes; também é ridículo alguém reclamar do filme porque ele simula atos de tortura e violência com resultados fatais: cinema também é Eros e Thanatos, kiss-kiss-bang-bang, seria desonesto e covarde um filme deste gênero não mostrar alguns litros de tinta vermelha (por sinal, o filme é pudico, nada de putaria saudável nos bailes funk nem na boate de strip).

    O bafafá todo (que inclui piadas com o Capitão Nascimento, como bonequinho que fala "senta o dedo nessa porra!" e frases atribuídas anteriormente ao Chuck Norris _coisa parecida aconteceu com o Zé Pequeno do infinitamente superior "Cidade de Deus") me deixou na expectativa de ver um filmaço, talvez outro marco histórico em nosso cinema recente; infelizmente, "Tropa de Elite" sequer se classifica como um bom filme policial (gênero no qual temos uma bela tradição, os filmes precisam apenas ser recuperados _alguém dizer que este é "o melhor filme nacional que já vi" é atestado do descaso com nossa cinematografia). É prejudicado especialmente pela debilidade das situações dramáticas e pela falta de complexidade de conflitos das personagens; o final, péssimo e pífio, sublinha que nenhuma delas chegou aos limites que poderia ter chegado; o roteiro não tem fôlego, foi pouco ambicioso _prejudicam também as "cabecices" como citação de psicólogo e aulinha sobre Foucault, além de um excesso de didatismo "para inglês ver".

    Mas o famoso e fenomenal Capitão Nascimento é um caso à parte: chamado a torto e a direito de "herói" (até o Luciano Huck clamou por ele quando teve seu Rolex levado por uma dupla de assaltantes numa moto), me pareceu mais um fracote, louco para deixar de subir o morro e ficar trocando fralda de nenê, que só vira "macho" mesmo na hora de rodar a bainana e gritar "quem manda aqui sou eu" com a espoca recém-mamãe em seu apê de classe média. Sei que a comparação é covardia, mas na hora lembrei das personagens de James Cagney em "White Heat", de Charles Bronson em "Machine Gun Kelly" e de Warren Oates em "Bring Me the Head of Alfredo García", que eram "bad motherfuckers", mas tinham seus tocantes momentos de fragilidade; em "Tropa de Elite", o máximo que o Capitão Nascimento de Wagner Moura (que não está mal, a culpa é do roteiro) faz é dar uma travadinha durante uma escalada com a esposa, todo playboyzudo. Em suma: dada a qualidade do material de origem e dos nomes envolvidos no projeto, eu estava esperando bem mais. Mas, para não dizer que só falei dos espinhos, o filme passa rápido e tem senso de humor.

    ***

    Vamos continuar falando de filmes policiais? Na minha quase terminada "peregrinação" (como diz religiosamente o Ailton) pelos anos 40, o gênero aparece bastante, com variações. Um deles, "The Naked City", deu origem a uma série televisiva muito famosa; o diferencial é que a estrela é a cidade de Nova York: a narração da introdução já avisa que, diferentemente do padrão, o filme foi todo feito em locações _e funciona muito bem como documento da vida na metrópole (por outro lado, nenhuma personagem é explorada mais profundamente, embora o típico irlandês Barry Fitzgerald se destaque). Há muitas cenas sem som direto e com narração, o que causa certa estranheza. A seqüência final, o epílogo do filme, é excelente, mostrando o que unia aquele punhado de pessoas que acompanhamos durante 95 minutos, numa cidade de 8 milhões de habitantes. Do mesmo diretor, Jules Dassin (americano, apesar do nome e de ter ficado mais famoso após ir para a Europa, onde trabalhou principalmente na França e na Grécia), com roteiro de Richard Brooks, "Brute Force" é um filme de cadeia (de certa forma precursor do muito superior "Le Trou", do grande Jacques Becker) estrelado por Burt Lancaster e um marcante Hume Cronyn como o policial sádico, com uma estrutura bem interessante, mas hoje bastante envelhecido. A música de Miklós Rózsa é excelente, mas não muito bem usada. Também meio envelhecido (lembrando que um filme não é necessariamente velho porque foi feito há 60 anos) é "Kiss of Death", escrito por Ben Hecht e Charles Lederer e dirigido por Henry Hathaway, cujo destaque é a estréia de Richard Widmark num papel inesquecível, o do psicopata Tommy Udo, que comete um dos assassinatos mais horrorosos e revoltantes que já vi no cinema (retratado com uma sutileza arrebatadora _aqui, substantivo e adjetivo combinam). Uma pena que uma cena de estupro e outra de suicído foram cortadas pela censura.

    No capítulo dedicado a "amores em meio a rajadas de balas", que inspirariam filmes como "Bonnie and Clyde" e "Boxcar Bertha", temos "The Big Steal", de Don Siegel, marcando o reencontro de Robert Mitchum e Jane Greer. O roteiro é um fiapo (justamente o que impede que o filme alcance o nível de um "Out of the Past"); o destaque mesmo está na ação, brilhante e empolgantemente conduzida pelo diretor e encenada pelo elenco. De resto, o título engana _não se trata de um "filme de assalto", mas de perseguição. "Deadly Is the Female", também conhecido como "Gun Crazy", é dirigido por um diretor de quem gosto especialmente, Joseph H. Lewis, mas deixou um pouco a desejar; já tinha visto alguns trechos muito famosos (como o assalto ao banco sem que a câmera saia do carro _o início também é sensacional), o que colaborou com a pequena decepção. E ainda temos "They Live By Night", a estréia de Nicholas Ray como diretor, com um romance bem mais doce do que o do filme do Lewis; não é nenhum "In a Lonely Place", mas também é muito bonito; Cathy O'Donnell está excelente (curioso: a dupla de assassinos de "Festim Diabólico" estrela estes dois filmes: Farley Granger neste e John Dall no de Lewis).

    E já que falamos no Hitch, dois de seus filmes traíram minhas expectativas: por causa do tema (os relativos à moral e à fé me são caros, pela magnitude do conflito), eu achava que "I Confess" seria um grande filme, ainda mais por ser estrelado por Montgomery Clift; não é desprovido de interesse, e talvez o diretor tenha exagerado quando disse que "não deveria ter sido feito" a Truffaut, mas é um filme pouco marcante. De "Stage Fright" eu gostei muito, contrariando o diretor (que via como um de seus problemas a fraqueza dos vilões); a recém-falecida Jane Wyman está ótima (embora o diretor tenha reclamado bastante dela _mas Hitch vivia reclamando de seus elencos), mas é claro que Dietrich (a quem também vi em "The Devil Is a Woman", do Sternberg _mas eu prefiro "Desonrada", que também traz cenas em bailes de Carnaval) rouba todas as cenas em que aparece. E vi um filme de Robert Siodmak que poderia ter sido dirigido por Hitchcock: "Phantom Lady", um filme "Z", baratíssimo, sem atores conhecidos (só reconheci Aurora Miranda e Elisha Cook Jr., excelente como um baterista de jazz mulherengo), deu numa obra-prima, com uma premissa apaixonante. Valeu também por me apresentar a Ella Raines, linda e excelente; infelizmente, sua carreira não decolou. De quebra, revi "Monsieur Verdoux", que pode parecer atípico por vários motivos, mas que me soa bastante coerente com a obra sonora de Chaplin _Welles reclamava que só ganhou o crédito pela idéia (não fica claro se ele escreveu um tratamento do roteiro ou não) após o filme ter sido um fracasso de bilheteria e crítica.

    ***

    Ainda nos anos 40, passei por outra grande comédia de Lubitsch, "To Be or Not To Be": feito no ápice da Segunda Guerra, o diretor (berlinense, que já havia encarado as conseqüências da Primeira Guerra no melodrama "Broken Lullaby", de 1932) ridiculariza Hitler e o nazismo (dois anos depois de Chaplin), numa história que se desenrola em Varsóvia; é impressionante como ele consegue arrancar risadas de uma situação tão tensa _mas, à primeira vista, me pareceu um de seus filmes com menor carga erótica, apesar de Carole Lombard (morta num acidente de avião antes de o filme ser lançado _ou seja, foi o seu último) estar muito bonita (Jack Benny é o responsável por grande parte da comicidade). Do outro lado, ouvi o título do filme ser dito por Olivier em "Hamlet", seu segundo filme como diretor (o primeiro não-americano a ganhar o Oscar de melhor filme). Compreensivelmente, fica refém do texto (embora seja uma versão reduzida, de "apenas" 2h30, e com mudanças sutis para deixá-lo mais moderninho), embora a mise-en-scène (com a câmera em constante movimento e cortes disfarçados, criando uma bela fluidez temporal _bastante condizente com o texto de Shakespeare, aliás; não é à toa que, em "A Volta do Regresso", um dos poucos planos com movimento de câmera ocorre justamente quando Carlo Mossy encarna um híbrido de Rei Lear, Rei Momo e Scarlett O'Hara) contenha muita coisa interessante. Gosto muito da música e da Jean Simmons, adolescente, como Ofélia.

    Outra comédia interessante é "Adam's Rib", de George Cukor: mezzo comédia romântica mezzo drama de tribunal, baseia-se na idéia da igualdade entre os sexos (chamá-lo de feminista me parece inexato), tema que não envelheceu nem um pouco, embora a sociedade tenha mudado bastante nestas últimas décadas. O casal protagonista, Spencer Tracy e Katherine Hepburn, é fabuloso (especialmente nos improvisos cômicos do filme caseiro dentro do filme); o texto é esperto e há uma canção de Cole Porter como cereja do bolo. E há um plano impressionante, longuíssimo, com câmera fixa, totalmente segurado pelo diálogo e por Hepburn e Judy Holliday (que veio do teatro, fez pouco cinema e morreu jovem, de câncer de mama). Cole Porter, em companhia do diretor Vincente Minnelli e do co-coreógrafo e "leading man" Gene Kelly, não está em seus melhores dias em "The Pirate", romance musical ambientado no Caribe. As atenções vão todas para Judy Garland _mesmo ótima, não impediu que o filme tenha sido um fracasso de bilheteria. A montagem é bem estranha, e os cenários têm aquela cara de estúdio... E em "Diário de uma Camareira" de 1964, Burgess Meredith (o Pingüim da série do Batman e o treinador Mickey dos três primeiros "Rocky" _Cesar Romero, o Coringa, está no filme de Sternberg com Dietrich que comentei acima) produz, assina o roteiro e atua sob a direção de Jean Renoir, que adapta uma peça francesa que deu num dos meus filmes preferidos de Luís Buñuel, quase 20 a nos depois. Estrelada por uma Paulette Godard loira (bem diferente do que nos filmes de Chaplin), o filme do francês trabalhando nos EUA é muito mais leve e convencional do que o do espanhol na França.

    No período, também dei atenção a três trabalhos dos fabulosos arqueiros Michael Powell e Emeric Pressburger: "The Red Shoes"cai na revisão, mas ainda emociona ao final e impressiona com a seqüência do balé (quase 20 minutos que demoraram 6 semanas para serem produzidos); a paixão pela arte é sempre um tema que fala comigo. "I Know Where I'm Going!" é o primeiro filme delwa totalmente em preto-e-branco que vejo _curiosamente, dizem que o diretor de fotografia fez o filme inteiro (em estúdio, onde o protagonista de Roger Livesey, substituindo James Mason, filmou o tempo todo, mesmo com grande parte do filme se passando em locações na Escócia) sem usar um fotômetro. A história é tremendamente previsível; o diferencial mesmo é o senso de humor e de liberdade que são característicos de alguns filmes da dupla ("The Red Shoes" parece exceção); há inventividade e criatividade de sobra, como distribuição de vários elementos teoricamente inconciliáveis num mesmo plano, derrubando o naturalismo. E em "The Life and Death of Colonel Blimp", a escocesa Deborah Kerr, em começo de carreira, interpreta três personagens diferentes num épico em cores com quase três horas de duração; mas a estrela é, novamente, Roger Livesey (grande ator, mas que aparentemente só pegava os papéis porque a primeira opção _neste caso, Laurence Olivier_ não podia ou não queria fazê-los), em impressionantes caracterizações (acompanhamos seu personagem por mais de 40 anos). É um filme de esforço de guerra _mas que irritou Churchill, porque a personagem de Anton Wallbrook é um militar alemão simpático; o político teria impedido Olivier de estrelá-lo e tentado banir o filme_, mas ele transcende este aspecto (como fazem outros clássicos do período, como "Os 47 Ronin"). E assim como em "I Know Where I'm Going!", a dupla de cockers spaniels de Powell faz uma ponta... E já que o assunto é guerra, vale encaixar "Sands of Iwo Jima", que eu estava enrolando para ver desde o início do ano, quando os filmes de Clint Eastwood foram lançados; feito no calor dos acontecimentos pelo veterano Allan Dwan (diretor de quase 400 filmes) e estrelado por John Wayne, com a participação do sobrevivente trio de soldados que hasteou a famosa bandeira (que também aparece no filme, emprestada pelo exército _lembra Ford usando as locomotivas reais e histórias em "The Iron Horse"), é obviamente uma patriotada bastante romantizada _inclusive com direito a parzinho romântico (não na guerra, é claro); perde muito por justamente não investir em cenas de combate.

    E, como já é praxe, não poderia deixar de lado os dramas familiares de meu amigo Yasujiro Ozu: fui resgatar "Conto das Folhas Flutuantes", de 1934 (mudo, portanto), que aborda a paternidade, o orgulho e a premente necessidade de ganhar a vida numa sociedade com papéis sociais extremamente definidos _por exemplo, ser ator não é considerado uma atividade "digna". Os enquadramentos são magistrais, mas achei um filme meio frio, comparado a outros do diretor. Já num filme de 1948 que não tem título em português (a tradução seria algo como "Uma Fêmea de Ave ao Vento"), o diferencial (negativo, creio) é a menor sutileza no clímax (que contém a cena mais violenta que vi em seus filmes); curiosamente, o conflito, ditado pela moral, pela política e pela economia (mais uma vez, o diretor fala do universal por meio do particular, praticamente sem ação em externas), é exposto de maneira imensamente sutil. Bom, mas aquém do seu melhor.

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    Misturando a linha do tempo: de 1921, vi "A Carroça Fantasma", de Sjöstrom, um conto moral e sobrenatural (bem à moda da época) que lembra bastante o clássico de Dickens sobre o velho Scrooge, que inspirou o Tio Patinhas. Engraçado que uma das mais famosas cenas da carreira do Kubrick, Nicholson arrebentando uma porta a machadadas para chegar à mulher e ao filho, foi praticamente copiada deste filme, como uma óbvia homenagem. Pulando para os anos 60, outra adaptação literária (que Kubrick filmaria 6 anos depois), mas quase irreconhecível: em "Vinyl", Andy Warhol adapta "Laranja Mecânica" quase que em um plano só, em enquadramentos bem esdrúxulos; o enredo é resumido a quase nada; a trilha sonora é ótima, mas o filme dá um sono...

    Anos 70: curioso que uma sessão do Videobrasil, festival de "arte eletrônica", seja composta justamente de três filmes feitos e projetados (muito mal, com som e foco sofríveis, no superestimado Cinesesc) em 16mm... O primeiro, "Water Wrackets" (1975), é uma picaretagem da grossa: imagens de rios e lagos sob uma narração sobre eventos num futuro distante. O segundo, "Dear Phone" (1977), é o melhor, por ter, pelo menos, senso de humor. O terceiro, "A Walk Through H: The Reincarnation of an Ornithologist (1978)", segue caminho parecido, mas mostra 92 pinturas de Greenaway ("mapas") e imagens de pássaros. Completando a sessão, antes vi, no Sesc Paulista, uma exposição com 92 malas de seu personagem Tulse Luper _esta fixação de Greenaway com o 92 é por ele se tratar do número atômico do urânio, compreensível que o diretor tenha tal preocupação devido à sua geração. Acho que não dou muita sorte com Greenaway, não vi seus filmes mais elogiados...

    Menos chato foi conferir "Macumba Sexual", um dos 13 (!!!) filmes que Jesus Franco (assinando como Jess Franco) fez em 1983. É um interessante exercício de mistura de sonho e realidade, com apenas um fiapo de história: Franco prefere criar climas com a trilha sonora, as paisagens do deserto (e algumas construções arquitetônicas bem interessantes e exóticas) e com os corpos nus do elenco _com Lina Romay (também assistente de direção, sob pseudônimo, e mulher do diretor) à frente (e de costas e de tudo quanto é lado). Há um plano fabuloso: vemos na areia dois objetos que parecem lápides; de repente, uma mão gigantesca invade a tela e as pega (na verdade, eram pequenas estatuetas!).

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    De volta a este estranho ano de 2007: "Cartola: Música para os Olhos" é um bom documentário (de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda _este último esteve na sessão para debate e foi muito simpático) não apenas sobre o querido sambista, mas sobre o século XX. Vasto e rico material de arquivo garante sim informações mais do que suficientes para a biografia _a forma não briga com o conteúdo, diferentemente do que muita gente disse. E a primeira metade de "The Simpsons Movie", de David Silverman, é excelente; a segunda cai bastante, mas não deixa de ser boa. Os Simpsons ainda não envelheceram totalmente, mas não causam o frisson de antes justamente porque eles mudaram muita coisa e abriram espaço para as séries animadas politicamente incorretas, como "Beavis and Butt-Head", "South Park" e "Family Guy", entre outras. Mas não deixa de ser admirável a série estar no ar há quase 20 anos.

    Deste ano também é a série "The Tudors", que acabou de estrear aqui na TV a cabo: o que impressiona mais não é a razoável riqueza da reconstituição de época (historicamente, com certeza há muitos furos, mas estão lá Henrique VIII, Thomas Morus, Catarina de Aragão, Ana Bolena e outras figuras manjadas), mas o alto nível de erotismo (muito, mas muito sexo mesmo, para os padrões televisivos _e "Roma", que estou vendo no momento, é ainda mais ousada). Um episódio em especial, o da peste, me deu mais sustos do que todos os filmes de terror que vi nos últimos dez anos; era impressionante, um atrás do outro, mal dava para recuperar o fôlego e acalmar os batimentos cardíacos. Já a outra série vista neste ínterim, "Taken" (aparentemente produzida por Steven Spielberg como aquecimento para "Guerra dos Mundos" _Dakota Fanning está lá), sobre três gerações de três famílias (é meio confuso, mesmo) envolvidas com extraterrestres. É bem a cara do Spielba _bem, do pior dele: musiquinha vagabunda criando um climinha, câmeras rodando à toa em torno das personagens, textos boboquinhas na voz de uma criança, um chororô da mulherada... Fica mais divertido a partir do segundo episódio, mas a conclusão é meio broxante.

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    É claro que estou esquecendo muita coisa, mas pelo menos quero registrar aqui os meus parabéns pelo primeiro aniversário da Zingu!, que traz uma entrevista com o inigualável Sady Baby (também recomendo o belíssimo texto de Andrea Ormond, embora a edição toda mereça ser lida), e de recomendar o disco "Carnival Nights", do Black Barn Music, projeto do talentoso André ZP. Outra coisa: fantástico o debate ocorrido na Cinética a respeito de um curta-metragem brasileiro e recente; seria maravilhoso se iniciativas como esta (um grupo de críticos debatendo com um cineasta) se repetissem com mais freqüência. Eu adoraria que "A Volta do Regresso" ou qualquer outro meu passasse pelo mesmo escrutínio.

    quarta-feira, maio 23, 2007

    Após quase três meses sem freqüentar o circuito comercial, dois filmes "de monstro" me fizeram voltar às salas de shopping. Um deles é o terceiro filme do Sam Raimi com o cabeça-de-teia _que, como esperado, é melhor do que o primeiro e pior do que o segundo.

    De cara, a grande qualidade é o aumento do senso de humor: como se não bastasse uma cena hilária entre J. Jonah Jameson e sua secretária, Tobey Maguire (já velho demais para interpretar o Peter Parker, tomara que não façam um 4º episódio _até porque mataram um personagem importantíssimo, justo quando ele estava ficando interessante) exagera no lado nerd babão do protagonista, vira emo (para desespero do Jorge Benjor, a platéia gritava impropérios sempre que o amigão da vizinhança aparecia com aquela franjinha e maquiagem) e surta num bar de jazz, bancando o Buddy Love em "O Professor Aloprado" e sacaneando a filha albina do Ron Howard. O problema é que isto é compensado com um aumento no chororô a níveis infantilóides e irritantes, especialmente no que toca o Homem-Areia (a cena de seu nascimento é destaque) do Thomas Haden Church. Rosemary Harris, destaque nos filmes anteriores, aqui é desperdiçada. Mais uma vez tenho a impressão de que o Raimi (dá para ver sua personalidade aqui, e Bruce Campbell interpretando um francês é genial como de hábito) segue quase à risca os passos da série do Super-Homem com o Reeve (o terceiro episódio é o mais engraçado, e o herói fica malvadinho ao entrar em contato com uma substância estranha).

    O outro é o coreano "O Hospedeiro", de Joon-ho Bong, vítima da maldição do excesso de expectativas (já que muitos andaram dizendo por aí que era um dos melhores do ano passado). É uma muito bem-feita (mas longa) sátira aos filmes "de monstro", e é justamente nos momentos cômicos em que ele cresce (as cenas do funeral com as primeiras vítimas do bicho e a do coquetel molotov são ótimas); a dinâmica da família também é excelente. Vai ser curioso ver no que vai dar o remake americano, já que este original soa como uma sátira do cinema hollywoodiano quando este revisita o asiático...

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    Voltando à programação normal (meu interminável passeio pelos clássicos de quase todo o mundo), mas ainda no tema de monstros, chego a dois filmes de Fritz Lang feitos durante a Segunda Guerra também como propaganda antinazista. "Man Hunt" ou "O Homem Que Quis Matar Hitler" (1941) é o melhor deles, um thriller cheio de suspense (o início é fabuloso), com algum senso de humor, romance e crueldade. Joan Bennett (que já tinha mais de 30 quando fez este filme, mas aparenta menos de 20) está belíssima. George Sanders e John Carradine estão entre os vilões, e Roddy McDowall faz papel de criança (porque, bem, na época ele era criança). O outro é "Hangmen Also Die!" ou "Os Carrascos Também Morrem" (1943), um bom drama que guerra que lembra muita coisa que foi feita depois, mas também "O Testamento do Dr. Mabuse", do próprio Fritz (a personagem do inspetor da Gestapo, em especial, lembra os policiais deste e de "M"). Mas é longo, mais convencional do que a média e sofre por não ter protagonistas mais fortes (quem se destaca, obviamente, é o Walter Brennan, num papel diferente do estereótipo que colou nele). Também vi, do mesmo diretor, o faroeste "Western Union" (1941), que não me chamou muito a atenção.

    Em um breve parênteses irritante, já que citei um faroeste, em "Jornadas Heróicas" ("The Plainsman", 1936), Cebil B. deMille promove a mitificação da "conquista do Oeste" (ou seja, aquela matança de índios que deixava o Marlon Brando louco) atropelando a História e misturando Wild Bill Hickock com Buffalo Bill, Calamity Jane com Abraham Lincoln, General Custer com o chefe Mão Amarela (ho, ho, ho), numa espécie de "Deadwood" pré-histórico. Gary Cooper e Jean Arthur estrelam, mas chama a atenção o Anthony Quinn, novinho, fazendo uma de suas várias pontas como índio, em seu período pré-fama.

    Voltando às monstruosidades durante a guerra, chego a Jacques Tourneur, de quem havia visto o clássico "Sangue de Pantera"; agora foi a vez de "A Morta-Viva" ("I Walked with a Zombie", 1943) e "O Homem Leopardo" ("The Leopard Man", 1943). O primeiro, apesar do nome, não é um filme de terror, embora a ambientação deste drama seja no Caribe, onde a população local pratica o vudu (e é justamente nestas cenas onde o filme ganha mais "clima"). A trilha sonora é ótima, vai do batuque a Chopin, embalando cenas literalmente fantásticas (a imagem do negro magérrimo e cego que também parece um zumbi é muito marcante). Mas é o outro, que usa a mesma pantera de "Cat People", o meu preferido. A história é simples e previsível a partir de certo ponto, mas mesmo assim o suspense não esmorece _o diferencial é o domínio que o diretor demonstra na construção e encadeamento de planos: fotografia, montagem, som e desenvolvimento de personagens são excelentes.

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    Também feito no período em que a guerra comia solta, com o agravante de ser na Europa, "Os Visitantes da Noite" ("Les Visiteurs du Soir", 1942, mas lançado somente em 1946), de Marcel Carné (com Prévert co-assinando roteiro), antecede sua obra-prima, "O Boulevard do Crime" (que também conta com o ótimo Marcel Herrand, ator que infelizmente morreu relativamente jovem); há momentos belíssimos (como a cena do baile) neste quase-conto-de-fadas, mas o ritmo um tanto arrastado, o vilão desinteressante e o excesso de água-com-açúcar me fizeram me envolver menos do que gostaria.

    Um romance mais satisfatório é "A Dama das Camélias" ("Camille", 1936), adaptação sóbria e segura de George Cukor a partir do clássico de Alexandre Dumas Filho. Robert Taylor está perfeito como galã, e Lionel Barrymore faz uma pequena participação, mas é claro que quem carrega o filme é sua estrela, Greta Garbo. Garbo é um caso interessante: nunca a achei tão bonita e também não me soa muito bem sua voz grave, mas aqui ela fala como se cantasse, desmente aquele mito bobo de que ela nunca sorria (e Lubitsch se aproveitou disto genialmente em "Ninotchka") e dá à sua personagem (especialmente no início do filme) uma altíssima carga de erotismo. O fade out no último plano é lindo e de partir o coração.

    Já o "Suspeita" ("Suspicion", 1941), de Hitchcock, que eu tinha visto (e gostado mais) há muitos anos na Cultura, é outro filme atípico do diretor, prejudicado ainda mais porque o suspense não resiste numa revisão. Aqui também ocorre o caso de o Hitch não ter podido filmar o final que queria (muito mais condizente com o que vimos até ali); o que ficou para a história é até dúbio, mas não muito satisfatório. O diretor implicava com a fotografia deste filme, a considerava clara demais (o que talvez dê mesmo mais destaque para o famoso plano do copo de leite luminoso subindo as escadas).

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    Finalmente preencho uma lacuna ao ver alguns filmes de Preston Sturges, que experimentou alguns subgêneros cômicos, como a comédia de erros em "Christmas in July" (1940) e a "screwball comedy" em "The Palm Beach Story" (1942), sempre na tradição americana (ou seja, capitalista). Não chega ao nível de um Lubitsch, mas, especialmente neste último, cria uma das "punchlines" (visuais) mais engraçadas que já vi (o rosto de Claudette Colbert ajuda), amarrando exemplarmente um início fantástico e moderníssimo e um meio com grandes momentos (ótimos de tão ridículos, como a caçada bêbada dentro do trem).

    Mas o caso mais interessante (embora não seja o meu preferido dentre estes três _procurei e não achei "As Três Faces de Eva", fico devendo) é mesmo "Contrastes Humanos" (Sullivan's Travels, 1941), onde vemos uma das defesas mais veementes e didáticas da comédia que já vi (praticamente um manifesto em tempos de guerra e depressão econômica). É também estrelado por Joel McCrea (que, impassível como um Buster Keaton, ficaria mais famoso como ator de faroestes) e tem também seu lado piegas (que me lembra muito Chaplin, embora os diretores mais explicitamente citados sejam Lubitsch, Capra e Disney). Impressiona os momentos de comédia rasgada (Sturges era desses artistas corajosos, sem medo do ridículo). E tem também Veronica Lake, belíssima.

    Também entrou na roda "Paixonite Aguda" ("The Flying Deuces", 1939), um dos filmes mais famosos do Gordo e do Magro (mas não o que mais me marcou _eu gosto mesmo daquele em que Laurel e Hardy precisam atravessar um piano por uma ponta de corta ligando dois despenhadeiros, só que do outro lado há um gorila furibundo). Há momentos antológicos, como Laurel imitando Harpo Marx tocando harpa e a minha cena favorita, na qual Hardy canta para o outro dançar, mas talvez o grande destaque aqui seja, até onde me lembro, a única vez que alguém da dupla morre... para em seguida termos uma outra surpresa inesquecível e adorável.

    Completou este ciclo de comédias (mas com algumas partes dignas de melodrama mexicano) uma pérola graciosíssima de Raoul Walsh, "The Strawberry Blonde" (1941), estrelada por James Cagney, Olivia de Havilland e Rita Hayworth (no único filme em que ela não foi dublada ao cantar), todos ótimos. O título faz menção à letra de uma música, que o público é convidado a cantar ao final do filme. Os diálogos são hilários (o que me arrancou gargalhadas ocorre quando, durante uma visita à Estátua da Liberdade, Hayworth e Cagney vêem uma outra mulher estapeando um homem; Hayworth então diz "Bem feito!", e Cagney responde: "Se um homem não pode tomar liberdades aqui, então onde é que pode?").

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    Mas já que citei o Disney, foi a hora de rever dois clássicos da animação, "Pinóquio" (194o) e "Dumbo" (1941). O do narigudo cara de pau foi (se minha santa péssima memória não em angana) o primeiro filme que vi no cinema em Votuporanga (em excursão da primeira série) e o segundo em toda a minha vida na sala escura; nunca mais o tinha revisto. A ótima história original de Collodi combina como uma luva com o estilo Disney de então, e o filme é grande, especialmente em seu início (as melhores cenas são ambientadas na casa de Gepeto, com seus relógios e bugigangas mecânicas criativas _o melhor "ator" do filme é o gato Figaro, talvez a melhor transposição de um animal para o cinema de animação). Continua atemporal, envelheceu bem pouco.

    Já o do paquiderme orelhudo (defeitos físicos sempre em evidência, as crianças não deixam passar), o único protagonista de um filme da Disney que não fala (o filme é também o mais barato que o estúdio já fez, para compensar as extravagâncias de "Pinóquio" e "Fantasia") é bonitinho, mas sofre de um problema bem estranho: é ao mesmo tempo muito longo e muito curto... A situação dramática é frágil demais para sustentar 60 minutos; creio que ganharia se fosse mais curto e denso ou mais longo e com mais subtramas (por exemplo, o Dumbo resgatar a mãe após aprender a voar) e personagens que o enriquecesse... Mas há cenas ótimas, como a dos corvos, as dos palhaços e a dos elefantes cor-de-rosa.

    Ainda no mundo animado, bateram nas minhas retinas e tímpanos alguns curtas do Tex Avery (um gênio, isn't it?). Suas saudosas ironias metalinguísticas e incorreção política atingem cumes em filmes como "Dumb-Hounded" (o primeiro cartoon estrelado pelo Droopy, que rivaliza em depressão com a hiena Hardy de Hanna & Barbera), "Red Hot Riding Hood" (uma de suas várias sátiras de "Chapeuzinho Vermelho" _só que aqui a protagonista inspiraria Jessica Rabbit, e é a Vovó quem quer comer, biblicamente, o Lobo Mau), "Who Killed Who?" (misturando animação e "live action", décadas antes do "Roger Rabbit") e "Screwball Squirrel" (estrelado por um esquilo violento, sádico e mala-sem-alça, na melhor tradição do Pernalonga e Pica-Pau, mas sem alcançar o mesmo sucesso). Será que ainda não lançaram uma caixa de DVDs com toda sua obra? Se não, estão esperando o quê?

    O patinho feio do pacote é "Coonskin" (1975), um filme muito estranho do Ralph Bakshi, um blaxpoitation (com muito mais violência do que sexo) que também mistura animação e "live action", estrelada por grandes músicos, como Barry White e o genial Scatman Crothers (responsável pela melhor parte do filme, os créditos inicias, onde canta "Ah'm a Nigger Man", composta por Bakshi, que traz o verso "I got the devil in me, but it's the man you see"). Tinha ouvido dizer que era melhor do que "Fritz the Cat", então a decepção foi grande _pena que a canção não está no E-Mule...

    E apesar de não ser animação, vale a pena citar "O Ladrão de Bagdá" (1940), a anos-luz da maravilhosa versão de Raoul Walsh, estrelada por Fairbanks mais de 15 anos antes. Esta é uma produção do Alexander Korda (dirigida por meia dúzia de pessoas, entre eles o Michael Powell), representativa das aventuras "das Arábias" com Technicolor e efeitos visuais que hoje são risíveis mas adoráveis. Conrad Veidt faz o vilão canastrão, mas quem rouba a cena (mais por sua beleza do que por qualquer outro atributo) é a June Duprez, a quem coube o papel após Vivien Leigh ficar com a incumbência de interpretar Scarlett O'Hara.

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    Eu não poderia ir embora sem dar um pulo no Japão (até porque estou escutando "Scary Monsters" do David Bowie): do meu velho amigo Yasujiro Ozu eu vi "Todake no Kyodai" (1941), cujo título em português não encontrei, mas que seria algo como "Os Irmãos e Irmãs Toda". É o filme sonoro mais antigo do diretor que vi, e não figura entre meus favoritos: é menos complexo do que ele faria posteriormente e, curiosamente, lembra bastante "A Cruz dos Anos" de McCarey, mas num tom bem menos doce e nostálgico. A falta de música é marcante.

    Pulando um pouco no tempo, cheguei à obra-prima "Bom Dia" (1959), seu primeiro em cores que vejo. É quase uma espécie de refilmagem de "Meninos de Tóquio" _e só isto já bastaria para classificá-lo como obra-prima. Mas, sob a aparentemente simples comédia de erros e de costumes envolvendo as famílias de uma vizinhança de classe média baixa, há toda uma complexa crítica às transformações "sociopoliticoculturais" do período. Os enquadramentos estão mais rigorosos do que nunca (não me lembro de um movimento de câmera sequer), e as externas (não aparecem trens!) me lembraram, não sei exatamente o porquê, de Jacques Tati. Brilhante!

    Também começo a preencher outra lacuna imensa, a obra de Kenji Mizoguchi: queria ter começado por "Conto dos Crisântemos Tardios", mas não o encontrei. O jeito foi encarar "Os 47 Ronin", adaptação de uma peça teatral baseada em fatos feita sob encomenda do governo japonês como propaganda de guerra. Felizmente, ela falha sob este aspecto, e, distantes do contexto da época, podemos apreciar um "épico intimista" de quase 4 horas de duração (dividido em dois filmes). Em termos de filmes "de samurai", eu ainda prefiro os de Masaki Kobayashi; mas este é muito interessante especialmente por causa da decupagem: predominância de planos abertos (os raríssimos closes foram colocados a pedido dos produtores) e câmera fluida, com intenso uso de gruas.

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    Para acabar, dois filminhos nos quais a música tem papel importante: o primeiro é "Jammin' the Blues" (1944), único filme dirigido por um tal de Gjon Mili (marcando a estréia de Robert Burks, futuro diretor de fotografia das maiores obras-primas de Hitchcock, na função). É um precursor dos videoclipes: um conjunto de jazz e blues (com direito a uma cantora e a um par de bailarinos de jitterbug), liderado por Lester Young, toca três números, num cenário marcado pelo contraste do branco e do preto (também figurativamente falando), com enquadramentos elaboradíssimos e vários efeitos especiais (especialidade do Burks até então) feitos na câmera. São 10 minutos maravilhosos...

    O outro é "Straight to Hell" (1987), de um diretor (Alex Cox, de "Repo Man", "Sid and Nancy") que eu não tinha em alta conta, o que mudou após eu ver este fantástico filme. Após não conseguir financiamento para uma turnê de rock na Nicarágua (!), o diretor resolveu aproveitar que os músicos contratados (Joe Strummer, Elvis Costello, The Pogues, Zander Schloss, Courtney Love antes da plástica etc.) já estavam na roubada e improvisou um roteiro para filmar em Almería, na Espanha (onde Leone fez seus lendários spaghetti westerns); claro que o que saiu foi uma comédia, um tex-mex surrealista com altíssimas doses de humor negro, violência, música, beleza e liberdade. Robert Rodriguez poderia assistir a este filme e aprender algumas coisinhas...

    P. S. Há meses estou tentando colocar estes links aqui, mas o estafante processo de publicação sempre me faz esquecer: meses após ter sido convidado pelo Fábio Fernandes, comecei a colaborar para o Overmundo; mas o mais legal mesmo são os passeios sonoros que ando (atrasado, como sempre) dando pelo Last.fm, uma maravilha para descobrir coisas novas e desencavar preciosidades musicais.

    Na platéia