A gruta é mais extensa do que a gruta

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    domingo, abril 14, 2002

    Coisas que Você Pode Dizer Só de Olhar para Ela


    Eu queria ver "Amores Perros", mas o jantar (bastante agradável, por sinal _destaque para as empadinhas de alho-poró), em pleno sábado de feriado em um restaurante bem legal, aliás, atrasou (eu gosto de comer bem devagar), aí tivemos (ah, eu estava acompanhado de uma donzela benfazeja e generosa...) de ir ver filme de mulézinha, mesmo.


    O diacho era o filme passar no Belas Artes, onde as cadeiras conseguem ser ainda mais desconfortáveis e ameaçadoras à saúde do que as do teatro do Sesc Pompéia! R$ 8 em troca de péssimas cadeiras e som vagabundo! Cáspite, biltre vilão! E eu ainda levei uma bronca da minha querida acompanhante, que pediu para eu comprar um doce enquanto ela ia ao banheiro e, ao se deparar com um Tic Tac laranja, exclamou: "Isso não é doce, é azedo! Arrrgh!!!". #$%¨&@*!, digo eu.


    Mas, então, o filme com esse nomão imenso é escrito e dirigido pelo filho do García Marquez, que já deu aula de roteiro em Cuba. E daí, bela bosta. Deve ser a coisa mais horrível do mundo, guardadas as devidas proporções, ser filho de artista famoso e respeitado. Ora, que o digam infelizes como o Sean Lennon e o Jakob Dylan...


    Mas o filme não é ruim, não, OK. Engraçado é que ele poderia ser definido como uma espécie de "Pulp Fiction" frufru, porque usa o mesmo esquema de histórias paralelas, com personagens que se cruzam... Esse tipo de filme costuma ter o roteiro elogiado, blablablá. Bom, eu não engulo mais essa, baby. Ou a história é boa ou nada feito.


    E aí o filme se mostra desigual em algumas partes, que só são melhor amarradas no final (obviamente, não posso me aprofundar sem contar o final do filme, então shhhh...). A história com a Glenn Close (coitada, ficou marcada como a baranga psycho que dava para o Maicou Douglas _ô nominho de office-boy_ em "Atração Fatal") é fraca, e a que enfoca Holly Hunter (em boa atuação) tem uma personagem importante muito mal resolvida, a da mendiga.

    Melhores são as que trazem Cameron Diaz como a cega que descola namorados, enquanto a irmã detetive fica na mão (putz, não posso contar o que acontece com ela no final, mas a mulherada da platéia ficou com nojinho, hahaha), a de Calista Flockheart (a cara dela é MESMO esquisita!) que vê a namorada agonizar, e a da mulher que adora cheirar a boca do filho adolescente (só podia ser coisa de mãe mesmo) se apaixona por aquele anão que é o amigo safado do Kramer em "Seinfeld" (!!!). Sensacional, essa última, hahaha, é de longe a melhor.


    Ou seja, banalzinho, mas um tico acima da média. Tem gente que vai achar lindo, de alta classe, "poético", urgh. Problema deles, eu sou muito mais o "Monsieur Verdoux", do meu bróda Charlie Chaplin.


    Ah, a bela que recostava a cabeça em meu ombro durante o filme fungava, e eu pensei que ela tivesse pego um resfriado. Pois ela estava chorando com a história da Calista (nanssa, que nome mais ortopédico), e eu, com a minha sensibilidade de um hipopótamo em delirium tremens, fui incapaz de perceber, já que não estava olhando para ela (awww, shit, esse trocadilho fica bem melhor em inglês)... Mas o nosso final foi feliz, oooh yes.


    Nota: 6,5/10

    Pollock


    No texto sobre “Snatch”, eu reclamei da seleção das músicas que tocam nas salas de cinema do shopping Pátio Higienópolis antes da exibição dos filmes. Pois desta vez, a coisa era pior: estava tocando aquela coletânea de música pop árabe que tem o Khaled. É isso mesmo: entrei na sala 2, uma das menores, e estava tocando "El Arbi". Ora, vão se foder. E isso por R$ 8 _porque era quinta-feira, e antes das 18h, pois à noite custa R$ 10, e de fim de semana, R$ 12, têm mais essas.


    A sala estava bastante vazia, e, estranhamente, havia um nítido desequilíbrio: 90% do público era de mulheres (uiêba). Algumas bem idosas, mas acabei me sentando atrás de duas adolescentes, que chamaram a minha atenção por causa das suas risadinhas. Eram uma morena de cabelos curtos e uma loira, esta muito mais bonita, "cavala", como se dizia em Votupa, nos meus tempos de colegial (dizem que em Franca as moças bonitas são chamadas de "desosso", urgh). Quando me sentei, tive a impressão de que a morena olhou pra mim (eu não as estava encarando) e, sorrindo, disse pra outra: "Fala sério!". Não sei se foi crítica ou elogio. Ah, é paranóia minha, deixa pra lá. O que me chamou mesmo a atenção foram as duas garrafas de vodca que elas entornavam, envoltas em sacolinhas plásticas, como se faz nos EUA. As duas estavam pra lá de bêbadas. E fiquei pensando se havia ironia neste fato, já que os problemas com álcool do protagonista do filme são notórios (lógico que, antes de pensar nisso, pensei noutras coisas menos idiotas).


    Pois vamos a ele: sou admirador do trabalho de Jackson Pollock há muitos anos, bem antes de estudá-lo em Berkeley (eu deveria descrever longamente neste parêntese o que, nas obras de Pollock, me atraiu desde cedo, mas este assunto merece um artigo à parte _OK, dou aqui uma dica: no filme, o personagem explica muito bem, embora de forma sucinta, esse sentimento). Lembro-me perfeitamente de quando meu professor de artes plásticas, Stephen Donwerth, um cavalheiro, trouxe para a sala de aula uma edição especial da revista "Time" sobre pintura americana. Adivinhem de quem era a pintura que estava na capa? Pois é, era dele mesmo.


    E aí o filme abre com a capa de outra revista, a "Life", com uma matéria sobre o pintor. Então temos aquela volta básica no tempo _com aquele letreirinho "nove anos antes" e tudo_, e a história do homem é contada cronologicamente, a partir deste ponto. Engraçado, não mostraram a infância de Pollock. Mas como não li a biografia em que o filme se baseia...


    Mas não há muito a falar sobre o filme (até há, mas vamos nos poupar). Ed Harris, o ator principal e diretor, não ousou muito, o que tem suas vantagens _não há grandes sensacionalismos_ e desvantagens _não há grandes sacadas estéticas. Os únicos dois takes que me chamaram a atenção são aqueles em que a tela toda do cinema aparece em branco, por duas vezes, quando Pollock encara o mural que precisa pintar para sua mecenas, Peggy Guggenhein (deparar-se com a tela em branco no meio de um filme parece nos forçar a uma reflexão, a imaginar algo, a sairmos da letargia, e isso está longe de ser pouco) e uma outra, já próxima do final, quando recebe uma carta de sua mulher, Lee Krasner _boa atuação de Marcia Gay Harden, que levou o Oscar de melhor atriz coadjuvante_, que estava visitando a Biennale de Veneza (porque há uma trucagem com as lentes muito da manjada, mas que sempre me agrada). E há a Jennifer Connely, ah, a Jennifer Connely...


    E eu não quero parecer cruel, mas a parte do filme que mais me deu alegria foi quando começam os créditos: Tom Waits. "The world keeps turning...". Lindo. Aquela voz de quem fumou três maços de cigarro, virou dois copões de whisky e engoliu uma caixa de giletes. Fiquei na sala até o final, só para ouvir. Que Khaled, o quê.


    O que me provocou, ao ver este filme, e sempre me provoca quando vejo uma biografia cinematográfica de um artista, é um certo desconforto e, em última instância, medo. Tenho medo de que alguém, daqui há anos ou décadas, resolva fazer um filme a meu respeito (ei, por um raro momento, estou falando sério). Quem poderia me interpretar? Os fatos (fatos?) seriam mostrados com fidelidade? Como seriam selecionados? Como minha história seria contada? (Ah, vai dizer que você nunca pensou nisso?) Enfim, tudo aponta para a falta de autenticidade, para uma inevitável mistificação, para o bem ou para o mal.


    Fico ainda mais revoltado quando estudiosos lançam essas abomináveis coletâneas de correspondência de autores. Acho um desrespeito à privacidade absolutamente hediondo. E fica todo mundo vibrando, querendo destrinchar o cotidiano dos artistas, blaaargh. Engraçado, depois que o e-mail se popularizou, voltei a me corresponder com várias pessoas, e muitas delas já comentaram algo do tipo "Nossas mensagens deveriam ser publicadas...". Urgh. Medo. Humilhação. Erro. Erro.


    Mas, ora, o que interessa em um artista é a sua obra, não a sua vida. Mesmo que a vida de um artista seja muito mais fascinante que sua obra (e é, não há como não ser), ela interessa apenas ao próprio e aos que os cercam. Não há desculpa, não há.


    Mas aí alguém resolve faturar em cima do cara _que talvez até pudesse aproveitar a divulgação de sua vida e obra, se vivo estivesse_ e saem filmes como este, que rende até Oscar.


    Outra coisa que me ocorreu é a importância da relação de um artista com seu cônjuge. Em "Pollock", o personagem afirma que estaria morto se não fosse por sua mulher. Pollock deve a Krasner parte de seu sucesso, de seu reconhecimento como um grande artista. Dostoievski teria escrito seus grandes romances se não tivesse uma mulher dedicada, que o amparasse durante seus ataques epilépticos? (OK, isso é só um exemplo bobo, não me interesso pela vida de Dostoievski, o que me interessa é ler e reler "Noites Brancas", "Crime e Castigo", "O Idiota", "Os Irmãos Karamázov" etc.)


    Pois é também disso que tenho medo. Porque as mulheres de hoje não têm paciência. Não têm paciência. Não têm paciência. Não têm paciência. Não têm paciência. Não têm paciência. Calma, já parei.


    Nota: 6.5/10

    Snatch - Porcos e Diamantes




    Enjoei de ver o trailer deste filme antes das sessões no Pátio Higienópolis, o cinema que mais freqüento, apesar de ser o mais caro de São Paulo (e do Brasil, imagino), por ser a apenas alguns metros de casa. Pois não é que o filme não entrou em cartaz lá?

    Então tive que me dirigir ao Metrô Tatuapé, minha segunda escolha quando vou ver cinemão (porque é fácil de chegar), e não as atrações dos espaços mais culturetes.


    Segundona sem compromissos, tarde fria pra caralho, shopping vazio. Ingresso inteiro a R$ 5, uma pechincha em São Paulo (no Cine Votuporanga iam morrer uns R$ 6). Dá dó da menina que carimba os ingressos, em pé, sozinha, com uma cara de dar pena. Devia ter puxado conversa com ela, mas só me ocorreu depois...


    Além do ingresso barato, outra surpresa agradável: está tocando o "Pearl", o último disco da Janis Joplin, dentro da sala 4 (deu saudades dos discos dela, estão lá na casa em que cresci, pena que a Janis morreu tão jovem, estava cantando muito). No Higienópolis, quando não toca Djavan, toca Marisa Monte. E quando não é nenhum dos dois, é Paralamas do Sucesso. R$ 12 e isso. Pelamordedeus.


    Mas vamos ao filme. Não vi "Jogos, Trapaças e Canos Fumegantes", o primeiro do diretor Guy Ritchie, que agora, obrigatoriamente, precisa ter a expressão "o marido da Madonna" acompanhada de seu nome, então não farei comparações.


    O enredo de "Snatch" gira em torno de um diamante enorme, que passa de mão em mão (e até pela boca de um cachorro), entre gangsters americanos, russos e britânicos. O estilo é videoclípico, especialmente no começo, quando os personagens são apresentados.


    O tema "gangsters" é mais do que clássico no cinema, desde as produções noir dos anos 30 e 40 até certas obras de Scorcese. Mas a referência óbvia para Ritchie é Tarantino: estão ali o cruzamento de histórias paralelas, a trilha sonora esperta, que mistura hits novos, antigos (sim, tem Madonna) e faixas obscuras (a música que toca no início dos créditos, "Don't You Just Know", com Huey "Piano" Smith & The Clowns é muito boa _pode baixar e começar a cantar "Aaaa-eeeou-gubagubagubaguba-aaaa!!!!"), a violência por vezes suavizada pelo ridículo da situação.


    O comecinho chama a atenção: um grupo de judeus ortodoxos discute um dos mais discutíveis dogmas do catolicismo, a virgindade de Maria. Situação extremamente semelhante abre "Cães de Aluguel": bandidos também discutem prosaicamente sobre virgindade, mas não a de Maria, e sim a da mãe da Lourdes Maria, a autora de "Like a Virgin", que, ora, vejam só que coincidência, é a mulher do marido da Madonna!!!


    E no filme estão o Brad Pitt (em mais um desses papéis esquisitinhos, como o que ele fez em "Os Doze Macacos", para todo mundo pensar que ele é um bom ator, e não apenas um cara bonito _aliás, a cena da sangrenta luta de boxe do final, brilhantemente embalada por "Fucking in the Bushes", do Oasis, é chupadésima de "Touro Indomável", do já citado Scorcese), o Benicio Del Toro (agora oscarizado e mais hypado do que nunca _mesmo assim, aparece muito pouco) e outras figuras menos famosas, mas igualmente "cult", tipo o Dennis Farina (fantástico estereótipo de mafioso) e o Vinnie Jones. Ah, e tem cachorro. E quase não tem mulérrr, embora apareçam uns peitos de fora ("Excelent!", grita o Wayne Campbell; "Cool!", suspira o Butt-Head; "Shaggadelic!", rosna o Austin Powers, só pra repetir o Mike Myers).


    No final das contas, o filme é divertido (só que, como acontece com freqüência cada vez maior, é bem menos do que o trailer nos promete), mas não consegue causar a mesma impressão de um "Pulp Fiction" e continua a deixar Ritchie na sombra de Tarantino. Vamos ver se o marido da mulher do marido da Madonna vira o disco na próxima.



    Nota: 7/10

    Na platéia