Memórias
Uma hora ou outra eu tinha que escrever sobre Woody Allen (Allan Stewart Konigsberg, para os íntimos), mas é difícil saber por onde começar. O cara, além de escritor, roteirista, dramaturgo, cartunista, ator e ensaísta, já dirigiu mais de 30 filmes. Desde o fim dos anos 60 ele vem lançando cerca de uma nova obra por ano, além de ocasionalmente atuar em filmes de outros diretores.Ainda não vi todos, até por que, no Brasil, está cada vez mais complicado ver Allen nos cinemas (e eu não tenho vídeo). Seus trabalhos chegam com enorme atraso, estréiam em parcas salas e vão embora antes que você consiga dizer “pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico”.
Mas vi mais da metade de sua filmografia, e, dentre todos, o meu preferido é “Memórias” (“Stardust Memories”, de 1980), um filme que está longe de ser o mais popular, tampouco é muito lembrado pela crítica _não levou nenhuma indicação para os Oscars de melhor direção e roteiro, categorias em que Allen geralmente concorre (só venceu em ambas com “Annie Hall”, mais conhecido por aqui pelo inexplicável título “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”. Aliás, foi com este filme que Allen recebeu sua única indicação para o prêmio de melhor ator).
Talvez o mais “bergmaniano” de seus filmes (ainda não vi “Interiores” e “Setembro”, entretanto _Allen deixou bem claro no anterior “Manhattan” sua admiração pelo diretor sueco), “Memórias” é, para mim, o filme em que Allen mais se expôs como artista. Em preto-e-branco, me lembra bastante o mais recente (e ótimo) “Celebridades”, no qual Kenneth Brannagh assume a persona de Allen.
Em “Memórias”, Woody, mais do que nunca, novamente interpreta a si mesmo. Seu personagem, Sandy Bates, é um aclamadíssimo diretor de comédias que, de repente, começa a fazer filmes depressivos e existencialistas. Uma mostra de seus filmes é organizada, e ele é o convidado de honra. Durante toda película, fãs _com os rostos mais esquisitos que puderam encontrar_ irão importuná-lo com pedidos de autógrafos e dizer, repetidas vezes, “eu gostava muito mais dos seus primeiros filmes, os cômicos”...
Em meio a toda esta balbúrdia, Bates também terá de lidar não apenas com as pressões dos diretores do estúdio que banca seus trabalhos, que exigem um final mais alegre em seu próximo filme, e com advogados, contadores etc., mas também com suas memórias de infância, que aparecem nos momentos mais inesperados, e de seu envolvimento com mulheres como Dorrie (Charlotte Rampling, belíssima), Isobel (Marie-Christine Barrault) e Daisy (Jessica Harper).
Allen confunde o espectador de maneira admirável, inserindo delírios e flashbacks durante toda a trama _aqui ele abusa da possibilidade de o cinema “enganar os olhos” da platéia. Todas as questões e angústias do artista são expostas em uma obra muito bem filmada, com um roteiro inteligentíssimo e muito bem fechado e atores bem conduzidos.
E a trilha sonora, então? Maravilhosa, com uma versão em inglês para “Aquarela do Brasil”, “Stardust”, com Louis Armstrong, “Moonlight Serenade”, de Glenn Miller (uma das mais belas composições do século XX e o ponto alto do filme), e, claro, Django Reinhardt, uma das paixões do diretor (que inspiraria "Sweet and Lowdown", com Sean Penn).
É também impressionante como atores que só se tornariam celebridades anos depois costumam figurar nos filmes de Allen. Logo no início de “Memórias”, uma loira linda dá um beijo no vidro de uma janela de trem, deixando a marca de batom _cena que se repetirá mais para o final do filme, desta vez em um carro. “Parece a Sharon Stone”, pensei. Pois, nos créditos, está lá: “Sharon Stone – Pretty Girl in Train”. Isso me lembra que Sylvester Stallone faz também uma aparição relâmpago, igualmente sem falas, em “Bananas” (1971)...
Mas, voltando ao cerne da questão: Woody Allen não é um gênio, mas é um dos artistas mais admiráveis do cinema norte-americano. O homem tem personalidade e sabe se expressar. E arte é isso mesmo. Falei.
Nota: 10/10