Dois morcegos e um monstrengo
Sou defensor ferrenho de "Superman III" porque, entre muitas outras qualidades, é um filme de super-herói "de autor", para usar o velho conceito. Embora não seja tão bom quanto o filme de Richard Lester, pode-se dizer o mesmo de "Batman Returns", de Tim Burton, que só fui ver agora. Diferentemente do que ele havia feito no longa anterior, este tem a sua marca desde os créditos iniciais, que nos transportam, com ajuda da cenografia no estúdio, à época dos quadrinhos de Bob Kane e dos filmes de monstro que Burton deve adorar. Apesar de o vilão não ser mais o Coringa, o clima de circo também está presente, em um episódio no qual ambos os vilões (interpretações excelentes de DeVito e Pfeiffer), assim como o herói, são antropomorfizações, mas longe do status de deuses. Outra coisa que o Homem-Morcego, a Mulher-Gato e o Pinguim têm em comum e que o longa enfatiza é uma forte repressão sexual (curioso como o filme tem um tom infantil e no entanto é bem carregado de sexo, o que aparece também em outras obras do diretor; dificilmente um estúdio lançaria um filme desses hoje, infelizmente 2010 é mais careta que 1992). Só que ação não é mesmo a praia de Burton e nenhum outro filme do Batman conseguiu ir bem nesse quesito _ ainda prefiro os "pow" e "soc" da série de 1966."The Dark Knight", de Christopher Nolan, também é melhor que seu antecessor imediato, mas vai por caminhos opostos aos de Burton: há uma busca estranha pelo naturalismo (sua Gotham, filmada em Chicago, é uma cidade qualquer, desprovida de personalidade), talvez movida justamente pelos excessos visuais da franquia anterior, e uma completa ausência de sexo; em suma, um filme careta. Apesar de eu ter gostado do Coringa de Ledger e de ter ficado boa sua exposição como um "agente do caos" (em geral, pareceu-me um roteiro bem escrito), faltou loucura _ faltou também ele passar a mão na bunda do Batman, como fez no "Asilo Arkham" de Grant Morrison. O Duas-Caras recebeu um tratamento mais acabado. Mas a grande cena do filme, curiosamente, é feita apenas por coadjuvantes e ocorre em um barco cheio de presidiários. De resto, é muito apoiado em seu elenco, com destaque para Aaron Eckhart e Gary Oldman, além de Ledger; Christian Bale não fica nada bem de Batman, especialmente quando faz aquela voz ridícula, e os velhinhos Morgan Freeman e Michael Caine não têm muita chance de brilhar. Maggie Whatever não fede nem cheira, mas eu também nem me lembrava que no filme anterior o papel tinha sido da mãe da Suri. E como é mal montado! Mas, no fim das contas, gostei mais do que esperava, embora ainda seja muito pouco para uma adaptação de um universo tão rico e cheio de pathos.
E fui rever o filme que Burton fez entre os seus Batmans, "Edward Scissorhands" (1990). A artificialidade do cenário é ainda mais interessante que a de "Batman Returns" porque ela abarca um microcosmo do mundo real, um subúrbio norte-americano que mais se assemelha a uma prisão a céu aberto. O mote pode ser a adolescência, com sua rebeldia, suas paixões, seu sentimento de inadequação, seu desafio à autoridade e, de novo, sua sexualidade represada. Também pode ser visto como uma metáfora do modo como a sociedade recebe o trabalho de um artista. Curiosamente, sua parcela de romantismo é bem pequena, já que o envolvimento entre as personagens de Johnny Depp e Winona Ryder nunca é aprofundado (ela só aparece após mais de um terço do filme). O melhor mesmo é essa captura dos "valores americanos", de como a vida de um jovem no mundo vem com um roteiro já escrito, que nos é imposto e que, quando não é seguido, gera uma raiva desgraçada na maioria das pessoas e uma decepção nem sempre tímida de quem nos ama.